CONSCIENCIA E VIVENCIA
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C E Z A R W A G N E R D E L IM A G Ó lS 1
O uando tom am os consciência de algo, im ediatam ente nos diferenciam os
dele. P or isso, quando tom am os consciência de algo em nós, sim ultâneam ente
nos tornam os objeto de nós m esm os; perdem os a nossa eorporeidade, m as som os
capazes de realizar o cam inho de volta.
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e l a b o r a ç â o do real pelo ato reflexivo afastado das dim ensõespré-refle-xivas, deform a a existência em si-m esm a, cuja essência está nas sensações do
real. P or conseguinte, o ser se separa do real, ressurge com o idéia ou esprrlto e
fica im possibilitado de realizar o cam inho de volta à sua natureza anim al.
A o subordinar a vivência à consciência (dissociando a reflexão da
pré-refle-x ã o } , estam os reforçando a patologia, básica de nossa civilização, a que nega o
corpo e glorifica o espírito. O sagrado e o profano com o existência una são
dualizados, sendo reprim ida a naturalidade corpórea e a espontaneidade anim al.
D ividim os o ser e rom pem os com a sua essência. B loqueam os as expressões de
nossos instintos e fabricam os um ser m oral e ideal.
M erleau-P onty, citado por M arilena C hauí ( 1 9 8 4 ) , "propõe o retorno às
origens da própria reflexão e descobrir seu solo anterior à atividade reflexiva e
responsável por ela. E ssa região é o 'Iogos do m undo estético', isto é, do m undo
sensível, unidade indivisa do corpo e das coisas, unidade que desconhece a
ruptura reflexiva entre sujeito e objeto".
P ara unir o reflexivo à sua origem , à pré-reflexão, M erleau-P onty(2)
propõe a vivência da corporeidade e diz: "O corpo apresenta aquilo que sem pre
foi apanágio da consciência - a reflexividade. M as apresenta, tam bém , aquilo
que sem pre foi apanágio do objeto - a visibilidade. O corpo é um visível que se
vê, um tocado que se toca, um sentido que se sente" .
.. P rofessor do D epartam ento de P sicologia da U F C e V íce-P resldente da A ssociação
L atino-A m ericana de B iodança.
2. O P . C IT . C h a u r , M .; O s P ensadores, pág. X I.
A experiência corporal é origem e base de um m undo sensível, " ...
selva-gem e bruto, de onde em ergem as categorias reflexivas" C hau í (1984).
O uando reprim im os a expressão do nosso m undo instintivo, estam os
reti-rando o sustentáculo da reflexividade, dissociando corpo e m ente, negando a
intersubjetividade com o intercorporeidade.
P ara T oro (1980), o hom em é um ser fronteiriço. P ara C hau í 11984), o
hom em é um "ser de abism o" quando descobre o selvagem que há srn si. O
hom em tende à m anifestação do selvagem até os lim ites de sua própria
possibili-dade e infinitude; " ... não pode ficar encerrado, m as se m anifesta e se ultrapassa
num a m odificação infinitam ente aberta e nova" (C hauí, 1984).
T oro (id.}, falando sobre a patologia da civilização ocidental, afirm a ser ela
conseqüência da repressão ou negação da vivência pela consciência. O m undo
corporal, sensível e real, é algem ado e encarcerado em rígida subordinação à
consciência. P or outro lado, essa, necessáriam ente, só pode m anifestar-se com o
totalidade que abarca, expressa e integra o ser, quando se enraiza na naturalidade
corpórea e na espontaneidade anim al. S om ente assim a consciência é o guia do
selvagem no m undo e não sua carcereira.
G uiar o selvagem no m undo não é um a tarefa fácil de ser em preendida por
qualquer ser hum ano, haja vista, por um lado, as m agnas estruturas de
consciên-cia da civilização atual e, por outro lado, o pavor cósm ico de cada ser hum ano
frente ao caos e à incerteza da sua própria vida.
A consciência predom ina e reprim e qualquer possibilidade de expressão do
selvagem , do m undo instintivo hum ano. O corpo é negado, a expressão em
o-cional reprim ida em seus canais naturais e os instintos retirados do
hom em social.
A chance de m anifestar-se a natureza hum ana em sua trajetória pela vida,
sucum be frente às distorções e rupturas provocadas no indivíduo por sua própria
consciência, m oldada na separação entre real e ideal.
B loqueada sua potencialidade o ser apavora-se frente à tecitura da vida,
na qual ele é um a pequeníssim a parcela de incerteza no devir cósm ico, gerada no
caos de um U niverso harm ônico. O selvagem , necessário à cam inhada reticular do
hom em em busca de um lugar no m undo, não se m anifesta, tornando o hom em
fraco e insensível num viver estéril e vazio.
F ortaleza, 25 de junho de 1985
REFERÊNCIAS
BIBLlOGRAFICASNMLKJIHGFEDCBA
C H A U i " , M A R I L E N A - Apresentação sobre Merteeu-Pontv , c o l e ç ã o O s P e n s a d o r e s , A b r i l E d i t o r a , 1 9 8 5 , S . P .
T a R a R O L A N D O - Textos de Biodança, E s c o l a N o r d e s t i n a d e B i o d a n ç a , 1 9 8 2 , C E .