Studium Theologicum de Curitiba
STUDIUM
REVISTA TEOLÓGICA
Studium: revista teológica/ Studium Theologicum de Curitiba - Ano 5
Vol. 5 - n. 9 (jan./jun.) e 10 (jul./dez. 2011)
Semestral
ISSN 1981-3155
1. Teologia – Periódicos. I. Studium Theologicum de Curitiba.
CDU: 2
STUDIUM Revista Teológica Ano 5 – 2011 Nº 9 e 10
Revista semestral de Teologia do Studium Theologicum de Curitiba ISNN 1981-3155
EDITOR-ChEfE
hélcion Ribeiro – Studium Theologicum CONSELhO EDITORIAL
Jaime Sanches Bosch – Studium Theologicum, Curitiba, Pr. Marcio Luiz fernandes – Studium Theologicum, Curitiba, Pr. Tedoro hanicz – Instituto S. Basílio Magno, Curitiba, Pr. Valdinei de Jesus Ribeiro – StudiumTheologicum, Curitiba, Pr. Vitor P. Calisto dos Santos – PUC, Campinas, SP
CONSELhO CONSULTIVO
Angelo Carlesso - Studium Theologicum – Curitiba, Pr Jose Carlos fonsati – Cúria Geral dos Vicentinos - Paris, fr. Manuel Jesus Arroba Conde – Instituto Juridicum, Roma Jacinta Turolo – Centro Italiano de fenomenologia, Bauru, SP Santiago M. González Silva – Claretianum, Roma
Josu M. Auday – Claretianum, Roma Sávio Scopinho – CEUCLAR, Batatais
Ricardo hoepers - Studium Theologicum – Curitiba, Pr. ADMINISTRAÇÃO E REDAÇÃO
Contato e assinatura Studium Revista Teológica Av. Getúlio Vargas, 1193 80.250- 180 Curitiba Pr.
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Nota: os autores das contribuições desta publicação assumem a responsabilidade das idéias e teses defendidas nos seus textos.
SUMÁRIO
Editorial... 5
Visão eclesiológica dos diferentes ritos ... 7
Basilio Koubetch
A teologia e espiritualidade da liturgia oriental ... 25
Mario Marinhuk
ÍCONES. Teologia, simbologia e mística...37
Paulo (Dionísio) Lachovicz
Canto litúrgico ucraino bizantino...49
Paulo Serbai
hino AKÁThISTOS em honra à Mãe de Deus...61
Edson Ternoski
Igreja ucraniana no Brasil. Práticas pastorais, tensões com a Igreja
romana, encontros, desencontros e desafios...81
Teodoro hanicz
homilia de encerramento da Semana Teológica/2011...95
Volodemer Koubetch
A questão do Patriarcado na Igreja Craniana Católica...99
Basilio Koubetch
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Igreja Católica é uma, sem ser uniforme – apesar de que muitos fundamentalistas não acreditam nisto. Ela é uma pela fé no Senhor Jesus, pelo serviço papal, pela perseverança na herança dos apóstolos, pela conservação e atualização constante da grande Tradição, entre outros fatores. Entretanto, a Igreja uma tem uma significativa diversidade de ritos, que atende à tradições históricas tanto milenares quanto mais recentes.
O subcontinente da América Latina nasceu predominante ocidental e católico. Assim, ser católico romano – que é um dos muitos ritos da Igreja – parecia ser algo natural, por ser hegemônico. No entanto, a partir de correntes migratórias da Europa, foram aparecendo outros grupos culturais e etnias, que com seus traços peculiares, traziam também uma catolicidade diversa da ”romana”. Por ignorância religiosa, inclusive das autoridades católico-latinas, muitas vezes houve tensões – e até graves – entre estes cristãos católicos. Contudo, o próprio Deus, Senhor da história, faz os homens e as mulheres percorrerem caminhos insuspeitos para mostrar sua riqueza e que o diferente – antes de ser oposição – pode ser uma graciosa e gratuita diversidade, ára o enriquecimento de todos.
Deste modo pode-se afirmar não apenas o pluralismo religioso, mas até mesmo a diversidade dentro da própria Igreja, com seus ritos e tradições – algo muito diferente de folclore. Na Igreja Católica, além do rito romano latino que o brasileiro, em geral, está mais acostumado, encontramos ao menos mais 23 Igrejas com retos e tradições próprias; das quais 15 ortodoxas e entre estas a maior, em termos numéricos, a Igreja greco-bizantina ucraniana, instalada no Brasil há, ao menos 120 anos. Em vista de sua história e, inclusive pela repressão comunista, a Igreja ucraniana vem se reconstituindo e se organizando tanto dentro da Ucrania quanto com seus fiéis da “diáspora”.
O Concílio Vaticano II foi fundamental para, não apenas reconhecer a sua legitimidade católica quanto para impulsioná-la, incentivando-a a buscar seu legítimo estatuto por toda parte, não como algo à margem, mas de pleno direito eclesial.
Em Curitiba, a partir da Eparquia São João Batista - erigida em 1971 por Paulo VI, e tendo como primeiro eparca D. José Martenetz – e dos missionários basilianos – da Ordem de São Basílio Magno – os seminaristas ucranianos fazem sua formação teológica em nosso StudiumTheologicum, onde também inúmeros professores ucranianos atuam.
Este motivo ensejou à Direção do Studium em conjunto com o Diretório Acadêmico – DAST – sua promover a XXXIII Semana Teológica voltada para a vida e
A
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vitalidade da Igreja Ucraniana. Esta semana acadêmica coincidiu com a promoção daquela igreja, no mesmo período, de outras duas atividades significativas de portada internacional: “1º Encontro de Reitores de Seminários Ucranianos”, presidida pelo eparca de Vancouver (Canadá) D. Ken Nowalowski e a “2ª Assembléia Geral da Igreja Grego Católica Ucraniana – Sobor”, sobre a formação do clero – na qual participaram bispos e superiores religiosos vindos de toda parte.
A Revista Teológica Studium, associando-se às alegrias da comunidade ucraniana, particularmente de seus alunos e professores deste rito, publica este número especial dobre a vida espiritual e teológica desta porção da Igreja do Senhor, que “respira com o outro pulmão” – que reúne mais 22 ritos católicos.
Deste modo, os artigos que número são abertos com o texto “Visão
ecleseológica dos diferentes ritos” que procura situar a diversidade católica dos
ritos, evidenciando que o pluralismo não só tem sua pertinência, como é uma riqueza eclesial tanto de patrimônio e liturgia quanto de teologia, espiritualidade e legislação.
A partir da centralidade do mistério de Cristo, celebrado na liturgia, o texto
“Teologia e espiritualidade da liturgia oriental” enfatiza o quanto deve ser educativa
a Divina Liturgia, pois é dela que decorrem a espiritualidade, a teologia e toda a gama diversificada do comportamento católico ucraíno.
“Ícones: teologia, simbologia e mística” ressalta os valores originantes do ícone, como expressão da “morada de Deus”, de uma liturgia gráfica, a fim de oportunizar a elevação do espírito e a comunhão com Deus.
O “canto litúrgico ucraniano” fundamenta a liturgia, sem se fazer acompanhar de instrumentos musicais. O fiel cristão, por cantar a liturgia, glorifica a Deus tomado pelo Espírito Santo. O canto cadencia a melodia, para a escuta e a resposta aos mistérios de Deus. Isto se torna perceptível no “Hino Akathistos em honra à Mãe
de Deus. Nas suas vinte e quatro estrofes, ele canta as grandezas da Theotokos, no
mistério de Deus.
O artigo “Igreja ucraniana no Brasil” propõe o que o própria subtítulo indica “práticas pastorais, tensões coma Igreja romana, desencontros e desafios” vividos nestes cento e vinte anos e que, progressivamente, a nível institucional têm sido superados, apesar de permanecerem alguns questões particulares de pastoral sacramental e pouca compreensão deste rito que – como propõe o autor – poderia vir a ser ua alternativa para os brasileiros (não ucraínos).
Os dois textos seguintes “Homilia de encerramento da Semana Teológica” e “Questão do Patriarcado” – refletem a perspectiva teológica do bispo eparca dos ucranianos no Brasil (e professor do Studium) e a questão atual da conveniência de se criar um patriarcado próprio para os de rito greco-bizantino ucraniano.
A revista Studium sente feliz com sua contribuição científico-teológica tanto para o aprofundamento quanto para tornar conhecida a riqueza deste Rito tão católico quanto o romano, para a glória de Deus.
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VISÃO ECLESIOLÓGICA DOS
DIfERENTES RITOS
Pe. Basilio Koubetch, OSBM *
RESUMO: Este estudo propõe-se enfatizar o justo direito à diversidade de ritos na Igreja Católica, inclusive denunciando preconceitos, que ainda persistem. Está fundamentado nos textos do Concílio Vaticano II e nos Códigos Canônicos (Código Canônico das Igrejas Orientais e Código de Direito Canônico). O texto historia e situa a pluralidade de ritos, não apenas apresentando toda a tipologia atual, mas explicitando, inclusive o significado e a pertinência deles, como uma riqueza eclesial – que mantém neles um grande patrimônio cultural, jurídico, litúrgico, espiritual e teológico. O texto insiste, com propriedade, na identidade autenticamente católica dos diversos ritos, que de modo algum manifestam supostas divisões, mas antes enfatizam a unidade eclesial em sua diversidade. Conhecê-los e colaborar com sua autenticidade é uma excelente forma de contribuir com a Igreja.
PALAVRAS CHAVE: Rito; Igrejas Católicas Orientais; Disciplina própria; Conservação de ritos.
ABSTRACT: This study aims to emphasize the well-deserved ensuring to diversity of rites in the Catholic Church, including exposing prejudices that still exist. It based on the texts of Vatican II and the Canonical Codes (Code of Canons of the Eastern Churches and the Code of Canon Law). The text tells the story and situates the plurality of rites, not just presenting all current typology, but makes clear, including the meaning and relevance of them, as a richness of the Church - which keeps them a great heritage - cultural, legal, liturgical, spiritual and theological. The text insists, properly, authentically Catholic identity of the various rites, which in no way supposed divisions manifest, but rather emphasize the ecclesial unity in diversity. Know them and collaborate with its authenticity is an excellent way to contribute to the church.
KEY WORDS: Rite; Eastern Catholic Churches; Self-discipline; Rites conservation.
Artigos
* Licenciado em Teologia e Mestre em Ciências Eclesiásticas Orientais no Pontifício Instituto Oriental, Roma.
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1. QUESTÕES INTRODUTÓRIAS
O que é um rito na Igreja católica? Quantos ritos existem? Qual a origem das Igrejas sui iuris1 e dos diferentes ritos com os quais elas se identificam? Que posição
a Igreja católica tomou em relação à pluralidade dos ritos? Estas e outras questões serão brevemente respondidas nesta abordagem.
1.1. DELIMITAÇÃO DO TEMA E DO CAMPO DE ABORDAGEM
Esta abordagem se concentra mais precisamente na visão eclesiológica dos diferentes ritos, isto é, na posição tomada pela Igreja católica em relação aos diversos ritos. A história da formação de cada uma das Igrejas sui iuris e do rito, com o qual cada uma delas se identifica é uma matéria muito ampla e interessante, mas não será apresentada aqui. Também, sempre por motivo do limite de tempo, não serão abordadas as características de cada um dos diversos ritos. Seja a história, seja a descrição dos ritos se encontram em obras científicas e populares em diversas línguas, mas excluo deste trabalho também a apresentação de uma bibliografia completa por não dispor neste momento do tempo necessário para tal pesquisa.2
Como opção metodológica, procuro abordar a posição da Igreja católica citando as suas palavras presentes em diversos documentos do magistério,3
fazendo com que esta abordagem seja também um lembrete sobre a atualidade e importância da visão eclesiológica.
1.2. CONCEITUAÇÃO
1.2.1. “Rito” em senso estrito
É um conjunto de costumes, ações, prescrições e peculiaridades litúrgicas, praticado pela Igreja – comunidade orante. Etimologicamente, “rito” é cada ato ou conjunto de atos, realizados segundo normas codificadas. Com referência à religião, os ritos têm a função de tornar perceptível e repetível a experiência religiosa. Num ritual religioso as várias componentes religiosas, as prescrições e as fórmulas tornam-se reais e normativas para todos os participantes. Geralmente o cristão encontra no rito a garantia da manutenção da identidade religiosa própria e a da comunidade à qual ele pertence.
1 Ecclesia sui iuris significa Igreja de direito próprio. Cf. ponto 1.2.3. adiante.
2 É muito válido o trabalho de KhATLAB, Roberto, As Igrejas orientais católicas e ortodoxas - tradições vivas, Ed. Ave Maria, São Paulo 1997, o qual inclusive oferece uma ampla bibliografia, com obras em diversas línguas. 3 Sem, porém, pretender esgotar estes textos. Documentos mais usados: Concílio Vaticano II, “Orientalium
Ecclesiarum”, “Lumen Gentium”, “Unitatis Redintegratio”; Codex Canonum Ecclesiarum Orientalium; Cartas Encíclicas de João Paulo II – “UT UNUM SINT”, 25 de maio de 1995; “ORIENTALE LUMEN”, 2 de maio de 1995; também a publicação do Conselho Pontifício para a promoção da unidade dos cristãos – “DIRETÓRIO PARA A APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS E NORMAS SOBRE O ECUMENISMO” de 1994.
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1.2.2. “Rito” no Código dos cânones das Igrejas orientais4
O conceito de “Rito” no CCEO é muito mais amplo porque inclui todo o
patrimônio litúrgico, teológico, espiritual e disciplinar. Tal patrimônio:
se distingue pela cultura e circunstâncias históricas dos povos; •
se exprime em um
• modo específico de celebrar e viver a mesma fé
na unidade eclesial;
o seu modo de se exprimir é próprio e peculiar em cada uma das •
Igrejas sui iuris;
o rito, portanto, é um patrimônio que dá a identidade a cada Igreja •
sui iuris.
Por definição, “O rito é o patrimônio litúrgico, teológico, espiritual e disciplinar, distinto pela cultura e circunstâncias da história dos povos, que se exprime no modo de viver a fé, que é próprio de cada Igreja sui iuris”5.
O rito é um patrimônio inestimável, mas não é uma pessoa jurídica com deveres e direitos, enquanto tal é a Igreja sui iuris com a própria hierarquia devidamente constituída, chefiada e representada em todas as questões jurídicas por uma pessoa física devidamente eleita e/ou nomeada.
1.2.3. “Igreja sui iuris”
“Igreja sui iuris” (Ecclesia sui iuris) literalmente significa Igreja de direito próprio, ou seja, autônoma. O CCEO a define do ponto de vista estritamente jurídico: “Neste Código, se chama Igreja sui iuris um grupo de fiéis reunido pela hierarquia, segundo a norma do direito, que a suprema autoridade da Igreja reconhece expressamente ou tacitamente”6.
Quatro coisas requerem a nossa atenção nesta definição:
1.2.3.1. Não é uma definição separada do Código nem anexa ou dada no seu apêndice. É uma definição relativa ao Código, está em função do mesmo e faz parte integrante como cânone 27. Por isso ele diz: “Neste Código, se chama Igreja sui iuris...”.
4 Daqui em diante será usada a sigla CCEO – do título original Codex Canonum Ecclesiarum Orientalium. 5 CCEO, can. 28-§ 1. (Minha tradução)
10
1.2.3.2. A autonomia derivante do fato de ser uma Igreja “de direito próprio” não cria nenhuma perplexidade porque, neste caso, não é uma autonomia absoluta. Pelo contrário, é uma autonomia delimitada pelo direito estabelecido pela autoridade suprema, isto é, pelo Romano Pontífice ou pelo Concílio Ecumênico. A autonomia à qual se refere a expressão sui
iuris foi reconhecida pelo Concílio Vaticano II no decreto Orientalium Ecclesiarum (sobre as Igrejas Orientais Católicas) relativo às “igrejas
particulares” ou “ritos orientais”.
1.2.3.3. Esta definição canônica de Igreja sui iuris substitui a terminologia de
“Ecclesia particularis seu Ritus” (Igreja particular ou Rito), usada no Decreto
conciliar Orientalium Ecclesiarum7.
1.2.3.4. Os elementos que compõem uma Igreja sui iuris são:
a) Grupo ou comunidade de fiéis. Trata-se de uma assembleia ou comunidade eclesial do povo de Deus, uma realidade histórico-existencial, composta de leigos, clérigos8, monges, religiosos,
religiosas.
b) A hierarquia própria. Esta hierarquia, segundo a norma do direito, isto é, legitimamente constituída, tem a função de: unir este grupo em uma determinada comunidade eclesial compacta e hierarquicamente organizada como uma Igreja; providenciar pelo bem espiritual do mesmo9.
c) Reconhecimento expresso ou tácito da suprema autoridade da
Igreja, isto é, do Papa. Portanto, a comunhão hierárquica com o Romano Pontífice, entendida como unidade e realidade orgânica, é consequentemente um elemento constitutivo e integrante do status canônico de Igreja sui iuris10. Comunidade de fiéis e hierarquia são
elementos internos, materiais, mas não ainda suficientes. Eles devem ser completados também por um elemento externo e formal, isto é, o reconhecimento da suprema autoridade da Igreja. Isto significa que a autonomia de cada Igreja sui iuris, dentro da Igreja católica, é relativa, delimitada pela norma do direito promulgado ou aprovado pela suprema autoridade da Igreja.
7 Cf. Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 2.
8 “Clérigos” são os que receberam ordens sacras: Bispos, sacerdotes e diáconos. Veja o termo no Decreto
“Orientalium Ecclesiarum”, n. 4.
9 Cf. Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 4.
10 Portanto, é um gravíssimo erro por ignorância um católico considerar “não católica” uma Igreja que possui estes elementos.
11
1.3. ORIGEM E ELENCO DOS RITOS
A origem das diversas Igrejas sui iuris e dos respectivos ritos é clara ao ponto de ser definida pelo Direito canônico oriental: “Os ritos, dos quais se trata no Código, são – a não ser que conste diversamente – aqueles que nascem das tradições Alexandrina, Antioquena, Armena, Caldeia e Constantinopolitana”11.
Isto significa que cada uma das Igrejas orientais sui iuris tem suas raízes numa destas cinco matrizes da fé e tem o próprio rito. Cada Igreja sui iuris, ainda antes do reconhecimento do seu status jurídico por parte da autoridade suprema da Igreja, se distingue e se identifica pelo seu rito, ou seja, em virtude do sacro patrimônio teológico, jurídico, litúrgico e espiritual, formado progressivamente no decorrer dos séculos.
No âmbito de cada uma destas cinco tradições acima citadas nasceram diversos ritos. Isto significa que o rito não se identifica com a tradição, mas é uma expressão histórica e real de tal tradição. Portanto, muitas Igrejas orientais sui iuris têm origem na mesma tradição (numa das cinco), mas cada uma tem o próprio rito12.
Originadas nestas cinco tradições, 23 Igrejas orientais sui iuris e seus respectivos ritos sãо parte constitutiva e integrante da Igreja católica e são Igrejas particulares, distintas13 pelas formas de culto litúrgico e piedade popular, pela
disciplina sacramental14 e canônica15, como também pelo patrimônio teológico
e espiritual. Diversamente das famílias ou federações de Igrejas formadas pelo
11 CCEO, can. 28-§ 2. (Minha tradução)
12 faz exceção somente a Igreja armena que coincide e se concretiza na Tradição armena.
13 Considero importante, aliás necessário, repetir aqui uma lição elementar no sentido de enfatizar a enorme diferença entre “distinguir” e “separar”. Durante o meu serviço sacerdotal, inclusive dois anos na Nunciatura Apostólica na Ucrânia (1992-1994), encontrei muitos católicos do rito latino ou de um dos diversos ritos orientais, incapazes de diferenciar estes dois verbos. Distinguir-se pelo próprio rito - patrimônio litúrgico,
teológico, espiritual e disciplinar - e mantê-lo, não significa “separar-se” da Igreja católica, mas cumprir um
dever previsto pela disciplina da mesma Igreja católica e enriquecê-la. A catolicidade não está num rito ou no outro! Nenhum dos 24 ritos (1 Romano /Latino/ e 23 orientais) não pode monopolizar a qualificação “católico”. É completamente errado dizer, por exemplo, “rito católico”. Todos os ritos são um inestimável patrimônio da Igreja católica. O cristão católico que não conhece essa realidade deveria solicitar com urgência uma lição de catequese elementar, pois não conhece a Igreja à qual pertence nem a sua visão eclesiológica dos diferentes ritos, podendo, por sua ignorância, cometer erros gravíssimos contra partes integrantes da Igreja católica e contra a união dos cristãos.
14 Cf. Orientalium Ecclesiarum, nn. 12-18. Mais tarde o Código dos Cânones das Igrejas Orientais (CCEO), promulgado pelo Sumo Pontífice João Paulo II em 1990, deu normas completas e precisas sobre a disciplina sacramental nas Igrejas católicas orientais sui iuris (cf. CCEO, can. 667 e seguintes). A título de exemplo, essa disciplina prescreve três Sacramentos da iniciação cristã para os católicos orientais: Batismo, Unção com o santo óleo do Crisma (“crismatio sancti Myri = crismazione del santo Myron”) e Divina Eucaristia.
15 Na Igreja católica ha dois diversos regimentos canônicos: o Código de Direito Canônico (CIC) è o regimento canônico da parte da Igreja católica do rito romano ou latino; o Código dos Cânones das Igrejas Orientais (CCEO) é o regimento próprio das 23 Igrejas católicas sui iuris dos diversos ritos orientais. Considero um grande auspício da Igreja católica que cada estudante, ao concluir a faculdade de teologia, conheça bem esta diferença (não separação!) e jamais cometa o erro gravíssimo em continuar afirmando que “tudo é mesma coisa”. Estudantes católicos pertencentes a uma das Igrejas católicas orientais sui iuris, que terminam a faculdade de teologia sem o devido curso sobre o próprio CCEO têm estudos teológicos incompletos.
12
reconhecimento mútuo de corpos eclesiais distintos16, a Igreja Católica forma
uma única Igreja encarnada em uma pluralidade de Igrejas locais ou particulares – Igrejas sui iuris.
Em outras palavras, estando em plena comunhão com o Papa e, portanto, também entre elas, as Igrejas católicas orientais sui iuris, juntamente à Igreja católica de rito Latino, fazem presente em cada uma delas, em cada uma das suas partes (dioceses ou eparquias), e no conjunto de todas elas, a única Igreja católica no mundo.
Eis aqui o elenco dessas 24 Igrejas católicas sui iuris, distintas por tradição litúrgica:
Uma (1) IGREJA sui iuris de rito latino: Igreja católica latina, na qual se
praticam vários ritos litúrgicos, mas esses ritos não devem ser confundidos com os ritos ou as Igrejas sui iuris orientais, isto é, esses ritos não formam “Igrejas Particulares” como nas Igrejas orientais. Entre tais ritos litúrgicos latinos constam:
o
• Rito romano latino (o mais difundido e englobante);
o rito
• ambrosiano - composto por São Ambrósio, da Igreja de
Milão (Itália); o rito
• moçarábico - composto por São Leandro e São Isidoro
em Toledo (Espanha); o rito
• bracarense (Braga - Portugal); e
os ritos das ordens religiosas como os Beneditinos, •
Dominicanos, Cartuchos, Carmelitas Calçados e outros que guardam certos costumes litúrgicos diferentes da liturgia gregoriana, conservando assim os ritos antigos.
Quinze (15) IGREJAS sui iuris de rito bizantino:
Igreja católica ítalo-albanesa (na Itália, nas dioceses de Lungro e Piana
degli Albanesi);
Igreja greco-católica albanesa (Albânia); Igreja greco-católica bielorussa (Bielorússia); Igreja greco-católica búlgara (Bulgária);
Igreja greco-católica croata (eparquia de Krijévtchi, na Croácia); Igreja greco-católica eslovaca (Eslováquia);
Igreja greco-católica húngara (hungria);
Igreja greco-católica da Grécia (Grécia e Turquia); Igreja greco-católica macedônica (Macedônia);
Igreja greco-católica melquita (Síria, Líbano, Israel, Palestina, Jordânia, 16 Como, por exemplo, a Comunhão Anglicana ou a federação luterana mundial.
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Iraque, Egito, Brasil e comunidades médio-orientais no mundo);
Igreja greco-católica romena (Romênia, Brasil);
Igreja greco-católica rutena: eparquia de Mukátchevo, no estado
Zakarpátia (Ucrânia) e na diáspora, especialmente nos Estados Unidos.;
Igreja greco-católica russa (Rússia, Brasil);
Igreja greco-católica da Sérvia e Montenegro (Sérvia e Montenegro); Igreja greco-católica ucraniana:17 na Ucrânia (exceto a Eparquia de
Mukátchevo – ou seja, na Igreja greco-católica rutena) e na diáspora em muitos países: Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, frança, Paraguai, Polônia, e demais comunidades ucranianas no mundo.18 Esta, em número, é a maior Igreja católica oriental no mundo.
Duas (2) IGREJAS sui iuris de rito alexandrino:
Igreja católica copta (Egito, Brasil);
Igreja católica etíope (Etiópia, Eritréia e Brasil).
Três (3) IGREJAS sui iuris de rito antioqueno ou siríaco ocidental:
Igreja maronita (Líbano, Síria, Cipro, Israel, Palestina, Egito, Jordânia,
Brasil e diáspora sírio-libanesa no mundo);
Igreja católica siríaca (Líbano, Iraque, Jordânia, Kuwait, Palestina, Egito,
Sudão, Síria, Turquia, Estados Unidos, Canadá, Venezuela e Brasil);
Igreja siríaca malancarês católica (Índia).
Duas (2) IGREJAS sui iuris de rito siríaco oriental:
Igreja Caldeia católica (Iraque, Iran, Líbano, Egito, Síria, Turquia, Estados
Unidos);
Igreja siríaca malabarês católica (Índia e Estados Unidos).
Uma (1) IGREJA sui iuris de rito armênio:
Igreja Armênia católica (Líbano, Iran, Iraque, Egito, Síria, Turquia, Israel,
Palestina, Itália, Brasil e diáspora armênia no mundo).
Observação: No Brasil somente três dentre as acima indicadas (Igreja greco-católica melquita, Igreja Greco-católica ucraniana e Igreja maronita) têm hierarquia formada. As outras não possuem hierarquia própria e têm como atual Ordinário Sua Excelência Reverendíssima Dom Walmor Oliveira de Azevedo (de Belo horizonte).
17 No Brasil o seu nome é simplificado com o título “Igreja Ucraniana Católica”, distinguindo-a da “Igreja Ucraniana Ortodoxa”. Cf. KhATLAB, Roberto, As Igrejas orientais católicas e ortodoxas - tradições vivas, Ed. Ave Maria, São Paulo 1997.
18 Nos últimos 10 – 15 anos os ucranianos greco-católicos e também os ortodoxos, emigraram em massa para vários países, especialmente na Europa, em busca de emprego remunerado: Espanha, Itália, Portugal, Grécia e outros.
14
2. A IGREJA CATÓLICA PERANTE A PLURALIDADE DOS RITOS
Nesta segunda parte respondo à pergunta de máxima importância: que posição a Igreja católica tomou em relação à pluralidade dos ritos? Isto é, qual é a visão eclesiológica da Igreja católica de todos estes diferentes ritos?
2.1. DIVERSIDADE E UNIDADE
Vamos começar da Lumen Gentium:
Em virtude desta catolicidade cada uma das partes traz seus próprios dons às demais partes e a toda a Igreja. Assim o todo e cada uma das partes aumentam, comunicando entre si todas as riquezas e aspirando à plenitude na unidade. Daí resulta que o Povo de Deus não é só a reunião dos diversos povos, mas em sua estrutura interna é também composto de várias ordens. Pois há diversidade entre seus membros, quer de ofícios, enquanto alguns exercem o sagrado ministério a bem de seus irmãos; quer de condição e modo de vida, enquanto um maior número, no estado religioso, tendendo à santidade por um caminho mais estreito, estimula os irmãos com o seu exemplo. Por isso também na comunhão eclesiástica há legitimamente Igrejas particulares gozando de tradições próprias, permanecendo íntegro o primado da Cátedra de Pedro, que preside a assembleia universal da caridade, protege as legítimas variedades e ao mesmo tempo vigia para que as particularidades não prejudiquem a unidade, mas antes estejam a seu serviço.19
Comentário: A Igreja católica não quer a uniformização dos ritos e Igrejas
particulares (sui iuris), mas quer diversidade na unidade.
2.2. IDENTIDADE AUTENTICAMENTE CATÓLICA
Juntamente com a Igreja de Rito Latino, nós, orientais católicos, formamos 24 Igrejas sui iuris, cada uma conservando as legítimas diferenças, mas todas enraizadas na mesma fé, portanto todas são católicas. A catolicidade e a
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identidade católica não consistem e não subsistem num dos 24 Ritos (o Latino e 23 orientais), mas na unidade em Cristo e na fidelidade ao Papa - único Pastor, e é nisso que consiste a nossa autêntica identidade católica. Repito: não existe um Rito que é “católico” ou algum Rito que “não é católico”. A Igreja católica NÃO UNIfORMIZA OS RITOS, mas quer que todos eles sejam mantidos, pois são um inestimável e comum patrimônio teológico, litúrgico, espiritual, cultural.
Vejamos o que diz a nossa Igreja sobre isso:
“Tais Igrejas particulares, tanto do Oriente como do Ocidente, embora difiram parcialmente entre si pelo que chamam de Ritos, isto é, pela liturgia, pela disciplina eclesiástica e pelo patrimônio espiritual, são, todavia, igualmente confiadas ao governo pastoral do Pontífice Romano, que por determinação divina sucede ao Bem-aventurado Pedro no primado sobre a Igreja universal.”20
2.3. SÃO IGUAIS NA DIGNIDADE, NOS DIREITOS E NAS OBRIGAÇÕES TODAS AS 24 IGREJAS CATÓLICAS SUI IURIS (UMA LATINA E 23 ORIENTAIS)
Por serem igualmente confiadas ao governo pastoral do Papa, todas as
Igrejas sui iuris católicas “gozam de dignidade igual, de modo que nenhuma delas preceda as outras em razão do rito; gozam dos mesmos direitos e se atêm às mesmas obrigações, também à de pregar o Evangelho em todo o mundo (cf. Mc 16,15), sob a direção do Pontífice Romano.”21
2.4. IGUAL DIREITO AO CRESCIMENTO E À hIERARQUIA PRÓPRIA EM QUALQUER PARTE DO MUNDO
“Proveja-se, portanto, no mundo inteiro, à tutela e ao incremento de todas as Igrejas particulares. E onde for necessário para o bem espiritual dos fiéis, constituam-se paróquias e hierarquia própria.”22
2.5. DIREITO E DEVER À DISCIPLINA PRÓPRIA
(...) Tanto as Igrejas do Oriente como as do Ocidente têm o direito e o dever de se reger segundo as disciplinas
20 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 3. 21 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 3. 22 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 4.
16
próprias peculiares, sempre que elas se recomendarem por veneranda antiguidade, forem mais côngruas aos costumes de seus fiéis e parecerem mais aptas a buscar o bem das almas.23
2.6. A VARIEDADE NÃO É DIVISÃO, MAS MANIFESTAÇÃO DA UNIDADE ECLESIAL “Entre elas24 vigora admirável comunhão, de tal forma que a variedade
na Igreja, longe de prejudicar-lhe a unidade, antes a manifesta”25. Essa unidade
requer unidade da ação:
os hierarcas das várias Igrejas particulares com jurisdição no mesmo território cuidem de, mediante encontros periódicos, favorecer a unidade da ação; e, unidas as forças, ajudem as obras comuns, a fim de promover mais desimpedidamente o bem da religião e proteger mais eficazmente a disciplina do clero.26
(...)
Longe de obstar à unidade da Igreja, certa diversidade de costumes e usos, como acima se lembrou, antes aumenta-lhe o decoro e contribui não pouco para cumprir sua missão. Por isso o Sagrado Sínodo, para tirar toda dúvida, declara que as Igrejas do Oriente, lembradas da necessária unidade de toda a Igreja, têm a faculdade de se governar segundo as disciplinas próprias, mais côngruas à índole de seus fiéis e mais aptas a atender ao bem das almas. A observância perfeita deste tradicional princípio, nem sempre respeitado, é condição prévia indispensável para a restauração da união.27
2.7. O PATRIMÔNIO É COMUM
“O Santo Sínodo honra este patrimônio eclesiástico e espiritual, não só o estima com o justo louvor, mas também o considera firmemente como patrimônio da Igreja universal de Cristo.”28
23 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 5.
24 Isto é, entre as várias “Igrejas particulares” que no CCEO e nesta abordagem chamamos “Igrejas sui iuris”. 25 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 2.
26 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 4. 27 Concílio Vaticano II, Decreto “Unitatis Redintegratio”, n. 16. 28 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 5.
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2.8. CONSERVAR E ADAPTAR
A intenção da Igreja Católica é que permaneçam salvas e íntegras as tradições de cada Igreja particular ou Rito, bem como quer igualmente adaptar seu modo de vida às várias necessidades dos tempos e lugares.29
(...)
Saibam e tenham certeza todos os Orientais de que sempre podem e devem observar seus legítimos ritos litúrgicos e sua disciplina; só serão introduzidas modificações em vista do progresso próprio e orgânico. Tudo isso, pois, deve ser observado pelos próprios Orientais com a maior fidelidade. E eles devem adquirir um conhecimento cada dia maior e um uso mais perfeito destes elementos. E se indevidamente os tiverem abandonado em vista das circunstâncias de tempos ou pessoas, procurem retornar às tradições ancestrais30.
(...)
Recomenda-se com instância às Ordens e Congregações de rito latino que trabalham nos países do Oriente ou entre os fiéis orientais, que, para maior eficácia do apostolado e na medida do possível, constituam casas ou mesmo províncias de rito oriental.31
O rito dos Orientais separados (não católicos) não deve mudar caso eles queiram unir-se com a Igreja católica. A Igreja católica também reconhece todos os sacramentos dos Orientais separados, como também permite a administração dos sacramentos aos Orientais separados. Vejamos isso na expressão do Concílio:
Dos Orientais separados que, sob o influxo da graça do Espírito Santo, se encaminham à unidade católica não se exija mais que a simples profissão de fé católica. E já que entre eles se conservou o sacerdócio válido, aos clérigos orientais que entram para a unidade católica dê-se a faculdade de exercerem a própria Ordem, segundo as normas estabelecidas pela competente Autoridade.32
29 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 2. 30 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 6. 31 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 6. 32 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 25.
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(...)
Como essas Igrejas (trata-se de Igrejas Orientais não católicas), embora separadas, têm verdadeiros sacramentos, principalmente, porém, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia, ainda se unem mais intimamente conosco.33
(...)
Postos os mencionados princípios, podem ser conferidos os sacramentos da Penitência, Eucaristia e Unção dos Enfermos aos Orientais que, de boa-fé, se acham separados da Igreja Católica, quando espontaneamente os pedem e estão bem dispostos. Também aos católicos é permitido pedir os mesmos sacramentos aos ministros acatólicos em cuja Igreja haja sacramentos válidos, sempre que a necessidade ou a verdadeira utilidade espiritual o aconselhar e o acesso ao sacerdote católico se torne física ou moralmente impossível.34
2.9. APROVAÇÃO DA DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
O Santo Sínodo Ecumênico confirma, louva e, quando for o caso, deseja se restaure a antiga disciplina sacramentaria vigente nas Igrejas Orientais, assim como as práticas que se relacionam com sua celebração e administração.35
(...)
Seja plenamente restaurada a disciplina referente ao ministério da S. Crisma vigente entre os Orientais desde os tempos antigos. Daí que os presbíteros podem conferir este sacramento com o Crisma bento pelo Patriarca ou pelo Bispo.”36
(...)
Todos os presbíteros orientais podem administrar este sacramento a todos os fiéis de qualquer Rito, sem
33 Concilio Vaticano II Decreto “Unitatis Redintegratio”, n. 15. 34 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 27. 35 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 12. 36 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 13.
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excetuar o latino, seja juntamente com o Batismo, seja separadamente, ... Também os presbíteros do Rito latino, ... podem administrá-lo aos fiéis das Igrejas Orientais sem prejuízo do Rito, observadas porém as prescrições de direito comum ou particular para a liceidade.37
2.10. IGREJAS CATÓLICAS ORIENTAIS TÊM PECULIAR OBRIGAÇÃO NA UNIÃO DOS CRISTÃOS
Às Igrejas Orientais que vivem em comunhão com a Sé Apostólica de Roma compete a peculiar obrigação de favorecer, segundo os princípios do decreto sobre
o Ecumenismo deste S. Sínodo, a unidade de todos os
cristãos, principalmente os orientais (...)38
2.11. DEVER DA INSTRUÇÃO SOBRE OS RITOS E DO CONHECIMENTO RECÍPROCO ENTRE AS IGREJAS CATÓLICAS SUI IURIS
Todos os clérigos e os que vão ascendendo às ordens sacras sejam bem instruídos acerca dos Ritos e principalmente das normas práticas nas matérias inter-rituais; e até mesmo aos leigos, na instrução catequética, se ensine dos Ritos e suas normas39.
Os que, por motivos do ofício ou do ministério apostólico, têm contacto frequente com as Igrejas Orientais ou seus fiéis, busquem um melhor conhecimento e respeito dos ritos, da disciplina, da doutrina, da história e da índole dos Orientais, de acordo com a importância do cargo que exercem40.
Comentário: Prescindindo da sua causa (que pode ser a xenofobia, o
distanciamento ou estranhamento por motivos subjetivos, falta de interesse ou oportunidade de aprender e conhecer) considero a ignorância como principal causa de muitos erros, especialmente aqueles que – como consequência – causam
37 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 14. 38 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 24. 39 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 4
40 Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 6. Cf. a prescrição do CCEO, cânones 40 e 41 sobre a instrução (ponto 2.12 desta abordagem).
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graves danos para a unidade da Igreja católica e para o seu empenho ecumênico. Para superar essa ignorância a Igreja católica, tomando posição do mais alto nível que é o Concilio Ecumênico Vaticano II, dá a todos os católicos de todos os ritos um imperativo categórico: “sejam bem instruídos acerca dos Ritos e principalmente das normas práticas nas matérias inter-rituais”. Essa instrução tem destinatário bem definido: “todos os clérigos e os que vão ascendendo às ordens sacras... e até mesmo aos leigos”. Portanto, a Igreja católica não quer ver ninguém dos seus fiéis se estranhando reciprocamente. Ela não quer ver um católico do Rito Latino perguntando ao católico de um dos Ritos Orientais, ou vice-versa: “por que vocês fazem assim e não como nós?”, mas – “como vocês fazem essa parte, como vocês liturgicamente manifestam esse conteúdo da fé, o que significa no vosso rito tal gesto ou símbolo? ... etc.” A Igreja católica não quer ver seus fiéis de um dos ritos orientais numa sociedade majoritariamente latina (ou, no caso da Ucrânia – fiéis de rito latino numa sociedade majoritariamente bizantina) perguntando: “como sobreviver sem ser assimilados pela maioria? Como conseguir manter o nosso rito, o nosso patrimônio teológico, litúrgico, espiritual, cultural?” A Igreja católica quer ver todos eles dando prova viva de que a variedade de ritos é manifestação da sua unidade e comunhão.41
Em ocasião do centenário da “Orientalium Dignitas” do Papa Leão XIII, no dia 2 de maio de 1995 João Paulo II publicou uma carta apostólica “Orientale Lumen”, na qual reforçou a recomendação da Igreja católica do conhecimento
recíproco entre os fiéis Latinos e Orientais: “Penso que um modo importante para crescermos na compreensão recíproca e na unidade, consiste precisamente em melhorar o nosso conhecimento uns dos outros” – afirma, e indica entre outras coisas a necessidade de “formar, em instituições especializadas sobre o Oriente cristão, teólogos, liturgistas, historiadores e canonistas, que, por sua vez, possam difundir o conhecimento das Igrejas do Oriente; oferecer, nos seminários e faculdades teológicas, um ensino adequado sobre tais matérias, sobretudo aos futuros sacerdotes. São indicações sempre muito válidas, sobre as quais desejo insistir com ênfase particular.”42
Para aprofundar tal conhecimento João Paulo II recomenda o contato recíproco, as iniciativas de intercâmbio e as peregrinações comuns.43
Não é sem motivo que o Conselho Pontifício para a promoção da unidade dos cristãos, no DIRETÓRIO PARA A APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS E NORMAS SOBRE O ECUMENISMO, dedicou todo o capítulo III ao tema “A formação para
o ecumenismo na Igreja católica”.44 De fato, sem um conhecimento recíproco,
respeito e colaboração entre as Igrejas católicas, mas especialmente sem uma adequada formação ecumênica dos fiéis, não é possível realizar nenhum plano ecumênico.
41 Cf. Concílio Vaticano II, “Orientalium Ecclesiarum”, n. 2.
42 João Paulo II, Carta apostólica “Orientale Lumen” de 2 de maio de 1995, n. 24. 43 Cf. o.c., n. 25.
44 DIRETÓRIO PARA A APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS E NORMAS SOBRE O ECUMENISMO, Ed. Paulinas, São Paulo, 3ª Ed. – 2004, nn. 55-91.
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2.12. AS NORMAS DO CÓDIGO DOS CÂNONES DAS IGREJAS ORIENTAIS (CCEO) As orientações do Concilio Vaticano II adquirem no CCEO não somente um teor de recomendação ou pia exortação, mas constituem um dever jurídico, isto é, fazem parte dos direitos e deveres de todos os orientais católicos. Vejamos alguns cânones:
Os orientais não católicos (ortodoxos) que entram em plena comunhão com a Igreja católica devem conservar e observar o próprio rito, sendo inscritos à Igreja católica sui iuris do rito correspondente ao próprio:
Os batizados acatólicos que chegam à plena comunhão com a Igreja católica, conservem em todos os lugares o próprio rito, respeitem-no e, segundo as próprias forças, observem-no em todos os lugares; sejam por isso inscritos à Igreja sui iuris do mesmo rito, salvo o direito de recorrer à Sé Apostólica em casos especiais de pessoas, de comunidades ou de regiões.45
Sobre a conservação do Rito:
Os ritos das Igrejas orientais seja escrupulosamente observados e promovidos como patrimônio da Igreja universal de Cristo, no qual resplandece a tradição que provém dos Apóstolos por meio dos Padres, e que afirma a divina unidade da fé católica na verdade.46
Evitar alterações do rito inclusive por razões ecumênicas:
“§1. Os hierarcas cabeças das Igrejas sui iuris e todos os outros hierarcas cuidem com máximo empenho a conservação fiel e a diligente observação do próprio rito e não lhe introduzam mudanças se não por razão de um seu orgânico progresso, levando todavia em consideração a recíproca fraternidade e a unidade dos cristãos.
§2. Todos os clérigos e todos os membros dos institutos de vida consagrada devem observar fielmente o próprio rito assim como adquirir um conhecimento sempre maior e um exercício mais perfeito do mesmo.
45 CCEO, can. 35. (tradução minha). 46 CCEO, can. 39. (tradução minha).
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§ 3. Também todos os outros fiéis favoreçam o conhecimento e a estima do próprio rito e devem observá-lo em cada lugar, a não ser que alguma coisa seja excetuada pelo direito.”47
Sobre a instrução dos fiéis católicos, inclusive do rito latino:
“Os fiéis de qualquer Igreja sui iuris, também da Igreja latina, que em razão do ofício, do ministério ou do cargo têm frequentes relações com os fiéis de uma outra Igreja sui iuris, sejam formados com muito cuidado no conhecimento e na prática do rito da mesma Igreja, conformemente à importância do ofício, do ministério ou do cargo que cumprem.”48
3 CONCLUSÕES
A Igreja católica ainda hoje sofre conseqüências dos erros causados pelo preconceito e pela dificuldade de certos fiéis em aceitar a diversidade dos Ritos e Igrejas sui iuris na unidade eclesiástica. hoje, em conseqüência das migrações dos povos, não há “separação” nem “distinção” entre orientais e ocidentais no sentido geográfico, pois muitos orientais se encontram no ocidente, e ocidentais - no oriente. Inclusive os católicos de diversos ritos e Igrejas sui iuris.49
Conhecer-se reciprocamente e colaborar é a melhor solução. É completamente anacrônico hoje50 pensar que a Igreja católica tem ou deve ter somente um Rito ou que em
qualquer que seja diferença no Rito faz com que uma comunidade cristã não seja católica. Em base à visão da Igreja católica dos diversos Ritos e respectivas Igrejas sui iuris, é anacrônico e sem fundamento também a opinião de certos ortodoxos que argumentam ser “uma tradição dos orientais” não fazer parte da
47 CCEO, can. 40. (tradução minha). 48 CCEO, can. 41. (tradução minha).
49 Na Ucrânia, por exemplo, há várias Igrejas católicas orientais sui iuris (Igreja greco-católica ucraniana, Igreja greco-católica rutena e Igreja Armêna católica), mas também a Igreja católica latina – esta última é minoria entre as outras, mas tem hierarquia própria e é bem organizada. Outro exemplo, num território ocidental muito pequeno, isto é, no estato de New Jersy (Estados Unidos), com a Igreja católica latina há cinco Igrejas católicas sui iuris, cada uma com hierarquia própria, com boas relações de colaboração entre todas. A situação do Brasil foi abordada no texto.
50 De fato essa visão não se justifica em nenhuma época da história da Igreja. Após o Cincílio Vaticano II, a promulgação do Código dos cânones das Igrejas Orientais e outros documentos, qualquer visão contrária à visão eclesiástica por parte dos católicos representa uma ignorância absurda. Um adequado conhecimento da história da Igreja, e das diversas Igrejas católicas orientais sui iuris em particular, é sempre uma grande ajuda para superar qualquer que seja visão distorcida da realidade atual.
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Igreja católica.51 Muitas pessoas manifestam a tendência de eliminar as legítimas
diferenças, acham que precisa uniformizar os Ritos. Mas a Igreja católica não quer isso. Ela quer a diversidade na unidade em Cristo. A Igreja católica quer ser um rebanho espalhado em todo o mundo – “orientais e ocidentais” sustentados pelas raízes de uma só fé, conservando o comum patrimônio dos diversos Ritos, formando todos juntos “um só rebanho e um só Pastor” (Jo 10,16).
Múltiplos, diversos, mas unidos. Teoricamente isso é muito belo e fácil. Tornar essa bela verdade em vida requer de cada um o devido esforço do conhecimento recíproco através de uma instrução autenticamente católica em todas as faculdades católicas de Teologia. Isso requer a formação do clero e dos catequistas que, conhecendo a Igreja católica e a sua visão dos diferentes Ritos, transmitam tal conhecimento às novas gerações. O conhecimento recíproco requer encontros e contatos freqüentes, especialmente entre os líderes e representantes das diversas Igrejas sui iuris que se encontram no mesmo território. Os atuais meios de comunicação com certeza podem favorecer este conhecimento. Certos erros cometidos por falta de conhecimento da visão eclesiológica não se justificam mais meio século depois do Concílio Vaticano II e vários outros documentos citados.
Entre os que se conhecem como católicos, não obstante a diversidade de Ritos,é possível o respeito recíproco. E entre os que se respeitam reciprocamente, inclusive em cumprimento das prescrições da disciplina eclesiástica52, torna-se
possível também a colaboração recíproca favorecendo assim “a unidade da ação” recomendada pelo Concílio.53
Cada uma das 23 Igrejas católicas orientais sui iuris, não deve tornar o seu Rito “mais semelhante ao Rito latino” para manter ou garantir a própria catolicidade. Pelo contrário, deve conhecer, amar e manter o Rito da própria Igreja sui iuris. Não deve haver diferença entre o Rito de uma das Igrejas católicas orientais sui iuris e a sua correspondente Igreja oriental ortodoxa (ou acatólica): a diferença, por exemplo, entre uma Igreja ortodoxa ucraniana e a Igreja greco-católica ucraniana consiste somente no fato que a primeira é separada da Igreja católica e a segunda faz parte da Igreja católica. Portanto, não só do ponto de vista do Rito, mas também do ponto de vista arquitetônico, é possível saber se uma Igreja oriental é católica ou ortodoxa (acatólica) somente por meio de uma placa ou de uma pessoa competente que a define.
Ser católicos hoje significa pertencer a uma Igreja de orientais e ocidentais com 24 Ritos e Igrejas sui iuris diferentes. Significa conhecer a visão da Igreja católica em relação aos diversos Ritos e observar as prescrições da mesma Igreja sobre essa diversidade, pertencendo fielmente a uma dessas Igrejas católicas sui
51 Infelizmente, por causa de preconceitos e falta de adequado conhecimento, ainda hoje acontecem casos em que certos ortodoxos não reconhecem os sacramentos de nenhuma das Igrejas católicas sui iuris, nem mesmo das orientais, e consideram as Igrejas católicas orientais “um obstáculo para a união dos cristãos” e até “heréticas” por serem unidas com o Romano Pontífice, mantendo o próprio Rito.
52 Principalmente o Código de Direito Canônico (CIC) è o Código dos Cânones das Igrejas Orientais (CCEO). 53 Cf. Concílio Vaticano II, Decreto “Unitatis Redintegratio”, n. 16.
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iuris conforme as mesmas prescrições eclesiásticas. Obediência à Igreja é de sentir
e pensar com a Igreja, assimilando também a visão que a Igreja católica tem de si mesma.
Mas sempre que se fizer necessário para o cultivo da diversidade na unidade, REPARTIR, RECOMEÇAR DE CRISTO, recebendo e realizando o que Ele nos faz e nos pede: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,19-20).
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A TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE
DA LITURGIA ORIENTAL
Pe. Mario Marinhuk, OSBM *
RESUMO: A centralidade do mistério de Cristo para as Igrejas Católicas Orientais está na celebração da Divina Liturgia. Ao contrário da Igreja Romana, os orientais fazem girar sua razão de ser na liturgia, a ponto de dizer “nós não criamos a nossa liturgia, mas é ela que nos cria”. Antes de ser pensada, teologizada, estudada ou explicada, ela é vivenciada. Pois, ela faz experimentar e realizar o mistério de Cristo. Ela visa, portanto, tornar os fiéis outros Cristos, con-formados a Ele e co-edificados nEle. Da liturgia é que brota a teologia (só quem reza verdadeiramente faz teologia verdadeira). A liturgia, inclusive, é o lugar da teofania (da manifestação do Divino). E nela o ser humano vai se divinizando. A partir desta centralidade, o texto justifica os diferentes ritos, compara e distingue comportamentos das Igrejas Orientais e latina, a motivação de suas diferenças etc. E concluí afirmando: nossa liturgia é essa realidade: Jesus Cristo em nós.
PALAVRAS CHAVE: Unidade e diversidade; Divina Liturgia; Teofania; Igrejas Orientais; Espiritualidade.
ABSTRACT: The centrality of the mystery of Christ to the Eastern Catholic Churches is the celebration of Divine Liturgy. Unlike the Roman Church, the Orientals are turning their reason for being in the liturgy, to the point of saying: “we do not create our liturgy, but is it what creates us.” Before it be thought, theologized, studied or explained, it is experienced. Because, she does experiment and achieve the mystery of Christ. It therefore aims to turn faithful into other Christs, con-formed to him and co-edified him. The liturgy is the theology that springs (only those who pray truly makes true theology).The liturgy, indeed, is the place of theophany (revelation of the Divine). In addition, It from there the human becoming divine. From this centrality, the text justifies the different rites, compares and distinguishes behaviors of Latin and Oriental Churches, the motivation of their differences and so on. Moreover, it concludes by saying: our liturgy is this reality: Jesus Christ in us.
KEYWORDS: Unity and diversity, Divine Liturgy, Theophany, Eastern Churches, Spirituality.
Artigos
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1. A BUSCA DA UNIDADE NA DIVERSIDADE
A santa Igreja católica, Corpo místico de Cristo, consta de fiéis que se unem organicamente no Espírito Santo pela mesma fé, pelos mesmos sacramentos e pelo mesmo regime. Juntando-se em vários grupos unidos pela hierarquia, constituem as igrejas particulares ou os ritos. Entre elas vigora admirável comunhão, de tal forma que a variedade na Igreja, longe de prejudicar-lhe a unidade, antes a manifesta. Pois esta é a intenção da Igreja católica: que permaneçam salvas e íntegras as tradições de cada Igreja particular ou rito. E ela mesma quer igualmente adaptar a sua forma de vida às várias necessidades dos tempos e lugares (OE N.2).
Portanto, existe unidade e também a diversidade na Igreja de Cristo. Realidades que se manifestaram no decorrer da história, que jamais deveriam criar problemas, mas enriquecer gradualmente a Igreja de Cristo.
Unidade significa que a Igreja é um corpo formado de membros animados
pelo mesmo Espírito Santo.
Diversidade significa que os membros deste mesmo corpo são realmente
diferentes, mas cada um contribui segundo a sua natureza para o bem estar do corpo inteiro.
Quando falamos de diversidade de nenhuma forma devemos pensar na ruptura da unidade, a qual não foi desejada por Cristo.
Acreditamos que a Igreja é uma porque provém de um único Deus, acreditamos também que essa mesma Igreja é diversa porque é católica. Essa é universal porque serve a um único Deus, mas abraça diversos povos.
Afirmamos com os Padres do Concílio de Nicéia (325) e Constantinopla (381), que a Igreja é uma e universal, um corpo animado pelo mesmo Espírito, mas constituída de diversos membros.
A revelação divina é única, mas a comunidade humana à qual a revelação se manifestou é diversificada.
No mundo existem povos, culturas e manifestações religiosas diferentes, todas com a sua história, sua tradição, sua língua específica e diversas expressões, as quais necessariamente devem ser respeitadas, pois é através desse universo de variedades que o todo se completa. Segundo Robert Taft: “As diferenças culturais provocaram a primeira crise enfrentada pela Igreja primitiva: o problema do particularismo diante do universalismo, da diversidade diante da uniformidade. A grande tentação dos cristãos foi a não percepção de que é através da infinidade dos particularismos e pela consequente diversidade que a Igreja pode realizar plenamente a própria universalidade”1.
1 TAfT, Robert. Liturgia come espressione di identità ecclesiale. In: SILVESTRINI, Achile (ed.). L’identità delle
Chiese Orientali Cattoliche: Atti dell’incontro di studio dei Vescovi e dei Superiori Maggiori delle Chiese
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Todavia, para uma grande parte dos ocidentais dos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II, existia um único conceito de Igreja, a Igreja católica universal romana, enquanto as demais não passavam de ritos existentes dentro da Igreja católica apostólica romana. A partir desse modo de pensar, foi-se formando uma profunda idéia de latinização, com a descaracterização de uma das partes integrantes da Igreja católica, aquela de tradição oriental. Em consequência, foi empobrecido o conceito de Igreja universal, pela criação da confusa idéia de subordicionalismo das Igrejas orientais em relação à Igreja de Roma.
Essa concepção um tanto minimalista de Igreja, que desconhece a realidade histórica e eclesial das Igrejas do Oriente, permitiu a expansão e aprofundamento da latinização das Igrejas orientais católicas. Tal situação também levou ao empobrecimento do conceito de Igreja Oriental no meio do clero e dos fiéis da Igreja latina, além de ter infelizmente incidido sobre a praxe litúrgica e disciplinar oriental, alterando inclusive a sua atuação pastoral. Tudo isso se deve ao fato que, os ocidentais possuíam um conceito unilateral do Oriente: generalizavam o mal e negligenciavam o lado positivo da questão. Generalizavam demais os defeitos e abusos introduzidos na Igreja Oriental depois da separação, sem apreciar a perfeita conservação das tradições históricas. Não se fazia outra coisa além de colocar em evidencia todos os defeitos e imperfeições dos Orientais, fomentando com isso o desprezo e o ódio.
Tais idéias discriminatórias e subordinacionalistas foram lentamente se enraizando no meio eclesial, e inclusive foram transplantadas pela Igreja de tradição latina para os diversos continentes em missão, dificultando o posterior diálogo entre os Ortodoxos e a Igreja de Roma. Aqueles, na verdade, percebendo o preconceito e a aversão dos latinos, reagiram com firmeza, bloqueando qualquer possibilidade ecumênica. E aqui temos um dos principais motivos do distanciamento do Oriente cristão em relação aos católicos ocidentais; aqui se encontra a raiz das dificuldades pelas quais passa atualmente o diálogo ecumênico.
2. A DIVINA LITURGIA – UM DOS COMPONENTES DO PATRIMÔNIO DAS IGREJAS ORIENTAIS
Nas Instruções para a aplicação das prescrições litúrgicas do Código dos
Cânones das Igrejas Orientais, a Sé Apostólica deixa claro que o patrimônio
oriental vai além da liturgia. Não devemos reduzir o patrimônio específico das Igrejas Orientais somente na dimensão litúrgica. Por causa da sacralidade dos ritos, a riqueza dos textos passou-se a sublinhar exageradamente a liturgia como o único patrimônio específico dos orientais, esquecendo-se das outras riquezas que profundamente caracterizam as Igrejas cristãs do Oriente. A valorização teológico-simbólica e espiritual, a peculiaridade disciplinar dos orientais também faz parte do patrimônio indiviso da Igreja universal.
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Podemos afirmar então que a liturgia é a expressão mais perfeita e oficial de tudo o que anima qualquer que seja a tradição. Todavia, essa não é absolutamente a única componente de uma particular tradição. Os ritos tanto da Igreja oriental quanto ocidental incluem também todos os outros elementos que se espera encontrar numa cultura católica: escola de Teologia com seus Padres e seus Doutores, disciplina canônica, devoções, monacato, arte, arquitetura, hinos, música e também o próprio espírito que criou tal tradição, que por sua vez se nutre de tal tradição e é essencial para a sua identidade.
Importa deixar claro que para os orientais o rito não é somente um modo diferente de celebrar a missa. É um patrimônio especial com sua riqueza peculiar. Diferencia-se do rito romano pela diversidade de solenidades, pelos seus santos próprios e por tempos específicos de jejuns, santuários característicos, peculiares devoções e diversas práticas devocionais, além de contar com uma particular estrutura hierárquica e Direito Canônico próprio. Portanto, o espírito oriental busca manter uma afinidade bastante estreita com a sua liturgia, fazendo acontecer a união do rito com a cultura e a devoção religiosa. Por esse motivo podemos afirmar que para o oriental, a liturgia não é uma das várias tarefas espirituais: ela é o evento central da vida cristã, expressão suprema da vida em Deus.
Desse modo, para o fiel greco-católico ucraniano, tanto quanto para os demais fiéis orientais, a revelação salvífica de Deus torna a pessoa capaz da vida divina, e a liturgia é o terreno privilegiado do encontro entre o humano e o divino. É o lugar da teofania, lugar no qual o homem vem sendo iniciado na vida divina participando no mistério da redenção. Aqui está a razão do emigrante ucraniano, ao se deslocar para o território brasileiro, ter sentido tão intensamente a falta da própria estrutura eclesial, do próprio rito, das tradições, dos sacerdotes. E isso criou nele o grande desejo de que toda essa riqueza espiritual fosse, o mais rápido possível, transplantada para as novas terras.
As Igrejas orientais vivem, de fato, ao redor de sua liturgia. Esta liturgia ajuda os fiéis a vivenciarem uma fé centralizada nos dogmas, mas também e ao mesmo tempo, os identifica como um povo concreto. Para os orientais, a liturgia foi sempre concebida como vida, e vida sacramental na Igreja. Através dela, o cristão oriental vive o kerigma (do grego: κηρύσσω, que literalmente significa: proclamar. Palavra usada no Novo Testamento para indicar o anúncio da mensagem cristã). A liturgia se manifesta num ambiente familiar, num lugar de encontro: ela avança além dos murros da igreja. Por isso podemos dizer com firmeza que foi através da liturgia que a Igreja greco-católica ucraniana assegurou a sobrevivência de uma fé inabalável entre os ucranianos, capaz de ajudá-los a enfrentar e a vencer as muitas adversidades e perseguições.
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3. O QUE MOTIVOU A DIVERSIDADE:
Sabemos que a liturgia no Oriente se desenvolveu durante os séculos •
nos quais a Igreja se ocupava principalmente dos mistérios da trindade e da encarnação. O grande esforço dos Padres da Igreja do Oriente (Atanásio, Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa entre outros – século IV) foi o de explicar teologicamente os grandes dogmas da fé cristã: a Trindade e a Encarnação. Consequententemente a liturgia se apresenta como o eco dos primeiros grandes concílios da Igreja (Nicéia I – 325 e I Concílio Constantinopolitano – 381).
A liturgia no Ocidente se desenvolve quando a Igreja Ocidental •
procurava entender e exprimir o dom da graça (Agostinho × Pelágio e seus seguidores – a partir de 400 d.C.) que não pode ser conquistada por alguma força humana. Por isso, nas orações litúrgicas a afirmação que a graça é um dom gratuito de Deus é repetida constantemente – A mesma fé, com ênfase diferente.
No Oriente do primeiro milênio se desenvolve a veneração dos •
ícones: imagens sagradas de uma beleza transcendental que não somente representam mas tornam presente aos fiéis o mistério da fé. Esta devoção demonstra um respeito extraordinário da majestade de Deus e a grandeza dos seus santos e uma familiaridade dos mistérios mais sublimes.
No Ocidente do século treze se desenvolve uma memória afetuosa •
pela vida terrestre de Cristo, pela sua humanidade. Inicia-se a era dos presépios e crucifixos realísticos. Os cristãos se alegravam diante de um presépio e se entristeciam aos pés do crucifixo. A mesma devoção, símbolos diversos.
No Oriente, a teologia, isto é a procura pela compreensão dos mistérios •
se tornou cada vez mais contemplativa e menos analítica.
No Ocidente, a contemplação não era ausente, mas a tendência pela •
analise tornou-se mais forte. O mesmo escopo, diversos caminhos. Oriente cristão, observa todo o acontecimento que envolveu a pessoa •
de Jesus Cristo partindo do Mistério. Por isso, segundo os orientais, a basílica onde Jesus Cristo morreu e ressuscitou no Domingo de Páscoa sempre foi denominada, a Basílica da Ressurreição.
Os ocidentais observam esta mesma Verdade partindo da historicidade, •
isto é, do que ela realmente foi. Para isso, a teologia latina acentua o Cristo histórico, isto é, a pessoa humana de Jesus Cristo. Segundo os ocidentais, a basílica onde aconteceu a morte e ressurreição de Jesus Cristo sempre foi denominada, a Basílica do Santo Sepulcro.
30
O sinal da cruz ocidental: cinco dedos unidos manifestam as cinco •
chagas de Cristo, como também uma saudação a toda criação de Deus. A testa simboliza o céu e a sabedoria, o peito simboliza o infinito amor de Jesus, e os ombros significam o poder de Deus e uma oração ao Espírito Santo.
O sinal da cruz Oriental: unem-se os três primeiros dedos da mão •
direita, simbolizando a Trindade, enquanto que os dois dedos restantes, pressionados contra a palma, simbolizam a dupla natureza de Jesus Cristo. Dizendo “Em Nome do Pai”, tocamos com esses três dedos unidos primeiro a testa e, seguidamente, na zona da cintura, simbolizando que o Pai é o Criador do Céu e da Terra; em seguida, dizemos “e do filho” e tocamos com os três dedos unidos no ombro direito - porque o filho, Jesus Cristo, ressuscitou e sentou-se à direita do Pai; finalmente, dizemos “e do Espírito Santo”, tocando com os três dedos unidos no ombro esquerdo - o filho e o Espírito Santo são os dois “braços” do Pai agindo na Criação. Deste modo, traçamos uma cruz sobre o nosso próprio corpo, afirmando, simultaneamente, a nossa fé na Santíssima Trindade e na essência de Cristo.
Por se tratar de outro gênio e temperamento, diferentes rituais e •
devocionais, os orientais acreditam na aparição e intercessão da Virgem Maria, porém para o mundo oriental, as aparições de fátima, Lurdes, Guadalupe, Medjugorje não são manifestações de um mundo cristão universal. Pois a Virgem Maria aparece sem ter entre os braços o filho – uma imagem perfeitamente ocidental, inconcebível no contexto cultural do rito bizantino, onde a Virgem Maria é a Theotókos, a geradora de Deus, tendo total mérito de carregar o seu filho divino. Inseparável de seu filho. Nas suas aparições, a Virgem Maria não recomenda as práticas do Akathistos, Paraklesis (celebração que se realiza através do canto dos cânones, salmos, hinos e litanias), a oração de Jesus, Canon de Santo André de Creta.
Toda a supracitada variedade de expressão revela a insuficiência do conhecimento da liturgia sem um estudo prévio do contexto histórico-social no qual ela se formou. Sabemos que a liturgia deve necessariamente ser vivenciada, antes de ser estudada ou explicada. Segundo oriente cristão, uma teologia que não procede da vida não é teologia, mas um simples exercício acadêmico. Uma teologia que não procede da oração não chega ao seu máximo escopo. Dizia Evagrio Pontico (345-399), amigo intimo de São Basílio e de Gregório Nazianzeno que “Somente o teólogo (contemplativo), verdadeiramente reza e somente quem reza è verdadeiramente teólogo”.