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Para citar esse documento:
MUSSI, Gezebel Nunes. Arrastão: deslocamentos de corpos em cenários urbanos – uma experiência artística em dança na cidade de Campos dos Goytacazes/RJ. Anais do V Congresso
Nacional de Pesquisadores em Dança. Manaus: ANDA, 2018. p. 683-689.
ARRASTÃO:
DESLOCAMENTOS DE CORPOS EM CENÁRIOS URBANOS – UMA EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA EM DANÇA NA CIDADE DE CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ
Gezebel Nunes Mussi * Larissa Rangel da Silva ** Morena Souza Loroza *** Maria Carolina Pinto Moura **** Blener Mendonça Pessanha ***** Tatiana de Oliveira Almeida ******
RESUMO: Arrastão foi uma proposta de Intervenção Urbana realizada pelo Grupo
Experimental de Dança do IF Fluminense na cidade de Campos dos Goytacazes. Composto por estudantes de diversos cursos técnicos e superiores que se propuseram a experienciar Dança pela primeira vez ou não. Pretendemos aqui relatar o processo desde os encontros semanais até o dia da Intervenção, considerando as distintas vivências entre os corpos. Trabalhamos a partir de Jogos Teatrais, Ações Básicas do Esforço, Preparação Física considerando as áreas Teatro, Dança e Educação Física, na busca por gerenciar experiências inventivas, criando um ambiente de pesquisa e experimentação no ensino/aprendizagem na área da Dança.
PALAVRAS-CHAVE: DANÇA. INTERVENÇÃO URBANA. EXPERIÊNCIA. ESPAÇO.
ABSTRACT: Arrastão was a proposal of Urban Intervention performed by the Experimental Dance Group of the IF Fluminense in the city of Campos dos Goytacazes. Composed by several students of technical and superior courses that have set out to experience Dance for the first time or not. We intend here to report the process from the weekly meetings to the day of intervention, considering the different experiences between the bodies. We work from Theater Games, Basic Effort Actions, Physical Preparation considering the areas of Theater, Dance and Physical Education, in the search for managing inventive experiences, creating an environment of research and experimentation in teaching / learning in the area of Dance.
Este trabalho trata-se de um relato de experiência acerca da intervenção urbana Arrastão realizada pelo Bando – Corpo de Dança do IFFluminense campus Campos Centro, localizado na cidade de Campos dos Goytacazes/RJ. O grupo foi criado no segundo semestre de 2017 com interesse em proporcionar espaço para que a dança pudesse ser trabalhada tendo a pesquisa e a criação como impulsionadores para as produções artístico-pedagógicas (ALMEIDA, 2017).
A partir de propostas que evidenciassem as disponibilidades de diferentes corpos com ou sem experiência em dança e, através de cartas de intenção, identificamos pessoas interessadas em processos investigativos/criativos em Dança. Formamos um grupo de vinte pessoas, em sua maioria estudantes da Licenciatura em Teatro, mas também de Engenharia Ambiental, Tecnólogo em Design Gráfico e Técnico em Estradas, proporcionando uma integração entre diversas áreas do IFFluminense.
Os laboratórios de investigação do movimento foram ancorados na seguinte estrutura: preparação física, pesquisa de movimento, composição coreográfica e avaliação (ALMEIDA, 2015). Buscamos desenvolver propostas que tinham como objetivo trabalhar a consciência do movimento, a relação com o outro e com o espaço, além de explorar o vocabulário de movimento de cada participante, na busca por experiências sensíveis e corpos ampliados.
Arrastão: da concepção à intervenção
o intuito de desenvolver força, equilíbrio, flexibilidade e coordenação motora (SILVA, ARAUJO, GONÇALVES, 2018).
Na etapa da Experimentação, adentramos ao estudo das Ações Básicas de Esforço de Rudolf Laban, sendo elas: flutuar, deslizar, pontuar, sacudir, socar, chicotear, pressionar e torcer. De acordo com Rengel,
Ação básica de esforço é a ação na qual fica evidente uma atitude do agente perante os fatores de movimento espaço, peso e tempo [...]. A produção desta ação se dá na ordenação dentre as possíveis combinações e integração harmoniosa das qualidades de esforço que são imprimidas ao (s) movimento (s). (2003, p. 23)
Cabe ressaltar aqui o Circuito das Ações Básicas de Esforço, uma experimentação onde o chão da sala foi dividido em oito quadrantes, em que cada um representou uma ação básica. Cada integrante deveria passar por todos os quadrantes tentando explorar as qualidades de cada ação, o máximo de possibilidades de movimento e as transições de uma ação para outra.
Avançando as experimentações, percebemos as convergências entre Laban e Jean-Pierre Ryngaert, no que se refere ao espaço e a relação com o outro. Nos encontros que seguiram, buscamos trabalhar com os conceitos de Ryngaert tomando o espaço como indutor do jogo. Propusemos improvisações com roteiro, estabelecendo regras prévias, relativas a condições da improvisação (GUERRERO, 2008), com o foco na ocupação de espaços vazios, fossem no ambiente ou estabelecendo relações com a cinesfera (LABAN, 1978) do outro. Foram criadas imagens a partir dos próprios corpos e estimulada a percepção do grupo enquanto corpos presentes no espaço, saindo do lugar convencional, como a sala de aula de dança, e indo para locais como o pátio e o estacionamento da escola. Para Ryngaert,
Percebendo o interesse do grupo, em roda de conversa mediante ao realizado, nos atentamos à pesquisa de como promover uma maior gama de preparação para uma possível experiência de intervenção urbana, que passou a ser nosso objetivo.
ARRASTÃO
Um dos pontos centrais no município de Campos dos Goytacazes é a Praça São Salvador, onde circula diariamente grande quantidade de pessoas e é pouco habitado artisticamente. Sendo assim, o grupo foi ao local buscando ampliar a percepção a possíveis atravessamentos na relação com o ambiente. Para Kramer (2016) é através da exposição física – ao local, ao clima, à condição presente e a prática do movimento – que se torna possível o mapeamento e re-conhecimento do espaço, em diversas condições de apresentação.
Dessa forma, colhendo de cada um os afetos, memórias e inquietações através do diálogo constante, estabelecemos a escolha do local e partimos para a construção de um roteiro, semelhante à proposta de programa descrita por Fabião (2008). Para essa pesquisadora, o performer não improvisa uma ideia, ele cria um programa e programa-se para executá-lo.
Logo, o grupo definiu locais, cujo interesse se deu em função de suas formas, do contexto histórico e cultural. Sendo ele eles: o Chafariz Belga, a Praça São Salvador, a Catedral do Santíssimo Salvador, a Lira de Apolo, o Calçadão e o Pelourinho. Segue o programa elaborado a partir desses espaços:
organização espacial intitulada “bolinho”, na proposta de instaurar um comportamento coletivo e de alternância de lideranças, bem como o contato inicial em movimento com o espaço.
• Praça São Salvador: deslocamento espacial a partir de linhas impressas no chão, da materialidade do espaço e a relação com os transeuntes.
• Catedral do Santíssimo Salvador: definida como um ponto de grande relevância em nosso roteiro, por sua imponência espacial e cultural na cidade. Entendo que essa presença atravessava cada indivíduo de forma diferenciada, simbolizando o contexto histórico opressor e influenciando na arquitetura do espaço, não foi delimitada uma qualidade de movimento, a improvisação aconteceu a partir do sentido ou significado que aquelas informações causavam em cada participante.
• Lira de Apolo: momento em que foi trabalhada a pausa. Nos posicionamos em formação de plateia para aplaudirmos o edifício histórico, dando visibilidade a um equipamento cultural esquecido pelo poder público e sociedade.
• Arrastão de corpos no Calçadão: deslocamento corporal em organização espacial de fileira, como uma corrente de pessoas arrastando seus corpos pelo espaço de diversos modos, alternando níveis, explorando as transferências de apoios do corpo na materialidade do espaço, descobrindo novos caminhos e novas configurações espaciais (NEVES, 2008).
• Pelourinho: ciranda realizada ao redor do monumento no intuito de ressaltar a presença do mesmo, invisibilizada cotidianamente devido ao seu histórico.
Em momento de avaliação realizado pelo grupo, após a intervenção, uma das participantes comentou: “... no começo quando eu deitei eu tava muito tensa. Depois que eu
tranquilizei eu comecei a ouvir tudo.” – C.A. Essa fala revelou a mudança no estado corporal
fazer na Praça São Salvador eu já fiquei: ‘ain não’. E agora mudou a visão, porque a gente transformou aquele lugar e o que tinha ali, em outra coisa, interagindo com o espaço” – J.S. Considerações finais
“Eu ouvi alguém aleatório falando ‘isso aí dever algo tipo de arte corporal’. Eu achei muito interessante isso” – M.C
O contato com variadas referências durante os laboratórios do grupo, tornou possível distinguir outras concepções estéticas em dança, para além das midiáticas e já consagradas. O que reverbera nas pessoas que estiveram em contato com a proposta que foi levada ao espaço público. Provocando questionamentos, trazendo ressignificações sobre o espaço urbano e o corpo que se move por ele, a partir das relações estabelecidas.
Referências
ALMEIDA, Tatiana de Oliveira. Processos de pesquisa e criação em Dança: Grupo Experimental. Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil – Campo Grande, MS: Federação de Arte/Educadores do Brasil, 2017. P. 1104 a 1113. Disponível em
https://faeb.com.br/admin/shared/midias/1510688060.pdf acesso no dia 06 de junho de 2018.
FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Sala
Preta, v. 8, p. 235-246, 2008.
FERNANDES, S.; CRUZ-FERREIRA, A. O efeito do método de pilates na prevenção de lesões em bailarinos. Revista de Ciencias del Desporte, Espanha, v.11, p. 33-34, 2015.
LATEY P. The pilates method: history and philosophy. Journal of Bodywork Movement Therapies. V.5, n.4, p.275-282, 2001.
RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. Annablume, 2003.
SILVA, T. A. C.; ARAUJO, M. H. G; GONÇALVES, K.G.F. As modalidades circenses
contempladas pelo lazer: participação lúdica dos praticantes, 2018. Disponível em:<
http://www.tiagoaquinopacoca.com.br/wp-content/uploads/2014/11/47-As-Modalidades-Circenses- contempladas-pelo-Lazer.pdf>. Acesso em: 15 de jun. 2018.
LABAN, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus, 1978.
NEVES, Neide. Klauss Vianna: Estudos para uma dramaturgia corporal. Dissertação de Mestrado defendida na PUC-SP. São Paulo: Cortez, 2008.
RYNGAERT, Jean- Pierre. Jogar, Representar. Tradução Cássia Raquel da Silveira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
KRAMER, Paula. Trabalhando com Exposição Física na Dança Contemporânea em Espaços Externos. Coventry University, Inglaterra. Tradução Cláudio Marcelo Carneiro Leão Lacerda.
ARJ | Brasil | V. 3, n. 1 | p. 107-128 | jan. / jun. 2016.
*Licencianda em Teatro pelo Instituto Federal Fluminense. [email protected] **Licencianda em Teatro pelo Instituto Federal Fluminense. [email protected]
*** Licencianda em Teatro pelo Instituto Federal Fluminense. [email protected] ****Licencianda em Teatro pelo Instituto Federal Fluminense. [email protected]
*****Licenciando em Educação Física pelo Instituto Federal Fluminense. [email protected] ******Professora licenciada em Dança do Instituto Federal Fluminense. Orientadora.