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Táticas, trapaças e astúcias: a política da vida real

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-"TÁTICAS, TRAPAÇAS E ASTÚCIAS"

A POLíTICA DA VIDA REAL

xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

mocrático, no qual os

cida-dãos reforçariam a sua

cren-ça na democracia e na sua

validade fática. A

importân-cia do sufrágio universal

está na idéia de igualdade

a ela associada - "um

ho-mem, uma voz". Ignorar a

importância do direito de

voto seria negar a si pró-

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• D outoranda pelo Program a de Pós-G raduação em So- prio a condição de cidadão.

ciologia da U niversidade Federal do C eará Portanto, se o povo é "ma-nipulado" nas eleições, este

povo simplesmente não existe, pois não existe

enquanto cidadão-eleitor-racional.

No entanto, a história do sufrágio univer-sal mostra que a idéia de "povo" decidindo

cons-cientemente o seu voto na cabine eleitoral nunca

foi realidade, e não só no Brasil. A modernídade,

com o crescimento da noção de individualismo

e de esfera pública atuando politicamente, criou

condições para uma "produção" do eleitor, ao

qual o eleitor real na maioria das vezes não

corresp~ndeu (OFFERLÉ, 1993; ROSANVALL?N,

1992; SABATO, 1995) \

O historiador José M urilo de Carvalho

procu-rou entender que povo era este, considerado

"bestíalízado" no nascimento da República

brasilei-ra2, qual o seu imaginário político e qual a sua

prática política. Carvalho mostra que o povo se comportava diferentemente do tipo de "cidadania"

esperada pela elite política e pelos intelectuais. "Cabe perguntar se a percebida inexistência de povo

não era conseqüência antes do tipo de povo ou

cidadão que se buscava" (CARVAIHO, 1987: 69)

Um tipo de pesquisa como a de M urilo de

Carvalho só é possível quando se inverte a

per-UM PAís SEM POVO GEíSA MAnOS·

R ESU M O

O

povo brasileiro vem

sendo apontado desde

os primórdios da

Repú-blica, tanto pelo senso

co-mum iletrado quanto por

grande parte da

intelectua-lida de do País, de ser a um

só tempo culpado e vítima

da miséria e da corrupção

no País. A idéia de que, por

sua ignorância e

despre-paro, o povo comporta-se de maneira passiva,

apática, indiferente à política, permanece como

uma marca do nosso "atraso?". "Somos um país

sem povo", resume Hermes Lima, analisando o

comportamento político do povo brasileiro.

As pesquisas de M ichel D e C erteau ("A Inven-ção do C otidiano", 1990) sobre as práticas cotidianas dos hom ens com uns, com suas táticas e astúcias, servem de ponto de partida desta critica àform a tradicional de se analisar o com portam ento político do brasileiro. A au-tora inspira-se ainda na pesquisa de José M urilo de C ar-valho ("O s Bestializados", 1987) e no clássico de Euclides

da C unha ("O s Sertões")

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A s s im , n o I m p é r io , c o n s e r v a d o r e s e lib e r a is r e

-v e z a -v a m - s e n o p o d e r m a is p o r fo r ç a d e im p e

-r a tiv o s d e c o -r -r e n te s d e in flu ê n c ia s p e s s o a is ( . . .)

e d o s c h o q u e s d e in te r e s s e s e n tr e a s c la s s e s d o

-m in a n te s d o q u e p o r fo r ç a d a s m a n ife s ta ç õ e s

d a v o n ta d e p o p u la r . T a m b é m , n a R e p ú b lic a ,

a s m á q u in a s e le ito r a is m a n ip u la v a m a s e u

a r b ítr io os c a n d id a to s e d is tr ib u ía m e n tr e os

m e s m o s p o s to s e c a r g o s , fic a n d o op o v o r e d u

-z id o a m e r o s ím b o lo c o n s titu c io n a l" CLIMA,

1998: 302).

Na base do conceito de cidadania no

Oci-dente, pano de fundo de análises como a de

Hermes Lima, está um ideal de política de tal

forma naturalizado no senso comum intelectual,

que a todo comportamento político

considera-do "não racional" ou "não consciente" seria

ne-gada importância ou mesmo existência. As

eleições são o ritual por excelência do ideal

(2)

-

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gunta pelo "cidadão" e passa-se a percebê-lo

como sujeito dotado de uma lógica própria,

di-versa da dominante. Estes a quem chamamos

de povo têm as suas astúcias e desenvolvem

táticas nas ocasiões que encontram para tirar

partido de sua posição.

A idéia de astúcias e táticas populares

apa-rece nas pesquisas de Michel De Certeau (990),

as quais dirigem seu olhar às práticas cotidianas

dos homens comuns, supostamente entregues à

passividade e a disciplina. Para ele, a "cultura

popular" se formula essencialmente em "artes de fazer", isto é, em consumos combinatórios e

utilitários. São práticas que colocam em jogo uma

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r a tio popular: uma maneira de pensar investida

numa maneira de agir, uma arte de combinar

inseparável de uma arte de utilizar (DE CERTEAU,

1990:

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37 a 42)

Tais práticas, como afirma De Certeau

1990), muitas vezes desencaminham as nossas

ógicas, marca das pelo racionalismo que caracte-riza a visão de mundo dominante da Modernidade.

Elas não têm projeto ou estratégia - daí o seu

incômodo, ou a sua "insignificância" do ponto

e vista da tradição da sociologia política: elas não são revolucionárias. São antes orientadas por

m nível intuitivo da inteligência humana, táticas

o mais fraco para tirar partido do mais forte, ue se utilizam nos momentos oportunos. A

táti-ca, ao contrário da estratégia:

( ...) n ã o te m a p o s s ib ilid a d e d e d a r a s i m e s m a

u m p r o je to g lo b a l n e m d e to ta liz a r o a d v e r s á

-r io n u m e s p a ç o d is tin to , v is ív e l e o b je tiu á u e t.

E la o p e r a g o lp e p o r g o lp e , la n c e p o r la n c e .

A p r o v e ita a s o c a s iõ e s e d e la s d e p e n d e , s e m b a s e

p a r a e s to c a r b e n e fíc io s , a u m e n ta r a p r o p r ie

-d a -d e e p r e v e r s a í-d a s . O q u e e la g a n h a n ã o s e

c o n s e r v a " ( D E CERTEAU,1990: 100).

Exemplos das táticas populares de que fala

De Certeau encontram-se na pesquisa de Muri/o

e Carvalho (987) na qual recupera a

auto-ima-em dos cariocas, nos anos que se seguiram à

• roclamação da República, a partir dos

cronis--.., da época - Artur Azevedo, Manuel Antônio

8 C H -U F '~

PERIOnICr"\r"

de Almeida - das sátiras do carnaval e da

práti-ca da práti-capoeira. Carvalho descobre que a

auto-imagem do carioca do início do século XX se

identificava com a arte do "trib o fe " - a trapaça,

em todos os domínios do comportamento.

H a v ia t r i b o f e n a p o lític a , n a b o ls a , n o c â m -b io , n a im p r e n s a , n o te a tr o , n o s b o n d e s , n o s

a lu g u é is , n o a m o r . N ã o s e o b e d e c ia n e m à le i d o s h o m e n s , n e m àd e D e u s . C o m o d ir ia op r ó -p r io T r ib o fe . 'A b , m in h a a m ig a , n e s ta b o a te r

-r a os m a n d a m e n to s d a le i d e D e u s s ã o c o m o

a s p o s tu r a s m u n ic ip a is ... N in g u é m r e s p e ita ! (CARVALHO,1987: 158)

Artur Azevedo abordava o tema das

trapa-ças no cotidiano dos cariocas nas revistas O

T r ib o J e ,de 1891, e OB ilo n tr a , de 1886, ambas escritas por ele. "O bilontra é o espertalhão, o velhaco, o gozador: o tribofeiro". Na revista O

C r u z e ir o , na mesma época, também aparece a

imagem da esperteza do carioca, de sua

capaci-dade de reverter a realidade adversa em benefí-cio próprio. Carvalho observa que "da parte do

próprio poder e de seus representantes

desen-volveram-se táticas de convivência com a

desor-dem, ou com uma ordem distinta da prevista. A

lei era desmoralizada de todos os lados, em

to-dos os domínios" (CARVALHO, 1987: 159)

A conclusão de Carvalho é que o povo não

levava a sério a República porque entendia que

esta não era para valer: ele seria bestializado se o fizesse. Entendendo que não se prestava à

mani-pulação, o povo fluminense se percebia como

"bilontra". A revolta contra a vacina obrigatória,

em 1904, com a qual Oswaldo Cruz e a Prefeitura do Rio de Janeiro pretendiam erradicar a varíola, era um exercício efetivo de participação popular que não se limitava aos direitos políticos permi-tidos. Afinal,800foda população era mantida

afasta-da do direito ao voto pelos critérios constitucionais

nos primórdios da República.

Uma série de manifestações populares, que incluíram confrontos com a polícia, revelou que

a passividade do povo era apenas aparente. Elas

conseguiram impedir que a vacinação

(3)

-

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guisse como queriam os dirigentes municipais.

Os fluminenses se rebelaram contra a

"inviola-bilidade do lar", motivados por valores morais,

mas em uma atitude franca de auto-afirmação,

que expressava um tipo de cidadania, ainda que

diferente do conceito ilustrado:

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D e v e z e m q u a n d o é b o m a n e g r a d a m o s tr a r

q u e s a b e m o r r e r c o m o u m h o m e m ! " , d is s e u m

" p r e to a c a p o e ir a d o " q u e p a r tic ip o u d a r e v o lta

a u m r e p ó r te r d o jo r n a l ATribuna. P a r a e le , o

m a is im p o r ta n te e r a " m o s tr a r a o g o v e r n o q u e

e le n ã o p õ e op é n o p e s c o ç o d o p o v o

CCARVA-LHO, 1987: 139).

ASTÚCIAS E TÁTICAS EM "OS SERTÕES"

No clássico de Euclides da Cunha sobre a

Revolta de Canudos, encontram-se passagens

preciosas no sentido que até agora vimos

levan-tando, do uso surpreendente de astúcias e

táti-cas dos excluídos contra o Poder político e

econômico. Mais uma vez, no caso de Canudos,

como na Revolta da Vacina, em 1904, desafia-se

a lógica dominante da razão, da ciência e da

ordem instituída. São aqueles a quem o Poder

atribui a pecha de "desordeiros, vadios, igno-rantes" os responsáveis por abalos

considerá-veis na ordem dominante.

Apesar de Euclides da Cunha render-se, em

vários momentos, à perspectiva racista de sua épo-ca, ele consegue transcendê-Ia, e com

sensibili-dade aguçada e veia poética descreve a força

daqueles a quem julgara inferiores. A descrição do Homem em "Os Sertões" é pródiga em

exem-plos do combate interno vivido pelo autor entre

o racismo dominante de sua época que

conside-rava "a mestiçagem extremada um retrccesso'? e

a. fortaleza do sertanejo, captada por sua

sensibi-lidade. Ele inicia o capítulo

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IIIcom a frase

clássi-ca: "O sertanejo é antes de tudo um forte". Mas

em seguida descreve-o como um ser

desgracioso, d e s e n g o n ç a d o , to r to . H é r c u le s -Q u a s ím o d o , r e fle te n o a s p e c to a fe a ld a d e tip

i-48

R E V IS TA D E C IÊ N C IA S S O C IA IS V.

33

N.1

c a d o s fr a c o s . Oa n d a r s e m fir m e z a , s e m a p r u

-m o , q u a s e g in g a n te e s in u o s o , a p a r e n ta a

tr a n s la ç ã o d e m e m b r o s d e s a r tic u la d o s . A g r a

-v a - o a p o s tu r a n o r m a lm e n te a b a tid a , n u m m a

-n ife s ta r d e d is c ip lic ê -n c ia q u e lh e d á u m c a r á te r

d e h u m i/d a d e d e p r im e n te C C U N H A , 1995: 179).

Adiante, mais uma vez, revela que esta

apa-rência de abatimento é ilusória:

N a d a é m a is s u r p r e e n d e d o r d o q u e v ê I a d e s a

-p a r e c e r d e im p r o v is o . N a q u e la o r g a n iz a ç ã o

c o m b a lid a o p e r a m - s e , e m s e g u n d o s , tr a n s

-m u ta ç õ e s c o -m p le ta s . B a s ta oa p a r e c im e n to d e

q u a lq u e r in c id e n te e x ig in d o - lh e o d e s e n c a d e

-a r d -a s e n e r g i-a s -a d o r m e c id -a s . Oh o m e m tr a n s

-fig u r a - s e . I m p e r tig a - s e , e s ta d e a n d o n o v o s

r e le v o s , n o v a s lin h a s n a e s ta tu r a e n o g e s to ; e

a c a b e ç a fir m a - s e - lh e , a lta , s o b r e os o m b r o s p o s s a n te s , a c la r a d a p e lo o lh a r d e s a s s o m b r a d o

e fo r te ( , . .) e d a fig u r a v u lg a r d o ta b a r é u

c a n h e s tr o r e p o n ta , in e s p e r a d a m e n te , oa s p e c -to d o m in a d o r d e u m titã a c o b r e a d o e p o te n te . n u m d e s d o b r a m e n to s u r p r e e n d e n te d e fo r ç a e

a g ilid a d e e x tr a o r d in á r ia s CCUNHA, 1995: 180)

Em "Os Sertões", descobrimos que a força

capaz de operar o milagre de transmutação de

Quasímodo em Hércules no sertanejo se dá por

meio de seu imaginário religioso. Antônio

Conse-lheiro e seus discípulos recriaram a religião ensinada pelos jesuítas, no sincretismo que introduz

elemen-tos de outros mitos e rituais que compunham o

imaginário sertanejo - dando-lhe, no conjunto. novos significados. Assim foram (re)elaborando o

real e mobilizando-se para a ação.

Euclides percebeu o papel que o

imaginá-rio desempenhou na mobilização coletiva de

Canudos: para ele, aquela "sociedade primitiva"

"(00') compreendia melhor a vida pelo

incom-preendido dos milagres" (CUNHA, 1987: 213

Entretanto, como em toda a tradição positivista. Euclides julgava que "compreender a vida pelo

milagres", ou seja, pelos mitos religiosos, seria

comportamento típico de uma sociedade

primi-tiva. A idéia de "evolução", na tradição positivista.

representa o triunfo do pensamento raciona

sobre o mito.

(4)

-

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o

mito é entendido como idéia falsa,

. usão, em contraposição a uma "realidade". No

entanto, esta tradição ignora que a própria

de-ocracia com toda a racionalidade, que lhe dá

sustentação e legitimidade, está ancorada sobre

mitos. Examinando a história do sufrágio

uni-"ersal, pedra de toque da democracia,

Rosan-"alon (1992) revela que a igualdade política proxima e anula o que há de mais naturalmente

iferente entre os homens: o saber e o poder.

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É

forma de igualdade mais artificial e exemplar:

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S e a d e m o c r a c ia é a o m e s m o te m p o u m regime

( o p o d e r d o p o v o ) e u m a religião ( a c e le b r a ç ã o

d e u m a m ís tic a d e s o c ie d a d e d o s ig u a is ) , e la

e n c o n tr a d e n tr o d a id é ia d o s u fr á g io u n iv e r s a l

s u a d u p la m a tr iz , olu g a r d e e x p r e s s ã o d e s u a

ambiualência, op o n to d e te n s ã o d e s u a s ig n ifi-c a ç ã o ( R O S A N V A L L O N ,1992: 12).

A insurreição de Canudos contra a

Repú-ica é reflexo de um contexto cultural em que

::nitos religiosos e políticos se misturam. O que

obilizava os seguidores do Conselheiro era

tanto o anúncio do juízo Final, quanto a

pro-essa de desgraça dos poderosos, a destituição

mundo profano (CUNHA, 1995: 220)

Enquan-to os intelectuais da época discutiam se a

Guer-ra de Canudos tinha um sentido político ou

religioso, para os canudenses era o próprio sen--do do político que era diverso" .

Do lado dos soldados que representavam

República, a mobilização também dependia

ae um imaginário coletivo de heroísmo e

virili-de sob o nome de "defesa da Pátria". O

pro-o de cpro-onstruçãpro-o deste imaginário positivo

a República se dava na medida em que a

erra avançava e sofria golpes com as

sucessi-derrotas dos canudenses. "Viva a Repúbli-l", gritavam os soldados ao baquear ou para

comemorar suas vitórias. "Viva o Bom Jesus!",

• rofessavam os canudenses de sua parte. O que

obilizava ambos os lados senão mitos, sejam

e.es políticos ou religiosos?

Na origem dos preconceitos criados em

mo do povo brasileiro - atribuindo-lhe falta

de "existência" política, falta de consciência de

cidadania - está em primeiro lugar uma

ausên-cia de auto-crítica em relação aos próprios

mi-tos que dão sustentação às nossas instituições políticas, por vezes tão artificiais quanto os

mi-tos que sustentam as instituições religiosas

-como a idéia de representação política. Em

se-gundo lugar, é necessário perceber que os

po-pulares entendem o político de forma diversa, e

põem em prática, no cotidiano, uma série de

táticas que evidenciam um comportamento ativo,

ainda que se auto-nomeie não-político. Só

quan-do se está aberto a essa compreensão diversa

do político é que se pode perceber as surpresas

que as táticas populares proporcionam e sua

capacidade de desmontar "esquemas políticos"

tidos como inabaláveis. Não é à toa que se diz

que, eleições, como futebol, são "uma caixinha de surpresas". Assim é que se vêem, por

exem-plo, vereadores sustentados por esquemas

clientelistas de campanha eleitoral

sucedendo-se no poder há quase duas décadas, de repente,

serem derrotados sem nenhuma mudança

signi-ficativa em suas práticas que justificasse a

derro-ta. O eleitor "aprendeu a votar" , transferindo

votos para a esquerda? Parece-me que não há

esta lógica. São tentativas de se adaptar melhor

a um mundo de adversidades, do qual as eleições são um tempo de "aproveitar as oportunidades'? .

A crônica de Euclides mostra o sertanejo se

constituindo numa "árdua aprendizagem de

reve-zes", adaptando-se à hostilidade do meio e desen-volvendo habilidades para enfrentá-Io, construindo

assim a sua visão de mundo, a sua cultura:

A tr a v e s s a a v id a e n tr e c ila d a s , s u r p r e s a s r e

-p e n tin a s d e u m a n a tu r e z a in c o m p r e e n s ív e l, e

n ã o p e r d e u m m in u to d e tr é g u a s . É o b a ta -lb a d o r p e r e n e m e n te c o m b a lid o e e x a u s to , p e

-r e n e m e n te a u d a c io s o e fo r te ; p r e p a r a n d o - s e

s e m p r e p a r a u m r e c o n tr o q u e n ã o v e n c e e e m

q u e s e n ã o d e ix a v e n c e r ( , . .) R e fle te , n e s ta s

a p a r ê n c ia s q u e s e c o n tr a b a te m , a p r ó p r ia n a

-tu r e z a q u e o r o d e ia - p a s s iv a a n te ojo g o d o s

e le m e n to s e p a s s a n d o , s e m tr a n s iç ã o s e n s ív e l,

d e u m a e s ta ç ã o à o u tr a , d a m a io r e x u b e r â n -c ia à p e n ú r ia d o s d e s e r to s incendidos, s o b o

(5)

-

gfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

r e v e r b e r a r d o s e s tio s a b r a s a n te s . Éin c o n s ta n

-te c o m o e la .É n a tu r a l q u e

xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

os e ja . V iv e réa d a p -ta r - s e (CU HA, 1987: 183).

o

sertanejo da obra de Euclides resulta de sua sensibilidade de ver o mundo. Assim sendo, a

fantasia do escritor recriou uma estética sobre o

universo dos sertões que não existiria aos olhos da "razão científica". Ao contrário dos que, com uma

análise conceptualista, tentaram encontrar o povo e

não o acharam, Euclides deu vida ao povo

sertane-jo. As contradições pessoais do autor, que

transparecem na obra, não chegam a tirar o seu

brilho e importância. Em cronistas como ele devemos

nos inspirar no ofício de cientistas sociais, pois só

assim deixaremos de ser "um País sem povo".

NOTAS

1 Entre os clássicos da sociologia política é

co-mum encontrar de diversas formas esta assertiva.

Veja-se, por exemplo, Vitor Nunes Leal, na

con-clusão de seu importante estudo sobre o

coronelismo: "Não podemos negar que o

'coronelismo' corresponde a uma quadra da

evo-lução política de nosso povo, que deixa muito a

desejar. Tivéssemos maior dose de espírito

pú-blico e as coisas certamente se passariam de

outra forma. Por isso, todas as medidas de

moralização da vida pública nacional são

indis-cutivelmente úteis e merecem o aplauso de

quantos anseiam pela elevação do nível

políti-co doBrasil, Mas não tenhamos demasiadas

ilu-sões. A pobreza do povo, especialmente da

população rural e, em conseqüência, o seu

atra-so cívico e intelectual constituirão sério

obstá-culo às intenções mais nobres" (LEAL, 1978: 258).

2 A expressão "o povo assistiu bestializado aos

acon-tecimentos da República" é de Aristides Lobo,

pro-pagandista da República, decepcionado com a

maneira como foi proclamado o novo regime.

Ci-tado por Murilo de Carvalho (1987: 7)

3 CUNHA, 1995: 176

50

jihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

R E V IS TA D E C IÊ N C IA S S O C IA IS v.33 N .1

4 Ver RODRIGUES, Nina. "Canudos e a Política". In

O B r a s il n o P e n s a m e n to B r a s ile ir o . Org. Djacir

Meneses. Brasília: Senado Federal, 1998.

5 Sobre a idéia de "tempo da política" constituindo urna

quebra do cotidiano das populações no Brasil, ver

PALMEIRA,Moacir e HEREDIA, Beatriz 0995; 1997).

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Referências

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