PEDAÇOS DE MIM:
O luto vivido por pessoas com deformidade facial adquirida pós-trauma
bucomaxilofacial e sua interferência no seu desenvolvimento
Tese apresentada ao Instituto de Psicologia, da Universidade de São Paulo para obtenção do Título de Doutor em Psicologia.
São Paulo 2006
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
Elaine Gomes dos Reis Alves
PEDAÇOS DE MIM:
O luto vivido por pessoas com deformidade facial adquirida pós-trauma
bucomaxilofacial e sua interferência no seu desenvolvimento
Tese apresentada ao Instituto de Psicologia, da Universidade de São Paulo para obtenção do Título de Doutor em Psicologia.
Área de Concentração: Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano.
Orientadora: Profª. Drª. Maria Júlia Kovács.
São Paulo 2006
Assinatura:
E.mail: [email protected]
Catalogação na publicação Serviço de Biblioteca e Documentação
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Alves, Elaine Gomes dos Reis.
Pedaços de mim: o luto vivido por pessoas com deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilofacial e sua interferência no seu desenvolvimento / Elaine Gomes dos Reis Alves; orientadora Maria Júlia Kovács. --São Paulo, 2006.
307 p.
Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia.
Área de Concentração: Psicologia Escolar, da Saúde e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
1. Desfiguramento físico 2. Traumatismos maxilofaciais 3. Luto 4. Bioética 5. Percepção da face I. Título.
RD526
Alves, Elaine Gomes dos Reis. Pedaços de Mim: o luto vivido por pessoas com deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilofacial e sua interferência no seu desenvolvimento. Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Escolar, da Saúde e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2006.
Aprovado em:
Banca Examinadora
Prof(a). Dr(a). _______________________________________________________________
Instituição: ____________________________ Assinatura:_________________________
Prof(a). Dr.(a) _______________________________________________________________
Instituição: ____________________________ Assinatura: ________________________
Prof(a). Dr(a)__. _____________________________________________________________
Instituição: ____________________________ Assinatura: ________________________
Prof(a). Dr(a). _______________________________________________________________
Instituição: ____________________________ Assinatura: ________________________
Prof(a). Dr(a). _______________________________________________________________
Instituição: ____________________________ Assinatura: ________________________
DEDICATÓRIA
Roberto, Daniel e Beatriz,
Por fazer a vida valer à pena,
Pelo sentido que dão à minha vida
E por serem o sentido da minha vida!
Algumas pessoas fazem muita falta. Elas entram em nossa vida, nos iluminam e nos aquecem e depois se vão, levando algo de nós e deixando muito de si. Fica um grande vazio, muitas lembranças e uma eterna e doída saudade.
Meus pais Atílio e Senhorinha
Por me ensinarem a ter fé, acreditar em Deus e sempre ter coragem, garra, determinação, bom humor, otimismo, alegria, honestidade e bondade em qualquer situação e momento de vida, desde os mais fáceis e felizes até os mais tristes e difíceis. O último ensinamento que me deixaram é que o amor transcende a vida.
Profª. Drª. Lígia Assumpção Amaral
Mainha querida, por me acolher em seu coração. Deu-me sua mão e me conduziu firme e carinhosamente.
Mulher corajosa, determinada, irreverente, generosa, ousada, atrevida, amorosa e milhares de outros atributos.
Ao me deixar órfã, me fez herdeira de sua enorme fortuna: A amizade de Nancy, Solange, Claire, Elói, Lineu, Robson, suas filhas Silvia e Renata; O doutorado no IPUSP e, antes de partir, teve o cuidado de me colocar no colo da Maria Júlia.
AGRADECIMENTOS
De uma ou outra maneira, ao longo do meu caminho encontrei várias pessoas que me estimularam para este Doutorado. Nele, encontrei outras pessoas que me apoiaram e me ajudaram a chegar até aqui. Agradecer individualmente se transformaria em uma tese só de agradecimentos.
À minha orientadora Maria Júlia Kovács, pela presença constante, seu carinho, paciência, olhar cuidadoso, abraços e palavras de apoio. Sou grata por ter acreditado em mim e possibilitado esse trabalho. Ao seu lado aprendi muito, mas, o que mais marcou foi descobrir que o status do nome de uma pessoa não é suficiente para retirar dela, nem sua postura ética, nem sua humildade. Receba minha admiração. Sua amizade é o maior presente que levo desses quatro anos de parceria.
Ao meu querido Mestre Dalton Luiz de Paula Ramos, pela confiança, o cuidado “de longe”, o olhar de apoio, incentivo e estímulos constantes. Adora me desafiar e ao fazer isso, proporciona meu crescimento profissional e pessoal.
À Hilda Ferreira Cardozo, amiga conquistada durante o Mestrado. Seu trabalho foi minha fonte de inspiração para o Doutorado. Sua alegria e coragem são inspirações para a vida.
À Maria Cezira Fantini Nogueira Martins, que carinhosamente me recebeu no Instituto de Saúde e com quem ainda tenho muito a aprender. Pelas dicas no Exame de Qualificação e pela orientação “de longe” em pesquisa qualitativa. Sua amizade é um grande privilégio.
À Ingrid Esslinger, parceira no LEM - Laboratório de Estudos Sobre a Morte, do IPUSP, pela preocupação com o meu bem-estar durante a escrita da tese, pela amizade, pela confiança, pelas dicas e apoio e, principalmente, por “estar junto”.
À Nancy Vaiciunas, mãezona e amiga conquistada, pelo “orelhão” e ombro macio, pelo olhar de apoio, por ver e mostrar as coisas exatamente como elas são, pelo sentido de justiça, por apontar caminhos e possibilidades, pela organização invejável, por cuidar de nós e, claro, pelos lanches deliciosos que só ela prepara.
Ao querido Mestre e amigo Carlos Botazzo, por quem tenho grande admiração, pelo estimulo e orientação em minhas pesquisas sobre os significados psicológicos da boca, pela disponibilidade e atenção sempre que pedi “socorro”, por compartilhar seus conhecimentos, pelos momentos de parceria e pelo seu bom humor.
À amiga Ana Beatriz Brandão, pela amizade e por compartilhar algumas agonias.
Aos amigos e parceiros queridos, Luciana Melo, Márcia Boen, Márcia Jorge e Nelson Sakaguti, pela cumplicidade, parceria, incentivo, apoio, zelo, preocupação e cuidado com o outro e pela harmonia e companheirismo em nossa amizade. Estar junto de vocês faz a vida parecer uma grande brincadeira. Bom demais!
À Drª. Maria Paula Perez, chefe do Setor de Odontologia do Hospital das Clínicas FMUSP, pelo acolhimento e por autorizar, favorecer e facilitar a realização desta pesquisa.
Aos colaboradores desta pesquisa que, ao contarem suas histórias, enriqueceram não só este trabalho, mas meu aprimoramento pessoal e espiritual.
Aos funcionários, dentistas, cirurgião-plástico e residentes do Setor de Trauma Bucomaxilofacial, do HCFMUSP pelo acolhimento, dicas, troca de experiências, aulas e paciência comigo.
Ao LEM – laboratório de Estudos sobre a Morte, do Instituto de Psicologia da USP, por todo aprendizado e possibilidades.
Às amigas do Grupo de Orientandos da Maria Júlia, por ouvirem minhas dúvidas e aflições, pelas dicas e colaborações com minha pesquisa e pela competição acirrada e divertida pela atenção da Chefa. À amiga Silvana Parisi agradeço também pela sugestão do nome “Vidas Entrelaçadas” para o Capítulo XI (promessa é dívida!).
A todos os amigos do Grupo de Estudos Em Bioética, da Faculdade de Odontologia USP, pelo incentivo, parceria, cuidado e confiança e pelas acaloradas reuniões sempre tão divertidas.
À Faculdade de Odontologia, da UNIP – Universidade Paulista de São Paulo, na pessoa do Prof. Dr.
Nicolau Tortamano pela permissão e dispensa para a realização do Doutorado.
A CAPES pelo apoio e incentivo por meio da Bolsa de Estudos.
Ao meu filho Daniel dos Reis Alves pela confecção da capa desta tese.
Às minhas irmãs, Nega (Eliane) e Angélica, com quem sempre posso contar, pelo apoio, incentivo, amizade e pelos cuidados com a Beatriz, todas as vezes em que precisei.
À todos aqueles cujos nomes não constam aqui, mas que estiveram junto e ofereceram colo, seja para leitura de capítulos, revisão de português, tradução, dicas, apontamentos importantes, momentos de descontração;
pelas piadinhas dentro e fora de hora, por compartilhar lágrimas e gargalhadas, alegrias e tristezas, perdas e conquistas, pela troca de carinhos, beijos e abraços apertados, por compartilhar ou, simplesmente, por estar lá, naquela hora.
Obrigado Senhor por mais esta possibilidade, por tantas oportunidades e por todos esses pedaços de mim que me fazem inteira.
Amém!
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS RESUMO
ABSTRACT
APRESENTAÇÃO 1
I - A BELEZA COMO MITO – O MITO COMO BELEZA 7
1. O Belo 9
2. Estética 13
3. O rosto 17
3.1 Olhos 22
3.2 Boca 25
Língua 33
Dentes 35
3.3 Sorriso 42
II - O ROSTO MUTILADO 45
1. Fraturas da face 52
2. O trauma 53
3. O espectro da dor 68
III - PERDAS 74
1. Mortes em vida 85
2. Luto, que luta! 88
IV - BIOÉTICA 101
V - DANO MORAL 113
VI - OBJETIVOS 125
VII - MÉTODO 126
1. Sobre a pesquisa qualitativa 127
2. Caracterização dos participantes 134
3. Procedimentos 137
1. Ricardo tem pelo na boca 144 2. Saulo colocou a espingarda debaixo do queixo e atirou 145
3. Vitor quebrou o espelho 146
4. Gabriela ficou seis meses sem olhar no espelho 147
5. Otávio não tinha mais boca 148
6. Silvia não gostava do encaramento dos outros 150
IX - NO PALCO DAS OBSERVAÇÕES 152
1. Na frente das cortinas 154
2. Algumas cenas 156
3. Por trás das cortinas 168
X - PEDAÇOS PERDIDOS PELO CAMINHO 171
RICARDO - Foram dois tiros: do bandido e do hospital 173 SAULO - Decidi: eu me mato que é melhor 189 V ITOR - Eu olhava no espelho, parecia um bicho 194 GABRIELA - Estou horrível e todo mundo vai reparar 203 OTÁVIO - Ter duas mãos e não poder comer 210 SILVIA - O buco também errou e ficou o rosto mais deformado 218
XI - VIDAS ENTRELAÇADAS 230
1. Perdas 233
1.1. Identidade 237
Imagem 239
Boca e Olhos 242
O Olhar do Outro 245
1.2. Trabalho e Relacionamento Amoroso 247
1.3. O tempo perdido da vida 249
1.5. Perda da Dignidade 252
1.6. Pedaços Perdidos 254
2. Ganhos 258
3. Efeito Ricochete 261
4. Profissionais de Saúde 264
4.1. Acolhimento 265
4.2. Falta de acolhimento, Iatrogenia e Bioética 270
4.3. Inadequação 277
5.Coma 278
XII - JUNTANDO OS PEDAÇOS 281
ANEXOS 294
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 298
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Gestos expressivos 20
Figura 2 – Pupilas contraídas 24
Figura 3 – Pupilas dilatadas 24
Figura 5 – Capa Revista Veja 30
Figura 6 - Primeiro transplante de rosto do mundo: foto antes da cirurgia 50 Figura 7 – Primeiro transplante de rosto do mundo: foto após cirurgia 51 Figura 8 – Fotos antes do acidente e depois do transplante de rosto. 51 Figura 9 – Osteologia: vista anterior da cabeça 56 Figura 10 – Miologia: vista anterior da musculatura cuticular 57
Figura 11 – Odontossíntese Cross-Wise 61
Figura 12 – Odontossíntese de Lê Blank 61
Figura 13 – Material utilizado em fraturas de mandíbula 63 Figura 14 – Material utilizado em fraturas de face 63
Figura 15 – Exemplo de reparação tecidual 64
Figura 16 – Tratamento imediato: liberação de vias aéreas 65
Figura 17 – Exemplo de paralisia hemifacial 65.
Figura 18 – Foto de paciente no primeiro atendimento e o resultado 66
Figura 19 – Pesar 76
Figura 22 – Valor objetivo 122
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
a.C Antes de Cristo
ATM Articulação temporomandibular
CD Cirurgião-dentista
CEP Comitê de Ética em Pesquisa CFO Conselho Federal de Odontologia CFP Conselho Federal de Psicologia CNS Conselho Nacional de Saúde
CONEP Conselho Nacional de Ética em Pesquisa DST Doença sexualmente transmitida FAB Ferimento por arma branca
FAF Ferimento por arma de fogo
FOUSP Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo HC Hospital das Clínicas
HCFMUSP Hospital das Clínicas da Faculdade de Medina da Universidade de São Paulo
HPV Human Papiloma Virus
IPUSP Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo LEM Laboratório de Estudos Sobre a Morte
MEC Ministério de Educação e Cultura
MS Ministério da Saúde
PS Pronto Socorro
R1 Cirurgião-dentista residente do curso de Especialização em Odontologia Bucomaxilomandibular, do HCFMUSP
R2 Cirurgião-dentista residente especialista em Odontologia Bucomaxilomandibular, do HCFMUSP
TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido USP Universidade de São Paulo
UTI Unidade de Tratamento Intensivo
ALVES, E.G.R. Pedaços de mim: o luto vivido por pessoas com deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilomandibular e a interferência no seu desenvolvimento.
2006. 307 p. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2006.
O rosto se constitui como representante da identidade da pessoa. Ao sofrer um acidente e ter o rosto deformado, principalmente em uma sociedade estimulada por um padrão estipulado de beleza, a pessoa sofre pela identidade perdida, tem dificuldades para se olhar no espelho e voltar a viver em sociedade. Este estudo teve o objetivo de compreender o sentido e significado da deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilofacial na vida da pessoa atingida. A metodologia utilizada foi: observação participante em hospital com atendimento às pessoas com trauma bucomaxilo e seis entrevistas com: dois homens vítimas de ferimento de arma de fogo em assalto no trânsito e em diligência policial, um homem vítima de ferimento com guincho em construção civil, um homem vítima de ferimentos com arma de fogo em tentativa de suicídio e duas mulheres feridas em acidentes automobilísticos. A abordagem utilizada para análise de dados foi Clínico–Qualitativo. Observou-se que pessoas com deformidades faciais pós-trauma bucomaxilomandibular têm suas vidas completamente comprometidas com os tratamentos posteriores por, no mínimo, dois anos. Enfrentam dificuldades de relacionamentos interpessoais e financeiras, pois não podem trabalhar devido às várias consultas e cirurgias necessárias para restabelecimento das funções e melhora da aparência. A modificação abrupta do rosto tem interferência direta na identidade da pessoa que tem dificuldade de retomar sua antiga rotina de vida. Os colaboradores relataram sentimentos de medo do futuro, vergonha da aparência, insegurança, impotência e submissão frente aos profissionais e instituições de saúde, desejo de recuperar a imagem perdida, sensação de estar atrapalhando a família e inutilidade por não poder prover suas necessidades ou dos familiares. Constatou-se também que os profissionais de saúde responsáveis pelo tratamento bucomaxilofacial possuem excelentes conhecimentos e habilidades técnicas, mas, têm dificuldade em relacionar-se com o paciente e compreender suas reais necessidades e expectativas. A pessoa com deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilofacial deve ser assistida em suas necessidades psíquicas por psicólogo com conhecimentos na área de trauma bucomaxilo e que compreendem as representações psíquicas sobre rosto, boca e dentes, perdas e luto. A equipe de saúde da área de trauma bucomaxilo precisa incluir também um psicólogo, que poderá dar assistência tanto à equipe, quanto aos pacientes, propiciando um melhor relacionamento entre estes. Há necessidade da incorporação de disciplinas de Psicologia, Humanização em Saúde e Bioética, e introdução de discussões sobre o tema da morte, perdas e luto nos cursos de graduação e pós-graduação na área da saúde. Nos cursos de Odontologia deve constar, obrigatoriamente, a disciplina de Psicologia Aplicada à Odontologia, em nível teórico, durante os primeiros dois anos e, em práticas clínicas nos dois últimos anos da graduação. Devido à especificidade da área, o Conselho Federal de Psicologia, em possível parceria com o Conselho Federal de Odontologia precisam criar a especialidade em Psicologia Aplicada à Odontologia.
Palavras-chave: Desfiguramento físico; Trauma Maxilofacial; Luto; Perdas; Bioética;
Percepção da face;.
ABSTRACT
ALVES, E.G.R. Pieces of me: the grief lived by people with face deformity acquired post maxilofacial trauma and the interference in its development. 2006. 307 p. Doctor Thesis – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2006.
The face is the representative of the person´s identity. Upon suffering an accident and having the face deformed, specially in a society stimulated by a standart of beauty, the person suffers because of the lost identity, has difficulties to look at himself/herself at the mirror and live in the society again. This study had the aim to understand the meaning of the facial deformity acquired post maxilofacial trauma in the person´s life. Participative observation in hospital with people with maxilofacial trauma and six interviews with people who had facial deformity acquired for more than a year from the day of the interview have been made. The method used to analyze the data was based on the clinic- qualitative. It has been observed that people with facial deformity acquired post maxilofacial trauma have their lives completetly implicated for the subsequent treatments, for, at least, two years. They face interpersonal relationship and financial difficulties, as they cannot work due to the several surgeries and doctors´s appoitments in order to re-establish the function of the face as well as improve the appearance. The abrupt modification in the face of the person has a direct influence on the person´s identity who has difficulty to have his/her routine again. Feelings of fear of the future, shame on the appearance, insecurity, impotency and submission towards professionals of the health institutions, desire to recover the lost image, sensation of bothering the family and inutility for not being capable to attend to the family needs have been found. It has also been noticed that the professionals responsible for the maxilofacial treatment have excellent knowledge and technical abilities, however, they have difficulty to establish a relationship with the patient and understand his/her real needs and expectations. The person with facial deformity acquired post maxilofacial trauma must be assisted to his/her psychic needs by a psychologist who has knowledge of maxilofacial trauma, psychic representation of face, mouth and teeth, losses and grief. A psychologist must be included in the health staff. This professional can assist either to the staff or to the patients, creating a better relationship between them. There is the need of including some subjects such as Psychology, Health Humanization and Bioethics and the introduction of discussions about death, bereavement and grief in the graduation and post graduation courses related to health. In the dentistry courses there must have, mandatorily , the theoric subject Psychology Applied to Dentistry in the first two years and clinic practice in the last two years of the graduation. Due to its specificity, the Federal Council of Psycology in feasible partnership with the Federal Council of Dentistry need to create the speciality in Applied Psychologist to Dentistry.
Key – words: Deformity; Trauma maxillofacial; Grief; Bioethics; Face perception;
Bereavement.
“Cadê você? [...] aquele rosto não era mais o meu. Isso provocou- me [...] uma sensação de perda de identidade. A imagem refletida no espelho era composta de um monte de pontos ensangüentados cobrindo todo o rosto; a boca e o nariz tortos e a fronte afundada com pontos tentando puxar a pele, mas não havia pele suficiente. O cabelo, que estava todo colocado para trás e inteiro manchado de água oxigenada, não era mais o meu. O rosto muito inchado [...] entre os tons de vermelho e preto – vermelho de mertiolato e preto de pontos de sutura e, entre estes dois tons, havia muito sangue ressecado. A boca assemelhava-se a uma ‘couve flor’. Tinha impressão de que estava vendo a mucosa interna e não o lábio que estava cheio de pontos e sem contornos. [...] Somente sabia que era eu porque os olhos eram os meus. O restante não me pertencia.”
(psicóloga, 39 anos In Cardozo, v. II, p. 218).
Ao longo da minha trajetória de vida fui saboreando cada etapa do meu desenvolvimento. Todos os sentimentos humanos experimentei pela boca: Alegria, raiva, amor, saudade, tristeza, medo, paixão e tantos outros. Uns enchem a boca de saliva, outros deixam a boca seca, ou fazem engolir em seco, apertar os dentes etc.
Cada sentimento tem um gozo que se traduz em gosto ou des-gosto.
Conheci pessoas de dar água na boca e poucas de travar os dentes.
Falo até com pedra. Meus amigos dizem que foram conquistados pela minha marca: o sorriso (gosto disso!). Acho que esse sorriso existe porque eu gozo a vida e gosto da minha vida. É minha vida!
(a autora).
Acreditava que meu interesse pela deformidade facial tivesse começado ao acompanhar o trabalho da Profª. Drª. Hilda Ferreira Cardozo, em avaliação do dano em pessoas vítimas de traumas bucomaxilofacial, na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, para companhias de seguros ou solicitações judiciais. Junto dela pude ouvir algumas histórias e fiquei profundamente tocada. Não havia nenhum trabalho em Psicologia nesse sentido e fiquei entusiasmada.
Quando a tese estava pronta e só restavam os detalhes finais, lembrei-me de um fato.
Certamente esse foi o primeiro impulso dessa busca, o meu Dasein, meu ser-aí-no-mundo com minhas experiências.
Em 30 de março de 1986, o carro em que estavam minha mãe, minha irmã e meu sobrinho foi violentamente atingido por uma perua Kombi. Minha irmã Neguinha (Eliane), teve uma perfuração de pulmão e fomos informados que ela estava morta. Minha mãe fraturou a mandíbula e meu sobrinho “apenas” cortou a cabeça. No hospital em que foram socorridos não havia cirurgião bucomaxilo e precisamos transferir minha mãe.
A Nega não morreu, mas seu estado de saúde era grave. Ela achava que seu filho e nossa mãe haviam morrido e meu sobrinho achava o mesmo da mãe e da avó. Minha mãe dizia que viu a Nega morrer. Só quando tiveram alta e se encontraram é que acreditaram.
Quanto ao meu sobrinho, foi preciso implorar muito para que o menino (com quatro anos de idade) pudesse entrar nos hospitais e constatar que estavam vivas.
Elas ficaram em hospitais distantes um do outro e passávamos os dias de lá para cá e de cá para lá. Ora uma entrava em cirurgia, ora outra. Meu pai ficou completamente perdido.
Minha irmã mais nova, Angélica, chorava pelos cantos.
Precisei deixar meu filho Daniel, com dois anos e meio, na casa de uma amiga durante uma semana. Quando nos encontramos ele não me olhou e ignorou todos os meus beijos e pedidos de desculpas. Voltou com enurese noturna que durou até seus cinco anos, quando fez terapia. Moramos na casa de meus pais durante 70 dias.
Ainda me lembro do sofrimento de minha mãe, da loucura que era procurar alimentos que a nutrissem (era diabética), das várias cirurgias que fez e das intermináveis consultas.
Durante 60 dias ela passava as noites andando pela casa, de um lado para outro, apertando as mãos. Tinha dores 24 horas, sem parar. Nos primeiros dias em casa ela tinha ânsias e chegou a vomitar algumas vezes, como a boca estava “amarrada” era obrigada a engolir o próprio vômito. Chorava de nojo de si mesma e o nojo trazia outra ânsia. Quando a contenção foi retirada, ela disse que tiraram a dor com as mãos. Nunca mais minha mãe conseguiu uma prótese que se adaptasse bem
Meu pai foi tratado com total descaso pela empresa responsável pela indenização do acidente. Pagaram o valor do carro e nada mais e faziam com que se sentisse um vilão mercenário. Esse episódio desestruturou a vida dos meus pais, da minha família e de cada uma das minhas irmãs.
Certamente, esta foi a maior motivação para esta tese. Tive e tenho muitos gostos e poucos des-gostos. Eu saboreio a minha vida, às vezes depressa demais, mas aprecio cada pedacinho dela, mesmo os momentos difíceis.
Esse episódio marcou minha vida e, embora tenha sido esquecido durante o período de construção desta tese, acredito que esteve latejando o tempo todo. Todas as minhas identificações com cenas, pacientes e familiares se justificam, afinal os sentimentos que eles traziam já eram “velhos conhecidos”.
A REFLEXÃO
“O homem que é feio na aparência, ou mal nascido, ou solitário e sem filhos tem pouca probabilidade de ser feliz”.
(Aristóteles)
Quantas pessoas vivem suas vidas normalmente, dentro de suas rotinas pré- estabelecidas, de forma satisfatória ou não, mas com projetos de vida já configurados e... De repente... Por um acidente qualquer... Em frações de segundos... Minutos, talvez... Têm seu rosto desfigurado e, para sempre, modificado.
Deste momento em diante há uma grande reviravolta em suas vidas. Perdem a noção de tempo e de espaço. Não sabem direito o que aconteceu e nem imaginam o que pode estar acontecendo. Percebem apenas uma correria à sua volta, gente falando, comentários preocupados e, o pior: o espanto no rosto de pessoas conhecidas quando os vêem;
principalmente quando estas pessoas têm dificuldade em reconhecê-la e, em alguns casos – não raro – quando estas pessoas nem mesmo a reconhecem. Perdem seu referencial.
Chega o dia de a pessoa olhar-se no espelho, seja contra ou a favor da opinião médica e familiar. Chegou a hora! Medo? Angústia? Ansiedade? Todos eles! Porém, tudo desaparece diante do susto! A pessoa não se reconhece: quem é aquele? Ou pior: o que é aquilo refletido no espelho? Aí sim, surgem ondas de pavor, medo, tristeza, agonia, perplexidade, desespero, vazio e insegurança. Como retornar à sua vida, às suas atividades? Como voltar a ser?
Até então, a pessoa só tem consciência intelectual do que aconteceu e o espelho é que mostra o fato. A pessoa sabe que aconteceu alguma coisa muito séria, mas quando olha no espelho é que tem a consciência real do fenômeno. Este momento é muito dramático, a pessoa perde sua identidade. Inicia-se um processo... Como é este processo?
Depois de sofrer um trauma bucomaxilo a pessoa fica, aproximadamente, dois anos comprometida com os tratamentos para reconstrução da face, o que prejudica o retorno às suas atividades cotidianas. Após o término dessa reconstrução, iniciam-se tratamentos de reabilitação oral, como fisioterapia, fonoaudiologia etc., ocupando mais uma boa porção de seu tempo.
O que esta pessoa sente e como é tratada; a que condições psicológicas e éticas ficam submetidos estes indivíduos enquanto pessoa e enquanto paciente; que tipo de envolvimento existe entre profissionais, amigos e familiares que pertencem a este contexto e que estão, ao mesmo tempo, do mesmo lado e em lados opostos, embaraçados, emaranhados, enroscados, obnubilados pelos mesmos motivos, mas por interesses e preocupações diferentes...
Sem dúvida, a equipe de saúde está preparada para atender as necessidades físicas imediatas do paciente com traumatismo facial pós-trauma bucomaxilomandibular, seja imediatamente após o acidente, seja nos dias seguintes ou nos tratamentos das seqüelas.
Porém, estará esta mesma equipe, preparada para olhar, escutar e atender às necessidades da pessoa – que vão além das questões físicas - representada na figura de paciente?
Tais inquietações surgiram quando, durante meu Mestrado, participei do atendimento a pessoas que procuravam a Faculdade de Odontologia, da Universidade de São Paulo, em busca de orientações, ou mesmo já em perícia.
Estas pessoas, vítimas de traumas e com deformidades de face como seqüelas, desde grave mutilação a pequenas cicatrizes, tinham pontos em comum:
¾ Queriam o seu rosto de volta, ou, ao menos, um rosto;
¾ Traziam consigo a fotografia mais bonita que tinham e, muitas vezes, de um dia feliz (formatura, casamento, aniversário etc.);
¾ Tinham a intenção ou já estavam processando algum profissional de saúde que consideravam responsável pela aparência atual;
¾ Queriam ser indenizadas.
Em minha leitura, a fotografia era a identidade que carregavam nas mãos a dizer: “este sou eu! (na foto). Este (o rosto) não sei de quem se trata.”. E junto, traziam um pedido de ajuda para que se encontrassem (rosto + identidade = self).
Por outro lado, processar alguém me parecia vir da necessidade de encontrar um culpado e, para este, dirigir a raiva. Ao mesmo tempo, havia a necessidade de que alguém pagasse, não só pelo dano, mas também, pelo tratamento, devolvendo-lhes o que haviam perdido – no acidente – e que o profissional não recuperara, ou ainda, piorara e/ou provocara.
Era como se desejassem uma indenização que minimizasse o sofrimento.
Minhas reflexões apontavam que deveria haver algo maior, mas nem sempre compreendido pela pessoa que buscava ajuda, ou pelos profissionais a quem procuravam.
A fotografia eterniza um momento muito específico. Mesmo se estivermos com a mesma roupa, com as mesmas pessoas e, no mesmo lugar, nunca mais teremos aquele clima, aquele olhar, sorriso, expressão ou brilho da foto. Foi um momento, um instante! Nunca mais, nenhum de nós, em nenhuma circunstância, será igual. Então, quando nos apresentam uma fotografia, é importante conhecer o quê a pessoa está buscando. Seria o momento? O brilho? O clima? As pessoas?A si próprio? O passado? Uma identidade perdida? O quê?
São tantas as perguntas e algumas delas inquietantes...
“Os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração.”
(Saint-Exupéry)
_____A BELEZA COMO MITO,
O MITO COMO BELEZA______
“Oh! Pedaço de mim Oh! Metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior que o esquecimento É pior do que se entrevar.”
(Chico Buarque)
Este trabalho fala sobre o rosto das pessoas, sobre a face modificada por algum tipo de trauma, e de como essa pessoa percebe e sente o lugar que ocupa no mundo.
Não há como falar sobre rosto sem contemplar a importância da aparência das pessoas no mundo em que vivemos. Essa aparência é cruelmente determinada e imposta pela sociedade. Ela é lembrada a cada minuto – com tirania – por todos os veículos de comunicação, pelo espelho e, principalmente, pelo olhar do outro.
Assim, inicio esse trabalho pelos conceitos de beleza e estética que se impõem ao nosso existir. Trata-se de um mito, uma vez que a beleza idealizada é compreendida como algo a ser alcançado e, ao mesmo tempo, é inatingível e irreal para a maioria dos mortais.
Trago, aqui, o mito de Narciso como reflexão:
Ao rio-deus Cefísio, nasceu um filho chamado Narciso, que parecia à sua dedicada mãe o mais belo dos meninos; e foi perguntar ansiosa ao profeta cego Tirésias qual o seu destino. ‘Viverá até velho?’ inquiriu ela; ao que o profeta respondeu – ‘Só se não se conhecer a si próprio!’ [...]
o rapaz cresceu de uma beleza rara [...] não havia rapariga que não lhe lançasse olhares apaixonados; e os jovens menos favorecidos tinham de invejar os encantos que tornavam Narciso vaidoso acima de todas as criaturas da terra. [...] Um dia, quando vagueava por um bosque [...] parou para beber numa fresca fonte [...] na água cristalina o jovem captara outra imagem que agradara mais aos seus olhos [...] cheio de curiosidade, voltou-se para trás, para aquela água em que julgava ter visto um rosto mais belo. [...] ajoelhando-se na borda, estendeu a cabeça sobre a fonte clara, e lá viu um rosto e umas formas tão arrebatadoramente belas que estava pronto a saltar para a água para junto delas [...] ‘Quem és tu, assim tão belo?’ exclamou Narciso; e os lábios da imagem mexeram-se, mas não recebeu resposta. Sorriu e o sorriso foi- lhe devolvido. Corou deliciado e o rosto na água cobriu-se de sangue rosado, com os olhos brilhando tal como os dele. Estendeu a mão para ele e a linda forma fez-lhe o mesmo gesto;
mas logo que a superfície clara foi tocada, ela desapareceu como um sonho, para voltar em todo seu encanto, enquanto ele se contentava com olhá-la, imóvel; e depois novamente ficou mais baça por baixo das lágrimas de aflição que ele derramava na água. [...] Repetidamente ele se curvou para apertar aquela sombra encantadora nos braços, mas sempre ela lhe fugia; e quando ele lhe suplicou que se deixasse abraçar, a imagem limitou-se a imitar os seus gestos num silêncio inflexível. Enlouquecido por tão grande encanto à sua semelhança, não podia afastar-se do espelho no qual a imagem continuava a troçar da sua imaginação ansiosa. ‘Ai de
mim!’ era o seu grito constante [...] hora após hora, dia após dia ele ficou curvado sobre a borda da fonte, sem querer saber de comida, clamando em vão por aquele objeto de adoração imaginário, até que, por fim, o coração deixou de bater de desespero, e ele caiu entre os lírios de água que lhe serviram de mortalha [...]. Assim se transformou Narciso na flor que tem o seu nome.” (Moncrieff, 1992, p. 104/6).
1. O BELO
“A beleza não é uma necessidade, mas sim um êxtase.
[...] uma imagem que vedes, apesar de vossos olhos estarem fechados [...] a beleza é a vida [...] mas vós sois a vida [...] a beleza é a eternidade mirando-se no espelho, mas vós sois eternidade e vós sois o espelho.
(Gibran)
Belo é tudo aquilo que inebria nossos olhos e para o quê temos dificuldade em não dirigir nosso olhar. O conceito de beleza sempre foi cultural, portanto, diferente entre os grupos sociais, mas, de maneira geral, a aparência física tem importante significado no bem- estar psico-social das pessoas.
O belo tem poder e recebe uma avaliação mais positiva do que o não belo. As pessoas tendem a avaliar o mais belo como o mais inteligente, o melhor, o mais bondoso e relegam qualidades humanas menos nobres à feiúra. A beleza se resume em tudo que causa a sensação de sublime prazer de harmonia e perfeição da forma. Ela é considerada como um valor associado à civilização, que garante maior sucesso nas negociações da vida cotidiana. A beleza e a atratividade estão relacionadas à vida saudável e ao bem-estar. (Amaral, V. L. 1986;
Castro 2003).
Etcoff (1999) aponta que bebês discriminam e preferem o belo e olham as faces atraentes por mais tempo, demonstrando que as preferências de beleza não são aprendidas.
Além disso, afirma que enquanto a beleza traz vantagens sociais e econômicas, a feiúra provoca discriminação e desvantagens sociais. Pessoas bonitas são vistas e tratadas mais positivamente, têm mais chance de obter clemência no tribunal, mais facilidade para encontrar parceiro sexual e conseguir a cooperação de estranhos. Por outro lado, a autora afirma que as
reações dos adultos às feições dos bebês também são automáticas e quando considerados belos provocam emoções mais ternas.
Padrões de beleza são estabelecidos desde o início dos tempos, mas, entre os séculos XX e XXI, a mídia tem induzido determinado padrão de beleza que vem instigando as pessoas a se enquadrarem no atual conceito de harmonia, em todo aspecto físico do indivíduo.
Tal apelo é tão forte que nos permite assistir uma corrida de homens, mulheres e jovens ao consumo de produtos de beleza, às clínicas de estética, consultórios de cirurgiões-plásticos e academias, em uma busca alucinada da beleza social. Essa busca chega a avançar os limites da violência ao próprio corpo que, segundo Etcoff (1999), revela o primitivo em cada pessoa.
Em nome da beleza, cometem-se atos extremos, investem-se muitos recursos físicos e financeiros e arrisca-se demais, como se a vida dependesse somente disso.
As formas como grupos de diferentes faixas etárias, econômicas e culturais cultuam o corpo e a beleza, expressam a dimensão do estilo de vida do individuo e confirmam o que as revistas sobre beleza afirmam: ser belo ou sentir-se belo interfere na qualidade de vida e bem- estar. (Castro, 2003).
O belo agrada pela forma que é influenciada por uma infinidade de valores (étnicos, individuais, culturais etc.), expressa aquilo que agrada universalmente e permeia as atitudes e o comportamento humano. Pessoas bonitas têm vantagens sobre as demais. A imagem que cada um tem de si mesmo é variável, pois a figura mental que cada indivíduo tem de sua aparência no lugar que ocupa, se altera em função das mudanças que ocorrem em seu corpo.
(Mori, 2003).
De acordo com a mesma autora, a beleza facilita a interação social e pessoas belas têm maior aceitação pela sociedade. Essa associação entre beleza e aceitação começa na infância quando já é possível observar, nos contos de fadas, que princesas são belas, enquanto bruxas,
demônios e vilões são desprezíveis e feios. Esses conceitos marcam toda nossa vida de relação (sexualidade, trabalho e educação).
O fulcro da expressão vida de relação é o indivíduo consigo (imagem que tem de si) e que, a partir daí, irradia para o resto de sua vida; portanto, se isso vai mal o resto vai mal também.
Wolf (1998, p. 313) afirma que a pessoa aprendeu a se avaliar de acordo com a apreciação dos outros e sabe que sua imagem conta mais que suas experiências, habilidades, afetos e até caráter, pois será sempre julgado pela sua aparência. Um dos sujeitos pesquisados por essa autora afirmou que quando perdeu os dentes, perdeu toda a beleza, e nunca mais sorriria e nem demonstraria alegria.
Segundo Ferreira (1988/1994-95), Belo é tudo aquilo que tem forma perfeita e proporções harmônicas; que é agradável aos sentidos; elevado; sublime; bom; generoso;
ameno; aprazível; próspero; feliz; vantajoso; lucrativo; de que resulta glória; honroso.
Safo escreveu que o que é belo é bom. Acreditando nisso a humanidade associa a beleza à bondade: a beleza física traduz a beleza da alma. Pessoas bonitas tendem a ganhar discussões e convencer outros de sua opinião, tendem a ficar mais à vontade socialmente, ser mais confiantes. A elas se contam segredos e revelam-se informações uma vez que se deseja agradar àqueles que têm boa aparência. A beleza tem papel de fundamental importância no sexo e no namoro. (Etcoff, 1999)
Na mitologia, Latona buscava abrigo para trazer ao mundo os filhos de Júpiter (senhor supremo do Olimpo, marido de Juno, a mais ciumenta das deusas). Netuno, deus dos mares, refugia Latona em Delos, uma ilha flutuante desprovida de beleza. Latona deu à luz Diana e Apolo e este trazia consigo o sol, a vida e a beleza. Delos, a ilha, floresceu e ficou bonita (Civita, 1973).
Apolo é o deus da beleza e, portanto, responsável por tudo o que é considerado belo:
luz, progresso, condução de pastores, multiplicação das colheitas, encaminhar os navegantes, iluminar artistas, proteger médicos, zelar pela saúde; também é profeta capaz de desvendar todos os mistérios. É o próprio sol, responsável pelas estações do ano. Representa a superioridade do belo sobre o feio, do sublime sobre o vulgar, da harmonia sobre a desordem – é o mito como beleza!
A beleza então, representa a luz e o triunfo da inteligência sobre as trevas da barbárie e a configuração das conquistas da civilização na existência prática e nas artes. Cuidar da aparência não é mera futilidade, pois melhora a qualidade de vida e a auto-estima. Quando a auto-estima está baseada apenas na imagem, pode gerar descontentamento eterno. (Talarico, 2004; Colavitti, 2004).
Os artistas, para esculpirem a imagem de Apolo, reuniram os mais belos mancebos e, de cada um, selecionavam a parte mais perfeita, somavam a cuidadosos estudos e à disposição harmônica e proporcional das partes em relação ao todo e – tudo medido, calculado e disposto – resultava no que mais se aproximava da perfeição. É a beleza como mito!
O compromisso de Apolo é iluminar os espíritos dos artistas, enriquecer a inspiração de um povo e conduzi-lo à descoberta da beleza absoluta, que é simbolizada pela beleza externa, apregoada pela mídia. A obsessão pela beleza externa – estética __ acaba por menosprezar a beleza interna (poderíamos chamar intética?).
Para que fosse possível criar a imagem de Apolo, técnicos foram reunidos; tudo foi meticulosamente medido para que se pudesse chegar à perfeição. O mesmo se deu com Zeuxis que para pintar Helena de Tróia, reuniu cinco das mais belas mulheres do mundo (Etcoff, 1999).
Atualmente, utiliza-se o recurso dos computadores para criar a imagem do homem e da mulher de perfeita beleza. Essa, então, parece ser a maior prova de que a beleza idealizada não existe!
Por que nós, seres humanos e mortais inventamos uma beleza inatingível e promovemos uma corrida alucinada até ela? Podemos, simplesmente, observar e absorver a beleza tal qual ela realmente é: única, exclusiva de cada pessoa e de cada momento ou fase da vida, subjetiva.
2. ESTÉTICA
“Para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores.”
(Saint-Exupéry)
A estética está em estreita relação com a cultura dos povos, é ditada pelas normas e padrões impostos pela sociedade. Está ligada à história da civilização e, por provocar sentimentos de aprovação e desaprovação, se constitui em uma das grandes preocupações do indivíduo. Um, entre vários exemplos, é o fato de que alguns aborígines mutilam ou alteram partes de seus corpos para se tornarem mais atraentes, de acordo com o conceito de beleza do grupo (distenção do lábio inferior, estiramento de pescoço, desgaste dos incisivos etc.).
Justamente por estar influenciada pela cultura tem também aspectos subjetivos, traduzindo-se na percepção que cada indivíduo tem da beleza e que influencia toda a vida de relação. (Mori, 2003).
Estética significa o estudo das condições e dos efeitos da criação artística; estudo racional do belo como possibilidade de conceituação e como diversidade de emoções e sentimentos que suscita no homem. (Ferreira, 1988/1994-95),
Derivada de aisthethikos, a palavra estética carrega a perfeição, o respeito ao sentido da beleza e a inclinação a regras e princípios da arte como significados. Os elementos da estética de acordo com Etcoff (1999) são: clareza, simetria, harmonia e cor intensa.
Segundo Castro (2003), o corpo, tematizado nas artes e ciências entrou no cotidiano da sociedade e alterou os modos de vida, sendo a beleza um valor associado à civilização. A relação entre indivíduo e sociedade torna-se tensa quando, na maioria das vezes, o indivíduo é dominado pela sociedade.
Atualmente os conceitos de estética são ditados pelos veículos de comunicação que além de cultuarem a beleza, exageram nas caricaturas de características consideradas não belas. O resultado dessa doutrinação é a terrível consciência da face e do corpo. (Mori , 2003;
Castro, 2003).
Colavitti (2004) afirma que mulheres com cintura fina, quadris largos, corpo e rosto simétricos, pele macia, lábios grossos e cabelos espessos fazem sucesso em qualquer lugar.
Essas características estão ligadas à juventude e fertilidade.
Segundo Cardozo (1999), o estereótipo reflete no comportamento do indivíduo, pessoas com defeitos estéticos têm muita dificuldade na vida de relação, resultando na limitação do seu potencial de desenvolvimento pessoal.
A mudança ou perda de órgãos pode provocar intercorrências emocionais traumáticas, desencadeadas pela consciência de quebra da harmonia estética. A relação entre a imagem do corpo e a auto-estima é muito forte, e qualquer mudança corporal pode afetar o indivíduo, levando-o a revisar aquilo que considera como sua imagem. (Mori, 2003, p. 3).
A mesma autora vai polemizando a importância dos conceitos de harmonia e beleza facial impostos pela sociedade, nos vários âmbitos da vida social e na atividade econômica.
As pessoas que estão satisfeitas com a aparência e se consideram atraentes e saudáveis têm menos tendência à depressão e solidão.
A auto-imagem comprometida pode ser mais prejudicial, do ponto de vista do desenvolvimento, do que um defeito físico. Quanto mais se concentra a atenção em uma área particular, maior a possibilidade de o indivíduo adquirir uma auto-imagem negativa dessa
região. “A atração facial é uma das mais importantes dimensões da aparência física.”. (Mori, 2003, p. 7)
As expectativas estéticas do paciente precisam ser compreendidas pelo profissional de saúde, uma vez que os valores culturais de profissionais e pacientes podem ser diferentes. Os indivíduos desejam melhorar a aparência, influenciados pelos padrões estéticos estabelecidos pela sociedade em que vivem para alcançar seus objetivos. São as atitudes do grupo em que o indivíduo está inserido que o levam a desenvolver a imagem de atraente e, em uma sociedade altamente competitiva, a aparência agradável torna-se uma necessidade. (Mori, 2003).
A procura pelo tratamento estético é motivada pela necessidade de aceitação social e intelectual, diminuição da insegurança, orgulho e benefícios biológicos. Por ser subjetiva, a condução do tratamento de pacientes interessados em estética deve ser diferente daquele direcionado ao paciente que busca alívio para o sofrimento e para a dor.
De acordo com Mori (2003) o tratamento estético é importante para a saúde plena e bem-estar das pessoas, pois influi sobre a aparência, auxilia na melhora da auto-estima e autoconfiança e nos aspectos psicológicos do indivíduo. A estética dentária influi na escolha de namorados, na seleção de funcionários e na escolha de amigos.
Jeudy (1998/2002) chama de obstinação estética a adoração pelo corpo como um objeto de arte. Considera a maneira como nos maquiamos e nos olhamos no espelho estudando o sorriso, trejeitos faciais, surgimento de rugas etc., como uma obsessão quotidiana de esteticismo.
Castro (2003) afirma que atualmente, o culto ao corpo possui uma base material concreta que sustenta um discurso hegemônico sobre corporeidade, perpassando toda sociedade como ideologia e como cultura. Para a autora as pessoas desesperadas atrás de sua auto-estima movem o mercado da estética e criam os padrões de beleza.
O rosto desfigurado foge a todos os padrões de estética e beleza preconizados e a pessoa com deformidade facial passa a conviver com um estigma. De acordo com Goffman
(1988) o termo estigma foi criado pelos gregos com a intenção de evidenciar sinais corporais como algo extraordinário, ou mau sobre o status moral daquele que o portava. Esses sinais eram feitos no corpo com cortes ou fogo e tinham o objetivo de avisar que o portador se tratava de um criminoso, traidor ou escravo. Tratava-se de uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que deveria ser evitada, principalmente em lugares públicos.
Assim, os gregos que valorizavam a beleza e tinham conhecimentos sobre recursos visuais, estigmatizaram a palavra estigma quando a criaram, pois é termo utilizado sempre em referência a um atributo profundamente depreciativo. São três os tipos de estigma: 1) abominações do corpo; 2) culpas de caráter individual; 3) tribais, de raça, nação e religião. Se a pessoa tem uma marca que chama a atenção e afasta outras pessoas, praticamente perde a possibilidade de que outros atributos seus sejam notados.
Goffman (1988) afirma que quando pessoas estranhas são apresentadas, são os primeiros aspectos (geralmente visuais) que permitem prever a categoria do outro e os seus atributos, o que o autor chama de identidade social. Todo o caráter que é imputado ao indivíduo relacionado à sua aparência, gestos, vestes, maneira de falar etc., o autor chama de identidade social virtual (aquilo que pensamos que o outro é). Os atributos que a pessoa possui (tudo aquilo que realmente ela é), ele denomina de identidade social real.
O autor ainda esclarece que quando a marca da pessoa estigmatizada é conhecida ou imediatamente notada, ela ocupa a condição de desacreditada.
“Acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida.” (Goffman, 1988, p. 15).
3. O ROSTO
“Eu estava freqüentemente sujeito a momentos de desespero.
Imaginava que não havia felicidade na Terra para um homem com um nariz tão largo, lábios tão grossos e olhos cinzentos tão minúsculos como os meus [...] nada causa um impacto maior no desenvolvimento de um homem do que a sua aparência [...] a sua convicção de ser ou não atraente.”
(Leon Tólstoi).
O rosto humano se sobressai no conjunto harmonioso do corpo, influenciando e/ou interferindo diretamente nos relacionamentos interpessoais. Ele é a expressão/representação da identidade. É com nosso rosto que nos apresentamos às pessoas e é através dele que somos reconhecidos. Note-se que, em qualquer documento de identidade, há a obrigatoriedade de uma fotografia somente do rosto da pessoa.
A face está diretamente ligada a máscara, persona, aquela que nos apresenta pelos gestos emitindo um sinal que, ao ser visto por outra pessoa, imediatamente comunica alguma informação. Por ser máscara também pode ser modificada por gestos mímicos (aqueles que tentam copiar aquilo que pretende representar) que tentam mascarar o verdadeiro sentimento da pessoa. Trata-se da máscara social vestida em público quando a pessoa se sente nervosa, tensa ou atemorizada. (Morris, 1977).
Pelos gestos, a face fornece informações sobre o estado de espírito da pessoa, mesmo que não esteja consciente disso. O significado pode ser lido, também de forma inconsciente, pelo outro que é capaz de sentir o estado de espírito de quem é observado.
Morris (1977) dividiu as expressões faciais em:
¾ Identificadas – que podem ser falsificadas com certa facilidade: sorriso, riso, franzir o cenho e fazer beiço de amuo.
¾ Inidentificadas – aquelas que são difíceis de forjar por não serem identificadas:
olhos que se estreitam ligeiramente; pele da testa apresentando tensão; lábios voltados para dentro.
Quando uma pessoa adota um sorriso falso e seu estado de espírito é de tristeza, esse sorriso estará distorcido por várias pequenas tensões inidentificáveis no rosto.
Rovaletti (1998) aponta que o rosto ocupa lugar privilegiado em todas as culturas.
Nele é possível perceber todas as emoções (riso, pranto, admiração, estranhamento, preocupação, dor, paz, alegria, tristeza etc...) que surgem como uma linguagem articulada dispensando palavras.
A mesma autora destaca ainda que, embora o rosto seja a parte mais exposta e a mais conhecida, é a menos descrita, pois expressa a nós mesmos, na qual nossa identidade se apresenta como fonte de sentidos, como experiência pura. O rosto, ou a face, significa por si mesmo e expressa sua absoluta unicidade: nossa identidade.
Para Figueiredo (1997) o rosto expõe a vulnerabilidade, pede abrigo e cuidado. O dizer expresso no olhar, no sorriso, no choro ou na recusa transforma o rosto e mostra a fragilidade do ser, revelando a subjetividade.
Mori (2003) complementa Figueiredo (1997) apontando a face como foco primário de identificação, rica fonte de comunicação verbal e não-verbal. Graças aos músculos faciais que reagem aos estímulos e dão origem às expressões de zanga, frustração, alegria etc., as emoções positivas ou negativas são prontamente lidas pelo interlocutor.
Segundo Etcoff (1999) o rosto, por ser a aparência mais pública da pessoa, presume ser o espelho do interior e podemos classificar a sua beleza numa fração de segundos (150m/seg.). Toda pessoa deseja ter um rosto e um corpo que as pessoas querem olhar.
Para Amaral, V. L. (1986), a face humana é o primeiro e mais importante estímulo visual que se apresenta nos relacionamentos interpessoais. Em contatos face-face mais demorados, é possível obter indícios sobre o comportamento do outro. Viver com uma face atípica pode gerar tensões para a pessoa e sua família.
Embora não se possa afirmar que a deformidade facial seja indício de desfiguramento psicológico também, não se deve descartar o fato de que, conforme Cardozo (1999), a região da face tem papel importante na vida de relação. Devido à complexidade funcional, os ferimentos localizados na face criam dificuldades específicas e especiais, prejudicando a harmonia estética que pode acarretar danos sérios na vida profissional, familiar, social, afetiva entre outras.
Silva (2002) afirma que a face humana apresenta sinais típicos de várias emoções e cita cinco categorias de sinais faciais. A observação destes sinais pode melhorar a sensibilidade do profissional de saúde para perceber o que seus pacientes estão sentindo.
¾ Sinais Estáticos: Quase não mudam durante a vida (localização de olhos, nariz, boca; pigmentação da pele etc.).
¾ Sinais Lentos: Alteram com a idade (flacidez, rugas etc.).
¾ Sinais Rápidos: Aparecem e desaparecem em segundos (rubor ou palidez da pele, contrações musculares que alteram a fisionomia etc.).
¾ Sinais Artificiais: intervenções introduzidas na face pela mão humana (exceto óculos de grau), com o objetivo de aumentar a beleza e combater sinais da idade (alterações faciais produzidas pelo uso de cosméticos e cirurgias plásticas).
¾ Sinais emocionais: movimentos faciais, tônus facial, tamanho da pupila e posição da cabeça.
A face apresenta sinais de mais de uma emoção É comum as pessoas experimentarem várias emoções ao mesmo tempo, e que só podem ser inferidas a partir dos Sinais Rápidos.
Segundo Silva (2002), para facilitar o estudo dos sinais emocionais, a face foi dividida em três áreas: 1) sobrancelhas; 2) pálpebras, olhos, raiz do nariz e parte superior das
bochechas; 3) face inferior (toda área abaixo dos olhos). A partir dessa divisão, sete emoções foram mais estudadas: surpresa; medo; nojo; desprezo; raiva; alegria e tristeza.
Morris (1977) afirma que o rosto, por possuir o conjunto de músculos complexos e altamente desenvolvidos, é a principal parte do corpo humano de sinalização não-verbal. O autor denomina por gestos expressivos aqueles que os homens compartilham em toda parte e que são de crucial importância na interação cotidiana entre as pessoas. O homem consegue uma incomparável e admirável sutileza e variedade de expressões faciais, capazes de expressar seu estado de espírito, seja ele qual for, como mostra a Figura 1.
Figura 1. Gestos expressivos (retirado de Morris, 1977, p. 26).
O arquear de sobrancelhas, a expressão da boca, o tipo de riso ou sorriso, o movimento da testa e bochechas, a forma de olhar, o enrugar de nariz, a protusão do queixo, rubor ou empalidecimento, entre outros sinais dos músculos da face tornam o rosto absolutamente expressivo e comunicativo por si só.
A atração física, fator determinante na vida de relação, influencia de forma positiva ou negativa na interação entre pessoas. Na população estudada por Mori (2003, p. 9), dentre as características faciais consideradas mais atraentes, a forma do rosto encontra-se em 5º lugar, enquanto o sorriso, dentes e olhar ocuparam o primeiro lugar.
Geralmente, os indivíduos física ou facialmente atraentes provocam expectativa e impressão positivas, auferindo vantagens interpessoais. Em contrapartida, [...] portadores de deformidades faciais muitas vezes provocam respostas negativas nos outros, sendo-lhes exigidos melhores resultados e responsabilidades que aqueles esperados de pessoas mais atraentes, tratada com maior benevolência.
A mandíbula tem importância vital para o ser humano, devido a sua força e participação na percepção da beleza do rosto. Segundo Galitesi (2001) Goethe afirmava que a alma tinha uma âncora na mandíbula e a amputação total desta pode levar a pessoa à insanidade mental e/ou à morte em dias ou meses.
Morris (1967) relata a importância do rosto durante as relações sexuais. Na fase pré- copulatória os animais utilizam a posição prolongada face-face, sendo essa também a posição sexual natural entre os homens.
As expressões faciais estão entre os atrativos sexuais mais importantes, uma vez que estão intimamente ligados aos sinais de identificação do companheiro. A face produz alteridade, é território de expressão de si e de comunicação com o outro. (Souza, 2003).
Seja como for, como não pensar no significado desse rosto cujo próprio dono não é capaz de ver sem a ajuda do espelho? Ou dito de outra forma, visto pelo olhar do outro e pela reação deste ao nosso rosto? Parece que o rosto não é para a própria pessoa, mas sim
para o outro, para ser olhado, apreciado e, de forma positiva (bem olhado) ou negativa (mau olhado), admirado e devassado pelo outro.
É o rosto que nos apresenta, nos faz presente, presenteia o outro e nos presenteia com o olhar do outro.
3.1 Olhos
Dizem que os olhos são as janelas do coração e o espelho da alma. Estas concepções demonstram a importância dos olhos e do olhar no rosto das pessoas. Eles dão sentido à comunicação e trazem à luz a expressão de sentimentos.
Os olhos têm tal capacidade de expressão que possibilitam estabelecer comunicação com pessoas que não podem falar.
Pequenas diferenças individuais entre os olhos são registros tão exclusivos de nossa marca visual quanto impressões digitais. Geralmente, se reconhece melhor os rostos a partir dos olhos do que do nariz ou boca isolados. Eles expressam a mudança dos sentimentos simplesmente por seus movimentos, tamanho das pupilas e brilho ou opacidade. Olhos grandes são considerados belos em todas as culturas. (Etcoff, 1999)
O estudo cuidadoso do comportamento dos olhos pode trazer muitas revelações sobre o relacionamento entre as pessoas. A forma de olhar indica se o encontro é amigável, tímido, atrevido, amoroso, agonizante, triste, ameaçador, hostil, dominador, dominado, confiante, desconfiado etc. Ou seja, a forma e a intensidade do olhar estão intimamente ligadas aos relacionamentos entre as pessoas e, aquilo que se olha (é visto) traz uma resposta imediata ao observador. Existem basicamente duas formas de olhar: desviado de ou em direção de, e de acordo com as expressões faciais que o acompanham, o olhar pode indicar amor, fúria ou medo. (Morris, 1977).
Os olhos são capazes de traduzir amor ou ódio, expressam o mundo das emoções e das intenções, podendo ser tristes, alegres, receosos, enérgicos, incrédulos etc... O olhar regula, dá
sentido e pede. Pelo olhar do outro é possível se apressar, parar de falar, sentir vergonha, sentir-se incentivado etc.
Olhar o outro não é simples e pode-se observar isso no fato das pessoas rapidamente afastarem os olhares quando estes se cruzam. O contato visual tornou-se significativo como recurso humano de sinalização.
De acordo com Morris (1977) quando olhamos de perto para um rosto, nossos olhos percorrem todos os traços da face e se concentram principalmente nos olhos e boca, entretanto não nos fixamos nunca no mesmo ponto.
Segundo Silva (2002), a região dos olhos é a mais confiável para identificar as emoções. Há menos controle voluntário sobre os movimentos dos olhos, o que dificulta a simulação e dissimulação.
Colavitti (2004) afirma que olhos grandes são marcas juvenis que remetem à fertilidade.
Para Freud (1905/1973) os olhos têm grande importância no ato do cortejar por ser freqüentemente estimulado e causar uma qualidade particular de excitação. Morris (1967) também aponta a influência dos olhos durante a atividade sexual, quando a pupila dilata e a superfície dos olhos brilha.
Em publicação de 1977 Morris afirma que além da luz, as mudanças emocionais também interferem na dilatação das pupilas, ou seja, se a pessoa vê algo que a excita as pupilas se dilatam mais do que o habitual para a condição de luz existente, por outro lado, se a pessoa vê algo desagradável, elas se contraem. Essas mudanças estão além do controle humano e denunciam os verdadeiros sentimentos.
Os sinais da pupila são recebidos de forma inconsciente, se a pupila estiver dilatada a pessoa sentirá uma excitação emocional maior do que se estiver contraída. Outra constatação dos estudos de Morris (1977) foi que as pessoas são percebidas como mais atraentes quando
suas pupilas estão dilatadas, como pode ser observado nas figuras 2 e 3: Qual das duas moças é mais atraente?
Figura 2. Pupilas contraídas. (Retirado de Morris, 1977, p.170).
Figura 3. Pupilas dilatadas: foram retocadas para parecerem maiores, o que acrescenta maior atração. (Retirado de Morris, 1977, p. 171.).
3.2 Boca
“A boca é Vênus, pois que por ela passam os beijos e as palavras de amor.” (Foucault).
Ah, a boca dos homens!
Quanto significado pode ser encontrado neste órgão que tanto se sobressai no rosto humano e é um dos elementos mais importantes para a sobrevivência de todos os seres – auto- preservação – e nos conceitos de auto-percepção e auto-imagem. A boca apreende o sabor da vida através dos sabores que passam por ela.
Pela boca é que os seres humanos iniciam seu conhecimento de mundo e sua participação nele, desbravando novos territórios. Quando nasce, o bebê pelo movimento de sucção engole a vida através do seio materno, ali ele encontra sustento para seu corpo e acalanto para sua psiquê. O preenchimento dessa boca vazia, pelo ato da sucção, permite que o bebê vá estruturando sua compreensão de mundo. Com a boca o pequeno ser vai explorando o mundo, colocando nela tudo o que encontra pela frente e acrescentando as primeiras informações para a construção de sua personalidade.
A boca é o lugar onde ocorrem as trocas de informação do bebê com o mundo, fonte principal das excitações que atende ao impulso de auto-conservação. Ao receber o leite da mãe o bebê vai registrando suas primeiras impressões e, através de suas experiências de prazer e desprazer, vai constituindo o seu psiquismo. Nesse momento a atividade de chupar passa a oferecer satisfação à criança.
Freud, (1930/1997) utilizou o termo incorporação para explicar a fase oral e Wolf (1998) resume os três significados contidos nesse conceito: obtenção de prazer fazendo penetrar um objeto em si; destruição desse objeto; assimilação das qualidades desse objeto, conservando-o dentro de si.
A boca tem a função de levar à satisfação; é o lugar, a abertura por onde as coisas entram com a finalidade de chegar a um ponto e satisfazer alguma necessidade.
A primeira das inúmeras possibilidades dessa palavra, encontrada em Ferreira (1988/1994-95), coloca a boca como entrada do tubo digestivo pela qual se ingerem alimentos. Botazzo (1998) descreve as possibilidades de manducação (consumo que a boca realiza) como a atividade da parte superior dos intestinos. De forma antagônica, o ânus seria a saída do tubo digestivo, a parte inferior dos intestinos.
Galitesi (2001) escreve sobre a boca como um portal entre o mundo externo e interno, por onde o mundo interno sai verbalmente, enquanto o mundo externo entra materialmente.
Morris (1977) lembra que a boca, na função da comunicação, nem mesmo precisa do som, basta a pessoa mover a boca formando a palavra desejada e permitindo ser lida por outra pessoa. A leitura labial realizada por surdos é exemplo dessa possibilidade.
A boca é símbolo da insuflação da alma, abertura por onde passam o sopro, a respiração, o alimento, a palavra e o canto; pelo palato ela corresponde ao mundo superior e, pela mandíbula, corresponde ao mundo inferior. A boca cria, encanta e possibilita as expressões emocionais. Aberta, ela é um convite para a penetração ao nosso mundo interior.
(Instituto Sedes Sapientae, 1987).
Para Souza (2003) a boca é um lugar múltiplo de sentidos e, baseada no dito popular:
o peixe morre pela boca, questiona se o sentido não estaria ligado ao mal-estar bucal, referindo-se aos fumantes, obesos, etilistas que realizam suas compulsões pela boca.
A autora afirma ainda que, por ser um lugar de prazer e satisfação, é também lugar de interdições que produzem o mal-estar bucal que se oculta e se mostra na boca fechada e na boca aberta, na boca calada, na língua mal falada – mal dita! – na palavra dita e na palavra não-dita, na boca banguela, na boca mal cheirosa, na boca vazia e na boca cheia.
Acrescento eu: na boca doente, na boca destruída! Bocas que configuram o que a autora chama de significado de destruição, invasão, dor, sofrimento, morte.
Metaforicamente a palavra boca pode ser encontrada em expressões ou situações onde há um mistério, um segredo, um sentimento, uma intenção, um desejo. A refletir: boca do fogão; boquinha da garrafa; boca da rua; boca da pistola ou da arma (por onde sai a bala);
boca do fogo; boca do fumo; boca da noite; boca da serra; boca do estômago; boca do sertão; boca de lobo; boca do lixo; boca do luxo; boca do inferno; à boca pequena; bater boca; botar a boca no mundo; bocão; de boca (sem comprovação por escrito); cair de boca;
de boca aberta; de boca caída; etc. Penso ser impossível contemplar, aqui, todas as possibilidades.
O mesmo se dá com o lábio, também chamado de beiço: lábios de mel; lábios de fogo;
lábios ardentes; beiçola; beiçudo; de beiço (grátis); estar pelo beiço (enamorado); fazer beiço/beicinho; lamber os beiços; morder os beiços (inveja, ressentimento); passar o beiço (calotear); desbeiçado (invejoso) e também, todos os outros lábios e beiços dos qual o leitor puder se lembrar.
A boca devora. Come!
Assim, como encontrar respostas para Botazzo (1998, p. 15) que questiona a afirmação da boca como objeto e a rede de significados que se entrecruzam neste território?
Botazzo refere à boca como coleção de estruturas anátomo-funcionais, como coleção de patologias e um não-à-vontade que se instala entre as pessoas quando se fala de cavidade bucal. A boca, segundo o autor, é depositária de um oculto sobre o qual convém pôr-se com alguma discrição.
Comunicação, sucção, mordida, falação, mastigação, trituração, manducação, sensação, deglutição, beijo!