P R O G R A M A DE LÍNGUA M ATER N A

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Texto

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JO Ã O DA SILVA C O R R E IA

PROJECTO

DE UM

PROGRAMA DE LÍNGUA MATERNA

P A R A A

ESCOLA PRIMÁRIA GERAL

COIMBRA

I M P R E N S A D A U N I V E R S I D A D E

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.ç-PROJECTO

D E UM

PROGRAMA DE LÍNGUA MATERNA

P A R A A

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J O Ã O DA SILVA C O R R E IA

PROJECTO

PROGRAMA DE LÍNGUA MATERNA

P A R A A

ESCOLA PRIMÁRIA GERAL

■ OTECA

C O I M B R A

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P R O J E C T O DE UM P R O G R A M A DE LÍNGUA M A T E R N A

PA R A A E S C O L A PRIM ÁRIA G ER AL

Á comissão pedagógica nomeada pelo Ministro da Instru­ ção Sr. António Sérgio, para estudar as modificações que urgia introduzir na organização dos estudos dos vários graus, foi, pelo sucessor daquele ilustre pedagogo, Sr. Helder Ri­ beiro, cometido o encargo de reformar os programas do ensino primário geral, — num sentido, principalmente, de uma leveza e homogeneidade maiores.

Coube-nos, como membro de tal comissão pedagógica, a elaboração do projecto do programa de língua materna. Ao apresentá-lo dissemos que estavamos longe de o julgar obra perfeita; mas que no entanto o supúnhamos uma tentativa modernística nesta ordem de trabalhos, — na execução da qual haviam sido aproveitados, a um tempo, os ensinamentos ou conclusões de sciências como a filologia e a psicologia, e não poucas experiências ou observações metodológicas próprias e alheias.

Porque êsse era nosso dever, e porque na comissão peda­ gógica felizmente se encontravam espíritos dos mais cultos e distintos do país neste campo de trabalhos, pedimos aos nossos ilustres colegas que, sempre que em seu alto critério

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centar, alterar, ou arrumar melhor os assuntos que consti­ tuem o seguinte projecto-programa :

CLASSE PREPARATÓRIA

Exercícios preparatórios do aprendizado da leitura e da escrita.

Nota metodológica:

Os exercícios preparatórios do aprendizado da leitura e da escrita têm em mira o desenvolvimento especial dos tres sentidos seguintes: o tacto, por meio do ajustamento de caracteres móveis em taboleiros de sinais gráficos exca­ vados, emprego das letras de lixa e madeira para serem percorridas com o dedo, ou contornadas e preenchido no quadro a gis de cores o espaço entre os traços exteriores; o ouvido, por meio da decomposição das frases em palavras, das palavras em sílabas, das sílabas em elementos fónicos, e recomposição respectiva ; a vista, por meio do agrupamento de cartões com frases, palavras, sílabas e sinais gráficos. Nos trabalhos pedagógicos da Doutora Montessóri e do Doutor Decroly e ainda nos de Castilho, o professor encon­ trará indicações preciosíssimas. A portaria de 2 de Fevereiro de 1924 sôbre jogos de leitura dá também, embora resumi­ damente, úteis esclarecimentos.

1.» CLASSE

Aquisição da leitura e da escrita. Construção de palavras e frases usuais, por meio das quais os alunos se habituem a exprimir correctamente os seus sentimentos e pensamentos e a descrever coisas observadas ou factos ocorridos.

Nota metodológica :

i.° A aquisição da leitura e da escrita deve ser o mais possível feita por meio de jogos, começando pelo reconheci­

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mento de numerosas palavras escritas, das quais se passará por comparação e análise ao conhecimento das letras e sua combinação em novas palavras. O emprego de jogos de leitura e escrita é altamente aconselhável, depois que a pe­ dagogia dos anormais revelou a sua eficácia. O estudo dos jogos de Decroly é especialmente lembrado ao professor, bem como a leitura das instruções publicadas na portaria supra-mencionada e que, embora sucintas, dão uma ideia clara dos jogos de aprender a 1er e a escrever.

2. ° As palavras e frases a construir devem ser muito vul­ gares e correntes. É fundamental o preceito seguinte: a criança nunca deve escrever uma palavra que já não tivesse visto escrita, que não tivesse copiado, ou construído com o auxílio do professor. Forma errada uma vez empregue, por mais que depois se façam cópias certas, não se desvanece totalmente da memória : com a forma certa acode ao espí­ rito a errónea, deixando a criança por muito tempo hesitante e sujeita à contingência de mal ortografar frequentemente. Para se não errar nunca é preciso nunca ter errado, — e não, como por muito tempo se julgou, ter caido em muitos erros.

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. ° As conversações devem versar sôbre os mais variados assuntos,— embora familiares à criança e próprios do seu ambiente — e terão sempre um carácter de leveza e interesse. Não serão nunca desligadas: parte-se dum tema — uma coisa que aconteceu a uma criança, um objecto que está sôbre a mesa, uma história que o professor conta, e sem quebra de fio, para incutir qualidades de seqüência e de ponderação, deixando que cada aluno intervenha a seu tempo, se irá a criança habituando a falar com propriedade, correcção e desembaraço.

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2* CLASSE

Leitura quanto possível corrente, com explicação dos trechos lidos. Exer­ cícios graduados de cópia. Conversações sôbre coisas e factos obser­ vados; resumos de textos de imaginação lidos ou ouvidos. Início da composição escrita. Exercícios de memória fáceis e breves.

Nota metodológica:

1. » Para conseguir leitura corrente o professor deverá

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er muito perante os alunos : 1er no comêço da aula de língua pátria, uma ou outra vez durante ela, e ainda ao encerrá-la, para dar uma pauta eficaz. Promoverá ainda que êles leiam muito. O mesmo trecho tem de ser lido por um e por outros várias vezes, só se passando a novo texto quando não haja hesi­ tações de dição. Para evitar o aborrecimento é necessário que o trecho seja interessante; para impedir o psitacismo é necessário que nenhuma frase ou palavra dêle deixe de ser devidamente compreendida pela criança.

2. ° Os exercícios de cópia são sempre úteis para aprender a ortografar e para aprender a compor. Os de ditado, porém, apenas servirão de provas de verificação ou exame, nunca de exercícios de aprendizagem.

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. ® As conversações pautar-se hão pelas normas das da primeira classe, tendo sempre o cuidado de evitar que as crianças se expressem por frases incompletas ou erróneas sob o aspecto lógico ou lingüístico.

4.0 Para iniciar a composição servem assuntos variadíssi­ mos: tudo — desde a descrição de seres, — e estes importam muito, — ou objectos que se encontrem à vista da criançar até à narração de acontecimentos que presenciasse, ou ao resumo de uma pequena história que ouvisse. Todo o cuidado do professor versará sôbre isto: fazer com que a criança escreva com a naturalidade com que fala. Chamar-se há a atenção

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dos alunos para a propriedade dos termos, sempre que isso tenha cabimento.

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.° Os exercícios de memória têm muito valor porque permitem despertar desde muito cedo o gôsto das boas tetras. Para que a criança possa, porém, ter prazer artístico com os textos que deverá recitar, é necessário que estes estejam à sua altura psicológica: isto é, sejam pequenos e animados dramas, e nunca textos subjectivos ou líricos.

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* CLASSE

Leitura quanto possível expressiva dos trechos lidos. Exercícios de di­ tado, com cuidados de pontuação. Iniciação gramatical. A frase; as palavras. Palavras cl.eias e utensílios gramaticais: Distinções me­ nores: o nome, o verbo, a partícula, a interjeição. Estudo da moção nominal e da conjugação verbal. Estudo sucinto da formação voca­ bular. Composições escritas graduais. Exercícios de memória sôbre poesias e prosas escolhidas.

Nota metodológica:

1, ° Procurar-se há ir tornando expressiva a leitura do aluno, pelo exemplo do professor que lerá muito com êle e pela perfeita compreensão do trecho em estudo. Na explicação do trecho deve dar-se grande lugar sempre à discussão da propriedade dos termos, mercê do alto alcance lógico dessa operação.

2. ° Exercícios de pontuação de trechos reproduzidos de memória ou ditados, a título de verificação. A pontuação é mais um aprendizado utilíssimo.

Quanto à correcção de êrros se alguns houver, é conve­ niente êste preceito: o professor levar os alunos a corri- girem-se a si próprios. Só a correcção que o educando faz conduzido activamente pelo professor tem eficácia; a emenda passivamente lançada ao caderno é inútil para a criança e fatiga o mestre.

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.° Na iniciação gramatical convirá começar por dar ao- aluno a noção de frase, a verdadeira primeira unidade lin­ güística. Depois se passará à de palavra — à palavra cheia, com conteúdo, primeiro, e à palavra vazia ou utensílio ex- pressional depois. Seguidamente virão as distinções menores como sejam as de nomes, verbos e partículas — e no campo das primeiras as de substantivo, adjectivo, numeral, pro­ nome, e no das últimas as de advérbio, preposição, con­ junção, ficando o artigo entre os dois campos, mercê da sua função meio de pronome, meio de partícula. Falar-se há da interjeição, porém, não a pondo ao lado das outras par­ tículas, já porque não pertence à linguagem lógica mas à sentimental, já porque tem uma estrutura ou constituição própria que faz com que ela não obedeça sequer ás leis fonéticas como os demais elementos dos organismos lingüís­ ticos. Não se darão nunca definições, nem mesmo regras: observar-se hão factos, tirando scientíficamente conclusões. A gramática não é um estudo que sirva para ensinar a falar e escrever uma língua: a criança fala e escreve quando co­ meça a aprendê-la. A sua função é formal ou de robuste­ cimento do espirito: serve para reconhecer, não para conhe­ cer,— pois uma língua aprende-se pelo uso oral e escrito — lendo os bons autores, ouvindo os que, falam correctamente, fazendo muitos exercícios de redacção.

O professor fará bôm ensino gramatical desde que saiba encarar a gramática como registro dos fenómenos da língua, fiel como um espêlho ou uma fotografia na exposição orde­ nada dos factos que o idioma apresenta. Um exemplo: o professor vendo que em português há verbos com termina­ ções infinitivas dos tipos, — ar, er, ir e ô r — póde dizer com segurança que há no português actual quatro conjugações, sem querer saber dos gramáticos que, em grande parte, há muitos séculos e no desconhecimento da evolução lingüística, andam a repetir-se uns aos outros, e a querer meter a língua

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em talas. A própria gramática de Epifanio Dias, que abriu horizontes novos, não póde já hoje ser aceite sem reservas ou retoques.

4.0 As composições escritas versarão sôbre coisas ou factos observados pelo aluno e leituras, podendo começar a tentar-se o exercício de têma livre. O professor ao fazer a correcção não se esquecerá nunca de comparar as afirmações escritas com a realidade, procurando o porquê das coisas e das pa­ lavras. Nem só a correcção lingüística importa: a lógica é igualmente necessária. O que é gramaticalmente exacto pode ser lógicamente falso e vice-versa. Um exemplo transcrito de Adolfo Coelho :

«A proposição: o círculo é urna figura ponteaguda tendo todos os pontos equidistantes dum ponto central que fica da parte de fóra é gramaticalmente correcta e lógicamente absurda».

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.° Os textos para exercícios de memoria deverão ser gra­ dualmente mais longos, convindo não começar nunca o tra­ balho retentivo sem que estejam perfeitamente compreendidos em todas as suas partes. Na recitação importa êste preceito : imitar a natureza. Tom de voz, expressão fisionómica, gesti­ culação, atitude corporal, inflexão semântica das palavras de valor — tudo deve ser feito sem o menor artifício ou con- trafeição. Para bem recitar, quási basta bem observar a nossa fala e a alheia em situações condizentes com a do texto que vai ser dito. Não esquecer ainda que é grave defeito de dição o bater monotona e desnaturalmente o verso.

O professor lerá com proveito o livro de José António Moniz sôbre a arte de dizer.

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4.a C L A S S E

Exercícios de leitura corrente e expressiva com explicação e resumo dos trechos lidos. Estudo de sintaxe gramatical : a oração ; os ele­ mentos oracionais ; as espécies de proposições. Composição escrita com téma dado e têma livre. Resumo oral de leituras feitas pelos alunos fóra da aula. Exercícios de recitação de prosas e poesias es­ colhidas quanto à essência e à forma.

Nota metodológica:

1. ° E necessário que continuem lendo muito o professor e os alunos. No comentário do texto o professor fará já bem em comparar a língua escrita, de carácter lógico, com voca­ bulário escolhido e sintaxe sólida e disciplinada, com a língua oral, de carácter afectivo, com vocabulário familiar e sintaxe cortada e livre.

2. ° O estudo gramatical das orações e seus elementos componentes será feito sôbre factos, sem definições nem regras: nomenclatura e classificações apenas, tendo, porém, o cuidado de não empregar um só termo de tecnologia sem o explicar convenientemente. Um exemplo: o pro­ fessor terá que empregar uma expressão designativa como pretérito mais que perfeito, mas não se esquecerá de dizer que tal expressão equivale a «passado mais que acabado» ou seja um passado que muitas vezes indica uma acção terminada antes de outra terminada também. Nem uma palavra que não tenha o seu porquê — e explicada de maneira que a elucidação não contrarie os factos lingüís­ ticos.

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. ° As composições escritas ir-se hão graduando consoante o desenvolvimento dos alunos. Convém que sejam no en­ tanto freqüentes, devendo dar-se grande importância aos exercícios de observação feitos acêrca dos seres do mundo animal e vegetal — na escola rural principalmente acêrca dos animais e vegetais mais úteis ou nocivos ao agricultor.

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5.» CLASSE

Leitura quanto possível artística com resumo e explicações dos trechos lidos. Análise dos elementos que constituem a palavra : a sílaba, o fonema. Espécies de sílabas e fonemas. A acentuação vocabular. Estudo sumário dos acidentes e evolução da significação das pala­ vras. Uso dos dicionários de língua. Ditado de textos em verso. Composição de tema fiado e livre, redacção de documentos usuais e cartas. Recitações de passos selectos dos grandes autores nacio­ nais. Noções ocasionais sôbre um ou outro grande escritor, género

ou obra literária.

Nota metodológica:

1. ° Á leitura deverá o professor procurar dar intenção artística exemplificando muito, e escolhendo para tal exem­ plificação trechos dos melhores autores.

2. ° O estudo dos elementos da palavra — o mais abstracto — é deixado para esta altura, por o aluno ter já qualidades de observação mais apuradas e poder fazer objectivamente uma classificação de fonemas. Algo de semântica se pro­ curará dar, começando o professor por exemplificar a modifi­ cação de sentido com palavras*cujo significado tivesse evo­ lucionado nos últimos tempos. Todo o ensino será feito sôbre factos correntes da lingua oral ou escrita.

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. ° O ditado de textos poéticos tem vantagens porque in­ dustria os alunos pràticamente na musicalidade do verso. Convém deixar a estes os cuidados da pontuação.

4.0 As redacções de documentos e cartas versarão sôbre coisas concretas, de aplicação na vida. Deverão diferenciar-se conforme a escola se encontra num centro urbano ou rural. No segundo caso, por exemplo, convém tratar temas rela­ cionados com a vida agrícola.

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.° As recitações deverão ser freqiientes porque auxiliam extremamente a leitura artística que se tem em vista já nesta classe.

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6.® A propósito dos escritores que devem ter textos no livro de leitura, como Camões, Bernardes, Herculano, Ca­ milo, Eça, convém que o professor diga algumas palavras: não, porém, coisas desligadas do texto lido, ou que nêle não tenham justificação ou fundamento. Sôbre os géneros literários muito pouco, não esquecendo todavia que êles evo­ lucionam com a arte literária, diferindo de época para época os que estão em favor.

Nota acêrca dos livros de leitura:

Haverá dois livros de leitura: — um para a 2.a e

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.a classes em que predominem os textos fantasísticos ; outro para a 4.a e

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.a classes onde predominarão os textos realísticos.

As normas gerais a adoptar na organização de tais livros são as seguintes:

I. —

Texto :

Os livros de leitura deverão conter, e, quando isso con­ venha, ordenadamente :

a) Trechos fantasísticos, como: i — Romances populares; 2 — Contos ;

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— Lendas ; 4 — Fábulas;

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— Lengas-lengas populares; 6 — Fórmulas rimadas; 7 — Adivinhas.

b) Trechos realísticos, como:

1 — Scenas da vida de animais; 2 — Scenas da vida nacional;

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4 — Actos históricos dos portugueses;

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— Scenas da história geral e da pre-história, e biografia dos heróis da acção ou do pen-, sarnento ;

6 — Scenas geográficas; 7 — Anedotas e epigramas ;

8 — Provérbios e cantigas populares;

9 — Episódios de descobrimentos scientificos ; io — Trechos literários.

II. —

A s p e c t o m a t e r i a l :

1 — Capa artística;

2 — Aguarelas leves numa ou noutra página;

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— Tipo elegante e páginas de margem ampla; 4 — Títulos de disposição gentil;

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Referências

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