PROCESSO Nº TST-RR A C Ó R D Ã O (7ª Turma) GMDAR/FS/DAR
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(2) fls.2. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 alienação ou oneração de bens for efetuada após a averbação (§ 3º do art. 615-A do CPC). Nesse sentido, a falta de pesquisa sobre a situação judicial do devedor por parte do terceiro de boa-fé, ainda que traduza conduta questionável, não se confunde com má-fé, a ponto de ensejar a ineficácia da transação celebrada. Não registrado o gravame sobre o veículo junto ao Detran, em momento anterior à sua alienação, e não havendo prova da má-fé do terceiro embargante, não há como reconhecer a fraude à execução. Apreensão judicial lesiva ao direito de propriedade configurada (CF, art. 5º, XXII). Recurso de revista conhecido e provido.. Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso de Revista n° TST-RR-517-66.2012.5.04.0351, em que é Recorrente PAULO MARCEU DA SILVA CARDOSO e Recorrido SÉRGIO ELIAS DE MOURA. O Tribunal do Trabalho da 4ª Região, mediante o acórdão às fls. 120/126, negou provimento ao agravo de petição do terceiro embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso. O terceiro embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso, interpõe recurso de revista às fls. 132/153, com fulcro no art. 896, § 2º, da CLT. Em decisão proferida às fls. 158/160 foi denegado seguimento ao recurso de revista. O terceiro embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso, interpôs agravo de instrumento às fls. 166/188. Foram apresentadas contraminuta e contrarrazões às fls. 202/205 e 206/208, respectivamente. Esta sétima Turma, nos termos da Certidão de Julgamento à fl. 220, deu provimento ao agravo de instrumento interposto pela Reclamante, para determinar o processamento do recurso de revista. Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(3) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 O processo foi distribuído a este Relator, por sucessão, conforme certidão à fl. 219. Sem remessa dos autos ao Ministério Público do Trabalho. É o relatório. V O T O I. AGRAVO DE INSTRUMENTO Na sessão de julgamento realizada no dia 18/06/2014, esta sétima Turma deu provimento ao agravo de instrumento interposto pelo O terceiro embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso, determinando o processamento do recurso de revista, conforme acórdão da lavra da Excelentíssima Ministra Delaíde Miranda Arantes, assim redigido: “I – AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA 1 – CONHECIMENTO Preenchidos os requisitos legais de admissibilidade, CONHEÇO do agravo de instrumento. 2 – MÉRITO O recurso de revista do terceiro embargante teve seu seguimento denegado pelo juízo primeiro de admissibilidade, aos seguintes fundamentos: “PRESSUPOSTOS EXTRÍNSECOS Tempestivo o recurso. Regular a representação processual. A garantia do Juízo é inexigível. PRESSUPOSTOS INTRÍNSECOS O seguimento do recurso de revista oferecido contra decisão proferida em execução de sentença está restrito aos casos em que evidenciada ofensa direta e literal a norma inserta na Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.3.
(4) fls.4. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 Constituição da República, a teor do disposto no artigo 896, § 2º, da CLT. DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DO TRABALHO / LIQUIDAÇÃO/CUMPRIMENTO/EXECUÇÃO / CONSTRIÇÃO / PENHORA / AVALIAÇÃO / INDISPONIBILIDADE DE BENS. Alegação(ões): - violação do art. 5º, "caput" e XXII, da CF. - violação a dispositivos de legislação infraconstitucional. - divergência jurisprudencial. - contrariedade à Súmula nº 375 do Superior Tribunal de Justiça. A Seção Especializada em Execução negou provimento ao agravo de petição do terceiro-embargante, ora recorrente, mantendo a decisão que entendeu perfeitamente aplicável ao caso em debate o disposto no inciso II do art. 593 do CPC, e rejeitou os embargos de terceiro, mantendo incólume o registro de indisponibilidade realizado sobre o veículo Mercedes Benz/L 608 D, placa IHE 6985. Transcrevo os fundamentos: (...) O artigo 593, inciso II, do CPC traz a hipótese em que a alienação ou oneração de bens induz à ocorrência de fraude à execução quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência. A fraude à execução, diferentemente do que ocorre com a fraude contra credores, gera ineficácia relativa do ato de oneração ou alienação, isto é, caracterizada a fraude à execução, o ato praticado - embora válido e eficaz entre as partes que o celebraram - não surte qualquer efeito em relação à execução movida, podendo o bem ser penhorado normalmente. É como se, para a execução, a alienação ou oneração do bem não tivesse ocorrido. Regra geral, a propriedade dos bens móveis se transmite pela mera tradição. No caso de veículo automotor, contudo, o Código de Trânsito Brasileiro estabelece que constitui elemento de prova da propriedade do veículo o competente registro perante o DETRAN. No caso em tela, conforme se verifica da fl. 11v, o terceiro-embargante adquiriu o automóvel apenas em 27-05-2003 do reclamado Anselmo Brocker, data posterior ao ajuizamento da ação principal (21-06-1999). Não vinga, ainda, a arguição de que o veículo há tempo já não era da propriedade do reclamado Anselmo Brocker, mas sim de Adoir Brocker, uma vez que a cadeia sucessória e o documento de transferência juntados pelo embargante às fls. 11-verso e 12 demonstram, de forma inequívoca, que o proprietário anterior era o devedor da ação principal, Sr. Anselmo Brocker. Ademais, a procuração outorgada pelo proprietário Anselmo ao sr. Adoir Brocker em Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(5) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 01-10-2001 (fl. 12-verso) apenas lhe dá o poder de vender o veículo em litígio, nada referindo acerca da possibilidade de ele próprio exercitar o poder de compra, o que, conforme já dito, só seria cabível mediante a transferência de propriedade do bem junto ao DETRAN, o que não ocorreu. Assim, é de fácil constatação que a transferência da propriedade do bem se operou após o ajuizamento da ação trabalhista, sendo irrelevante que a constrição judicial tenha se dado após a transferência da propriedade do veículo, considerando que na data da venda não havia qualquer restrição sobre o veículo, tendo em vista que, leva-se em conta, gize-se, a data do ajuizamento da reclamatória trabalhista. O terceiro-embargante tinha plenas condições de examinar sobre a existência de execução que se operava contra o vendedor do bem. Desta forma, no caso em tela houve fraude à execução na alienação do bem penhorado, porquanto não podia o executado, ciente da ação trabalhista que corria contra si, desfazer-se do seu patrimônio a fim de frustrar o pagamento dos débitos trabalhistas. Gize-se que sequer foram carreadas aos autos certidões negativas de ações judiciais em curso, a fim de comprovar que o terceiro-embargante teria adquirido o bem de boa-fé, com todo zelo exigível. Nega-se provimento ao agravo de petição do terceiro-embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso. (Relator: João Alfredo Borges Antunes de Miranda, grifei). A decisão não afronta direta e literalmente os preceitos da Constituição Federal indicados. Inviável a análise das demais alegações recursais, face à restrição legal imposta aos processos em execução, na forma do § 2º do art. 896 da CLT. CONCLUSÃO Nego seguimento.” O terceiro embargante pretende a reforma da decisão. Alega que adquiriu o bem móvel em 27/5/2003, antes de existir vedação a sua transferência junto ao DETRAN. Aduz que não foi reconhecido o seu direito de propriedade, pois o bem não pertencia ao executado “há mais de 2 anos e 3 meses da data em que o recorrente adquiriu o veículo”. Sustenta que deve ser desconstituída a penhora sobre o veículo, pois não há prova nos autos da má-fé na sua aquisição. Aponta violação do art. 5.º, XXXV e LV, da Constituição Federal. Renova a divergência jurisprudencial e a arguição de Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.5.
(6) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 violação dos arts. 5.º, XXII, da Constituição Federal e 1.267 do Código Civil; e de contrariedade à Súmula 375 do STJ. Consoante jurisprudência do STJ, não é presumível a fraude à execução da mera transferência da propriedade do veículo após a citação da execução, mas sim quando houver o registro da pendência de ação contra o proprietário do veículo perante o Detran. Nesse sentido, cito o seguinte julgado do STJ: “EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. ALIENAÇÃO DE VEÍCULO. AUSÊNCIA DE REGISTRO DE PENHORA NO DETRAN. ADQUIRENTE DE BOA-FÉ. EFICÁCIA DO NEGÓCIO JURÍDICO. SÚMULA 375/STJ. AUSÊNCIA DE OMISSÃO. 1. A inexistência de inscrição da penhora no DETRAN afasta a presunção de conluio entre alienante e adquirente do automóvel e, como resultado, o terceiro que adquire de boa-fé o veículo não pode ser prejudicado no reconhecimento da fraude à execução. 2. ‘A jurisprudência pacífica desta Corte inclina-se no sentido de que presume-se a boa-fé do terceiro adquirente quando não houver registro no órgão competente acerca da restrição de transferência do veículo, devendo ser comprovado pelo credor que a oneração do bem resultou na insolvência do devedor e que havia ciência da existência de ação em curso (Precedentes: REsp 944.250/RS, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 20.8.2007; AgRg no REsp 924.327/RS, Rel. Min. José Delgado, DJ de 13.8.2007; AgRg no Ag 852.414/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJ de 29.6.2007).’ (REsp 675.361/CE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 25.8.2009, DJe 16.9.2009). 3. Incidência da Súmula 375 do STJ: "O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente". 4. Os embargos de declaração somente são cabíveis nos casos de obscuridade, contradição ou omissão nas decisões judiciais. Embargos de declaração rejeitados.” (EDcl no AgRg no Ag 1168534/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/11/2010, DJe 11/11/2010). Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.6.
(7) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 Por tais razões, ante a possibilidade de ofensa ao art. 5.º, XXII, da Constituição Federal, DOU PROVIMENTO ao agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista.” II - RECURSO DE REVISTA 1. CONHECIMENTO Presentes os pressupostos extrínsecos de admissibilidade do recurso de revista, passo à análise dos pressupostos intrínsecos. 1.1. EXECUÇÃO. EMBARGOS EXECUÇÃO. PENHORA. VEÍCULO (BEM MÓVEL). DE. TERCEIRO.. FRAUDE. À. O Tribunal Regional decidiu a matéria pelos seguintes fundamentos, in verbis: “Alega o terceiro-embargante ser proprietário do veículo objeto de penhora no processo matriz, porquanto teria o adquirido de Adoir Brocker em 27-05-2003, e este, por sua vez, teria adquirido do reclamado em 01-10-2001. O juízo de origem assim se pronunciou sobre o tema: No caso dos autos, a embargante pretende o levantamento do registro de indisponibilidade que recaiu sobre o veículo Mercedes Benz/L 608 D, placa IHE 6985, alegando que o bem foi adquirido de boa-fé, uma vez que à época da compra não havia nenhuma restrição na documentação do veículo, e que o mesmo não foi adquirido diretamente do devedor da ação principal, desconhecendo o embargante qualquer litígio envolvendo o vendedor. Porém, entendo que não assiste razão à embargante, devendo ser mantida a indisponibilidade efetivada nos autos principais. Analisando a documentação juntada à inicial, verifica-se que o embargante adquiriu o veículo penhorado em 1º/10/2001, com registro de transferência apenas em 27/05/2003 (fl. Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.7.
(8) fls.8. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 22-verso), data posterior ao ajuizamento da ação principal (21/06/1999), tendo a transferência ocorrido em 17/12/2002 (fl. 119-verso, dos autos principais), ou seja, após o início da execução. Sendo assim, caracteriza-se de forma inequívoca a fraude à execução arguida pelo embargado, uma vez que, à época da alienação, corria contra o vendedor uma demanda trabalhista, sendo absolutamente razoável presumir a sua insolvência, ante a ausência de outros bens capazes de satisfazer a execução, que se arrasta há quase dez anos. (...) Ainda, não procede a alegação de que o veículo foi adquirido de terceira pessoa, no caso o sr. Adoir Brocker, uma vez que a cadeia sucessória e o documento de transferência juntados pelo embargante às fls. 11-verso e 12 demonstram de forma inequívoca que o proprietário anterior era o devedor da ação principal, Anselmo Brocker, valendo ressaltar que a procuração outorgada pelo proprietário ao sr. Adoir Brocker em 01/10/2001 (fl. 12-verso) conferiu a este unicamente o poder de vender o veículo em debate, não tendo, por si só, o poder de transferir a propriedade do veículo ao outorgado, o que só seria cabível mediante a transferência de propriedade do bem junto ao DETRAN, o que não ocorreu. (...) Sendo assim, entendo perfeitamente aplicável ao caso em debate o disposto no inciso II do art. 593 do CPC, motivo pelo qual rejeito os embargos, mantendo-se incólume o registro de indisponibilidade realizado sobre o veículo descrito na inicial. Imperioso tecer, primeiramente, algumas considerações acerca do instituto da fraude à execução. A fraude contra credores é instituto de direito material, representando defeito do negócio jurídico que importa alienação ou oneração patrimonial, praticado por quem está na condição de insolvência - criada por fato anterior ou pelo próprio negócio jurídico - em prejuízo de seus credores. Viola-se aqui interesses privados dos credores. A fraude à execução, por seu turno, é vício muito mais grave, que não atinge apenas os interesses dos credores, afetando diretamente a autoridade do Estado concretizada no exercício jurisdicional. Seu reconhecimento está lastreado na existência de uma ação contemporânea ao ato de diminuição patrimonial. Havendo ação judicial em andamento, o interesse na Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(9) fls.9. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 manutenção do patrimônio do executado não é mais apenas do credor, mas também da jurisdição, cuja atividade atua sobre este conjunto de bens. Por corolário, a fraude à execução não se limita a gerar efeitos no campo processual, sendo também tipificada como delito (artigo 179 do Código Penal). Justamente por se tratar de situação mais grave, a lei dispensa a prova da intenção de fraudar (consilium fraudis). Bastará a ocorrência do fato estabelecido em lei - para estar configurada a fraude à execução. O artigo 593, inciso II, do CPC traz a hipótese em que a alienação ou oneração de bens induz à ocorrência de fraude à execução quando, ao tempo da alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência. A fraude à execução, diferentemente do que ocorre com a fraude contra credores, gera ineficácia relativa do ato de oneração ou alienação, isto é, caracterizada a fraude à execução, o ato praticado - embora válido e eficaz entre as partes que o celebraram - não surte qualquer efeito em relação à execução movida, podendo o bem ser penhorado normalmente. É como se, para a execução, a alienação ou oneração do bem não tivesse ocorrido. Regra geral, a propriedade dos bens móveis se transmite pela mera tradição. No caso de veículo automotor, contudo, o Código de Trânsito Brasileiro estabelece que constitui elemento de prova da propriedade do veículo o competente registro perante o DETRAN. No caso em tela, conforme se verifica da fl. 11v, o terceiro-embargante adquiriu o automóvel apenas em 27-05-2003 do reclamado Anselmo Brocker, data posterior ao ajuizamento da ação principal (21-06-1999). Não vinga, ainda, a arguição de que o veículo há tempo já não era da propriedade do reclamado Anselmo Brocker, mas sim de Adoir Brocker, uma vez que a cadeia sucessória e o documento de transferência juntados pelo embargante às fls. 11-verso e 12 demonstram, de forma inequívoca, que o proprietário anterior era o devedor da ação principal, Sr. Anselmo Brocker. Ademais, a procuração outorgada pelo proprietário Anselmo ao sr. Adoir Brocker em 01-10-2001 (fl. 12-verso) apenas lhe dá o poder de vender o veículo em litígio, nada referindo acerca da possibilidade de ele próprio exercitar o poder de compra, o que, conforme já dito, só seria cabível Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(10) fls.10. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 mediante a transferência de propriedade do bem junto ao DETRAN, o que não ocorreu. Assim, é de fácil constatação que a transferência da propriedade do bem se operou após o ajuizamento da ação trabalhista, sendo irrelevante que a constrição judicial tenha se dado após a transferência da propriedade do veículo, considerando que na data da venda não havia qualquer restrição sobre o veículo, tendo em vista que, leva-se em conta, gize-se, a data do ajuizamento da reclamatória trabalhista. O terceiro-embargante tinha plenas condições de examinar sobre a existência de execução que se operava contra o vendedor do bem. Desta forma, no caso em tela houve fraude à execução na alienação do bem penhorado, porquanto não podia o executado, ciente da ação trabalhista que corria contra si, desfazer-se do seu patrimônio a fim de frustrar o pagamento dos débitos trabalhistas. Gize-se que sequer foram carreadas aos autos certidões negativas de ações judiciais em curso, a fim de comprovar que o terceiro-embargante teria adquirido o bem de boa-fé, com todo zelo exigível. Nega-se provimento ao agravo de petição do terceiro-embargante, Paulo Marceu da Silva Cardoso.” (fls. 121/126) Nas razões de recurso de revista, o terceiro embargante, ora Recorrente, sustenta que tem a posse e propriedade do veículo objeto da ação desde 27/05/2003, quando lhe foram transferidas por Adoir Brocker, conforme provam os documentos juntados com a petição inicial, quais sejam, instrumento de procuração e certificado de registro de propriedade de veículo e autorização de transferência. Afirma que o anterior e possuidor do veículo, Sr. Adoir Brocker, que possuía o mesmo desde 01/10/2001, possuía um instrumento de procuração conferindo-lhe os mais amplos poderes para dispor do veiculo da forma como quisesse, inclusive vendê-lo, a quem quer que seja sem prestação de conta. Aduz, pois, que desde 01/10/2001 o veículo objeto da penhora não mais pertencia ao patrimônio do exequente, pois a partir desta data pertenceu a Adoir Brocker. Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(11) fls.11. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 Alega que quando adquiriu o veiculo nenhuma restrição, quanto à transferência do mesmo, pesava sobre o seu prontuário junto ao DETRAN. Alega que não existe prova de que tenha adquirido o veículo objeto da ação de má-fé. Por fim, salienta que o acórdão recorrido não reconheceu o direito de propriedade do veiculo (bem-móvel), que está na posse e propriedade do Recorrente a mais de 7 (sete) meses antes da determinação de indisponibilidade do bem, e desde quando já fazia mais de 2 anos e 3 meses que o veículo já não mais fazia parte do patrimônio do Executado. Indica violação do art. 5º, XXII, da Constituição Federal. Ao exame. Inicialmente, destaco que o cabimento de recurso de revista contra acórdão proferido em fase de execução depende de demonstração inequívoca de ofensa direta e literal à Constituição Federal, nos termos do art. 896, § 2º, da CLT e da Súmula 266 do TST. In casu, o Tribunal Regional deixou assentado que o Código de Trânsito Brasileiro estabelece que constitui elemento de prova da propriedade do veículo o competente registro perante o DETRAN, porquanto o documento juntado à fl. 11-verso comprova que o terceiro embargante, ora Recorrente, adquiriu o veículo apenas em 27/05/2003 do Reclamado Sr. Anselmo Brocker, em data posterior ao ajuizamento da ação principal que se deu em 21/06/1999. Registrou que a cadeia sucessória e o documento de transferência, juntados às fls. 11-verso e 12, demonstram, de forma inequívoca, que o proprietário anterior era o devedor da ação principal, Sr. Anselmo Brocker. Dessarte, a Corte Regional assinalou que a procuração outorgada pelo proprietário Anselmo Brocker ao Sr. Adoir Brocker em 01/10/2001 (fl. 12-verso), apenas lhe outorgara o poder de vender o veículo em litígio, nada referindo acerca da possibilidade de ele próprio exercitar o poder de compra, o que só seria cabível mediante a transferência de propriedade do bem junto ao DETRAN, o que não ocorreu. Registrou, ainda, que não foram juntadas certidões negativas de ações Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(12) fls.12. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 judiciais em curso, a fim de comprovar que o Recorrente teria adquirido o bem de boa-fé. In casu, trata-se de configuração de fraude à execução, em razão de alienação de veículo após o ajuizamento da ação trabalhista, por terceiro adquirente de boa-fé, sem que constasse do registro do veículo no Detran gravames a respeito da indisponibilidade do bem. O art. 5º, XXII, da Constituição Federal, dispõe que “é garantido o direito de propriedade”. O Superior Tribunal de Justiça vem adotando o entendimento jurisprudencial em relação aos veículos automotores, entendimento semelhante ao adotado para os bens imóveis, no sentido de que não é presumível a fraude a partir da mera transferência da propriedade do veículo após a citação da execução, mas sim quando houver o registro da pendência de ação contra o proprietário no registro do veículo perante o Detran. Nesse sentido o seguinte julgado proferido pelo STJ: “EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. ALIENAÇÃO DE VEÍCULO. AUSÊNCIA DE REGISTRO DE PENHORA NO DETRAN. ADQUIRENTE DE BOA-FÉ. EFICÁCIA DO NEGÓCIO JURÍDICO. SÚMULA 375/STJ. AUSÊNCIA DE OMISSÃO. 1. A inexistência de inscrição da penhora no DETRAN afasta a presunção de conluio entre alienante e adquirente do automóvel e, como resultado, o terceiro que adquire de boa-fé o veículo não pode ser prejudicado no reconhecimento da fraude à execução. 2. ‘A jurisprudência pacífica desta Corte inclina-se no sentido de que presume-se a boa-fé do terceiro adquirente quando não houver registro no órgão competente acerca da restrição de transferência do veículo, devendo ser comprovado pelo credor que a oneração do bem resultou na insolvência do devedor e que havia ciência da existência de ação em curso (Precedentes: REsp 944.250/RS, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 20.8.2007; AgRg no REsp 924.327/RS, Rel. Min. José Delgado, DJ de 13.8.2007; AgRg no Ag 852.414/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJ de 29.6.2007).’ (REsp Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho.
(13) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 675.361/CE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 25.8.2009, DJe 16.9.2009). 3. Incidência da Súmula 375 do STJ: ‘O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente’. 4. Os embargos de declaração somente são cabíveis nos casos de obscuridade, contradição ou omissão nas decisões judiciais. Embargos de declaração rejeitados.” (EDcl no AgRg no Ag 1168534/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/11/2010, DJe 11/11/2010) Dessa forma, considerando o desconhecimento pelo terceiro embargante, Recorrente, da existência de gravames quanto à indisponibilidade do veículo penhorado, não há como ser reconhecida a existência de fraude à execução. Ante o exposto, CONHEÇO do recurso de revista, por violação do art. 5º, XXII, da Constituição Federal. 2. MÉRITO 2.1. EXECUÇÃO. EMBARGOS EXECUÇÃO. PENHORA. VEÍCULO (BEM MÓVEL). DE. TERCEIRO.. FRAUDE. À. Como consequência lógica do conhecimento do recurso de revista por violação do art. 5º, XXII, da Constituição Federal, DOU-LHE PROVIMENTO para afastar a penhora sobre o veículo adquirido pelo terceiro de boa-fé. ISTO POSTO ACORDAM os Ministros da Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade: I - dar provimento ao agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista respectivo, o qual será submetido a julgamento na primeira sessão ordinária subsequente; II - conhecer do recurso de revista, por violação Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.13.
(14) Poder Judiciário Justiça do Trabalho Tribunal Superior do Trabalho. PROCESSO Nº TST-RR-517-66.2012.5.04.0351 do art. 5º, XXII, da Constituição Federal, e, no mérito, dar-lhe provimento para afastar a penhora sobre o veículo adquirido pelo terceiro de boa-fé. Brasília, 17 de dezembro de 2014. Firmado por Assinatura Eletrônica (Lei nº 11.419/2006). DOUGLAS ALENCAR RODRIGUES Ministro Relator. Firmado por assinatura eletrônica em 17/12/2014 pelo Sistema de Informações Judiciárias do Tribunal Superior do Trabalho, nos termos da Lei nº 11.419/2006.. Este documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.tst.jus.br/validador sob código 1000D1A9E1428C09BB.. fls.14.
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