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Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.5 número2

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Academic year: 2018

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A historia da psicanálise de crianças no Brasil Jorge Luís Ferreira Abrão

São Paulo: Escuta, 2001

Os caminhos da clínica psicanalítica

de crianças no Brasil

Carmen Lucia Montechi Valladares de Oliveira

Traçar a evolução histórica da psicanálise de crian-ças no Brasil, r e c u p e r a n d o a d i v e r s i d a d e das formas de a t u a ç ã o , é o q u e nos p r o p õ e J o r g e L u í s F e r r e i r a A b r ã o com este livro, fruto da sua dissertação de mestrado j u n -to ao P r o g r a m a de Pós-graduação em Psicologia e Socie-dade da FCL-UNESP de Assis. A p e s q u i s a é c e n t r a d a no levantamento bibliográfico das primeiras publicações so-bre o tema, e c o m p l e t a d a por nove depoimentos de psica-nalistas, m e m b r o s das Sociedades do Rio de Janeiro e de

S ã o P a u l o a f i l i a d a s à International Psychoanalytical Association (IPA), q u e c o n t r i b u í r a m p a r a a d e l i m i t a ç ã o dessa especialidade no país. Ela é, no entanto, precedida de uma sistematização do significado do conceito de infân-cia ao longo da História da civilização ocidental, e toma c o m o referência principal o trabalho do francês Philippe Aries sobre a criança e a família no Antigo regime.

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na família se modificou de forma c o n s i d e r á v e l no século X I X , c o m o culto da m a t e r n i d a d e . P a r a e l e , a v a l o r i z a ç ã o da c o n c e p ç ã o da s u b j e t i v i d a d e h u m a n a propicia o surgimento da pediatria e da psicanálise infantil, quando a criança passa a possuir uma singularidade. O século X X privilegiou a infância ao m e s m o tempo do p o n t o de vista científico e social. São, portanto, as transformações ocorridas na organização social e na concepção da subjetividade h u m a n a ao longo do século X I X q u e p e r m i t e m a penetração do saber psicológico p r i n c i p a l m e n t e no que diz respeito à e d u c a ç ã o da criança (p. 30).

F e i t o e s s e p r i m e i r o r e c o r t e , J o r g e A b r ã o p a s s a a traçar a e v o l u ç ã o d e s s a e s p e c i a l i d a d e no q u a d r o da própria e v o l u ç ã o da teoria psicanalítica. Salienta que desde os primórdios a psicanálise, ao inscrever o universo infantil no do adulto, p r o d u z c o n h e c i m e n t o s o b r e a c r i a n ç a . P r e s e n t e j á nas p r i m e i r a s r e f l e x õ e s de F r e u d sobre teoria da sedução s e x u a l n a i n f â n c i a , em " E s t u d o s sobre a histe-ria" q u e , c o m o sabemos, foi r a p i d a m e n t e a b a n d o n a d a e m benefício da ideia de reminiscência, inspirada por sua v e z n o c o n c e i t o de r e a l i d a d e psíquica, a pro-b l e m á t i c a d a s e x u a l i d a d e infantil g a n h a e v i d ê n c i a c o m a pupro-blicação de "Três e n s a i o s sobre a t e o r i a da s e x u a l i d a d e " , em 1905. O b r a que provocou escânda-lo nos meios científicos e intelectuais e u r o p e u s da época, valendo ao seu autor críticas violentas e, à sua teoria, o termo pejorativo de pansexualista. Freud, no entanto, revoluciona o saber sobre a psicopatologia da criança tornando possível pensar a psicopatologia em geral, à medida que propõe u m a reavaliação do tem-po da infância q u e r o m p e com os conceitos em voga de d e g e n e r e s c ê n c i a here-ditária.

P e r s e g u i n d o o q u a d r o evolutivo da c o n s t r u ç ã o dessa e s p e c i a l i d a d e , Abrão estabelece c o m o marco inicial a cura do "pequeno H a n s " , publicada em 1909 sob o título "Análise de uma fobia em um menino de cinco anos". M a s salienta que, c o m e s s e t e x t o , o o b j e t i v o d e F r e u d n ã o e r a d e f o r m u l a r b a s e s p a r a e s s a m o d a l i d a d e de tratamento, mas de confirmar suas hipóteses sobre a sexualidade infantil, (p. 35). C o m efeito, Freud via nessa é p o c a a análise de crianças c o m o u m a e x p e r i ê n c i a p e d a g ó g i c a . O q u e se c o n f i r m a p e l o s laços e s t r e i t o s q u e a p s i c a n á l i s e e s t a b e l e c e u d e s d e c e d o c o m a p e d a g o g i a , e e m p a r t i c u l a r p o r i n t e r m é d i o do p a s t o r Pfister, autor do t e r m o p e d a n a l i s e e um dos p r i m e i r o s a praticar a psicanálise de crianças na Suíça.

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Para ele, são essas correntes que influenciaram e continuam influenciando essa m o d a l i d a d e de t r a t a m e n t o no Brasil. C a b e assinalar aqui q u e as filiações traçadas pelo autor t o m a m em c o n s i d e r a ç ã o apenas a corrente teórica e clínica d o m i n a n t e entre os analistas f o r m a d o s pela IPA, a escola k l e i n i a n a s e g u i d a da b i o n i a n a . E m n e n h u m m o m e n t o , J o r g e A b r ã o m e n c i o n a a influência de B r u n o Bettelheim, por e x e m p l o , ou ainda as m a r c a s deixadas nos analistas brasileiros pelos ensinamentos de Françoise Dolto e Maud Mannoni, as duas últimas próximas de Jacques Lacan.

A p ó s ter e s t a b e l e c i d o a f i l i a ç ã o p r e p o n d e r a n t e do m o v i m e n t o i p e í s t a brasileiro, Abrão alinha alguns dos registros marcantes da evolução do movimento psicanalítico em São Paulo e no Rio de Janeiro, inspirado fundamentalmente nos trabalhos de Marialzira Perestrello1

e Elisabete Mokrejs.2

Salienta com justeza que apesar das modalidades diferentes de implantação desse saber em cada região, a p s i c a n á l i s e de c r i a n ç a s s u r g e n e s s a s d u a s c i d a d e s c o m o i n d i c a ç ã o a c e r c a da e d u c a ç ã o , com caráter preventivo, profilático.

A i n d a que Jorge Abrão não m e n c i o n e , vale lembrar que s e a via pedagógica foi a p r i m e i r a e s t r a t é g i a a d o t a d a p e l o s f u n d a d o r e s d e s s e m o v i m e n t o , v i s a n d o implantar a psicanálise no país, ela não se deu por acaso e seus desdobramentos posteriores não foram tão lineares c o m o nos informa a historiografia oficial. Ora, para se c o m p r e e n d e r a a p r o x i m a ç ã o entre essas duas disciplinas deve-se tomar em conta t a m b é m o contexto social, cultural e político da sociedade brasileira da década de 1920.3

" A história de u m a e s p e c i a l i d a d e " que constitui a s e g u n d a parte do livro obedece à m e s m a periodização proposta por Marialzira Perestrello, que estabelece

1. Ver entre outros, M. Perestrello. Encontros: psicanálise Rio de Janeiro: Imago, 1992. 2. E. Mokrejs. A psicanálise no Brasil: as origens do movimento psicanalítico. Petrópolis:

Vozes, 1993.

3. Entre outros seria interessante destacar que durante essa época o problema da educação nacional ocupa um lugar privilegiado entre as prioridades da administração republicana m o b i l i z a n d o a a t e n ç ã o dos mais i m p o r t a n t e s i n t e l e c t u a i s do p a í s , que c o n s i d e r a m a "ignorância do povo brasileiro" uma das mais graves "doenças sociais" e uma das causas do "atraso" dessa sociedade em relação ao mundo civilizado. Lembremos ainda que é próximo do grupo progressista que funda a Associação Brasileira de Educação (ABE) em 1924, e lança

o Manifesto dos pioneiros da educação nova, em 1932, que encontramos alguns dos adeptos

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um recorte entre precursores, pioneiros e a implantação propriamente dita, inscrita por sua vez nos quadros das Sociedades de psicanálise reconhecidas pela IPA.

N o que diz respeito à primeira fase, Abrão se baseia na pesquisa de Elisabete M o k r e j s para traçar o perfil dos p r e c u r s o r e s desse m o v i m e n t o d u r a n t e os anos 1920 e 1 9 3 0 . A s s i m , e n q u a n t o D e o d a t o de M o r a e s l a n ç a o d e b a t e no m e i o p e d a g ó g i c o c o m o a p o i o de P o r t o - C a r r e r o , sem d ú v i d a o m a i s f e r v o r o s o dos a d e p t o s do f r e u d i s m o e um dos p r i m e i r o s a se n o m e a r p s i c a n a l i s t a no B r a s i l , A r t h u r R a m o s , d i s c í p u l o de N i n a R o d r i g u e s , i n t r o d u z a t e m á t i c a f r e u d i a n a no d e b a t e a n t r o p o l ó g i c o , m a s t a m b é m p e d a g ó g i c o , o n d e cita, entre o u t r o s , A n n a Freud, M . Klein, S. Morgenstein. E m seguida, no c a m p o da medicina, ele destaca a a t u a ç ã o do p e d i a t r a b a i a n o H o s a n n a h de Oliveira q u e introduz e l e m e n t o s da t e o r i a p s i c a n a l í t i c a na sua clínica, v e i c u l a d o s em artigos c i e n t í f i c o s , o n d e os autores mais citados são A. Freud, Adler, Jung, Klein e Ferenczi. U m a intervenção que poderia ter conferido a Hosannah o lugar de fundador da prática psicanalítica de c r i a n ç a s , n ã o f o s s e , s u s t e n t a n o s s o a u t o r , a c o n s t a t a ç ã o de q u e e l a n ã o provocou " u m a ruptura capaz de p r o m o v e r modificações na prática da assistência à c r i a n ç a " ( p . 108). N a p e d i a t r i a , m e r e c e d e s t a q u e a i n d a o p a u l i s t a P e d r o de Alcântara. Personalidade consagrada no meio médico paulista, ele é autor de um ú n i c o t e x t o s o b r e a p r o b l e m á t i c a f r e u d i a n a na c l í n i c a de c r i a n ç a s , i n t i t u l a d o " O b j e ç õ e s da p s i c a n á l i s e ao uso da c h u p e t a " . A p r e s e n t a d o no p r i n c i p a l fórum m é d i c o de São Paulo, a Associação Paulista de M e d i c i n a (APM), em 1936, esse trabalho nos informa sobre a diversidade das leituras e interpretações da prática f r e u d i a n a q u e c i r c u l a v a m e m S ã o P a u l o n e s s a é p o c a , e t a m b é m c o m o o f r e u d i s m o , c o n t r a r i a m e n t e à v e r s ã o o f i c i a l , n ã o foi v í t i m a de t ã o t e r r í v e i s resistências da parte dos médicos paulistas. Para completar sua galeria de perfis, Abrão cita ainda alguns dos trabalhos de Gastão Pereira da Silva escritos ao longo dos anos 1930, p r o c u r a n d o destacar a p r e o c u p a ç ã o dos " p i o n e i r o s " para com a p o p u l a r i z a ç ã o dos conceitos freudianos.

Com esses seis perfis reveladores das diversas contribuições teóricas sobre a c l í n i c a d e c r i a n ç a , d e i x a d a s p o r a l g u n s d o s p r i m e i r o s c o m e n t a d o r e s do f r e u d i s m o no B r a s i l , o leitor p o d e i g u a l m e n t e ter u m a i d e i a de a l g u m a s das principais vias de difusão da psicanálise, na m e d i d a em que eles revelam também o alcance dessa temática no meio médico e p e d a g ó g i c o .

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o c o r r e e m S ã o P a u l o , na S e ç ã o de H i g i e n e M e n t a l E s c o l a r e sob a d i r e ç ã o de Durval M a r c o n d e s .

N e s s e s d o i s e s p a ç o s , s a l i e n t a A b r ã o , a p s i c a n á l i s e é c o n c e b i d a c o m o d i s c i p l i n a a u x i l i a r na r e s o l u ç ã o d e p r o b l e m a s q u e i n t e r f e r e m no p r o c e s s o e d u c a c i o n a l . A i n d a q u e sua p e s q u i s a c a r e ç a de um trabalho de e x p l o r a ç ã o dos a r q u i v o s d e s s a s i n s t i t u i ç õ e s q u e p o s s a m e l h o r e x p l i c i t a r o a l c a n c e d e s s a s e x p e r i ê n c i a s , ele c o n s i d e r a q u e elas são f u n d a d o r a s d e s s e m o v i m e n t o p o r q u e i n t r o d u z e m u m a d i s t i n ç ã o i n o v a d o r a e n t r e c r i a n ç a s c o m déficit i n t e l e c t u a l e crianças com p r o b l e m a s e m o c i o n a i s .

C o n v é m l e m b r a r q u e m e s m o s e n d o i n o v a d o r a , essa c o n c e p ç ã o , q u e visa tanto a " p r e v e n ç ã o " q u a n t o a " c o r r e ç ã o " dos " d e s v i o s de c o m p o r t a m e n t o " , se caracteriza por princípios de " a d a p t a ç ã o " da "criança p r o b l e m a " ao meio social e à f a m í l i a , e se i n s c r e v e na c o n t i n u i d a d e do p r o j e t o de h i g i e n i s t a da é p o c a , e n q u a n t o expressão da ideologia totalitária de Vargas cujo objetivo é a formação de u m a j u v e n t u d e sã, instruída e patriótica. Iniciada no c o m e ç o dos anos 1930 e e s t r u t u r a d a ao l o n g o do E s t a d o N o v o ( 1 9 3 7 - 1 9 4 5 ) no q u a d r o da R e f o r m a do Sistema de assistência m é d i c o - p e d a g ó g i c a , pressupõe u m a intervenção direta do E s t a d o no que se refere, de um lado, à o r g a n i z a ç ã o do m u n d o do trabalho e da s o c i e d a d e e, de outro lado, à esfera privada da família por m e i o de m e d i d a s de proteção à maternidade, à infância e à adolescência. E m contrapartida, c o m o bem assinala A b r ã o , as diferentes p r o p o s t a s de Clínica de O r i e n t a ç ã o Infantil (COI) introduzidas nesse período não supunham u m a abordagem terapêutica, mas u m a intervenção no m e i o familiar escolar, prevalecendo tanto o viés cognitivo quanto o emocional. Ε o desdobramento dessas experiências que vai propiciar a superação do a t e n d i m e n t o à c r i a n ç a c a l c a d o no d i a g n ó s t i c o e na o r i e n t a ç ã o p r e v e n t i v a , e tornar possível o surgimento da psicoterapia analítica de crianças (p. 154).

D i t o de o u t r a f o r m a , o a p a r e c i m e n t o de u m a n o v a ' o r i e n t a ç a o c l í n i c a , p r o v o c a n d o u m a r u p t u r a n a f o r m a c o m o até e n t ã o v i n h a e v o l u i n d o a p r á t i c a psicanalítica inaugura a terceira etapa da história desse m o v i m e n t o a partir dos a n o s 1 9 5 0 . E m S ã o P a u l o , e l a g a n h a f o r m a c o m a c r i a ç ã o d o C u r s o de E s p e c i a l i z a ç ã o e m P s i c o l o g i a C l í n i c a da USP, em 1954, q u a n d o a C l í n i c a de O r i e n t a ç ã o Infantil p a s s a a oferecer e s t á g i o s aos alunos desse c u r s o . S e g u n d o A b r ã o , além da p r o m o ç ã o de p s i c o t e r a p i a p s i c a n a l í t i c a c o m c r i a n ç a s na esfera i n s t i t u c i o n a l , s e u s e f e i t o s t i v e r a m p e l o m e n o s d u a s c o n s e q u ê n c i a s : o fortalecimento da formação ipeísta e a e x p a n s ã o dessa prática institucional para consultório particular (p. 148).

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Di Loretto e Hain Griinspun.4

Assim a primeira, desenvolvida no D e p a r t a m e n t o Nacional de Saúde Mental ( D I N S A M ) e próxima do modelo de assistência à criança oferecido pelas clínicas norte-americanas, ficou a cargo da médica, psiquiatra e futura p s i c a n a l i s t a M a r i a M a n h ã e s , a q u e m J o r g e A b r ã o d e d i c a um l o n g o e i n t e r e s s a n t e p e r f i l , elaborado p o r i n t e r m é d i o de d o c u m e n t o s e t e s t e m u n h o s ( p . 1 5 0 - 8 ) . J á a s e g u n d a , é o t r a b a l h o do I n s t i t u t o de P s i q u i a t r i a d a e n t ã o U n i v e r s i d a d e do Brasil, fundado e m 1953 por M a u r í c i o de M e d e i r o s , do qual p a r t i c i p a m , entre outros a psicanalista Marialzira Perestrello, r e c é m - c h e g a d a da Argentina, a quem coube a orientação psicológica da Clínica e, a partir de 1959, o posto de Diretora da instituição.

E s s a terceira etapa funciona c o m o uma transição para a quarta última fase da história da psicanálise de crianças de Jorge A b r ã o , que se efetiva c o m a sua legitimação no âmbito das instituições ipeístas carioca e paulista e nova m u d a n ç a de orientação clínica. Ele lembra porém que se a prática psicanalítica ditada pela IPA tem início em 1939; após a c h e g a d a de Adelheid Koch, a p r i m e i r a analista d i d a t a a u t o r i z a d a p o r E r n e s t J o n e s a f o r m a r p s i c a n a l i s t a s e m S ã o P a u l o , a psicanálise de crianças propriamente dita só "apresenta seus primeiros lampejos a partir de m e a d o s da década de 1960, vindo a consolidar-se somente no final dos a n o s 1 9 7 0 " ( p . 1 6 9 ) . C o m o a c o n t e c e u c o m a f o r m a ç ã o de p s i c a n a l i s t a s de a d u l t o s , e s s e p r o c e s s o c o m e ç a com u m a f o r m a ç ã o feita no exterior, s o b r e t u d o e m L o n d r e s , o n d e os p s i c a n a l i s t a s f a z e m s u p e r v i s õ e s , c u r s o s e e s t á g i o s e m c l í n i c a s , p r i n c i p a l m e n t e n a f a m o s a Tavistock Clinic. E n t r e os p i o n e i r o s se destacam D é c i o de Souza, T h o m a z Lyra, Marialzira Perestrello e Maria M a n h ã e s do R i o de J a n e i r o e, Lygia A m a r a l de São P a u l o . A influência do k l e i n i s m o é marcante nessa primeira geração, mas não decisiva. Até m e a d o s dos anos 1960, l e m b r a o autor, a f o r m a ç ã o dos a n a l i s t a s de c r i a n ç a s foi de c a r á t e r i n f o r m a l . S o m e n t e com a disseminação dessa prática e o aumento da d e m a n d a de formação é q u e os d i r i g e n t e s das S o c i e d a d e s b r a s i l e i r a s a c e i t a m oferecer n u m p r i m e i r o m o m e n t o um curso de especialização em psicanálise de crianças, e mais tarde a formação específica. Através de d e p o i m e n t o s , o autor nos conta o sinuoso, lento e polémico caminho percorrido para a institucionalização dessa formação, iniciado com a vinda da analista argentina A r m i n d a Aberastury em 1964, seguida de um

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trabalho mais regular desenvolvido entre 1970 e 1971, desta vez e m parceria com E d u a r d o Kalina, t a m b é m um analista argentino, e tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. A primeira instituição ipeísta a conferir o "título" de "psicanalistas de c r i a n ç a s " foi a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) em 1975. A o passo que em São Paulo, o reconhecimento oficial da especialidade o c o r r e a p e n a s e m 1 9 8 8 , p r e c e d i d o d a f o r m a ç ã o d a d a p e l o s m e m b r o s da Associação Psicanalítica Uruguaia, Luiz Prego e Silva e Vida Prego, entre 1976 e 1980 e continuado por Virgínia Bicudo, Lygia Amaral e Frank Philips.

Para A b r ã o , esse processo que culminou na oficialização e regulamentação dos c u r s o s de a n á l i s e infantil nas S o c i e d a d e s ipeístas foi d e t e r m i n a n t e p a r a a p a s s a g e m do m o d e l o p s i c o t e r a p ê u t i c o de a t e n d i m e n t o ao m o d e l o psicanalítico, propriamente dito, mas t a m b é m para a introdução da teoria e da técnica kleiniana j u n t o aos psicanalistas do país, seguida da bioniana.

Antes de concluir, ele contempla o leitor com um levantamento exaustivo dos principais eventos e publicações sobre a clínica psicanalítica de crianças regida pela IPA e publicados na Revista Brasileira de Psicanálise. Com isso, ele pretende mostrar a evolução recente da p r o d u ç ã o teórica dessa instituição, situando, entre outros, as primeiras publicações sobre o tratamento do autismo feitas por Izelinda G a r c i a de B a r r o s da SBPSP a partir de 1975, na qual c h a m a a a t e n ç ã o para os laços dessa autora com a psicanalista londrina Francis Tustin.

Terminada essa viagem pode-se concluir que o livro de Jorge Abrão merece ser s a u d a d o c o m o u m a p r i m e i r a s i s t e m a t i z a ç ã o d e s s e s 80 anos da história da p s i c a n á l i s e de crianças nas duas cidades pioneiras do m o v i m e n t o psicanalítico brasileiro. O autor pontua c o m bastante rigor os principais eventos que marcaram o p e r c u r s o dos analistas ipeístas no p a í s , s u g e r i n d o r e c o r t e s , i n t e r p r e t a ç õ e s e hipóteses de investigação, além de fazer emergir novos personagens de expressão local, pouco conhecidos inclusive no próprio meio psicanalítico.

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