U
NIVERSIDADE
C
ATÓLICA DE
B
RASÍLIA
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO
STRICTO SENSU
EM PSICOLOGIA
MESTRADO
A PARTICIPAÇÃO DA PRÁTICA DA CAPOEIRA NO
PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
ADOLESCENTE
Autora: Yara Camargo Cordeiro
Orientadora: Carmen Jansen de Cárdenas
ii
YARA CAMARGO CORDEIRO
A PARTICIPAÇÃO DA PRÁTICA DA CAPOEIRA NO
PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
ADOLESCENTE
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós Graduação
Stricto Sensu
em
Psicologia na Universidade Católica de
Brasília, como requisito à obtenção do grau
de Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profª. Drª. Carmen Jansen de
Cárdenas
iii
TERMO DE APROVAÇÃO
YARA CAMARGO CORDEIRO
A PARTICIPAÇÃO DA PRÁTICA DA CAPOEIRA NO
PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE
ADOLESCENTE
Dissertação de Mestrado defendida e aprovada como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre do Programa de Pós Graduação
stricto sensu
em Psicologia, Universidade Católica de Brasília, em 06 de
agosto de 2007, pela banca examinadora constituída por:
______________________________________
Carmen Jansen de Cárdenas
Orientadora - UCB
______________________________________
Sandra Francesca Conte de Almeida
Examinadora
-
-
UCB
______________________________________
Luiz Renato Vieira
Examinador
-
-
Senado Federal
______________________________________
Maria Alexina Ribeiro
Suplente
-
-
UCB
iv
v
AGRADECIMENTOS
Agradeço a minha família pelo suporte, em especial à minha mãe
pelas inúmeras revisões de texto.
Aos alunos pelas horas dispensadas nos encontros que viabilizaram
esta pesquisa.
À minha orientadora, Professora Doutora Carmen Jansen de
Cárdenas, não apenas pela orientação no trabalho, mas pela atenção
dispensada e ensinamentos valiosos ao longo da convivência propiciada por
este estudo.
Ao Mestre Luiz Renato pela confiança de sempre nas minhas
jornadas pesquisando a capoeira.
Às professoras Doutoras Sandra Francesca Conte de Almeida e
Maria Alexina Ribeiro pela atenciosa disponibilidade de avaliar e orientar
este trabalho.
vi
“Na roda eu sou gigante
Nesse mundo eu sou poeira
Tento fazer minha história
Por isso eu jogo capoeira
Ela é minha escola
Capoeira não pode parar
Capoeira não pode morrer
É a tradição do meu povo
E sem ela não posso viver”
vii
SUMÁRIO
S
S
U
U
M
M
Á
Á
R
R
I
I
O
O
RESUMO ... 01
ABSTRACT ... 02
APRESENTAÇÃO ... 03
O PROBLEMA ... 03
JUSTIFICATIVA ... 04
OBJETIVO GERAL ... 09
OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 09
CAPÍTULO I - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A ADOLESCÊNCIA ... 10
Breve Histórico ... 10
Descrição ... 12
A IDENTIDADE NA ADOLESCÊNCIA ... 19
Erik Erikson – a crise da identidade ... 19
O grupo, os pares, a cultura ... 34
A Identidade cultural ... 38
A CAPOEIRA ... 40
O que a define como cultura ... 40
O ethos capoeirístico ... 45
CAPÍTULO II – DELINEAMENTO METODOLÓGICO Delineamento metodológico ... 50
viii
• Instrumentos ... 54
• Análise de conteúdo ... 58
• O ALCEST ... 58
CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS Análise dos dados obtidos nos questionários ... 66
Análise dos dados obtidos nos encontros de grupo focal e entrevistas complementares ... 77
Discussão dos resultados ... 86
CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 93
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 99
1
RESUMO
Este é um estudo sobre a constituição da identidade do adolescente e sua relação
com a prática da capoeira. Procura analisar como a capoeira participa da constituição de
identidade do adolescente que vive um processo de transição de uma identidade infantil
para uma identidade adulta, o que muitas vezes se dá por meio de um processo de crise.
A fundamentação para a compreensão desta crise em busca da constituição de
identidade foi feita por meio da teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson.
O estudo apresenta uma visão histórica do conceito de adolescência, sua
descrição, sua relação com a crise de identidade e a sua relação com o grupo, a cultura e
os pares, bem como com a identidade cultural. Em seguida é feita uma explanação do
universo capoeirístico, como a capoeira se constitui um elemento cultural e como se
estrutura o seu ethos.
Foi realizada uma pesquisa com adolescentes, praticantes de capoeira, por meio
de questinários, encontros de grupo focal e entrevistas individuais, visando verificar
como e se estes adolescentes percebiam alguma participação da capoeira na sua forma
de ser e se posicionar.
Os dados obtidos apontam para a importância da família e dos amigos na
formação de crenças e valores do adolescente, bem como na definição de seus projetos
futuros. Também indicam uma participação da capoeira na constituição identitária dos
adolescentes, por oferecer a este adolescente uma gama de referenciais culturais,
valores, regras e referencial de grupo, além de ressaltar o papel do professor na
definição dos valores da capoeira que serão incorporados pelos alunos.
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ABSTRACT
The present work is a study of the constitution of the adolescent’s identity and
its relationship with the practice of capoeira. It analyzes how capoeira plays a role in the
adolescent’s identity constitution while he or she undergoes a moment of crisis during
the transition from child identity to adult identity. The framework for understanding this
crisis was Erik Erikson’s theory of Psychosocial Development.
The study presents a historical view of the concept of adolescence: its
description, relationship with the identity crisis and with the adolescent’s group, culture,
peers and cultural identity. Furthermore, the study undertakes an explanation of
capoeira’s universe, how it can be understood as a culture and how the capoeira ethos is
structured.
A survey was realized among adolescentes, who practice capoeira, with the
intend of verifying their point of view about how and if capoeria influence their lives.
The data obtained indicates the importance of family and friends in the
construction of the adolescent’s values and beliefs, as well as in his or her projects for
the future. It also indicates that capoeira may play an important role in identity
constitution and underlines the role of the teacher selecting precisely which among
several capoeira values are to be assimilated by students.
APRESENTAÇÃO
Este estudo parte inicialmente da questão de como a prática da capoeira participa
no processo de estruturação da identidade dos praticantes adolescentes.
Inicialmente será apresentado mais detalhadamente o problema de estudo, sua
relevância e os objetivos deste trabalho. Em seguida, um esclarecimento geral sobre a
adolescência, quando esta fase do desenvolvimento passa a ser entendida como uma
etapa distinta da infância e da vida adulta e em que ela se consiste e, mais
especificamente, como se dá a crise de identidade desta fase segundo a teoria de Erik
Erikson. Será também apresentado o que se entende, neste trabalho, pelo “ethos
capoeirístico”, o “campo” segundo Bourdieu (1998) no qual o adolescente praticante de
capoeira se percebe inserido, campo este que, acredita-se, pode exercer uma grande
influência na transição dessa crise de identidade do adolescente.
O capítulo II apresenta o método, procedimentos, instrumentos utilizados para a
verificação da questão levantada. Em seguida, são analisados e discutidos os dados
obtidos.
Por fim, no último capítulo, são apresentadas as considerações finais deste
trabalho.
O PROBLEMA
As crises atravessadas pelos adolescentes na transição do papel infantil para o
papel adulto, a forma como solucionam estas crises, bem como a riqueza cultural trazida
pela capoeira à constituição da identidade destes jovens, apoiam-se em referenciais de
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processo de estruturação da identidade dos praticantes adolescentes. Esta é a
investigação pretendida com este trabalho.
JUSTIFICATIVA
A relação desenvolvimento psicossocial - capoeira é uma relação ainda pouco
explorada. Os relatos iniciais sobre esta arte limitavam-se a descrições sobre seu caráter
exótico por parte de jornalistas e folcloristas. Recentemente começaram a aparecer
estudos que ultrapassavam a mera descrição desta prática. Um trabalho clássico e
pioneiro foi o livro Capoeira angola: um ensaio sócio-etnográfico de Waldeloir Rego,
publicado em 1968, que discute as origens da capoeira, se africanas ou brasileiras, suas
tradições e rituais. Outros trabalhos foram lançados posteriormente, mas quase todos
trazem um enfoque na história ou didática do ensino da capoeira.
Uma relação pouco estudada e, ao mesmo tempo, instigante pede que estudos
sejam feitos, uma vez que a capoeira, por sua complexidade - esporte, arte, cultura,
folclore, entre outras características - pode assumir um valor significativo na vida de
seus praticantes.
A capoeira envolve o praticante, emociona, cativa,
empolga. Ela o convida, quase que invariavelmente, a
experimentá-la. Junto com este experimentar
descompromissado da capoeira, mesmo sendo ele muitas
vezes substituído por uma valorização da performance, o
aluno acabará por vivenciar a corporeidade, a ritmicidade,
a consciência de si, do outro e principalmente de como
Acredita-se na importância de se explorar esta relação, exploração iniciada em
trabalhos anteriormente realizados e publicados pela pesquisadora - Capoeira e
auto-estima (1998)1, e Capoeira e Desenvolvimento (2005)2 - que ainda permite infinitos
caminhos, os quais podem fornecer subsídios para trabalho de educadores, psicólogos e
capoeiristas. “Na ampla vivência corporal e psicológica propiciada pela prática da
capoeira, a criança terá condições de se experimentar, conhecer-se, descobrir-se capaz e,
portanto, passará a estabelecer uma relação mais satisfatória consigo e com o mundo”
(Cordeiro, 1998: 29).
O indivíduo é um todo, único, que incorpora e reflete em seu arsenal
comportamental as influências das experiências vividas.
Assim como o indivíduo reflete na sua personalidade e
identidade aquilo que fez parte, significativamente, de seu
desenvolvimento, o capoeirista reflete as experiências e
influências sofridas, durante a aprendizagem da capoeira,
no seu arsenal comportamental, não apenas capoeirístico,
como na vida, visto que não é possível dividir a pessoa em
compartimentos isolados. Todas as atividades nas quais se
engaja, direta ou indiretamente, moldam seu jeito de ser.
(Cordeiro, 2003: 127).
Ao se definir o público adolescente como autores/atores da pesquisa, é
importante compreender que o processo de desenvolvimento do adolescente não se
esgota na maturação fisiológica. Além destes níveis, devem ser considerados os
1
Este trabalho apresenta uma discussão da forma pela qual a capoeira pode ser utilizada como um valioso recurso pedagógico na estruturação de uma boa auto-estima dos seus praticantes.
2
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“múltiplos aspectos da interação dialética que compromete sujeito/grupo social,
concretizadas numa organização histórico-cultural, interação esta que vai impregnar
todo o seu desenvolvimento” (Cardenas, 2000:9)
A construção da identidade pessoal, como afirma Schoen-Ferreira (2003) “é
considerada a tarefa mais importante da adolescência, o passo crucial da transformação
do adolescente em adulto produtivo e maduro” (p. 107).
Para Erikson (1968 / 1987) “Só com a adolescência o indivíduo desenvolve os
requisitos preliminares de crescimento fisiológico, amadurecimento mental e
responsabilidade social para experimentar e atravessar a crise de identidade” (p. 90).
Ainda segundo Schoen-Ferreira (2003):
a formação da identidade recebe a influência de fatores
intrapessoais (as capacidades inatas do indivíduo e as
características adquiridas da personalidade), de fatores
interpessoais (identificações com outras pessoas) e de
fatores culturais (valores sociais a que uma pessoa está
exposta, tanto globais quanto comunitários).(p. 107).
Portanto, analisando o desenvolvimento por uma ótica psicossocial entende-se
que é da conjunção de aspectos psicológicos, relacionais e culturais que a personalidade
e um senso de identidade se estruturam. Fadiman & Frager (2004) apresentam quatro
pontos ressaltados por Erikson desta composição social da identidade:
1 – O desenvolvimento de um senso de identidade no indivíduo baseia-se, em parte, na
crença da uniformidade e continuidade de visão de mundo compartilhada com outros.
2 – Embora muitos aspectos da busca da identidade sejam conscientes, a motivação
3 – Um senso de identidade não se desenvolve sem algumas precondições tanto físicas
como mentais e sociais.
4 – O desenvolvimento do senso de identidade correlaciona-se com o passado, o
presente e o futuro do indivíduo.
A falta de um sentimento de identidade pode gerar no indivíduo uma hostilidade
contra valores e metas sociais do contexto no qual ele está inserido. Compreender o
processo de desenvolvimento, suas implicações psicológicas e sociais, pode permitir
uma melhor instrumentalização na orientação dos jovens em processo de estruturação
de sua identidade.
No período da adolescência, o contato com os pares, o convívio social tem papel
fundamental na constituição da personalidade do adolescente. A escola ocupa a maior
parte da rotina dos jovens, exercendo um papel fundamental na sua formação.
Entretanto sua vida social é ampliada pelas demais atividades as quais ele opta por
praticar. Muitas vezes estas atividades extra-curriculares, por representarem uma opção,
não um obrigatoriedade como é a freqüência a uma instituição escolar, podem implicar
em uma maior intensidade nas relações sociais estabelecidas dentro deste contexto e,
com isso, assumirem, assim como a escola, um papel relevante na constituição da
identidade dos adolescentes.
A capoeira tem tido uma divulgação cada vez maior e uma inserção em diversos
campos da sociedade, tais como: academias, clubes, escolas, universidades e projetos
sociais. A quantidade de pessoas praticantes tem aumentado nos últimos anos de forma
considerável. Segundo matéria publicada na Revista Veja de 7 de Setembro de 2005, a
capoeira tem no Brasil seis milhões de praticantes, sendo o esporte marcial mais
_____________________________________________________________________________________
juntos, o que ressalta a importância da compreensão deste universo peculiar e suas
possibilidades.
A inserção da capoeira em diversos contextos não se limita ao Brasil, seu país de
origem. Ela tem sido aceita em todo o mundo como uma atividade que desperta
interesse, cativa e conquista o praticante. Esta expansão pôde ser comprovada por
ocasião dos V Jogos Mundiais da Associação Brasileira de Apoio e Desenvolvimento
da Arte Capoeira – ABADA-CAPOEIRA, que reuniu, conforme o jornal da própria
Associação publicado em setembro de 2005, além dos brasileiros, capoeiristas de 35
(trinta e cinco) países dos cinco continentes, onde a Associação mantém trabalhos
regulares.
O processo de desenvolvimento humano, em especial a fase da adolescência, é
também, simultaneamente, cultural e universal, o que justifica buscar compreender de
que forma e se o ethos capoeirístico pode fornecer elementos que venham a participar
do processo de transição da fase infantil para a fase adulta em adolescentes praticantes
de capoeira.
A inserção da capoeira em projetos sociais que visam o resgate da cidadania e da
integridade de adolescentes que enfrentam adversidades no seu contexto sócio-cultural
tem sido freqüente. Como afirma Pedro Adib (2004), professor da Faculdade de
Educação da UFBA e doutor em Ciências Sociais aplicadas à Educação pela
UNICAMP:
em grande parte dos projetos de educação não-formal
desenvolvidos pelos mais diversos tipos de instituições em
nosso país, voltados para as populações de baixa renda, a
maior receptividade por parte desse público de crianças e
jovens marginalizados.
Nestes casos, a capoeira é utilizada como instrumento de apoio no resgate de
valores éticos, morais e culturais dos adolescentes integrantes deste tipo de projeto.
Adib (2004) ressalta que essas atividades educacionais atingem resultados
“considerados excelentes na opinião da maioria de pedagogos e arte-educadores
envolvidos nesses processos, pois permitem que sejam trabalhados valores como a
auto-estima, o respeito pelo outro, a solidariedade e a auto-superação entre outros
benefícios.”
Conhecer os mecanismos desta prática para auxiliar numa construção de
identidade cidadã destes adolescentes torna-se importante para aqueles que dela se
utilizam ou que com ela trabalham.
OBJETIVO GERAL
Investigar a relação entre a prática da capoeira e o processo de constituição da
identidade do praticante adolescente.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Analisar o processo de constituição da identidade no adolescente
Identificar os componentes culturais fornecidos pela capoeira e que participam
da constituição da identidade do adolescente
Fundamentação Teórica
_____________________________________________________________________________________
CAPÍTULO I - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A ADOLESCÊNCIA
Breve Histórico
A adolescência, como entendidaem nossa sociedade atualmente, embora pareça
inquestionável, universal e sempre existente, destacando um período da vida
compreendido entre a infância e a idade adulta, marcado por diversas e importantes
mudanças fisiológicas, é também representada por uma série de particularidades
culturalmente constituídas.
Durante a idade média, etapas iniciais do desenvolvimento não eram
reconhecidas pela sociedade. De um período de fragilidade infantil, os indivíduos
passavam a integrar a sociedade adulta. “De criança pequena esperava-se que se
transformasse imediatamente em adulto jovem, ignorando etapas que têm se tornado
características da infância e da adolescência nas sociedades ocidentais” (Cárdenas,
2000: 11).
As famílias, na sociedade antiga, tinham papéis definidos. Com a missão
principal de manter os bens, os filhos assumiam os ofícios dos pais. Com o decorrer do
tempo, as crianças passaram a ser enviadas a instituições que transmitiriam saberes e
códigos morais vigentes na época. A educação formal substituiu “o processo de
aprendizagem que a criança vivenciava com os adultos, no contato direto de convício
com eles” (Cárdenas, 2000: 12). A instituição formal de ensino mantinha a criança
numa espécie de quarentena antes de retornar ao convívio social. Ariés (1981) afirma
que os papéis sociais, mais do que as etapas biológicas, definiam a divisão da vida do
deixava a infância e era tratada com um adulto. “Até o século XVIII, a adolescência foi
confundida com a infância” (Cárdenas, 2000: 12).
A revolução industrial do século XIX causou uma alteração neste quadro.
Passaram a ser importantes a formação e a capacitação da mão-de-obra para que as
máquinas pudessem ser operadas com maior eficiência e menor prejuízo para as
indústrias. O período de permanência dos filhos de nobres nas escolas ampliou-se e
mesmo os filhos de operários passaram a ter acesso à educação formal, embora ainda
fossem incorporados, precocemente, como mão-de-obra. “Conforme avançava o século
XIX, foi sendo introduzido, nos diversos países ocidentais, o conceito de escolaridade
obrigatória, que foi se ampliando até chegar, na atualidade, na maioria dos países, em
torno de 12 anos, com algumas variações.” (Cárdenas, 2000: 14).
Esse período de permanência no sistema escolar tem se ampliado com o passar
do tempo. Na atualidade, muitos jovens avançam além da graduação, retardando ainda
mais a incorporação dos adolescentes ao status adulto. O período de transição entre a
infância e a idade adulta, hoje conhecido por adolescência, tem, portanto, se ampliado
como passar dos anos e vem se revestindo de características peculiares em nossa
sociedade.
A noção de adolescência como uma “moratória” social, assim chamada por
Erikson (1968 / 1987: 129), compreendida entre a infância e a vida adulta, não é,
entretanto, universal. Para se definir, compreender e caracterizar uma determinada fase
da vida como adolescência é preciso determinar em que época e em que sociedade, ou
até mesmo, qual extrato dessa sociedade se tem por referência, pois:
Em outras culturas distintas da ocidental, a passagem à
vida adulta deu-se e dá-se de forma diversa. (...) Nestes
Fundamentação Teórica
_____________________________________________________________________________________
características questionadoras que tem adquirido em nossa
cultura, e o sentido que possui para todos é claramente
definido pelo sistema de crenças e valores compartilhados
por todos os membros do grupo social. (Cárdenas, 2000:
14).
Pode-se dizer que há adolescências e adolescências. Que os conflitos, as
referências, o tempo de transição varia de cultura para cultura, ou mesmo de um estrato
social para outro. Alguns aspectos podem se manter. Há, por exemplo, questões
fisiológicas universais, mas o significado destas pode variar dependendo do sistema de
crenças e valores em questão e do grupo social observado. O adolescente aqui
analisado, não apenas integra essa sociedade, ocidental, moderna, onde há uma
“moratória” social entre a vida infantil e a vida adulta, como pertence a um extrato
social específico, a classe média e classe média-alta, o que confere algumas
especificidades ao seu perfil.
Por considerar a importância dessa rede social é que as “abordagens sistêmica e
psicossocial da adolescência ampliam a compreensão do adolescente à luz do contexto
de suas relações.” (Sudbrack, 2003: 167). A transição da infância à fase adulta, marco
da adolescência na nossa sociedade atual, se dá “a partir de transformações não só
biológicas, como também e, principalmente, sociofamiliares.” (Sudbrack, 2003: 167).
Descrição
Quando se pensa em busca de identidade, a adolescência é reconhecidamente um
marco no desenvolvimento vital. “De fato, podemos falar da crise de identidade como o
aspecto psicossocial do processo adolescente.” (Erikson, 1968 / 1987: 90). Levisky
envolvem aspectos que ampliam as dificuldades e complexidades, tornando esta fase de
transição mais prolongada e aparentemente mais penosa.” (p. 17). O devir alguém é
produzido através da permanente relação entre o dentro e o fora; esta superfície de
trocas está sempre se ajustando, se moldando, mas nesta fase as diferenças entre o
dentro e o fora são mais claras, mais intensas e, talvez por isto, o ajuste, o
desdobramento, o devir torne-se mais turbulento. Esta idéia é reforçada por Pikunas
(1920 / 1979, p. 274), no início de sua descrição do conceito de adolescência:
Na civilização americana o período de adolescência tem
sido considerado de várias maneiras como uma ocasião de
tormenta e stress, uma idade de frustração e sofrimento,
uma amplitude de intensificação de conflitos e de crises de
ajustamento, uma fase de sonhos e devaneios, de romances
e amor, uma era de alheamento da sociedade e cultura
adultas. De um outro ponto de vista, o adolescente pode
ser caracterizado como em um estágio de busca do seu eu,
assinalado por aflição íntima de pares e formação de
“panelinhas”, pelo descobrimento de altos valores e ideais,
pelo desenvolvimento da personalidade e formação de
identidade e pela consecução de ‘status’ adulto com suas
tarefas e responsabilidades desafiadoras.
A mudança de papel de criança para adulto requer do adolescente um ajuste de
comportamento, personalidade e emocionalidade, acompanhados de uma maturação
somática que, nesta fase, rapidamente lhe confere um corpo adulto.
Outra definição da adolescência, apresentada por Papalia & Olds (1998 / 2000),
Fundamentação Teórica
_____________________________________________________________________________________
desenvolvimento entre a infância e a idade adulta que envolve grandes e interligadas
mudanças físicas, cognitivas e psicossociais.” (p. 310)
Como em todo processo de reestruturação, há um desequilíbrio, uma quebra na
estabilidade existente até este momento, em busca de um novo ajuste. Como afirma
Almeida (1999), “a adolescência constitui, pela lógica própria de seu processo de
identificação, um momento-chave que coloca em questão algumas “certezas” da idade
adulta.” (p. 72). Este período de instabilidade, ao mesmo tempo em que proporciona
grandes oportunidades de crescimento, inevitavelmente oferece riscos. “Os novos
ajustamentos em qualquer idade são acompanhados de tensões emocionais e reações
afetivas mais fortes.” (Pikunas, 1920 / 1979, p. 280), entretanto, na adolescência este
processo se acentua devido à intensidade das alterações, mas à medida que as alterações
começarem a se estabilizar, a tensão e os conflitos tendem a diminuir. É neste momento
que o adolescente começa a estruturar sua identidade, afirmando e organizando suas
habilidades, necessidades, interesses e desejos, para que possam ser expressos num
contexto social.
Berger (2003) afirma que “a adolescência, mais do que as outras etapas da vida,
oferece oportunidades para o crescimento e para a destruição. Se os fundamentos
tiverem sido bem assentados, a maioria das pessoas em desenvolvimento estará
adequadamente preparada para a vida adulta.” (p. 294)
Papalia & Olds (1998 / 2000) afirmam que a identidade do adolescente se
solidifica à medida que ele resolve três questões: a escolha ocupacional, a adoção de
valores nos quais acredita e segundo os quais vive e, por fim, o desenvolvimento de
uma identidade sexual satisfatória.
A emocionalidade nessa fase pode tornar-se contraditória, oscilando entre o
ódio, oscilação que se reduz com o avançar da adolescência. “À medida que os anos vão
passando, há menor oscilação e mais coerência” (Pikunas, 1920 / 1979, p. 287).
Um ponto significativo desta fase é a maturação sexual. Invariavelmente o
adolescente passará por uma série de alterações físicas com o aparecimento das
características secundárias do sexo e as alterações das necessidades, desejos e interesses
decorrentes desta maturação. É comum o deslocamento da afeição dos pais para os
pares, inclusive do sexo oposto, assim como a identificação com ídolos.
O nível intelectual atinge a maturação cognitiva de um adulto com a utilização
do raciocínio abstrato, julgamento moral mais sofisticado, permitindo ao adolescente
procurar respostas próprias, valendo-se de sua capacidade de raciocínio pessoal.
Pikunas (1920/1979) e Papalia & Olds (1998/2000) enumeram tarefas,
necessidades e interesses claramente identificáveis no período da adolescência. Entre as
tarefas, pode-se citar:
• controle do corpo: o crescimento produz uma falta de jeito, postura relaxada e
desconforto físico que precisam ser recuperados; é preciso aceitar e adaptar-se ao físico
adulto;
• identificação de pares: o desejo de causar boa impressão aos outros, especialmente
aos pares, é intenso; o desenvolvimento desta habilidade é crucial para o ajustamento
social futuro;
• sensibilidade social: uma forma de melhorar sua sensibilidade para com os pares
vem da aprendizagem sobre as necessidades e expectativas dos outros;
• reorganização da personalidade ou auto-reorganização: são deixados para trás
vários traços da meninice, ao passo que novos traços da identidade adulta passam a
integrar a personalidade do adolescente;
Fundamentação Teórica
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socialização;
• controle dos impulsos ou auto-regulação: na segunda infância as emoções são, em
grande parte, controladas por forças externas. Nesta fase, o adolescente começa a
adquirir sua própria autoridade interna, na qual pode confiar para conter suas emoções;
ele busca a emancipação dos vínculos do lar e uma autonomia emocional e social;
• independência emocional: nesta fase o adolescente, gradativamente, adquire uma
independência emocional dos pares e das figuras de autoridade;
• comunicação interpessoal: é importante para o ajustamento do adolescente que ele
adquira perícia na comunicação interpessoal para se relacionar com os pares e outras
pessoas, seja individualmente ou em grupo;
• identificação: o adolescente precisa encontrar modelos humanos para identificação;
podem ser ídolos, artistas, esportistas ou alguém próximo;
• auto-confiança: o adolescente precisa aceitar-se e confiar nas suas habilidades para
sentir-se competente e confiante;
• filosofia de vida: o adolescente deverá estabelecer uma base de valores e princípios
que irão reger sua conduta.
Assim como as tarefas específicas desta fase, há algumas necessidades também
características da adolescência. São elas:
• novas experiências: esta necessidade impele o adolescente para a atividade e a
automelhoria;
• segurança: em grande parte a sensação de segurança será determinada pela
autoconfiança, pelo autocontrole e pelo sentimento de valia pessoal;
• status: esta necessidade nada mais é do que uma necessidade de reconhecimento que
o adolescente tem, principalmente em relação aos pares;
socialmente, aos grupos de referência.
A especificidade desta fase apresenta, ainda, uma série de interesses e
preocupações peculiares:
• aparência: esta preocupação está relacionada com a necessidade de adequação e
aceitação do adolescente;
• auto-regulação: apesar da sensação de competência ter sido sempre uma fonte de
satisfação, agora é uma forma de o adolescente se auto-afirmar, de se sentir
independente da influência e controles parentais definindo, assim, o seu papel de adulto;
• vocação: nesta idade o adolescente tem interesse por definir uma vocação;
compreende a necessidade desta escolha, mas nem sempre se encontra suficientemente
maduro para escolher, o que pode ser mais um motivo para conflitos internos e
insegurança. O suporte parental e dos pares é importante neste momento;
• auto-expressão criativa: cartas, poesias, pinturas, diários são formas de expressão
comuns e substituem a comunicação interpessoal enquanto esta ainda não está bem
desenvolvida, trazendo alívio e extravasamento das tensões e conflitos emocionais desta
fase de desenvolvimento;
• recreação: o lazer é uma necessidade de todos os indivíduos, seja qual for a idade.
Na adolescência, as brincadeiras de criança dão lugar a atividades culturais (cinema,
shows) e esportivas;
• comunicação interpessoal: é uma habilidade que se expande ao longo da
adolescência. O adolescente faz uso da comunicação interpessoal para expressar seus
valores e se posicionar. A aquisição da comunicação interpessoal promove a maturidade
e o desenvolvimento de perícia e graça sociais, sendo um instrumento essencial para o
processo de conquista de pares, típico desta fase;
Fundamentação Teórica
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caráter de exploração, de aprovação, aceitação. Gradativamente é o interesse nesses
encontros estar relacionado à busca de um companheiro, do estabelecimento de vínculos
íntimos;
• auxílio aos outros: na adolescência há um aumento da sensibilidade em relação às
necessidades alheias, um impulso altruísta no comportamento dos indivíduos.
Entretanto, apesar de todo conflito possível e da mudança brusca de papéis
inerentes a essa fase, é importante salientar que certas configurações básicas de atitude
se mantêm; a criança amadurece, torna-se adulto, mas não outra pessoa.
É preciso salientar que “o processo de identificação, na adolescência, está
intimamente ligado à organização do aparelho psíquico primitivo e aos seus
desdobramentos subseqüentes, durante o período infantil.” (Almeida, 1999, p. 73). O
aparelho psíquico primitivo é para Freud (conforme citado por Telles, 2003) o aparelho
cujo trabalho é regulado por uma tendência de se evitar o acúmulo de excitação,
mantendo o nível de excitação dentre dele o mais baixo possível ou constante. A relação
do processo de identificação na adolescência com esse aparelho psíquico primitivo pode
fazer com que este momento de busca de um novo referencial, não mais infantil e ainda
consolidando o adulto, leve o indivíduo a reviver crises da sua infância.
Em busca de um novo sentido de continuidade e
uniformidade, que deve incluir agora a maturidade sexual,
alguns adolescentes tiveram que enfrentar de novo as
crises de anos anteriores antes de poderem instalar ídolos
e ideais duradouros como guardiões de uma identidade
A IDENTIDADE NA ADOLESCÊNCIA
Erik Erikson – a crise da identidade
Para melhor compreender o processo da constituição da identidade do
adolescente, tomar-se-ão por referência as propostas teóricas de Erik Erikson. “Erik
Erikson é o teórico do desenvolvimento mais responsável por enfatizar uma
caracterização da adolescência como um período de autodefinição e de formação de
uma identidade.” (Newcombe, 1999: 441)
Nascido na Alemanha, criado pela mãe que se casou com um médico logo após
seu nascimento, cresceu sem conhecimento do fato de que seu pai verdadeiro o
abandonara. Erikson, assim como Freud, possuía ascendência judaica, porém com
aparência nórdica, o que fez com que fosse tratado com exclusão, tanto entre os judeus
como entre os alemães, por não se enquadrar completamente nem a um nem a outro
grupo. “Os colegas judeus o chamavam de goy, nome dado de maneira desrespeitosa
aos não judeus, e, ao mesmo tempo, de judeu, por seus colegas alemães.” (Erikson
conforme citado por Cardenas, 2000:29). Estudou no Instituto de Psicanálise de Viena,
onde foi aluno de Freud, graduando-se em 1933 quando migrou para Boston por temer a
expansão nazista.
Nos Estados Unidos atuou como psicanalista, mas foi a partir de seu contato
com antropólogos como Margaret Mead e Gregory Bateston (início dos anos trinta) e
com a cultura Sioux (1937) que Erikson passou a refletir sobre a socialização das
crianças e sobre o impacto do contexto cultural no desenvolvimento da personalidade.
“Sua tese é a de que durante a evolução do ser humano os modos instintivos de
Fundamentação Teórica
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Erikson não rompeu com Freud para formular suas teorias. Ele buscou ampliar,
mais do que modificar, a teoria psicanalítica com distinção em alguns aspectos tais
como: 1) a luta pela constituição da identidade tem maior ênfase do que a influência do
inconsciente sobre a personalidade; 2) em lugar de sintomas patológicos, Erikson
prioriza um mecanismo saudável e adaptativo da personalidade; 3) Erikson não se fixa a
momentos do desenvolvimento; ele propõe uma abordagem desenvolvimental na qual a
personalidade se constitui ao longo do processo vital do indivíduo.
Neste sentido, a teoria psicossocial tenta explicar o desenvolvimento do sujeito
compreendendo a relação entre as crises psicossociais e a formação da identidade
pessoal, como crises anteriores formam uma base para os indivíduos enfrentarem as
crises vindouras e, ainda, como um sentido de identidade se mantém ao longo da vida
com certa estabilidade.
Erikson afirma que “o tema central do desenvolvimento da personalidade é a
busca de uma identidade de si” (Cardenas, 2000: 32).
O conceito de identidade tem sua origem no termo latim, (iden) que significa
igualdade e continuidade. De acordo com Lopes (2002), este conceito possui uma
“pré-história” nos estudos de Marcel Mauss que, já em 1938, analisou a caracterização da
pessoa como uma definição de personagem em sociedades primitivas para, a partir
disto, construir a história social do conceito no Ocidente mostrando que caminhos este
conceito percorreu evoluindo da noção de pessoa para a noção do “eu”, ou seja, como
ocorreu “a passagem da consciência moral à consciência psicológica” (Lopes, 2002: 11)
da identidade.
Vale a pena destacar que o conceito de identidade atravessa e se estrutura
transversal e dialeticamente, sob e sobre, como bem coloca Lopes (2002), os termos
mesmo tempo, estando “sujeita a reflexões afetadas pelas dinâmicas e ambigüidades
produzidas na sincronicidade desses registros, na vida social.” (p.16)
Para Lopes (2002), o conceito de identidade é compreendido como:
uma daquelas categorias que (se) permite atravessar vários
campos do saber, sem necessariamente firmar as
especificidades de algum deles; necessita das
contribuições desses campos para se tornar universal, sem
afirmar necessariamente as singularidades em que se
manifesta, nas ciências; admite metamorfoses, como
admite adjetivações, ou seja, mudanças substantivas e
mudanças adjetivas, históricas e contextuais; sem deixar
de referir-se a processos que se formam a partir das
análises em Psicologia, Antropologia, Sociologia,
História, entre outras, também nunca se reduz somente a
essas análises. (p. 20)
Uma das dicotomias mais presentes no conceito de identidade vem desde sua
“pré-história” e está na sua constituição particular ou social. Giddens (2002) afirma que
a identidade pessoal pode ser encontrada no comportamento, na capacidade que o
indivíduo possui de manter sua “narrativa particular”. Berger e Luckmann (1985 / 1996)
pontuam que a identidade se configura como um elemento chave da subjetividade e da
sociedade. Para estes autores ela é ao mesmo tempo singular e socialmente produzida,
pois a partir das interações do indivíduo ela é formada e remodelada por processos e
relações sociais. Constitui-se um fenômeno derivado da dialética entre indivíduo e
sociedade. Como pode ser verificado nestes dois conceitos e em outras definições, a
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pessoal primordialmente; para outros autores, ela tem sua constituição mais
fundamentada nas interferências sociais.
Além deste conflito acerca do processo de constituição da identidade, que vem
desde a pré-história desta categoria, outras divergências podem ser verificadas, por se
tratar de um conceito polissêmico. Devido a esta multiplicidade de leituras para o
conceito identidade, neste trabalho tomar-se-á por referência, mais especificamente, o
que Erik Erikson entende por identidade e em que se fundamenta esta sua definição.
A dificuldade, e ao mesmo tempo a importância, de se definir claramente
identidade aparece nas palavras do próprio Erikson (1968 / 1987) “quanto mais se
escreve sobre este assunto, mais o termo se converte em algo tão sondável como difuso.
Só é possível explorá-lo estabelecendo a sua natureza indispensável em vários
contextos” (p. 9). Ainda nas palavras de Erikson, o termo “identidade”, bem como
“crise de identidade”:
tornaram-se, no uso popular e científico, termos que,
alternadamente, circunscrevem algo tão vasto e, à primeira
vista, tão óbvio que pedir uma definição seria quase o
mesmo que pedir o trivial, enquanto que, outras vezes,
eles designam algo tão limitado para fins de medição que
o significado global se perde e poderiam perfeitamente
chamar-se de outra coisa. (p. 13)
O pensamento sobre identidade de Erik Erikson baseou-se primordialmente em
dois fundadores. O “sentimento subjetivo de uma envigorante uniformidade e
continuidade” (p. 17), chamado por Erikson (1968 / 1987) de sentimento de identidade,
O caráter de um homem é discernível na atitude mental ou
moral em que, quando chegou o momento de
revelar-se-lhe, ele se sentiu mais profunda e intensamente ativo e
vivo. Em tais momentos, existe uma voz íntima que nos
fala e diz: “Isto é o que realmente eu sou!” (conforme
citado por Erikson, 1968 / 1987: 17-18)
O que James chamou de “caráter” é, para Erikson, um sentimento de identidade,
experimentável por qualquer homem.
A segunda grande influência na definição que Erikson faz do conceito de
identidade não poderia ser de outra natureza, que não a de sua formação psicanalítica,
através da figura de Sigmund Freud que, segundo Erikson (1968 / 1987), utilizou uma
única vez o termo identidade, de “modo mais que fortuito e, de fato, numa acepção
fundamentalmente étnica”. (p 20). Entretanto, segundo Erikson (1968 / 1987), o uso que
Freud fez do termo revelou a noção de “consciência de identidade íntima” bem como o
contraste entre uma “identidade positiva de uma destemida liberdade de pensamento e
uma característica negativa” (p. 20). Estas concepções fortuitamente encontradas no
discurso de Freud revelam-se na definição de Erikson (1968 / 1987) através da idéia de
que “a identidade de uma pessoa ou grupo pode ser relativa à de outras pessoas ou
grupos” (p. 20), bem como de que o “orgulho de conquistar uma forte identidade pode
significar uma emancipação interior da identidade de um grupo mais dominante.” (p.
20).
Entretanto, para Erikson (1968 / 1987), apesar de sua formação psicanalítica, o
método psicanalítico tradicional “não é capaz de apreender a identidade porque não
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compreendermos a identidade seria necessária uma psicanálise “suficientemente
sofisticada” de modo a incluir o meio.
A posição de Erikson e as duas referências por ele enumeradas como primordiais
no seu entendimento do conceito de identidade, mostram como sua definição do termo
traz, simultaneamente a noção de que a identidade se encontra localizada no “âmago do
indivíduo e, entretanto, também no núcleo central da sua cultura coletiva.” (p. 21).
Portanto, a dicotomia por vezes verificada nas definições de identidade, como sendo um
elemento constituído pelo próprio indivíduo ou pela sociedade, para Erikson desaparece,
dando lugar a uma construção mais complexa e integral da identidade, reunindo o
indivíduo e a sociedade como atores e autores deste processo.
Erikson (1968 / 1987) enuncia, a partir desta visão de uma complexa
interferência no processo de constituição da identidade, em termos psicológicos, a
necessidade de um processo de reflexão e observação simultâneos, em todos os níveis
de funcionamento mental, pelos quais o indivíduo irá julgar a si próprio à luz daquilo
que perceber como a maneira com que os outros o julgam, mediante a comparação com
eles próprios e uma tipologia significativa para eles; enquanto ele julga a maneira como
os outros o julgam à luz de como ele próprio se percebe, mediante a comparação com os
demais e os tipos que se tornaram importante para ele.
Erikson (1968 / 1987) faz, ainda, uma distinção entre o que chama de identidade
pessoal e identidade do ego. Para o autor, o sentimento de identidade pessoal baseia-se
em duas observações: “a percepção da uniformidade e continuidade da existência
pessoal no tempo e no espaço; e a percepção do fato de que os outros reconhecem esta
uniformidade e continuidade da pessoa”. (p 49) A identidade do ego é a qualidade do
ego da existência. É a consciência de que há esta “uniformidade e continuidade nos
esse estilo coincide com a uniformidade e continuidade do significado que a pessoa tem
para os outros significantes na continuidade imediata.” (p. 49, grifo do autor)
Como aponta Gallatin (1978), o conceito de identidade de Erikson abarca os três
sistemas: biológico, social e individual, e incorpora a idéia de uma pessoa sadia como
alguém que “domina ativamente seu ambiente, mostra certa unidade de personalidade e
é capaz de perceber corretamente o mundo e a si mesma” (Erikson, conforme citado por
Gallatin, 1978: 186).
Por fim, mesmo Erikson admitiu ter deixado, propositadamente ambíguo, o
significado do termo identidade, mas considerando a perspectiva psicossocial de sua
teoria. Ele a define, segundo Gallatin (1978) como:
a) um sentido consciente da singularidade individual;
b) um esforço inconsciente para manter a continuidade da experiência;
c) uma solidariedade para com os ideais de um grupo.
Enfim a característica polissêmica deste conceito lhe confere uma grande
pluralidade, mas neste trabalho entende-se a identidade como algo que revela um
sentido ao “eu” que lhe garanta unidade e continuidade ao longo da vida, sem perder a
consonância com seu meio, de tal forma que o indivíduo seja capaz de se identificar
bem como de se singularizar.
Para Erikson (1968 / 1987) a busca da identidade atravessa oito estágios de
desenvolvimento, ou estágios psicossociais, com componentes psicológicos, biológicos
e sociais, estendendo “o pensamento psicanalítico para além da infância a fim de
abranger todo o ciclo de vida humano” (Fadiman & Frager, 2004: 198).
Em cada estágio há um conflito a ser superado para se passar ao estágio
seguinte. Cada um dos conflitos apresenta duas possibilidades de resolução: se o
Fundamentação Teórica
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personalidade; da mesma forma, se a crise apresenta uma resolução insatisfatória, a
qualidade negativa fará parte da estrutura de personalidade. Esta característica
incorporada irá interferir de forma a facilitar ou dificultar o desenvolvimento posterior.
Cada crise ou conflito nunca se resolve completamente nem é exclusiva de um
estágio, mas há um momento correspondente na vida em que ela surge de forma mais
aguda. Ela não é necessariamente dramática ou crítica; é um ponto de aprendizagem.
“Por crise, Erikson entende um ponto de mutação, um momento crítico, tais como a
crise de uma febre. Quando ela se resolve com êxito, a febre cede e o indivíduo começa
a se recuperar.” (Fadiman & Frager, 2004: 199).
Em relação à crise da identidade, a fase aguda encontra-se na adolescência,
“mesmo que o desenvolvimento da identidade possa ser um processo que dura toda a
vida, a busca por um senso de identidade é especialmente relevante durante toda a
adolescência.” (Newcomb, 1999: 441).
A constituição da identidade na adolescência reflete tanto uma identidade
pessoal como social. A identidade verdadeira é a consistência entre como o adolescente
acredita ser e como ele percebe que os outros o vêem. O processo ideal de formação de
identidade inclui um período de moratória, no qual o adolescente avança por um
período de questionamento e exploração, até a conquista da identidade. Em momentos
relevantes - casamento, maternidade / paternidade, divórcio, viuvez, doença séria, entre
outros - o tema identidade emerge novamente e a habilidade para enfrentar as questões
relativas à identidade apresentará uma relação direta como o sucesso ou insucesso com
o qual o adolescente vivenciou sua crise de identidade. A crise de identidade da
adolescência, além de comportar o conflito da constituição da identidade, também
incorpora elementos das outras sete crises. “De alguma forma, ela é prenunciada em
além de antecipar os três conflitos que se desenrolarão na idade adulta.” (Gallatin,
1942/1978: 211).
O modelo epigenético é um modelo teórico desenvolvimental que descreve o
ciclo de vida desde a infância até a velhice e foi assim denominado por Erikson por
entender o crescimento psicológico do indivíduo de forma semelhante ao de um
embrião, sugerindo que cada elemento se desenvolve a partir das outras partes. “O
modelo de Erikson é estruturalmente semelhante ao do crescimento embrional no
sentido de que o aparecimento de cada estágio sucessivo baseia-se no desenvolvimento
do estágio anterior.” (Fadiman & Frager, 2004: 199). O modelo epigenético de
desenvolvimento apresentado por Erikson pode ser representado graficamente conforme
Fundamentação Teórica
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Tabela 1 – Identidade e os oito estágios de desenvolvimento
VIII INTEGRIDADE vs.
DESESPERO
VII GENERATIVIDADE
vs. ESTAGNAÇÃO
VI INTIMIDADE vs.
ISOLAMENTO
V
Perspectiva Temporal
vs.
Confusão de Tempo
Autocerteza vs. Inibição
Experimentação de Papel vs. Fixação de
Papel
Aprendizagem
vs. Paralisia Operacional
IDENTIDADE vs. CONFUSÃO DE
IDENTIDADE
Polarização Sexual
vs. Confusão Bissexual
Liderança e Sectarismo
vs. Confusão de Autoridade
Vinculação Ideológica
vs. Confusão de Valores
IV INDÚSTRIA vs.
INFERIORIDADE
Identificação com a Tarefa vs. Sentimento
de Futilidade
III INICIATIVA vs.
CULPA
Previsão de Papéis vs. Inibição de Papel
II
AUTONOMIA vs. DÚVIDA, VERGONHA
Vontade de Afirmação Pessoal vs. Dúvida de
Afirmação Pessoal
I CONFIANÇA vs. DESCONFIANÇA
Reconhecimento Mútuo vs. Isolamento
Autístico
1 2 3 4 5 6 7 8
Na diagonal ascendente, iniciada com “Confiança versus Desconfiança”,
encontram-se representados os oito estágios; a boa resolução de cada uma das oito
crises está relacionada a uma virtude psicossocial conforme a tabela abaixo:
Tabela 2 – Estágios e virtudes
ESTÁGIO VIRTUDE
Confiança versus Desconfiança Esperança
Autonomia versus Dúvida, vergonha Vontade
Iniciativa versus Culpa Finalidade
Indústria versus Inferioridade Competência
Identidade versus Confusão de identidade Fidelidade
Intimidade versus Isolamento Amor
Generatividade versus Estagnação Consideração
Integridade versus Desespero Sabedoria
1. Confiança versus Desconfiança
Este primeiro estágio ocorre no período de maior vulnerabilidade do bebê,
quando este se encontra mais indefeso, dependendo dos outros para sua sobrevivência.
A experiência do bebê com a mãe, estabelecida durante o período de lactação, é crucial
para o equilíbrio entre segurança e insegurança. A certeza, a regularidade e a qualidade
do cuidado e da alimentação são fundamentais para um viver seguro. “O senso de
confiança se desenvolve não tanto com o alívio da fome ou com demonstrações de amor
mas com a qualidade da atenção materna.” (Fadiman & Frager, 2004: 201). É um
período incorporativo, um período no qual o desenvolvimento saudável permitirá ao
indivíduo confiar nos outros e em si mesmo, na sua capacidade de receber.
2. Autonomia versus Dúvida, vergonha
Este segundo estágio acontece quando a criança passa a adquirir certa maturação
Fundamentação Teórica
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controlar seu corpo, seus atos, experimentando, também, os sentimentos de vergonha e
dúvida. É principalmente na relação com os pais “que a criança pode esperar conseguir
um equilíbrio satisfatório entre a autonomia e a dúvida quanto a si mesma” (Gallatin,
1942 / 1978: 194).
Nesta fase a criança começa a se reconhecer distinta do outro e passa a interagir
com o mundo de várias formas. Fortalece na criança um sentido de auto-afirmação. O
senso de livre escolha, de escolher o que guardar e o que rejeitar, deter-se ou deixar-se
ir, permite que a criança desenvolva sua autonomia.
3. Iniciativa versus Culpa
Nesta fase a criança adquire maior mobilidade e curiosidade intelectual, maior
desenvolvimento da linguagem e da imaginação e amplia seu sentimento de domínio e
responsabilidade. Junto ao sentido de responsabilidade está o sentimento de culpa, que
numa resolução positiva da crise irá limitar, mas não inibir, a iniciativa. Brincar é a
principal atividade e assume para a criança o mesmo sentido do pensar e planejar para o
adulto. A orientação paterna continua sendo importante para a resolução positiva do
conflito entre iniciativa e culpa.
4. Indústria versus Inferioridade
Neste estágio, a criança passa a compreender a importância dos resultados e a
satisfação de um trabalho bem feito. Conseguir dominar tarefas e habilidades
valorizadas na sociedade, conquistar o respeito dos pais, professores e pares irá
desenvolver um sentimento de competência.
Em nossa sociedade, sendo esta fase a idade em que a criança ingressa na vida
escolar, além dos pais, os professores passam a assumir um papel de grande
responsabilidade, pois “eles representam para a criança toda uma classe nova de adultos,
5. Identidade versus Confusão de identidade
Este estágio corresponde ao período da adolescência, no qual os indivíduos
questionarão os modelos de papel da infância e experimentarão novos papéis.
Como a adolescência é uma transição entre a infância e a
idade adulta, ela é um estágio crucial, segundo Erikson.
Muitas vezes neste momento da vida pede-se uma
moratória, pois o adolescente “pede um tempo” para se
dedicar à experimentação de papéis. (Fadiman & Frager,
2004: 204).
Neste estágio o adolescente irá avaliar sua existência em uma perspectiva
histórica, considerando o indivíduo que foi no passado, aquele que é no presente e o que
poderá ou desejará vir a ser no futuro.
O adolescente depara-se com a necessidade de comprometimento com uma
carreira e com um conjunto de valores éticos e morais. Este comprometimento e a
constituição de uma identidade verdadeira implicam um esforço pessoal. A pressão
deste momento pode provocar um período de atrapalhação e insegurança, gerar
ansiedade, mas se o conflito tiver uma resolução positiva, um sentido de fidelidade será
resultante do processo.
6. Intimidade versus Isolamento
Este estágio corresponde ao início da vida adulta. É nesta fase que o adulto
deverá adquirir um senso de independência dos pais e da escola, estabelecendo
amizades e relacionamentos íntimos nutridores. Apenas depois do estabelecimento de
um senso relativamente estável de identidade torna-se possível desenvolver um
relacionamento próximo, comprometido e significativo com outra pessoa. O extremo
Fundamentação Teórica
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7. Generatividade versus Estagnação
Este estágio abrange a maior parte da vida adulta, inclui o interesse por orientar
e apoiar a próxima geração. É nesta fase que o adulto atingirá um sentido de
contribuição à sociedade e, também, assumirá um papel significativo na garantia de um
desenvolvimento adequado dos indivíduos que estão passando pelas outras idades nas
quais a dependência é maior.
A generatividade abarca tanto a vida profissional como a pessoal e se este
sentido de cuidado e produtividade não se ampliar, o resultado é um sentimento de
estagnação.
8. Integridade versus Desespero
Estágio final da vida, quando de uma resolução positiva do conflito resulta uma
perspectiva de completude, de auto-aceitação, em um sentido de integridade com o
desenvolvimento de uma sabedoria sustentada no conhecimento e nas experiências que
o indivíduo acumulou.
Ao longo do tempo, o papel da velhice vem mudando; a imagem de
desesperança ou o modelo dos anciãos tem dado lugar a uma imagem de idosos cada
vez mais ativos e saudáveis. “Nosso modelo de velhice irá desenvolver-se enquanto os
parâmetros de envelhecimento continuarem mudando” (Fadiman & Frager, 2004: 206).
Além das oito idades dispostas na diagonal ascendente da Tabela 1 recém
citadas, duas outras coordenadas apresentam alguns componentes complementares. Na
coordenada vertical estão as contribuições específicas dos quatro estágios da infância à
crise de identidade da adolescência. Quando cada uma destas quatro crises iniciais
obteve uma resolução positiva, a contribuição para a crise da identidade será tanto mais
positiva com sentimentos de confiança no reconhecimento mútuo, vontade de afirmação
pessoal, previsão do que se pode vir a ser e capacidade de aprender como ser. Caso a
resolução das crises iniciais tenham sido traumáticas, a identidade pode atingir a
traduzirão em certa incapacidade para realizar a complexa integração necessária para o
desenvolvimento de uma verdadeira identidade.
Na coordenada horizontal estão os vários aspectos da crise de identidade em si.
Ela revela as relações da crise de identidade com as demais crises. “O conflito nuclear
da adolescência como a teoria de Erikson o descreve, envolve a resolução de sete
“conflitos parciais”, cada um dos quais reflete um dos quatro conflitos da infância, ou
uma das três crises da idade adulta.” (Gallatin. 1942 / 1978: 212)
O primeiro destes aspectos é a perspectiva temporal versus confusão de
tempo, a partir da qual o adolescente poderá formular um plano para a vida futura,
coerente com a sua história prévia, avaliar o que se tornou e, mais ainda, ponderar sobre
o que gostaria de se tornar com base nas experiências passadas.
O aspecto seguinte da crise de identidade é a autocerteza versus inibição, no
qual o adolescente, que no aspecto anterior foi capaz de perceber um todo integrado
entre sua história prévia e o planejamento futuro, terá uma maior autoconfiança para
seguir adiante.
A experimentação de papel versus fixação de papel reflete a diversidade de
alternativas e escolhas possíveis com as quais o adolescente se defronta e que
experimentará antes de definir o seu lugar no seio da sociedade.
A aprendizagem versus paralisia operacional traduz uma das escolhas mais
importantes que o adolescente avalia e testa: a sua ocupação futura. Esta decisão
desempenhará um grande papel na percepção que o jovem terá de si mesmo e de seu
lugar na sociedade.
O quinto aspecto da crise de identidade, que antecipa a crise do estágio do
começo da vida adulta, é a polarização sexual versus confusão bissexual e apresenta
um momento em que o adolescente começa “a tentar definir e redefinir o que significa
ser “homem” e “mulher”.” (Gallatin, 1942 / 1978: 218) e o que estas diferenças
Fundamentação Teórica
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O sexto aspecto da crise de identidade, liderança e sectarismo versus confusão
de autoridade, reflete como as experiências com vários papéis, a definição inicial de
uma ocupação e a experimentação de um papel sexual o ajudarão a encontrar seu lugar
na sociedade, antecipando as futuras contribuições que ele fará para esta sociedade.
O sétimo e último conflito da crise de identidade apresentado na coordenada
horizontal da tabela é o vinculação ideológica versus confusão de valores e traduz a
coerência necessária que o adolescente deve ter entre sua ideologia pessoal e o que ele
faz, planeja e escolhe.
Todos os sete conflitos situados na coordenada horizontal da Tabela 1 compõem
uma mesma crise, a crise da identidade, que é o cerne do desenvolvimento humano
proposto por Erikson em sua teoria e refletem os estágios da infância ou antecipam os
estágios da vida adulta. A resolução positiva da crise de identidade traduz claramente a
estreita interligação entre todos estes aspectos. A perspectiva temporal possibilitará a
autocerteza das decisões e das escolhas na experimentação de papéis, na determinação
da ocupação e na vivência sexual que, por sua vez, definirão em grande parte a inserção
do adolescente na sociedade. Tudo isto será norteado pela ideologia pessoal que ele
tenha definido para si mesmo.
O grupo, os pares e a cultura
Ao questionar como a cultura pode ajudar o indivíduo a atravessar esta crise,
visto que “não é possível pensar o humano fora do campo da cultura.” (Almeida, 1999,
p 70), voltamos à discussão proposta por estudiosos do assunto como Erikson (1968 /
1987): “Quais são os vários caminhos que as culturas oferecem aos jovens “normais”
para que estes possam superar as forças que os atraem para regressões infantis e
descobrir processos de mobilização de sua força interior para atividades orientadas para
A identificação com modelos e as trocas com o meio, possivelmente permitirão
que surjam nós referenciais a partir dos quais produzir-se-ão novas conexões, novas
interações entre a pessoa e seu meio e novas referências de como ser no mundo.
Ritornelos, “constelação de universos de referência [ou ainda] focos de eternidade
aninhados entre os instantes” (Guattari; 1990: 27) que se apresentam como trechos de
algo que se repete de alguma forma, igual e ao mesmo tempo diferente. Estes ritornelos
afloram da cultura a todo instante. Desde o nascimento, a cultura é um rico elemento de
interação com o indivíduo; “ao nascer, o bebê abandona a permuta química do ventre
materno pelo sistema de permutas sociais da sua sociedade, onde as suas capacidades
em gradual aumento encontram as oportunidades e limitações da sua cultura.” (Erikson,
1968 / 1987: 92).
Pode-se vislumbrar, aqui, a importância fundamental de
todos os significantes (imaginários e simbólicos) que, para
o adolescente, poderão vir a ocupar o lugar do
Nome-do-Pai: as drogas, a religião, o bando, o trabalho, a mulher, o
ídolo, enfim, qualquer significante oferecido pela cultura e
que venha a significar um saber. (Almeida, 1999, pp
73-74)
Lacet (2004) aponta que o significante do Nome-do-Pai é “aquele que
fundamenta a Lei, que representa o Outro do Outro. O Outro é entendido como
tesouro significante e garantido pela Lei para exercer sua função.” (p. 244)
A cultura é, pois, parte integrante das inter-relações do indivíduo; num momento
de crise, de vulnerabilidade, ela se torna ainda mais presente.
O adolescente está à procura de sua identidade adulta, [de
Fundamentação Teórica
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as possibilidades de fazê-lo numa sociedade urbana,
industrializada, são relativamente ilimitadas. São
infindáveis as alternativas que existem diante de si,
através de seus colegas de escola, dos grupos a que
pertence, do seu professor, técnico de esportes, um artista,
um ídolo político ou religioso (Levisky, 1995: 23).
Como afirma Berger (2003), a cultura pode ajudar na formação da identidade do
adolescente de duas maneiras importantes, seja fornecendo valores que passaram pelo
teste do tempo e que continuam a cumprir sua função, seja apresentando estruturas e
costumes sociais que facilitam a transição da infância para a fase adulta.
Através da identificação com esta cultura, ou com a identidade cultural de um
grupo, através das redes de conexões estabelecidas com este grupo, é possível que o
indivíduo supere mais facilmente esta fase transitória entre a infância e a vida adulta.
Esta identidade do grupo fornece referenciais para a compreensão e relação com o
mundo.
Entretanto, vale reforçar o alerta feito no livro Capoeira e auto-estima acerca
dos efeitos desta identificação exagerada ou extremamente diminuída de tal forma que:
uma coletividade que une o grupo deve apresentar-se de
forma equilibrada (assim como a auto-estima se estabelece
por uma experiência particular mas considera o que é
captado do meio externo num ponto de equilíbrio) pois,
como lembra o sociólogo e mestre de capoeira Luiz Renato
Vieira, a valorização extrema da cultura nacional, que
geralmente acontece em função de pressões externas