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O impacto das drogas

Ao encontrar Hermes alguns dias após, abracei o amigo e perguntei:

Rafael reencarnou? E Domênico, como reagiu?

Hermes, acostumado com a minha curiosidade incessante, disse-me com um brilho nos olhos:

Rafael está reencarnado e Domênico ficou abismado com o que viu. Finalmente, ele aceitou a lei inexorável da reencarnação do espírito que permite a evolução de todos os Filhos de Deus.

Hermes sacudiu a cabeça sorrindo e disse, com um largo sorriso que impressionava pela brancura dos dentes perfeitamente alinhados em contraste com a tez morena:

É uma pena que, por estares encarnado, não consigas lembrar-te de Domênico. Tu viveste junto conosco na Idade Média e passamos maus bocados em suas mãos. Mas o importante é que ainda encontraremos outros amigos daquela época. E, se Jesus nos auxiliar, conseguiremos realizar mais um importante auxílio aos irmãos que cruzaram nosso destino no passado!

Eu compreendi que não deveria pedir detalhes. Os anos de convivência com Hermes haviam me ensinado até onde eu conseguiria extrair informações do sábio amigo.

Mudando de assunto, perguntei ao nobre mentor:

Hermes, conforme te pedi, poderíamos estudar o impacto das drogas nos homens e nos espíritos livres da matéria? Nas últimas semanas, eu tenho me impressionado com o aumento do consumo de drogas entre os jovens! Em Porto Alegre, inclusive, existem certos parques onde as drogas são consumidas à luz do dia e à vista de todos. Alguns pontos dos parques são classificados de “fumódromos”. Além disso, existem grupos de rap e reportagens de revistas conceituadas promovendo e questionando a legalidade das drogas!

Hermes baixou a cabeça, meditando sobre as minhas palavras. Ao terminar minha exposição, o nobre amigo mirou-me nos olhos e disse:

Como seria bom se todos os encarnados pudessem ver o que tu enxergas, através da mediunidade! Eu compreendo que a tua maior aflição está em ver os desencarnados viciados obsedando os jovens, em todo lugar, na busca pelo vício degradante e, a princípio, nada podes fazer.

Eu olhei para o céu estrelado daquela noite com os olhos úmidos, enquanto minha mente relembrava as diversas vezes em que vi, com espanto, jovens em tenra idade com espíritos em avançado estado de degradação montados em suas costas, como se fossem jóqueis sobre cavalos.

Enquanto os desavisados jovens “curtem” o delírio que o consumo de drogas propicia, verdadeiros vampiros sugam-lhes a essência da droga que está sendo consumida. E o pior está no vínculo criado! Após satisfeito em seu desejo incontrolável, este espírito escravizado também no vício, liga-se, indefinidamente, à sua vítima para saciar mais e mais o seu desregramento, estabelecendo um profundo laço obsessivo.

O irmão Hermes passou a mão em meus cabelos e falou:

O amor de Deus, Roger, está em todo Universo! O Pai jamais desampara, mas Ele não pode absolver os seus filhos que, deliberadamente, associam-se ao erro. O que podemos fazer, e o que Deus espera de nós, é o trabalho de divulgação da sabedoria espiritual, que já estamos realizando através destas narrativas!

Aos pais e familiares de drogados, cabe o apoio e o trabalho de auxílio à libertação do vício hediondo. Que os familiares e vítimas das drogas possam ler esta nossa pequena contribuição e refletir sobre a complexidade e a periculosidade de cultivar o hábito de consumir drogas, tanto para o corpo material, como para o espiritual.

O nobre mentor respirou fundo, com a consciência de quem sabe a importância do tema a ser abordado, e disse com tranqüilidade:

Em nosso trabalho anterior, “A História de um Anjo”, observamos a situação dramática dos filhos de Sebastião, que eram escravizados pelas drogas, mas vamos aproveitar a noite de estudos para tecer novas considerações. Iremos analisar drogados encarnados e desencarnados. Vamos ver a ruína que a droga propicia nas duas dimensões da vida.

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Rapidamente, nos deslocamos para um bar noturno de Porto Alegre. Todos nós entramos em uma sintonia em que os espíritos desequilibrados não nos registrassem a presença. Não era interessante apresentarmo-nos, pois afugentaríamos os espíritos obsessores que alimentam o vício dos encarnados.

Em poucos minutos, Hermes apresentou-me os jovens que seriam estudados. Eram dois rapazes e uma moça que possuíam em torno de vinte anos. Eles estavam bebendo e fumando; os rapazes recostados a uma mesa de bar, enquanto a moça dançava alegre com um cigarro na mão. Junto a eles, estavam oito espíritos viciados. Dois deles estavam sendo carregados em caixões toscos, pois estavam em estado de transe devido ao desespero em consumir drogas.

Hermes virou-se para mim e disse:

As pessoas acreditam que após a morte do corpo, o espírito está liberto dos vícios que cultivou durante a vida. Estes espíritos são todos drogados que desencarnaram vitimados por sua própria imprudência. Alguns desencarnaram por overdose, outros envolvidos em crimes para obter dinheiro para adquirir as drogas.

Lembra-te sempre das palavras do Grande Mestre a Pedro: “tudo que ligares na Terra será ligado no Céu; e tudo que desligares na Terra será desligado no Céu”. Agora, eles estão no mundo dos espíritos com o desejo quintuplicado em relação ao seu vício e nada podem fazer para saciá-lo, a não ser ligar-se àqueles que estão na vida física e sugar a essência etérea das drogas consumidas pelos encarnados.

Enquanto eu analisava o estado dos espíritos que pareciam múmias, conduzidas pelos demais, Hermes disse-me:

Estes dois já não se encontram mais em condição de correr atrás do vício. Os seus amigos acreditam que eles ingressarão em uma “segunda morte” caso não sejam saciados. Em verdade, eles já se encontram em estado cataléptico. Estes dois perderam o governo sobre si agora, só lhes resta serem conduzidos para clínicas do plano espiritual, onde ficarão em estado de coma

induzido por tempo indeterminado.

E quem é aquele espírito agitado que, constantemente, acompanha o estado de uma das múmias?

Roger, aqueles dois são irmãos que desencarnaram juntos por overdose. Este, que acompanha o estado do espírito em coma, é o seu irmão mais velho que iniciou o jovem nas drogas.

Ele, agora, se penitencia por ter desgraçado a vida do irmão que está sofrendo as piores conseqüências.

Mal Hermes terminou suas palavras e Anderson dirigiu-se a um dos rapazes que bebiam recostados à mesa do bar e, com violência, deu vários socos com a parte inferior do punho na . cabeça e no peito do jovem rapaz, dizendo:

Maldito! Maldito! Vai comprar a cocaína de uma vez. O meu irmão está morrendo. Eu te desgraçarei a vida se o meu irmão ingressar nesta “segunda morte”!

Naquele instante, Josué começou a tossir forte sem parar. A cena foi tão imprevista que a menina que estava com eles gritou, em meio à música estridente:

O que é isto Jô, já estás te engasgando com a bebida?!

Os três riram e Josué respondeu:

— Eu acho que está na hora de eu cheirar um pó. Esta bebida não está me fazendo/bem. Eu estou com tontura e dor de cabeça.

Vê, Roger — atalhou Hermes — a tosse e a dor de cabeça são impressões causadas pelos socos que Anderson desferiu na cabeça e no peito deste rapaz.

Logo em seguida, os três saíram do bar com a sua corte de obsessores a segui-los. Era uma cena fúnebre! Os três jovens alheios aos espíritos que os acompanhavam. Junto a eles, seis criaturas com corpos deformados, como em filmes de terror, com roupas negras rasgadas, conduzindo dois esquifes com as múmias em avançado estado de decomposição e rigidez cadavérica.

Anderson esfregava as mãos, ansioso, enquanto acompanhava o estado de seu irmão no caixão

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que o conduzia. Algumas vezes, ele aproximava-se mais dos encarnados e os empurrava e socava nas costas, dizendo:

Andem, andem seus molóides!

Os demais obsessores variavam muito em aspecto e estado de consciência. Alguns espertos e manhosos, outros pareciam estar perdendo, lentamente, o contato com a realidade alguns, inclusive, falavam coisas desconexas. Maurício, que estava mais lúcido, gritava desesperado: “Eu quero maconha, pelo amor de Deus!,’’

Que blasfêmia, pensei! Colocar o nome do Criador nesta súplica. Mas esta é a ruína que o vício causa.

Em alguns minutos, estivamos na entrada de uma pequena vila próxima à região central da cidade, atrás do ginásio Tesourinha, em Porto Alegre. Anderson, com os olhos arregalados, agora mantinha no rosto um sorriso amarelo e, abraçando Josué, apertava-lhe o pescoço e sussurrava-lhe no ouvido palavras de estímulo ao consumo da droga.

O rapaz começou a salivar e sentir arrepios e tremores no corpo. O seu sistema nervoso estava inteiramente afetado pela influência obsessiva de Anderson. Isto fez com que ele acelerasse o passo em direção a um grupo de traficantes que conversava na entrada da vila.

Todos nos aproximamos para ouvir a negociação, mas algo insólito aconteceu! Quando Maurício, um dos obsessores que arrastavam os caixões que conduziam os espíritos em coma chegou por último, devido ao fardo que devia carregar, ele foi identificado pelos obsessores que estavam com os traficantes.

Naquele instante, uma gritaria ensurdecedora tomou conta do lugar:

E o Maurício, peguem o desgraçado, ele matou o meu irmão para roubar-lhe a droga!

Era uma cena triste, mas muito curiosa. Enquanto os encarnados negociavam as drogas, os desencarnados brigavam em outra dimensão, devido a outros assuntos, alheios aos encarnados que ali estavam. Maurício corria desesperado para fugir da violência dos golpes que lhe desferiam.

Anderson, ao ver o esquife de seu irmão jogado ao chão, pois Maurício largou tudo para fugir, ficou enlouquecido. Ele ajoelhou-se ao chão e começou a beijar o rosto em avançado estado de putrefação do irmão. O mau cheiro era atordoante! Os espíritos possuem as mesmas impressões e os odores típicos de corpos físicos.

Maurício desaparecera, levando consigo todos os obsessores dos traficantes que o perseguiam com sede de vingança. Anderson e seus amigos, após comprarem a droga, sentaram-se em uma calçada a duas quadras do ponto de tráfico, quase em frente de uma praça, atrás do teatro Renascença, e começaram a fumar os cigarros de maconha. Os traficantes não possuíam no momento cocaína, mas Anderson não se importou com isso e ligou-se com determinação a Josué como um verdadeiro sanguessuga.

Os dois em perfeita simbiose, fumavam alucinados o cigarro de maconha. Os demais obsessores ligaram-se aos amigos de Josué, sendo que a menina, além de sofrer a obsessão pelo vício da droga, ainda era assediada sexualmente por um dos obsessores que passava as mãos insistentemente em seus seios, entre uma sugada e outra da essência da erva do mal.

Aquela cena enojou-me. Então, eu disse a-Hermes:

Podemos ir embora. Acho que já vi o bastante!

O nobre mentor dirigiu-me um olhar piedoso e disse:

Espere mais um pouco! Quem sabe não poderemos ser úteis a estes nossos irmãos sofredores?

Assenti com a cabeça e continuamos assistindo a triste cena.

Anderson sugava Josué e corria até o caixão, que quebrou na queda durante a fuga de Maurício.

Ele, então, beijava o irmão na boca para expelir a essência da droga para os pulmões da múmia que nem mesmo piscava os olhos.

Aquele grupo de almas ficaram jogadas na calçada naquela estranha simbiose por quase duas horas. Quando os três jovens terminaram de fumar os últimos cigarros de maconha, os obsessores atiraram-se ao solo, exaustos, mas saciados. Os três encarnados riam e falavam bobagens, atitude

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típica daqueles que ficam entorpecidos pelas drogas.

Algum tempo depois, eles despertaram do transe e dirigiram-se para as suas casas. Anderson levantou-se e dirigiu-se a Josué, gritando-lhe no ouvido:

O meu irmão está “morto” por tua causa, molóide. Se tu fosses mais rápido ele reagiria. Eu só não te mato, porque preciso de ti todos os dias para me saciar.

E dando uns tapinhas no rosto de Josué, que sentiu na dimensão material como uma pequena coceira na barba, Anderson sussurrou-lhe no ouvido:

Amanhã te espero para “cheirarmos” um pó. E vê lá! Não me venhas com maconha que é droga de pobre!

Josué sentiu-se angustiado e pensou, vagamente, sobre a vida que estava levando e as suas atitudes no dia-a-dia. Seria bom largar as drogas, pensou.

Anderson, captando seus pensamentos, disse, irônico:

Tu és um viciado! Um fraco de espírito. Agora, tu pensas assim porque estás saciado, mas amanhã voltarás aqui, tremendo de desejo para saciar o teu vício. E ai de ti se não vieres! Eu vou te buscar em casa, babaca!

Josué foi embora em companhia dos amigos com uma tempestade de idéias dentro da cabeça.

Ao ver aquela “lavagem cerebral” promovida por Anderson, perguntei a Hermes:

E o espírito protetor de Josué? Ele não o auxilia?

Meu querido irmão — respondeu Hermes — isto é o que o seu anjo guardião mais deseja, mas Josué está afastado da oração, da boa conduta, da leitura edificante e das boas companhias.

Josué ergueu um muro entre ele e seu espírito protetor e, mais, estreitou laços com espíritos do nível de Anderson. É tudo uma questão de sintoma. A escolha é nossa! Ou nos sintonizamos com a luz ou com as sombras, cabe a nós decidirmos que vida desejamos levar!

Os demais espíritos obsessores foram embora, levando o outro espírito em coma espiritual, ficando apenas Anderson agarrado ao seu irmão inerte dentro do esquife. Intrigado com aquele caixão, perguntei a Hermes:

Por que o irmão de Anderson está neste caixão? Ele já está desencarnado.

Meu irmão, somos o que pensamos! E esta máxima vale ainda mais no plano espiritual.

Anderson acredita que seu irmão está morrendo, assim ele criou, mentalmente, o caixão que arrasta de um lado ao outro, conduzindo o parente querido em coma profundo. Mas vamos ver no que podemos ajudar. Vamos nos fazer visíveis a ele e conversarmos!

Pouco a pouco, eu e Hermes densificamos nossos corpos astrais. Ao ver-nos, Anderson deu um salto, como se fosse impulsionado por uma mola, e fugiu pelas ruas que circundam o ginásio, arrastando o caixão de seu irmão e gritando:

Vocês não vão levar meu irmão! Ele é meu e eu prometi cuidar dele! Saiam daqui.

Em questão de segundos, ele desapareceu no meio da rua. Olhei para Hermes impressionado. O mentor disse, então, com serenidade:

Ele partiu para o mundo espiritual! Vamos segui-lo!

Hermes colocou a mão sobre o meu ombro e nos deslocamos para um vale sinistro do mundo espiritual, onde o cheiro de maconha, cigarro e bebida alcoólica era muito forte. O ambiente era característico do astral inferior: umidade, escuridão, mau cheiro e sons depressivos.

Rapidamente, localizamos Anderson, que chorava ajoelhado junto ao peito do irmão. Lágrimas ardentes corriam de suas faces. Ao seu lado, estava um nobre espírito que consolava o obsessor viciado.

O espírito de boa vontade, ao perceber nossa chegada, cumprimentou-nos, feliz, e disse a Hermes:

Espírito iluminado, auxilia-me nesta árdua tarefa de libertar o meu protegido da influência deste nosso irmão infeliz e sem esclarecimento. Eu não possuo a sabedoria para convencê-lo a libertar meu querido Josué de sua influência.

Aquele era o espírito protetor de Josué, que via na presença de Hermes a chance de libertar o

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seu pupilo da influência de Anderson.

O nobre benfeitor abraçou o protetor de Josué e disse:

Depositemos nossa confiança no amor de Jesus. E, se Ele nos permitir intervir, assim faremos com prazer!

Hermes ajoelhou-se ao lado de Anderson e disse-lhe com serenidade:

Anderson, permite-me prestar auxílio ao teu querido irmão! ,

O pranto de Anderson era doloroso. Os seus gritos doíam fundo na alma. Com certeza, o peso que carregava em sua consciência por induzir o irmão às drogas e à desencarnação precoce dilacerava-lhe o coração.

Hermes, calmamente, afastou Anderson do irmão e abraçou o esfarrapado verdugo. Os grandes olhos negros do querido e inesquecível amigo ficaram marejados de lágrimas, e de seu peito surgiu uma vibrante luz branca com variações de verde e azul que aliviaram a dor de Anderson. O infeliz obsessor agora chorava copiosamente.

Deixa-me cuidar de teu irmão, Anderson! — insistiu Hermes.

— Não é possível! Ele está morto também em espírito!

— A morte não existe, Anderson, vê e crê!

Hermes sentou-se no chão e desfez o caixão criado, mentalmente, por Anderson. Em seguida, ele colocou a cabeça do rapaz em seu colo e orou fervorosamente, nestes termos:

“Pai de infinita bondade, desce sobre este teu filho que vive em sombras um raio de tua misericordiosa luz. Abranda a dor que o vício lhe causa para que ele possa reconstruir a sua vida seguindo o caminho do amor e da sabedoria, segundo as orientações de nosso Cristo.

Ao irmão deste pobre jovem, ao meu lado, demonstra a grandeza do Teu poder, do Teu amor e do Teu sentimento pleno de perdão a todos os teus filhos que se perdem do caminho da luz!”

Ao terminar a súplica, grossas lágrimas desceram dos iluminados olhos do irmão Hermes.

Naquele instante, a luz dos planos superiores desceu sobre nossas cabeças, trazendo-nos paz e alegria. O irmão de Anderson despertou, vagamente, do coma espiritual. Ele olhou para o seu irmão e protetor e disse, com os olhos vermelhos empapados de pus:

Irmão, eu quero Jesus! Chega de drogas, por favor! Isto precisa ter um fim. Nós precisamos vencer este demônio cruel.

Anderson abraçou o irmão e, com a voz asfixiada pelas lágrimas, disse-lhe:

Como você quiser, maninho!

Em segundos, o rapaz estava, novamente, petrificado, retornando à situação anterior. A luz que a bela oração de Hermes havia produzido se dissipara nas trevas daquela zona inferior.

Hermes deitou a cabeça do rapaz ao chão e voltou-se para Anderson, dizendo:

Meu bom rapaz, atende ao pedido de teu irmão! Vem conosco para uma clínica de recuperação de drogados. Somente lá encontrarás a paz.

Anderson baixou a cabeça e nada disse. Era possível apenas ouvir os soluços do pranto que lhe oprimia o coração, devido às fortes emoções.

Durante o deslocamento para o hospital, Hermes disse-me:

Nesse hospital de recuperação de drogados, poderemos trazer novas considerações, mas antes vejamos o que temos sob nossos pés.

Eu olhei para o solo e vi, entre a névoa densa do pântano, rostos caricaturados com um ríctus de dor no chão, como se ali estivessem esculpidos. Mais adiante, havia criaturas em estado convulsivo.

Estes pareciam estar sendo eletrocutados, tais eram as tremedeiras e os gemidos que manifestavam.

Alguns pareciam estar flutuando a alguns centímetros do chão, devido à intensidade das convulsões!

Hermes colocou a destra sobre o meu ombro direito, enquanto caminhávamos, e disse:

Ao desencarnar, o viciado em drogas amplia, em cinco vezes, o seu desejo de consumir o instrumento do delírio. Não encontrando como saciar o desejo sem um corpo físico, ele busca saciar-se através do vampirismo aos encarnados. Após algum tempo, o desejo se amplia e, pouco a

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pouco, ele começa a perder o contato com a realidade, como vimos acontecer com alguns acompanhantes de Anderson nesta noite.

O tempo passa e o desejo continua a aumentar! Então, a enfermidade avança para o estágio das convulsões que aqui tu vês ocorrer com estes corpos que parecem estar sendo eletrocutados. Após este estágio, o viciado entra no estágio em que se encontra o irmão de Anderson. A vítima fica em coma espiritual! E, por fim, ficam cristalizados ao solo, como se estivessem congelados com a caricatura da dor causada pelo escravismo às drogas, por tempo indeterminado, de acordo com a sua necessidade de reequilíbrio.

Hermes — perguntei — o irmão de Anderson não passará por este último estágio de cristalização no solo. Isso não é um privilégio?

Roger, “a cada um será dado segundo as suas obras”. Este rapaz foi induzido às drogas pelo irmão insensato. Nem um outro crime cometeu! Já estes que vês sob os teus pés, cristalizados, foram traficantes e drogados violentos, que mataram, prostituíram crianças ou cometeram outros crimes hediondos.

Acocorei-me, fixei o olhar em um destes seres cristalizados na rocha do solo e perguntei a Hermes:

Eu posso invadir a tela mental deste irmão?

O nobre instrutor apenas sinalizou com a cabeça afirmativamente. Eu concentrei-me naqueles olhos mortos, cor da terra, e comecei a navegar no passado daquele homem.

Eu o vi nos anos setenta em uma cidade do interior dos Estados Unidos injetando LSD nas veias. Os seus braços eram uma verdadeira peneira com diversas tatuagens. Ele não trabalhava e prostituía a mulher e a filha de doze anos para poder comprar a droga. Eram apresentadas cenas em que ele invadia casas para roubar todos os pertences de indefesos velhinhos. Após levar dinheiro, televisores e eletrodomésticos para trocar pelas drogas, ele matava os donos da casa.

Eu fiquei impressionado! Desliguei-me da tela mental do espírito cruel e concentrei a minha atenção em sua testa na busca pelo número da besta. Ali era o único lugar onde eu poderia encontrar a marca dos exilados, pois somente a cabeça era passível de identificação, visto que suas mãos estavam completamente deformadas. Seu corpo era apenas uma pasta disforme!

Em segundos, sobre aquela testa enegrecida pelos efeitos da putrefação e da cristalização, surgiu em sua fronte o número 666. Suspirei aliviado! Apesar de ser um gesto pouco cristão, eu não gostaria de ver este espírito monstruoso reencarnado na Terra. No planeta exílio, também, ele terá severos mecanismos para transformar-se para o amor! Aqui no conforto da Terra, ele não teria estímulos para a reforma íntima, libertando-se do mal.

Hermes agachou-se junto a mim e esclareceu-me:

Este não reencarnará mais na Terra, mas existem outros em semelhante situação que ainda possuem o direito à última chance. A lei de Deus é justa e propicia aos seus filhos direitos iguais, como ensinou-nos Jesus durante a parábola dos “trabalhadores da última hora”. Todos possuímos o mesmo número de oportunidades para evoluir e assim alcançarmos o “reino dos Céus”.

Continuamos a caminhada até ingressarmos em respeitável clínica para recuperação de drogados, nas imediações daquela região onde encontramos Anderson. Logo fomos recebidos por prestativas enfermeiras, que conduziram os dois irmãos em macas para a necessária internação.

Eu e Hermes fomos conhecer os trabalhos realizados naquela casa de saúde. A elevada hierarquia espiritual do meu nobre instrutor facilitou o nosso acesso a todas as dependências da clínica.

Ingressamos em um amplo salão, onde os espíritos desencarnados ficavam deitados dentro de câmaras individuais com uma janela de vidro. Dentro destes recipientes hermeticamente fechados, havia um gás esverdeado.

Um dos médicos responsáveis, Eurico, disse-nos:

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Este gás tem a finalidade de anestesiar a excitação causada pela ausência da droga no organismo destes irmãos.

Eurico apontou para o lençol sob o corpo que protegia a cama e disse:

Vejam o líquido negro que os drogados transpiram. Esta é a emanação etérica que se desprende do perispírito dos drogados após o desencarne. Diariamente, temos que trocar os lençóis que protegem as camas e sugar por uma sonda este líquido que se desprende por todos os poros e orifícios de nossos irmãos entorpecidos.

Eurico ajeitou os cabelos grisalhos que se desprendiam da touca cirúrgica que usava e continuou:

Este tipo de tratamento é dado aos pacientes que estão no estágio das convulsões e do coma espiritual. O tempo de exposição a este tratamento pode variar de algumas semanas até alguns séculos. Tudo depende da quantidade de toxinas que precisa ser liberada para a reação do paciente ao tratamento.

Já os enfermos que estão na fase de cristalização necessitam ser colocados nestes aparelhos de transmutação!

Eurico mostrou-nos, na outra ala da enfermaria, cabinas muito semelhantes a cabinas telefônicas, onde o paciente era imerso dentro de um líquido da cor violeta. O viciado que ora estudávamos, estava boiando no caldo que possuía uma correnteza interna e que mantinha, constantemente, o movimento do corpo do paciente, que pendia a cabeça para trás e para a frente, ininterruptamente. Para não ser asfixiado pelo líquido, o irmão em tratamento estava com uma máscara de oxigênio em seu rosto.

Captando meus pensamentos, Hermes disse-me:

-Roger, não se trata de oxigênio, mas sim, de uma essência da natureza muito semelhante ao prana, que visa revitalizar o espírito em tratamento.

O médico que nos assistia confirmou as palavras de Hermes com um gesto e prosseguiu:

Este é um tratamento associado. Através do elemento gasoso, o paciente recupera-se internamente, revigorando os órgãos internos. E, através do líquido violeta, ocorre a “des- cristalização” da região externa de seu corpo espiritual. A cor violeta possui a propriedade da transmutação, regenerando as células do veículo espiritual.

Muito interessante! E acredito que este líquido deve ser trocado, também, diariamente, para eliminar as toxinas que irão se desprender do organismo entorpecido pelos efeitos das drogas.

Eurico apenas sorriu, concordando com as minhas palavras. Este é um gesto habitual dos sábios.

Utilizam-se pouco das palavras e muito dos recursos telepáticos.

Em seguida, o médico espiritual convidou-nos a estudarmos os casos onde o paciente não perdeu a consciência. O caso de Anderson, por exemplo. Entramos em uma ala no andar inferior, onde havia celas como as de uma penitenciaria. Ali a gritaria era ensurdecedora! ,

Os espíritos debatiam-se nas paredes acolchoadas e protegidas com energia eletromagnética.

Eurico chamou-nos, novamente, e disse-nos:

Aqui nesta ala, são tratados os espíritos que necessitam vencer o impulso quase incontrolável de consumir as drogas. Por estarem conscientes, eles podem mobilizar suas forças na busca pelo vício. É necessário aprisioná-los para não buscarem o seu objeto de desejo insano.

Olhei para aqueles espíritos gritando e debatendo-se nas portas e paredes e perguntei a Eurico:

A lei de Deus é baseada no livre arbítrio, ou seja, no direito de podermos decidir os nossos futuros e vivermos em liberdade. Não estaria errada esta atitude, mesmo que louvável, de aprisioná- los contra a vontade?

Eurico olhou-me sem entender e, após, mirou Hermes procurando explicações sobre a minha pergunta. O meu mentor compreendendo a situação, conduziu-me até a porta de uma cela e disse ao nobre médico:

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Eurico, o meu pupilo não deve estar captando corretamente esta situação. Como tu já percebeste, através do fio prateado que ele ostenta, trata-se de espírito encarnado em estudo no mundo espiritual. A sua visão das coisas, portanto, toma-se um pouco confusa!

Eu fui entender as palavras de Hermes quando me aproximei de uma das portas e ouvi, com extrema concentração, as palavras quase ininteligíveis de um dos prisioneiros. Ele, aos gritos de desespero e banhado em lágrimas, dizia:

Pelo amor de Deus não me deixem fugir! Não me libertem! Segurem-me, senão eu não vou conseguir!

Os pacientes aprisionados naquelas celas estavam ali por livre vontade! Eurico, compreendendo que eu antes não havia percebido a situação, falou:

Estes irmãos já compreenderam que somente internados nesta clínica conseguirão recuperar a paz de espírito. Dentro destas celas, eles recebem tratamento através de música, cores e ensinamentos evangélicos que estimulem a perseverança e a calma.

É por este motivo que as paredes, o piso e o teto das celas são da cor verde? — perguntei.

Exatamente! E aquela lâmpada no teto emite irradiações azul, índigo e violeta. E todos os dias, às nove horas da noite, é realizada uma leitura do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e orações. Neste momento, a luz crística desce sobre os pacientes, permitindo-lhes algumas horas de sono.

Eurico conduziu-nos, por fim, para o saguão de entrada do hospital, pois precisávamos nos retirar. O dia já amanhecia em Porto Alegre. Hermes manteve-se pensativo por alguns instantes.

Estranhando a atitude do nobre amigo, pedi-lhe explicações.

Querido irmão, acho que receberemos uma má notícia em instantes.

Mal Hermes terminou estas palavras e uma das enfermeiras surgiu à nossa frente dizendo:

Lamento informar-lhe, nobre Hermes, mas Anderson fugiu das dependências da clínica e deixou este bilhete sobre a mesa.

Estiquei os olhos e li as letras trêmulas de Anderson, que foram escritas nas costas de um prontuário médico:

“Sinto não poder ficar. Este vício é como um demônio que não permite trégua. Agradeço-lhes de coração por abrigarem meu querido irmão. Ele não merecia esta desgraça que lhe sucedeu pelas minhas mãos. Sei que não me perdoarão por abandonar o único lugar que poderia salvar-me. Mas, se isto serve como agradecimento por salvarem meu querido irmãozinho, prometo-lhes jamais voltar a obsediar Josué. Mas, infelizmente, outros deverão servir-me de “piteira viva”, como vocês dizem, para saciar-me no vício das drogas, único pensamento que habita minha mente.”

Hermes abaixou a cabeça e realizou uma singela oração mental em benefício de Anderson.

Eurico ajoelhou-se perante a luz que irradiou-se do iluminado espírito. Aguardei em silêncio respeitoso as instruções do querido amigo e irmão. Alguns minutos depois, Hermes levantou a cabeça com os olhos brilhantes pelo efeito das lágrimas e disse, sem afetação:

As drogas são assim! E necessário perseverança para suportar os inúmeros fracassos. Espero que Anderson adquira logo forças para assumir, abertamente, esta batalha dolorosa.

Ao descermos a escadaria do átrio, perguntei a Hermes se teríamos algo mais a falar sobre as drogas. Ele olhou para o crepúsculo e concluiu:

É fundamental vencer as drogas e qualquer vício em vida, antes de desencarnar, pois no plano espiritual, a intensidade do desejo desregrado amplia-se como um monstro incontrolável.

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