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Interface (Botucatu) vol.4 número6

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Academic year: 2018

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145 fevereiro, 2000

“Ciência” é uma palavra em alta nas sociedades ocidentais (ou em todo mundo “globalizado”, o que dá na mesma). Uma lavagem de tapete, um corte de

cabelo, um mapa astral ganham outro estatuto quando se afirma que são “científicos”. Dessa forma, determinar o modo como a ciência é produzida,

transmitida e exportada é tarefa essencial para a compreensão da sociedade

contemporânea.

Das diferentes formas de se aproximar da ciência, a mais tradicional tem sido o estudo da estrutura do suposto “método científico”. Os resultados, seja no domínio da Filosofia, seja no da História ou da Sociologia da Ciência, parecem pouco convincentes. Sem dúvida que a ciência é central para o progresso, sem dúvida que ela evolui, mas fica difícil atribuir seu sucesso a um método, a um conjunto de regras que todos os participantes do “jogo científico”, tácita ou explicitamente, concordam em seguir. Nos anos setenta pesquisadores tentam uma nova tática: estudar a atividade dos cientistas do mesmo modo que antropólogos estudam comunidades isoladas e distantes. Latour é um dos pioneiros nessa vertente, junto de Steve Woolgar, Karin Knorr Cetina, Michael Mulkay, entre outros. Mas praticamente só Latour, por sua clareza, acessibilidade e escolha de bons problemas para estudo, ultrapassou o círculo restrito de especialistas e alcançou reconhecimento mais amplo. Hoje, é um autor do qual pode-se discordar, com cujos escritos pode-se polemizar, mas é impossível não ter posição a seu respeito. E isso já é o suficiente para atestar sua relevância.

A idéia de uma Antropologia da Ciência parece, de saída, um tanto imprópria. Faz-se antropologia de comunidades ditas

primitivas ou simples, ou de subgrupos ditos

Ciência em ação

como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora

LATOUR, B., São Paulo: Editora Unesp, 1999.

mais ou menos homogêneos e simples dentro de uma sociedade complexa. Mas e fazer antropologia da comunidade científica, do grupo por definição mais evoluído (não importa aqui se isso é verdade ou não), racional e complexo do planeta? Os resultados com que Latour emergiu desses estudos antropológicos têm pouco a ver com a imagem que a própria comunidade científica tem de si e divulga externamente. Estudando os “nativos” (Latour foi antropólogo residente em um laboratório de Bioquímica, na Califórnia, nos anos setenta), o autor mostra que a essência da atividade científica é criar enunciados e subtrair-lhes modalidades (a partir do enunciado “X acha que a substância Y é responsável pelo efeito cuja medida é Z”, criar o enunciado “Y causa Z”) e transladar interesses, isto é, a comunidade acadêmica deve sempre aumentar as alianças entre seus membros e entre estes, seus equipamentos e o “mundo objetivo”; para isso, é preciso que todos (todos mesmo) se transformem no processo. Seu livro “Vida de Laboratório” examina tais translações, mas é em “Ciência em Ação” que as pesquisas antropológicas ganham a dimensão de teoria geral acerca do funcionamento da ciência moderna. Se os estudos nessa vertente antropológica -e a ambiciosa t-eoria daí d-erivada - vão t-er resultados mais convincentes no que diz respeito ao estranho sucesso humano em compreender o mundo, ainda é cedo para saber. Mas é evidente desde já que o enfoque é original e ajuda a esclarecer o trânsito conturbado das vias que ligam ciência e sociedade.

Jesus de Paula Assis, coordenador do Núcleo de Edição do Instituto Itaú Cultural, São Paulo.

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Comunic, Saúde, Educ 6

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