Duelo en el Paraíso: a diluição da figura do herói e a perda da centralidade do personagem no romance de Juan Goytisolo
Taiana Cristina da Rocha Braga
Rio de Janeiro Agosto - 2013
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito para obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários – Opção: Literaturas Hispânicas).
Duelo en el Paraíso: a diluição da figura do herói e a perda da centralidade do personagem no romance de Juan Goytisolo
Taiana Cristina da Rocha Braga
Orientador: Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do titulo de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas hispânicas).
Examinada por:
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Presidente, Prof. Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
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Prof. Doutora Silvia Ines Cárcamo de Arcuri - UFRJ
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Prof. Doutora Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento – UFF
Rio de Janeiro
FICHA CATALOGRÁFICA
iii Braga, Taiana Cristina da Rocha Braga
Duelo en el Paraíso: a diluição da figura do herói e a perda da centralidade do personagem no romance de Juan Goytisolo/Taiana Cristina da Rocha Braga – Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2013.
Orientador: Victor Manuel Ramos Lemus
Dissertação – UFRJ/FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, 2013.
Referências bibliográficas: f. 144-151
SUMÁRIO
Resumo...v
Resumen...vi
Abstract...vii
Agradecimentos...viii
Introdução...10
CAPÍTULO 1: Trajetória Intelectual de Juan Goytisolo...28
1.1 Influências no autor...37
1.2 Mudança temática em suas obras...44
CAPÍTULO 2: O Romance Moderno...56
2.1 O Romance Moderno no século XX ...69
2.2 Juan Goytisolo...75
CAPÍTULO 3: O herói na história...82
3.1 O herói e sua diluição nas obras de Juan Goytisolo...96
3.2 A substituição do herói por outros temas em Juan Goytisolo...105
CAPÍTULO 4: Duelo en el Paraíso – a diluição do herói...109
4.1 O herói e sua relação com outros personagens...114
4.2 Como o herói se dilui...124
4.3 A substituição da figura do herói por outros temas...127
Conclusão...141
Resumo
BRAGA, Taiana Cristina da Rocha. Duelo en el Paraíso: a diluição da figura do herói e a perda da centralidade do personagem no romance de Juan Goytisolo. Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas Hispânicas)
Orientador: Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
A temática do herói é uma questão discutida pela crítica literária e que merece especial atenção. De sua concepção clássica – apresentando modelos como Ulisses e Aquiles – ao seu correspondente moderno – adotando como exemplo Dom Quixote, considerado o precursor de tal figura –, percebe-se uma considerável transformação no que concerne ao paradigma do referido personagem. Com o desenvolvimento das sociedades, há, nas narrativas ficcionais, uma consequente mudança na percepção de seu papel (herói picaresco, romântico, realista, nietzschiano), o que torna um estudo sobre o tema tão relevante. Esta dissertação tratará da diluição da figura do herói no romance Duelo en el Paraíso (1955), do escritor espanhol Juan Goytisolo, e da perda da centralidade desse tipo de personagem em obras posteriores do mesmo autor. Diante da impossibilidade de uma práxis política, o herói se esvanece na narrativa, tendo a importância de sua atuação substituída por diversas temáticas relacionadas à morte, à religiosidade, ao erotismo, à sexualidade, etc.
Palavras-chave: Herói, diluição da personagem, Juan Goytisolo, Duelo en el Paraíso, literatura espanhola.
Rio de Janeiro Agosto de 2013
Resumen
BRAGA, Taiana Cristina da Rocha. Duelo en el Paraíso: la dilución de la figura del héroe y la pérdida de la centralidad del personaje en la novela de Juan Goytisolo. Disertación sometida al Programa de Postgrado en Letras Neolatinas de la Universidad Federal de Rio de Janeiro – UFRJ, como parte de los requisitos necesarios para la obtención del título de Máster en Letras Neolatinas (Estudios Literarios Neolatinos – Opción: Literaturas Hispánicas).
Orientador: Profesor Doctor Victor Manuel Ramos Lemus
La temática del héroe es una cuestión discutida por la crítica literaria y merece especial atención. Desde su concepción clásica – presentando modelos como Ulises y Aquiles – hasta su correspondiente moderno – adoptando como ejemplo Don Quijote, considerado precursor de tal figura -, se percibe una considerable transformación en lo que concierne al paradigma del referido personaje. Con el desarrollo de las sociedades, hay, en las narrativas ficcionales, un consecuente cambio en la percepción de su papel (héroe picaresco, romántico, realista, nietzschiano), lo que torna un estudio sobre el tema tan relevante. Esta disertación abordará la dilución de la figura del héroe en la novela de Juan Goytisolo, y la pérdida de la centralidad de ese tipo de personaje en obras posteriores del mismo autor. Ante la imposibilidad de una praxis política, el héroe se esvanece en la narrativa, teniendo la importancia de su actuación sustituida por diversas temáticas relacionadas a la muerte, al mito, al erotismo, a la sexualidad, etc.
Palavras-chave: Héroe, dilución del personaje, Juan Goytisolo, Duelo en el Paraíso,
literatura española
Rio de Janeiro
Abstract
BRAGA, Taiana Cristina da Rocha. Duelo en el Paraíso: the diluting of the figure of the heroe and the loss of the centrality of character in the novel by Juan Goytisolo. Master dissertation submitted to the Graduate Program in Humanities and Neo-Latin languages of Federal University of Rio de Janeiro – UFRJ, as part of the required assessments to receive the academic degree of Master in Neo-Latin Languages. (Neo-Latin Literaty Studies – Specialization: Hispanic Literatures)
Advisor: Victor Manuel Ramos Lemus, Ph.D.
The theme of the hero is an issue discussed by literary criticism and deserves special attention. From its classic design - featuring models like Odysseus and Achilles - their corresponding modern - taking as an example Don Quixote, considered the precursor of such a figure - one senses a considerable transformation in relation to the paradigm of this character. With the development of society, there is, in fictional narratives, a consequent change in the perception of their role (picaresque hero, romantic, realistic, Nietzsche), which makes a study on the topic as relevant. This dissertation will address the dilution of the hero figure in the novel Duelo en el Paraíso (1955), the spanish writer Juan Goytisolo, and the loss of the centrality of this type of character in later works by the same author. Faced with the impossibility of political praxis, the hero vanishes in the narrative, and the importance of their work replaced by various themes related to death, religion, eroticism, sexuality, etc.
Key-words: Hero, dilution hero, Juan Goytisolo, Duelo en el Paraíso, spanish literature.
Rio de Janeiro
Agosto de 2013
Agradecimentos
A Deus, por me guiar nos momentos mais tortuosos de minha vida e me fazer chegar até aqui.
Aos meus familiares, pelas ausências em festas, encontros, reuniões, etc.
Ao meu orientador, Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus, por acreditar que eu era capaz de superar os meus limites, por confiar que eu poderia fazer um bom trabalho e pela atenção dispensada a mim.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Faculdade de Letras da UFRJ, por ampliarem o meu conhecimento.
À Professora Doutora Sílvia Inés Cárcamo de Arcuri, por haver me encaminhado no que diz respeito ao tema do meu trabalho (o herói) e por me auxiliar em minhas dificuldades.
Aos meus amigos do grupo de estudo: Simone Silva do Carmo, Tarciso Gomes do Rego, Viviane Soares Fialho de Araújo e Diego Almada Pires, pelo apoio e pelas dicas úteis ao meu trabalho.
Aos meus amigos pessoais: Imara Silva, Lays Neves, Anne Magessy, Gisele Reinaldo, Amanda Thompson, Kelly Reis, Marcella Cruz e Kylzanara Rodrigues, por me apoiarem, me darem força e entenderem que nem sempre eu poderia estar com vocês.
Ao colega Renato Pardal Capistrano, pela belíssima revisão de minha dissertação e pelo apoio oferecido a mim.
Para minha mãe, Rita, por sempre acreditar em minha capacidade. Para meus amigos, pelo apoio nas horas difíceis. Para meu namorado, Cleyder, por não ter me deixado desistir. Para minha avó, Geny, por ser o motivo da minha luta diária.
1. Introdução
El héroe es el don ambiguo que nos concede la literatura antes de tomar conciencia de sí misma.
Maurice Blanchot. El diálogo inconcluso
Definir o paradigma de herói é um problema para a literatura, já que as representações desse tipo de personagem se transformam constantemente. Com o passar dos anos, sua figura adquire novas configurações, acorde com seu contexto histórico-político-social. As alterações podem ser observadas em diversos gêneros, tais como o romance e a poesia. No texto El “héroe” literario y la novela picaresca española (Semántica e historia literaria), Pedro Salinas apresenta quatro acepções que comportam a referida figura: a primeira se relaciona com um “varón de fuerza sobrehumana, de extraordinario valor o capacidad, favorecido por los dioses”
(SALINAS, 1961, p. 57), datada em 1387; a segunda definição se refere ao “hombre que descuella por su excepcional bravura y hazañas marciales” (SALINAS, 1961, p. 57), datada de 1586; a terceira acepção se remete ao homem que “da muestras de extraordinária firmeza, fortaleza o grandeza de alma” (SALINAS, 1961, p. 57), datada de 1661; a quarta e última definição indica ao “varón principal o protagonista de un poema, una obra dramática o una narración, aquel en quien se centra el
Desde o surgimento de seu modelo épico – contando com figuras como Aquiles e Ulisses, seres que buscam atingir a excelência, perseguem seu próprio modelo de perfeição (força física, moral, energia e coragem) para atingir a glória, possuem uma potência excepcional que os diferencia das pessoas comuns (TODOROV, 1995) - até a concepção de seu correlato moderno - distinto do padrão clássico, descrito anteriormente, a transição das características típicas do herói expressa a fixação de um domínio e de uma liberdade do personagem sobre sua vida, contagiando sua realidade e empreendendo uma ressignificação que atinge a todos que o cercam (VARGAS LLOSA, 2004) - vale lembrar, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, como precursor desse novo modelo. Variando consoante às épocas, o fato é que as mudanças apresentadas por tal figura no romance são de relevante importância para que possamos entender a forma como a representação do herói se configura na literatura espanhola desde o século XVII. Entender essas distinções na narrativa é um dos principais objetivos deste trabalho, que tratará a questão da diluição do citado personagem diretamente relacionada com a história da Espanha.
No início do século XX, por exemplo, tal personagem apresentava características que ainda o relacionavam ao seu correspondente épico. Porém, com o advento da 1ª Guerra Mundial, inicia-se uma alteração da prática política expressa por tal figura, sendo o papel do herói muitas vezes representado por pessoas comuns, como um padre ou um fugitivo de um campo de concentração.1
A partir de tais pressupostos, temos nesta dissertação a finalidade de tratar a diluição da figura do herói e a consequente perda da centralidade do mesmo na obra
1
Será apresentado de forma mais abrangente, no capítulo 3, um estudo sobre a atuação de tal personagem em situação extrema (campos de concentração), como apresentado por Todorov em sua obra Em face do extremo (TODOROV, 1995).
Duelo en el Paraíso, de Juan Goytisolo, fazendo uma relação entre tal temática e algumas obras posteriores do mesmo autor, tais como Reivindicação do conde Dom Julião, A saga dos Marx e As semanas do jardim – um círculo de leitores. Aspiramos, com isso, demonstrar como a figura do herói se dilui diante da impossibilidade de sua práxis política no romance.
O desempenho do protagonista de Duelo en el Paraíso, Abel Sorzano, se esvanece ao transcorrer do romance, por motivos relacionados aos seus ideais e ao seu meio social. Ademais, o menino não consegue se inserir plenamente no grupo com o qual estabelece contato (órfãos da residência de refugiados), pois é proveniente de uma classe social distinta. A figura que se apresenta no início do romance como centro da narrativa, no decorrer da obra, perde esse destaque – característica formal que será recorrente em obras posteriores do citado autor. Em uma sociedade em que tal personagem acarreta aspectos provenientes da burguesia, nos questionamos se haveria a possibilidade da cristalização de um herói burguês como representante da massa (personagens desvalidos – órfãos, mendigos etc.), visto que a ideia de democracia de massas não coaduna com uma figura de um herói paradigmático.
Historia y Crítica de la Literatura Española, idealizada por Francisco Rico – reconhecido autor que possui um estudo claro e conciso sobre os referidos temas – em colaboração com outros autores.
Juan Goytisolo é um dos escritores que se sobressaem na literatura espanhola a partir da segunda metade do século XX. Sua relevância se deve a uma profunda reflexão sobre diversas questões (de cunho social, religioso, cultural etc.), sempre com um foco e uma discussão peculiares. O autor se destaca em múltiplos gêneros literários, tendo obtido sucesso nos últimos anos com seus ensaios sobre o mundo contemporâneo, publicados no periódico El País, e seus romances, que abordam diversas temáticas, tais como a sexualidade, a morte, o mito, o marxismo e as relações interculturais (observado em obras como As semanas do jardim – um círculo de leitores, Coto vedado, A saga do Marx).
Duelo en el Paraíso, segundo romance de Juan Goytisolo, publicado em 1955, narra os horrores da guerra civil espanhola e o seu reflexo intenso na vida de crianças da região de Gerona. De estrutura não linear, a obra está centrada, a princípio, na figura do protagonista,2 Abel Sorzano – menino que perde seus pais
nos confrontos armados e, percebendo a impossibilidade de seus tios em mantê-lo, se direciona ao sítio de sua tia-avó, próximo a um dos últimos redutos da resistência republicana –, e seu entorno caótico, tendo a guerra como pano de fundo para a trama. A morte do menino é o eixo central da obra, sendo a partir desse ponto que realizaremos uma reflexão sobre a diluição da figura do herói.
Algumas características desenvolvidas na literatura espanhola na década de 1950, tais como a crítica social, a estética do cainismo, o tremendismo, a
2
Consideramos “protagonista” ao personagem cujo foco da narrativa está centrado em sua representação, encarnando o drama de um grupo (FALIVENE, 1994). Distinto de tal definição, o herói é uma figura arquetípica que reúne em si propriedades necessárias para suplantar seus problemas, como observado na obra de Todorov citada anteriormente.
religiosidade serão apresentadas com a finalidade de demonstrar o modo como estas são elaboradas nos romances de Juan Goytisolo no referido período. A questão autobiográfica também é um dos temas abordados nesta dissertação, o que pode ser observado em diversas obras do referido autor, indicando a forma como ele faz uso de suas experiências pessoais desde suas primeiras publicações.
Para que haja uma melhor compreensão dos aspectos apresentados por Juan Goytisolo em suas obras, é necessário um levantamento da situação histórica da Espanha no século XX. Na década de 1910, o país vivia uma etapa de estímulo à produção industrial, tendo como consequência um incremento do papel do Estado na economia do país – e um crescimento dos setores agrícola e têxtil. Os conflitos sociais eram constantes, fundamentados pelo avanço da economia e por uma maior atuação dos sindicatos (TUSELL, 1998). Com o final da Primeira Guerra Mundial, grandes desajustes da economia foram revelados, ainda que o país se mantivesse neutro com relação aos confrontos. A sociedade espanhola sofreu profundos impactos, como pode ser observado no seguinte fragmento:
Si durante los años de la Primera Guerra Mundial la sociedad española se vio violentamente agitada por controversias internas, todavía hubo de resultar más perdurable el impacto que aquélla tuvo sobre la economía nacional, hasta el punto de que un estudioso de la cuestión ha podido escribir que esta etapa tuvo “una entidad y una trascendencia fundamentales en el desarrollo del capitalismo español”. En efecto, en la etapa inmediatamente anterior, aunque el crecimiento económico español había sido importante, la distancia con respecto a la primera potencia industrial, Gran Bretaña, se mantuvo invariable mientras que países como Italia, Francia y Alemania la vieron disminuir. En cambio, a partir de 1914 el producto interior bruto por persona creció un 1,5 por 100 anual, una tasa superior a la de Gran Bretaña e Italia. España, por tanto, parecía acercarse a los países más desarrollados (TUSELL, 1998, p. 103).
país. Ainda que a Espanha tivesse alcançado um relevante crescimento econômico no período precedente à guerra, o país não manteve, terminado o conflito, o padrão de ascensão, tendo as classes populares sofrido drásticos impactos:
Pero si con la Primera Guerra Mundial se produjo un importante paso adelante en la economía nacional, sus efectos inmediatos con frecuencia resultaron detestables para las clases populares. Aunque no se contrajo la producción de alimentos, la guerra mundial provocó en España un súbito encarecimiento de los productos de primera necesidad, en parte por la exportación de esos productos, más rentable que la venta en el mercado interno, y en parte por las dificultades que encontraban las importaciones imprescindibles (TUSELL, 1998, p. 105).
Assim como os demais países europeus, a Espanha se afundava em uma grave crise social. Houve um aumento dos preços de produtos de necessidades básicas, devido à exportação dos mesmos e à dificuldade de importação de bens imprescindíveis.
Em 1923, o general Primo de Rivera encabeçou, como forma de resposta à crise, um golpe militar, iniciando uma ditadura que perdurou por sete anos. Nesse período a política econômica foi marcada por um caráter nacionalista, com ampla intervenção estatal – o que mais tarde serviria de referência da autarquia franquista pós-guerra civil.
Ao decorrer do regime ditatorial instaurado em 1923, propagou-se no país um discurso que ressaltava a incapacidade da monarquia para modernizar a Espanha. A partir de 1926, a oposição ao regime crescia cada vez mais. Em 1929, quando o exército negou seu concurso a uma ditadura cujo principal erro de estratégia era a impossibilidade de dotar-se de estruturas institucionais próprias, deu-se o momento decisivo da derrocada do governo de Rivera. Sem o apoio do rei, em 1930, o general se demitiu.
O rei Alfonso XIII saiu mal amparado da ditadura, visto que coadunou para que esse regime se mantivesse. A falta de apoio político culminou em sua abdicação do poder em 14 de abril de 1931 e em seu sucessivo autoexílio em Paris. Pouco tempo depois, ainda em 1931, foram proclamadas eleições em que o Partido Republicano saiu vitorioso, elegendo Niceto Alcalá Zamora como presidente da Segunda República espanhola. O novo regime esteve marcado pela mudança do modo de vida político nacional, propiciando com isso a inserção das massas (antes reprimidas pela ditadura) no cerne da vida política:
Un factor esencial para comprender la vida social española en la etapa republicana es tener en cuenta que, al comienzo de ella, se produjo un cambio decisivo en la forma de vivir la política. Por un lado, la República suponía un cambio de régimen pero, más importante aún, en ese momento se produjo el advenimiento de las masas a la vida pública de una manera aparentemente abrupta porque la Dictadura de Primo de Rivera había servido para ocultar, primero, y dar un carácter brusco, después, a un fenómeno que podía haberse producido poco a poco. (TUSELL, 1999, p. 26)
Nos primeiros anos do regime republicano foram notáveis as reformas empreendidas no âmbito político. Houve muitas divergências, surgindo blocos antagônicos. Com as eleições de 1936, o partido republicano firmou-se no poder, porém, outros grupos políticos percebiam o governo como debilitado para estabelecer mudanças sociais. Em abril de 1936, o então presidente reeleito Alcalá Zamora foi destituído do poder, sendo substituído por Manuel Azaña, o que intensificou a disputa política e instalou novos conflitos no país.
em uma situação lastimável, em que se observaram a devastação das cidades, a eliminação de vidas, a fome, a miséria etc. A guerra transcendeu as fronteiras espanholas convertendo-se em um problema político e emocional que afetou a milhões de pessoas em todo o mundo. Países como Inglaterra e França investiram em uma tentativa de reclusão dos confrontos nos limites da Espanha, não obtendo sucesso em tal propósito. Em 1939, com o avanço da tropa nacionalista ao sul do país, o exército republicano – debilitado por conflitos internos e menos armado – sucumbiu às fortes investidas de seus opositores.
Com o final da contenda, teve início uma ditadura civil-militar sob o comando do general Franco. Nos primeiros anos, o país empreendeu meios para se reerguer com a intervenção de países como os Estados Unidos e a Argentina. Nesse mesmo período, o regime franquista estagnou o processo de modernização que havia iniciado em princípios do século XX, empreendido pela sociedade espanhola e cristalizado pela Segunda República. A ditadura obteve apoio da Igreja Católica, instituição que havia sido desvinculada do poder do Estado no período republicano. A repressão obteve profundas marcas neste momento histórico na Espanha, o que levou milhares de intelectuais ao exílio.
A década de 1940 foi marcada por uma grave crise que se assolou na Espanha, devido ao estado de destruição ocasionada pelos confrontos entre nacionalistas e republicanos. Tal momento é apresentado por José-Carlos Mainer no texto La vida cultural (1939-1980) como um “tiempo de la autarquía económica, de la represión más feroz, de generalizada penuria económica y de mayor
desenvolvida na Espanha no período posterior a guerra civil, em que se representa “una realidad en un sentido violento” e “una sistemática apresentación de hechos desagradables y repulsivos” (MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 328) - uma das características mais relevantes. Obras que seguem a tendência são La familia de Pascual Duarte, de Camilo José Cela e Nada, de Carmen Laforet, narrativas em que predomina o aspecto grotesco na caracterização de personagens, lugares etc.
Em meados da década de 1950, a Espanha iniciou um lento processo de recuperação, a partir de sua inserção na ONU. A base de crescimento econômico espanhol se sustentou pela ajuda norte-americana. Com o fim da política autárquica teve início um equilibrado processo de liberalização econômica. O crescimento do período provocou graves desajustes com a exaustão das reservas exteriores e a inflação, o que propiciou a aprovação, em 1959, do Plano de Estabilização.
É nessa fase que, no plano literário, surge um estilo de narrativa voltado para o realismo social, que como explicita Pedro Correa em Historia de la literatura española, “supone una toma de conciencia con la realidad más inmediata, adquiere frecuentemene matices de denuncia política contra el régimen” (CORREA, 1985, p. 89). Nos romances desenvolvidos neste momento há um “predominio de una literatura realista, de corte objetivista, atenta a los condicionamientos sociohistóricos
del individuo” (SANZ VILLANUEVA apud MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 331). Estas características podem ser observadas em obras como El Jarama, de Rafael Sánchez Ferlosio e Los bravos, de Jesús Fernández Santos – romances de denúncia social e política em torno ao período pós-guerra civil.
de milhares de espanhóis, o que aliviou os problemas do mercado laboral; b) o turismo de massas, propiciado pelo bom clima e baixo preço das viagens; e c) a inversão de capital estrangeiro principalmente dos EUA, o que permitiu um crescimento industrial no país.
Na literatura, uma obra se situa como marco de um novo modelo de narrativa:
Tiempo de silencio, de Luis Martín Santos, romance complexo entre “social, experimental y ético” (CORREA, 1985, p. 89), em que se percebe um abandono da tendência realista pós-guerra e a instauração de novas tendências (SANZ VILLANUEVA apud MARTÍNEZ CACHERO, 2004, p. 345).
Com o crescimento econômico, surge uma incipiente sociedade de consumo, que se identifica com as sociedades democráticas europeias, por seu caráter urbano, jovem e dinâmico. A urgência por mudanças encontra-se materializada na contestação (por estudantes, classe operária, setor público e de serviços) à ditadura – intensificada pela debilidade física do ditador. Na década de 1970, houve um aumento dos protestos sociais influenciados pela oposição democrática. A classe operária participou intensamente desses movimentos. Dados os problemas de infraestrutura e baixos salários recebidos. Em novembro de 1975, o general Franco morria. Juan Carlos I foi proclamado rei pelas cortes franquistas.
Na literatura, esse é o período do chamado romance dialético, momento em que há uma mudança das formas de tratar a realidade e um recuo da práxis política, tal como observada em Oficio de tinieblas, de Camilo José Cela e Reivindicación del conde Don Julián, de Juan Goytisolo.
Para o desenvolvimento deste trabalho faz-se ainda necessário um estudo sobre questões relacionadas ao século XX e à temática da pós-modernidade.
Ao abordarmos o conceito de pós-modernidade, devemos apresentar algumas noções sobre modernidade. Marshall Berman define “modernidade” como
“um tipo de experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das
possibilidades e perigos da vida – que é compartilhada por homens e mulheres em
todo o mundo” (BERMAN, 1986, p. 15). Para o autor, constituir-se moderno significa
“encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento,
autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo
ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”
(BERMAN, 1986, p. 15). Perry Anderson atribui a tal termo a experiência histórica específica que acompanha transformações da esfera econômica e tecnológica (ANDERSON, 1999). Anderson apresenta em As origens da pós-modernidade
algumas definições sobre o termo título da obra, com base no pensamento desenvolvido no século XX por autores como Jean-François Lyotard – que o relaciona “ao surgimento de uma sociedade pós-industrial na qual o conhecimento tornara-se a principal força econômica de produção numa desviada dos Estados
nacionais, embora ao mesmo tempo tendo perdido suas legitimações tradicionais”
(ANDERSON, 1999, p. 32) -, Charles Jencks – que o define como uma “mudança geral na condição humana” (ANDERSON, 1999, p. 33) -, entre outros. O citado autor realiza uma análise da contemporaneidade concomitante ao conceito de pós-modernismo tendo como inspiração a obra de Fredric Jameson – importante teórico sobre o tema.
pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e
objetividade, a ideia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as
grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação” (EAGLETON, 1996, p. 1). A partir de tais questionamentos, o autor elabora uma discussão sobre o tema correlacionando-o com uma mudança histórica ocorrida no Ocidente, devido a instauração de uma nova forma de capitalismo.
No primeiro capítulo desta dissertação será apresentado um resumo da trajetória intelectual e a mudança temática nas obras de Juan Goytisolo. Neste sentido, serão expostos os principais fatos que contribuíram na formação intelectual do autor – contextualizando com o momento histórico da Espanha – e suas influências literárias – desde sua postura voltada para as causas sociais (o que pode ser observado em suas primeiras obras), passando por um período de ruptura com a história e a literatura vigente no país (ocasionada por influências do noveau roman e da narrativa hispano-americana), chegando ao momento de descoberta do corpo (etapa de exposição do erótico em suas obras autobiográficas) e de crítica da sociedade ocidental contemporânea. Nesse momento, será de extrema relevância o deslocamento (autoexílio) de Juan Goytisolo para a França, onde conhecerá e, posteriormente, se casará com Monique Lange (figura importante no ramo editorial francês – Editora Gallimard), mulher que terá grande influência na vida sentimental e literária do escritor. As constantes mudanças de Goytisolo fazem com que o escritor espanhol perceba o mundo de forma peculiar, desenvolvendo críticas, assimilando pensamentos e construindo conhecimento sobre as diversas culturas com que estabelece contato, podendo tais afirmações ser constatadas em suas variadas obras.
Goytisolo mostra-se como um escritor que transita entre as literaturas espanhola e francesa. A presença da literatura francesa nas obras do autor deve-se, em grande medida, pelo contato, desde muito jovem, com escritores como Gide, Sartre e Camus. Influências literárias provenientes do contato com a literatura italiana, norte-americana e hispano-americana também serão apresentadas nesta dissertação, para que possamos perceber a amplitude e diversidade do conhecimento do autor com relação a variadas tendências literárias.
Será também de suma importância para a construção deste capítulo os livros
Eros, mística y muerte en Juan Goytisolo, de Javier Escudero Rodriguez, obra em que o autor trata as mudanças temáticas ocorridas nos romances de Goytisolo no final do século XX, e Autobiografía y viajes al mundo islámico, de autoria do próprio Goytisolo, obra que discorre sobre o tema da autobiografia (de grande importância nas obras do escritor espanhol) e da cultura islâmica. Por fim serão utilizados alguns artigos, dissertações, teses e textos críticos em que pudemos observar algumas reflexões no que concerne ao percurso intelectual e as diversas mudanças temáticas apresentadas pelo autor.
como foco Duelo en el Paraíso –, sobre problemas sociais, religiosidade, autobiografia, cultura, estética do corpo e erotismo, serão trabalhadas neste capítulo com vista a expor a forma como o autor desenvolve tais características em suas obras.
A temática da pós-modernidade também estará inserida neste momento da dissertação, com o objetivo de demonstrar as distinções estabelecidas entre o romance moderno e o romance pós-moderno, tendo George Lukács, Terry Eagleton e Perry Anderson como referências no que concerne a tal assunto. Nesse capítulo também será utilizada a obra de Javier Escudero Rodríguez, citada anteriormente, como forma de embasamento para as questões relacionadas com a religiosidade, a morte e o erotismo nos romances de Juan Goytisolo. Ainda que o escritor espanhol não se considere um escritor pós-moderno, posto que não aprecie rótulos e classificações, a temática da pós-modernidade será utilizada nesta dissertação como forma de base para argumentações e discussões diversas.
nietzschiano (modelo de “super-homem”). Como base para o desenvolvimento da questão relacionada a esse último modelo será utilizado o livro de Frederic Nietzsche Assim falava Zaratustra. O herói nietzscheano é um homem que está além do homem, como explicita o filósofo Martin Heidegger em ¿Quién es el Zaratustra de Nietzsche?:
Con la denominación «ultrahombre», Nietzsche precisamente no menciona a un hombre simplemente de dimensiones mayores que las que ha tenido el hombre hasta ahora. Tampoco menciona a un tipo de hombre que arroje lo humano fuera de sí y haga de la mera arbitrariedad su ley y de un furor titánico su regla. El ultrahombre, tomando la palabra en su sentido completamente literal, es más bien aquel hombre que va más allá del hombre que ha habido hasta ahora, única y exclusivamente para llevar a este hombre a la esencia que tiene aún pendiente y emplazarlo allí (HEIDEGGER, 1994, p. 3).
Heidegger nos oferece uma clara definição do que Nietzsche considera o “super-homem”, ente que vai além da concepção de homem que conhecemos até seu surgimento, levando ao extremo a essência que tem inacabada. Ainda recorrendo ao expresso pelo autor, temos sua figura representada como um ser que “va más allá del modo de ser del hombre de hoy, y del hombre tal como ha sido hasta hoy, y así es una transición, un puente” (HEIDEGGER, 1994, p. 4). Com esta afirmação, percebemos um processo de evolução do referido personagem na literatura até o início do século XX.
abandono da atuação do herói enquanto prática política e uma crítica à “inutilidade e o vazio das palavras e de uma cultura acadêmica inteiramente superada”, em uma espécie de “açoite contra língua e história” (FILHO, 1975). Já em A saga dos Marx, o escritor catalão realiza uma obra de ficção sobre uma possível vivência de Marx em Londres, em pleno século XX, de onde observa tudo o que ocorre no mundo através de seu televisor. Há nesse romance de Goytisolo, além de um fascínio desenfreado por todo o aporte capitalista (albaneses querendo viver em um paraíso como o assistido no seriado “Dallas”, o desejo de enriquecer a custas do povo – lembre-se aqui do palhaço do metrô), um descrédito ao sistema idealizado por Marx (socialismo). Por fim, em As semanas do jardim, o autor trata da “fragmentação da identidade, da convergência dos contrários, da unicidade dos duplos” 3. O romance
estabelece uma relação entre história, autobiografia, cultura e crítica social, em uma espécie de jogo de espelhos, em que 28 leitores contam, sob óticas distintas, a história de um jovem poeta que desaparece durante a guerra civil espanhola. Nesse capítulo será apresentada também a perda da centralidade da figura do herói, cedendo seu espaço a variadas temáticas como a autobiografia, o corpo, a religiosidade e a crítica social. O objetivo é apresentar, através das obras citadas, a forma como a figura do herói vem cedendo espaço a outros temas considerados centrais para a literatura espanhola contemporânea, posto que tal figura não tenha espaço no contexto dos regimes democráticos modernos. Nesse sentido, nos perguntamos se haveria a necessidade da atuação de um herói único, central, messiânico, em uma sociedade democrática, republicana e de massas. Eis a a indagação que percorrerá o referido capítulo.
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Fragmento da resenha de Alberto Mussa presente na contracapa da edição brasileira da obra Reivindicação do conde Dom Julião, da Editora Agir (2005).
No quarto e último capítulo exporemos a diluição da figura do herói na obra
Duelo en el Paraíso. Primeiramente, realizaremos um resumo do romance, analisando características peculiares, tais como questões religiosas e sociais, para, posteriormente, expor o tratamento que o autor dá a figura do menino Abel, enfocando desde seus traços autobiográficos até uma possível antecipação da questão da sexualidade em seus romances. Por fim, analisaremos a forma como se concebe a diluição da figura de tal personagem na obra e como a questão do herói se desenvolve nas obras posteriores do referido autor.
Será importante neste momento apresentar a forma como o herói de Duelo se dissolve e consequentemente tem sua centralidade, como protagonista, perdida diante de variados temas que subjazem sua atuação no romance.
CAPÍTULO 1: Trajetória intelectual de Juan Goytisolo
No escribir para ganarse la vida, sino ganarse la vida para escribir.
Juan Goytisolo
Proveniente de uma família burguesa de origem vasco-catalã, Goytisolo teve sua infância marcada pela morte de sua mãe em um bombardeio, durante a guerra civil espanhola, fato este que o autor expõe em algumas de suas obras (de forma alegórica/ficcional – como percebido no personagem Abel Sorzano em Duelo en el Paraíso – ou de forma autobiográfica – apresentado em Coto vedado). Tal incidente fez de Goytisolo um eterno opositor ao regime franquista. A infância conturbada influencia de forma significativa o nascimento da vocação literária nos três irmãos: Juan, José e Luís.4
Goytisolo estudou direito em Barcelona, mas a atividade logo foi interrompida para que se dedicasse à literatura. Nessa mesma época Goytisolo descobria um mundo novo, onde figuravam trabalhadores e prostitutas e onde passou a ter contato com o universo do protesto político (o Partido Comunista – proibido na Espanha), através de seu irmão Luis.
Asfixiado pelo clima nacional-catolicista do regime ditatorial franquista, em 1956, ele se autoexilou em Paris, onde começou a trabalhar como assessor literário da editora Gallimard, como explicitado por Alberto Ojeda, no artigo Un reportero de
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Os dados apresentados com relação à biografia de Juan Goytisolo foram tomados de variados textos que constam na lista final de referências bibliográficas desta dissertação.
guerra llamado Juan Goytisolo, publicado no jornal El Cultural5. Nesse período conheceu uma das figuras mais importantes da editora – e posteriormente, como explicitado por Goytisolo no seguinte fragmento, a pessoa mais importante de sua vida – Monique Lange:
Las costumbres caseras y ritos de trabajo, el deseo de estar junto a Monique, la complicidad diariamente establecida entre ambos, fueron más fuertes que mis teorías sobre la independencia y las aprensiones con respecto al hermetismo nodular de la pareja (GOYTISOLO, 2007, p. 462).
Com Monique, Goytisolo viveu por quase 20 anos e demonstrou todo o seu afeto em muitas de suas publicações, através de dedicatórias carinhosas. Mesmo após a morte de Monique, em outubro de 1996 – vitimada por um mal súbito–, Goytisolo seguiu dedicando-lhe suas obras. Foi através de Monique que o escritor estabeleceu seus primeiros contatos com os árabes e sua cultura, já que a família de sua mulher solidarizava-se com os povos oprimidos, tais como marroquinos e argelinos, como apresenta Marcella Rodríguez Loreto em sua resenha do livro Las casitas de baño (Monique Lange), intitulada Un lugar llamado Roscoff. No citado texto, a autora aporta algumas informações sobre a vida de Monique, sua juventude na editora Gallimard, seu contato com escritores do cânone literário francês (Camus e Genet, sobretudo), seu relacionamento com Goytisolo e sua conturbada convivência com o pai.
Em seu livro Autobiografía y viajes al mundo islámico, Goytisolo realiza um texto autobiográfico em que aborda sua relação com Monique Lange, no período em que estabelece residência na França. Na segunda parte do livro, o capítulo 5,
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Informações disponíveis no site
denominado “Monique” relata sua estadia na capital francesa, sua aversão à paternidade – arraigada desde a infância através do desejo de só deixar para trás seus livros e não descendentes (GOYTISOLO, 2006, pp. 462-463) -, suas experiências, seu contato com distintas classes sociais e a descoberta de sua homossexualidade. No referido capítulo, Goytisolo discorre sobre seu primeiro contato com a cultura árabe e o consequente encantamento que sentiu.
O conhecimento do mundo árabe incita no escritor espanhol um grande interesse por tal cultura (língua, literatura, religião etc), levando-o a desenvolver profundas críticas em relação à civilização ocidental contemporânea.
Entre 1969 e 1975, Goytisolo lecionou literatura nas universidades da Califórnia, Boston e Nova York, o que o influenciará com relação às variadas características encontradas na literatura norte-americana, tais como a avaliação da conduta e do comportamento humano (behaviorismo), os fatos da vida corrente, abordagem das coisas e dos objetos da paisagem, entre outros.
Juan Goytisolo se destaca como escritor em vários gêneros literários, tais como a reportagem, a literatura de viagens, romances, memórias e ensaios. É autor de uma extensa e variada obra narrativa e ensaística, proibida na Espanha durante a ditadura franquista. Goytisolo é um intelectual influente, colaborador habitual da imprensa (tal como vemos em seus artigos no jornal El País) e crítico implacável dos fundamentos da cultura Ocidental contemporânea. Segundo Manuel Ruiz Lagos – a partir do texto de Javier Goñi – o escritor espanhol:
(…) que define la función del escritor como el compromiso por devolver a la comunidad lingüística a la que pertenece un idioma distinto del que ha recibido de ella en el momento de empezar la creación literaria, es sin duda una de las figuras clave de las letras españolas de la segunda mitad del siglo (RUIZ LAGOS apud GOÑI, 1995).
Goytisolo é ainda um dos principais escritores de língua espanhola vivos e ativos. Escritor multifacetado, ele alterna sua forma de narrar em suas várias obras e questiona os princípios que regem a sociedade capitalista – que se baseia na suposta igualdade entre os homens, na livre iniciativa e no empreendedorismo privado – sendo particularmente crítico com toda a civilização ocidental contemporânea (AMBROZIO, 1987, p. 118) e seus fundamentos consumistas, tal como percebidos por Pedro Henrique Ferreira Costa e Paulo Roberto Teixeira de Godoy, no artigo intitulado O capitalismo contemporâneo e as mudanças no mundo do consumo:
O processo de globalização proporcionara mudanças no mundo do consumo mediante estratégias que reorganizam as formas de acesso a uma diversidade crescente de produtos através da extensão do crédito e da materialização de equipamentos urbanos articulados através de redes constituídas em torno de centros de interesse que unem forças específicas de mercado. Essas metamorfoses socioeconômicas e culturais que vão para além de sua aparência funcional e objetiva, contribuem para a identificação de um novo período que chamaremos de capitalismo contemporâneo (COSTA; GODOY, 2013).
Goytisolo questiona em sua obra os princípios e valores desenvolvidos a partir do processo de modernização6 das sociedades ocidentais.
Defensor da mestiçagem, Goytisolo afirma, através de seus personagens, que a pátria é a mãe de todos os vícios e que o mais interessante das línguas é a/o mistura/contato com outras. Em seu romance autobiográfico Coto vedado o autor trata da questão da mescla cultural em sua vida como observado no fragmento a seguir:
Castellano en Cataluña, afrancesado en España, español en Francia, latino en Norteamérica, nesraní en Marruecos y moro en todas partes, no tardaría en volverme a consecuencia de mi nomadeo y viajes en ese raro espécimen de escritor no reivindicado por nadie, ajeno y reacio a agrupaciones y categorías. El conflicto familiar entre dos culturas fue el primer indicativo, pienso ahora, de un proceso futuro de rupturas y tensiones dinámicas que me pondría extramuros de ideologías, sistemas o entidades abstractas caracterizados siempre por su autosuficiencia y circularidad (GOYTISOLO, 1985, p. 38).
Desde o ano de 1954 (ano de sua primeira publicação, Juegos de manos), Goytisolo vem desenvolvendo um modelo de literatura que pode ser considerado bastante relevante na Espanha. Podemos distinguir três etapas da narrativa do autor: a primeira, crítico-realista; a segunda, de compromisso político e ruptura com a tradição literária espanhola; e a terceira, de cunho autobiográfico.
A primeira etapa (iniciada na década de 1950), denominada crítico-realista, é salientada pela forma como o autor tece críticas ao sistema político e social da Espanha do período da guerra civil – como pode ser observado nos romances Duelo en el Paraíso e Juegos de manos –, tendo seguido o mesmo modelo de narrativa,
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Concebemos o termo “modernização” segundo o pensamento de Giddens que o considera um processo iniciado na Europa no século XVIII, que substituiu as formas das sociedades baseadas na agricultura e que influiu no estabelecimento de quatro grupos complexos institucionais da modernidade: o poder administrativo, o poder militar, o capitalismo e a industrialização (GIDDENS apud SIMÕES, 2004).
autores como Rafael Sánchez Ferlosio, Ana Maria Matute, Miguel Delibes, entre outros. No período, é destacado seu pensamento anti-burguês, refletido em variadas obras, tais como Problemas de la novela (1959) e Campos de Níjar (1960). É também nesta etapa literária que o autor apresenta a questão religiosa, podendo esta ser percebida na narrativa de Duelo en el Paraíso. Este momento apresenta uma mudança nos rumos do romance espanhol, sendo predominante um modelo de literatura realista, com foco objetivista, atenta aos condicionamentos sócio-históricos do indivíduo, que se prolongará até a década de 1970.
Algumas publicações dessa etapa trataram a temática da guerra de modo superficial, como é o caso da obra Primera memoria, de Ana María Matute, em que os personagens – ainda que sejam influenciados pelos confrontos armados – se encontram em um lugar geograficamente afastado dos conflitos. Outros romances como Duelo en el Paraíso, de Juan Goytisolo, e Nada, de Carmen Laforet, expõem tal contenda e seus efeitos na vida dos personagens. Os romances do período não abordam somente a guerra, mas os problemas que afligiam a toda sociedade espanhola, tais como a fome, a miséria e a destruição das cidades.
Gonzalo Navajas, em seu artigo intitulado Ficción y erotismo. La reubicación del cuerpo en la ficción española contemporánea, apresenta algumas considerações sobre o romance social estabelecido nesse período da literatura espanhola, como pode ser observado no seguinte fragmento:
Os romances suscitados nesse momento estão voltados para uma visão crítica da sociedade, da política e da cultura da Espanha. O propósito dos escritores da época é renovar a literatura, desenvolvendo romances em que a guerra não protagonizava a narrativa.
A segunda etapa das obras de Goytisolo está marcada pelo compromisso político e de ruptura com a tradição cultural e literária espanhola vigente, tendo iniciado essa fase com uma de suas principais publicações, Señas de identidad
(1966) – obra que integra a trilogia de Álvaro Mendiola (protagonista de tais romances), sendo sucedida por Reivindicación del Conde Don Julián e Juan sin tierra. Relacionamos Señas de identidad ao surgimento de uma nova narrativa espanhola influenciada pela literatura hispano-americana e pelo nouveau roman
francês7. Nessa mesma linha estética, sobressaem autores como Luis Martín
Santos, Juan Marsé, Juan Benet etc. Goytisolo abandona suas tendências do realismo social e inclui em suas obras técnicas do novo romance moderno, tais como o rompimento da linearidade, monólogo interior, mudanças de ponto de vista, mescla de diversos gêneros etc.
A terceira etapa, denominada autobiográfica, apresenta-se com grande expressividade, devido a publicações polêmicas (tais como Coto vedado e En los reinos de taifa) em que o autor expõe sua intimidade, causando um mal-estar com sua família. Essa fase na trajetória literária do autor tem forte relação com a literatura francesa, devido à influência social e literária recebida do amigo escritor Jean Genet.
Com o final da ditadura, inicia-se um processo de criação literário voltado para temáticas não preconizadas pela literatura espanhola. O romance instaurado por
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Informações extraídas do texto Juan Goytisolo, disponível no site http://www.biografiasyvidas.com/biografia/g/goytisolo_juan.htm – acesso em: 07.08.2011.
Goytisolo, nesse momento, relaciona-se muitas vezes com a estética do corpo, da sexualidade, do erótico como forma de evasão de sentimentos e sentidos reprimidos. Para essa nova ficção considera-se o corpo como um instrumento ideológico de fortalecimento da ruptura, como observado no seguinte fragmento:
Para la nueva ficción, por el contrario, el cuerpo se ofrece como un instrumento idóneo para delinear una separación ideológica con relación a las fuerzas que lo negaron en el pasado. El cuerpo sirve así como una metáfora general de la nueva situación epistémica (NAVAJAS, 2013).
O contato com a cultura francesa, proporcionado por seu exílio voluntário à França, fez com que Goytisolo se deparasse com uma realidade diferente da que conhecia na Espanha. A mudança para a França, o contato com pessoas provenientes de uma esfera social bastante distinta da sua (obreiros e serviçais) e o início de uma vida boêmia, fazem de Goytisolo um escritor voltado para novos temas.
Nos últimos anos são notáveis os ensaios de Goytisolo sobre as sociedades e as relações interculturais, como pode ser observado em suas publicações no jornal espanhol El País e em livros ensaísticos como El bosque de las letras. Também são notáveis alguns de seus ensaios voltados para a interpretação e leitura da tradição espanhola, tais como El furgón de cola, Contracorrientes e outros.
contrário, Goytisolo tem uma profunda aversão por essas tertúlias, como pode ser observado no fragmento de uma de suas reportagens para o periódico El Mundo:
Me gusta vivir y me gusta la literatura, pero odio cordialmente la vida literaria: las tertulias, los congresos, las cenas de homenaje y las presentaciones de libros. Todo ello es espantosamente provinciano, como las fiestas de primera comunión o puestas de largo. Cuando un autor me interesa, prefiero leer lo que escribe que tratarle personalmente... No creo que la función del escritor consiste en cosechar homenajes y premios, trepar a las alturas, convertirse en un bien nacional (El Mundo, 26 de junio de 1997, p. 54)
Na citação acima pode-se perceber que o escritor espanhol prefere ler o que os autores escrevem a ter que encontrá-los pessoalmente em cerimônias de entrega de premiações. Para Goytisolo, tais homenagens são consideradas como solenidades provincianas e que convertem sua literatura em um bem nacional.
Ainda com relação a sua aversão a premiações, podemos citar um fragmento de seu discurso ao receber o prêmio nacional de literatura espanhola, onde o escritor diz: “A mi edad ningún premio hace ilusión, son para gente joven. No sé si el premio es importante o no, yo vivo muy al margen de todo esto" (OJEDA, 2011).
A influência da cultura árabe pode ser percebida em distintas obras, tais como
Las virtudes del pájaro solitario e En los reinos de taifa, em que a valorização de tal cultura em detrimento da cultura ocidental (burguesa, capitalista etc) demonstra o intenso vínculo literário de Goytisolo com o oriente – principalmente com os países do norte da África -, como apresentado por Inger Enkvist e Angel Sahuquillo no livro
Los multiples yos de Juan Goytisolo.
livro em que o autor tece algumas reflexões sobre a cultura marroquina - suas virtudes e seus vícios – através da narração de diversas situações relacionadas às histórias contadas pelo círculo de leitores idealizados na obra. Goytisolo retoma o tema religioso nesta obra, sob a vertente da religião muçulmana.
Por tudo que foi explicitado até o momento, torna-se importante um estudo sobre Juan Goytisolo, para que possamos compreender a evolução histórico-literária da Espanha no século XX.
1.1 Influências no autor
São notáveis nas obras de Juan Goytisolo influências de diversas formas, tanto com relação a outros autores – como Cervantes, Marx, Gramsci, Proust, Gide e Camus –, como também no que concerne à cultura dos países por onde passou. Nesse sentido, torna-se importante, para a construção desse trabalho, observar as questões relacionadas ao mundo islâmico, universo cultural com o qual o autor mantém contato e se identifica, fazendo com que essa influência se reflita de modo significativo em suas obras. Também serão de extrema importância na construção de suas obras a influência das literaturas francesa, italiana, norte-americana e hispano-americana devido ao contato íntimo estabelecido pelo autor ao permanecer em países de onde provêm tais literaturas. Nesse momento é essencial salientar a grande influência da literatura francesa nas obras de Goytisolo, desde sua juventude, como podemos perceber no seguinte fragmento:
una pasión que, a su vez, influiría decisivamente en mi vida. (GOYTISOLO, 1985, p. 52)
O fragmento supracitado indica o precoce interesse literário do escritor espanhol por autores clássicos da literatura universal. Com tal citação, Goytisolo explica de que forma tais ícones da literatura mundial (Proust, Gide, Ibsen, Anouilh) influenciaram-no na descoberta de sua paixão pela escritura.
Cervantes e Marx são autores presentes explicitamente nas narrativas dos romances de Goytisolo, sendo tal fato comprovado em obras como As semanas do jardim – um círculo de leitores (2005) e A saga dos Marx (1996). Juan Goytisolo inicia As semanas do jardim parafraseando Cervantes com a seguinte frase: “A partir da breve resenha de uma obra cujo autor não quero lembrar...” (GOYTISOLO, 2005, p. 13). Percebe-se com clareza que a referida frase se relaciona diretamente com o início do Quixote em que escreve Cervantes “En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...” (CERVANTES, 2004, p. 27). Também podemos perceber a inspiração cervantina na escritura de Goytisolo ao citarmos um fragmento do texto de Pina Rosa Piras, El cervantismo de Juan Goytisolo, em que o autor aborda as características observadas na obra de Goytisolo relacionadas à escritura de Cervantes:
Otro aspecto de inspiración cervantina en la escritura de Goytisolo se realiza mediante la búsqueda de formas narrativas innovadoras de las relaciones entre autor, personajes, voces y lector, o también en el empleo del “tú” autorreflexivo y del monólogo interior o en el empleo de una temporalidad y de un uso del espacio elaborados de manera compleja; o incluso hasta con la adopción en su escritura de distintos géneros narrativos una vez más con efectos de contaminación y de diálogo intertextual (PIRAS, 1999, p. 168).
consigo mesmo pode ser notado principalmente em seus romances autobiográficos (Coto vedado, En los reinos de taifa). Já o emprego de tempo e espaço de forma complexa é uma característica observada em livros como Duelo en el Paraíso, A saga dos Marx e As semanas do jardim.
A influência de Cervantes é tão grande em Goytisolo, que o autor, em entrevista a Wolfram Eilenberger, Haukur Ástvaldsson e Francisco Herrera, se declara ter uma nacionalidade cervantina e explica o motivo:
Yo diría entonces que mi nacionalidad es cervantina. Si miro hacia atrás en mi vida veo que he pasado la mayor parte de mi tiempo hablando otros idiomas. Así el castellano ha sido el objeto de mi trabajo. Normalmente cuando estoy en Marraquech hablo árabe, cuando estoy en París hablo francés, cuando estaba en los Estados Unidos hablaba inglés. El español no lo práctico tanto. Por ejemplo, a veces, cuando estoy en Marraquech paso bastante tiempo sin hablar castellano. Esto lo vio muy bien Vicente Llorens en uno de sus ensayos, cuando dijo que para el exiliado, al perder la tierra y la sociedad en la que vive, la lengua adquiere para él un valor importantísimo. Esto explica que algunos escritores se hayan convertido en grandes escritores en el exilio. Este es el caso claro de Cernuda. Él era un poeta más de su grupo y en el exilio se convirtió en el gran poeta de su generación (EILENBERGER et alli, 1999).
O escritor espanhol atribui a Cervantes sua tendência à adequação do exilado ao idioma do país com o qual estabelece contato. Ao afastar-se da sociedade em que vive, a língua adquire um papel importante para dados autores, convertendo-os em escritores do exílio.
atual, em que o mesmo contempla o fracasso de sua visão científica da história e a inutilidade de suas soluções para as injustiças sociais. Também influem nas obras de Goytisolo, as ideias propagadas por Karl Marx8, como observado em obras como
La Resaca (1958), Campos de Níjar (1959), La Chanca (1962) e Pueblo em Marcha
(1962), narrativas em que o autor deseja “dar testimonio de la realidad social de Almería y la isla de Cuba”, somado a um “profundo interés por captar y reproducir el habla de los habitantes de estos lugares” (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, p. 11).
Ainda no início da década de 1960, Juan Goytisolo começa a duvidar das ideias marxistas, como afirma Escudero Rodríguez na seguinte citação:
Las dudas que Goytisolo comienza a manifestar respecto a las ideas marxistas, ya al constatar la aplicación en la práctica de esas ideas en los países comunistas o la represión que en ellos tienen lugar, ya por el proceder de ciertos miembros del partido o ya por el desajuste que hay entre su vida burguesa y sus ideas, es sólo uno de los múltiples factores que le llevaron a entrar en una crisis profunda a comienzos de los años sesenta (ESCUDERO RODRÍGUEZ, 1994, p. 12).
Concomitante a esse momento, insere-se a crise pessoal do escritor com relação a sua sexualidade, ao seu casamento com Monique e entre seu eu e sua realidade, o que será largamente desenvolvido em suas obras.
A presença das ideias propagadas por Gramsci pode ser percebida nas primeiras obras de Goytisolo – romances juvenis relacionados à crítica social do período da guerra civil (Juegos de manos, Duelo en el Paraíso, El circo e Fiestas). Em seu artigo intitulado Para una literatura nacional y popular, publicado na revista
Ínsula, Goytisolo apresenta suas ideias voltadas para o pensamento gramsciano, em
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Concebemos o pensamento marxista no sentido de interpretação da vida social, em que confluem as lutas de classes e a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo (BURNS, 1980). Goytisolo apresenta e desenvolve nos citados romances alguns dos princípios básicos desse pensamento.
que se propugna uma vagarosa e esquemática literatura nacional popular, criticada por Guillermo de Torre9.
Como citado anteriormente, a literatura italiana influenciou de modo significativo as obras de Juan Goytisolo. O neorrealismo literário italiano, tendo Rafael Sánchez Ferlosio como precursor deste modelo de literatura, influiu no renascimento do romance pós-guerra espanhol e consequentemente em seus escritos, como podemos observar em Duelo en el Paraíso. Na referida obra são apresentados personagens que importam valores das classes menos favorecidas (órfãos em uma residência de refugiados, mendigo, militares em situação crítica [republicanos]) e de simplicidade (pessoas do campo, tais como a empregada Filomena e a prima Águeda). Essas ocorrências atestam seu relacionamento com a literatura italiana do final da década de 1930 e início de 1940 – período em que se representam figuras com características simples.
O contato com a cultura norte-americana também deixa marcas nas obras do escritor espanhol. Romances caracterizados pela observação da conduta e do comportamento externo dos personagens – como Juegos de manos e Duelo en el Paraíso - se relacionam a forma como Hemingway e Faulkner desenvolvem seus escritos na década de 1950. Podemos ainda situar a obra Duelo en el Paraíso, posto que a conduta e o comportamento de diversos personagens do romance são observadas e em algumas ocasiões relatadas de uma forma crítica – como a loucura de Estanislaa (tia do protagonista) e a frieza de Arquero (assassino do protagonista), por exemplo.
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A literatura francesa também adquire importância no processo de assimilação de conhecimento por Juan Goytisolo. O contato com seu grande amigo francês, o escritor Jean Genet, seus elogios à obra de Céline (renovação da língua e da linguagem) e sua crítica aos autores do “novo romance” são mostras de tal afirmação. Ainda com relação a tal literatura, percebemos a influência de Jean-Paul Sartre na narrativa do escritor espanhol, através de seus conceitos de liberdade e literatura engajada.
A assimilação do pensamento de Sartre pode ser percebida em Goytisolo em sua formação política de esquerda, como explicita Javier Escudero Rodríguez em
Eros, mística y muerte en Juan Goytisolo (1982-1992). Quando o escritor, na década de 1940, entrou em contato com variados conceitos pertinentes ao existencialismo, através de uma publicação de Sartre na revista Destino, ele passou a se interessar intensamente pelas ideias preconizadas pelo filósofo. Na mesma época, Goytisolo iniciava um período de abandono da religião católica.
Já na década de 1960 se produz nos romances de Goytisolo uma aproximação da literatura espanhola e hispano-americana. Sua amizade com renomados autores da América Latina e admiração pelo conceito do “hispânico”, conduzem-no à defesa e valorização de tal conceito na Europa. A aproximação do autor ao mundo latino se reflete em sua narrativa desordenada e caótica, como podemos observar no fragmento do artigo de Michał Naziemiec intitulado Le huele España: los rasgos que distinguen la obra literaria de Juan Goytisolo de la nueva
narrativa hispanoamericana:
con un texto que nos parece caótico y desorganizado, se da una sintaxis dislocada donde falta la puntuación convencional, conllevando la ausencia manifiesta de párrafos, puntos y mayúsculas. A veces, los únicos signos de puntuación que aparecen en el texto son la coma y los dos puntos; los únicos tiempos verbales, el presente de indicativo y el gerundio. Todo esto provoca una sensación de flujo total de la lengua; nos introduce indirectamente el monólogo interior que no es solamente un simple fluir de una conciencia, sino un discurso entre dos esferas de la mente del narrador: la objetividad y la subjetividad (NAZIEMIEC, 2013).
Com relação ao contato com a literatura produzida na América hispânica, ainda podemos citar um trecho de uma obra de Carlos Fuentes, sob o título La nueva novela hispanoamericana, em que o autor trata da criação de um novo modelo de linguagem a ser veiculado pelo romance, operando mudanças em sua estrutura:
Goytisolo emprende la más urgente tarea de la novela española: destruir un lenguaje viejo, crear uno nuevo y hacer de la novela el vehículo de esta operación. Su obra se convierte así en el puente que une a dos fenómenos literarios de idéntico signo idiomático aunque de actitud radicalmente opuesta ante ese signo: la novela española y la novela hispanoamericana (FUENTES, 1969, p. 81).
No fragmento citado anteriormente, Fuentes aporta a importância de Juan Goytisolo na construção de uma nova narrativa literária espanhola, ao romper com um velho modelo de escritura, criar uma nova forma de linguagem e fazer de suas obras o aporte para essa transformação. Deste modo, o escritor espanhol consegue interligar dois fenômenos literários: o romance espanhol e o romance hispanoamericano.