Agrobiodiversidade e a agricultura urbana em Aral Moreira-MS

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Agrobiodiversidade e a agricultura urbana em Aral Moreira-MS Agricultural biodiversity and urban agriculture in Aral Moreira -MS MAIA, Sebastião Gabriel Chaves1; RODRIGUES, Lucas Limeira2

1Faculdades Magsul - FAMAG, Ponta Porã, MS, Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada ESALQ-CENA/USP, Piracicaba, SP, sgchavesmaia@usp.br; 2Faculdades Magsul - FAMAG, Ponta Porã, MS, lucas.r.limeira@hotmail.com.

Resumo: As representações das ruralidades no meio urbano dão suporte para o

desenvolvimento da agricultura urbana praticada especialmente em espaços ociosos no meio urbano como lotes baldios e áreas públicas, sendo praticada nos mesmos moldes da agricultura familiar. Este trabalho tem como enfoque conhecer as representações sociais do meio rural no espaço urbano por meio da organização das hortas presentes nestes espaços no município de Aral Moreira-MS, na forma de um estudo de caso. Assim trata-se de uma pesquisa qualiquantitativa, com abordagem etnoecológica, utilizando-se como técnicas de pesquisa a observação direta, a entrevista semiestruturada e listagem livre.A organização destas hortas urbanas são exemplos da aplicação da representatividade do meio rural em ambientes urbanos. Cabe destacar que o desenvolvimento destas atividades auxilia uma organização urbana levando a um bem estar local e contribuem de sobremaneira, para a economia local e conservação da agrobiodiversidade.

Palavras-chave: ecologia humana, agrobiodiversidade urbana, economia urbana.

Abstract: Representations of ruralities in urban support for the development of urban

agriculture practiced especially in idle spaces in urban areas as wastelands and public areas lots, practiced in the same way of family farming. This work is to approach the social representations of rural areas in urban areas through the organization of these gardens in these areas in the city of Aral Moreira -MS in the form of a case study. So it is a quali-quantitative research, with etnoecológica approach, using as research techniques direct observation, semi-structured interview and free listing. The organization of these urban gardens are examples of the application of the representativeness of the rural environment in urban environments. It should be noted that the development of these activities helps an urban organization leading to a welfare place and contribute greatly to the local economy and conservation of agricultural biodiversity.

Keywords: human ecology, urban agricultural biodiversity, urban economy.

Introdução

A história do homem com as plantas vem de muito tempo atrás, onde os recursos vegetais retirados da natureza por ele servia de benefícios como a vestimenta, abrigo, uso medicinal, e, principalmente a alimentação dos povos.

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Com o tempo, o vínculo entre o homem e o seu meio foi objeto indispensável na luta pela sobrevivência, onde o domínio dos recursos naturais se tornou essencial para a continuidade da sua espécie.

A partir do momento em que o ser humano passou a manipular as plantas, domesticando-as e usando-as em seu benefício, surgiu a prática da “Agricultura”, que se caracteriza como o cultivo dos campos relacionado à produção de vegetais. Em linhas gerais, o indivíduo utiliza um pedaço de terra para desenvolver atividades agrícolas visando, principalmente, a alimentação da sua família. Essa prática que ocorre, principalmente, em zonas rurais foi evoluindo com o passar do tempo, juntamente com as espécies e o ambiente à sua volta.

A agricultura se espalhou pelo mundo inteiro. As plantas cultivadas e os animais criados passaram por modificações genéticas que permitiram sua adaptação a diferentes ambientes, sem perdas drásticas de produtividade (ASSAD; ALMEIDA, 2004).

Por muitos anos, a agricultura foi a principal forma de sobrevivência dos povos que viviam nos campos, mas ao longo do tempo isso mudou.

Com o constante aumento das grandes metrópoles, a natureza foi reconstruída de outra maneira, sendo vista de uma forma diferente ao do ambiente natural, na qual muitas pessoas migraram do campo para as cidades por causa de oportunidades de emprego e melhores condições de vida, formando um ecossistema urbano (zona urbana), tendo em vista, assim, uma nova relação do homem com o meio ambiente. O ambiente urbano cresceu tanto nos últimos anos, que acabou ultrapassando o número de pessoas que vivem no meio rural (MAIA, 2015).

Apesar das consequências causadas à natureza pelo processo de urbanização, as plantas são de fundamental importância na vida das pessoas, onde estas, mesmo vivendo em ambiente urbano, possuem conhecimentos tradicionais sobre as plantas, adquiridos por seus antepassados que habitavam os campos, principalmente em pequenas cidades como no município de Aral Moreira – MS, onde este estudo foi realizado, pois é uma região cercada pela agricultura, sendo este o principal fator que move a sua economia.

Dentro do espaço urbano ocorrem representações do meio rural, principalmente a agricultura. A agricultura urbana, como é chamada, é utilizada por indivíduos e outros membros de sua família em unidades domésticas, nas áreas urbanas, formando a agricultura familiar, onde haverá o desenvolvimento de pequenas atividades agrícolas, no qual o plantio dos vegetais pode ser feito propriamente no

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solo, em canteiros ou até mesmo em vasos, e a produção resultante desse trabalho será designada para a subsistência ou comercialização em pequena escala.

Uma das principais representações do meio rural em espaços urbanos envolvendo essa questão da agricultura é a construção de hortas, que por sua vez, auxiliam numa alimentação mais saudável, além de contribuir para a conservação da agrobiodiversidade.

A Agricultura Urbana contribui para promover cidades produtivas e ecológicas, que respeitam as diversidades social e cultural e que promovam a segurança alimentar e nutricionais. A Agricultura Urbana é praticada por indivíduos ou organizações formais ou informais nas mais diversas condições sociais (MAIA, 2015).

A agricultura familiar utiliza de uma prática extensiva, que se beneficia de técnicas tradicionais de plantio como a mão de obra humana, pois não há a utilização de altas tecnologias, como por exemplo, sementes modificadas, tratores, colhedeiras e uso de agrotóxicos.

Este tipo de prática, geralmente é encontrada em pequenas propriedades ou no caso da agricultura familiar urbana, em unidades domésticas, que, por sua vez, é a principal forma de contato íntimo do homem com a natureza, simbolizando assim, um ambiente livre, sendo caracterizado pelo cotidiano e vivência das pessoas, servindo para o cultivo de vegetais, principalmente as hortaliças.

São nesses espaços que haverá a reprodução dos saberes tradicionais obtidos pelas pessoas através de seus antepassados.

Assim o presente estudo tem por objetivo conhecer as representações sociais do meio rural no espaço urbano por meio da organização das hortas presentes nestes espaços no município de Aral Moreira-MS, na forma de um estudo de caso.

Metodologia

O presente trabalho foi realizado na cidade de Aral Moreira – MS, onde foram analisadas as hortas urbanas em unidades domésticas, com intuito de conhecer a diversidade de vegetais produzidos e para que fim são destinados, entendendo como funciona a relação homem/natureza em ambientes urbanos.

O município de Aral Moreira possui uma unidade territorial de 1.655,660 km² e uma população estimada em 11.399 habitantes (IBGE, 2015). As principais atividades que movimentam a economia do pequeno município são principalmente a agricultura e a agropecuária.

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Primeiro foi realizada uma revisão bibliográfica sobre a temática, utilizando-se de fontes como, livros, revistas e artigos científicos da internet, o que se torna muito vantajoso para o pesquisador no primeiro momento da sua pesquisa.

Gil (2002) ressalta que a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Essa vantagem torna-se particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço.

Foram utilizadas análises do tipo qualitativa e quantitativa, com intuito de contribuir para resultados mais significativos. Assim, a abordagem deste estudo é do tipo qualiquantitativa.

Foram usados dois tipos de técnicas, considerando-se que, no mundo dos significados, das relações humanas com o meio, no geral, nos estudos de fenômenos os dados quantitativos e as informações qualitativas se complementam (MAIA, 2011).

Os dados foram coletados nos meses de julho e agosto do ano de 2016, onde foi aplicado aos entrevistados um questionário semiestruturado, com base nos tipos de espécies vegetais presentes em hortas nas unidades domésticas e como ocorre o manejo das mesmas, levando-se em consideração a classificação vegetal que o indivíduo dá de acordo com o seu conhecimento.

Utilizou-se também um caderno de anotações para anotar as informações mais importantes, que podem ser enriquecedoras e essenciais para o desenvolvimento da pesquisa, além de câmera fotográfica, onde as fotos serviram de anexo e comprovação da realização da atividade prática.

O diálogo se torna elemento fundamental nesta pesquisa, pois é necessário o pesquisador explorar o máximo de informações e conhecimento possível do morador através de uma conversa agradável e paciente, com o objetivo de conseguir bons resultados.

Resultados e discussões

Foram entrevistados três proprietários de hortas urbanas, sendo estas localizadas em suas unidades domésticas, de um universo de cerca de dez hortas urbanas. Os proprietários tem origem em lugares diferentes do Brasil, mas residem a mais de trinta anos no município de Aral Moreira-MS. Apresentam idade superior a 40 anos e descrevem ter um vínculo muito forte com o meio rural devido à agricultura, que hoje

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também faz parte de suas vidas mesmo vivendo em território urbano. Os três entrevistados possuem ensino fundamental incompleto e se consideram como agricultores.

O número de espécies encontradas nas hortas urbanas analisadas no município de Aral Moreira-MS foi de 18, conforme apresentado na Tabela 1. As espécies foram distribuídas em 12 famílias botânicas, onde a família Brassicaceae apresentou (4 espécies); Apiaceae, Asteraceae e Rosaceae (2 espécies cada); Alliaceae, Anacardiaceae, Caricaceae, Euphorbiaceae, Lamiaceae, Liliaceae, Myrtaceae e Solanaceae (1 espécie cada).

Tabela 1: Plantas cultivadas em hortas urbanas em Aral Moreira-MS. Ciclo da Planta: A= anual; P= perene.

Família/ Nome científico Nome local Ciclo da planta Horta Alliaceae Allium fistulosum L. Cebolinha, Cebolinha verde P 1, 2 e 3 Anacardiaceae

Mangifera indica L. Manga P 1

Apiaceae

Coriandrum sativum L.

Petroselinum crispum (Mill.) Fuss

Coentro Salsa A P 1 e 3 1, 2 e 3 Asteraceae Lactuca sativa L. Cichorium intybus L. Alface Almeirão A P 1, 2 e 3 2 e 3 Brassicaceae

Brassica oleracea L. Couve, Repolho A 1, 2 e 3

Raphanus sativus L. Eruca sativa Mill.

Rabanete Rúcula A A 3 Caricaceae

Carica papaya L. Mamão P 2 e 3

Euphorbiaceae

Manihot esculenta (Crantz) Mandioca A 1, 2 e 3

Lamiaceae

Mentha spicata L. Hortelã A 2 e 3

Liliaceae

Aloe vera L. Babosa P 1

Myrtaceae

Eugenia uniflora L. Pitanga P 2 e 3

Rosaceae Fragaria vesca L. Prunus persica (L.) Morango Pêssego P P 3 2 Solanaceae

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Capsicum frutensens L. Pimenta P 1, 2 e 3 É de fundamental relevância ressaltar que as hortas urbanas examinadas continham à sua volta telas ou cercas de madeira para proteger contra animais, garantindo o melhor desenvolvimento dos vegetais.

O manejo da terra era realizado a partir do uso de um pequeno trator para a aragem da terra, enxada e pá para a montagem dos canteiros e retirada de ervas daninhas. Os entrevistados se consideram agricultores, na qual o conhecimento tradicional sobre agricultura foi adquirido através da vivência do dia a dia e por intermédio dos vizinhos.

A agricultura familiar praticada pelos entrevistados e suas famílias são de suma importância, onde o principal sustento da família se dá através da venda das hortaliças produzidas nessas unidades domésticas, além de auxiliar na aposentadoria no futuro e segundo Maia (2015) contribui para a conservação da agrobiodiversidade.

Segundo Amorozo (2013), a biodiversidade agrícola se conserva na medida em que ela é útil de alguma forma para os agricultores, considerando aqui ‘utilidade’ em um sentindo amplo incluindo a própria renda obtida na comercialização dos produtos. Como os pais já são idosos há a ajuda de alguns dos filhos na manutenção das hortas, fazendo com que a produção continue crescendo e as vendas aumentando. A reprodução das hortaliças se dá através de sementes, mudas, brotos ou ramas. Todas as sementes produzidas são compradas em comércio de produtos agrícolas com certificação de cem por cento de confiança ou em supermercados.

Segundo relatos dos entrevistados as espécies mais utilizadas para venda são a alface, a couve, a rúcula, o repolho e o cheiro verde (cebolinha e salsinha), sendo estas as de maior agrado e preferência da clientela.

Estes vegetais são muito utilizados na alimentação, estando desprovidas de qualquer agrotóxico, que causa sérios danos à saúde, principalmente incidências de câncer, sendo assim, totalmente orgânicos e muito mais saudáveis para o consumo, oferecendo uma maior segurança alimentar e nutricional.

A organização das hortas urbanas são exemplos da aplicação da representatividade do meio rural em ambientes urbanos (MAIA, 2015).

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A organização das hortas urbanas no município de Aral Moreira-MS são exemplos da aplicação da representatividade do meio rural em ambientes urbanos. Cabe destacar que o desenvolvimento destas atividades auxilia uma organização urbana levando a um bem estar local e contribuem de sobremaneira, para a economia local e conservação da agrobiodiversidade.

No geral, este trabalho possibilitou, através do desenvolvimento do estudo de caso, uma reflexão sobre a relação entre agricultura, sociedade e natureza.

Agradecimentos

A todos os produtores agrícolas urbanos de Aral Moreira-MS participantes deste trabalho que contribuíram para o desenvolvimento do mesmo.

Referências bibliográficas

AMOROZO, M. C. M. Sistemas agrícolas de pequena escala e a manutenção da agrobiodiversidade – uma revisão e contribuições. Rio Claro, SP: Edição do autor; Botucatu: FCA – UNESP, 2013.

ASSAD, Maria Leonor Lopes; ALMEIDA, Jalcione. Agricultura e Sustentabilidade: Contexto, Desafios e Cenários. Publicado em 2004. Disponível no site: <http://www.is.cnpm.embrapa.br/bibliografia/2004>. Acesso em: 05/07/2016.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa?. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2002.

MAIA, S. G. C. Aspectos do mecanismo de compensação da reserva legal em unidades de conservação no estado de Mato Grosso: Parque Estadual Encontro das Águas, pantanal mato-grossense. 2011. 177f. Dissertação (Mestrado). UFMT. Cuiabá, MT, 2011.

MAIA, S. G. C. Representações do meio rural no espaço urbano: a Agricultura urbana e conservação da Agrobiodiversidade: Um estudo de caso no município de Piracicaba, São Paulo. 2015. Disponível no site: <http://www.revistas.uneb.br/index.php/ouricuri/article/ view/1268>. Acesso em: 05/07/2016.

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