LEVANTE CONSTITUCIONALISTA DE 1932 A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA PAULISTA

Texto

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LEVANTE CONSTITUCIONALISTA DE 1932 – A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA PAULISTA

INTRODUÇÃO

Em 09 de julho é comemorado a Revolução de 1932, mas o que foi esse Levante e como ele é lembrado nas memórias dos paulistas, o intuito dessa pesquisa foi problematizar caminhos trilhados para a construção da memória da Revolução de 1932, ocorrida no Estado de São Paulo, especialmente levando-se em conta duas vertentes divergentes construídas pela historiografia acerca do conflito. A primeira vertente com o intuito de elucidar a espontaneidade do povo paulista em participar do Levante. Outra vertente buscava esclarecer as estratégias ideológicas adotadas por uma classe dominante, que tinha como objetivo agregar toda uma sociedade em torno de suas idéias.

Buscando posicionar-se diante desses tópicos a pesquisa tem como intuito abordar quais elementos estratégicos, ídolos e mitos foram utilizados como motivação para que diversos grupos sociais se tornassem combatentes contra as forças Getulistas, a ponto desses eventos tornarem-se um importante elemento identitário em São Paulo.

Nesse sentido, a pesquisa buscou símbolos que representassem como foi construída a memória Pós Revolução Constitucionalista, especialmente por se tratar da memória dos vencidos sobre o vencedor, na medida em que o pós 1932 surge como um arcabouço de criações culturais voltado para a preservação de um movimento derrotado no campo de batalha material, mas que utilizou o mito da Constituição como um símbolo de vitória.

Assim é importante esclarecer a importância da pesquisa para o campo da memória em relação a construção da identidade de um povo na medida em que seria por meio da memória individual e coletiva que se consegue conservar informações importantes para a preservação do passado de uma sociedade.

A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva é não somente uma conquista é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela

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dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória (LE GOFF, 2013, p.435)

Refletir sobre a importância da memória da Revolução Constitucionalista para o Estado de São Paulo mostra-se relevante, pois não se trata somente de imortalizar tal memória, mas principalmente buscar dados que pudesse compreender criticamente como essa memória foi construída, trazendo aspectos das participações da população com um grande número de voluntários e o silêncio de outros grupos envolvidos no processo que levou a revolta.

A compreensão do processo histórico dos últimos meses de 1930 é demasiado importante para trazer a luz da reflexão fatos, característica e aspectos que foram decisivos para a eclosão da Revolução Constitucionalista. Muitos textos indicaram que havia uma “persuasão” dos articuladores do movimento por meio de uma elaborada propaganda organizada pelos meios de comunicação com intuito de persuadir os diferentes agentes envolvidos e que essa cooptação ideológica utilizada pelos lideres revolucionários foi capaz de estimular grande parte da população a se voluntariar para lutar pela causa paulista.

A Revolução de 1932 apresenta uma relação contraditória criada por esta elite, sendo marcada por um interesse em manter seu status de poder no jogo político.

Importante salientar que para esse jogo de forças era necessário uma São Paulo Revolucionária, em que os paulista se alistassem em massa para o combate, e isso foi possível por meio de diversas estratégias de convencimento dessa população.

O confronto de 1932 é marcado por um tempo de contradições, onde as forças ideológicas do poder conseguiram convencer grande parte da população a lutar contra o governo provisório afim de reestabelecer o seu lugar como um Estado autônomo que buscava o retorno da Constituição

Além disso a pesquisa tem como objetivo abordar as referências que foram utilizados como motivação para o embate, a ponto desses símbolos tornarem-se elemento identitário do povo paulista. Nesse sentido, a pesquisa buscou elementos que apresentassem como foi construída a memória Pós Revolução Constitucionalista, especialmente por se tratar da memória dos vencidos sobre o vencedor, na medida em que o pós 1932 surge como um arcabouço de criações culturais voltado para a preservação de um movimento derrotado no campo de batalha material, mas que utilizou o mito da Constituição como um símbolo de vitória.

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Refletir sobre a importância da memória da Revolução Constitucionalista para o Estado de São Paulo mostra-se relevante, pois não se trata somente de imortalizar tal memória, mas principalmente buscar dados que podem compreender criticamente como essa memória foi construída trazendo aspectos das participações da população com um grande número de voluntários e o silêncio de outros grupos envolvidos no processo da construção da memória.

A despeito do discurso do perdedor em que a derrota é transformada em vitória, imortalizou a Revolução Paulista, através de várias referências que foram difundidas por vários espaços urbanos e monumentos que encontram distribuídos em várias cidades do Estado de São Paulo, se faz necessário levantar como se deu a escolha destes elementos que viraram símbolos da Revolução Constitucionalista.

Elementos de uma revolução

Revolução Constitucionalista, Movimento Constitucionalista de 1932, Levante ou Guerra Civil, um confronto que para seus apoiadores e combatentes foi considerado uma revolução, já para o Governo Provisório de Getúlio tratava-se de uma "Insurreição Reacionária dos Rebeldes Paulista". Carreri 2019. O fato é que este último 09 de julho de 2020, foi comemorado no Estado de São Paulo 88 anos do "Movimento Revolucionário de Caráter Constitucionalista", no qual Paulistas se levantaram em armas para a causa de São Paulo.

Em primeiro lugar, enfatizo a importância de se buscar no debate semântico o conceito de "Revolução" já que o termo é muito utilizado na historiografia para explicar o conflito ocorrido em São Paulo, possivelmente uma maneira de legitimar no campo simbólico, uma nova narrativa estratégica, criando-se um véu que acoberta o discurso do perdedor. É possível que para a construção da memória identitária do povo paulista, fosse necessário usurpar o conceito da palavra Revolução que segundo Pimenta, "

confere-se ao tema revolução e a todos que pudessem ser associados ao vocábulo, prestigio e interesse sempre renovados".

Segundo a filósofa Hannah Arendt:

"só se pode falar de Revolução, quando a mudança se verifica com vistas a um novo início, quando se faz uso da violência para constituir uma forma de governo absolutamente nova e para tornar real a formação de um novo ordenamento político, e quando a libertação da

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opressão visa pelo menos à instauração da liberdade". (Arendt, 1963,28), Bobbio, pag, 1123, Dicionário de Política).

O conceito de Revolução parte da premissa de ruptura total de um sistema vigente e ao contrário do conceito definido por Arendt, o termo é usado por vários autores para explicar o conflito de 1932, não apresentando em suas teses o principio de mudanças profundas nos sistemas políticos, econômicos e sociais, nesse sentido o olhar se voltar para os combatentes derrotados que se tornam os atores principais deste confronto e que serão usados como massa de manobra na construção desta memória.

Quais características apresentadas pelos revolucionários de 32 que definem o Levante Paulista a categoria de revolução já que a história nos apresenta como memória da Revolução de 1932 as propostas políticas apresentadas pelos revolucionários paulistas de reivindicações que por si só não seriam motivos factíveis de uma guerra, assim não podemos supor que uma revolução seja considerada como tal, quando não encontramos em seu projeto político uma nova ordenação política com vistas a ruptura com o passado.

Na mesma linha de Arendt, Assunção constrói seu conceito de revolução, apresentando vários elementos diferentes que devem interagir criando uma conexão entre eles, ou seja, "A mudança brusca, a transformação social efetiva, a sensação do novo, a consciência da liberdade, a participação popular em um grande esforço de reconstrução coletiva "espontâneo", o caráter emblemático que se estende como motivação para gerações futuras, ou ainda violência". (Assunção - Revolução - Variações em torno de um acorde conceitual).

O confronto ocorrido em São Paulo de 32, contra as forças do Governo Federal, buscava através da união de vários grupos antagônicos descontentes com os rumos do golpe de Estado ocorrido em 1930 a união contra o Governo Provisório, por meio da construção de idéias que procuravam denegrir a imagem do governo, apresentando argumentos que mostrava um poder ditatorial que atrasava o desenvolvimento econômico de São Paulo e do Brasil e por este motivo havia a necessidade da volta da constitucionalização do país e novas eleições, entretanto, é importante frisar que em 24 de março de 1932 Getúlio Vargas assinou a nova Lei Eleitoral e em 13 de maio foi formada uma comissão para elaborar o anteprojeto para a nova constituição, diante disso a pergunta que surge é o que motivou os paulistas pegarem em armas e não recuarem já que o seu principal pleito estava sendo atendido?

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Desse modo, para considerarmos o conflito de 1932 como uma Revolução, é imprescindível mudanças profundas na política e na estrutura sócio econômica do país, uma nova forma de governo e um novo começo através de um levante popular, ora mesmo a guerra paulista levando um notável número para os conflitos, mostrando um grande engajamento do povo paulista, não houve projetos políticos que visassem mudanças nas estruturas da sociedade. A busca pela nova constituição teve um viés burguês, o qual a pretensão principal dos partidos que se viram perdedores com a Revolução de 30 era a busca pelo o status perdido na tentativa de seu retorno ao poder.

Seria a revolução de 32 uma tentativa de contra revolução aos anos 30, no qual o interesse era a volta constitucional a legalidade constitucional à tomada de poder por Getulio em um paradoxo que envolveu as forças políticas dominantes que em busca de mudanças políticas apoiaram o golpe em 30, e em menos de 01 ano já estavam articulando em posições contrárias ao governo, ou poderia ser considerada ainda uma continuação desse movimento revolucionário que não satisfeitos com os rumos do novo governo sentem espoliados de seus direitos. Para Maria Helena Capelato (1981) considera 1932 um Movimento, no qual a classe dominante paulista se esforçara para retomar o poder que perdera em trinta e, também manter sob controle as demais classes sociais.

O termo Revolução por si só já causa arrepios pois provoca uma sensação de algo ruim que deverá ser corrigido através do uso da violência. No dicionário de Política de Noberto Bobbio, Revolução é a tentativa acompanhada do uso da violência, de derrubar as autoridades políticas existentes e de as assumir, a fim de efetuar profundas mudanças nas relações políticas no ordenamento jurídico constitucional e na esfera sócio econômica.

No entanto este termo foi empregado por muitos historiadores e principalmente por memorialistas que se apropriaram do conceito com vista a legitimar a causa paulista, dando ar de importância a guerra ocorrida em 32.

Jacob Corender argumenta que para acontecer uma revolução seria necessário uma profunda transformação que atingisse a base econômica da sociedade, instaurando novas relações de produção.

É importante que se perceba que o uso indiscriminado da definição do conceito Revolução apresenta visões diferentes dos historiadores, fazendo com que seja

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necessário reflexões historiográficas sobre o conceito através do olhar dos estudiosos sobre o tema.

Para Maria Helena Capelatto (1981), considera 1932 um movimento, no qual a classe dominante paulista se esforçara para tomar o poder que perdera em 1930, mantendo sob o controle as demais classes sociais. Já para o professor em História Holien Gonçalves Bezerra, o termo Revolução está corretamente empregado tanto para definir a Revolução de 30 quanto a de 32, pois para ele apesar de não ter havido modificações radicais na composição econômica, social e ideológica da sociedade brasileira, houve modificações importantes para o processo histórico brasileiro.

Já no texto de Angela Maria de Castro, o tema de 1932 é abordado como uma guerra civil, resultado de uma disputa política mais ampla que o Estado de São Paulo.

Para a autora a Guerra Civil teve como principal fator a Política Nacional de Centralização implementada pelo Governo Provisório no Estado Paulista.

O que se nota é que não existe consenso nas obras dedicadas ao tema em relação ao conceito Revolução, permanecendo assim em aberto, entretanto, é claro que o Movimento de 32 gerou uma grande comoção da sociedade que consciente ou manipulada expressaram através de embates violentos em todo o Estado de São Paulo 03 meses de Revolta armada.

O fato é que 1930 é considerado o marco que divide a História pondo fim a Velha Oligarquia e a politica café com leite que dominava a politica nacional com ações que privilegiavam um grupo em detrimento dos outros, porém tinhamos em 30 um governo legalmente eleito, que sofreu um golpe orquestrado por forças políticas que se uniram com objetivo de tomar o poder constituído. E em 1932, o descontentamento de um desses grupos políticos leva a arregimentação ideológica de outros grupos da sociedade a participarem do levante contra o Governo Provisório.

Um dos grupos interessados em ampliar seu poder politico e que teve papel fundamental no Levante de 1932, foi o Partido Democrático (PD), criado em 1926, após descontentamentos no interior do Partido Republicano Paulista (PRP). Apesar de muitos historiadores afirmarem que o PD não participou efetivamente na Revolução de 30, por não ter assumido seu papel revolucionário, enfatizo que o mesmo teve sua parcela de engajamento na construção dos elementos que levaram a derrubada do Presidente

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Washington Luiz em 30, e a partir dai escreve sua memória como um dos grupos principais da revolução de 32. Sendo assim se faz necessário realizar uma leitura rápida da participação do PD na Revolução de 30 e sua posterior participação na Revolução de 1932.

CONTEXTO E PROLOGO DE UM CONFLITO

Podemos dizer que o Levante de 1932, pode ter iniciado no caminho trilhado pelos comandantes da Revolução 30 para tomar o poder do governo Federal no Rio de Janeiro, pois as decisões do futuro governo teve início antes mesmo da deposição do governo de Washington Luiz, pois o grupo formado por militares como Osvaldo Aranha, João Alberto Lins de Barros, Miguel Costa, Mauricio Cardoso e Virgílio de Melo Franco, decidiram com aprovação de Getúlio nomear para interventor de São Paulo o nome do tenente João Alberto Lins de Barros, militar, nascido em Recife, que foi um dos líderes da Revolução de 1930, o que acabou sendo sacramentado após a posse de Getúlio à frente do governo Provisório. Esse fato causou um conflito com os participantes do Partido Democrático que esperavam a indicação de Francisco Morato, político civil e paulista, participante ativo nas articulações revolucionárias de 1930.

A partir desta indicação inicia-se uma crise política que levará ao Levante Constitucionalista de 1932, porém é importante descrever como foi construído este cenário de conchavos e acordos políticos que foram importantes para que a população de São Paulo se levantasse em armas contra o governo federal.

O processo que levou a construção do Levante de 32 vem muito antes da Revolução de 1930, pois analiso como um desenvolvimento de estruturação política da República na qual os alicerces democráticos estavam sendo construídos para uma parcela da população. Para muitos historiadores a Revolução de 30 foi uma ruptura neste processo. Para Vicentini, “ Revolução de 30 avança e engloba 29 e alcança 32”.

O processo revolucionário em 1930 se deu a fim de exterminar a República Velha que mantinha o revezamento no governo através dos Estados de São Paulo e Minas Gerais na famosa política café com Leite. Esse é o objetivo mais claro no qual uniu diferentes grupos contra uma política que já não poderia mais ser aceita devido a

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mudanças de mentalidades e mudanças no mundo do trabalho, entretanto ao analisar este fato vemos que São Paulo estava já quebrando as regras desta política.

No governo federal encontrava-se o presidente Washington Luíz que apesar de ter nascido no Rio de Janeiro era um político representante da oligarquia paulista. Ao indicar Julio Prestes como candidato a presidência, criou-se um motivo para que grupos distintos se unissem contra o governo Federal. Esse fato causou a criação da Aliança Liberal entre o Partido Republicano Mineiro, o Partido do Rio Grande do Sul e também o Partido Democrático Paulista que lançaram como candidato Getulio Vargas, tendo como vice João Pessoa da Paraíba. A união destes partidos com o apoio da ala revolucionária do exército apresentava um antagonismo nas articulações políticas que é contumaz neste país. Essa aliança fortaleceu a participação política dos representantes do movimento tenentista, que após o golpe de 30 foram indicados para vários cargos políticos de comando.

Segundo Boris Fausto, não se sabe ao certo o motivo pelo qual esses acordos foram quebrados talvez por intransigência de Wahington Luis ou a garantia que o governo teria na continuação da política de estabilidade por meio de um sucessor da confiança do PRP.

A aliança entre Estados tinha como intenção a renovação dos costumes políticos e restauração das práticas democráticas. Esse tipo de discurso, soa tão falso, quando trazemos para o debate que a pouco mais de 30 anos o país tinha saído da mão do Império, passou pela República das Espadas e logo em seguida para uma república oligárquica, que mantinham eleições fraudulentas para proteção exclusiva de uma elite,

"a cafeeira", ou seja, como falar em restauração democrática com uma política voltada exclusivamente para quem detinha o poder.

É importante deixar claro a participação do Partido Democrático na aliança com os revolucionários de 1930, pois ao ser criado, enfraquece o PRP, pois traz ao ambiente político uma nova discussão que vai além da política cafeeira, pois apesar da participação políticos vindo do PRP, são arregimentados novas pessoas advindas da classe média, como profissionais liberais, advogados, comerciantes, estudantes, lavradores, profissionais do comercio, entre outros que incorporaram em seu projeto político o tema "revolução" aliando-se aos revolucionários de 1930 que tinham o mesmo objetivo comum: a derrubada das oligarquias.

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Segundo Maria Helena Capelato o PD (Partido Democrático) foi criado em 1926, em consequência do descontentamento da política do PRP (Partido República Paulista) e apesar do apoio do PD à Revolução de 30, este não participou diretamente da tomada do poder, porém segundo o site do CPDOC partiu do PD as articulações para a criação da Aliança Liberal. Mesmo que não tenha participado ativamente, os participantes do partido receberam com entusiasmo o vitorioso golpe, já que seu interesse era na nova política que tinha sido acordada com os revolucionários.

Em tese os membros do PD acreditavam que haveria um processo democrático, onde eles poderiam disputar o poder com o PRP através das urnas mas para isso era necessário realizar aliança com grupos antagônicos a sua ideologia política, ou seja a aliança liberal englobava em suas fileiras o movimento tenentista que defendiam como proposta a idéia de centralização de poder e a luta contra a dominação dos Estados mais poderosos, entre eles, São Paulo, reduto do Partido Democrático.

É incrível como determinados grupos e fatos são marcados como objeto de memória e outros tendem a ser apagados, é o caso do Movimento tenentista, que tem sua memória preservada como marco histórico. Falo isso pois é notório que as Guerras e Revoluções são planejadas por vários grupos e esse é o caso da Revolução de 30, foram vários os grupos que se apresentaram com o temário a Revolução e entre eles estava, o Partido Democrático, o operariado e os tenentes que participaram massivamente no processo que desencadeou a Revolução de 30, entretanto nem todos tiveram sua memória preservada. Cabe aos historiadores uma pesquisa mais aprofundada destes grupos.

Para De Decca, o partido Democrático ao se aliar aos revolucionários, abre suas portas para demandas políticas de várias classes sociais tanto para setores da classe dominante como segmentos médios urbanos e o operariado, por esse motivo incorpora o tema Revolução como proposta política realizando um acordo entre vários grupos descontentes com a política do PRP, mas sem incorporar em seu debate propostas que possam polarizar idéias. E para o partido democrático o intuito era aproximação dos líderes revolucionários afim de ampliar as suas próprias bases partidárias que os levariam ao poder.

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Nesse sentido, chamo atenção para uma publicação do jornal "o combate", o qual abria espaço para vários grupos políticos se expressarem, dentre eles o Partido Democrático.

"Tem-se procurado indispor o Partido Democrático com os revolucionários brasileiros (...). Nem o Partido Democrático pode ser contra os revolucionários, uma vez que deles conta em sua direção e em suas fileiras numerosos elementos participantes do movimento verificado, nem pode como agremiação política organizada ser pela revolução (...). Se amanhã, porém, eu entender (...) que esta atitude é inútil, que é melhor entregar-me aos azares de um movimento armado, contra o poder constituído como único meio de salvar o Brasil, eu deixarei de ser democrata arregimentado, para ser ou voltar a ser revolucionário (...) Nada vejo de paridade entre uma coisa e putra.

Revolução é uma contigência a que tato pode ser levado um membro do Partido Democrático como um cidadão qualquer (...) Declaração de um membro do Partido Democrático para o Jornal "O Combate" em 07/02/1929. De Decca, - O Silencio dos vencidos.´

A disputa pelo poder político criou alianças improváveis entre o Partido Democrático e os Revolucionários que tinham em suas fileiras membros do movimento tenentista que defendiam a centralização do poder e a luta contra a dominação dos Estados mais poderosos. Em outras palavras, era incoerente o apoio do Partido Democrático aos Revolucionários de 30, pois as propostas desses dois grupos divergiam entre si, entretanto, como diz Decca, os membros do Partido não teriam oportunidade de derrotar nas urnas o PRP caso desistissem do Temário da Revolução.

Nesta perspectiva, apesar do Partido Democrático ter apoiado o lado que venceu em 30, no decorrer do processo de intervenção do governo provisório de Vargas, o Partido ao contrário do que era esperado não se viu inserido na nova política implantada pelo governo. Vargas permaneceu ao lado do movimento tenentista que se fortaleceu ao conquistar diversos cargos de intervenção a frente de vários Estados, inclusive teve início a criação das primeiras legiões revolucionárias que pretendiam dentre outras finalidades o afastamento das oligarquias que os apoiaram no golpe de 1930, além da aproximação com as camadas mais pobres da população.

Esse distanciamento do governo provisório criou um sentimento de frustração que acendeu a chama para uma nova rebelião, pois ao apoiarem os revolucionários,

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acreditavam que se manteriam no poder em São Paulo, entretanto o Estado de São Paulo perdeu sua autonomia em detrimento a centralização do poder pelo Governo Provisório.

Chamo a atenção novamente para o texto de Capelato, que escreve, "no projeto dos liberais paulistas, o progresso e a superação do atraso adiviam da autonomia e livre iniciativa dos Estados. No projeto do governo provisório privilegiava-se o papel do Estado como elemento impulsionador do progresso e por essa razão se defendia a centralização do poder".

O Partido Democrático ao dar seu apoio aos Revolucionários, colocava São Paulo na vala comum, perdendo privilégios e o controle das decisões. A alternativa para conseguir poder político foi entrar no processo e arriscar ganhar ou perder, e nesse caso a vitória não trouxe vantagens ao Partido e sim derrotas que os levaram a um outro processo de disputas que desencadeou a guerra entre irmãos da mesma Nação.

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA DE 1932

O termo revolução transcendeu o tempo e se imortalizou na história para constituir a memória coletiva da revolução de 1932. "A memória coletiva garante a continuidade do tempo e constitui elemento essencial da identidade, da percepção de si e dos outros"(Russo In Amado; Ferreira, Serrazes). Podemos notar em todo o Estado de São Paulo, especialmente na cidade de São Paulo, a construção desta memória através de várias referências ao Levante Constitucionalista de 1932, em espaços urbanos como nomes de Ruas, avenidas, monumentos, praças publicas, associações voltadas para a preservação de documentos, cartas, fotos, panfletos, materiais usados em batalhas por homens e mulheres, civis e militares que se voluntariaram no Levante que tinha como objetivo a derrubada do governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova constituição. Ainda podemos acrescentar que com o advento tecnológico essa preservação também é vista através de paginas criadas nas redes sociais com o intuito de estudo dos aspectos da revolução de 1932 ou simplesmente um caráter memorialista do Levante.

No artigo publicado por Rodrigues referências a nomes e fatos como 23 de maio, 09 de julho e MMDC se repetem em diversos logradouros e espaços urbanos de várias cidades espalhadas por São Paulo, corporificando referências que foram escolhidas repetidamente para serem preservadas. A sigla MMDC chama bastante atenção, pois se tornou um símbolo da revolução ao homenagear as vitimas que morreram no fatídico 23

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de maio, a partir das iniciais de seus nomes, a sigla se tornou o nome da associação que foi fundamental para manter o Levante pelos 03 meses de luta, pois o MMDC mantinha toda a parte logística e retaguarda distribuindo provisões, como suprimentos, munições, roupas, entre outros, porém o seu papel principal foi na cooptação de voluntários para a beligerância.

O MMDC é um daqueles movimentos que ultrapassam seu tempo, através da construção de um novo sentido para a sua existência e por meio de mudanças de pensamentos que buscou por meio de novas definições, atribuir um novo significado e um novo sentido para a data de 23 de maio de 1932. Rodrigues aborda esse aspecto em seu texto, quando analisa a passagem do acontecimento trágico, no qual morreram os 04

“jovens” para um momento de comemoração no qual se celebra o “feito glorioso” do povo heróico paulista.

A despeito deste fato em que o discurso do perdedor transforma uma derrota em uma vitória, imortalizou a Revolução Paulista, no qual o tema foi difundido por vários espaços urbanos e monumentos que encontram-se distribuídos em várias cidades do Estado de São Paulo e muitas cidades pelo interior.

Além disso, existem outras referências que fazem menção a Revolução de 32 por meio de uma literatura farta, com muitos livros, artigos e teses. A criação de datas comemorativas como o dia 23 de maio que comemora o dia do soldado constitucionalista e a data comemorativa do inicio do Levante em 09 de julho. A realização de condecorações de outorga de medalhas para os ex-combatentes com a criação da "medalha da constituição" instituída pela Resolução nº 330 de 1962 a qual homenageava veteranos de 32. Em 1981, a partir da Resolução 630 foi instituída a

"medalha do Cinquentenário da Revolução Constitucionalista de 1932" e em 20 de junho de 2011, foi criada a Lei Federal nº 12.430, a qual inscreve os nomes de Martins, Miragaia, Drauzio e Camargo no livro dos Heróis da Pátria.

Interessante destacar que a Assembléia Legislativa de São Paulo, outorgava a medalha aos ex-combatentes após a abertura de um processo no qual continha documentos que comprovassem a participação daquele combatente na Revolução. Esta documentação entregue a ALESP ao longo de todos esses anos foram catalogados e hoje fazem parte do Acervo Histórico da Assembléia Legislativa de São Paulo.

É possível considerar que a realidade atual em torno dos símbolos e locais que perpetuam a memória da Revolução de 1932 frente ao seu significado para a população paulista vem perdendo seu destaque de fazer jus a manter-se nos anais da historia como

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um levante digno de ter sua memória preservada, em virtude do próprio processo de esquecimento e transformação da sociedade. Assim, a pergunta que devemos realizar é quais aspectos significativos a Revolução de 32 representa para a população paulista em nossa conjuntura atual? É uma questão que deve ser pesquisada, pois as idéias mudam e tendem a serem redefinidas. O movimento de 32 tem sua memória distribuída por São Paulo, mas o paulista conhece seu significado? Em contrapartida, nos últimos anos temos notado uma grande participação de Agentes da Segurança Publica nas comemorações que tentam preservar a Memória da Revolução por meio da realização de desfiles que comemoram o início do levante, ou por intermédio de alguns memorialistas que tentam preservar essa memória.

É importante ressaltar que as comemorações do Levante por parte dos Agentes da Segurança Publica refletem um outro significado da preservação da Memória, pois em 1932 a antiga Força Publica teve um papel fundamental na liderança e estratégia de guerra, através de um grande contingente de soldados, então a preservação desta memória vem de encontro com a questão da preservação de grandes atos heróicos realizados por agentes da Segurança por meio de um projeto institucional.

A história deve esclarecer a memória e ajudá-la a retificar os seus erros (Le Goff, P. 13). Em se tratando da Revolução de 1932, essa frase de Le Goff, me faz pensar que a historia deve ir muito além de corrigir erros históricos, mas principalmente de descobrir vários elementos que permaneceram ocultos durante este processo, portanto, considerando que a Revolução de 1932 e a construção de sua memória não expressam todos os elementos que levaram a este conflito, se faz necessário buscar na história como se deu esse processo e quais mecanismos foram utilizados para a criação de uma memória que exalta alguns fatos e silência outros.

De acordo com Bezerra, "a Revolução de 1932 é um movimento privilegiado do processo de relações de classe no Brasil, onde aparecem com bastante clareza os mecanismos de dominação de uma classe sobre o conjunto da sociedade” (Bezerra, 1988:26). A História nos revela que o mundo foi construído por homens que lutavam por glória e poder em detrimento ao grande contingente de pessoas. Com a derrubada da Monarquia e a Proclamação da Republica acentuou essa disputa pelo poder político e pela possibilidade de alguns grupos de se manterem no domínio da máquina do Estado.

A Revolução de 1932 foi esta tentativa da manutenção deste poder político que foi perdido com a Revolução de 30.

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Nesta linha de pensamento Vavy Pacheco escreve em seu livro. "Depois de outubro de 30, todos os políticos paulistas ficaram sem o poder e sus benesses, sem empregos, sem posições, sem imunidades e, sobretudo, ameaçados de não recuperar isso tudo. ( Pacheco, pag. 68).

No decorrer da história das sociedades, a memória coletiva é usada como instrumento de poder usurpado pelas elites ou por grupos dominantes de uma sociedade, os quais manipulam essa memória para silenciar um fato ou valorizar outro, causando uma dificuldade interpretativa na compreensão entre os fatos históricos e a construção da memória. O pós-Revolução de 1932 apresentou em seu farto material de memória essa premissa, na qual a memória do perdedor foi supervalorizada com o intuito da preservação de um grupo revolucionário que buscava valorização da sua luta ideológica dominante em detrimento a uma realidade social a qual não sofreu mudanças significativas para a melhoria da questão social em que viviam os demais grupos.

Assim é importante destacar a importância da construção da memória onde todos os elementos e aspectos que circundam um fato histórico é muito mais importante do que o próprio fato histórico. A construção desta memória com todos seus aspectos, fatos e características são importantes no processo da construção da identidade de um povo, na medida em que seria por meio da memória individual e coletiva que se consegue conservar informações importantes para a preservação do passado de uma sociedade.

A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva é não somente uma conquista é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória (LE GOFF, 2013, p.435)

Ao pensarmos hoje em Revolução Constitucionalista verificamos uma memória superficial dos acontecimentos ocorridos em 1932 em São Paulo. Embora não possamos generalizar, é perceptível que o Mito da Luta pela Constituição e a Ditadura foram temas recorrentes nos discursos promovidos pela elite e que permaneceram durante os

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confrontos e se mantém na preservação da memória da História da Revolução de 32 estando intrinsecamente ligada as memórias espalhadas pelos espaços destinados a guardar estes elementos históricos, como os museus que em parte mantém em exposição materiais desta memória que muitas vezes reproduzem e legitimam uma memória genérica do fato histórico. A contradição em relação ao discurso do perdedor é legitimado em parte pela aprovação da constituição logo após o Levante, entretanto o discurso da constituinte acaba caindo por terra quando não podemos esquecer a promessa de elaboração de uma nova constituição já estava em andamento pelo governo provisório.

A construção da memória reverbera os grandes feitos, faz parte da criação da identidade de um povo e os paulistas simplesmente ressignificaram este momento. São Paulo não foi simplesmente levado ao Levante, pois desde 1929 o Estado passava por dificuldades sociais, políticas e econômicas, foi implantado no seio da sociedade através das rádios, dos jornais e dos oradores um discurso contra o governo justificando e legitimando uma guerra. Os paulistas se sentiam humilhados com a Revolução de 30 e usurpados pelos tenentes a liderança de São Paulo, ou seja, a Guerra perdida teve um novo significado: Um povo heróico que lutou contra a opressão de Getúlio.

O apelo a Constituição foi substancial e permanece como símbolo desta memória de 32, lembrando que a própria Revolução ganhou o nome de Revolução Constitucionalista ou Movimento Constitucionalista, devido a busca pela constitucionalização. São Paulo se apropriou deste tema como verdadeiro marco legitimador da Revolução. A necessidade de uma Assembléia Constituinte era genérica

"sem maiores explicações ou justificativas" (Bezerra, pag. 76), os discursos que tinham como objetivo motivar a população apresentava a Constituição como garantia que o Brasil sairia da crise. "São Paulo não pegou em armas para combater seus queridos irmãos de outros Estados nem para praticar a loucura de separar-se do Brasil, mas unicamente para apressar a volta do país ao Regime Constitucional". (Dom Duarte Leopoldo Silva, arcebispo de São Paulo).

Nesse sentido é interessante o estudo de Bezerra sobre as obras publicadas sobre a Revolução de 32, no qual ele analisa a partir das temáticas principais de cada obra, os termos mais utilizados nos estudos sobre o tema, sendo possível constatar que o objeto Constituinte, constituição, Estado de Direito é a temática mais frequente expressada pelos autores em suas obras analisadas.

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A História da elite brasileira é marcada de contradições, pois em certo momento defendeu a Constituição com a necessidade de um legalismo e o retorno a ordem em 32, em outro, especificamente em 1935 apoiaram Getúlio na promulgação da Lei de Segurança Nacional e o Estado de Sítio em 1937. É incrível que as vantagens pessoais sempre vêem a frente das necessidades dos cidadãos, pois em 1934 a elite paulista se encontrava em posição mais privilegiada economicamente e o medo da ascensão das classes sociais mais baixas "ameaçavam a ordem e estabilidade da nação". Bezerra, pag.

86). Nesse sentido, o que percebemos é que nossos líderes revolucionários que lutavam por uma causa nobre, democrática e de liberdade, simplesmente lutam por uma causa própria e acaba levando a população de roldão.

A participação paulista no Levante de 32 teve um grande número de voluntários que se alistaram para a frente de batalha, sendo a mola propulsora dos combates, porém para muitos historiadores mesmo com o grande numero de alistamento, não houve unanimidade do povo paulista nas batalhas. Segundo Florentino de Carvalho, muitos voluntários se alistaram por estarem desempregados, sendo a frente de batalha, a forma de garantir sustento para a família.

A memória coletiva é usada por diversos grupos de indivíduos com propósito de dominar uma sociedade através do poder. Esses grupos apropriam-se da memória como forma de dominação sobre as demais classes, causando muitas vezes o esquecimento proposital de fatos, personagens, a pluralidade de idéias entre outras referencias que fizeram parte desta história e que devido a mecanismo que manipulam o processo de construção de memória vários grupos são usurpados e esquecidos neste processo revolucionário.

Pensando nisso, considerei trazer para a discussão alguns grupos que tiveram sua participação silenciada durante o processo de construção da memória da Revolução de 32. A Frente Negra é um desses grupos sociais, que podemos dizer que fizeram parte do levante, porém foram esquecidos pela historiografia pós-revolução e por não serem considerados parte de uma elite paulista bandeirante permaneceram fora das homenagens ou comemorações da Revolução de 1932. A Legião Negra foi uma dissidência da "Frente Negra Brasileira", que por ter sua sede em São Paulo e ser um grupo apoiador de Getulio Vargas permaneceram neutros no conflito, entretanto, uma parcela do grupo se uniu em apoio aos Paulistas, através da liderança de Joaquim Guaraná Santana e Gastão Goulart.

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A participação da Frente Negra foi notória para a época, pelo seu numero expressivo de combatentes. Segundo Domingues, foram mais de 2 mil (dois mil) voluntários distribuídos em 03 batalhões de infantaria, além dos combatentes que encontravam-se incluídos nas demais fileiras do Exército e Força Pública, perfazendo um total de mais 10000 mil (dez mil) negros na Revolução. Os batalhões da Frente negra eram noticiados e valorizados pela mídia jornalística da época, onde os artigos descreviam os soldados negros como "heróis, pelejando pelo ideal da sua raça que é, ao mesmo tempo, o ideal de seu país". A Folha da Noite, São Paulo, 30.07.1932, pa. 01 (1ª edição)

A grandiosa participação da comunidade negra, não foi capaz de influenciar a historiografia Brasileira em preservar a memória da participação dos voluntários negros no Levante em busca da constitucionalização do país.

"Provavelmente um dos mais desconhecidos, silenciado e menos estudados aspectos da guerra civil de 1932 seja a grande mobilização e intensa participação da comunidade negra de São Paulo". Jeziel de Paula, 1932 Imagens construindo a história, 1998.

A sociedade paulista de 1932 era extremamente racista e excludente, usando por meio de seu circulo social a difusão de teorias que defendiam a idéia de inferioridade biológica do negro. A comunidade negra desde o fim da escravidão buscou fazer parte da sociedade como cidadãos através da participação de organizações e associações que tinham o objetivo a busca de direitos sociais, civis e políticos.

A importância da participação da comunidade negra na Revolução deve-se além da ideologia pela luta da liberdade e pela opressão, também a luta pela inserção desta população como cidadãos de fato na sociedade paulista, dessa forma, a revolta paulista apresentou um aspecto importante para a comunidade negra, a de inserção na identidade paulista elevando a moral desse grupo frente ao racismo e o preconceito da sociedade.

O inicio da Revolução exacerbou a idéia do mito do Bandeirante, no qual todo paulista traz em seu sangue o heroísmo dos bandeirantes que desbravaram o Brasil. Esse mito era extremamente utilizado nas campanhas que buscavam convencer a população a se voluntariarem nos campos de batalhas, tanto homens brancos, quanto negros a lutarem contra a Ditadura. Essa personificação na figura dos bandeirantes aponta para um paulista patriótico, revelando muitas vezes um sentimento regional de superioridade dos paulistas ao restante do país. A construção da imagem do bandeirante foi utilizada

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de várias formas como um símbolo do povo paulista que até os dias de hoje reverbera como povo bandeirante.

Capelato traz uma reflexão sobre os discursos realizados para convencimento do povo paulista. "... os bandeirantes não eram apresentados como símbolo dos representantes tradicionais paulistas (os "paulistas de 400 anos, descendentes de Fernão Dias"). Essa versão, sempre presente na literatura, se revestia agora de uma conotação.

"Bandeirantes era todo Paulista que se dispusesse a partir para a luta". pag. 40. ou seja, devido ao momento de Guerra tantos negros, quanto brancos ou imigrantes eram considerados o povo bandeirante, pois era este povo que iria engrossar as fileiras dos voluntários para a beligerância, mas esses cidadãos foram dignos de terem suas memórias preservadas no pós 32?

A exclusão do Negro na sociedade de 1932 é factível de entendimento, pois é preciso analisar o pensamento e as teorias que eram difundidas na época. O fim da escravidão foi o começo da luta de um povo que foi terrivelmente explorado e violentado por séculos. É inimaginável o terror pelo qual a comunidade negra passou assim como outros povos no decorrer da História Mundial, porém é preciso trazer essa memória a luz da Contemporaneidade. Por mais que encontramos ainda atitudes excludentes e preconceituosas o ser humano em geral foi capaz de evoluir através de novas idéias que tentam coibir qualquer tipo de discriminação devido a cor, raça, sexo e religião, porém ainda assim, vemos muitas lacunas na história em relação a participação negra na Revolução de 1932.

Cabe a historiografia preencher essa lacuna e trazer para os Anais da História a participação da comunidade negra no Levante Paulista de 1932, como um grupo que tem sua própria identidade cultural e que deve ser preservada pelo seu engajamento social na luta pelo seu reconhecimento como cidadão paulista e brasileiro.

Com o fim do conflito, a fome e a miséria continuou para esses grupos excluídos da sociedade. As forças que estavam unidas durante os conflitos se dissiparam votando- se ao estado quó anterior. As associações de ajuda aos feridos e ao familiares dos combatentes mortos aos poucos deixaram de existir e a preocupação girou em torno da construção da memória que enaltecesse o "heroísmo paulista", na tentativa de apagar a derrota frustrante da elite política paulista.

É notável como os episódios revolucionários no Brasil estão associados a busca de poder e dominação, mas não podermos esquecer que a legitimação de uma revolução

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vem da participação de todas as classes sociais, entretanto a revolução de 32 é um desses episódios em que alguns grupos são excluídos deste processo."Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva"(Le Goff).

Igualmente a classe operária levando em consideração o tratamento secundário em que a historiografia trabalha sua questão deve fazer parte deste processo, pois a luta operária precede a revolução de 32, fazendo parte do projeto político que foi silenciado a parti da revolução de 30. É importante seu estudo pois a memória histórica não pode permanecer engessada nos aspectos heróicos apresentados pelos memorialistas da causa da constitucionalização.

No texto de Edgar Salvadori de Decca, ao fazer uma analise da classe operária no Pré-30, destaca que a estratégia burguesa foi usar a classe operária em 30 como símbolo de uma revolução, entretanto, oculta a luta da classe operária mediante um discurso manipulador apresentando aspectos que tentam homogeneizar a luta de todos os cidadãos, como se a causa constituinte ultrapassasse todas as diferenças entre as classes. Em 32 o discurso da elite dominante é muito parecido e generalizante trazendo uma cidade de São Paulo unida em torno de um único objetivo, a constitucionalização, escondendo em seu discurso o interesse próprio da classe dominante a qual não via espaço para a classe operária.

É importante dizer que segundo Capelato o ano de 1932, foi o ano em que mais ocorreram greves na década de 30. A organização operária era violentamente reprimida, na maioria das vezes com demissões e prisões dos manifestantes. O medo da organização dos operários, da proletarização e do comunismo assustava a elite paulista.

Após o Golpe de 30, os tenentes ocuparam vários espaços de poder no país, deixando os políticos conservadores do PD em 2º plano. O processo de aproximação de interventoria militar com as classes menos populares, a intervenção de Getúlio Vargas no mercado de trabalho a qual procurava atender reivindicações do projeto da classe operaria causavam preocupação na classe conservadora, principalmente com seus representantes dos PD e PRP. O medo da conscientização política e organizada das massas, fez surgir à aproximação da classe dominante com a classe média e a posterior rejeição da classe operária.

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A Memória da Revolução de 32 é marcada por um obscurantismo em relação à conjuntura que se encontrava São Paulo no inicio da década de 30, desta forma podemos verificar em Capelatto como a historiografia analisa a Revolução de 32 [...A luta de classes esteve reduzida a crise das oligarquias e a Ação do movimento Tenentista. A Revolução Constitucionalista de 32 foi entendida como a continuação da luta entre esses dois agentes sociais...] ou seja, para preservar a Memória dos Agentes Paulistas, a historiografia do período pós 1932 considera somente a luta entre dois setores da sociedade, a oligarquia paulista e os tenentes.

No final da década de 20 em São Paulo, o mundo do trabalho mantinha sua precarização de mão de obra que era visto através do grande excedente da força de trabalho, a baixa remuneração exercida pelos proprietários das fábricas, ausência de leis que regulamentasse as relações trabalhistas, o uso da mão de obra feminina e infantil, a qual era utilizada como mão de obra reserva. Essa precariedade no mundo dos trabalhos principalmente nas fábricas têxteis fez crescer muito as greves que eram combatidas muitas vezes com demissões em massa e prisões.

Segundo Barbosa, apesar de São Paulo ter avançado em termos sócio- econômicos no mercado de trabalho no período anterior a 30, o que se viu por outro lado foram os baixos salários, insegurança ocupacional e magnitude expressiva do setor não organizado, em outras palavras, São Paulo passava por uma grave crise percebida principalmente na queda dos salários dos operários. A grave situação econômica leva a classe operária se organizar em busca de melhorias através de reivindicações que se intensificavam.

Segundo Holien, durante a revolução de 1932, a repressão em relação ao movimento operário é extremamente violento sendo que a partir de junho daquele ano não há registros de greves nem movimento contestatórios.

É importante registrar que a partir de 30, o governo provisório organiza o mundo do trabalho, através da criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que teve como objetivo regulamentar e fiscalizar as relações de trabalho no país, o qual criou um conjunto de direitos aos trabalhadores e a legalização da atividade sindical, restringindo a liberdade de organização e a autonomia dos trabalhadores.

Debater a memória de 1932 é inegavelmente estabelecer uma dinâmica profunda de entendimento das correlações de forças que se desenvolviam entre diferentes grupos sociais, pois como já discutido em Capelato esse período político que desencadeou a

"Revolução Constitucionalista" vai além das crises oligárquicas e tenentistas. Os

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aspectos econômicos, políticos e sociais devem sempre fazer parte da análise da Revolução de 32, assim como o envolvimento de diferentes grupos sociais, pois a memória não deve permanecer somente no campo das comemorações dos feitos heróicos.

BIBLIOGRAFIA

CAPELATO, Maria Helena Rolim. O movimento de 1932: a causa paulista. São Paulo:

Brasiliense, 1981.

SERRAZES, Karina Elizabeth. História e Memória do Movimento Constitucionalista de 1932 em São Paulo: caminhos da pesquisa e do ensino

CARRERI, Marcio Luiz. Marco Zero da Identidade e da violência: conflitos entre memória e historiografia sobra a guerra de 1932 em São Paulo. ANPU-BRASIL – 30º Simpósio Nacional de História – Recife, 2019.

RODRIGUES, João Paulo. Levante Paulista de 1932: Entre os dominios da memória e os (Des) caminhos da História.

Borges,Vavy Pacheco. Memória Paulista – São Paulo 1997.

BEZERRA, Holien Gonçalves Bezerra. O jogo do Poder- Revolução Paulista de 32 – São Paulo, 1988.

De Paula, Jeziel, 1932 - Imagens construindo a história, 1998.

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Referências

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