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Do que não sei

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Academic year: 2023

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I. RELIGIÃO E SERTÃO: VEREDAS E VEREDAZINHAS

“[...] Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só poucas veredas, veredazinhas”1.

Introdução

A aproximação em diálogo da teologia ou das ciências da religião com a literatura, proposta relativamente nova, como dito na introdução desta presente tese, possui um universo de possibilidades metodológicas bastante diversificado. E, dessa forma, por possuir essas muitas possibilidades, torna-se matéria extremamente delicada para o trato do pesquisador, que, como caminhante nessas veredas de diálogo, pode, na verdade, não dialogar. O pesquisador, dependendo de sua preocupação e de seus objetivos com o diálogo, pode supervalorizar tanto a teologia como a literatura e, no momento da pesquisa e organização do pensamento, colocar, numa relação de importância, uma acima da outra. A isso poder-se-ia acrescentar também a problematização levantada por Karl-Josef Kuschel: Deus “como péssimo princípio estilístico”2 e a arte como “um mau princípio para a fé”3, mostrando os distanciamentos impostos pelo dois lados para o diálogo e, desse modo, as dificuldades de aproximo para quem pretende dialogar.

Contudo, as questões levantadas acima, não podem servir de empecilho para o não acontecimento de um diálogo interdisciplinar entre teologia e literatura4. Já

1 João Guimarães ROSA. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.116.

2 Karl-Josef KUSCHEL. Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários. (tradução: Paulo Astor Soethe, Maurício Cardoso, Elvira Horstmeyer, Ana Lúcia Welters). São Paulo: Loyola, 1994.

p.14.

3 Id. Ibid. p.30. Para maiores informações sobre o assunto, que se dá no contexto europeu, alemão, para ser mais específico, consultar também Antonio Carlos de Melo MAGALHÃES. Deus no espelho das palavras: teologia e literatura em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000. pp.21ss.

4 Por enquanto os termos usados: teologia, religião, sagrado, literatura e outros, não serão exemplificados de forma detalhada, tudo ainda será introdutório. No decorrer da pesquisa os termos serão melhor explicados e objetivamente aplicados, principalmente teologia e literatura e religião e literatura.

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que, como dito por Juan Luis Segundo, a literatura é lugar de reflexão sobre a vida e da relação dessa vida com o divino:

“Raramente, os teólogos levam em conta, como argumentação válida para suas elaborações especulativas, a maneira com que muitas vezes os literatos tratam temas teológicos. Parece que não os consideram como dignos da mesma atenção que se presta às teorias filosóficas. Não obstante, creio que há um erro nisso, pois, além de tais escritores refletirem, às vezes, muito mais que os próprios filósofos, os elementos condicionantes mais populares do modo de pensar de uma época, eles têm a vantagem de que seu interesse cultural não vai se precaver tanto em ultrapassar o umbral do religioso e em aplicar a ele o senso comum e a liberdade crítica”5.

Assim, a teologia e as ciências da religião, levando todas essas questões em consideração, não podem deixar de lado um material tão vasto sobre a condição humana (antropologia) e a sua visão de Deus (teologia). Pois, como afirma Juan Luis Segundo, no texto citado acima, os temas teológicos são muito bem apresentados por literatos. Os mesmos refletem, para usar a mesma frase de Segundo, “[...] os elementos condicionantes mais populares do modo de pensar de uma época [...]”6, tanto com relação a si mesmos (como humanos no mundo), como de sua relação com o divino (a religião).

Este primeiro capítulo, Religião e Sertão: veredas e veredazinhas, como capítulo introdutório, procura exatamente por esses primeiros encontros. No entanto o faz buscando ser mais do que uma visita ao “estado atual da questão”, e, desse modo, objetiva analisar as veredas já visitadas, refletir sobre esses encontros, apropriar-se daquilo que é possível e importante para a atual pesquisa, e, por fim, consciente de suas limitações, começar a pensar em um caminho próprio para a leitura da obra literária de João Guimarães Rosa.

5 Juan Luis SEGUNDO. O Inferno como Absoluto Menos: um Diálogo com Karl Rahner. (tradução:

Magda Furtado de Queiroz). São Paulo: Paulinas, 1998. p.124. Juan Luis Segundo, nesse texto, está se referindo especificamente aos irmãos Grimm da Alemanha e ao escritor Hans Cristian Andersen da Dinamarca: Contes, d’Andersen. Paris, Mercure de France, 1954.

6 Id. Ibid. p.124.

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1. Teologia e Literatura: primeiras veredas

Com o primeiro ponto deste capítulo busco um caminho que seja mais do que apenas a apresentação de alguns autores e seus caminhos pelo diálogo entre teologia e literatura, como dito logo acima e como em alguns outros momentos buscar-se-á, por mais de uma vez, justificar: o texto procura ser mais do que uma apresentação do estado atual da questão. O texto que segue é essa busca, começa em veredas européias, passa por caminhos latino-americanos, até chegar ao contexto brasileiro.

1.1. Veredas na Europa: Charles Moeller

Começo minha travessia, travessia de pesquisador, por minhas veredas, veredazinhas dum sertão sem fim, por onde só umas raríssimas pessoas caminharam e caminham, trabalhando com Charles Moeller (1912-1986)7, teólogo católico, belga, que, num clássico teológico apologético de seis volumes, tratou, em língua francesa, na década dos cinquenta do século passado, o tema aqui já apresentado: teologia e literatura em diálogo. Dos seis volumes, tive contato apenas com os três primeiros e em português, edição de 1958, onde o autor, preocupado em demonstrar sua leitura de mundo, seu sentimento pastoral e sua preocupação teológica apologética, utilizou- se da literatura, trabalhando com vários autores e autoras, para, como o próprio título de seus seis volumes propõe, falar de Literatura do Século XX como fonte de leitura

7 Nascido em 18 de janeiro de 1912 em Bruxelas, Charles Moeller foi um grande leitor dos clássicos gregos, dos clássicos cristãos, dos clássicos europeus: Dante, Shakespeare e Nietzsche, além de Dostoievski; mas, e, principalmente, leitor da literatura do século XIX e XX, autores de seu tempo, conforme diz sua biografia e conforme suas obras demonstram. Foi professor na Faculdade de Saint- Pierre em Jette, onde foi nomeado professor em 1937. Também foi professor em Louvain (1950).

Além de membro da L'Académie royale de langue et de littérature françaises de Belgique de 18 de abril de 1970, ao dia 3 abril de 1986, dia de sua morte. Autor de vários livros, Moeller começou a publicar sua grande obra em 1953, com o primeiro volume de Cristianismo e Literatura no Século XX, com o subtítulo o silêncio de Deus. No mesmo ano publicou o segundo volume, com o subtítulo A fé em Jesus Cristo, seguido pelo terceiro: Esperança dos homens, de 1957, o quarto: L'espérance en Dieu notre Père, de 1960, o quinto: Amour des hommes, de 1975, e o sexto, póstumo, deixado escrito de próprio punho: L'exil et le Retour, publicado em 1993. Sua carreira religiosa e teológica também foi bastante significativa. Moeller fez parte do conselho do Concílio Vaticano II; em 1968 foi convidado para participar da redação do Esquema XIII, que se transformou, posteriormente, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (a Igreja no Mundo); foi, por dois anos em Roma, sub- secretário da Congregação da Doutrina da Fé; também foi convidado pelo papa Paulo VI para dirigir o Instituto Ecumênico de Jerusalém, onde, em 1972, tornou-se secretário. Além disso, Moeller, para além de suas muitas obras sobre literatura – todas dialogadas com a teologia –, produziu vários artigos de fé. Pesquisa feita no site da L'Académie Royale de Langue et de Littérature Françaises de Belgique, www.arllfb.be, no dia 09/08/2007 às 11h20m.

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para os acontecimentos e inquietações culturais do mesmo século, e, do mesmo modo, falar, como evento e instituição eclesiástica contra-cultural, do Cristianismo, que ele parece considerar leitor preocupado e privilegiado deste contexto, além, é claro, de detentor exclusivo da revelação, do dogma, do credo, da moral e da ética e, como não poderia deixar de ser, da fé.

Tendo não como objetivo resenhar o autor, mas apenas apresentar o método de aproximação-diálogo entre teologia e literatura que ele tem, tomo, como principal preocupação neste momento, apontar as veredas pelas quais o autor se enveredou.

Moeller deixa claro, enquanto teólogo e sacerdote – e é isso o que ele é –, o que deseja encontrar na literatura, quais os limites que a mesma possui e, a partir de seu tema central8, o modo como fará o diálogo. E é esse o caminho – não sem antes mostrar seus próprios limites – que o autor vai propor fazer:

“Meu intuito, neste volume [também nos outros], é dar algumas lições de teologia: a teologia tem má imprensa [sic], muitas vezes por culpa dos teólogos. Contudo parece-me possível encarnar algumas verdades cristãs essenciais com a ajuda das obras literárias contemporâneas. É possível que perseguindo duas lebres ao mesmo tempo, a da crítica literária e a do catecismo, eu deixe escapar ambas. Receio que nem os teólogos nem os literatos fiquem satisfeitos. É perigoso a gente instalar-se numa fronteira. Mas é indispensável que alguém se afoite, para que outros, depois dele, façam melhor”9.

Não buscando fazer melhor – não é essa a minha intenção ou preocupação –, mas fazendo depois, num outro tempo, não consigo, como pesquisador, na aproximação-diálogo entre teologia e literatura feita por Charles Moeller, ver um lugar fronteiriço. Ele escolheu, assim como todos têm e terão que escolher, um lugar de onde falar, e esse lugar está bem definido em sua obra:

“[...] se há uma coisa que me preocupa, é descobrir os caminhos secretos que ligam as verdades teológicas que encontro na Bíblia, nos Padres e na liturgia, com as verdades mais diretamente

8 Os temas são, como melhor explicados à frente, apresentados pelos subtítulos dos volumes.

9 Charles MŒLLER. Literatura do Século XX e cristianismo: o silêncio de Deus. São Paulo:

Flamboyant, 1958. (Volume I). pp.18-19.

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humanas que me ensinam o testemunho literário dos meus contemporâneos”10.

Seu objetivo, do mesmo modo, também é claro:

“Eu não creio no poder das verdades que se transmitem de boca em boca, de alma para alma. Baseando-me no testemunho de autores modernos, espero despertar o interesse de meus irmãos em humanidade e levá-los a compenetrar-se melhor das bases da sua fé”11.

Assim, Charles Moeller elabora seu método de diálogo num sistema de observação biográfica do literato12, levantamento das relações existentes entre essa biografia e a obra analisada13 e, por fim, uma refutação14 ou aproveitamento15 teológico do autor e da obra. O que sempre se faz levando em consideração o tema principal de cada volume, apontado pelos subtítulos dos mesmos: o silêncio de Deus, a fé em Jesus Cristo e esperança dos homens, que caberiam num tema comum: o

10 Id. Ibid. p.465.

11 Id. Literatura do Século XX e cristianismo: a fé em Jesus Cristo. São Paulo: Flamboyant, 1958.

(Volume II). p.28.

12 Falando de André Gide, o autor diz: “Debruçando-me sobre o seu drama pessoal, com luzes da teologia e do sacerdócio (como um confessor, poderia mesmo dizer), foi-me possível, segundo creio, entrever o despedaçamento da sua vida e melhor separar sua obra, que a Igreja acaba de colocar no Index, da sua pessoa, que ninguém tem o direito de dizer condenada aos olhos da misericórdia”. Id.

Literatura do Século XX e cristianismo: o silêncio de Deus. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume I). p.16. Contudo, não é apenas isso o que me parece acontecer.

13 O melhor exemplo disso, dentro da obra de Moeller, é André Gide: “A obra gideana prova esta verdade terrível; mas só Deus sabe o verdadeiro “drama de André Gide”. Vou talvez causar espanto, mas julgo dever dizer, como sacerdote, que nenhum crítico tomou em conta em seu verdadeiro peso humano o drama patológico da sua perversão sexual: as cartas de 1914 são, a este respeito, de tal modo claras, que se impõe a máxima misericórdia para julgar a sua pessoa. Gide queria ser compreendido. Nunca se ouviu bastante essa voz queixosa que ressoará até ao fim em seus escritos”.

Id. Ibid. p.155.

14 “Sartre apaga, com uma penada, vinte séculos de história cristã, sem uma investigação séria, apenas em virtude de uma opção prévia em favor do “racionalismo materialista” ou, se se prefere, segundo Gilbert Varet, do “empirismo dialético”.” Id. Literatura do Século XX e cristianismo: a fé em Jesus Cristo. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume II). p.80.

15 Moeller, citando personagens de Joseph Malègue no livro Augustin ou le Maître est là, diz: “O romance inteiro é dominado por uma galeria de figuras santas: Maria, a pequena aldeã viçosa e asseada, recusa beber um copo de água durante um longo passeio, porque quer comungar na capela de la Font-Sainte; um dia ela dirá que já não se fazem as terríveis mortificações dos tempos antigos, “não porque não se possa, mas porque ninguém quer mais fazê-los”; esta virtuosa menina, a quem Augustin dedicará um amor platônico, ingressará nas Clarissas de Paris. A Sra. Méridier, a admirável mãe de Augustin, nunca pensa em si mesma; em seu leito de morte pedirá para viver mais alguns dias, a fim de consolar Cristina da perda de seu filho; ao morrer, dirá: "felizmente que há Deus", mas até ao derradeiro instante da sua vida preocupar-se-á com os outros. Cristina, a irmã de Augustin, abandonada pelo marido, perderá seu bebê e sua mãe; cuidará do irmão até ao fim, esse irmão que, sem o saber, contagiou seu filho da doença que o levou; une o seu sacrifício ao de Cristo, sem frases, sem atitudes patéticas. Paulino Zeller, Monsenhor Herzog e Largilier... e tantos outros que tornaremos a encontrar no decurso deste capítulo.” Id. Ibid. p.208.

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sentimento de absurdo16 e o desespero humano diante da existência num mundo conturbado17: “o desespero devora nossa época”18. Desse modo, os autores e autoras são classificados em três grupos: os filhos dessa terra, os aeronautas sem carga19 e os filhos da terra e dos céus20; que significaria, de uma forma mais clara, aqueles que não creem, aqueles que creem errado, ou seja, os hereges, e aqueles que creem da forma correta e que, desse modo, revelam que ainda existe fé verdadeira num ambiente “fora” do espaço eclesiástico, revelando também que ainda há esperança para este mundo21.

Dentro desse esquema, Moeller procura na literatura do Século XX ecos de uma sociedade em profunda decadência espiritual22, dada a uma sexualidade doentia23 e a uma religiosidade espiritualista, gnóstica24 e herética25, quando não

16 Cf. Id. Literatura do Século XX e cristianismo: esperança dos homens. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume III). pp.227ss. Sobre Franz Kafka.

17 Com a leitura dos três volumes é possível perceber que o tema – que aponto como comum – aparece de forma indireta trabalhado nos três livros. Acredito também, pelos títulos dos demais, que o mesmo aconteça nas outras três obras.

18 Id. Ibid. p.12. Citando L. Evely. L’espérance. Fevereiro de 1953. pp.03-04. Referindo-se ao pós- guerra. Todo esse contexto de desespero, citado por Moeller, está ligado à situação da Europa que se reconstrói, ou tenta, depois da segunda grande guerra, dividida em um ateísmo profundo e uma espiritualidade que busca fundamentações. Assistimos, em meio século, a acontecimentos mais grandiosos e mais graves do que em nenhum outro período da história. No intervalo de uma geração, ou pouco mais, duas guerras mundiais tiveram lugar; estalaram duas das maiores revoluções dos tempos modernos; dois colossos nasceram, incomparavelmente mais poderosos que qualquer outro império da antiguidade. Forjaram-se instrumentos para captar a energia, cujas possibilidades ultrapassam os sonhos mais desvairados dos utopistas; técnicas psicológicas foram acertadas, capazes de afeiçoar os espíritos a um mesmo molde e de submeter os homens a uma obediência cega de autômatos. Tudo se passa como se, no século XX, ao aproximarem-se decisões graves e irrevogáveis, a marcha ininterrupta da humanidade tivesse alcançado uma velocidade apocalíptica. Id. Ibid. p.549.

Apud. Tibor MENDE, Regards sur l’histoire de demain, traduzido do inglês por M. Levi, Paris, 1954.

p.33.

19 “Huxley é um ser aéreo. Seus romances dão a impressão de ballet imóveis. É um aeronauta do espírito, mas um aeronauta sem carga.” Id. Literatura do Século XX e cristianismo: o silêncio de Deus. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume I). p.247.

20 Tomo como exemplo o primeiro volume da obra, o silêncio de Deus, que serve de parâmetro para os demais.

21 Cf. Id. Literatura do Século XX e cristianismo: esperança dos homens. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume III). Essa esperança se liga, no terceiro volume da obra de Moeller, a uma dualidade mundial: capitalismo e comunismo, EUA e URSS como esperanças humanas, e, num outro lugar, como contra ponto, uma esperança legitimamente cristã – diga-se: mais ligada à possibilidade do capitalismo –, para o aqui e agora e também para o futuro, escatológica.

22 “A hipótese materialista que mais perigosamente seduz o homem moderno consiste em fazer da religião uma “mitologia consoladora”, menos alegre talvez que a dos gregos, mas que envolve o crente numa irisada nuvem de esperanças irreais. [...] Os fiéis das religiões iludem-se. Sartre dirá que ele “são uns farçantes [sic]”, pois recusam ver que o homem está sozinho na sua ilha deserta.” Id.

Literatura do Século XX e cristianismo: a fé em Jesus Cristo. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume II). p.15.

23 “Deparamos aqui com o mais grave obstáculo do existencialismo ateu e da mentalidade contemporânea. O homem moderno recusa ser “engendrado”; ele quer-se sem ascendentes e sem

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ateia26. Dos ecos apresentados, ele, enquanto teólogo e sacerdote, seleciona autores e obras que refletem essa mesma sociedade, sem contudo, questioná-la; seleciona autores de uma espiritualidade herética, um meio de caminho entre dois extremos; e, como contra ponto, apresenta autores que também são ecos dessa sociedade, mas que, de uma outra forma, apresentam caminhos de uma espiritualidade e religiosidade verdadeira e cristã ou, se assim for melhor, cristã, por isso, verdadeira.

Contudo, para mim, essas veredas de Charles Moeller não me levam aos buritizais, não me levam ao Urucuia; não podem ser veredas para um diálogo com João Guimarães Rosa; pois qualquer confessionalismo religioso que se aproxime de Rosa para um diálogo, tendo como ponto de partida e de chegada uma teologia confessional, não dialoga mais, ou, de uma outra forma, à moda de Moeller, dialoga para refutar, para usar como exemplo de uma sociedade perdida numa religiosidade não mais presa aos sistemas fechados de uma confissão, e Rosa, o literato diante do teólogo, seria um bom exemplo para isso, já que ele não pertence a uma, mas sim a todas27. Essas veredas – digo isso com todo o respeito que posso ter – são veredas- mortas, “ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo, [...]”28.

descendentes. A importância atribuída à homossexualidade na literatura atual caminha nesse sentido, bem como todas as tentativas de controlar, por uma técnica, a propagação da vida”. Id. Ibid. p.91.

24 “Nós consideramos a Gnose e as heresias aparentadas, como velharias interessando apenas aos sábios frequentadores de museus de horrores antigos; esquecemos que a Gnose foi sempre O grande perigo que corre a Igreja.” Id. Literatura do Século XX e cristianismo: o silêncio de Deus. São Paulo:

Flamboyant, 1958. (Volume I). p.275.

25 “Não quero passar por um farejador de heresias: graças a Deus outros se encarregam disso, e bem mais do que seria desejável.” Id. Ibid. p.16. Apesar do autor dizer isso, como em outros anunciados do mesmo tipo, não acredito que ele tenha respeitado aquilo que anunciou.

26 “O antiteísmo domina o nosso tempo. A última temporada teatral (1951-52) revela que, para provocar ressonâncias na alma do espectador, e também para obter receita, é necessário levar Deus ao tablado, para o esbofetear ou adorar: em qualquer dos casos a obsessão de Deus é evidente.” Id. Id.

Literatura do Século XX e cristianismo: a fé em Jesus Cristo. São Paulo: Flamboyant, 1958. (Volume II). p.18.

27 João Guimarães ROSA e Edoardo BIZZARRI. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p.90. Carta de 25 de Novembro de 1963.

28 João Guimarães ROSA. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.417.

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1.2. Literatura e teologia latino-americana

A partir de outro lugar e, em certa medida, com preocupações diferentes, encontramos Pedro Trigo29 e Gustavo Gutiérrez30, em Teología en la Literatura Latinoamericana, na terceira parte do livro organizado por Pablo Richard, Raíces de la Teología Latinoamericana.

Para além do esquema de Moeller31, que tem na literatura o outro do diálogo que fala e depois se cala para ouvir a voz da teologia, refutando ou legitimando o autor e a obra, está, na minha leitura, a preocupação desses dois teólogos, católicos, latino-americanos, pertencentes à teologia da libertação, que, parecem-me, estão mais preocupados em encontrar – para além de uma voz para o diálogo – uma voz que grite junto, que denuncie junto a miséria de um povo.

Num primeiro momento, segundo Pedro Trigo, a relação entre a literatura latino-americana e a religião latino-americana inicia-se por dois meios possíveis: a

29 “Pedro Trigo es sacerdote jesuita, doctor en Teología, profesor del ITER (Escuela de Teología de la UCAB) y miembro del Centro Gumilla. Vive en una parroquia popular y acompaña a comunidades cristianas populares. Desde 1972 ha participado regularmente en encuentros de teólogos latinoamericanos. Ha publicado entre otros: Creación e historia, Salmos de Vida y fidelidad, Salmos del Evangelio, Consagrados al Dios de la vida. Ha colaborado en numerosas obras colectivas de Teología y escribe regularmente en revistas teológicas”. Pesquisa feita no site www.gumilla.org.ve, dia 24/09/2007, às 22h.

30 Gustavo Gutiérrez nasceu num bairro de Lima no Peru, no dia 08 de Junho de 1928, como um mestiço, parte hispânico, parte quéchua. Motivado por problemas de saúde na infância e adolescência decidiu seguir a carreira médica, mas deixou tudo para tornar-se padre. Por causa de seu esforço no trabalho teológico, a igreja o enviou para estudar na Europa: Louvain, Bélgica, Lyon, França e Gregorian, na Itália. Quando retorna a Lima, num outro momento de sua vida, “tornase asesor nacional de la UNEC (Unión Nacional de Estudiantes Católicos) y profesor de teología dogmática y de ciencias sociales en la Universidad Católica de Lima. Es considerado como el iniciador de la llamada teología de la liberación, su obra se presenta como una crítica del estado de pobreza y de esclavitud del pueblo latinoamericano y revaloriza teológicamente los esfuerzos de liberación que se llevan a cabo en aquel continente. Su obra La teología de la liberación (1971) ha sido traducida a varios idiomas; otros libros que cabe recordar son Teología desde el reverso de la historia (1977) y La fuerza histórica de los pobres (1982). Pesquisa feita nos sites: www.bookrags.com/biography e www.biografiasyvidas.com/biografia no dia 24/09/2007, às 22h15m.

31 Moeller também trabalha a questão social como tema da literatura e de uma preocupação teológica pastoral. Em seu terceiro volume ele mistura a esse tema – o que também está misturado dentro da teologia da libertação – o capitalismo e o marxismo-comunismo, dando, diferentemente da teologia da libertação, como seria de esperar, maior credibilidade e possibilidade libertadora ao capitalismo, que, diretamente, está ligada ao progresso do mundo moderno, à ciência e à tecnologia. A Europa cristã moderna ainda é, apesar da guerra e das consequências da mesma, uma esperança libertadora para o mundo: “se a Europa quer renunciar a todas as idéias de privilégio e hegemonia, verificará sem dúvida que a supremacia do homem branco acabou, mas não o seu papel, que continua fundamental na evolução do futuro”. Id. Literatura do Século XX e cristianismo: esperança dos homens. São Paulo:

Flamboyant, 1958. (Volume III). p.551.

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ausência ou o panfleto; ou a religião não tem nenhuma importância, é irrelevante para o contexto, ou seja, não aparece como tema, e

“el hecho es sin duda macizo; [já que] los novelistas que reaccionan contra el elitismo modernista y se meten a la tierra para cantar su grandeza, destapar su opresión y proclamar sus luchas y esperanzas, tanto en sus análises como en sus utopias, dejan de lado a la Iglesia”32.

ou, de uma outra forma, aparece como legitimadora desse processo de apropriação e espoliação do povo. Citando Jorge Icaza, Huasipungo, Pedro Trigo afirma: “[...] la novela encierra una crítica frontal al papel de la religión en la sierra ecuatoriana y una requisitoria rabiosamente anticlerical”33, “la religión es sólo y totalmente alienante [...]”34.

Por outro lado, a religião, dentro da literatura latino-americana, pode também ser observada como mais uma vítima entre outras vítimas35: “hiciéronlo mal los españoles cuando destruyeron para construir otros católicos, los templos gentiles.

Aquello no constituía realmente el acabar con una religión para que se implantase otra, sino el acabar con toda religión, con todo sentido de religión”36, fato que seria fruto de uma “evangelização” desenfreada do cristianismo nas novas terras

32 Pedro TRIGO. Teología narrativa en la nueva novela latinoamericana. In: Pablo RICHARD.

Raíces de la teología latinoamericana: nuevos materiales para la historia de la teología. São José, Costa Rica: DEI: CEHILA, 1985. p.263.

33 Id. Ibid. p.266.

34 Id. Ibid. p.264. Um outro bom exemplo para isso é Miguel Angel Astúrias, em El Señor Presidente, que mostra, segundo Pedro Trigo, a profunda alienação da igreja, que parece viver numa outra realidade, num outro mundo. Citando o relato literário de um assassinato presenciado por um bispo num período fictício de ditadura militar, Pedro Trigo diz: “Ágora bien, no puede negarse una cierta complementariedad en ambos trabajos: el policía asesino despacha al hombre de este mundo y el obispo santo lo lleva al cielo. En realidad el obispo ¿a quien da la absolución? La respuesta es terrible:

a ambos. A uno “espiritualmente” y al otro socialmente. Esa es la terrible transacción: no condena al asesino a cambio de tener la posibilidad de atender espiritualmente a los asesinados”. Id. Ibid. p.290.

35 Exemplo disso é a figura do vigário, “es uno más en esta fila de espectros”. Id. Ibid. p.271.: “La novela [El Luto Humano de José Revueltas] es como una metáfora terrible: la muerte de una niña junta para la muerte a los que van a morir. Son cuatro familias. Asesinos y víctimas se despojara de su condición, se unen ante la muerte de la niña para celebrar su propia precariedad, su esterilidad, su condena. Se está desbordando el río bafo los cielos desatados. Dos hombres lo atraviesan para buscar al cura. Van en la barca los dos enemigos, uno cae al agua y el otro lo rescata, unidos por la muerte de la niña que hipoteca todo pasado. Regresa con ellos el cura. Sin ganas, sin esperanzas, atado a ellos por el mismo desmoronamiento. ¿Viene a entregar la salvación o a comulgar con su muerte? Id. Ibid.

p.268.

36 Id. Ibid. p.269. Citando diretamente El Luto Humano de José Revueltas.

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“descobertas” pelos espanhóis; história, como aponta Trigo, muito bem narrada pelos literatos37 latino-americanos.

Trigo ainda aponta dentro da literatura latino-americana exemplos das relações existentes entre igreja e sociedade; mostra a religiosidade popular como possibilidade de outra forma de espiritualidade e cristianismo, além de revolta contra o sistema eclesiástico fechado38; aponta os conflitos relacionados à moral39 enfrentados pela igreja graças ao processo de modernização40, início de todos os males segundo Charles Moeller; e também apresenta, como opções para a igreja, os limites e as necessidades de escolhas entre o ficar do lado dos ricos ou do lado dos pobres, revolta e revolução41.

37 Dentro dessa lógica, Pedro Trigo, utilizando-se da literatura, mostra, a partir dos vigários (e de outros religiosos), personagens constantes nas obras, os exemplos dessa evangelização-desapropriação feita pela igreja, que ora foi de participação efetiva, ou seja, legitimação do processo e ação no processo, e ora de proteção e cuidado, ou seja, uma outra possibilidade evangelizadora e cristã, como por exemplo Dionísio, frei, protetor de Nila, personagem que figura a terra que é desejada: “El tipo de institución eclesiástica que representar los dos fray Dionisios de Cubagua es el de una Iglesia profética que, llevada por su amor al pueblo como proyecto histórico y cultura, es capaz de criticar radicalmente el proyecto colonizador y neo-colonizador y al talante idolátrico, inhumano de la cultura imperialista.

Su defensa del indio lo lleva constituirse en guardián de su memoria histórica y suscitador de un proyecto liberador.”. Id. Ibid. p.281. Referindo-se ao frei Dionísio, personagem de Cubágua, obra de Enrique Bernardo Núñez.

38 Cf. Id. Ibid. pp.291ss. Análise de Hijo de Hombre de Augusto Roa Bastos. Que também pode ser uma revolta não só contra a igreja, mas também contra todo o sistema social opressor vigente: “La tensión entre el pueblo y la institución tiende a ser resuelta por la institución apoyándose en el poder establecido y reprimiendo al pueblo. Pero esta represión no puede extremarse: la institución se quedaría sin clientes y el Estado sin el principio de orden que supone la religión controlada”. Id. Ibid.

p.300.

39 Cf. tb. Id. Ibid. pp.300ss. Análise da obra Juntacadáveres de Juan Carlos Onetti. “Tal vez la Iglesia Latinoamericana en los años 50 y 60 no haya pecado de amor al orden por flojera o falta de imaginación; pero tal vez sí se haya dado en ella esa energía extraviada del cura Bergner, un auténtico gigante, pero que al faltarle la trascendencia, el sentido de realidad del Evangello, ha emprendido tremendas peleas, pero contra un enemigo equivocado”. Id. Ibid. p.303.

40 Exemplo para isso é Al filo del agua de Agustín Yañez (Id. Ibid. pp.281ss), que é, como tema, o conflito entre a modernização do México, proposta por Porfírio Díaz, e a religiosidade conservadora católica. Id. Ibid. p.281. O romance que se desenrola entre os anos de 1909 e 1910, é teorema perfeito para isso: “[...] en esta cristandad nada se remite al brazo secular. No hay coacciones físicas. Sólo presión moral. La institución eclesiástica domina a través de las conciencias”. Id. Ibid. p.283. Nesse contexto a igreja é vista como opressa moral, trata temas menores e, deste modo, não percebe os temas mais relevantes, as questões sociais, por isso al filo del agua.

41 Cf. Id. Ibid. pp.304ss. Exemplo de Pedro Párano, livro de Juan Rulfo. “Pero el padre Rentería tiene algo de ventaja sobre Pedro Páramo, un principio de vida: su pecado. Su pecado - una forma al fin y al cabo de relación con el Dios de la vida - no le permite resignarse del todo. Mientras se confiese pecador no estará muerto. Pedro Páramo se ha cruzado de brazos. Las revoluciones van y vienen ante su rencorosa indiferencia. Y un día, la noticia: “Se ha levantado en armas el padre Rentería. ¿Nos vamos con él o contra él?/ - Eso ni se discute. Ponte al lado del gobierno (...)/ - Me iré a reforzar al padrecito. Me gusta cómo gritan. Además lleva uno ganada la salvación”. En el contexto histórico la revolución seria la de los cristeros. [...] no se trata de la pretendida defensa de Dios y de la institución eclesiástica, sino de la lucha contra la opresión del hombre por el hombre, sentida como pecado.” Id.

Ibid. p.308. Cf. tb. Id. Ibid. pp.309ss. Análise da obra La feria de Juan José Arreola. “La feria es

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Por fim, Pedro Trigo, chega naquele que, enquanto literato, grita junto com a teologia42, José Maria Arguedas, com quem Gustavo Gutiérrez43 também vai aproximar-se para diálogo:

“Es imposible leer a Arguedas sin percibir que el asunto de la fe religiosa - con todos sus avatares - es capital en su obra. Trigo lo demuestra bien examinando con finura en Ríos Profundos la función central que juegan en la novela los enfrentamientos entre Ernesto y el sacerdote director del colegio, así como estudiando el debate sobre Dios en Todas las Sangres, y las implicancias del nuevo cristianismo y del Dios liberador en Los Zorros. Esto ocurre simple y sencillamente porque Arguedas encuentra lo religioso muy dentro de la vida del pueblo desde el que estribe y del que forma parte”44.

Ainda, segundo Trigo, bem como segundo Gutiérrez, a questão em Arguedas está mais em sobre de qual religião e de qual Deus se está falando; mais ainda: como se está falando desta religião e deste Deus45. Tenho a impressão que o que se busca é uma religião fora dos espaços religiosos, nos mitos do povo, na vida e na cultura. E isso é boa vereda.

Num diálogo em Todas las sangres, diálogo entre o velho sacristão de São Pedro e o padre, revela tal afirmativa:

“El cura le pide que cante en la capilla de los indios y él responde:

“Quemado yo, padre. Mi iglesia dentro de mi pecho quemado.

¿Cómo voy a cantar? La Gertrudis igual que ángel canta. El sacristán contesta./ - La Gertrudis no piensa en Dios; canta triste, sí, porque es deforme./ - Padrecito: tú no entiendes el alma de los indios. La Gertrudis, aunque no conociendo a Dios, de Dios es.

¿Quién, si no: le dio esa voz que limpia el pecado? Consuela al triste, hace pensar a alegre; quita de la sangre cualquier suciedad./ -

interesante porque presenta la realidad de una institución eclesiástica dividida. Dividida y en lucha. Y sin posibilidad de acomodo. Hay dos proyectos pastorales y son irreconciliables. Y la división no es por cuestiones sutiles de escuelas teológicas sino por cuestiones bien terrenales [...]”. Id. Ibid. p.315.

42 Diga-se melhor: teologia da liberdade, lugar de onde Pedro Trigo e Gustavo Gutiérrez falam.

43 Gustavo GUTIÉRREZ. Entre las calandras: algunas reflexiones sobre la obra de J. M. Arguedas.

In: Pablo RICHARD. Raíces de la teología latinoamericana: nuevos materiales para la historia de la teología. São José, Costa Rica: DEI: CEHILA, 1985. pp.345-363.

44 Id. Ibid.p.358.

45 “Importa hacer notar que Arguedas no se entrampa en lo accesorio y va a lo medular de la cuestión:

Dios mismo. “¿Quién es Dios? ¿Quién es?”, preguntaba la kurku a partir de su sufrimiento y su insig- nificancia. Aquí está lo decisivo, todo otro aspecto de lo religioso (doctrinas, instituciones, personas) le está supeditado.” Id. Ibid. p.358.

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Bueno, terco. No puedo obligarte. Esa kurku tiene algo, algo extraño; duele./ - El Dios, pues, padrecito. Ella ha sufrido entre los señores. Dios de los señores no es igual. Hace sufrir sin consuelo””46.

A busca de alguns personagens protagonistas de Arguedas, também como exemplo, é o de libertar-se da religião estabelecida e da religião imposta de forma hierárquica pelo catolicismo, instituição reguladora da fé. E essa busca, busca de libertação dos personagens de Arguedas, dá-se nos espaços da memória, o mito. Em Los rios profundos, esses espaços da memória estão ligados a uma busca pelo sentido da religião. O protagonista do romance, Ernesto, não consegue, depois de buscar seu povo e analisar a realidade do mesmo, aceitar a pregação do padre diretor do colégio, que representa, no romance, a ideologia “de la sociedade establecida”47. Já em Todas las sangres o contexto é de diálogo, para Trigo, todos os sangues falam por si mesmo48 e, deste modo, dialogam, e no diálogo, constitui-se uma busca do sentido da religião49, onde, também, cada sangue busca seu próprio sentido. Em El zorro de arriba y el zorro de abajo, observa-se o que mais interessaria a teologia da libertação, o projeto libertador50 do cristianismo em diálogo com o marxismo:

“Que la industria, U.S.A y el gobierno sean enemigos del pueblo, ya estaba claro en sus novelas anteriores. Pero que las fuerzas liberadoras fueran el nuevo cristianismo y los comunistas eso es una novedad. [...]. [Arguedas, em relação aos] comunistas, siempre había apreciado el coraje, aunque desviado. Pero es una novedad absoluta la valorización de la institución eclesiástica”51.

Esta seria a lógica de libertação em Arguedas: cristianismo e marxismo compreendidos dentro de uma busca por libertação, numa relação dialética, onde “el comunismo sería la mediación histórica del cristianismo”52: “no basta

46 Pedro TRIGO. Teología narrativa en la nueva novela latinoamericana. In: Pablo RICHARD.

Raíces de la teología latinoamericana: nuevos materiales para la historia de la teología. São José, Costa Rica: DEI: CEHILA, 1985. p.326.

47 Id. Ibid. p.320.

48 Id. Ibid. p.322.

49 Id. Ibid. pp.324ss.

50 Cf. tb. Megafón o la guerra de Leopoldo Marechal. Id. Ibid. pp.333ss. Sobre o bispo Frazada:

“Jesús clavado en la cruz habría iniciado el proceso. Y el obispo habría librado ante todo una batalla mística: Desclavar al Cristo inmovilizado por la institución eclesiástica, devolverlo a su desafiante desnudez raspando tanto revoque edulcorante que lo desfigura, y reintegrarlo a sus inabarcables dimensiones espacio-temporales: [...]”. Id. Ibid. p.336.

51 Id. Ibid. pp.329-330.

52 Id. Ibid. p.330.

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rezar, hay que pelear”53.

Contudo, se se considerar o coração da questão: Deus mesmo, segundo Gutiérrez vê em Arguedas54, o grito diante da vida e da miséria da vida, miséria que está na e para além da pobreza, podemos considerar, a meu ver, essa como uma possibilidade de leitura de Guimarães Rosa: teologia da libertação e Guimarães Rosa.

Por outro lado, se a questão é social, a vereda se torna, apesar de possível, insuficiente, já que a questão social não é tema central no Grande Sertão: Veredas.

Há pobreza, fala-se da pobreza, mostra-se a pobreza, mas ela não é tema e nem há tom de denúncia quando dela se fala. Se formos para Guimarães Rosa, como acima é mencionado – e para isso temos que entrar no contexto da crítica literária e por rápido sair da teologia – encontramos autores que trabalham com a denúncia social como tema para a obra rosiana. Willi Bolle, como exemplo, em Diadorim – a Paixão como Medium-de-Reflexão, vê, distanciando Guimarães Rosa de Euclides da Cunha, uma possível leitura social do Grande Sertão: Veredas. Entre “Euclides e Guimarães, um real e outro ficcional [...] [vê-se que] o ficcional é o que mais se aproxima do real e o real [jornalístico] é o que mais se distancia do real”55, o real social, segundo Bolle. Diadorim como exemplo, personagem medium-de-reflexão, além de representar o tema do gênero56, segundo o autor, é também representação do social:

“A paixão amorosa de Riobaldo por Diadorim é o medium através do qual Guimarães Rosa expressa o seu amor pelo povo sertanejo [...] Diadorim é o medium artístico que faz com que a história da paixão amorosa de Riobaldo por Diadorim não seja apenas um ato de memória afetiva individual, mas também uma reflexão sobre a sociedade e a história.57 [...] Diadorim é o povo”58.

Esse, parece-me, seria o limite de uma interpretação exclusivamente social para o Grande Sertão: Veredas. Isso sem falar de Hermógenes, que segundo Bolle,

53 Id. Ibid. p.333. Citação do romance feita por Pedro Trigo.

54 Gustavo GUTIÉRREZ. Entre las calandras: algunas reflexiones sobre la obra de J. M. Arguedas.

In: Pablo RICHARD. Raíces de la teología latinoamericana: nuevos materiales para la historia de la teología. São José, Costa Rica: DEI: CEHILA, 1985. p.351.

55 Willi BOLLE. Diadorim – a paixão como medium-de-reflexão. In: Lélia Parreira DUARTE; e Maria Theresa ALVEZ. (organizadoras). Outras margens: estudos na obra de Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p.349.

56 Id. Ibid. p.346.

57 Id. Ibid. p.353.

58 Id. Ibid. p.354.

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representa o povo mal, e de figuras inumanas que constantemente aparem no Grande Sertão: leprosos, coxos, lázaros, meninos pretos famintos, gente louca e os catrumanos59, figuras representativas de atraso e inumanidade. Mas se é só isso que interessa à teologia e principalmente à teologia da libertação – e eu sei que não é só isso – a possibilidade de leitura de Rosa fica pequena, mas se a preocupação é outra:

o coração da questão: Deus mesmo, aí os espaços são muito maiores, são espaços do tamanho do sertão.

1.3. Teologia, antropologia e literatura: veredas em Antonio Manzatto

Não muito distante de Charles Moeller e menos ainda de Pedro Trigo e Gustavo Gutiérrez, encontra-se outra vereda, a vereda de Antonio Manzatto60, em Teologia e Literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado, que começa com uma justificação epistemológica, que, segundo o autor, seria indispensável para “uma reflexão teológica a partir de uma obra de um romancista”61. Segundo Manzatto, literatura é arte, teologia é ciência62, desse modo, cada uma deve respeitar suas especificidades: literatura como objeto e teologia como lugar de pesquisa.

A primeira questão levantada por Antonio Manzatto, que se justifica em sua importância, relaciona-se à preocupação de legitimação que o pesquisador precisa ter quando se aproxima da literatura como objeto de sua pesquisa: o que se vai fazer precisa estar sempre muito bem delimitado e justificado. Pois, dentro desse esquema

59 Id. Ibid. p.354.

60 Antonio Manzatto possui graduação em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (1982), graduação em Filosofia pela Faculdades Associadas do Ipiranga (1978), mestrado em Teologia pela Universite Catholique de Louvain (1990) e doutorado em Teologia pela Universite Catholique de Louvain (1993). Atualmente é professor titular da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e professor titular do Centro Universitário Assunção. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Sistemática. Atuando principalmente nos seguintes temas: teologia, literatura, antropologia, Jorge Amado, romance. Informações retiradas do Currículo Lattes do autor.

61 Antonio MANZATTO. Teologia e literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. p.13.

62 Id. Ibid. p.13. Cf. tb. p.38. “A teologia é a ciência da fé, [...]”.

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de delimitação e justificação duas perguntas sempre são feitas: o que é a literatura?63, e qual é a relação da literatura com a verdade?64 Perguntas que, em grande medida, buscam uma forma de tirar ou de dar uma importância que justificaria uma pesquisa em algo que parece ser, num primeiro momento, apenas coisa relacionada ao belo65, feita para dar prazer, para o lazer, ou mais, para o devaneio66. Essa pouca ou nenhuma importância dada à literatura estaria, por sua vez, ligada à sua ficcionalidade, ou seja, ao fato de que a literatura não trata de verdades e, por não tratar de verdades, não pode ser coisa séria67. Contudo, para Manzatto, a literatura, por ser ficção e estar preocupada com o belo, o estético, não precisa estar desligada de verdades: “essa história é bela e contém ensinamentos, diz Jorge Amado. Isso significa que verdade e beleza coexistem no domínio da arte literária”68. Assim, Manzatto entende que o literário, a partir da verossimilhança em Ricouer, fala também de verdades e que, em alguns casos, de forma até melhor ou mais profunda do que a própria verdade científica: “[...] a ficção pode conter uma verdade, e mesmo talvez uma verdade mais profunda e mais verdadeira que o empirismo”69.

“A obra literária [desse modo, a partir da verossimilhança,]

ilumina e descobre nossos pensamentos íntimos, torna-nos conscientes de sua profundidade. Lendo, nós nos descobrimos a nós mesmos à luz do autor e de sua obra; e, nos conhecendo melhor, podemos chegar à ação ou à conversão necessária.70 [...]

não [trata] da transmissão de um conhecimento científico, mas sim da transmissão do sentido da vida [...]”71.

63 “[...] não é possível buscar-se uma noção estrutural do que seja literatura, pois não se pode encontrar senão noções que se revelam funcionais”. Aput Tzvetan TODOROV. Les genres du discours. Paris: Seuil, 1978. p.15.

64 Cf. Id. Ibid. pp.16ss.

65 “Se a literatura é uma arte, ela deve ter relações com o belo; [...].” Id. Ibid. p.24.

66 “O trabalho dos poetas e autores, dentro do que passou a ser considerado como literatura, foi, quase sempre, colocado na esfera da motivação estética e não da hermenêutica, servindo, portanto, mais para os momentos de devaneio e fruição do que para os de análise e reflexão.” Antonio MAGALHÃES.

Deus no espelho das palavras: teologia e literatura em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000. p.49.

67 “Essa história é bela e contém ensinamentos, diz Jorge Amado. Isso significa que verdade e beleza coexistem no domínio da arte literária.” Antonio MANZATTO. Teologia e Literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994.

p.24. “A questão torna-se, então, saber se na literatura a verdade é submetida à estética ou vice-versa, ou, dito de outra maneira, ver como se dão, em literatura, as relações entre estética e verdade”. Id.

Ibid. p.25. Assim, “para não se trair a obra literária é necessário tomá-la sempre como literatura, forma e conteúdo unidos.” Id. Ibid. p.34.

68 Id. Ibid. p.25. Aput O Sumiço da Santa de Jorge Amado.

69 Id. Ibid. p.16.

70 Id. Ibid. p.23. Aput Luís Alonso SCHÖKEL. La parole inspirée: ecriture sainte à la lumière du langage et de la littérature. Paris: Cerf, 1971. p.291.

71 Id. Ibid. p.23.

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O literário, segundo Manzatto, fala da vida e, falando da vida, aproxima-se das ciências que se preocupam com a vida. No entanto, a literatura possui seu lugar próprio quando faz isso, lugar que deve ser respeitado e valorizado: “a literatura, a partir de um ponto de vista particular, busca apreender o sentido do mundo e do homem, e exprimi-lo segundo sua especificidade”72. E é essa busca em apreender o sentido do mundo e do homem que aproxima a literatura da teologia; essa é a vereda de Manzatto, a antropologia73: “é, pois, o caráter antropológico da literatura que é importante para a teologia”74, vereda à qual hei de voltar no decorrer da pesquisa.

Manzatto, como teólogo, também fala de um lugar específico, a teologia da libertação75, que, assim como a literatura, tem como preocupação o humano:

“A literatura pode ajudar a bem conhecer o homem em favor de quem a libertação deve ir. [...] a arte não está livre de ideologia, [...] pode existir uma arte de libertação. [...] Quando o povo, ou o artista em seu nome, canta e celebra o que toca, sua luta, sua esperança, seu conhecimento mesmo intuitivo da libertação, a teologia pode aceitar a racionalidade dessa linguagem”76.

Ainda nessa relação de diálogo entre teologia e literatura, Manzatto aponta preocupações de cunho metodológicos que já foram aqui apresentados: cada participante do diálogo deve respeitar seu lugar específico. A teologia, assim como a literatura, possui sua especificidade e é, a partir dela, que o teólogo que empreende esse diálogo deve partir: “se a teologia não pensa mais sua própria experiência mas a de um outro horizonte, ela deixa de ser teologia. O diálogo com as ciências ou as artes não exige da teologia que esta perca sua identidade”77. E é assim que o teólogo,

72 Id. Ibid. p.21. Aput José Luís Plascência MONCAYO. La relación entre la antropologia y la cristologia en la obra de Dostoyevski. Roma: Facultas Theologiae, 1988. p.16.

73 “O teólogo é um homem de igreja, mas ele vive também mergulhado em uma sociedade atravessada por interesses e conflitos; sua produção teológica é condicionada por essa sociedade, e busca dar respostas nascidas da experiência de fé aos problemas que essa sociedade enfrenta. [...] A vida humana concreta tem, assim, importância para a reflexão teológica”. Id. Ibid. p.46. Isso se parece muito com o caminho da antropoteologia de Juan Luis Segundo, que trabalharei no segundo capítulo dessa tese, com intenção de traçar minha própria vereda de diálogo entre teologia e literatura.

74 Id. Ibid. p.69.

75 “Fazer teologia sem esse ato primeiro [a vida cristã] é deformar a Revelação, ou reduzir a teologia a uma logologia, uma palavra sem sentido. [...] A teologia da libertação quer ser ato segundo de uma vida cristã vivida em um continente rasgado pela pobreza. [...] Assim a teologia como inteligência de fé é comprometida como inteligência não de uma simples afirmação de verdades, mas de um engajamento, de uma atitude global diante da vida.” Id. Ibid. p.53.

76 Id. Ibid. p.89.

77 Id. Ibid. p.39.

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quando cumpre seu papel teológico, mesmo no diálogo78, deve tratar o caráter da teologia com respeito: “o papel da teologia é repensar os dados da Revelação a partir e dentro da experiência de fé, tal como esta é vivida hoje pela comunidade cristã”79. Para tal empreendimento, Manzatto escolhe Jorge Amado, e, faz isso preocupado em demonstrar que a literatura é apenas objeto da teologia, ela pergunta e a teologia responde:

“A experiência de fé não se faz independentemente das outras experiências humanas e da cultura: [...] Assim o literário pode dar à teologia ocasião para que seja feita uma reflexão sobre a Palavra de Deus não a partir do espaço eclesial mas a partir do mundo, e até mesmo fornecer-lhe o material para a inculturação da fé, na medida em que apresenta o homem, a sociedade, a cultura”80.

Assim como dito em parágrafo anterior, já concluindo esse ponto, Rosa não tem uma preocupação social como ponto central para sua obra – apresentação do homem, da sociedade e da cultura num lugar, numa região –, o que não diz que ele não trate do social e nem que não faça uma crítica ou aponte problemas, mas essa, certamente, não é a ênfase de sua obra. Mas o humano, sua existência (a vida), sua crise (o sofrimento) e sua busca pelo sagrado (o religioso) são seus temas: “a língua, para mim [diz Guimarães Rosa], é instrumento: fino, hábil, agudo, abarcável, penetrável, sempre perfectível, etc. Mas sempre a serviço do homem e de Deus, do homem de Deus, da Transcendência”81.

Por fim, não gastando muito fôlego aqui, já que esse será tema de um capítulo, acredito que, para encontrar as veredas e veredazinhas do Grande Sertão que serão, nesse trabalho, trilhados, será preciso, primeiro, encontrar a antropologia contida no romance apontada por Manzatto82, encontrar a vida, a vida do homem

78 “[...] a cultura supõe um conjunto de criações humanas transmissíveis de geração em geração por mecanismos simbólicos. [...] Pelos símbolos, ele mostra o povo em sua condição histórica, e revela a vida, a experiência e a verdade desse povo. [...] Ora, se a teologia quer dialogar com as culturas, a literatura torna-se um meio interessante para esse diálogo, pois ela auxilia mesmo a inculturação da fé.” Id. Ibid. p.79.

79 Id. Ibid. p.40.

80 Id. Ibid. p.68.

81 Maria Apparecida Faria Marcondes BUSSOLOTTI (org). João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p.412.

Correspondência de João Guimarães Rosa, 27 de Agosto de 1967.

82 “Ela interessa-se por tudo o que é humano, de tal modo que se pode dizer que a literatura é tão grande quanto o humano. Diversas ciências aproveitaram-se disso ao longo dos séculos e debruçaram-

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humano que Rosa apresenta, para, desse modo, encontrar Deus ou, se assim o for, encontrar o Dia, ou ainda, encontrar um por meio do outro:

“[...] quem-sabe, a gente criatura ainda é tão, que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus – quando o projeto que ele começa é para muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver aproximo de Deus é em figura do Outro?”83

2. “Deus no Espelho das Palavras”: sobre o método da correspondência

Retomo o caminho da pesquisa com esse segundo ponto, cujo título é o mesmo da obra do autor que aqui será seguido, Antonio Magalhães84, ainda preocupado com as delimitações da tese, no entanto, assim creio eu, com uma percepção já avançada do assunto. Deus no espelho das palavras, livro ganhador do prêmio Jabuti de 2001, e a proposta de método que ele oferece para o diálogo entre teologia e literatura, tornam-se, como já se percebeu nos caminhos feitos até aqui, meio de leitura que tomo, de dentro do diálogo, para a obra de João Guimarães Rosa.

Localizo o ponto como um interludium não apenas para estabelecer uma divisão no capítulo ou na reflexão feita até o momento, que deixa para trás uma primeira discussão sobre o assunto: teologia e literatura e religião na literatura, e retoma o mesmo por outros caminhos e preocupações num terceiro e último ponto, o que, de certa forma, o próprio texto de Magalhães, em si mesmo, já faz, mas também pela importância que a obra aqui analisada possui, tanto para minha pesquisa, por seu método – nessa vereda ainda há muita água –, quanto pela a interface aqui seguida:

se sobre a literatura para desenvolver seus estudos e chegar a uma melhor compreensão do humano.

[...] Por aí, pode-se perceber que o romance vai além da narração, do relato, além do próprio romance, e engloba os contextos social, econômico, racial, religioso, político, cultural, ideológico e torna-se então interessante, como campos de pesquisa, para várias ciências.” Antonio MANZATTO. Teologia e literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. São Paulo: Loyola, 1994. pp.63-64.

83 João Guimarães ROSA. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.56.

84 Antonio MAGALHÃES. Deus no espelho das palavras: teologia e literatura em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000. (Coleção: Literatura e Religião). 213p. Antonio Magalhães é Doutor em Teologia pela Universitat Hamburg, U.H., Alemanha. Foi professor no programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, UMESP. Hoje é professor na Universidade Estadual da Paraíba, UEPB, na Pós- graduação em Literatura e Interculturalidade do Departamento de Letras e do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais.

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teologia e literatura em diálogo, oferecendo, como proposta na própria interface, um método e, também em grande parte para minha pesquisa, uma forma metodológica a ser seguida.

Antonio Magalhães propõe um método para o diálogo entre teologia e literatura denominado método da correspondência [assim ele o chama], não da correlação, como em Tillich85, como Magalhães de forma preocupada procura apresentar86, mas sim, método que leva em consideração aquilo que corresponde e que por corresponder pode ser ponto de ligação e partida para um diálogo:

“[...] na correspondência parte-se do princípio de que essa relação precisa ser radicalmente superada na teologia e que precisamos encarar a possibilidade de propiciar um diálogo no qual, seguindo o conceito de correspondência em matemática, a cada elemento de um conjunto são associados um ou mais elementos de outro. Numa formulação mais voltada para o mundo da teologia, a cada elemento considerado da revelação na Bíblia e na tradição teológica, podem ser associados um ou mais na literatura mundial.

A cada narrativa considerada compreensão da fé, há que se associar outra dentro da literatura. A cada forma de anúncio de uma verdade considerada fonte da fé, há que se associar outra na experiência das pessoas e nas interpretações literárias. Com isso, Bíblia e tradição mantêm-se como interlocutoras, sem elas não haveria correspondência; perdem, entretanto, seu lugar de normatividade única do saber teológico”87.

Desta forma, o autor, avançando muito em relação aos autores apresentados anteriormente, apresenta uma possibilidade de diálogo que não considera o esquema pergunta ou exposição (da literatura) e resposta (da teologia)88 usado, como por

85 “No método da correlação, pode-se cair no simplismo de uma redução à relação entre pergunta (literatura) e resposta (revelação).” Id. Ibid. p. 142.

86 “É método da correspondência porque não sequer confundir com nenhum dos métodos e modelos teológicos apresentados no decorrer deste livro, apesar de considerar a importância da grande maioria deles.” Id. Ibid. p.205.

87 Id. Ibid. p.205.

88 Nessa aproximação, e essa é a critica de Antonio Magalhães, “o texto literário é visto como amostra e interpretação da realidade humana e, como tal, não possui, aparentemente, uma consistência teológica, sem que seja negado o valor teológico, que ele possui. A diferença entre valor teológico e consistência teológica não é somente didática, mas está na própria alma desse método. À literatura é concedido o valor teológico porque ela pode apresentar possibilidade de compreensão do mundo no qual a teologia deseja se encarnar, mas nela não é reconhecida uma consistência teológica, porque não apresenta nada que altere o percurso divino e revelatório da encarnação. [...] A primeira forma de leitura é retroativa, porque parte do pressuposto de que as maiores verdades já estão ditas dentro do aparato canônico da Igreja. A segunda forma de leitura é perspectiva, porque ela quer operar mudanças no curso da realidade humana e oferecer diretrizes para a prática da Igreja no mundo. Na

Referências

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