MESTRADO EM SAÚDE PÚBLICA – Especialização em Epidemiologia Resumo de Tese de Mestrado:
O Uso Reportado de Medicamentos e Polimedicação: Um Olhar Sobre O Uso De Anti-inflamatórios Não Esteróides
Self-Reported Medication Use and Polypharmacy: A Glance at Non-Steroidal Anti-Inflammatory Drugs Use
Cristina Pedreira Pinheiro
O uso concorrente de vários medicamentos em simultâneo é designado de polimedicação. Os medicamentos em causa podem ter sido prescritos e ser então necessários para atingir ou manter determinado estado de saúde, mas também podem resultar de diferentes erros de prescrição, auto-medicação, ou incumprimento de planos terapêuticos. Existem evidências que associam à polimedicação a ocorrência de reacções adversas, interacções medicamentosas e, consequentemente, falta de adesão à terapêutica.
Este estudo baseou-se no estudo populacional EPI-Porto do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina do Porto, mais precisamente na informação recolhida acerca dos medicamentos reportados em resposta a um questionário estruturado aplicado por entrevistadores treinados que, entre outras aferições, questionaram os participantes acerca dos medicamentos que haviam tomado durante os últimos 12 meses. Constam deste estudo as respostas de 1368 participantes, dos quais 939 (68.6%) reportaram a toma de um medicamento durante pelo menos 14 dias, tendo sido este o tempo mínimo de exposição para inclusão no estudo. A quantidade média de medicamentos reportados foi de 2.39 por participante (homens 1.99, mulheres 2.64, p <0.001), ou 3.49 por participante que tenha declarado o uso de pelo menos um medicamento, somando no total 3274 medicamentos.
Estimaram-se as prevalências dos diferentes regimes de uso de medicamentos considerados no estudo, monomedicação, polimedicação menor (uso de 2 a 4 medicamentos) e polimedicação major (uso de 5 ou mais medicamentos): 17.0, 32.0 e 19.7%, respectivamente, com diferenças significativas entre os sexos.
Observou-se que a polimedicação era particularmente mais frequente nas mulheres, nos mais velhos, nos menos escolarizados, e nos que vivem sós.
Ser mulher, mais velho, e consultar um maior número de vezes com o médico assistente são factores que se mostraram preditores de polimedicação major nesta população. Sendo os anti-inflamatórios não esteróides uns dos grupos terapêuticos mais reportados neste estudo (8.5%), e já sendo conhecida a prevalência de doenças reumáticas na amostra, procurou-se inferir sobre a eventual associação entre o uso de medicamentos deste grupo e as mesmas doenças, mas também a associação entre o seu uso e a existência de um regime terapêutico de polimedicação. Verificou-se que o uso de anti- inflamatórios não esteróides aumentava em ambos os sexos com a idade e com a prevalência de doenças reumáticas. Verificou-se também que a baixa escolaridade, as doenças reumáticas e a polimedicação são factores preditores do uso de anti-inflamatórios não esteróides nesta população, e concluiu-se que, por si só, a polimedicação explicava o uso destes medicamentos em indivíduos que não padeciam de qualquer doença reumática.
As mulheres e os mais velhos merecem maior atenção no que diz respeito à sua exposição a diferentes medicamentos e aos efeitos que daí podem advir.