GUERRA SANTA. JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS NO MUNDO MEDIEVAL 1

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GUERRA SANTA. JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS NO MUNDO MEDIEVAL1

André Luiz Gatti Bezerra [PIVIC/CNPq – UFES]

Para alguns autores, a idéia de guerra santa é a aplicação prática do conceito de guerra justa, que é uma construção histórica e religiosa começada na antiguidade com os primeiros Padres da Igreja. A Igreja primitiva rejeitava a violência no âmbito militar, embora as disputas internas não tenham tido seus desfechos dados de forma amistosa. Um exemplo disso é a heresia ariana, fortalecida fora das fronteiras imperiais romanas depois do século IV, quando Teodósio no Edito de Tessalônica e no I Concílio de Constantinopla impôs o cristianismo como religião oficial imperial e a ortodoxia como única linha de conduta religiosa a ser seguida.2 Algumas correntes historiográficas defendem que tal fato acontece porque o arianismo era mais simples e melhor aceito pelos germanos em seu baixo nível cultural, e tal heterodoxia foi reprimida, é claro, pela mão humana. Porém, no que diz respeito ao caráter belicoso do Império, a Igreja primitiva não aceitava lutar, e antes disso jurar, por um Imperador pagão que se denominava como Deus.

Essa posição, mas não só por ela, resultou em várias perseguições. A mais famosa delas é a de Diocleciano (285-305).3 Essas perseguições por sua vez resultaram em inúmeros mártires, que foram muito importantes para a expansão do Cristianismo, pois acabaram servindo como propaganda da religião, aumentando o proselitismo e as conversões. O martírio era utilizado pelo Império como instrumento repressivo e de controle social, porque o cristão era morto na arena, na maioria das vezes por uma fera, o que caracterizava uma celebração pública que se torna de maneira inversa uma oportunidade para o mártir em seus últimos momentos de vida pregar a palavra de Cristo. Sendo assim, o mártir servia também como uma amálgama para a Cristandade que surgia e mesmo sem saber colaborou para a formação de uma ideologia que floresceria no ideal cruzadístico séculos mais tarde. Além de propagador da fé cristã, o mártir era o exemplo elucidativo do que tinha acontecido com

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Trabalho inserido no grupo de pesquisa intitulado “Política e Religião no Ocidente Tardo Antigo e Medieval” coordenado pelo Profº Dr. Sergio Alberto Feldman

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MITRE, E.; GRANDA, C.. Las grandes herejías de la Europa Cristiana (380-1520). Madrid: Istmo, 1983. 3

Ver sobre isso SILVA, G. V.; MENDES, N. M. In SILVA, G. V.; MENDES, N. M. (Orgs). Repensando o

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Jesus Cristo. De acordo com Bingemer, o mártir assusta e surpreende o espectador que não sabe de onde aquele ser humano que está subjugado no meio da arena tira tanta força e alegria. A autora é claro ao dizer que para o mártir a morte resulta em glória, pois é inaceitável trair a religião, logo, a melhor saída é o combate, que nesse caso não é enfrentar o seu algoz, mas sim combater a infidelidade, que seria entregar o que lhe é sagrado para as autoridades em troca de poder viver. O mártir tem em sua morte a certeza da redenção perante o divino, pois para os cristãos do princípio da Igreja, o dogma da “ressurreição” da carne deveria ser apreciado através de exemplos, no caso, os próprios mártires.4 Creio que é nessa certeza da redenção através do martírio que se inicia a idéia da convicção da Igreja medieval na morte em combate por Deus, seus propósitos e filhos.

Essa situação só muda na assim chamada “virada constantiniana” no século IV da era comum, quando o cristianismo se torna a religião oficial do Império através do Edito de Milão,5 que possibilita a transformação da religião cristã em uma religião dominante.6 Não se pode esquecer que além do edito ser de caráter religioso, não se excluía a partir de agora a massiva participação dos cristãos nas políticas imperiais. Nesse momento então, a relação da Igreja com a guerra teve que mudar para se adequar às posições do Império e o primeiro inimigo em comum entre Igreja e Império foi o povo germânico à borda das fronteiras romanas.7 Não se pode esquecer que esse povo germânico era ariano, e, portanto, em conflito teológico com os católicos.

Passados esses momentos, dos deparamos com o pensamento de Santo Agostinho, bispo afrorromano de Hipona (Annaba, na Argélia), que em sua obra conceituou o termo Guerra Justa e licitou o serviço da guerra e das armas. Embora tenham existido correntes pacifistas fundamentadas na Bíblia (como Tertuliano, por exemplo), Agostinho sustenta sua idéia com o argumento de que se uma guerra é justa ela não tem outra função senão desfazer uma injustiça, uma injúria, e essa idéia funcionará como base de sustentação para o conceito que se tornaria hegemônico no medievo.

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BINGEMER, M. C. L. (Org); [et al]. Violência e religião: cristianismo, islamismo e judaísmo/três religiões em confronto e diálogo. p. 37. Rio de Janeiro: Loyola, 2002.

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AUGUSTO, C.; AUGUSTO, L. Edito de Milão 313 d.e.c. Alguns autores questionam a veracidade do conteúdo e publicação deste documento, em todo caso, me utilizo do mesmo para ilustrar a “virada” e dar base ao raciocínio inserido a seguir.

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BINGEMER, M. C. L. op. cit. p. 139. 7

DEMURGUER, A. Os cavaleiros de Cristo: as ordens militares na Idade Média. p.20. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

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De acordo com Agostinho a guerra só é legítima quando é o único meio de fazer frente a uma injustiça entre os povos. Portanto, o direito de guerrear é assim uma manifestação do direito de castigar, que é correspondente à autoridade, e neste caso é exercido contra um inimigo exterior. Mesmo que legitime a guerra, Agostinho estabelece limites para a mesma: ela só é permitida se sua finalidade perseguida é a de restaurar o direito, como a posse de um lugar por exemplo, e nesse caso, o guerreiro justo tem de ter uma intenção reta, tendo nesse caso um papel de juiz. Porém, esta visão agostiniana só encontra aplicabilidade, de acordo com Truyol e Serra, em uma concepção de vida internacional baseada na convivência pacífica de pequenos povos, como está explícito em seus escritos da De civitate Dei.8 Quem complementa essa visão é Isidoro de Sevilha em suas Etimologias, que diz: “Justa é a guerra feita depois de advertência para recuperar bens ou rechaçar inimigos.”9

De qualquer modo, a concepção agostiniana é a que basicamente resolve todas as questões levantadas posteriormente sobre a legitimidade da Guerra Justa. O que aconteceu, entretanto, foram pequenas adaptações às novas condições políticas e a uma maior complexidade das guerras na Idade Média, como por exemplo as idéias de São Tomás de Aquino e dos teólogos juristas espanhóis do “Século de Ouro”.10 Outro herdeiro de Agostinho, e também de Isidoro de Sevilha neste quesito é o Decreto de Graciano (1150), que especifica: “Uma guerra é justa se travada com intenção honesta, sob a direção de uma autoridade legítima e com objetivo defensivo ou de retomar um bem injustamente usurpado.”11 O decreto deixa claro o caráter de afirmação da primeira cruzada, ocorrida em 1096, visto que parece ter sido escrito baseado no contexto em que se envolveu a expedição.

Com base nessas idéias, Demurguer delimita então dois domínios: o da violência legítima e o da ilegítima. A ilegítima é a violência exercida contra inocentes, para a glória própria, e a legítima é a exercida por uma autoridade pública.12 Com esses dois campos bem definidos é possível perceber então e legitimidade do uso de cavaleiros por abades e bispos com a intenção de proteger as terras da Igreja, ou até em situações mais críticas, como por exemplo a querela entre o papa Gregório VII e o imperador Henrique IV, quando o papa usou a cavalaria a seu favor. Quando o cavaleiro passa a ser usado a favor de um ideal nobre, no caso,

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SERRA, A. T. y. Historia de La filosofia Del derecho e Del estado: 1. De los Orígenes a La baja edad media. p.269/270. Madrid: Alianza, 1982.

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DEMURGUER, A. op. cit., p.20. 10

SERRA, A. T. y. op. cit., p.270. 11

DEMURGUER, A. op. cit., p.20. 12

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religioso, ele se torna um soldado da Guerra Santa, que como dito anteriormente é a aplicação da Guerra Justa a todos os adversários da fé cristã.

Sobre isso, o pensador Bonizo de Sutri13 desenvolve dizendo que os leigos devem lutar, pois os clérigos não podem, fazendo referência à ideologia das três ordens: “Se não o fizessem, a ordem dos combatentes [ordo pugnatorum] seria inútil na legião cristã [legio christiana].” 14 Partindo de todas essas premissas, pode-se pensar que o que é válido no interior da cristandade pode também ser aplicado em seu exterior,15 pois os valores do Cristianismo devem se sobrepor aos do outro, que nesse caso é aquele cuja religião se diferencia da crença cristã. Para Demurguer, Guerra Santa e Cruzada são conceitos diferentes: para o autor, Cruzada é uma luta com caráter de peregrinação, é uma Guerra Santa com o objetivo de libertar um lugar sagrado.16 É claro que dentro desses conceitos se encontram as idéias da salvação para os que nela morressem, provavelmente derivadas dos martírios dos primeiros cristãos. Além de tudo, de acordo com Loyn, a Guerra Santa, tomando como exemplo a primeira cruzada, era uma maneira de expulsar os cavaleiros da Europa, pois estes não mais encontravam espaço na sociedade e largados ao ócio causavam transtornos para as autoridades seculares e eclesiásticas.17

CONCLUSÃO

Então, observando a explicitação das idéias, chegamos á conclusão de que Guerra Santa é um conceito trabalhado de forma diferente por diversos autores, mas tem sua base sustentatória nas considerações sobre Guerra Justa, e inclusive alguns historiadores não diferenciam um conceito e outro. É notória também a importância das perseguições e martírios contra os cristãos, pois serviram para reforçar uma identidade religiosa, que foi melhor conceituada por Santo Agostinho. Logo, seguindo o raciocínio de Demurguer, Guerra Santa é o nome que se dá à aplicação da Guerra Justa contra um inimigo da religião cristã romana, que é o meio que a Cristandade medieval encontrou para justificar sua violência contra aquilo que considerava injusto, agressivo ou ilegítima.

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Ver SCHAEFER, F. In HERBERMANN, C. G.; PACE, E. A., PALLEN, C. B.; SHAHAN, T. J.; WYNNE, J.J. Original Catholic Encyclopedia Volume II. p.673. Domínio publico.

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DEMURGUER, A. op. cit., p.21. 15

Ibid. p.22. 16

Idem. 17

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUGUSTO, Constantino; AUGUSTO, Licínio. Edito de Milão 313 d.C. Disponível em: http://www.exsurge.com.br/apologeticas/igreja%20catolica/textos%20igreja%20catolica/oedit odemilao313dc.htm. Acesso em: 25 de agosto de 2010.

BASCHET. Jérome. A civilização feudal: do ano Mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006.

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti (org); [et al.]. Violência e religião: cristianismo, islamismo e judaísmo/três religiões em confronto e diálogo. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2002.

DEMURGUER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: as ordens militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

DUBY, Georges. As tres ordens: ou o imaginario do feudalismo. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1994.

MITRE, E.; GRANDA, C.. Las grandes herejías de La Europa Cristiana (380-1520). Madrid: Istmo, 1983.

HERBERMANN, C. G.; PACE, E. A.; PALLEN, C. B.; SHAHAN, T. J.; WYNNE, J. J.

Original Catholic Encyclopedia Volume II. Domínio público. Disponível em:

http://oce.catholic.com. Acesso em: 25 de agosto de 2010.

LOYN, Henry. R. The Middle Ages - a Concise Encyclopaedia. Londres: Thames and Hudson Ltd., 1989

SERRA, Antonio Truyol y. Historia de la filosofia Del derecho y Del estado: 1. De los Orígenes a La Baja Edad Media. Madrid: Alianza Editorial, 1982.

SILVA, Gilvan Ventura da; MENDES, Norma Musco (Org.). Repensando o Império

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