Coleção Pesquisa em Educação Física
Volume 20, número 1, 2021
ISSN: 1981-4313
Fontoura Editora Ltda
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Coleção Pesquisa em Educação Física Volume 20, número 1, 2021 - ISSN: 1981-4313
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Artigo original Recebido em: 14/04/2020 Parecer emitido em: 22/01/2021
O HANDEBOL DE BOTÃO: UMA POSSIBILIDADE DE
DESENVOLVIMENTO DO HANDEBOL ESCOLAR
Luma Lemos Aires1
André Osvaldo da Silva Furtado2 1Universidade Federal de Santa Maria 2Universidade Federal do Rio Grande do Sul
RESUMO
Ao entendermos o Handebol como um conteúdo da Educação Física Escolar, sendo este uma das manifestações da cultura corporal de movimento e ao concebermos a escola como um local onde as culturas se atravessam, pensamos que a prática do Handebol deve ultrapassar os limites de uma prática corpórea. Assim, ao refletirmos sobre as possíveis ações alternativas para o desenvolvimento deste esporte no contexto escolar, emergiu no nosso pensar uma prática que traduza a partida de handebol em um jogo de mesa. Deste modo, formulamos o Handebol de botão e estabelecemos as primeiras regras para este jogo que visa contemplar a parcela de estudantes não aptos ou muitas vezes não adeptos da prática corporal nas aulas de Educação Física. Nesta perspectiva traduzimos a modalidade em uma nova forma de jogar o esporte com as mãos.
Palavras-chave: Handebol. Prática Pedagógica. Educação Física Escolar. Handebol de Botão.
THE TABLE HANDBALL: A POSSIBILITY FOR SCHOOL
HANDBALL DEVELOPMENT
ABSTRACT
When we understand Handball as a content of School Physical Education, this being one of the manifestations of the body culture of movement and when we conceive of the school as a place where cultures cross, we think that the practice of Handball must go beyond the limits of a corporal practice. Thus, when reflecting on the possible alternative actions for the development of this sport in the school context, a practice emerged in our thinking that translates the handball game into a table game. In this way, we formulate table handball and establish the first rules for this game that aims to contemplate the portion of students who are not able or often not adept at corporal practice in physical education classes. In this perspective, we have translated the sport into a new way of playing sport with your hands.
Keywords: Handball. Pedagogical Pratice. Scholl Physical Education. Table Handball.
INTRODUÇÃO
A palavra escola, pode ser caracterizada como polissêmica, o que nos leva a pensar que existem vários sentidos para esta palavra, conforme a percepção de cada indivíduo. Na compreensão de Dayrell (1996) afirmar que a escola é polissêmica implica em considerar que o seu espaço, tempo e relações podem ser significadas de forma diferente, tanto pelos estudantes, quanto pelo professorado considerando as culturas e projetos dos diversos grupos sociais nela existentes neste cenário.
A escola, para nós, se configura como um espaço onde ocorrem diversas disputas e descobertas, sendo ela um cenário que propicia o desenvolvimento de diferentes aprendizagens, não só para os estudantes, mas também para o professorado. Neste contexto, percebemos a escola, também como um ambiente desafiador por onde perpassam diversas culturas, em um cenário descrito por Perez Gomez (1996) como uma encruzilhada de culturas.
Neste sentido, ao tratarmos de escola estamos, também, tratando da educação, uma vez que ambas estão historicamente entrelaçadas, como afirma Apple (2017) a educação pode mudar a sociedade, sendo esta mudança emergindo do cenário escolar. Compreendemos a educação como um grande desafio para a sociedade, de modo que o professorado e os estudantes, são sujeitos que carregam as suas culturas e concepções de mundo. Dayrell (1996) nos auxilia a pensar que cada estudante ao chegar à escola é um sujeito investido de experiências vivenciadas em diferentes espaços sociais e para compreender a complexidade deste indivíduo devemos considerar a dimensão da experiência vivida.
Percebemos que ao longo dos anos a escola vem evoluindo e com ela os componentes curriculares em conjunto com os seus conteúdos vem se modificando. A Educação Física enquanto componente curricular da escola, está para além da educação e de uma reprodução de esportes. Ela se constituí como uma educação integral – corpo, mente e espírito –, propiciando um desenvolvimento pleno do ser humano, de modo que ela poderá ser como explana Betti (1992) “a integração que possibilitará o usufruto da cultura corporal de movimento há de ser plena – é afetiva, social, cognitiva e motora. Vale dizer, é a integração de sua personalidade”. A partir destas concepções entendemos o Handebol como um conteúdo legítimo da Educação Física Escolar, não somente como um esporte na escola, mas uma manifestação da cultura corporal a ser desenvolvida pela escola.
É neste contexto que o professorado de Educação Física se significa e desenvolve saberes em si e nos seus estudantes. Tal processo permeia a arquitetura e desenvolvimento do trabalho docente. Desta forma ao refletirmos sobre o trabalho docente passamos a compreender que ele é a ação do professorado no contexto escolar, sendo esta uma ação que acontece frente a contingencias, acontecimentos inusitados, tensões, atravessamentos gerenciais e socioculturais que provocam uma certa flexibilidade e imprevisibilidade nas ações do professorado. Neste contexto consideramos a prática pedagógica como parte integrante do trabalho docente, sendo ela a ação do professorado no espaço da aula (FURTADO, 2018).
Ao pensarmos sobre o Handebol no cenário escolar, Furtado et al. (2019) nos chama a atenção que o Handebol já fora um dos esportes mais praticados nas escolas, sendo este esporte pertencente a cultura alemã onde no pós segunda guerra mundial a sua prática passou a ser realizada em um campo reduzido, com maior ênfase em ginásio, chegando ao status de esporte mais praticado na Alemanha e nas aulas de Educação Física (KASLER, 1978). Neste contexto, pensamos que o Handebol Escolar deve abranger todos os estímulos que o significa, sendo eles a teoria, a prática e todas as possibilidades de aprendizagens que podem ser realizadas no contexto escolar.
Na esteira das nossas concepções sobre educação, escola e Handebol o presente texto busca explanar sobre o desenvolvimento de uma prática alternativa para o fomento do Handebol no contexto escolar. Através da interação com os estudantes e com o professorado, tendo como desenho teórico metodológico a pesquisa-ação através de constantes reflexões desenvolvemos a perspectiva da prática de um Handebol de Botão.
Esta prática, tem como objetivo contemplar os estudantes que não são implicados com as práticas corporais nas aulas de Educação Física, porém o conteúdo Esporte e o seu desdobramento, Handebol, devem ser vivenciados pelos estudantes. Assim, tal prática busca abranger todos os estudantes e desenvolver saberes sobre a jogabilidade do esporte como: sistemas táticos, cultura esportiva, regras e as interações que ocorrem durante um jogo de handebol.
METODOLOGIA
O presente estudo trata-se de uma pesquisa-ação. Entendemos que a pesquisa-ação busca transformações em nossas práticas, requerendo ações na confecção do trabalho docente, na prática do professorado e nas ações científicas dos sujeitos.
“A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação da realidade a ser investigada estão envolvidos de modo cooperativo e participativo.” (THIOLLENT, 1985, p. 14).
Assim, esse estudo aborda uma ação pedagógica diferenciada, que emergiu após uma solicitação diferenciada para a prática e entendimento do Handebol, que ocorreu durante um ano letivo em uma Escola de Ensino Fundamental e Médio da Rede privada do Município de Santa Maria, Rio Grande do Sul com estudantes do 9º ano com idades entre 12 e 14 anos. Este estudo está dividido em 4 momentos. Na primeira aula de Educação Física realizada na sala de aula, os alunos receberam um pedaço de papel no qual responderiam as primeiras perguntas: 1) Na sua opinião, o que é handebol? 2) O que significa Educação Física Escolar? 3) Você conhece futebol de botão? Você já jogou? 4) O que você sabe sobre o jogo de futebol de botão? No segundo momento, na sala de aula, foram exibidos os materiais do jogo, goleiro, bola, quadra
de lona e botões artesanais. As regras do handebol no estilo de botão foram formuladas de acordo com as regras oficiais do futebol de mesa, com alterações especiais para imitar o handebol indoor e ajustes para facilitar o jogo. A teoria do handebol de botão foi inserida de maneira expositiva, com slides e explicações. Distribui-se um conjunto de cópias das regras para cada 10 alunos. Esclarecemos que, para que o jogo alcance os melhores resultados, é possível sugerir as alterações necessárias, para ajudar os professores a melhorar o handebol de botões. Os alunos puderam tentar jogar livremente e também somente assistir e discutir com os colegas. Em um determinado momento, os alunos interessados em ler as regras antes da prática são verificados, enquanto outros tendem a tentar aprender na prática e pensar da mesma lógica que os jogos de futebol de mesa. Finalmente, na semana seguinte, outras perguntas foram feitas na sala de aula para descobrir o que os alunos pensam sobre o novo jogo e o ensino alternativo, e se é possível usá-lo em uma aula de Educação Física. Desta forma, criou-se uma prática alternativa para o compreendimento do handebol. Ressaltamos que esta prática pedagógica que possui como pano de fundo o Handebol, propicia que a parcela dos estudantes que não é adepto de práticas corporais ou não está apto para a prática do handebol por conta das questões de clima e saúde possam desenvolver saberes a respeito da modalidade.
A partir destes elementos, entendemos que ao relatar experiências e práticas pedagógicas além da pesquisa sobre a ação do professorado é de suma importância para um aprimoramento da prática pedagógica e do trabalho docente. Deste modo, percebemos que relatar as experiências e compartilhar com outros sujeitos os significados, particularidades e possibilidades das práticas pedagógicas que foram expressivas para uma professora e para os seus estudantes em um mundo de trocas e saberes, concebendo todos os envolvidos como sujeitos atuantes que constroem e desenvolvem aprendizagens a partir de uma determinada prática pode propiciar com que o professorado reflita sobre as suas ações no cenário escolar.
O HANDEBOL COMO CONTEÚDO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: A COPARTICIPAÇÃO DOS ESTUDANTES NA AULA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
No que diz respeito a criação do handebol, podemos pensar a partir de Furtado et al. (2019) que o alemão Karl Schelenz foi o responsável pela criação das regras e da constituição identitária do esporte. Na sua criação o Handebol, foi um esporte que começou a ser praticado em um campo de futebol aberto, com onze jogadores, com as regras sendo adaptadas para este cenário que era semelhante ao do Futebol.
No que tange a história do desenvolvimento do esporte no Brasil, Aires (2015) nos convida a pensar que chegada do Handebol no país teria ocorrido na década de 30 na cidade de São Paulo por intermédio da colônia alemã que chegou ao país. Desta forma, até a década de 60 a difusão do esporte estaria restrita a São Paulo, sendo difundido pelo restante do território nacional através de um curso ministrado na cidade de Santos, pelo professor Francês Augusto Listello, onde foi apresentada a modalidade esportiva aos professores de outros estados. Assim, propiciando uma aprendizagem sobre a modalidade no restante do país, bem como a sua difusão.
Sobre o desenvolvimento do esporte no Rio Grande do Sul, Aires (2015) esclarece que o professor Pedro Benno Lang, realizou uma apresentação do esporte no inicio da década de 70, sendo o auge do desenvolvimento do Handebol no Rio Grande do Sul, entre os anos de 1977 e 1986 por intermédio do professor Luiz Celso Giacomini na condição de professor e treinador dessa modalidade. Ao longo da nossa jornada de aprendizagens com relação ao Handebol, entendemos que as mais variadas formas e possibilidades de ensino da modalidade estão relacionadas ao modo como ela se desenvolveu ao longo da sua história permeada das mais diversas perspectivas.
Ao pensarmos sobre o desenvolvimento do Handebol no contexto escolar, refletimos que a Educação Física Escolar colabora para que as crianças e adolescentes desenvolvam saberes sobre a Cultura Corporal de Movimento sendo essa expressa pelos conteúdos de Ginásticas, Lutas, Danças, Praticas Corporais de Aventura, Jogos e Brincadeiras e por fim os Esportes, estando estes dois últimos no local onde entendemos que o Handebol pode ser inserido. Ainda, pensamos que os saberes relacionados as aulas de Educação Física estão expressos nos eixos do Lazer, Saúde, Gênero, Relações Étnico-Raciais, Ética, Meio Ambiente e Pluralidade Cultural, temáticas que entendemos permear o desenvolvimento do Handebol Escolar. Na esteira destes elementos, compreendemos que esta percepção é um terreno fértil para que o Handebol tenha sido considerado, historicamente, o esporte mais praticado nas escolas. O Handebol na sua forma prática e teórica para a realidade escolar apresenta diferentes culturas e elas proporcionam outros modos de aderência e resistência ao ensino do esporte. Concebemos que esta conjuntura desafia o professor a pensar pedagogicamente a metodologia mais adequada para apresentar e desenvolver o Handebol aos estudantes.
A compreensão de Betti e Zuliani (2002) nos convida a pensar que atualmente suscitam-se questionamentos sobre a prática pedagógica da Educação Física Escolar por parte dos estudantes que não percebem o significado do componente curricular. Ainda, recentemente o estudo de Sampedro (2012) nos auxilia a pensar que a possível diminuição na participação dos estudantes nas aulas de Educação Física ocorre pela frequência com a qual ela ocorre aliado ao sentido das práticas a serem realizadas no contexto escolar. Entendemos que buscar a atenção e propiciar a participação dos estudantes nas aulas de Educação Física é um elemento a ser considerado constantemente pelos professores para a arquitetura do seu trabalho.
Na esteira dos elementos trazidos a baila, pensamos que o Handebol como um conteúdo da Educação Física Escolar que contempla, em grande parte, as ações naturais dos seres humanos, como por exemplo os atos de correr, saltar e arremessar, podemos ainda enxergar a modalidade pelo viés do alto desenvolvimento das valências físicas. Porém, consideramos existir, por vezes, uma resistência por parte dos estudantes para a realização de práticas esportivas. Tal situação, inferimos ocorrer por conta das experiências vividas pelos estudantes com o desenvolvimento de saberes a respeito do esporte. Esta situação, por vezes, provoca os estudantes a não participarem dos jogos durante as práticas da Educação Física Escolar.
Ao refletirmos sobre todo o contexto explanado e entendemos o ambiente escolar como propicio e fértil para o desenvolvimento de diferentes saberes sobre os Esportes, em especial o Handebol, foi que arquitetamos um trabalho docente pensado para que os estudantes pudessem experimentar saberes para além da prática corporal sobre o Handebol. Assim, esta prática, contempla os estudantes que estão impossibilitados de realizar a prática corporal ou até mesmo aqueles que não são adeptos do jogo, que por vezes é proporcionado nas aulas de Educação Física. Pensamos que diferentes propostas para as aulas de Educação Física, são possibilidades para que os estudantes possam perceber e analisar as diferentes práticas da cultura corporal de movimento e assim desenvolver saberes sobre uma manifestação esportiva ou sobre outras realidades, desta forma possibilitando a criação de uma rede de significados sobre os conteúdos, neste caso o Handebol.
Darido e Souza Júnior (2007), nos ajudam a pensar que o handebol pode ser problematizado nas práticas pedagógicas dos professores em diversas situações como as diferenças que ele possui com relação aos demais esportes com bola, sobre os materiais que podem substituir a bola e como praticar o esporte sem que tenhamos a bola como protagonista. As provocações realizadas pelos autores, nos levam a refletir que Handebol queremos na escola, uma prática inclusiva ou uma reprodução fiel do esporte de rendimento?
Frente a todas estas reflexões em conjunto com a nossa experiência a respeito do desenvolvimento da modalidade esportiva, Handebol, pensamos que propiciar práticas alternativas ligadas a ele, pode auxiliar os estudantes a desenvolver de forma mais agradável saberes em torno da modalidade, diferentemente do próprio jogo e do treinamento no cenário escolar. Partindo destes pressupostos, incorporamos na nossa prática a perspectiva das aulas abertas de Educação Física, oportunizando que os estudantes possam participar da elaboração do trabalho docente de modo a considerar a codecisão dos estudantes nos níveis do planejamento, objetivos, conteúdos e formas de transmissão e comunicação no ensino (KUNZ, 2014).
A perspectiva das aulas abertas, a partir do processo codecisivo, nos faz refletir e possibilita a reflexão por parte dos estudantes sobre a prática, além da inclusão dos estudantes no que tange o pensamento de como podem ser as aulas de Educação Física.
Os participantes da aula possuem imagens e dão suas dimensões e sentido para as coisas que ali acontecem e vão acontecer. Esse sentido tem origem nas experiencias e vivencias do cotidiano. É importante saber a dimensão de sentido que cada individuo dá às coisas, quando se quer entender um problema e resolvê-lo. O que, porém, tem acontecido na Educação Física é um excesso de tecnicismo nos conteúdos, o qual não permite vir à tona o conjunto de significados que os alunos têm sobre as ações e os temas da aula (KUNZ, 2014, p. 115).
A partir destas premissas, construímos uma prática alternativa com os estudantes que estão impossibilitados de realizar a vivência corporal com relação ao Handebol. Tal prática oportuniza que os estudantes possam também desenvolver saberes a respeito do conteúdo Handebol durante a Educação Física Escolar. Para que possamos arquitetar tal prática, os estudantes participaram em diversos momentos do desenvolvimento da vivência e da possibilidade de criação de um jogo que intitulamos de “Handebol de Botão”. Ressaltamos que esta prática não foi arquitetada apenas por parte do professor de Educação Física, mas sim se trata de uma construção coletiva entre professor e estudantes, considerando as experiências vividas nas ações passadas dos sujeitos e assegurando um protagonismo discente.
O HANDEBOL DE BOTÃO: UMA PRÁTICA ALTERNATIVA PARA O HANDEBOL DA ESCOLA
Ao pensarmos sobre os “modos” de difundir o Handebol no espaço escolar, em uma perspectiva onde temos o Handebol da escola e não o Handebol na escola, Furtado et al. (2019), nos auxilia a refletir sobre o fato de que um dos fatores que pode vir a contribuir para que a os estudantes terem aderência a uma prática é a apresentação de “algo novo”. A partir disso muitas alternativas colaboram para que o professorado consiga materializar o seu trabalho. Assim, muitas vezes os professores lançam mão das mídias, inclusão digital e outros fatores para apresentarem de diversas formas os conteúdos pertencentes ao universo da cultura corporal de movimento. Nesse sentido, pensamos que o Handebol, além de uma prática esportiva possui o potencial de desenvolver saberes para além dos muros da escola. As lentes apresentadas por Furtado et al. (2019), nos ajudam a pensar, também, que no universo escolar, seja ele público ou privado, são as estafetas. Desta forma, podemos pensar que as estafetas ou as chamadas popularmente “brincadeiras” auxiliam no processo de aceite dos estudantes. Logo, partimos do pressuposto de que nem todos os estudantes possuem destrezas físicas e motoras para que o esporte seja vivenciado com as suas regras, movimentos e entendimento técnico e tático. A partir destas reflexões passamos a pensar alternativas para fomentar a aderência de estudantes de diversas etapas da educação para compreender o Handebol.
Ao incorporarmos na nossa concepção educacional a possibilidade das aulas abertas e a partir disto criar condições para que os estudantes participem da arquitetura do trabalho docente a partir de proposições para o desenvolvimento das aulas de Educação Física, considerando o Handebol como um conteúdo pertencente a este contexto em conjunto com a necessidade de uma prática pedagógica que contemple os estudantes que não são adeptos as práticas corporais que chegou-se a proposição do Handebol de Botão.
Nesta perspectiva, o jogo foi criado com regras semelhantes ao handebol tradicional. Assim, com o objetivo de desenvolver saberes nos estudantes a partir da prática do esporte, o Handebol de Botão simula um jogo propriamente dito, entre as suas regras é mantida, por exemplo, a falta técnica, as substituições, os sistemas defensivos e ofensivos. Porém, vale salientar, que esta prática foi construída a partir das regras oficiais do futebol de botão que foram adaptadas para o jogo de handebol de botão, considerando a historicidade e as regras oficiais do esporte.
Apresentam-se seis botões para cada lado, simulando serem jogadores, e uma palheta, para impulsioná-los durante o jogo, um goleiro para cada lado e uma bola. A quadra é confeccionada a partir de uma lona de metragem (94cm x 48cm) com a demarcação de handebol com área em (14cm x 30cm) simulando a área do goleiro (6m); uma marca de sete metros, com 17cm da linha final da quadra; uma linha tracejada a 23 cm da linha final da quadra, simulando a área de ataque (9m); uma zona de substituição com distância de 11 cm do centro da quadra e por fim uma linha a 94cm do fundo da quadra dividindo a quadra em dois quadrados de (47cm por 48cm) conforme a figura 1.
O Handebol de Botão, consiste na sucessão de lances ou as vezes de jogar dos praticantes, colocando em confronto numa mesa duas equipes, com o objetivo de impulsionar seus jogadores para locais estratégicos da quadra ou de encontro à bola, visando fazer o gol, ou evitar que o adversário o faça, e obter a vitória. Lance é o ato de pressionar a unha, o pente ou a palheta (ficha ou régua) sobre o jogador, fazendo-o, consequentemente, deslizar na quadra. Para que o lance seja válido, é necessário que os praticantes mantenham pelo menos um pé, ou parte deste, apoiado no chão, sendo que o lance fica caracterizado quando o jogador se deslocar um mínimo perceptível ao ser pressionado. Os praticantes só poderão impulsionar diretamente os jogadores de sua própria equipe por pressão em sua superfície superior, não podendo ser empurrados com a mão, ou dedo, sob pena de repetição da jogada, ou então, se o árbitro observar a prática ilegal, deverá punir o técnico disciplinarmente. (Amarelo ou 2 Minutos). Cada praticante só poderá dar início ao seu lance quando a bola e os jogadores estiverem completamente parados sobre a quadra. A bola não deverá ser tocada com a mão pelo praticante enquanto estiver em jogo, exceto quando da cobrança de ocorrências, infrações, faltas técnicas e faltas disciplinares. O tempo máximo para a execução de cada lance é 10” (10 segundos, onde será marcado jogo passivo, podendo ser resolvido o lance em 5” (cinco segundos). Cada praticante poderá realizar até 10 lances. O jogo terá a duração de 30’ (trinta minutos), divididos em dois tempos (fases) distintas de 15’ (quinze minutos) cada em jogos oficiais. Em jogos amistosos a duração fica a critério dos praticantes. Serão marcados, no máximo, 5’ (cinco minutos) de intervalo entre o término da primeira fase e o início da segunda fase, e, após o término da fase inicial ocorrerá, obrigatoriamente, mudança de lado da quadra entre as equipes. Havendo empate nos tempos normais, haverá uma prorrogação de 5 minutos. Caso persista o empate, serão cobrados cinco 7m, com batedores diferentes, se houver mais de um praticante.
Figura 1 - Quadra de handebol de botão e as suas medidas.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Após a realização dos lances, passando a vez para o jogador adversário, os jogadores que foram movimentados para o ataque, deverão retornar para a defesa e a critério do praticante, respeitar um dos sistemas defensivos. Os praticantes só organizam suas equipes para a saída de jogo, faltas 9m e defesa. Essas mudanças de defesa não poderão ser totalmente aleatórias, devendo seguir os sistemas 6x0, 5x1, 4x2, 3x3 (Figura 2).
Figura 2 - Situação do jogo com apresentação do sistema defensivo 5x1.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Após o posicionamento defensivo o(s) praticante(s) não podem mais movimentar os seus jogadores antes que o(s) praticante(s) adversário finalize a jogada. O jogo ocorre com transições de defesa e ataque, administrados por praticantes, cada qual na sua vez, pode haver um contra um, ou um contra dois, ou ainda, quantos quiserem participar, cada equipe pode ser composta por vários praticantes, estes que vão ser responsáveis pela movimentação dos jogadores durante a partida, sem pré-definição de quem é qual botão, ficando livre. Desta forma, entendemos o handebol de botão como uma alternativa de prática para vários participantes simultaneamente.
No desenvolvimento do jogo de Handebol de botão, um praticante tem o direito de realizar uma finalização (arremesso), em qualquer momento, desde que o seu jogador ou equipe esteja no lado de ataque da quadra, sob o aviso de que irá realizar um arremesso, pois neste momento o goleiro adversário poderá se movimentar para escolher o melhor posicionamento para ficar e recepcionar o arremesso com a finalidade de realizar uma defesa. O goleiro não poderá, jamais, ser colocado com seu comprimento no sentido vertical, ele só poderá obstruir lance do adversário, caso já esteja colocado em tal situação, quando da vez de jogar do praticante, ou ao ser anunciado arremesso a gol pelo adversário. Para a validade do gol,
torna-se necessário que o praticante executante do lance avise ao adversário de modo claro sua intenção de arremessar em gol, indicando o jogador que fará o arremesso, o qual só poderá ser executado após o praticante defensor autorizá-lo. É obrigatório que o praticante defensor, após ajuste do goleiro e autorização do arremesso, se afaste da mesa e se mantenha em silêncio até o desfecho do lance.
Durante o jogo, podem haver substituições, que são as trocas de um botão pelo outro, sendo estas ilimitadas. Sobre as faltas: quando em um lance normal, um jogador, antes de atingir a bola, atinge outro jogador de sua equipe será marcado tiro livre para o adversário. Quando a bola estiver posicionada tocando a linha divisória (bola neutra) e sair diretamente pela linha de fundo (sem toque do goleiro) de qualquer lado do campo será tiro livre ou canto (toque da defesa). E, quando em um arremesso ao gol, um jogador bater em mais de um adversário, permanecendo em sua frente e por consequência houver invasão (ao menos a metade) do defensor na área, será marcado falta de ataque. Ainda, fazem parte do handebol de botão quase todas ações do jogo de handebol, uma vez que existem faltas de 2 minutos, quando em um lance normal, um jogador, antes de atingir a bola, atingir outro jogador da equipe adversária, deslocando-o mais de 3cm. Para lances de 7m, em um arremesso ao gol, um jogador bater em outros (adversários) e por consequência houver invasão total dos defensores na área. A partir disto, respeitando estas regras preliminares, o handebol de botão se torna uma alternativa para que possamos desenvolver saberes a respeito das regras e das situações de jogo que caracterizam o Handebol.
O HANDEBOL DE BOTÃO COMO PRÁTICA ESCOLAR: CONSIDERAÇÕES TRANSITÓRIAS SOBRE UMA PRÁTICA ALTERNATIVA PARA O HANDEBOL DA ESCOLA
Intitulamos esta seção de O HANDEBOL DE BOTÃO COMO PRÁTICA ESCOLAR: Considerações transitórias sobre uma prática alternativa para o Handebol da escola por incorporarmos o pensamento de Wittizorecki (2009), que compreende como considerações transitórias as reflexões sobre fatos e momentos únicos, diferenciados e imprevistos. Assim, percebemos que é um momento único, diferenciado e imprevisto quando os estudantes resistem a uma prática corporal no contexto das aulas de Educação Física. O momento de chuva por exemplo nas escolas públicas que não possuem um ginásio, uma quadra coberta ou um espaço adequado para a prática corporal é um momento imprevisto. E para estes momentos um jogo, no caso o Handebol de Botão pode ser uma ferramenta importantíssima para o fomento de um Handebol da escola. Ainda, nesta seara, compreendemos que esta proposição de um jogo, passará pela prática dos professores e estudantes, que pretendemos dar escuta na sequência dos nossos trabalhos e desta forma melhorar a proposição de um jogo de handebol de botão.
Acreditamos no potencial que a escola possui em ser um ambiente de ações pedagógicas diferenciadas, ampliando assim o desenvolvimento da autonomia e do senso crítico dos estudantes. As experiências vividas por estudantes e professores se tornam um combustível para que se desenvolvam práticas alternativas para o fomento dos esportes no contexto escolar. Tais práticas alternativas para o desenvolvimento da Educação Física Escolar, entendemos ser uma ferramenta para que o professorado desenvolva outros tipos de atividades relacionadas as práticas da cultura corporal de movimento, sendo estas não relacionadas somente ao desenvolvimento motor ou ao tecnicismo.
Na esteira destes pensamentos, frente a grande encruzilhada de culturas que entendemos ser a escola, aliada as experiências vividas por professores e estudantes em conjunto com o desenvolvimento de aulas através de um processo de codecisão que formulamos o Handebol de Botão, uma prática alternativa e diferenciada para o desenvolvimento do conteúdo Handebol para os Anos Finais do Ensino Fundamental. Neste processo, compreendemos que a criação de novos métodos para contemplar as mais diferentes culturas que perpassam o ambiente escolar se faz necessário, para que desta forma consigamos contribuir para um desenvolvimento de modo mais amplo dos estudantes.
O fomento de aulas abertas contemplando o processo codecisivo dos estudantes nos desvelou ganhos significativos para a Educação Física Escolar. Neste estudo, percebemos que criar outras possibilidades para o desenvolvimento de saberes sobre o esporte, nesse caso o handebol de botão como uma ferramenta para o aprofundamento do handebol no contexto escolar, se faz necessário e de suma importância para a formação dos estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Assim, ao longo da formulação da proposta do Handebol de botão, percebemos que esta prática alternativa está para além de uma prática do Handebol na escola, pois ela se torna uma alternativa para os estudantes que não se identificam ou que por fatores especiais não realizam práticas corpóreas.
Assim, ao estimularmos que os estudantes experimentem saberes práticos sobre o desenrolar de uma partida de Handebol, por meio de uma prática alternativa que possibilite o acesso e a inclusão de todos
se faz necessária, pois compreendemos ser insuficiente os saberes práticos desenvolvidos sobre o esporte e o jogo através de aulas teóricas e da utilização de recurso midiáticos.
Salientamos que não são estanques estas regras e a forma de praticar o Handebol de botão, pois se tratando de uma prática que emerge a partir das aulas abertas e por meio de um processo codecisivo, a todo o instante novas regras podem ser criadas, reinventadas e reinterpretadas pelos estudantes e por professores. Lembrando sempre que estes são os protagonistas do ambiente educacional que na nossa concepção tem o poder de mudar a sociedade, por meio de uma prática de inclusão de todos os estudantes e não por meio de práticas e processos excludentes e de seleção.
REFERÊNCIAS
AIRES, L.L. Os fatores esportivos responsáveis pelo sucesso da equipe de handebol da adufsm na década
de 80: estudo de caso sobre a percepção do técnico da equipe. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de
Educação Física - Licenciatura). Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria. 2015. APPLE, M.W. A educação pode mudar a sociedade? Petrópolis. Vozes. 2017.
BETTI, M. Ensino de 1º. e 2º. graus: Educação Física para quê? Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v.13, n.2, p.282-7, 1992.
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