Nova Biblioteca de (i~ncias Sociais
diretor. (Celso Casto
/
Jos~ Murilo de Carvalho
'Forcas Armadas e
·Politica no Brasil
'
Jorge ZAHAR Editor
Rio de JaneiroI
"
Vargas e os Militares:
Aprendiz de Feiticeiro'
-·
·A
era Vargas, definida de maneira ampla como o periodo que vai de1930 a 1964, foi marcada por mudan~a radical nas rela~~es entre
o presidente e as For~as Armadas. A primeira fase dessas rela~~es, que
poderiamos chamar de namoro, vai da revolug~o de 1930 ao estabe lecimento do Estado Novo em 1937. Ao chegar ao governo em 1930
no vacuo de poder aberto pela crise oligarquica, Vargas incentivou a transforma~~o das For~as Armadas em ator politico. Mais ainda: fez delas um dos pilares de sua sustenta~~o, um contrapeso ~s for~as olig~rquicas. O auge do entendimento, a luademel, deuse durante o Estado Novo
(1937-45) quando houve total coincidencia dos interesses do presi- dente e da corpora~~o militar. Nos ltimos anos do Estado Novo, no
'
entanto, come~ou o processo de div~rcio que caracterizou a terceira
fase (1945-64).
A organiza~~o militar, que se alterara profundamente na estrutura, na ideologia e no poder politico por for~a do pr~prio acordo com Vargas, mos
trouse incompativel com a reorienta~~o ideolgica e politica do presidente.
Incompativel, sobretudo, com.a tentativa de mobilizar novo ator politico, o
operariado. A partir dai, a luta foi sem tr~gua. A morte de Vargas em 1954
n~o p~s him ao conflito, pois passouse ent~o a combater sua heran~a poli tica, ou seu fantasma, que se diziam encarnados em Juscelino Kubitschek e
Jo~o Goulart. Em 1964, travou-se a batalha final que deu a vit~ria
~
fac~~omilitar anti-Vargas ea seus aliados civis, abrindo-se novo ciclo politico na
hist~ria do
pais.
VARGAS E O MILITARES
PRIMEIRA FASE:
NMMR0
(193037)
A
primeira fase teve como principais protagonistas o presidente Vargas e o general G~es Monteiro. Sendo bem conhecidas a pessoa e a atua~~o de Vargas, cabe falar um pouco do segundo. Aluno brilhante da Miss~o Militar France- sa, inteligente, ambicioso, dotado de grande facilidade de express~o verbal .eescrita, G~es Monteiro percebeu como nenhum outro militar de sua ~poca a mudan~a dos tempos e
o
espa~o que se abria~
participa~o dos militares na politica nacional. Vislumbrou tamb~m os pr~-requisitos para viabilizar tal participag~o. Adepto, de inicio, da vis~o de seus mestres franceses sobre anecessidade de permanecerem os militares neutros na luta politica (a doutrina do Ex~rcito como grande mudo), combate ao lado das tropas governamentais
na perseguiso
~
coluna rebelde Miguel Costa-Prestes (1924-27).Em 1930, no entanto, por obra do destino, caiu-lhe no colo o convite para comandar o moyimento revolucion~rio planejado pelas oligarquias
dissidentes, lideradas por Vargas, em alian~a com os militares rebeldes
que ele, G~es, combatera.de armas na m~o. Para um tenentecoronel sem
perspectivas claras de acesso na carreira, uma vez que o m~rito n~o era
na ~poca garantia de promo~~o, a oportunidade pareceu suficientemente
atraente para o convencer a renunciar aos principios de seus mestres. Os riscos eram sem dvida elevados, pois revoltas anteriores tinham fracassado
e dezenas de oficiais subalternos continuavam fora do Ex~rcito, sem anistia,
desde 1922, alguns deles no exilio. At~ mesmo um general, Izidoro Dias
Lopes, chefe da revolta de 1924, fora punido com severidade. 0 instinto politico deve ter-lhe sugerido que
~m
1930 o ambiente estava maduro paraa mudan~a. A dissidencia das oligarquias mineira, ga~cha e paraibana, com o' precioso auxilio de suas policias militares, era garantia de meia vit~ria. O
resto dependeria de sua capacidade de estrategista e de um pouco de sorte.
Nenhuma das duas lhe faltou.
A vit~ria foi mais f~cil do que esperava. Embora apenas parcela mino- rit~ria do Ex~rcito tenha tomado parte na revolta, e todos os generais da
ativa tivessem permanecido leais ao governo, o ·sistema politico montado por Campos Sales no inicio da Repblica j~ se achava suficientemente desmoralizado, carcomido,
na
linguagem da ~poca, para que ningu~m se dispusesse a arriscar a vida em sua defesa.A
grande batalha da revolu~@o, ade Itarar~, foi celebrada pelo poeta Murilo Mendes como a maior batalha
da Am~rica do Sul que
n~o houvera. No melhor estilo brasileiro, quando a
sorte do movimento pendeu para
os
rebeldes, todos aderiram, inclusiveos
1104
FORCAS ARMADAS E POLITICA NO BRASILA facilidade da vit~ria tornou-se um problema no dia seguinte. Do lado
militar, a condu~o da revolta ficara nas m~os de capit~es e tenentes, muitos
deles excluidos do Ex~rcito nas revoltas anteriores de 1922e 1924. 0 mais alto posto entre os rebeldes era o de G~es Monteiro. Para que esse grupo
adquirisse hegemonia dentro da organiza~~o militar, sem destruila
pela
invers~o da hierarquia, era necessrio que fosse rapidamente promovidoe que fossem substituidos os generais da velha Rep~blica. Havia ainda o
problema dos comissionados. Como muitos tenentes e capit~es se tivessem mantido fi~is ao governo durante a revolta, tinha sido necessario comissionar dezenas de sargentos no pesto de segundotenente. Boa parte das tropas marchou sob o comando imediato desses sargentos. 0 comissionamento em massa criara expectativas que, n~o atendidas pelo novo governo, se tornaram nova fonte de conflito.
O tenentecoronel G~es Monteiro viuse entao a bra~os com um
Ex~rcito profundamente dividido, al~m de mal treinado, mal armado, sem
plano adequado de carreira: uma organiza~~o incapaz de exercer o papel
que ele via abrir-se para ela com o fim do dominio da politica oligarquica.
As divis~es internas inviabilizavam o exercicio de tal papel. Havia confronto
entre militares rebeldes e legalistas; entre oficiais subalternos, de um lado,
e ohiciais superiores e ohiciaisgenerais do outro; entre oficiais e pra~as;
entre Ex~rcito e Marinha; entre Ex~rcito e policiais militares. Iniciadas em 1922 com os tenentes, as agitaes dentro do Ex~rcito multiplicaramse ap~s a vit~ria de 1930.Entre esta data e 1934, ano da constitucionaliza~o do pais, houve 5l incidentes envolvendo militares de todos os escal~es -
'
compreendendo agita~es, protestos e revoltas.Aos tenentes juntaramse agora as pragas, sargentos e cabos, que, ins piradas no exemplo do sargento Fulg~ncio Batista que assumira o poder em Cuba na crista de uma revolta militar, passaram a exigir melhorias em
sua situa~~o funcional e propor reformas radicais na pr~pria sociedade. Em 193l, as pra~as depuseram o governador do Piaui, ap~s sublevar o 258 Batalh~o de Caadores de Teresina. Reprimidas sempre com viol~ncia, mesmo pelos oficiais revolucion~rios de 1930, as revoltas de graduados revelavam as s~rias dificuldades que enfrentavam dentro da organiza~~o:
falta de estabilidade; precariedade do sistema de promo~~o; baixos sa- l~rios; inexist~ncia de aposentadoria, pens~o e outros beneficios sociais.
Particularmente vexaminosa era a exigencia de constantes reengajamentos, dependentes sempre da avalia~o subjetiva dos comandantes. As promo~~es estavam suspensas desde 1930 sob a justificativa de que tinha havido muitos
comissionamentos durante a Revolu~~o. Apesar das justas reivindica~~es,
VARGAS E O MILITARES
1851
a atitude do oficialato foi sempre, na melhor das hip~teses, de suspeita em rela~~o aos .movimentos de sargentos. Mesmo iniciativas pacificas, como a Federa~~o de Sargentos, fundada em 1935, n~o foram aceitas por G~es Monteiro sob a alega~~o de que quem devia defender os sargentos eram seus chefes. Era grande
o
receio de que o movimento de pra~as contribuisseainda mais para a subvers~o hier~rquica e a conseq~ente fragmenta~~o da
organiza~~o. Era ameaa mais s~ria do que as rebeli~es de oficiais.
Tamb~m os oficiaisgenerais se envolveram em manifesta~~es politicas,
em revoltas, em tentativas de golpe. Seu envolvimento n~o era novo: era a
pr~pria marca registrada da Rep~blica. Mas, enquanto durou a
pax oligarchi
ca,
suas ambi~~es foram contidas pela hegemonia civil. No m~ximo podiamcompetir, junto ao governo, por promo~~es rpidas, boas comiss~es, postos de prestigio. Agora abriamse as janelas para v~os mais ambiciosos. At~ mesmo
a presidencia da Rep~ blica passava a ser objetivo atingivel. De fato, quase
todos os generais importantes da ~poca envolveramse em conspira~~es. G~es
Monteiro foi um permanen te candidato a presidente da Rep~blica. Em 1934 houve tentativas abertas de fazer dele um candidato de oposi~~o
a
Vargas.A desuni~o inicial dos militares permitiu a Vargas, mestre da manipu- la~~o, utilizi-los em beneficio de seus interesses politicos. Interessava a0 chefe da revolug~ o a exist~ncia de uma for~a armada suficientemente forte
para servir de contrapeso ~s remanescentes lideran~as olig~rquicas e ~s no vas lideran~as civis que despontavam, mas no t~o forte que amea~asse sua
pr~pria lideran~a. Era um jogo complexo arriscado a que Vargas se dedicou com exito durante l5 anos. O jogo incluia o fortalecimento da organiza~o militar e o controle simult~neo de seus chefes. A t~tica permitiu que Vargas se mantivesse no poder nos momentos de crise como a sucess~o presidencial de 1934, as revoltas de 1935.e o golpe de 1937. Nem mesmo nesse ~ltimo ano, quando o Ex~rcit j~ estava expurgado dos dissidentes, o general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, e G~es Monteiro, chef~ do Estado-Maior
do Ex~rcito, se sentiram com for~a suficiente para dispensar a media~~o de
Vargas na implantag~o do Estado Novo.
A situa,~o era particularmente dificil para G~es Monteiro. Embora dotado de habilidade politica, estava longe de poder competir com Vargas. O presidente lhe dava carta branca para moldar o Ex~rcito de acordo com a nova concep~~o que desenvolvera. Para conferir autoridade a seu aliado, o presidente o promoveu a toque de caixa. Tenente-coronel em 1930, G6es
tornou-se coronel em mar~o de 193l, general-de-brigada em maio desse mesmo ano e generaldedivis~o, o mais alto posto na ~poca, em outubro de
1932. Com todo esse prestigio, era natural que ambicionasse a presidencia e
I
1u
Fo•�As ARMAoAs E PoL1T1cA NO BRASILse tornasse alvo constante das tentativas de sedu~~o por parte dos inimigos
de Vargas. Barravam-no, no entanto, a fidelidade ao presidente e, talvez mais
ainda, o reconhecimento da indispensabilidade de Vargas como moderador
dos conflitos politicos de civis e militares. Suas incurs~es golpistas terminavam
sempre no regresso contrito
~
alian~a com o presidente. O fato de n~o tertentado impor-se pela for~a evitou a disputa aberta entre generais e facilitou
o trabalho de unifica~~o do Ex~rcito. Somente em 1945, com o auxilio da conjuntura pos-guerra, ele e seus aliados sentiram-se com for~a suficiente para enfrentar vantajosamente o presidente.
Do
ponto de vista de G~es, a tarefa principal era exatamente fortalecer o Ex~rcito ao ponto de torn~-lo capaz de agir com independencia, inclusive em rela~~o a Vargas. Para isto, era necessario suprimir a infinidade de con- flitos que minava a organiza~~o militar. Segundo sua famosa express~o, era preciso acabar com a politica no Ex~rcito para se poder fazer a politica do Ex~rcito. Havia dois tipos distintos de conflito, um entre pra~as e oficiais, outro entre oficiais. O primeiro era estrutural, dividia o Ex~rcito e a Mari-nha horizontalmente, provinha do modelo de organizag@o militar adotado no Brasil, comum nos ex~rcitos ocidentais, que separava nitidamente o
oficialato das pra~as. Nesse modelo, a posi~@o das pra~as ~ sempre.dificil e inc~moda, pois se v~em em permanente e rigida desvantagem diante do oficialato. Momentos de mobiliza~~o politica podem facilmente despertar
movimentos reivindicat6rios. O segundo conflito era de natureza ideol6gi-
ca e politica. Correspondia a modelos distintos de rela~o entre militares
e politica. E possivel detectar tr~s modelos, nem sempre formulados comi clareza por seus adeptos.
O primeiro refletia a influencia do profissionalismo alem~o e francs
introduzido pelos jovens oficiais que estagiaram no Ex~rcito alem~o entre
1906 e 1912, os Jovens Turcos, e pelos alunos da Miss~o Militar Francesa.
Era o modelo que se desenvolvera nas democracias liberais:
~
medida quese firmava a hegemonia burguesa, o Ex~rcito podia, e devia, dedicar-se
primordialmente
~
defesa externa. Na politica interna devia ser o "grande mudo" da express~o francesa. Era esta a posi~~o de muitos oficiais, certa- mente a dos que se tinham recusado a aderir~
revolug~o. Era a posi~~o deG~es antes de 1930, quando repetia os ensinamentos da Miss~o Francesa,
afirmando que nas lutas internas o Ex~rcito devia calar-se. A (nica politica
do Ex~rcito, ainda segundo G~es, deveria ser a preparao para a guerra.
Os generais Bertoldo Klinger e Estev~o Leit~o de Carvalho, antigos esta-
gi~rios do Ex~rcito alem~o, estavam tamb~m entre os maiores defensores dessa posi~~o.
VARGAS E O MILITARES
1071
A segunda concep~~o, que podemos chamar de intervencionismo re
formista, era um hibrido tipico de paises em que, por raz~es hist~ricas,
oficialato n~o se ligava ~s classes dominantes e em que a instabilidade politica
permitia, e quase exigia, a interveng~o dos militares na politica interna. No
Brasil, esta concep~~o surgiu com os positivistas ao final do s~culo XIX e
ampliou-se com o tenentismo da d~cada de 1920. Pode ser encontrada nos
documentos do Clube 3 de Outubro e em outras proclama~es anteriores
dos tenentes. Nesses documentos encontra-se extenso programa de reformas econ~micas, politicas e sociais, incluindo a reforma agraria, sal~rio-minimo, legislag~o de greve, desenvolvimento da siderurgia. L~ est~o tamb~m pro-
postas de fortalecimento do Ex~rcito a de incorporag@o a ele das policias militares estaduais, e a defesa de um papel de lideran~a para a elite militar
considerada a mais bem organizada, a mais autorizada, a mais capaz.
A terceira concep~o pode ser detectada entre militares mais radicais, oficiais
e pra~as. Em sua forma extremada, refletia a influ~ncia do Partido Comunista do
Brasil, cujo prestigio entre as For~as Armadas cresceu muito apos ter conseguido
a adesao do ex-capitao Luis Carlos Prestes em 1931. Esse grupo propunha um
ex~rcito popular semelhante ao que surgiu durante as revolu~~es russa e chinesa.
O Ex~rcito devia ser um instrumento da luta de classes. Era esse o cont~do de
uma
carta
de Prestes, de 1931, conclamando soldados e marinheiros a voltar suasarmas contra os oficiais, lacaios da burguesia. Ap~s a derrota da revolta de 1935, o Partido Comunista e sua extens~o politica, a Alian~a Nacional Libertadora,
tentaram organizar um ex~rcito revolucion~rio ao estilo das milicias populares,
mas sem ~xito. Esse modelo que, no dizer de um cadete, considerava o Ex~rcito
a vanguarda do povo, implicava mudana completa na organiza~~o militar e no papel politico das For~as Armadas. Assustava as elites civis e, mais ainda, o
oficialato, mesmo o
da
corrente reformista." ' 'As
circunstancias politicas do momento tornavam o primeiro e o ~ltimomodelos irrealistas. Em tempo de agita~~o politica, de realinhamento de
for~as, de atores politicos mal organizados, era quase impossivel aos militares
' ' / -
permanecerem ~ margem da politica. Muitos dos que se diziam profissionais
puros viram-se liderando protestos e revoltas em aberta contradi~~o com
suas convicg~es. G~es Monteiro liderou a revolug~o de 1930, esquecido do "grande mudo"; Klinger chefiou a revolta paulista de 1932. Por sua vez, os
que advogavam um ex~rcito popular enfrentavam dificuldades ainda maiores: os setores mais agressivos do proletariado, seu aliado natural, tinham longa
tradi~~o anarquista de antimilitarismo,
e
os oficiais, e mesmo aspra~as,
eram demasiadamente voltados para sua propria corpora~~o para serem capazes1108
fORCAS ARMADAS E POL!TICA NO BRASILSobravam os intervencionistas reformistas que estavam presos a um
dilema: para implementar as reformas precisavam consegufr o controle da
organiza~~o; mas ao tentar controlar a organizag~o n~o podiam evitar danos
~
hierarquia, pois eram oficiais subalternos; tais danos, por sua vez, reduziamo poder da organiza~~o e sua capacidade de intervir eficazmente na politica.
O impasse foi claramente percebido por G~es que, a partir dele, formulou
sua estrat~gia e a colocou em pr~tica. O modelo que foi implementando aos
poucos at~ se tornar vitorioso em 1937 pode,
~
falta de melhor express~o, serchamado de intervencionismo tutelar. Seus elementos constitutivos podem
ser resumidos nos seguintes pontos: primeiro, uma vis~o do Estado como fator preponderante na vida politica; segundo, a necessidade da formula~~o e
implementago pelo Estado de uma politica nacional; terceiro, a necessidade
de elites bem treinadas e capazes para dirigir o Estado. Esses tr~s primeiros pontos podem resumir-se na id~ia, muito difundida na ~poca, da fal~ncia
do liberalismo como filosofia politica e como instrumento de governo. No que se referia
~
realidade brasileira, G~es postulava a inadequa~~o tanto dosistema politico, cuja base era o liberalismo, como das elites dirigentes, que
acusava de incapazes, divididas, egoistas, sem vis~o nacional. Nesse quadro,
salientavam-se as For~as Armadas como a elite capaz, organizada e de vis~o
nacional. Caberia a elas a lideran~a na formula~~o e implementa~~o da politica nacional. Para que isso ocorresse, para que fosse feita a politica do
Ex~rcito, no entanto, era necessario eliminar os conflitos internos, fortalecer a hierarquia e aumentar o poder da organiza~~o em termos de efetivos,
armamento, treinamento,
A reforma da organiza~~o foi sendo realizada sistematicamente, sob
,
as ben~~os de Vargas a quem interessava um aliado confi~vel e s6lido. Ela foi descrita no capitulo anterior. Abrangeu a efetiva~~o dos servigo militar obrigatrio, o treinamento de reservas, a desprofissionalizag~o dos sargentos, a homogeneiza~~o e doutrina~~o dos oficiais, o expurgo dos dissidentes e a
forma~~o de um n~cleo hegemonico de oficiais. Esse grupo formou-se a partir
de 1932 e consolidou seu poder no golpe de 1937. Sua cabec;a pensante era
sem d~vida G6es Monteiro. Mas G~es era irrequieto, dispersivo, boquirroto, politicamente ambicioso. Al~m do mais, a morte tr~gica do filho em acidente
de avia~~o em 1937 deixara-o psicologicamente abalado e com tend~ncia
para se exceder na bebida. N~o tinha condi~~es de administrar a realiza~~o
de suas proprias id~ias.
Teve, no entanto, a sorte de encontrar seu complemento perfeito no
general Eurico Gaspar Dutra. Modesto, timido, sem ambi~~o politica, sem pretens~es intelectuais, Dutra era um executor, um administrador. um
.·
VARGAS E O MILITARES
.1091.
disciplinador, um homem da caserna. Seguia as orientaes politicas de
Gdes que, por sua vez, confiava totalmente em sua a~~o. Os dois ocupa-
ram posi~~es-chaves, desde 1933, no Minist~rio da Guerra, na chefia do Estado-Maior do Ex~rcito, e na preside~ncia do Clube Militar. De 1937
a 1945, c~m pequenas mudan~as nos dois ~ltimos anos, simplesmente
monopolizaram o controle do Minist~rio e do Estado-Maior do Ex~rcito.
Du tra so
renunciou ao
Minist~rioem1945.para concorrer
~
presidenciada Rep~blica, sendo substituido por G~es. :
Vargas
percebu
sem divida o aspecto complementar da dupla de gene-rais. A lideran~a intelectual de G~es aliada
~
disciplina e~
lealdade de Dutra garantiam sua base militar. Quando necessrio, usava um contra o outro paraos manter sob controle. G~es, particularmente, foi mantido sempre pr6ximo,
pois tinha maiores ambig~es politicas. De Dutra nada tinha a temer politi-
camente e tinha muito a ganhar coma garantia do apoio militar.
A primeira fase do relacionamento de Vargas com as For~as Armadas
foi, assim, algo turbulenta. G~es e seus aliados contaram com Vargas para promover expurgos e reformas. O presidente p~de contar com seus chefes
militares nos momentos dificeis como a revolta paulista de 1932, a elei~~o
de 1934, as revoltas de 1935, o golpe de 1937. Ao longo do processo, n~0
s~ se consolidaram as For~as Armadas como novo ator, como se redefinira
seu papel politico.
SEGUHDA FASE: LUA-DE-ME (1937-45)
Em 10 de novembro de 1937, Vargas, com o apoio e incentivo das For~as
Armadas, fechou o Congresso, outorgou nova Constitui~~o e estabeleceu uma ditadura batizada com o nome de
Estado Novo!
J foi analisado o jogo politico que se desenrolava desde 1930 e que cuhninou no golpe.Em embates sucessivos, fortaleceram-se as For~as Armadas e perderam poder as oligarquias estaduais. Aos poucos, sob a batuta de Vargas, desenvolveram-se pontos de contato entre am bas. Assim, com o apoio adicional dos ventos autorit~rios quesopravam na Europa, e da percep~o de um iminente conflito internacional,
estabeleceu-se a ditadura de 1937 sob a tutela das For~as Armadas.
A politica do Estado Novo seguiu as orienta~~es estabelecidas por G~es
Monteiro em documento apresentado a.Vargas em 1934 tanto no que se
referia ao fortalecimento e
~
redefini~o do papel das For~as Armadas como no que dizia respeito~
politica econ~mica. Dois dias antes do golpe, Vargas escreveu a Osvaldo Aranha, ent~o embaixador em Washington, sobre o pla-I
110 FOR�AS ARMADAS E POLITICA NO BRASILno de reformas do nova regime. 0 piano punha ~nfase na defesa interna e externa, no fortalecimento das For~as Armadas, no desenvolvimento
econ~mico, na promo~~o das ind~strias de base, na exportag~o. Mesmo dando o devido desconto para a ret~rica, n~o h~ como negar que por tr~s
do autoritarismo do regime, e em parte como justificativa deste autorita- rismo, havia um projeto de desenvolvimento nacional sob a lideran~a do Estado e com apoio das For~as Armadas. A participa~~o militar no esfor~o tornara-se mais f~cil pelo fato de que oficiais tinham passado, desde 1930, a ocupar posies na administra~~o civil. At~ 1937, estavam presentes
coma interventores nos estados e coma congressistas. Dos 87 intervento-
res, 40 tinham sido militares e 47 civis. Apenas tr~s estados n~o tinham tido interventores militares. A presen~a militar se fazia tamb~m sentir nas
comisses t~cnicas, como a Comiss~o Nacional de Siderurgia, criada em
1931 pelo ministro da Guerra. Depois de 1937, ela se tornou comum nos
novos ~rg~os de formula~~o de politicas, como o Conselho Nacional do Petr~leo, e nas ind~strias vinculadas ~ defesa nacional, como a Companhia
Siderurgica Nacional e
a
F~brica Nacional de Motores. Aparecia ainda nas comisses especiais criadas dentro do influente Conselho Federal deCom~rcio Exterior.
O Estado Novo veio coroar e levar ~s ltimas conseq~~ncias o modelo
visualizado por Gdes Monteiro. Ao eliminar totalmente a politica partid~ria
na sociedade, permitiu aos chefes da facg~o hegemonica militar elimin~-la
tamb~m nas For~as Armadas.
Com o acordo em torno do Estado Novo, Vargas e as For~as Armadas
atingiram o ponto m~ximo de sua influ~ncia, derrotando os adversarios e
eliminando sua capacidade de rea~~o pelo fechamento dos mecanismos de
participa~~o. Os militares se consolidaram como atores politicos assumindo,
pelo !ado politico, a garantia da base social das elites tradicionais e, pelo lado econ~mico, a promo~~o dos interesses da burguesia industrial emergente. A
~nfase posta no controle politico, na integra~~o nacional, na industrializa- ~~o, refor~ava a emergencia do capitalismo industrial, contrariando apenas
os interesses politicos das oligarquias. Era um reordenamento, via Estado
e For~as Armadas, do antigo sistema
de
domina~~o, feito, no entanto, semampliar a participago politica, isto ~, sem democratiza~~o. Era um capitulo
da moderniza~~o conservadora.
Foi exatamente a sensibilidade para o.aspecto participativo demonstrada
por Vargas nos anos finais do Estado Novo que o colocou em posi~~o oposta
aos militares e marcou a terceira fase de suas rela~~es com eles e tamb~m
um periodo qualitativamente distinto da politica nacional.
VARGAS E O MILITARES
IU
I ·
TECEIRA FASE: DIvtRcI0 (1945-64)
Desde o inicio da era Vargas, tomara-se evidente a preocupa~~o governa- mental com o problema social, revelada sobretudo na produ~~o de ampla
legisla~~o sindical e trabalhista que culminou na Consolida~~o das Leis do Trabalho (1943). No entanto, uma aproximag~o politica entre o governo e
os sindicatos s~ se configurou nos anos finais do Estado Novo, sobretudo a partir de 1942, quando o ministro do Trabalho deu inicio a palestras radio-
f6nicas semanais dirigidas aos trabalhadores. Capitalizando sobre a legislag~o
sindical e social por ele criada, Vargas, diretamente e via seu ministro do Trabalho, passou
a
dirigir-se.explicitamente aos sindicatos e ~ classe oper~ria,sem divida com um olho na eventual necessidade de terminar a ditadura e
contar com um novo ator politico com peso eleitoral.
A
medida que se tornava previsivel a vit~ria dos aliados, intensificou-sea preparag~o para a democratiza~~o e o apelo aos operrios. A imagem de Vargas como o "pai dos pobres", o amigo dos oper~rios, foi sendo sistemati- camente construida. O movimento chegou ao auge com a proposta de uma assembl~ia constituinte com Vargas, que foi apoiada at~ mesmo pelo Partido Comunista do Brasil. Essa guinada, quetinha semelhan~a com o fen~meno peronista em marcha na Argentina desde 1943, foi a causa imediata do div~r- cio entre Vargas e as For~as Armadas que, ent~o tomadas pelo anticomunismo e pel pretens~o de guiar
~
Estado, n~o aceitaram a inclus~o de novo atorpolitico que lhes era politica e ideologicamente antagonico.
Nas circunstancias da ~poca - luta interna contra a ditadura e externa
contra o nazi-fascismo -- o motivo do div~rcio
foi
obscurecido pela aspira~~o geral de democratiza~~o que colocava do mesmo lado parceiros heterogeneos como os socialistas e os liberais. Dentro das prprias For~as Armadas, o quadro n~o era claro,° Em 1945, ficaram contra Vargas os principais entre seus antigos auxiliares, como G~es, Dutra, Canrobert, tidos sempre como simpatizantes do Eixo. Movia este grupo o receio da politica trabalhista de Vargas, que vincula- vam de modo quase paran6ico ao perigo comunista. Ficaram tamb~m contra ele antigos aliados da ~poca pr~-Estado Novo, como os generais Juracy Magalh~es e Juarez T~vora, e o brigadeiro Eduardo Gomes, este candidato~
presidenciaem 1945. Embora o anticomunismo e o medo de uma politica populista a0 estilo de Per~n estivessem tamb~m presentes nesse grupo, ficavam em parte encobertos sob a capa da luta contra a ditadura, pela defesa do liberalismo e da democratiza~~o. Ao evoluir dos acontecimentos, a alian~a entre esses dois grupos, que foi conjuntural em I945, se consolidou e constituiu a nova fac~o militar que se tomou vitoriosa em 1964, quase 20 anos depois.
I.
FOR(AS ARMADAS E POLITICA NO BRASIL VARGAS E O MILITARES1131 '
agora seus inimigos generais. E tamb~m n~o era mais t~o f~cil jogar com
as
ambi~es de generais, lan~ando uns contra os outros. Na realidade, a vit~riade Estillac no Clube devera-se a uma esperta campanha de filia~~o de oficiais do quadro au:xiliar, isto ~, de antigos sargentos promovidos a tenentes, e de
oficiais reformados. A quase totalidade do generalato n~o aceitava Estillac - Leal, assim como Nero Moura n~o tinha o controle da Aeron~utica, onde dividia a liderarn;a com o brigadeiro Eduardo Gomes, que fora novamente derrotado nas elei~es presidenciais de 1950.Al~m do mais, alguns generais de prestigio fi~is a Vargas, como Zen6bio da Costa, eram tamb~m ferrenhos
anticomunistas, ponto
em
que se aproximavam dos inimigos do presidente. Zen6bio tamb~m disputava com Estillac o comando do Ex~rcito, dividindo assir as j~ debilitadas for~as de Vargas.A luta concentrou-se no Clube Militar. Come~ou j~ em 1950, ap~s a publica~~o de um n~mero da
Revista
do Clube no qual apareceu o artigo"Considera~~es sobre a Guerra da Cor~ia", redigido pelo diretor da
Revista.
Oartigo combatia a id~ia de envio de tropas brasileiras ~ Cor~ia. Os dois grupos que se tinham unido para derrubar Vargas
em
1945 consolidaram sua alian~ae come~aram um combate sem tr~guas contra a dire~~o do Clube criando o movimento chamado Cruzada Democrtica. Em setembro de 1951, mais de 2.000 oficiais pediram assembl~ia' extraordinria do Clube para discutir a politica da diretoria e a linha editorial da Revista. Alegando falar em nome da sobreviv~ncia da organiza~~o militar e da pr~pria democracia, pediam o fim
da
politica no Ex~rcito. Adire~~o
do Club~ apelou para a tradi~~o par-ticipativa dos militares ao final do Imp~rio, para a id~ia do soldado-cidad~o.
Isto ~, apelou para a tradi~~o pr~-G~es Monteiro. A assembl~ia acabou n~o
sendo realizada, mas a lideran~a de Estillac ficou abalada, inclusive porque
o outro esteio de Vargas, Zen~bio, tamb~m considerava o Cube um "ninho de mazorqueiros". Em 1952, Vargas foi for~ado a exonerar os dois generais, descobrindo-se ainda mais. Nesse mesmo ano, a Cruzada derrotou Estillac que se tinha candidatado ~ reelei~o para a presidencia do Clube. As bases
militares de Vargas estavam quase completamente destrogadas.
Em 1953, a conspirag~o militar, aliada a grupos civis, sobretudo a0s
liberais, conservadores da Uni~o Democratica Nacional (UDN), caminhou
rapidamente ~ medida que Vargas dava seq~~ncia
~
sua politica nacionalistasancionando a lei que criou o monoplio estatal do petroleo e propondo ao
Congresso projeto de lei que limitava os lucros extraordinrios. O almirante
Pena Boto criou, ent~o, a Cruzada Anticomunista Brasileira envolvendo amplos setores da Igreja, ex-integralistas , e at~ mesmo pessoas ligadas a0s meios sindicais e ~s escolas de samba.
Ao lado de Vargas, ficaram uns poucos generais e alguns oficiais que
tinham participado da For~a Expedicion~ria Brasileira na It~lia, como o gene-
ral Paquet, comandante da Vila Militar, o general Odilio Denys, comandante da policia, o general Estllac Leal, o brigadeiro Nero Moura. Al~m da lealdade pessoal, movia o grupo que permaneceu leal a Vargas, sobretudo os oficiais de escales intermediarios, a simpatia pela politica nacionalista e social. Poli- ticamente, sua posig~o era incomoda, pois implicava defender o ditador num momento em que as press~es pela democratiza~~o eram gerais entre a elite, inclusive nos setores de esquerda. Foram grandes as press~es sobre os militares para acabar com a ditadura que eles proprios tinham ajudado a implantar. Democratas, liberais e reacion~rios, todos pediam a saida do ditador.
As press~es generalizadas e o receio de que Vargas tentasse permanecer no poder sustentado no apoio popular, frustrando o processo eleitoral j~ em curso,
levaram
~
sua deposig~o pelas For~as Armadas em outubro de 1945. Pelo lado dosmilitares, a deposig~o foi uma reedig~o ampliada (pela inclus~o
da
Aeron~utica)do Movimento Pacificador de 1930.As tr~s armas agiram conjuntamente. Foi o primeiro golpe planejado pelos tr~s estados-maiores. De fato, para efetivar a deposi~~o foi criado o embri~o do que seria posteriormente o Estado-Maior das
For~as Armadas (EMFA).As vozes discordantes ou estavam em escal~es inferiores,
ou n~o tinham condi~~es de se manifestar. Foi uma a~~o tipica do ideal de G~es:
a corpora~~o agindo como um todo, pela voz da hierarquia. N~o houve expurgos
como em 1932, 1935 ou 1937.A calmaria durou at~ 1950, com o general Dutra na presidencia da Rep~blica e o general Canrobert no Minist~rio da Guerra. Mas a imunizag~o da organiza~~o militar contra a contamina~~o politica externa no pde resistir
~
abertura politica,~
retomada do debate na so ciedade. 0 centro da disc6rdia continuou sendo a figura do ex-ditador e sua politica. Uma vez apresentada a candidatura de Vargas ~s elei~es presiden- ciais de 1950, as posi~~es come~aram a se extremar. O general Estillac Leal foi lan~ado candidato~
presidencia do Clube Militar como uma esp~cie deteste da viabilidade militar da candidatura do ex-ditador. A vit~ria de Estillac
indicou' que ainda havia apoio entre setores do oficialato. Uma vez eleito, Vargas foi buscar no pr~prio Estillac seu ministro da Guerra. O brigadeiro
Nero Moura, outro aliado de 1945, foi feito ministro da Aeron~utica.
No entanto, de acordo com a maioria dos observadores, amigos e inimi
gos, Vargas voltou ao governo sem a acuidade politica e a vontade de poder que tinham sido sua marca registrada, Ele calculou mal a influ~ncia de seus partid~rios dentro das For~as Armadas. N~o perceb~u tamb~m a dimenso das transforma~~es operadas na organiza~~o militar com sua propria coniv~ncia.
1114
FOR<;:AS ARMADAS E- POLITICA NO BRASILEm 1954 0s acontecimentos se precipitaram. Em fevereiro, foi publi- cado o "Memorial dos Coron~is", assinado por 82 oficiais superiores lotados no Rio, concentrados no Estado-Maior do Ex~rcito e na Escola Superior
de Guerra. Redigido pelo coronel Golbery do Couto e Silva, o "Memorial"
punha ~nfase na precariedade da situa~~o funcional do Ex~rcito, com queixas contra a insufici~ncia de verbas, a falta de estimulo profissional,
os
baix0svencimentos, a desuni~o. Mas, segundo admitem mesmo pessoas ligadas a0s
signat~rios, a finalidade principal era atingir Jo~o Goulart, ministro do Tra-
balho, cujo projeto de aumento de 100% do salrio minimo era criticado ao
final do "Memorial". Na pessoa de Goulart, o alvo era o mesmo de sempre, a alegada influ~ncia comunista nas For~as Armadas e no pais, tolerada pelo
presidente. Embora tivessem
agido
~
revelia dos comandantes, os signat~riosn~o foram punidos como o exigia a legislag~o militar, indica~~o clara .da coniv~ncia dos chefes. Na realidade, o "Memorial" pretendia incentivar os generais a uma a~~o anti-Vargas.
Em maio, o general Canrobert foi eleito presidente do Clube Militar. Em agosto, o assassinato de um major da Aeron~utica, Rubens Vaz, quando protegia o lider udenista Carlos Lacerda, foi a gota d'~gua. Foi enorme a irritag~o na Aeron~utica, houve reuni~es exaltadas nos clubes das tr~s for~as em que se pedia, de inicio, a apurag~o do crime, depois,a pr~pria renuncia
de Vargas. Abalado pelas investiga~~es do assassinato que incriminaram membros de sua guarda pessoal, acuado tambem pela UDN, cujo lider na C~-
mara, Afonso Arinos, em discursos hist~ricos, segundo sua propria avalia~~o,
pedia sua renncia, Vargas se viu indefeso. Diante do ultimato dos generais, brigadeiros e almirantes, e sem apoio civil organizado, decidiu pela morte
voluntaria dando um tiro no cora~~o em 24 de agosto de 1954.
Era a segunda vit~ria da fac~~o que o derrubara em 1945. Novamente teve ~xito uma opera~~o integrada da hierarquia militar na qual o grupo
anti-Vargas se escondia atr~s do interesse de toda a organiza~~o. Os parti-
d~rios militares de Vargas n~o tiveram for~a nem legitimidade para.reagir.
Os neutros se deixavam levar pelo argumento corporativo e anticomunista.
Mas n~o fora a vit~ria final. A candidatura de Juscelino Kubitschek, lancada
pelo Partido Social Democr~tico (PSD), reacendeu o udenismo militar. Os mesmos que combatiam Vargas passaram a combater Juscelino, que acusavam de continuador do varguismo, e levantaram a tese da exigencia de maioria
absoluta de votos na elei~~o presidencial
de
1955. Desta vez, no entanto,os partid~rios militares de Vargas se organizara m no Movimento Militar
Constitucionalista para a defesa do mandato de Juscelino, uma causa que
contava com amplo apoio popular. Em 11 de novembro de 1955, este grupo
V
ARGM
E O MILITARES1151
conseguiu, pela a~o dos generais Henrique Lott e Odilo Denys, impedir a
marcha do novo golpismo dando um paradoxal golpe preventivo e depondo
o presidente em exercicio que era conivente com o anti-varguismo.
A vit~ria, no entanto; deveu-se mais ao apoio popular a Juscelino. Para as
For~as Armadas, o 1l de novembro foi traum~tico. Dividiu o Ex~rcito inter-
namente e o incompatibilizou com a Marinha e a Aeron~utica. Na Marinha,
quase todo o almirantado era anti-Vargas. Na Aeron~utica, o inconformismo
atingiu o ponto mais alto. Manifestou-se em rebeli~es armadas, como as de Jacareacanga (1956) e de Aragar~as (1959). Em carta a Juscelino em 1956, o general Cordeiro de Farias apontou a exist~ncia de uma guerra fria entre as for~as e sugeriu a nomea~o de ministros civis para pacific~-las.
A luta contra o fantasma politico de Vargas continuou algo amortecida durante o govero de Juscelino (1955-60), mas voltou a agu~ar-se em 196I
com a posse de Jo~o Goulart, em seguida
~
ren~ncia de J~nio Quadros, o presi- dent~ eleito em 1960.A posse em si j~ foi um compromisso na medida em queGoulart foi for~ado a aceitar o regime par\lamentarista. Sob o aspecto militar, ela
apresentou uma caracteristica da d~cada de 1930: foi,
em
boa parte, garantida pela a~~o dos sargentos. Foram eles os respons~veis, entre outras coisas, pela de-sativa~o de avi~es em Canoas, no Rio Grande do Sul, por planos de resist~ncia
no Rio de Janeiro, pela retirada dos tambores de leo colocados no aeroporto de
Brasilia
por oficiais da Aeronutica para impedir a chegada do presidente,a~~o precedida da pris~o dos oficiais. Os sargentos retomavam
a
luta de 30 anosantes por melhores condig~es funcionais, acrescentando a demanda do direito politico de serem eleitos. Mais do que na d~cada de 1930, sua a~~o se entrosava
agora com a de grupos civis de esquerda como o Comando Geral dos Traba-
lhadores, a Uni~o Nacional dos Estudantes, a Frente Parlamentar Nacionalista. ·Foi intensa a mobiliza~~o politica durante o govemno Goulart em torno
do que se chamava na ~poca de reformas de base. Afetados pela conjuntura participativa e por sua inexperi~ncia politica, os sargentos revoltaram-se em
1963 na capital do pais e tomaram as bases a~reas de S~o Paulo, prendendo
os oficiais. Embora fr acassados, os dois moyimentos causaram p~nico entre o oficialato que
via
amea~ado seucontrole
sobre a organiza~~o. Seguiram-se outros movimentos de pragas. No iniciode
1964, marinheiros e fuzileirosnavais reuniram-se
no
sindicato dos metal~rgicos no Rio. A rea~~o do minis-tro da Marinha transformou a reuni~o em rebeli~o, assustando ainda mais a
oficialidade. Por.fm, em 30 de mar~o de 1964, o presidente Goulart compa-
receu a uma festa de sargentos quando pronunciou um discurso inflamado. Foi o que bastou para desencadear, em 3l de mar~o, o movimento golpista
I
11S FORCAS ARMADAS E POLlTICA NO BRASILA intensidade dos conflitos que marcavam o govemo Goulart permitiu, uma vez mais, que a fac~~o antiVargas mobilizasse a maioria do oficialato
sob a alega~~o de amea~a
~
hierarquia militar e~
ordem social. Boa parte do oficialato n~o queria quebrar a ordem constitucional, mas tamb~m n~o sedis
punha a lutar pelo governo, que, por sua vez,foi
incapaz de usar os recurses de for~a com que ainda contava. Como observou um general da fac~~o vitoriosa, muitos militares dormiram legalistas e amanheceram revolucionarios.Dentro das For~as Armadas a polariza~~o era grande e os ~dios maiores. Ap~s a vit~ria, seguiuse expurgo semelhante aos da d~cada de 1930. De
1964 a 1968, 1.312 militares foram expulsos da corpora~~o, dos quais 574
oficiais e 738 pragas." Nao
~
dificil imaginar quem constava das listas de pu- ni~~o: entre os oficiais, os lideres da corrente nacionalista do Clube Militaryos que apoiaram Lott em 1955, os que apoiaram Goulart; entre has pragas,
as que participaram das manifesta~es de 1963 e 1964.
Medidas tomadas pelos militares vitoriosos em 1964 implementaram reformas organizacionais que retomavam o ideal de G6es de imunizar as
For~as Armadas contra as divis~es politicas. Al~m dos expurgos dos opositores,
intensificouse o controle hier~rquico e ideolgico sobre os oficiais, expan diramse os servi~os de intelig~ncia, reformouse o sistema de promo~~o e
reforma de modo a impedir a perman~ncia por muito tempo de oficiais na
ativa ou no mesmo posto. De novo, a elimina~~o da politica na sociedade, mediante a censura e a repress~o, serviu tamb~m para ajudar a eliminar, ou ocultar, os conflitos internos. Nos 20 anos que se seguiram o pais foi gover nado por generais escolhidos pela corpora~~o militar e apenas confirmados por um Congresso cujo poder era ficticio.
COCLusio
Encerrouse o ciclo de Vargas com a vit~ria de seus inimigos, sobretudo
militares. O feiti~o voltara-se contra o feiticeiro. De 1930 a 1964, mudaram as For~as Armadas, mudou Vargas, mudou o Brasil. Politicamente, m~dou o
Brasil em boa medida em fun~~o das rela~es entre Vargas e as For~as Ar- madas. Para ocupar o espa~o aberto,pela crise olig~rquica e engendrar um novo esquema de domina~~o politica, Vargas aliouse
~
fac~o militar que o levara ao poder e permitiu que ela fizesse das For~as Armadas um ator comrecursos suicientes para influenciar os rumos da na~o e com uma ideologia
abertamente interventora. Enquanto se tratava de reconstituir o poder, de realinhar os setores tradicionalmente dominantes, ou mesmo de promover
VARGAS E o MlLJTAREs 111
I ·
novos interesses, como os da burguesia industrial, Vargas e os militares ca
minharam juntos.
Mas
Vargasfoi
adiante e buscou uma redefinig~o do poder pela expans~o de suas bases, pela incorpora~~o do povo ao processo politico, sobretudo do povo opganizado nos sindicatos, mesmo que o fizesse dentro do estilo pater-nalista do populismo. Nesse momento, ele teve contra si os militares e os inte-
resses de poderosos grupos sociais. Na medida em que a politica populista se confundia com protecionismo econ~mico e com o nacionalismo
de
esquerda, interesses internacionais tamb~m se sentiam prejudicados pelo getulismo.Os conflitos adquiriram nitidez e prfundidade maiores na terceira fase. A alian~a das For~as Armadas com setores da burguesia, apenas esbo~ada
antes, agora se tornou nitida. A Escola Superior de Guerra e ~rg~os como o
Instituto de Pesquisas Econ~micas e Sociais (Ipes) serviram de instrumentos ideologicos e pr~ticos na aproxima~~o da elite militar com as elites econ~mi- cas. Seria exagero dizer que as For~as Armadas se tornaram instrumentos dos interesses empresariais, mas pela primeira vez os empresrios encontraram
nelas um parceiro confi~vel. Excetuando-se elementos isolados, em 1964 j%
desaparecera o ex~rcito temido por Osvaldo Aranha como amea~a
~
ordemsocial. Desaparecera o militar reformista das d~cadas de 1920 e 1930. Graas
a expurgos sucessivos e mudan~as organizacionais, as For~as Armadas torna
ramse. mais fortes, mais coesas, e mais conservadoras. Ajudaram a destruir a rep~blica oligarquica dos coron~is da
Guarda
Nacional mas implantaram a rep~-blica autorit~ria dos generais, exemplo de moderniza~~o conservadora.
O populismo varguista, mesmo levando-se em conta que estava longe de ser um sistema democratico, tinha exigencias distributivas que eram vistas
como incompativeis com um
processo
acelerado de acumula~~o de capital. Mas seria dificil explicar 1964 e todo o conflito entre as For~as Armadas e Vargas com base nesse tipo de argumento.As
For~as Armadas teriam acompanhado facilmente o nacionalismo economico e o industrialismo deVargas n~o fosse sua face populista. Talvez tenha sido antes o desencontro
politico que levou ao div~rcio. As For~as Armadas, convencidas do poder. que tinham adquirido e obcecadas pelo anticomunismo, foram incapazes de aceitar a competig@o de novos atores e o conflito democratico. Vargas, em
seu segundo governo, assim como Jo~o Goulart mais tarde, foi incapaz de
entender as caracteristicas da nova organiza~~o militar que ajudara a criar,
n~o mais manipul~vel pela coopta~~o de generais. O desencontro talvez n~0
fosse inevit~vel. Que tenha existido foi uma infelicidade para o pais, na me- dida
em
q~e
i mpossibilitou um processo de moderniza~~o econ~mica menos concentrador e um processo de democratizag~o mais acelerado.FORTUNA E VIRTU 1_11
I
·
.
popular, os generais do povo, o dispositivo militar?
E
verdade que todos es-peravam algum tipo de golpe. O presidente denunciava o golpe da oposi,~o
de direita, que denunciava o golpe do presidente; a esquerda radical, liderada por Brizola e seus Grupos de Onze, denunciava o golpe do presidente e da direita .e era acusada por ambos de preparar o pr~prio golpe. Mas ningu~m esperava um desfecho t~o r~pido.
A segunda surpresa, que tamb~m atingiu a todos, veio um pouco de-
·pois, quando come~aram a ser publicados os atos institucionais, contendo demiss~es e cassa~~es de direitos politicos, e quando o general Castelo
Branco assumiuo governo. Os dois lados admitiam envolvimento militar
·num eventual golpe, mas ao estilo cirrgico das interven~~es de 1945, 1954,
1955 e 1961, dirigidas para a derrubada do presidente, seguida da devolu~o
do poder aos civis. Nenhum dos lados previa um golpe liderado e controla- do por militares, seguido de um governo militar. 0 desapontamento ai foi maior entre os conspiradores civis de olho na presid~ncia da Rep~blica, mas a surpresa foi geral. Como militante da A~~o Popular, perguntei-me pelas raz~es. da primeira surpresa, como aluno de ci~ncias sociais, indagueime
das causas da segunda. Como militante e aluno, restou-me da experiencia traum~tica a sensag~o de que o golpe fora produto de a~~es e omiss~es de
atores politicos e n~o de for~as sociais irresistiveis.
Olho hoje para o passado e tento explicar as duas perplexidades. Co- me~o pela segunda.
Ji
na ~poca, pareceu-me que a falta de previs~o sobrea natureza do golpe devia ser atribuida
~
falta de conhecimento sobre um ator fundamental da vida republicana que eram os militares. Dediquei meuprimeiro trabalho universit~rio a estudar esse ator, verificando
que
desdea d~cada de 1930, sob a lideran~a de Ges Monteiro, ele vinha passando
por grandes transforma~~es internas que o preparavam para um papel hegemonico na politica. Essas mudan~as n~o foram percebidas por estu-
diosos e por politicos, nem mesmo por Vargas, que delas foi cmplice. As
possiveis raz~es para essa cegueira s~o discutidas em outro capitulo deste
livro e n~o ser~o repetidas aqui."
E
mais complexo encontrar as raz~es da primeira surpresa. Come~o com o tema da predominancia da a~~o, davirt,
sobre fatores no contro- l~veis, afortuna,
para usar as conhecidas express~es de Machiavel. Foram v~rias as tentativas de atribuir o golpe e seu ~xito a uma inevitabilidade, I
\
' Ver o capitulo "Militares e civis: Um debate para al~m da Constituinte".
Fortuna
e
Virti
no Golpe de 1964
L
embro-me bem do dia 3l de mar~o de 1964. Era aluno do curso deSociologia e Politica da Faculdade de Cincias Econ~micas da antiga
Universidade de Minas Gerais e militava na A~~o Popular, grupo de esquerda
catlica. Era grande a politiza~~o do mundo estudantil, em consonancia com o que se passava na politica nacional. Muitos de n~s acredit~vamos ingenua mente que o pais caminhava para o socialismo e queriamos fazer parte.da jornada. O presidente Goulart era visto com suspeita, mas acredit~vamos que o movimento popular, os oper~rios, os estudantes, os camponeses, operariam a mudan~a com
ou
sem ele. Eu atuava no Movimento de Educa~~o de Base (MEB),da
Confer~ncia Nacional dos Bispos, criando sindicatos rurais. J%antevia o Vale do Rio Doce tomado pelos oper~rios das grandes sider~rgicas em alian~a com os trabalhadores das grandes empresas de reflorestamento.
No dia seguinte, I de abril, j~ n~o havia divida sobre a vitria do golpe.
Sai em companhia de colegas a vagar pelas ruas de Belo Horizonte, todos n~s meio perdidos, sem entender bem o que se passava, com a sensa~~o de que
o c~u desabara sobre nossas cabe~as. Contempl~vamos, perplexos, a alegria
dos que celebravam a vit~ria e assistiamos, assustados, ao inicio da viol~ncia
contra os derrotados. Alguns alunos da faculdade, partidarios do golpe, an-
davam armados pela cidade ca~ando os colegas de esquerda. O sonho do
socialismo esboroavase como um castelo de areia.
Foram duas grandes surpresas. A primeira, imediata, atingiu a todos, esquerda e direita: a facilidade da vit6ria dos conspiradores. Para os golpistas, foi boa noticia, para a esquerda, foi um choque. Como fora possivel uma vit~ria t~o f~cil? Onde estavam os sindicatos, os estudantes, o movimento
I
uo
FOR�AS ARMADAS E POLITICA NO BRASILhist~rica. Quase todas vieram da esquerda, e no por acaso, pois serviam tamb~m para fornecer um alibi para possiveis erros politicos. A explica~o
mais difundida foi a de que o golpe se devera a compl6 do imperialismo norteamericano que, por sua vez, era movido pela din~mica da Guerra Fria..O golpe,teria come~ado em Washington, fora fomentado pela CIA e
n~o haveria como evitlo. Moniz Bandeira e Darcy Ribeiro foram defen
sores dessa tese. Outra explicag~o, que n~o excluia totalmente a primeira, deslocava para dentro do pais o eixo golpista. Os autores do golpe seriam as
classes dominantes, os latifundi~rios, os grandes empresrios e banqueiros,
liderados por associa~~es de classe sob a coordena~~o e a cobertura ideo
l~gica do Instituto Brasileiro de Ag~o Democratica (bad) e do Instituto
de Pesquisas Econ~micas e Sociais (lpes). Agindo por si ou com apoio
externo, essas for~as tamb~m formariam
um
bloco irresistivel. O principalformulador dessa posi~o foi Ren~ Dreyfus.
Apareceram tamb~m explicages ligadas
~
economia, com v~rias vertentes. Uma delas era que o golpe seria inevit~vel porque a implanta~~o de um regime autorit~rio era indispens~vel para a manuten~~o da superexplora~~o
do trabalho num sistema de depend~ncia econ~mica. A depend~ncia exigia que os capitalistas nacionais transferissem parte da maisvalia para o exterior e, para compensar a perda, tinham que aumentar a explorag~o do trabalho nacional. Outra vertente argumentava que o golpe e.a conseq~ente implan
tag~o de um regime autorit~rio era exigencia do processo de aprofundamento
do capitalismo, isto ~, da passagem da fase de substitui~~o de importag~o de bens de consumo dur~veis para a fase de substitui~~o de bens de capital. Uma,
terceira vertente do argumento econ~mico dizia que o golpe e o autoritarismo
eram necessi.lriospara restabelecer a capacidade nacional de poupar, retomar o
investimento e recuperar o ritmo de crescimento econ6mico paralisado desde
1962. Durante o governo Kubitschek, o pais crescera a taxas de 7% ao ano. A partir de 1962, caira o ritmo ao mesmo tempo que a infla~~o come~ava a
disparar. No ano de 1963, ela j chegava a 80% ao ano.
Todas essas explica~~es, elaboradas a posteriori, t~m em comum a ca
racteristica de retirar dos atores politicos a responsabilidade pelos aconte
cimentos e, portanto, tamb~m por seus possiveis erros. Minha sensa~~o na
~poca de que o golpe fora conseq~~ncia de estrat~gias dos agentes politicos
foi confirmada posteriormente por leituras de depoimentos de participantes.
O golpe e sua r~pida vit~ria n~o fora determinado pela presen~a da
fortuna,
mas pela aus~ncia de virti.No que se refere
~
interferencia norteamericana, devese. notar quea.documentag~o sobre ela s~ foi conhecida muito depois, quando foram
FORTUNA E vrnw
m
I·
abertos os arquivos do presidente Lindon Johnson. Soube-se, ent~o, que a
opera~~o Brother Sam consistia em plano de interfer~ncia a ser posto em a~~o apenas no caso de haver guerra civil em que os golpistas necessitassem de apoio. Sem d~vida, os Estados Unidos estavam interessados na derrota
de Goulart. havia dinheiro americano no Ibad e a , . CIA n~o descansava. Mas
tudo jsso no m~ximo encorajou os golpistas. A conspirag~o foi interna como internas foram as causas de seu ~xito.
Nao sendo economista, recorro, para refutar as teses mecanicistas, a artigo
de Jos~ Serra, publicado na revista
Dados
em 1979, intitulado"As
desventuras do economicismo: tr~s teses equivocadas sobre a conex~o entre autoritarismo e desenvolvimento". O autor contesta um por um ostr~s
argumentos queatribuem a causas econ~micas o golpe de 1964. Por exemplo, no caso da
tese do aprofundamento do ca pitalismo, ele mostra que a substitui~~o de
importa~o de bens de capital j~ come~ara bem antes de 1964 e lhe foi dada pouca import~ncia ap~s o golpe. A prioridade dada
~
ind~stria de bens de capitals
foi definida durante o govemo do general Geisel., N~o ha divida de que havia uma conspira~~o da direita em andamento desde a ren~ncia de J~nio Quadros e a subida de Goulart, ou melhor, desde 1954, quando Vargas, pelo suicidio, a derrotou. Depoimentos dos principais militares e civis envolvidos n~o deixam dvidas a respeito. No entanto, esses mesmos. depoimentos mostram as grandes dificuldades/ encontradas pelos conspiradores. O Ipes, por exemplo, foi tido como um ator primordial da conspirag~o e do golpe. Mas depoimento de seu diretor revela que o instituto teve enorme dificuldade em arrancar dinheiro dos empres~rios. A maioria dos homens de neg~cio tinha receio de se envolver,
ou simplesmente n~o queria gastar dinheiro. Os proprietrios r~urais, os fa
mosos latifundirios, simplesmente n~o apoiavam o lpes porque o instituto defendia uma reforma agr~ria moderada. De reforma agr~ria
no
queriamouvir falar, mesmo moderada.
O mesmo problema atingia os conspiradores militares. Lendo-se.seus depoimentos, percebe-se a grande dificuldade que tinham em convencer os colegas da necessidade
de
derrubar o presidente. Havia um legalismo inercial nas For~as Armadas. Envolver-se em a~~o golpista comportava um grande risco. O fracasso da aventura podia significar o comprometimento definitivo da carreira. Disso sabiam muito bem os que tinham participado da frustrada tentativa de golpe de 1961 para impedir a posse de Goulart.Como se sabe, a decis~o golpista da c~pula militar foi contestada pelo III
Ex~rcito e gerou resist~ncias em v~rias outras unidades militares. Em 1964, at~ as v~speras do golpe, o grosso da tropa n~o estava preparado para em-
I
1!Z FOR�AS ARMADAS E POLITICA NO BRASILbarcar na aventura. Excluindose os grupos ideologicamente motivados,
~
esquerda e~
direita, a maioria dos militares permanecia em cima do muro,~
espera de que os acontecimentos indicassem com alguma seguran~a em que dire~~o sopravam os ventos.Nada era ponto pacifico at~
3l
de mar~o.As op~~es estavam abertas at~ o ~ltimo momento. Houve, sem dvida, nos ~ltimos meses antes do golpe, uma polarizag~o das for~as politicas. Grandes manifesta~~es se verificavama favor e contra Goulart nos principais centros urbanos. Lembro-me de
um comicio de Leonel Brizola em Belo Horizonte, em 25 de fevereiro de 1964, que foi desbaratado par opositores apoiados pela policia estadual do governador Magalh~es Pinto. Do conflito resultaram mais de 50 feridos. O pr~dio da Secretaria de Sade foi tomado por opositores e a mesa foi ocupada por senhoras que agitavam tergos. Brizola
no
passou do hall de entrada. O comicio de 13 de mar~o em frente ~ Central do Brasil no Riode Janeiro, em apoio ~s reformas, mobilizou 150.000 pessoas. Em So
Paulo, no dia 19 de mar~o, os inimigos do presidente reuniram 500.000
manifestantes na "Marcha da familia com Deus pela liberdade". No dia 2
de abril, calcula-se que um milho de cariocas tenha desfilado no Rio de
Janeiro para festejar o ~xito do golpe.
Apesar dessas manifesta~~es,
ha
motivo para crer que a polariza~~o atingia apenas as c~pulas politicas e os setores mais politizados da popula~~o. Pesquisa do Ibope, feita em mar~o de 1964, mes do golpe, cujos dados
foram revelados por Antonio Lavareda em seu livro
A
democracia nas
umas,
indica que, ao serem perguntados sobre suas prefer~ncias para as elei~~es
presidenciais previstas para 1965, os entrevistados indicaram como favorito
o ex-presidente Juscelino Kubitschek, um homem de centro. Reduzindo
as respostas aos quatro candidatos principais, Juscelino tinha a prefer~ncia
de 37% dos eleitores, Carlos Lacerda, de 25%, Ademar de Barros, de 9% e Magalh~es Pinto, de 7%. Outra pesquisa do mesmo Ibope, feita em junho de 1963, mostrava que 45% da popula~~o preferiam uma solu~~o de centro para o pais (Juscelino Kubitschek e Magalh~es Pinto), 23% optavam pela direita (Carlos Lacerda e Ademar de Barros), I9% pela esquerda (Leonel
Briola e Miguel Arraes), e 13% n30 sabiam responder.
Uma das raz~es aparentes para a radicalizag~o era a vis~o negativa que
se tinha na ~poca da atua~~o dos partidos e do Congresso. Ecoando tese de!
Celso Furtado, provavelmente correta, que dizia ser o Congresso mais con servador do que o Executivo e constituir obst~culo ~s medidas reformistas
'
lideran~as mais radicais come~aram a,propor solu~~es revolucion~rias que passavam ao largo do sistema representativo. Os exemplos mais claros dessa
FORWN�- s VIRTU
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orienta,~o foram os pedidos de convocag~o de uma assembl~ia constituintee a cria~~o dos Grupos de Onze por Leonel Brizola. Este ltimo pediu ab~rta- mente, no comicio das reformas de 13 de maio, o fechamento do Congresso ea convoca~~o de uma constituinte.Pesquisas posteriores mostraram que, embora o Congresso fosse de fato
mais conservador do que o Executivo, havia possibilidade de acordo, mesmo em rela~o a reformas pol~micas. A mais pol~mica de todas, pelas violentas
rea~~es que provocava (os fazendeiros armavam-se ostensivamente), era a reforma agr~ria. Ora, o mais importante partido da ~poca, o
PSD,
consider adoportavoz do conservadorismo rural, apoiava uma reforma agr~ria que abranges
se propriedades improdutivas acima de 500 hectares. Mais ainda, concordava
com o pagamento das desapropria~es com titulos da divida p~blica, um ponto essencial da reforma. Isso significa que mesmo no Congresso havia possibilidade de acordo. Desde, ~ claro, que houvesse disposig~o para a negocia~~o.
A alega~~o da fal~ncia dos partidos politicos tamb~m n~o corresponde ~
realidade. A pesquisa do Ibope do m~s de mar~o mostra que 64% dos entre-
vistados se identificavam com os partidos politicos tradicionais. Os tr~s maio-
res deles,
o
PTB, o PSD e a UDN, juntos, comandavam a lealdade de 50% dos entrevistados. Era um nmero muito alto, mesmo por padr~es intemacionais. Era id~ntico ao verificado na ~poca na Alemanha, superior ao da Fran~a (63%) e ao da B~lgica (58%). O indice brasileiro aproximava-se dos de democracias avan~adas. Os partidos nacionais consolidavam-se e se nacionalizavam.Por que, ento, se caminhou para a polarizag~o e para o
final
traum~tico?Examino o caso do principal ator, o presidente da Repblica. Foi grande na
~poca nossa irrita~~o com a atua~~o de Goulart. Ainda hoje, dispondo de
maiores informag~es,ela me parece dificil de entender. O presidente parecia
fazer tudo o que seus advers~rios pediam a Deus que fizesse para facilitar o golpe. Depoimentos de pessoas pr~ximas a ele, como Amaral Peixoto e o chefe do Servi~o Federal de Informag~es e Contra-Informa~~es (SFIC) do governo, o capit~o de mardeguerra lvo Corseuil, mostram que Goulart n~o dava aten~~o aos freq~entes alertas que lhe faziam sobre os riscos politicos
de muitos de seus atos. Nomeava generais n~o confi~veis para o comando de
postos-chave, como o do III Ex~rcito, mantinha, ~s v~speras do golpe, no Minist~rio da Guerra, um general hospitalizado e, no Gabinete Militar, um outro vitima de alcoolismo a que fora levado por crise familiar, n~o ouvia os conselhos para agir com mais firmeza na manuten~~o da disciplina militar amea~ada por rebeli~es de sargentos e marinheiros.
Sobretudo, Goulart n~o atendeu aos apelos dram~ticos de Tancredo
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FORAS ARMADAS E POLITICA NO BRASIL FORTUNA E VIRTU125 ·
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segundo governo, Vargas escalava o desafio aos inimigos na mesma proporo em que perdia for~a politica, como se quisesse provocar um impasse. Pressio- nado pela esquerda, Goulart escalava a ret~rica das reformas sem cuidar das bases de sua sustenta~~o politica frente
~
direita. A grande diferen~a entre ele e Vargas teria sido a cena final. Vargas optou pelo suicidio fisico, agregandopathos
~
derrota politica. Goulart decidiu preservar a vida fisica, chanceland osua derrota politica. Seu suicidio foi apenas politico sem drama e sem glria,
morte sem ressurrei~~o. N~o saiu da vida nem entrou na hist~ria.
Diziam os antigos que aqueles a quem Zeus queria perder antes os
enlouquecia (Quos Zeus
vult
perdere prius dementat). Zeus parecia estarmuito ativo no Brasil em 1964. Mas talvez n~o seja necessario recorrer a hip~tese t~o dram~tica como a do suicidio ou invocar antigas divindades.
A
corrida para a polariza~~o.e o fechamento de alternativas por parte do presidentee
de grupos mais~
esquerda talvez se possa explicar de maneiramais simples. O povo invadira a politica republicanaao final do Estado Novo e, sob o regime democratico, ampliava constantemente sua capacidade de interveng~o. Essa novidade quebrara o padr~o tradicional de fazer politica. Era um momento de grande experimentag~o, inevitavelmente algo ca~tico. Afinal, o pais buscava realizar em curto espa~o de tempo tarefa que outras nag~es tinham cumprido ao longo de s~culos. Partidos e lideres politicos que
interpelavam o novo ator, e as pr~prias lideran~as sindicais e populares, todos
estavam aprendendo o novo jogo, experimentando novas t~ticas. Ao lado do desafio, a situa~~o apresentava bvios riscos diante da novid~de e do grande
medo causado pela emerg~ncia do novo ator politico.
No processo, era muito de esperar que se come tessem erros de avalia,~0.
Para me limitar
~
esquerda, as c~pulas sindicais, sobretudo do ComandoGeral dos Trabalhadores (CGT) e do Pacto de Unidade e A~~o
(PUA)
e as lideran~as estudantis comandadas pela Uni~o Nacional dos Estudantes(UNE), acreditavam ter o poder de controlar suas bases e de serem capazes
de mobiliz~-las quando necessrio, paralisando as atividades produtivas. O
apoio de alguns generais dava credibilidade a tal convic~~o. Os inimigos
de bom grado acreditavam, ou pretendiam acreditar, no mesmo poder, pois com isso podiam acusar Goulart de querer implantar no pais uma rep~blica sindicalista. Ao mesmo tempo, eram tamb~m vitimas de distor-
~es de percep~~o, na medida em que a Guerra Fria alimentava a histeria
anticomunista: Criava-se uma bola de neve radicalizante que se afastava cada vez mais da realidade. Sobreestimando a pr~pria for~a e subestimando a do inimigo, o presidente e as esquerdas se empenharam numa corrida
para o abismo.
t
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Policia Militar do Rio de Janeiro, realizada no Autom6vel Clube a 30 demar~o. Respondeu que deyia muito
aos
sargentos
e
n~o podia decepcion~-
los. N~o s compareceu
~
festa como abandonou o texto escrito do discurso e falou de improviso, em tom exaltado, para um audit~rio dequ~
fazia parte o famigerado "cabo" Anselmo. Como se sabe, o discurso precipitou oinicio do golpe. Ao ouvi-lo, o general Mour~o Filho decidiu deslocar suas
tropas de Juiz de Fora em dire~~o ao Rio de Janeiro. Nas palavras de um
dos conspiradores, muitos militares dormiram legalistas a 30 de mar~o e
acordaram revolucion~rios no dia seguinte. A atitude do presidente diante
dos movimentos dos sargentos e marinheiros era tudo o que faltava para gue
os conspiradores militares conseguissem o apoio da maioria de oficiais que
hesitava em aderir a seus planos. Corroer as bases da disciplina era ina-
ceit~vel para qualquer ohcial, mesmo para os que apoiavam as reformas propostas pelo presidente.
A atitude do presidente tornou-se ainda mais dificil
de
en tender quandose recusou a autorizar a resist~ncia ao g olpe que vinha de Minas sob a alega- ~~o de que n~o desejava derramamento
de
sangue. A ordem para n~o resistirfoi dada ao mesmo tempo que n~o atendia aos apelos do comandante do
II Ex~rcito, general Amauri Kruel, no sentido de desautorizar o CGT como condi~~o para n~o ser deposto, e recusava proposta semelhante do chefe do Estado-Maior das For~as Armadas, general Peri Bevilaqua, que o visitou no pal~cio. Dois dias depois, em Porto Alegre, reiterou o gesto, discordando da posi~~o de Leonel Brizola que queria repetir a resist~ncia vitoriosa em 196l e desconsiderando a garantia do general Lad~rio, afinal posto no comando
do III Ex~rcito, de que a rea~o ainda era possivel.
Como entender a atitude do presidente que, de um lado, radicalizava
i1
suas posi,oes numa disputa com Leonel Briola pelo comando das reformas\)e1 de outro, nao apenas descuidava de seu "dispositivo militar", como se
'dizia na ~poca, mas explicitamente o sabotava? Se sua inten~~o fosse dar
um golpe, o que no parece prov~vel, teria que reunir for~as para execut-
lo. Nesse ponto a postura coerente foi de Leonel Brizola que criou seus
Grupos de Onze. Se apenas queria cumprir o mandato, teria que negociar
as reformas e defender a legalidade, se necess~rio com o uso da for~a. Aqui,
novamente, a coer~ncia estava com Brizola, que insistiu em resistir. Se de-
sejava simplesmente abandonar tudo, como acreditava o pr~prio Corseuil,
por que n~o o fazer sem tumultuar a vida politica do pais?
Antonio Callado apresentou uma hip~tese explicativa, que exponho aqui livremente. O comportamento de Goulart teria sido um suicidio incruento.