DIRIGINDO PARA A UBER: Notas de uma observação participante

Texto

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

JOÃO ORLANDO FERREIRA JÚNIOR

DIRIGINDO PARA A UBER:

Notas de uma observação participante

GUARULHOS

-- Setembro de 2021 --

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JOÃO ORLANDO FERREIRA JÚNIOR

DIRIGINDO PARA A UBER:

Notas de uma observação participante

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais Orientador: Prof. Dr.

Antônio Sérgio Carvalho Rocha

GUARULHOS

-- setembro de 2021 –

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Na qualidade de titular dos direitos autorais, em consonância com a Lei de direitos autorais nº 9610/98, autorizo a publicação livre e gratuita desse trabalho no Repositório Institucional da UNIFESP ou em outro meio eletrônico da instituição, sem qualquer ressarcimento dos direitos autorais para leitura, impressão e/ou download em meio eletrônico para fins de divulgação intelectual, desde que citada a fonte.

Junior, João Orlando Ferreira

Dirigindo para a Uber: Notas de uma observação participante/ – 2021 – 28 f.

Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Ciências Sociais) - Guarulhos: Universidade Federal de São Paulo. Escola de Filosofia, Letras e Humanas.

Orientador: Antônio Sérgio Carvalho Rocha

Directed to Uber: Notes from a participant observation 1. Uber. 2. Relações de Trabalho. 3. Motorista de Aplicativo

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JOÃO ORLANDO FERREIRA JÚNIOR

DIRIGINDO PARA A UBER:

Notas de uma observação participante

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais Orientador: Prof. Dr.

Antônio Sérgio Carvalho Rocha

Aprovação: ____/_____/____/

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Prof. Dr. Antônio Sérgio Carvalho Rocha

________________________________________________

Prof. Dr. Rogério Schlegel

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AGRADECIMENTOS

Dedico este trabalho a diversas pessoas da minha vida. Pessoas que acreditam e sempre acreditaram em mim, no meu potencial e na minha capacidade de superar os problemas que aparecem na vida. Fazer este trabalho foi uma tarefa árdua, à qual dou muito valor pela história. Agradeço primeiramente minha mãe, que sempre foi minha melhor amiga, maior apoiadora e maior fã – uma pessoa extremamente essencial na minha trajetória e que só traz boas energias para o mundo. Agradeço também minha irmã, que, mesmo com diversas conquistas pessoais importantes, nunca duvidou de mim e sempre me tratou como um igual intelectualmente. Agradeço aos meus amigos Augusto, Thak, Emerson e Arthur, que me ajudaram em um momento muito difícil em que minha mente estava muito perdida e embaralhada. Agradeço à minha psiquiatra, Sofia Elias, e à minha psicóloga, Rosangela Souza, por me ajudarem a seguir em frente e a melhorar vários aspectos da minha vida. Sobretudo, agradeço ao meu professor e orientador Antônio Sérgio Carvalho Rocha, por não ter desistido do meu projeto e compreendido as diversas questões complicadas em meu decorrer. Agradeço, também, ao meu amigo, já Mestre em Ciências Sociais, Lucas Vieira de Souza, que me ensinou e me ajudou em muitos fatores durante a pesquisa, sempre se preocupando com o bom andamento da empreitada e com meu estado emocional e psíquico.

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RESUMO

Este projeto de pesquisa tem como objetivo relatar minha experiência como motorista de aplicativo Uber – jornada de trabalho, pagamentos, problemas com passageiros e com a Empresa --, experiência essa vista pela ótica das teorias relevantes ao assunto e que eu aprendi na graduação do curso Ciências Sociais da UNIFESP.

O motorista de Uber convive com condições precárias de trabalho -- principalmente a ausência de direitos trabalhistas. É ponto fundamental desta monografia demonstrar que esta nova forma de relação trabalhista, denominada “uberização”, torna-se essencial ao capital para que haja cada vez mais o aumento da exploração econômica da classe trabalhadora.

Palavras-Chave: Uber; relações de trabalho; motorista de aplicativo; exploração econômica.

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ABSTRACT

The objective of this research project was to relate my experience as a motorist for the Uber application - workday, payments, problems with passengers and with the Company – along with the theoretical view acquaintened in the Social Sciences undergraduationg studies at UNIFESP.. An Uber motorist coexists with precarious working conditions, between them, in the absence of direct workers. It is fundamental in this work to also demonstrate that this new form of labor relationship called “uberization” has contributed to making more and more economic exploration of the working class.

Keywords: Uber; labor relations; application motorist; economic explotation

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...7

1. UBER: A ORIGEM CORPORATIVA...10

1.1. História da Empresa ...10

1.2 Uber e Neoliberalismo: Uma relação necessária? ... 13

2. MOTORISTA DE UBER: DA EXPERIÊNCIA À REFLEXÃO COM A TEORIA SOCIAL... ...16

2.1 Condições de trabalho ...16

2.2 Pagamento ...17

2.3 O que é “ser Uber”? ...18

CONSIDERAÇÕES FINAIS...23

BIBLIOGRAFIA ...25

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INTRODUÇÃO

Socialmente considerada, como avaliar a experiência de ter sido motorista de aplicativo UBER? Em quais condições sociais, econômicas e políticas convivem esses trabalhadores? Quais as dificuldades cotidianas encontradas? Por quais razões determinadas pessoas resolvem adotar determinada prática trabalhista? Este tipo de relação de trabalho traz algum benefício aos trabalhadores? Ou é um sistema de emprego positivo apenas para os donos da empresa? Os serviços da Uber são satisfatórios para a sociedade?

Neste estudo, buscamos evidenciar o relato da nossa experiência como motorista de Uber, relacionando-a sistematicamente com fontes secundárias, que é a literatura analítica relacionada ao assunto.

Antes de tudo, depoimentos de motoristas de Uber têm se tornado de fundamental importância para descrever, de forma dinâmica, a precarização do trabalho informal na era moderna, também conhecida como a uberização do trabalho (cf. Antunes, 2018). Por isso, a tarefa prioritária deste trabalho foi a de reconstruir, através de um discurso de autoria do próprio discente, como se dá a rotina de serviço de um motorista de Uber – rotina essa matutina, vespertina e noturna desse trabalhador.

Torna-se também um problema empírico classificar a relação trabalhista que se estabelece entre a empresa Uber e os motoristas: trabalho assalariado ou autônomo. O trabalho assalariado envolve uma relação trabalhista em que o empregador e o empregado possuem direitos e deveres garantidos por lei -- como a jornada de trabalho definida, salário mínimo e férias remuneradas. Já os trabalhadores autônomos são caracterizados por não possuírem horário flexível de trabalho, suas rendas são variáveis, não possuem direitos trabalhistas – não tendo, por exemplo, direito à férias remuneradas. A rigor, motoristas de aplicativo Uber trabalham quantas horas quiserem, no horário que quiserem, nos dias que quiserem, e o valor da corrida a ser pago para o motorista é definido pela empresa, recebendo essa uma porcentagem pela corrida realizada. Apesar de a empresa defender que oferece aos seus trabalhadores uma relação de trabalho autônoma -- diversos especialistas em sociologia do trabalho divergem dessa premissa, uma vez que é a empresa que determina não só quais são os valores das corridas como quais são os clientes que usufruem do serviço, tratando-se de uma relação patrão- empregado (Antunes, 2018).

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A visão liberal da “uberização” do trabalho defende que o mercado regula melhor e de forma mais dinâmica as relações de trabalho do que o Estado. Nessa visão ideológica, não somente a empresa Uber como as demais empresas que estão executando e oferecendo seus serviços de forma semelhante prestam à sociedade uma modalidade de transporte mais eficiente do que os táxis (por possuírem uma alta regulamentação estatal), tornam o transporte mais barato, geram maiores oportunidades de emprego – dado que as pessoas escolhem livremente se desejam trabalhar para a empresa, além de poderem possuir uma renda extra graças à aplicativos modernos (Isaac, 2020).

Nesse processo, ocorre a precarização do trabalho, envolvendo uma relação de subordinação do empregado com a empresa que ocasiona uma falsa liberdade – uma vez que: (a) o motorista é obrigado a cumprir metas -- como ter uma nota mínima 4,6 (Uber, 2021); (b) pode ser advertido pela empresa; (c) é a própria Uber que define o preço da corrida; (d) os motoristas não possuem direitos trabalhistas, tendo que realizar na maioria dos casos jornadas de 12 horas diárias de trabalho, convivem com incertezas salariais ou de segurança, se o veículo for roubado ou furtado a empresa não reembolsa o valor e quem arcará com os custos é o motorista (Stone, 2017). É comum que motoristas de Uber enxerguem a realização de seu trabalho apenas como “um bico”, enquanto aguardam que surjam melhores oportunidades no mercado de trabalho (Moda, 2020).

É um suposto fundamental desse trabalho contrariar a visão do mercado que tais motoristas de aplicativo da empresa Uber possam ser classificados como pequenos empresários, ou empreendedores, não dependendo de regulação estatal ou organização sindical. Essa relação de trabalho provoca a desvalorização da força de trabalho e, consequentemente, o aumento da exploração econômica, gerando uma péssima condição econômica de vida ao trabalhador. Assim, um relato da nossa experiência como motorista Uber, demonstrando minhas condições cotidianas, torna-se um estudo de caso fundamental. Segundo Abílio (2020), a uberização deve ser entendida como “uma nova forma de organização, gerenciamento e organização da força de trabalho, sendo uma prática gerencial que extrapola o trabalho mediado por plataformas digitais e que é fundamentada por décadas de eliminação de direitos, pela dispersão global e, ao mesmo tempo, centralização de cadeias produtivas e pelo desenvolvimento tecnológico” (p.14).

De acordo com Moda (2000), são três as características principais que distinguem o trabalho regulado por aplicativo de outras modalidades de trabalho:

 O próprio acionamento por aplicativos para a realização da atividade;

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 A posse, por parte dos trabalhadores, dos meios de trabalho utilizadas em suas atividades, tais como o carro e o celular no caso dos motoristas, enquanto é mantido como propriedade privada das empresas o meio de produção necessário para gerenciar os processos de trabalho, sendo este o próprio aplicativo;

.

 O contrato de trabalho marcado pela intermitência, com a remuneração dos trabalhadores ficando completamente vinculada às flutuações de demanda. (p. 56)

Segundo a revista Carta Capital, em uma reportagem intitulada “A Uberização das relações de trabalho”, esse modelo de trabalho “permite que o mercado sugue as forças do trabalhador sem qualquer tipo de estigma ou embaraço: trata-se da banalização da precarização das relações de trabalho”1.

No capítulo 1, descreveremos incialmente a história da empresa Uber – desde a sua fundação até as estratégias que a empresa adotou após a epidemia da COVID-19 para preservar seus clientes, aumentado cada vez mais seus lucros financeiros. Em seguida, será analisada a relação da “uberização” com o surgimento do neoliberalismo.

No capítulo 2, será relatado experiência que tivemos como motorista de aplicativo Uber, dividindo em 3 tópicos: no primeiro, as condições de trabalho que a empresa oferece aos seus trabalhadores – motoristas que são obrigados a trabalhar sem nenhum direito trabalhista, o tópico 2 narrará a forma de pagamento destinada aos motoristas e o terceiro responderá de forma detalhada, sobre o meu ponto de vista -- a seguinte pergunta:

“O que é ser Uber no Brasil?”.

1 Cf. Revista Carta Capital. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/justica/a-uberizacao-das- relacoes-de-trabalho/>. Acesso em: 09 ago. 2021

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.1.

UBER: A ORIGEM CORPORATIVA

1.1 História da Empresa

A Uber é uma empresa que, atualmente, se autodenomina como generalista nos meios de transporte, capaz de lidar com diversas áreas em termos de solução, criação de tecnologia, facilidades, entre outros atributos. Porém, nem sempre foi assim. A empresa surgiu em 2009 e investia apenas em serviços para indivíduos com alto poder aquisitivo, na cidade californiana de São Francisco (EUA), contando com alguns poucos motoristas em carros pretos de luxo. Seus fundadores foram Travis Kalanick e Garret Camp. Ambos criaram empresas de relativo sucesso em seus respectivos nichos de trabalho e, com o capital obtido, investiram na criação da Uber.

Em 5 de julho de 2010, o primeiro usuário da Uber solicitou uma viagem em São Francisco, cidade de fundação da empresa. Em 2011, a empresa recebeu diversos investimentos e conseguiu expandir o serviço para diversas cidades dos EUA e também para Paris, sua primeira experiência de internacionalização da marca. Em 2012, foi lançado o Uber Ex, que é o antecessor do modelo atual. Todavia, as inspeções e as investigações sobre o motorista eram mais rigorosas, e os carros permitidos para trabalho deveriam atingir pré-requisitos mais rigorosos que atualmente. Em 2012, também ocorreu o primeiro serviço de entrega de comida da empresa - solicitação de entrega de sorvetes por demanda em sete municípios dos EUA.

Em 2013, a popularização do aplicativo se intensificou, juntamente com a sua flexibilização, e, com isso, o serviço mais luxuoso do aplicativo ganhou o nome de Uber Black. Em 2013, um outro serviço também oferecido foi o Uber Gatinhos, em que a empresa, em parceria com abrigos de animais, ofereceu um serviço de viagem de cerca de 15 minutos com gatinhos, podendo o cliente adotar o animal ao fim da viagem, sendo todo o lucro revertido para os mesmos abrigos. Tal guinada da Uber acabou gerando, consequentemente, a criação de concorrentes, tais como os famosos aplicativos 99, fundado em 2012, e o Cabify, fundado em 2011 – ambos, no entanto, sem a mesma

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relevância da marca Uber. Nesse mesmo período, a empresa intensificou o processo de internacionalização da empresa.

A Uber não demoraria a chegar na América Latina. Ainda em 2013, aportou na Cidade do México. Em seguida, em 2014, no Brasil -- em algumas capitais e grandes cidades. No mundo inteiro, a Uber já atua em 71 países. Em especial no Brasil, é um aplicativo extremamente popular. Em 2014, quando no Estado da Califórnia o casamento entre pessoas do mesmo sexo teve seu primeiro aniversário, a empresa organizou o UberWedding, em que se organizava a cerimônia de casamento de alguns casais, em ação para promover a preocupação da empresa com a comunidade LGBTQIA+. Ainda sobre inclusão, em maio de 2015, a Uber passou a gerar mais oportunidades para surdos e deficientes auditivos.

A partir de 2014, com ascensão vigorosa da empresa, começaram a surgir associações e movimentos organizados de taxistas protestando contra a Uber, alegando que os serviços eram muito baratos -- o que provocava concorrência desleal. Tais protestos ocorreram em diversas partes do mundo, e no Brasil não foi diferente. Diversas cenas de enfrentamento foram flagradas – como a de taxistas destruindo diversos carros nas ruas e avenidas de grandes centros do país só por suspeitar que era de um motorista Uber, principalmente no decorrer do ano posterior, 2015. Em algumas cidades do país, surgiram até mesmo projetos de lei para regulamentar e limitar o serviço, tendo como uma das razões a pressão e o lobby dos taxistas.

Também em 2015, surgiu o primeiro caso de estupro atribuído a um motorista da Uber, em seu momento de trabalho. Tal fato foi extremamente prejudicial para a reputação da empresa e acendeu diversos debates ao redor do mundo sobre a falha e fraca inspeção dos motoristas do aplicativo, como investigação de vida pregressa, ficha criminal etc.

Atualmente, a Uber aponta em seu website a segurança como a principal preocupação da empresa. Entre 2015 e 2016, essa empresa intensificou mais ainda sua atuação tecnológica em transportes, tendo como principais destaques o investimento no Uber Copter, serviço de transporte de pessoas por helicópteros; no Uber Eats, aplicativo de entrega de alimentos; e também em automóveis que andam sem motorista.

Em 2017, o CEO e cofundador da Uber, Travis Kalanick se retira da empresa sob acusações de mau comportamento entre funcionários e casos de machismo aplicados na estrutura da empresa, entre eles, acobertamento de abusos sexuais, sendo substituído,

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após dois meses, por Dara Khosrowshahi. Recentemente, a Uber passou a investir em tecnologia de drones para entrega de alimentos, que pode se somar aos outros diversos serviços que a empresa oferece: UberX, que conta com carros de quatro portas e ar condicionado; Uber Juntos, que permite se juntar com outras pessoas em trajetos similares, aumentando o número de pessoas no veículo, dividindo o valor do trajeto, ficando assim mais acessível; Uber Comfort, que conta com carros maiores e mais confortáveis – consequentemente, preços mais elevados; Uber Black, a categoria de luxo do aplicativo, que conta com carros grandes, confortáveis e de banco de couro; Uber Taxi, que permite viagens em táxis com os recursos de segurança garantidos pela Uber; Uber Flash, que permite que indivíduos enviem objetos através do Uber para outros endereços;

Uber Eats, serviço de aplicativo para compra de alimentos; Transporte Público, recurso no aplicativo da Uber que permite observar informações em tempo real sobre linhas de trem, metrô e ônibus; Uber Empresas, para que empresas de qualquer porte possam organizar e gerenciar o transporte de funcionários, podendo ser acoplado com o Uber Direct, para acionar motoristas para entregar produtos para clientes; Uber Eats Empresas, para que as empresas possam comprar refeições para funcionários; a Uber Freight, serviço não disponível no Brasil, que facilita a comunicação e a logística entre empresas transportadoras e motoristas de caminhões disponíveis para serviços; e a Uber Health, que permite aos parceiros do setor de saúde solicitar transportes para pacientes, cuidadores e ou colaboradores.

Em 2020, com o advento da pandemia do novo coronavírus, a Uber disponibilizou diversas medidas para coibir o contágio do vírus em suas viagens, tais como: proibir viagens sem uso de máscara; um novo recurso no aplicativo da Uber em que obriga o motorista a tirar uma selfie de identificação, para provar que está vestindo máscara; um checklist para os usuários responderem e se comprometerem a cumprir as medidas sanitárias impostas; viagens apenas com vidros abertos, com apenas 3 vagas e sem usar o banco da frente, e com as janelas sempre abertas; disponibilização gratuita de máscaras e álcool em gel para motoristas e também uma adição à avaliação de fim de viagem, em que tanto motorista quanto usuários dão notas uns aos outros no quesito higiene (na hipótese negativa, os usuários e ou motorista recebem, no aplicativo, conteúdos educativos sobre higiene em relação à covid-19). A persistência de avaliações negativas pode gerar até mesmo o banimento do usuário, e/ ou motorista, da plataforma Uber.

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Atualmente (2021), a Uber conta com quase 100 milhões de usuários, sendo cerca de 20% dessa quantidade no Brasil, tendo na cidade de São Paulo a maior quantidade de usuários do mundo em apenas uma cidade. Tamanho foi o sucesso da Uber no Brasil que o nome da empresa acabou virando uma metonímia - em qualquer contexto em relação a serviço de transporte, seja particular ou por outras empresas como 99 e Cabify, é frequente ouvir a frase “Estou fazendo um Uber”; “vou fazer um Uber”.

1.2 Uberização e Neoliberalismo: Uma relação necessária?

Os sinais da relação da Uber e do serviço de aplicativos, de modo geral, é notório não só pela precarização de direitos trabalhistas, excesso de carga horária e falta de pagamentos, mas também por ser parte de um processo que é anterior a ele, no sentido de que a ideia central de enxergar trabalhadores de aplicativo como empreendedores -- microempresas, indivíduos responsáveis unicamente pelo seu destino -- não é novidade na história do capitalismo, muito menos no que tange ao neoliberalismo. A ideia de que o Estado deva ser erradicado, ou minimizado o quanto possível, se apoia no imaginário de que, dessa forma, empregadores e controladores do capital possuirão mais liberdade para empreender, gerar empregos e riquezas, proporcionando um processo de melhorias na empregabilidade e maior meritocracia.

Todavia, tal discurso não se prova em realidade. Obviamente, no campo das ideias, não parece ser uma ideia ruim: emprego para todos, cada um recebendo de acordo com seu esforço, talento e capacidade e poder de compra razoável para ninguém viver na miséria. Porém, empiricamente, o efeito gerado é outro: maior acumulação de renda somente para o empresário; aumento da precarização do trabalho; menor remuneração etc. Um bom exemplo pode ser visto no Brasil. Dilma Rousseff, considerada de centro- esquerda, admitiu que errou em diminuir impostos para empresas -- pois a única consequência da redução foi aumentar a margem de lucro dos empresários.

A nova era dos aplicativos talvez seja o melhor case de análise para esse fenômeno, visto que há um enorme número de trabalhadores imersos neste novo estilo de trabalho (Telésforo, 2017). Em julho de 2021, o Brasil completou 1 milhão de motoristas de Uber.

Nesse sentido, a ação prática de análise se torna mais fácil, em uma relação de quantidade de trabalhadores, avaliação de pagamento e carga horária, de modo transparente. Pode-se

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dizer que a estabilização de empresas como a Uber é o sonho neoliberal se realizando na prática. Não só pela precarização do trabalho, mas também no sucesso de, culturalmente, impedir revolta e cobrança dos trabalhadores. Culturalmente, em razão de que, com a ascensão da onda neoliberal no Brasil, incutiu-se na cabeça do trabalhador, como consequência, a ideia de que se deve reduzir o Estado ao máximo que for possível, exaltação exacerbada do setor privado, e que o trabalhador é “senhor de si próprio”; esta ideia ilusória, aliada ao grande índice de desemprego e miséria no país (14,7% de desemprego em 05/21), tornou extremamente difícil destacar a realidade, por mais que ela aparente ser óbvia em determinadas óticas. Ou seja: há um ambiente fértil para precarização, aproveitando-se da dor gerada pelo desemprego, fome e miséria – facilitando, assim, a normalização do trabalho precário e também das campanhas políticas e econômicas neoliberais, incutindo falsas esperanças no trabalhador brasileiro.

Tal cenário é facilmente verificável na realidade. Leve-se em consideração, por exemplo, a categoria mais acessível em termos de custos dos serviços de aplicativo e da Uber é a entrega através de bicicletas. Em média, um trabalhador desta categoria fatura em torno de 900 a 1500 reais mensais, trabalhando de 10 a 12 horas semanais -- sem folga!.. . Além do esforço desumano que um cidadão comum precisa realizar -- até mesmo o treino de um atleta de alto rendimento, o valor pago, sem qualquer tipo de benefício, está extremamente longe do que é recomendado pela Constituição Brasileira (1988) como o mínimo suficiente para uma vida digna e confortável, que, em 2021, seria de cerca de R$ 5.351,11.

Consideramos que se torna retórico, dada a análise anterior, o fato de que por nenhum prisma o trabalhador é “dono de si”. Pelo contrário: o trabalhador é um refém de um sistema estável de exploração e trabalho precário, sem meios de, seja a médio ou curto prazo, se livrar de tal condição. Obviamente, o exemplo mais extremo foi usado, que é o de menos investimento e maior esforço físico (Uber Bike). Porém, o mesmo ocorre com motoristas de carro e moto, mesmo que em menor escala. Em pesquisas simples na internet, é facilmente localizável guias, websites e vídeos que prometem rios de dinheiro para potenciais motoristas de aplicativos. Porém, essa promessa não se consuma empiricamente na maioria dos casos, visto que, para chegar ao menos perto da metade do salário mínimo recomendado pelo DIEESE,2 o trabalhador precisa estar em uma cidade

2 Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos.

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grande e movimentada; abrir mão de feriados; e trabalhar em horários e locais temerários, correndo alto risco de vida (principalmente para motoristas mulheres, visto o risco, também, de abuso sexual). No caso deste autor, empiricamente falando, trabalhamos de 6 a 8 horas por dia, no âmbito da Grande São Paulo, principalmente em cidades pequenas (Poá, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba), percebendo um lucro médio de R$ 15 a 60 reais por dia, sem levar em conta diversos fatores, como: desgaste das pastilhas de freio, motor, câmbio; desvalorização gradual do automóvel, em vista do aumento acelerado de sua quilometragem -- custos que geralmente não são levados em consideração mas que aparecem a médio e longo prazo, podendo então, como consequência, derrubar mais ainda a já pequena margem de lucro.

Tal questão não é só temerária, no sentido de que mais e mais trabalhadores estão precisando se submeter a tais condições subumanas de trabalho, mas também pelo cenário que tal categoria de trabalho pode proporcionar no futuro. Se, no interior do serviço de transportes, tal precarização já se estabilizou e normalizou, não há elementos que indiquem que, com o passar do tempo, outras categorias não irão seguir o mesmo caminho.

No Brasil, teremos eleições no ano de 2022 e diversos fatores podem contribuir com a mudança desse cenário. Todavia, a estabilização de certos termos de trabalho, instituição, privatização e mentalidade não podem ser mudadas da noite para o dia, em curto prazo, o que torna tal processo que vivenciamos ainda mais sombrio.

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MOTORISTA DA UBER:

DA EXPERIÊNCIA VIVIDA ÀS REFLEXÕES COM A TEORIA SOCIAL

2.1 Condições de trabalho

Antes de tudo, é necessário entender que esse tópico possui diversos prismas, como se fora uma espécie de paradoxo – como tentaremos explicar. O serviço de Ouvidoria e de atendimento ao motorista da Uber e também ao do cliente é impecável. Em quaisquer das redes sociais que o cliente ou motorista possua um problema, a empresa mostra-se rápida em resolver; seus processos protocolares são impecáveis. Todavia, há uma grande displicência com absolutamente todo o restante do processo.

Temos que entender que o trabalho de motorista de aplicativo envolve diversas variáveis: por exemplo, o veículo -- que pode ser alugado ou não. No primeiro caso, os preços altos e a falta de incentivo fiscal da empresa fazem com que todo o lucro obtido pelo trabalhador seja perdido pelas despesas e pelos riscos do aluguel. Caso seja um carro próprio, de alguém que está na situação de quem se enxerga na necessidade de realizar este trabalho, o bem, que lhe custou muito suor e esforço, é, ao longo do tempo, deteriorado: perde-se o valor de mercado do veículo pela ascensão alta da quilometragem rodada, aumenta a necessidade de revisões, com o que o veículo torna-se mais frequente trocas de acessórios automotivos, como as pastilhas de freio, o parabrisa, a bateria, serviços como polimento e cristalização a depender da cor do carro. Dizendo em outras palavras: a médio e curto prazo, trabalhar para a empresa Uber é quase pagar para trabalhar.

Outro aspecto de suma importância é a falta de assistência à saúde. Obviamente, os serviços de aplicativos estão mais atentos para não fazerem nada politicamente incorreto em uma pandemia, mas o fato é que essa nunca foi uma preocupação dessas empresas.

Note-se como a insalubridade do serviço é retórica: trabalhar em ambiente fechado, não importando o clima, com a circulação de muitas pessoas durante o dia. A covid- 19 veio apenas ratificar o absurdo que é ter que passar por isso em uma baixa preocupação com este importante direito trabalhista. Em certo momento, este autor ficou uma semana sem trabalhar, por doença que contraiu de uma cliente que teve que ser levada ao hospital –

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tempo em que ficamos debilitado, sem condições de trabalho e, portanto, sem remuneração.

Outro detalhe importante, também, é a questão das regiões de trabalho. Não é que seja impossível possuir uma boa remuneração com aplicativos, mas o fato é que essa boa remuneração é condicionada ao alto risco de mortes e assaltos. O trabalho noturno no aplicativo rende uma maior circulação de dinheiro, visto que há uma forte demanda dos clientes e uma baixa oferta de motoristas. Todavia, o risco de assaltos -- latrocínio, entre outros -- é altíssimo, principalmente levando em consideração o fato de que o aplicativo geralmente leva o motorista a rodar em regiões de alta periculosidade – aquelas em que o transporte público é inexistente ou precário. Ou seja: o serviço de aplicativos cobre uma espécie de “função social” que o Estado não cumpre.

2.2 Pagamento

De um modo geral, nem sempre a remuneração do Uber foi precária. Nos primórdios, no período de boom, poucas pessoas trabalhavam nesse meio de transporte. O combustível era mais barato e o repasse de lucro era bem maior do que atualmente. Com a realidade brutal do fato de que a Uber é uma empresa que sempre trabalhou em déficit – a crise financeira, o aumento súbito do preço dos combustíveis gerou um contexto em que o povo brasileiro está acostumado principalmente em diversos setores da economia:

o ônus financeiro sempre pende para o lado mais fraco. Da mesma maneira que produtos de mercado, por exemplo, têm seus preços aumentados subitamente pelo fato de o empresariado se recusar a diminuir de forma considerável seu lucro, o ônus da crise financeira contextual e também das empresas de aplicativo é passado para os motoristas que trabalham para elas.

Com o passar dos anos, o repasse de dinheiro foi diminuindo na mesma medida em que o preço do combustível foi aumentando. A isso soma-se o fato de que o serviço é cada vez menos utilizado devido à crise (o aumento de ciclistas em SP, por exemplo, é um dos fatores que denota isso), o serviço de aplicativo fica cada vez menos rentável para quem nele trabalha. O trabalhador basicamente se torna refém de uma empresa que se aproveita da crise financeira e da instabilidade política e econômica do país para promover e glamurizar um trabalho insalubre.

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2.3 O que é “ser Uber”?

O que leva alguém a fazer Uber, ou qualquer serviço de aplicativo, pode ser resumido, em tese, em uma única característica: necessidade. Porém, nem sempre foi exatamente assim. A Uber chegou no Brasil em 2014 e rapidamente se popularizou: era como se fosse um serviço de táxi que cobrava relativamente mais barato, com o passageiro tendo controle do caminho utilizado, e um pagamento considerado

“justo/satisfatório” ao motorista. Este autor recorda-se de seu primeiro contato com pessoas que iriam começar a fazer isso por necessidade: o marido de uma colega de trabalho e um cliente do cartório, que iria vender um terreno para comprar um carro – justamente para trabalhar com a Uber. Nesse mesmo período já ouvia-se reclamações em questões como manutenção do carro, combustível, relação entre desgaste do veículo X lucro etc. Todavia, essa continua sendo, para muitos, a única opção de curto prazo para tentar conseguir dinheiro, para assim então tentar sobreviver minimamente junto da família do trabalhador.

Com este autor, não foi diferente. Depois que saí do emprego que entoa tinha, fiquei um tempo parado e, por diversos fatores -- entre pressão interna e externa --, acabamos nos aventurando nessa área. No meu primeiro dia de trabalho, iniciamos muito cedo.

Havia muito nervosismo e até medo com o com o novo “emprego”. Acreditamos que esse nervosismo norteie muitos motoristas, visto que ele era embasado em um sentimento autorreflexivo, algo na linha: “O que deu de errado para eu precisar me submeter a isso?”.

À época (2018-2019), tínhamos consciência de que o valor do repasse do dinheiro ao motorista havia diminuído drasticamente. Como já assinalado, a Uber pagava muito mais aos motoristas no começo da estadia da empresa no Brasil. Junte-se isso ao fato de que havia menos motoristas e menos desemprego no início. E a insalubridade do serviço foi apenas aumentando gradativamente – e o atrativo da Uber era exatamente a baixa concorrência, unida a uma boa remuneração. Neste sentido, ninguém se importava com condições de trabalho, benefícios, possível futuro, entre outras relações trabalhistas, visto que a curto prazo se obtinha uma boa renda, sem tantos pré-requisitos profissionais.

Todavia, como já remarcamos, com o aumento gradual do desemprego e a falta de perspectiva, o número de motoristas da Uber só aumentou. Juntando-se ao fato de que trata-se de uma empresa que gera lucros e trabalha em déficit, era iminente que as condições de pagamento iriam piorar gradativamente – algo que é mineralmente claro

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hoje em dia -- mas não à época, para os motoristas. O momento em que trabalhamos no Uber foi após o, digamos,“auge” (2017-2019). No decorrer dos muitos meses de trabalho, em constante contato com demais motoristas, ficava notória a decepção com as condições presentes, principalmente por aqueles que viveram o “auge”, em termos de retorno financeiro.

Com isso, questionamentos sobre as condições se afloraram no sentido de que os trabalhadores estavam trabalhando mais, ganhando menos e sem qualquer sustentação trabalhista por trás disso. É uma questão que passou a não mais ser ignorada, em virtude do declínio acentuado do repasse financeiro ao trabalhador. Em termos pessoais, a remuneração recebida era extremamente volátil, e raramente havia dias em que a paga era algo satisfatório. A dificuldade em termos de remuneração era de duas espécies: a sorte (ou azar) em termos de número de corridas feitas; e igualmente sorte (ou azar) com a região do trajeto diário a percorrer como motorista-Uber. Era frequente a situação em que recebíamos pedido de corrida no perímetro da Grande São Paulo, para ir para a capital (o que, aparentemente, era algo positivo em função do valor da corrida). Só que, uma vez plantado na capital, não recebíamos corridas suficientes ou satisfatórias em termos de logística. Acabávamos tendo de voltar para um município da Grande São Paulo onde resido mas sem ser via corrida, tendo gasto combustível, tempo e todo o desgaste intrínseco ao trabalho mas sem receber nenhum retorno financeiro. O que nos impulsionou a parar com as corridas foi, portanto, a falta de incentivos por parte da empresa, o pagamento pífio e a sensação de estar realizando um trabalho totalmente insalubre a troco de pouquíssimo dinheiro (que por muitas vezes mal compensava o desgaste do veículo pessoal). E perspectiva nula de que esse quadro se alterasse.

A sensação geral é de que o motorista é abandonado e tem que implorar por migalhas.

Naturalmente, a insalubridade não advém apenas do pagamento. Há também um enorme descaso com o motorista em termos da condição em si do dia de trabalho. Antes de tudo, há o sistema de reputação do motorista -- as famosas estrelas. Para se construir uma reputação satisfatória -- a ponto de não ter corridas recusadas por usuários --, é necessário que alguém possua uma média mínima de R$ 4,85/5,00 -- de preferência, acima de 4,90.

Nesse sentido, é necessário que o motorista não apenas se porte 100% do tempo como alguém extremamente polido e capaz de lidar com pessoas de qualquer tipo de temperamento, mas também seja capaz de lidar com temperamentos e comportamentos adversos por parte de passageiros. Neste sentido, o contexto geral é ter que ouvir absurdos em temas como política e religião e ter que acenar a cabeça, não reclamar e fingir

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interesse. Em termos específicos, convém recordar dois casos emblemáticos: num deles, uma senhora me deu 1 estrela apenas porque eu segui o GPS (que, também, de fato era o caminho mais curto) e ela acreditava que o caminho que ela conhecida era mais curto, insinuando que eu estava fazendo aquilo para ganhar mais dinheiro em cima dela, mesmo que a afirmação não fizesse nenhum sentido. O outro caso foi com um casal mulheres.

Depois de chamar a corrida, demoraram cerca de 15 minutos para descer do apartamento após eu já estar no local, em um horário de pico em que perder 15 minutos significa perder uma ou duas corridas. Ao entrarem no carro, eu não suportei e acabei não sendo simpático, fazendo cara de “poucos amigos” e apenas dirigindo rapidamente ao destino sem emitir nenhuma palavra. Novamente, 1 estrela. Isso significa que o motorista, além de ser pouco remunerado, não conseguir descansar devidamente ao longo do dia, não ter folga ou horário de almoço remunerados. O motorista-Uber é basicamente um refém dos clientes/passageiros, sem prerrogativas de reclamações.

Outro fator adverso, que faz parte também do dia de trabalho, é ter que, para esperar corrida, se submeter a estacionar em locais perigosos, insalubres, desconhecidos, podendo passar frio ou calor, visto que, para economizar combustível e para não ser obrigado a parar em local pago (como zona azul e estacionamento), o motorista precisa ser pouco criterioso ao escolher o local de espera de corridas.

Mais um fator: o quão prejudicial para saúde é permanecer o dia todo em um local fechado e sentado. Dores nas costas e dor de cabeça eram frequentes em nosso caso, e obviamente algo que a empresa também deliberadamente ignorava, dado que não há plano de saúde disponível para os motoristas.

Outro ponto importante a ser salientado é que, em decorrência da alta concorrência e da diminuição do repasse de verbas ao motorista, diversos trabalhadores passaram a optar por trabalhar de madrugada, visto que, nesse período, consegue-se trabalhar por mais tempo e pegar mais corridas. Ou seja: o trabalhador se vê na obrigação de aumentar mais ainda o risco de vida em um trabalho já insalubre para que consiga pagar as próprias contas e por comida em casa. Todo esse descaso acaba com a saúde física e mental do trabalhador. Não seria exagero dizer que procurar um trabalhador de aplicativo satisfeito e feliz com o trabalho seria como procurar uma agulha em um palheiro... E claro, outra forma de tentar angariar mais corridas e dinheiro encontrada pelos trabalhadores é ter que trabalhar, sem folga, também, durantes feriados e finais de semana, período em que há mais movimentação de pessoas, forçando o trabalhador a abdicar um tempo precioso com a sua família em prol de tentar angariar mais dinheiro.

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Os motoristas-Uber são responsáveis por custear altos combustíveis – para ganhar algum dinheiro, é necessário ser uma espécie de “ninja”, porque determinadas estruturas sempre jogam contra para que possamos ganhar alguma quantia de dinheiro digna. O governo brasileiro não nos oferece nada – não temos os 40% para comprar carros, não temos desconto em IPVA, ficando todas as despesas para o nosso bolso.

A rotina torna-se árdua de segunda a sexta-feira, ou até mesmo aos finais de semana, começando por levantar cedo às 5 horas da manhã – não restando tempo para que se possa alimentar de maneira correta – muitas vezes, pela manhã, só dá tempo de tomar um copo de água, ou um “cafezinho” de forma apressada. Antes da realização das corridas, é preciso limpar o carro, para que não haja reclamações dos clientes quanto à higiene.

O melhor horário para o início do trabalho é às 8h da manhã, já que o período em que muitas pessoas se deslocam para ir ao trabalho. Por volta das 11 horas da manhã, nós retornávamos para casa, com uma pausa de no máximo 15 minutos para o almoço para, em seguida, retornar ao trabalho. Sim, numa dada ocasião, cogitei de fazer as refeições fora de casa, para ganhar tempo. Fomos a um restaurante, colocamos no prato uma pequena quantidade de salada, uma proteína e mais um copo de suco. O preço do almoço foi um verdadeiro susto: cerca de 15 reais – praticamente o preço equivalente a duas corridas que eu tinha de realizar.

Devido ao aumento da concorrência entre os trabalhadores do aplicativo, para que alguém possa ganhar uma quantia de dinheiro digna, é necessário que se trabalhe além das 17 horas da tarde. É comum ficarmos meia hora parados, esperando para atender uma corrida. Se um motorista-Uber trabalhar das 8 horas da manhã até as 20 horas, é possível conseguir faturar algo como 200-- 210 reais líquidos. Mas note-se: para isso, é necessário trabalhar cerca de 12 horas por dia. É muito cansativo – a maioria das pessoas pensam que os motoristas, por trabalharem sentados, não sofrem de cansaço. Não é bem assim.

Por exemplo: cansa o braço de tanto dirigir e trocar as marchar, cansa as pernas, a coluna dói muito. Há pessoas que, ao entrar no carro, não dão nem um “Boa Noite”. Existem, porém, aquelas que gostam de conversar, mas não é todas as vezes que o motorista está animado para isso. Quando tal ocorre, é preferível que o motorista não trabalhe, pois, somente pelo fator de que haja clientes que não nos acha simpáticos podem te atribuir um nota muito baixa, e o motorista pode acabar sendo demitido da empresa.

Antes de iniciar o trabalho com a Uber, é recomendável que a pessoa pense muito bem se possui paciência para o trânsito, se possui paciência para lidar com o passageiro – existem muitos passageiros que entram no seu carro e acabam sujando o automóvel, não

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porque ele quer, mas por ser simplesmente um dia de chuva. Às vezes, temos de pegar um paciente em locais onde não possui lugar para estacionar -- como vias rápidas. É frequente também que pessoas fiquem esperando em locais inapropriados para estacionar;

assim, nós enviamos uma mensagem para a pessoa, de modo a orientá-la, mas o cliente não vem, e quando vem, aparece com cara-feia; chegam ao cúmulo de cancelar a corrida...

É necessário não absorver essas adversidades, do contrário saímos do trabalho num stress dos maiores.

Há pessoas que são distraídas mesmo e pedem desculpas pelo desconhecimento. Há pessoas que, durante o trajeto, resolvem parar em vários lugares e acabam não pedindo as “paradas” para o aplicativo. E o motorista é obrigado a parar...

Se alguém for um motorista novo, é essencial ficar atento às multas – devido aos locais desconhecidos em que o motorista estará mais propicio a receber multas. É muito difícil andar em lugares que nunca estivemos antes. Não sabemos qual o tipo de pessoa que estará entrando em seu carro – pois a Uber não dá informação alguma do possível cliente – nem mesmo o sobrenome da pessoa a Uber fornece. E a Uber pode ensejar estelionato, sim; o passageiro só precisa reportar má conduta do motorista para conseguir o dinheiro de volta. Convém repetir, pela importância: a pessoa paga para o motorista, depois elabora qualquer mentira para a Uber e a Uber devolverá o dinheiro para essa pessoa.

Cedo ou tarde, nosso carro vai se desgastar. Os clientes não têm respeito pelo carro daquela que está dirigindo – há clientes que grudam “chicletes” nos bancos dos carros, derrubam cerveja ou refrigerante no seu banco – principalmente se a pessoa entrar em seu carro comendo ou bebendo; algumas pessoas jogar ou deixam o papel das balas nos carpetes dos carros – a problema da bala é esse: o passageiro vai jogar no banco ou no chão do seu carro.

Hoje em dia, avalio que não vale a pena largar um emprego para ser motorista de aplicativo. Para ganhar um dinheiro razoável, é necessário que haja meta, estratégia. De início, para os clientes, a Uber parecia o paraíso das viagens, com balinhas, águas; havia uma clientela empolgada e havia poucos motoristas. Se há futuro para os aplicativos de corrida, isso é uma completa incógnita, devido às categorias novas, a briga dos motoristas por melhores condições de trabalho e para que esses aplicativos deem valor para os motoristas, posto que, do jeito em que o sistema está, só há dois beneficiários: os passageiros e os aplicativos. E é de pasmar: com o aumento do combustível, a Uber ao invés de aumentar o preço de corrida, ela diminui ainda mais o preço.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Brasil, “ser Uber” pode ser descrito através de vários sentimentos: frustação, desesperança, desilusão etc. Tal frase parecer egoísta e insensível, visto que, principalmente com a pandemia do covid-19, o desemprego, a fome e a miséria atingiram níveis alarmantes no país. Todavia, tal sentimento de desgosto é o que circunda uma grande parte dos motoristas -- seja de veículos, moto ou até mesmo bicicleta. O sentimento de trabalhar 10-11-12 horas por dia para, no fim do mês, receber um salário menor que o mínimo (a não ser que o motorista arrisque sua própria vida trabalhando absolutamente todas as madrugadas), sem benefícios de qualquer espécie, é assustador – além de, claro, ver um patrimônio automobilístico ser desgastado pouco a pouco, perdendo seu valor real a cada dia, sem a garantia de que ele irá para sempre cumprir os requisitos mínimos para trabalhar com apps. E assustador porque, teoricamente, essa é a última das opções. E sendo a última das opções, o que espera do trabalho? Qual seria o próximo degrau? Em um contexto de crise vertiginosa e ascendente no país?

A impressão e o sentimento que tais aplicativos buscam passar para o público em geral, tendo como “aplicativo-mãe” a Uber, é que chegaram no país com o objetivo de explorar um mercado produtivo para expandir os objetivos da empresa, mas que, no fim das contas, com o passar do tempo, simplesmente passou a notar que o sofrimento e a necessidade do povo brasileiro era um campo fértil econômico e mercadológico para prosperar.

Qualquer ser humano desesperado, em busca de comida para sua família, entre outras adversidades, não iria titubear em aceitar um trabalho insalubre com péssimas condições e perspectivas.

Este cenário não é otimista. Não há sinais de que o panorama melhore. Pelo contrário:

aumento desenfreado do dólar, aumento da miséria e do desemprego, instabilidade entre os Poderes constituídos no país (afastando assim mais ainda investidores, empregadores e quaisquer meios de investimento público). Em um contexto mais amplo, a Uber é a parte maior de uma engrenagem da implosão do capitalismo, no sentido de que sua existência é uma consequência das mutações do nosso sistema econômico e possível implosão em algum momento da história.

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Outro fator que gera grande incomodo como motorista é ter que lidar com a glamourização do sofrimento. Não é frequente ter que se confrontar com indivíduos mais abastados, que pouco tiveram que trabalhar na vida, que acham que trabalhar sob sol, chuva ou frio durante 10, 11 ou 12 horas, sendo pago de maneira miserável, algum tipo de exemplo de superação, quando na verdade o trabalhador só quer sobreviver. Não é coincidência que, em todos os momentos em que tivemos confrontos argumentativos com tais indivíduos, em nenhum desses foi com uma pessoa abaixo da classe média, ou que trabalha, ou já trabalhou com aplicativos eletrônicos. A realidade brutal dificilmente já bateu na porta dessas pessoas, e espalhar o falso pressuposto de que tais pessoas são vencedoras e admiráveis – por trabalhar excessivamente sem justo retorno – é apenas (mais) um obstáculo no que concerne a conscientizar a população de como funciona a dinâmica não só do trabalho em si, mas também da intenção do sistema trabalhista por trás de toda essa desgastante estrutura. Se boa parte da população dá aval a tal sistema, com que moralidade os trabalhadores que confrontam para, de início, pensar que podem e merecem mais, e em seguida lutar para isso? Essa alienação do trabalho gerada neste processo com muita frequência cria uma cortina de fumaça no próprio trabalhador, que acaba por não entender plenamente a situação em que está inserido socialmente.

Evidentemente, a dinâmica de compra, venda e mercadológica de um modo geral mudou muito com o sistema de aplicativos. Hoje, é praticamente impossível sobreviver sem seu uso, dado que já é parte intrínseca do sistema. O que deve ser feito é valorizar o trabalho destas pessoas. E quando dizemos valorização, não falamos apenas em criar textos gigantes em redes sociais, que, no fim das contas, pouco tem de efeito prático. Mas também denunciar as condições de trabalho, lutar estruturalmente por melhorias neste ambiente de trabalho de forma institucional.

Em suma: “ser Uber” no Brasil é lidar com as adversidades sociais e econômicas em seu aspecto mais sublime e mais selvagem.

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BIBLIOGRAFIA

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