UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS,LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
NÚCLEO DE PESQUISA:VULNERABILIDADES E PROMOÇÃO DA SAÚDE
DINÂMICA DAS RELAÇÕES AFETIVAS: CRENÇAS E
IMPLICAÇÕES PARA A VULNERABILIDADE À AIDS
ELÍS AMANDA ATANÁZIO SILVA
ELÍS AMANDA ATANÁZIO SILVA
DINÂMICA DAS RELAÇÕES AFETIVAS: CRENÇAS E
IMPLICAÇÕES PARA A VULNERABILIDADE À AIDS
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade Federal da Paraíba como requisito à obtenção do grau de Mestre em Psicologia Social.
Profª. Dra. Ana Alayde Werba Saldanha Pichelli (Orientadora)
S586d Silva, Elís Amanda Atanázio.
Dinâmica das relações afetivas: crenças e implicações para a vulnerabilidade à AIDS / Elís Amanda Atanázio Silva.-- João Pessoa, 2012.
125f.
Orientadora: Ana Alayde Werba Saldanha Pichelli Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCHLA
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS,LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
NÚCLEO DE PESQUISA:VULNERABILIDADES E PROMOÇÃO DA SAÚDE
DINÂMICA DAS RELAÇÕES AFETIVAS: CRENÇAS E
IMPLICAÇÕES PARA A VULNERABILIDADE À AIDS
Autora: Elís Amanda Atanázio Silva
BANCA AVALIADORA
Profª Drª Ana Alayde Werba Saldanha Pichelli (UFPB, Orientadora)
Profª Drª Ana Raquel Rosas Torres (CCHLA/UFPB)
I
“
A auto-satisfação é inimiga dos
estudos. Se queremos realmente
aprender alguma coisa, devemos
começar por libertar-nos disso. Em
relação a nós próprios, devemos ser
insaciáveis na aprendizagem e em
relação aos outros, insaciáveis no ato
de ensinar.”
II DEDICATÓRIA
À Deus, pela força e inspiração concedida sempre.É Tua esta vitória, alcançada em minha vida!
Aos meus pais Neuza e Edvar, vocês que abdicaram de suas aspirações em favor das minhas, é muito significante o meu agradecer. Fizeram os obstáculos ficarem mais
leves e lúcidos a cada ligação telefônica emanando forças. Obrigada pela alegria,
conselhos e amor de sempre. Agradeço também pela paciência de nos momentos
importantes em família entenderem minha ausência, e por estarem sempre disponíveis
quando o meu tempo para vocês era limitado. Afirmo com toda certeza meus pais, esta
vitória não é apenas minha, mas sim, nossa!
À João Segundo, meu namorado, que esteve sempre presente, me apoiando na distância dos meus; à ti, a citação que segue: “É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é
leve, o riso é farto, e o chopp é gelado. É fácil amar o outro nas férias de verão, no
churrasco de domingo, nas festas agendadas no calendário, quando se vê de vez em
quando. Difícil é amar quando o outro desaba e não acredita em mais nada, e paralisa,
perde o charme, o prazo, o rebolado. Nessas horas é que se vê o verdadeiro amor, que quer
seu bem acima de qualquer coisa. Na verdade esse é o único que pode ser chamado
III AGRADECIMENTOS
À Profa Dra Ana Alayde Werba Saldanha Pichelli, agradeço por ter me permitido fazer parte desta família, o NPVPS; agradeço pela paciência e confiança em mim depositada para trabalhar com você, e mais ainda, por acreditar na minha evolução. Agradeço também pelo apoio maternal no equilíbrio da minha saúde, quando esta esteve ameaçada. Você não tem noção do quanto aprendo dia após dia com você! Obrigada por simplesmente existir!
À minhas irmãs, Cleide, Eli e Mana, pelo apoio contínuo. Obrigada por me ouvirem, me aconselharem e o mais importante, me amarem! Através de vocês eu conheço cada vez mais um pouco de Deus.
À Jú, minha irmã do coração, que ao longo desses anos dividiu comigo tantas alegrias, risadas, confidências, saudades, apertos, mas o mais importante de tudo, o seu afeto! Ao teu lado posso dizer que vivi e compartilhei os melhores anos da minha juventude. Obrigada por literalmente me abrigar, me acolher e me fazer feliz na sua ótima companhia!
Aos meus sobrinhos, Carol, Milena, Hyago e Maria Cecília, por fazerem dos meus dias uma festa, por terem me ensinado tanto através da linda inocência de cada um. Obrigada pelas risadas com sabor de jujuba e pelas brincadeiras com gosto de quero mais. Amo muito vocês!
À minha segunda família, Seu Eliazar, Dona Ana, Mariana e Rafael, tão especiais! Agradeço por me acolherem de maneira tão agradável nos meus momentos de tormenta, me dando um carinho tão abençoado, e compensando a saudade que sinto dos meus. A presença de vocês em minha vida me faz ter a certeza de que tenho sorte!
IV Aos meus queridos amigos do Núcleo de Pesquisas Vulnerabilidades e Promoção da Saúde, pela amizade, alegrias e trabalhos compartilhados no nosso espaço feliz na Universidade. Agradeço também pela ajuda considerável na minha coleta de dados, e como é gratificante trabalhar diariamente ao lado de vocês! Eu repito todos os
dias “sou uma pessoa de muita sorte por fazer parte de um núcleo de pesquisas como este, dos que tem certeza!”.
SUMÁRIO
LISTA DE TABELAS ... 2
LISTA DE GRÁFICOS ... 3
LISTA DE FIGURAS... 4
LISTA DE ABREVIATURAS ... 5
RESUMO ... 6
ABSTRACT ... 7
APRESENTAÇÃO ... 8
CAPÍTULO I–MARCO TEÓRICO... 14
1.1.AMOR ROMÂNTICO: PERCURSO E IMPLICAÇÕES AO LONGO DO TEMPO ... 15
1.2.CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS GÊNEROS ... 24
1.3.MODELO TEÓRICO DE CRENÇAS ... 29
1.4.MODELO TEÓRICO DE VULNERABILIDADE ... 41
1.5.OBJETIVOS ... 50
CAPÍTULO II–MARCO EMPÍRICO ... 52
2.1.DELINEAMENTO ... 52
2.2.PARTICIPANTES ... 52
2.3.INSTRUMENTOS ... 54
2.4.PROCEDIMENTOS ... 56
2.5.ANÁLISE DOS DADOS ... 57
2.6.ASPECTOS ÉTICOS ... 57
CAPÍTULO III–RESULTADOS, ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÕES ... 59
1.PERFIL SÓCIO-DEMOGRÁFICO E CARACTERÍSTICAS DOS RELACIONAMENTOS AFETIVOS ... 529
2.PRÁTICAS PREVENTIVAS E PERCEPÇÃO DE VULNERABILIDADE AO HIV/AIDS ... 652
3.CRENÇAS ROMÂNTICAS DOS PARTICIPANTES ... 82
4.GRAU DE SATISFAÇÃO AMOROSA NO RELACIONAMENTO ... 85
5.COMPORTAMENTOS DE INFIDELIDADE E PRÁTICAS PREVENTIVAS ... 89
6.VARIÁVEIS PREDITORAS DA VULNERABILIDADE AO HIV/AIDS ... 93
7.GRAU DE CRENÇAS COMPARTILHADAS SOCIALMENTE ... 95
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 97
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 103
2 LISTA DE TABELAS
TABELA 1 – Perfil Sócio Demográfico...60
TABELA 2 – Padrões de Relacionamentos afetivos...64
TABELA 3 – Uso do preservativo...65
TABELA 4 – Categorias, frequências e porcentagens dos discursos dos adultos jovens no que se refere ao uso do preservativo no relacionamento... 67
TABELA 5-Percepção Vulnerabilidade à AIDS...74
TABELA 6– Categorias, frequências e porcentagens dos discursos dos adultos jovens no que se refere a sua auto-percepção de vulnerabilidade ao HIV...77
TABELA 7– Crenças Românticas...83
TABELA 8 – Satisfação no relacionamento...86
TABELA 9 – Comportamentos de Infidelidade...90
3 LISTA DE GRÁFICOS
4 LISTA DE FIGURAS
5 LISTA DE ABREVIATURAS
AIDS - Síndrome da Imunodeficiência Adquirida DST’s– Doenças Sexualmente Transmissíveis Fe - Feminino
HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana M - Média
Ma - Masculino
OMS – Organização Mundial de Saúde
PCAP - Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da População Brasileira SPSS – Statistical Package for the Social Sciences
6 RESUMO
Introdução: A partir de meados do século XVIII foi possível assistir a mudanças significativas nas idéias acerca do amor romântico, que começaram a ganhar relevância, colaborando para mudanças seculares e afetando a vida social como um todo. A vida de homens e mulheres foi reorganizada e as crenças e papéis assumidos por cada um na sociedade moderna foram restabelecidos, revelando a emergência de outros eixos interpretativos para a sexualidade e consequentemente, à constituição dos relacionamentos. Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo investigar a dinâmica das relações afetivas de adultos jovens em relacionamento estável, frente às suas crenças, satisfações e comprometimentos à fidelidade, e as possíveis implicações para a vulnerabilidade ao HIV/AIDS. Para a Metodologia, a amostra foi constituída por 400 adultos jovens, de ambos os sexos, com faixa etária de 20 a 29 anos, heterossexuais e que se encontram em relacionamento estável. Para a coleta dos dados foram utilizados os instrumentos: 1) Escala de Crenças Românticas; 2) Escala de satisfação amorosa; 3) Questionário de comportamentos relacionados à Infidelidade; 4) Questionário de comportamentos associados à vulnerabilidade ao HIV/AIDS; 5) Questionário sócio-demográfico e informações complementares acerca do relacionamento afetivo. As respostas ao questionário foram dadas em escala tipo Likert com 10 pontos e o banco de dados foi construído a partir do Software estatístico SPSS for Windows - versão18, com análises descritivas e bivariadas. Os Resultados obtidos apontaram para as mulheres da amostra como possuidoras de crenças românticas, o que pode ser o fator de maior influência e exposição destas à vulnerabilidade ao HIV, pois a maioria encontra-se na inconstância do uso do preservativo em suas relações sexuais. A confiança no parceiro(a) foi um motivo declarado pela maior parte dos participantes tanto para ausência no uso do preservativo, bem como para a baixa associação na percepção pessoal de vulnerabilidade à AIDS. Todavia, o comportamento de infidelidade associado à vulnerabilidade ao HIV veio demonstrar o quanto a confiança inquebrantável no parceiro está equivocada, tendo em vista que os participantes masculinos, em maior número do que as mulheres, alegaram já terem traído suas parceiras, verificando-se ainda que nessas relações extra-oficiais nem sempre fizeram uso do preservativo. A amostra se caracterizou como satisfeita amorosamente, tendo os homens se apresentado como mais satisfeitos do que as mulheres, ou mais seguros desta satisfação, ou até mesmo, menos exigentes. Portanto, foi perceptível que muitas das recentes práticas exercidas pelos adultos jovens em relacionamento estável são ressignificadas por organizadores de sentido que reportam aos mitos tradicionais do amor romântico, em que a confiança no parceiro reivindica o seu direito à eternidade, embora às possibilidades de liberdade do mundo contemporâneo, que corroboram em práticas sexuais desprotegidas. Todos esses componentes apontam para fragilidades nas iniciativas de promoção da saúde e de prevenção ao HIV/AIDS, que resultam em situação de vulnerabilidade.
7 ABSTRACT
Introduction: from the mid-18th century it was possible to see significant changes in ideas about romantic love, which began to gain importance, contributing to the secular and changes affecting the social life as a whole. The lives of men and women was reorganized and the beliefs and roles assumed by everyone in modern society were restored, revealing the emergence of other interpretative axes to sexuality and, consequently, the establishment of relationships. In this sense, the present study aimed to investigate the dynamics of emotional relationships of young adults in common-law, compared to their beliefs, satisfactions and compromises to fidelity, and the possible implications for vulnerability to HIVAIDS. For the Methodology, the sample consisted of 400 young adults of both sexes, with the age group 20 to 29 years old, heterosexual and who are in stable relationships. To the data collection instruments were used: 1) Romantic Beliefs scale; 2) scale of loving satisfaction; 3) related behaviors survey Infidelity; 4) Questionnaire of behaviors associated with vulnerability to HIVAIDS; 5) socio-demographic Questionnaire and additional information about the affective relationship. Questionnaire replies were given in Likert type scale with 10 points and the database has been built from the Statistical Software SPSS for Windows-versão18, with descriptive and bivariate analyses. The Results pointed to sample women as having romantic beliefs, which may be the most influential factor and exposure to vulnerability to HIV, because the majority is on the fickleness of the use of condoms in their sexual relations. Confidence in the partner was a reason stated by most participants as much to the absence in the use of condoms, as well as to the low membership in personal perception of vulnerability to AIDS. However, the behavior of infidelity linked to vulnerability to HIV has shown how unbreakable confidence in partner is mistaken, since the male participants, in greater numbers than women, they claimed they have already betrayed its partners, even if these unofficial relations have not always made use of the condom. The sample was characterized as satisfied lovingly, having men presented as more satisfied than women, or safer this satisfaction, or even lower. Therefore, it was noticeable that many of the recent practices carried out by young adults in common-law are re-signified by organizers of the sense that relate to traditional myths of romantic love, in which trust in partner claims its right to eternity, although the scope for freedom of the contemporary world, which corroborate in unprotected sexual practices. All of these components point to weaknesses in health promotion initiatives and HIVAIDS prevention, resulting in a situation of vulnerability.
8
9 APRESENTAÇÃO
No mundo contemporâneo as pessoas vêm apresentando novas formas de
organizações e vicissitudes em relação às concepções e crenças associadas às dinâmicas
das relações afetivas. Há uma conexão direta e dialética entre as tendências globalizantes
da vida moderna e as transformações da intimidade evidenciadas nos contextos,
cotidianamente. Nesse sentido, para se entender as dinâmicas relacionais amorosas na
atualidade, torna-se necessário investigar como se configurou nosso momento
histórico-cultural e por quais mudanças ele tem passado, bem como de que forma as velhas
concepções se relacionam com as novas, produzindo subjetividades. Assim, é notável que
as relações sociais e as trocas entre homens e mulheres vivenciadas e construídas ao longo
do tempo possuem um potencial instaurador no quadro da realidade relacional
afetivo-conjugal atual. (Giddens, 1993; Costa, 1998; Silva; 2002; Borges, 2004).
A partir de meados do século XVIII foi possível assistir a avanços significativos
nas idéias acerca do amor designado romântico, que começaram a ganhar relevância,
colaborando para transformações seculares, que afetaram a vida social como um todo. O
lar passou a ser visto e vivenciado de forma distinta do trabalho, isto é, os domínios de
atuação foram divididos em dois, o público e o privado, e nessa divisão a mulher era a
responsável pelo privado, o protegido, logo, o lar; enquanto ao homem o contrário lhe
cabia, o público, o notório e manifesto. Dessa forma, a vida de homens e mulheres foi
reorganizada, e as crenças, condutas e papéis assumidos por cada um na sociedade
moderna foram restabelecidos e ressignificados. (Giddens, 1993; Saldanha, 2003; Giffin,
10 As mulheres se constituíram como protagonistas dos ideais desse amor romântico,
que foi caracterizado enquanto norma de conduta emocional, situado por um compromisso
cultural de se amparar na repressão da sexualidade feminina, sucumbindo o seu poder e
seus prazeres aparentes. (Foucault, 1997). A auto-identidade feminina era condicionada a
simbiose afetiva, contribuindo para esta assimetria valorativa entre os gêneros a favor do
masculino. (Heilborn, 1992). Neste sentido, Giddens (1993) sinaliza que o casamento se
tornou o objetivo primário destas mulheres, satisfazendo e respondendo aos anseios de
felicidade vinculados à época, muito embora a sexualidade fosse bastante reprimida e
autocontrolada, não apenas reduzida ao casamento, mas ordenada de modo singular e
específico.
Tais transformações frente aos ideais românticos corroboraram, deste modo, na
desigualdade emocional e social entre os gêneros, que trouxe consigo algumas causas
diretas e imediatas, como a emergência de outros eixos interpretativos para a constituição
da família, para a sexualidade e para os próprios arranjos e relações de gênero da época.
As principais mudanças foram no sistema capitalista, na redução do tamanho das famílias,
bem como nas novas configurações da identidade, que assumia inteiramente o conflito
entre a tendência à díade afetiva ou a busca da preservação da identidade individual no
casal igualitário, contribuindo para o contraste e radicalização nessas relações. (Heilborn,
1992; Giddens, 1993; Costa, 1998; Matos, 2000; Saldanha, 2003; Moura, 2011).
Deste modo, ao demarcar diversas maneiras de dependências objetivas e
subjetivas, os ideais do amor romântico influenciavam diretamente nas crenças sobre as
relações afetivo-conjugais que evidenciavam tais ideais como um dos orientadores da
subjetividade, principalmente a feminina. Arraigada no ser do outro em detrimento do ser
11 naturalização de alguns discursos e práticas concernentes aos papéis de gênero na vivência
da sexualidade da época. Tal naturalização estava implicada diretamente na fragilização
das ações preventivas e da promoção da saúde, e, consequentemente, em situação de
vulnerabilidade ao HIV/AIDS. (Saldanha, 2003)
Esta vulnerabilidade feminina pode ser observada a partir dos dados do Ministério
da Saúde (Brasil, 2011), onde verifica-se o aumento no ultimo ano do número de casos de
mulheres entre 13 a 24 anos com HIV/AIDS. Observa-se também, conforme
dados divulgados pela última PCAP (Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da
População Brasileira - 2008) que nesta faixa-etária, apesar de 97% ter consciência de que
o preservativo é a maneira mais eficaz de se evitar a contaminação pelo HIV, o uso dele
decresce à medida que o jovem se envolve com uma parceria fixa e estável. Diante desses
dados, este estudo se justifica ao admitir-se que há a necessidade teórica e empírica do
entendimento dos motivos dessas estatísticas ao longo das décadas só crescerem.
Compreender, portanto, quais fatores históricos e culturais construídos socialmente têm
influência nas crenças que remetem à naturalização das práticas e consequentemente à
vulnerabilidade desses jovens envolvidos em relacionamento estável na atualidade.
Além disso, partindo do pressuposto de que a forma como se estabelece a dinâmica
das relações afetivas repercutem nos processos de decisão quanto à saúde reprodutiva e
sexual de homens e mulheres, espera-se que ao abordar as formas de sociabilidade
amorosa seja desvelado o que é capitalizado no processo de negociação entre os pares.
Nesse âmbito, é possível afirmar que esta investigação poderá subsidiar intervenções
preventivas direcionadas a população em foco, no que se refere à prevenção do
12 Neste sentido, tem-se como objetivo investigar a dinâmica das relações afetivas de
adultos jovens em relacionamento estável, frente às suas crenças, satisfações e
comprometimentos à fidelidade e as possíveis implicações para a vulnerabilidade ao
HIV/AIDS. Embora o tratamento do tema comporte várias possibilidades de análise,
remeter-se-á somente alguns deles - o amor romântico, crenças românticas, satisfações, o
comprometimento à fidelidade e a vulnerabilidade ao HIV/AIDS.
Ante o exposto, o Capítulo I da dissertação traz o marco teórico, apresentando os
fenômenos estudados: o Amor romântico e a Construção social dos gêneros. Através
dessas teorias são explicitados os aspectos referentes às transformações ao longo do tempo
na constituição das diferenças entre homens e mulheres. Ainda neste capítulo
encontram-se o Modelo teórico de Vulnerabilidade e o Modelo teórico de Crenças, que fundamentam
epistemologicamente o estudo. O emprego desta última teoria baseia-se na importância
que as crenças adquirem, enquanto instrumento subjetivo, na construção e concretização
das estruturas sociais, uma vez que desempenha influência significativa nas relações
afetivas e nas ações que se constituem entre os jovens e seus pares. Assim, foi adotada
uma perspectiva societal de crenças a partir de uma visão macrosocial, em que as unidades
sociais não foram consideradas individualmente, mas enquanto um todo coletivo, como
um fenômeno que é compartilhado e construído socialmente, tendo consequências para o
jovem atuante e para o seu parceiro(a) afetivo enquanto membros sociais, e para a
sociedade.
No Capítulo II está exposto o marco empírico da dissertação, constando em todo o
fenômeno observável do estudo, isto é, o método utilizado. Aqui estão presentes além da
13 procedimentos adotados para a coleta dos dados e como se deu a tabulação e análise
14
C
APÍTULOI__________________________________________
15 CAPÍTULO I
MARCO TEÓRICO
1.1.AMOR ROMÂNTICO: CARACTERIZAÇÃO E IMPLICAÇÕES À VULNERABILIDADE À AIDS AO LONGO DO TEMPO
Em vários levantamentos realizados (Vincent, 2005; Almeida, 2008;
Scorsolini-Comin, 2009), uma multiplicidade de indivíduos reportam que o amor é, singularmente, o
fenômeno mais prazeroso da existência humana, sendo essencialmente importante para o
desenvolvimento da personalidade e crescimento da humanidade. A resposta amadurecida
para o problema da existência humana, segundo Fromm (1995), estaria na realização da
unidade interpessoal, da fusão com outra pessoa, ou seja, do amor. Costa (1998) vem
acrescentar que o amor se trata de um fenômeno fundamentalmente dinâmico, pois
envolve conhecimentos e práticas que se interferem mutuamente. Além disso, é um
sentimento universal, pois está presente e influente em todas as épocas, sendo
culturalmente codificado e sujeito às transformações impostas pela variação das
circunstâncias temporais.
Os apontamentos do campo amoroso aludem à historicidade, isto é, não decorrem
de um acontecimento local, nem tampouco, contemporâneo, eles fazem referência ao mais
ancestral dos tempos. As raízes do que se concebe dele remontam aos povos das cavernas
que o retratavam em pinturas rupestres. Observa-se que em sociedades pré-letradas, como
as indígenas americanas, australianas, indianas e das ilhas do Oceano Pacífico, há diversos
relatos e registros explícitos de manifestações de costumes que expressavam as primeiras
formas do amor, bem como nas primeiras civilizações letradas, como no Egito, na China,
16 Reporta-se que foram encontrados registros da Antiguidade, produzidos há cerca
de 1500 anos a.C., no Egito, trazendo remotos cânticos amorosos manuscritos em papiros
em que se percebe o amor retratado como um esmagamento do eu, e, portanto, visto como
uma condição de doença que deveria ser erradicada. A etologia, ciência que estuda as
origens dos comportamentos dos seres humanos, traz que nessa época as relações se
davam através de uma troca de favores, isto é, em troca de recursos trazidos pelo homem
para garantir a alimentação e o abrigo da fêmea, esta, em contrapartida, disponibilizaria o
seu útero para procriação dos filhos do mesmo. (Jablonski, 1998; Almeida, 2008).
Mais à frente, na Idade Média (395 d.C. – 1453) o amor era considerado um sentimento voluptuoso e desmoralizado, dessa forma, o casamento tinha uma diretriz
diferente da qual se tem hoje por referência, isto é, o matrimônio não deveria ser o lugar
para o amor carnal; para a carícia e outras formas de demonstrações de afeição física. Algo
que desse um escoamento aos sentimentos era considerado impróprio, por isso, as
mulheres tinham a sexualidade reprimida, e aquelas que expressavam suas vontades
sexuais, chegavam a serem consideradas como possuidoras de uma patologia histérica.
Elas eram consideradas símbolos de respeitabilidade, e para os homens satisfazerem-se
sexualmente, recorriam às relações extraconjugais com as escravas, amantes e prostitutas.
(Giddens, 1993; Jablonski, 2003; Del Priore, 2006; Almeida, 2008).
Na realidade, o casamento medieval era uma instituição que visava à estabilidade
de uma sociedade e cumpria somente o papel da reprodução e união de riquezas, pois se
anuía a procriar filhos legítimos que herdariam e multiplicariam as propriedades dos pais.
Entre as classes mais privilegiadas como a burguesia, ele servia também para estabelecer e
reforçar alianças de natureza política ou econômica. Durante este período, a maioria dos
17 recíproco, mas sim, por causas econômicas e políticas, pois a família era apreciada como
mina de economia e posses. (Zordan, 2003, 2005; Del Priore, 2006; Almeida, 2008;
Ribeiro, 2010).
Contudo, em decorrência da força arraigada pela religião, que estava intimamente
relacionada aos valores morais propagados na época medieval, juntamente com os
princípios de que era preciso amar a Deus para poder conhecê-lo, houve uma resultante
associação entre a idéia de um envolvimento mais firme com o amor a Deus e ao próximo,
justificando que esse é o amor que se aproxima da caridade e dos anseios divinos.
(Giddens, 1993; Costa, 1998; Rohden, 2005; Ribeiro, 2010).
Diante desse contexto, toda a organização social dos relacionamentos veio a sofrer
ameaça a partir do momento em que seus suportes econômicos foram colocados em um
plano secundário, com a introdução da idéia do casal como elemento chave do casamento.
Para tanto, deveria haver uma cooperação afetuosa e uma harmonia entre os cônjuges para
administrar os bens comuns, corroborando no ganho de espaço pelos sentimentos e no
nascimento brando do amor na díade. (Silva, 2002; Saldanha, 2003)
Acreditava-se, aqui, que quando um casamento acontecia meramente por amor, os
interesses, à priori, na reprodução e manutenção de bens, extinguiam-se. (Jablonski, 1998;
Almeida, 2008). Apreende-se que, paulatinamente, o amor passou a dar os primeiros
passos para ter uma identidade que lhe estabelecia certa autonomia e liberdade no tocante
às interações sociais, bem como passou a ser visto como uma condição positiva para o
casamento. (Sprecher e Metts, 1999; Oltramari, 2009).
Perante esse panorama, na Idade Moderna (1453 – 1789), apesar da sexualidade ainda encontrar resistências ao seu desvelamento em razão do lugar privilegiado que
18 matrimoniais para a maior parte da sociedade estava cada mais estabilizando-se, e
baseava-se em outras considerações, além dos julgamentos do valor econômico. Neste
período, a imagem da dama, da senhora, passou a substituir o lugar de Deus como objeto
do desejo. Essa “mundanização do amor”, como nomeia Costa (1998), e a revalorização da figura da mulher, foram responsáveis por um enorme enriquecimento do vocabulário
sentimental afetivo. Segundo Badinter (1985), no século XVIII, a felicidade não é mais
somente uma questão individual, mas é a dois que se espera realizá-la, enquanto se
aguarda a possibilidade de vivê-la com a coletividade.
Foi nesta época que houve, sobretudo, a valorização do “ser romântico”. O amor de cortesia ganhou evidência numa nova ótica, diferenciada daquela vista na idade média.
Logo, obrigou os partidários a deixar o esforço masoquista de narrar suas experiências
emocionais e afetivas de lado, escrevendo-as numa nova linguagem, feita de metáforas
que se teciam e reteciam sutilmente. Deste modo, os romances foram a primeira forma de
literatura a alcançar uma população em massa. (Almeida & Mayor, 2006)
Seguindo esta premissa, a partir do final do século XVIII, uma vez materializadas,
estabilizadas e difundidas na ordem social as idéias acerca do amor poético, sonhador e
romantizado, finalmente foi popularizado o amor convencionalmente conhecido por “amor
romântico”, que se firmou enquanto norma de conduta emocional e social, pois sua divulgação estava diretamente relacionada a mudanças importantes que implicaram na
vida de um todo coletivo, referente à época. (Giddens, 1993; Costa, 1998; Sprecher e
Metts, 1999; Jablonski, 2003; Barbosa, 2008).
Diante dessas mudanças, o amor romântico tendeu a se libertar dos laços de
parentesco mais amplos, da formação e manutenção da família, dando maior evidência e
19 um significado diferenciado, onde os cônjuges valorizavam o sentimento de
pertencimento, renúncia e a confiança completa e incondicional no outro-parceiro. Além
disso, eram vistos cada vez mais como colaboradores em um empenho emocional mútuo e
conjunto, ambos sintonizando suas demandas recíprocas na satisfação terna e nos anseios
de felicidade conjugal, que eram claramente enriquecedores. (Giddens, 1993; Costa, 1998;
Sprecher & Metts, 1999; Figueiredo, 2005).
No entanto, esse amor foi se difundindo na época dando intensa ênfase à
conjugalidade, sem espaço para a individualidade. Reforçava o caráter indissolúvel de
submissão completa dos apaixonados à confiança e exclusividade no casamento, baseado
na norma social da fidelidade inquebrantável. No que tange a esta exclusividade, não era
permitida a coexistência de outros projetos de vida para aquele casal, isto é, esperava-se
que no casamento fossem supridas todas as aspirações, sentimentos, necessidades físicas e
subjetivas dos companheiros envolvidos. (Jablonski, 2003; Silva, 2002; Zordan, 2003;
Costa, 2007; Madureira & Trentine, 2008; Moura, 2011)
O fascínio do amor romântico era assegurar um tipo de felicidade na qual os
envolvidos encontrariam a completude, numa perfeição adequada física e espiritual ao
outro. Sem esse amor o homem e a mulher moderna não encontrariam um no outro aquela
única, frágil e difícil mistura de protetor e protegido, pais e filhos, conforto e tentação,
amigo e amante. Era necessário, a qualquer preço, deixar passar o sentimento de que o
outro era mais importante do que o eu. (Giddens, 1993; Costa, 1998; Sprecher & Metts,
1999; Zordan, 2003; Figueiredo, 2005).
Frente a este movimento situacional, um dos principais destaques vai para a
reelaboração do lar como um espaço distinto do trabalho, que pelo menos em princípio,
20 houve a divisão das esferas de ação em públicas e privadas, isto é, foram delimitadas as
relações de poder, cabendo as mulheres serem titulares do domínio privado, logo, do todo
interno do lar, o discreto e resguardado. Já aos homens lhes incumbia à possessão pública,
portanto, o coletivo, notório e social. (Giddens, 1993; Saldanha, 2003).
Perante esta divisão, o amor romântico passou a caracterizar-se como sendo
essencialmente feminino, pois comprometia, maiormente, a vida das esposas, que
reduzidas e condicionadas a viver em função do casamento, isolaram-se do mundo
externo, passando a contentar-se com as obrigações do lar. Costa (1998) enfatiza que o
romantismo, na verdade, era para elas uma prática de exclusão repulsiva. Estas mulheres
acabaram, pois, invalidando-se das relações de poder ligadas à sexualidade, visto que a
prática do ato sexual no casamento ainda era limitada, controlada de maneira distinta e
específica. (Jablonski, 2005; Zordan, 2003, 2005; Barbosa, 2008; Ribeiro, 2010). Este
último fator foi denominado por Foucault (1997) de hipótese repressiva, pois anulava das
mulheres os seus prazeres aparentes.
Além dessa divisão comentada, a qual ocasionou mutações diretas e imediatas no
que se refere à constituição familiar e nas interações entre pais e filhos, vale ressaltar que a
pressão para se constituírem famílias grandes, característica crucial de todas as culturas
pré-modernas, deu lugar a uma tendência rigorosa de se reduzir o tamanho das famílias, o
que comportou na idealização do papel da mãe e o determinado cuidado delas para com os
filhos, designado de mito da maternidade. (Badinter, 1985; Giddens, 1993)
Nesta perspectiva, Saldanha (2003) considera que as três ordens imaginárias
representantes das famílias estavam instituídas: a passividade feminina, o mito da
21 práticas designadas ao poder masculino por meio do papel social do marido, que retém a
companheira à dependência subjetiva, econômica e sexual.
No que tange à dependência subjetiva, o que também deu propensão à discussão
sobre as consequências das transformações da intimidade na modernidade foi a função da
relação amorosa na determinação da identidade feminina. A virtude era conferida àquelas
mulheres que canalizassem seu desejo amoroso em partilhar uma só identidade na díade.
Para melhor complementar este apontamento é trazido aqui o conceito de identidade por
Suda e Souza (2006) fundamentado por Tajfel (1981), como sendo “um fenômeno derivado da dialética entre o indivíduo e a sociedade. É entendida como o autoconceito do
indivíduo derivado do seu conhecimento de filiação a um grupo social, juntamente com o
significado emocional e de valor associado a tal pertença”.
Sob essa ótica, Giddens (1993) evidencia que o sentimento de vazio enunciado
pelo que foi fragmentado nestas mulheres modernas era preenchido através da relação
amorosa, levando tais companheiras a perceberem-se como inteiras apenas a partir das
trocas relacionais com seus respectivos parceiros, entendido como seu “grupo social” de
pertença. Em vista disso, o julgamento emocional do amor romântico é a urgência em
tornar a identidade comum, isto é, legitimada na descoberta do outro-parceiro, pois uma
vez que era “arrancada” dos íntimos subjetivos, para assim ser reconstruída a partir do relacionamento matrimonial, e redefinida dentro desta nova realidade, contribuía
acentuadamente, segundo alguns teóricos (Matos, 2000; Giffin, 2005), para a assimetria
entre os gêneros em favor do masculino.
Logo, a companheira centrada nos ideais românticos de que é no amor que se
encontra e se faz o seu lugar no mundo, pela concentração de todas as energias e atenção
22 própria, focava intimamente seu processo de estabilização da identidade no lema “amo,
logo existo”. Assim, amar romanticamente era nada menos que o “eu em risco”, mas
tendo como promessa a possibilidade de ganhar um novo sentido de si no amor diático.
(Costa, 1998).
A partir destes pressupostos, pactua-se que os ideais do amor romântico
ocasionaram determinantes de subordinação objetivas e subjetivas, que exerceram
segundo alguns teóricos (Heilborn, 1992; Costa, 1998; Giddens, 1993; Saldanha, 2003;
Zordan, 2005), influências significativas e imediatas nas crenças sobre as interações
matrimoniais e sociais. Tais crenças foram legitimadas como um orientador da
dependência e subjetividade feminina, arraigadas no ser do outro em detrimento do ser de
si, percebido como um marco fundamental de fragilização e de naturalização dos
entendimentos, crenças, discursos e práticas referentes às atribuições de gênero
vivenciadas na sexualidade da época.
No que diz respeito à naturalização, esta implicou, consequentemente, na
fragilização das ações de prevenção e da promoção da saúde, pois, a partir do momento
em que a confiança no parceiro estabeleceu-se integralmente, situada nas crenças de
convicção ao pertencimento exclusivo ao marido, as mulheres abriram mão da prática
sexual com proteção. Tal fato resultou, portanto, em situação de vulnerabilidade à doenças
infecto-contagiosas em proeminência na época, merecendo destaque o HIV/AIDS que teve
seu advento na década de 80. (Saldanha, 2003).
O conceito de vulnerabilidade aqui é entendido como "o movimento de considerar
a chance de exposição das pessoas ao adoecimento como a resultante de um conjunto de
23 mesmo tempo, à disponibilidade de recursos de enfrentamento e assistência. (Ayres et al.,
2003, p. 123).
Em pesquisas (Saldanha, 2003; Zordan, 2005; Costa, 2007; Moura, 2011)
realizadas ao longo da última década, foi confirmada que esta fragilidade feminina
encontra-se ainda presente e concretizada nos dias atuais, embora menos aparente que no
período decorrido anteriormente. De acordo com a divulgação pelo Ministério da Saúde
(2011) de dados da última Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da População
Brasileira (PCAP 2008), 97% dos jovens de 15 a 24 anos de idade reconhecem que o
preservativo é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV, mas o uso cai à medida
que a parceria sexual se torna estável. O percentual de uso do preservativo na primeira
relação sexual é de 61% caindo para 30,7% nas as relações seguintes com a mesma
parceria, ou seja, na manutenção do relacionamento com parcerias fixas. Esta pesquisa
ressalta ainda que o uso de preservativo entre os indivíduos que declararam não possuir
companheiro fixo foi consistentemente maior do que entre aqueles da mesma faixa etária
que vivem em relacionamento com companheiro estável. Indicou ainda que o uso de
preservativo na última relação atinge 23,8% entre aqueles jovens que vivem com
companheiro fixo, contra 56,6% entre os que não têm parceria estável.
Compreende-se, portanto, que é nas configurações do domínio privado, na
intimidade dos enlaces e desfechos com o sexo oposto que se situam os pontos principais
dessa discussão, embora cada vez mais protestada pela esfera pública. Esta ênfase é guiada
pela inferência de que as ordens imaginárias sociais formadas anteriormente têm força de
persistência maior que as transformações que legitimam o período histórico atual,
caracterizado principalmente pela descentralização da sexualidade do poder masculino e à
24 Giddens, 1993; Silva, 2002; Matos, 2000; Silva, 2002; Madureira & Trentine, 2008;
Ribeiro, 2010).
Finaliza-se, portanto, com a hipótese principal deste estudo de que muitas das
recentes motivações e práticas exercidas pelos adultos jovens em relacionamento estável
são ressignificadas pela sociedade ou por eles mesmos, a partir de organizadores de
sentido que reportam aos mitos tradicionais do amor romântico, em que a confiança no
parceiro reivindica o seu direito à eternidade, não obstante às possibilidades de liberdade
no mundo contemporâneo.
Por conseguinte, foi a partir desses pressupostos que emergiu o desígnio de
entender neste estudo, o campo de investigação onde são construídas as relações e
diferenças de gênero frente aos relacionamentos afetivo-conjugais, enquanto meio
particular de estratégias de poder e vulnerabilidade ao HIV/AIDS.
1.2.CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS GÊNEROS
Uma expressiva literatura tem apontado que, entre as acentuadas mudanças ao
longo dos séculos, merecem destaque as transformações das relações entre os gêneros.
Tais transformações se devem a inúmeros fatores, como o direito das mulheres ao voto, à
sua maior escolarização, à separação entre sexualidade e reprodução - propiciada pelos
avanços na medicina – e, claro, a transformação no âmbito da sexualidade. (Giddens, 1993; Heilborn, 1999; Fonseca, 2004; Wiese & Saldanha, 2011; Moura, 2011).
Apresentada como íntima e privada, a sexualidade adquiriu contornos cada vez
menos recônditos no que se refere ao debate público, seja como palco atravessado por
25 construção de identidades, por intermédio do movimento homossexual. Prontamente, é
nesse contexto que especificamente o gênero se configura enquanto uma variável
importante, onde estão manifestos os valores enraizados no imaginário social que
constituem as práticas de homens e mulheres. (Gubert & Madureira, 2008).
De acordo com Abramovay, Castro & Silva (2004, p. 29), “sexualidade é uma das dimensões do ser humano que envolve gênero, identidade sexual, orientação sexual,
erotismo, envolvimento emocional, amor e reprodução.” Pode ser tanto expressa como
experimentada em forma de fantasias, desejos, pensamentos, crenças, atitudes, práticas,
valores e etc.
O modo como cada indivíduo experimenta a sexualidade é determinado pela
identidade de cada um, ao passo que os caminhos percorridos pelo feminino e pelo
masculino nessa esfera tomam dimensões inteiramente opostas, não exatamente devido às
diferenças impressas em seus corpos, mas principalmente em função das expectativas na
tradição ocidental, em relação à conduta sexual que cada um deve assumir. Na finalidade
de preencher estas expectativas, tanto o homem quanto a mulher podem se colocar em
situações de vulnerabilidade ao cumprirem uma prática sexual considerada prejudicial à
sua própria saúde. (Narvaz, 2005; Nalim, 2009; Wiese & Saldanha, 2011). Dessa forma,
para se pensar as questões de gênero, é preciso refletir sobre as múltiplas instâncias e
relações sociais, instituições e símbolos, formas de organização social, discursos e
doutrinas nas quais estão sendo construídas as identidades masculinas e femininas. (Costa,
1998; Adelman & Silvestrin, 2002)
Por conseguinte, no campo da construção social dos gêneros, não se deve deixar de
atentar para a importância da identificação e compreensão das regras culturais e ocasionais
26 objetivos e subjetivos que integram a experiência afetiva e sexual dos indivíduos. Assim, a
cultura é a responsável pela transformação dos corpos em entidades sexuadas e
socializadas, por intermédio de redes de significados que abarcam categorizações de
gênero, de orientação sexual, de escolha de parceiros. As práticas sociais modelam,
orientam e esculpem desejos de viver a sexualidade, dando origem a carreiras
sexuais/amorosas. (Heilborn, 1999; Adelman & Silvestrin, 2002; Silva, 2002, Giddens,
2005; Madureira & Trentine, 2008; Zacharias et al., 2011).
Frente a este apanhado contextual, o termo gênero pode ser compreendido como
um complexo de determinações e características que designam socialmente o que é ser
masculino e feminino em determinada cultura. “Trata-se das categorizações de pessoas, artefatos, eventos e sequências baseadas no imaginário sexual (...). O gênero é pensado
como categoria ‘empírica’, como um operador de diferenças não preestabelecidas que
marcame que só podem ser compreendidas contextualmente”. (Piscitelli, 1997, p. 60). O gênero é uma categoria de análise que permite que se reconheçam não apenas as
semelhanças e discrepâncias existentes entre os sujeitos sociais homem e mulher, mas os
padrões de coerência histórico-cultural que existe em razão da diferença que os separa e as
contradições lógicas e emocionais que fluem desta coexistência binária, considerando as
possíveis conseqüências advindas desta. Isso representa a aceitação de que a
masculinidade e a feminilidade transcendem a questão da anatomia sexual, remetendo à
redes de significação que envolvem diversas dimensões da vida das pessoas. Tal
significação aparece como norma, crenças, valores, percepções ou representações, que
acompanham a vida dos indivíduos. (Heilborn, 1992; Giddens, 2005).
Dessa forma, percebe-se que os papéis desempenhados por homens e mulheres
27 naturalizada, isto é, passaram a ser encarados pelas sociedades como algo adequado e
natural, o que acabou por ter uma grande importância e influência no que compete à
manutenção da desigualdade entre os gêneros, principalmente nas relações afetivas e
matrimoniais. (Matos, 2000, Silva, 2002, Fonseca, 2004; Wiese & Saldanha, 2011; Moura,
2011; Zacharias et al., 2011).
Já partindo do nascimento, Egypto & Egypto (2000) esclarecem que meninos e
meninas são preparados para responder às expectativas da sociedade em relação ao papel
que cada um deve satisfazer e também acerca da delimitação da sua identidade. E,
particularmente, a família e a escola aparecem como instituições vigilantes e facilitadoras
do processo de assimilação desses papéis. O carrinho e o revólver, simbolizando o espaço
público, representam a decisão, a violência e o domínio concernentes ao homem. A
boneca atinente à menina está incorporada à maternidade, a casinha e ao trabalho
doméstico.
De tal modo, as identidades de homens e mulheres são projetadas na necessidade
da existência de um ser submisso, sensível, dócil, a fim de justificar o outro ser forte,
provedor, agressivo, inflexível, reiterando a cultura patriarcal e a diferença entre os
gêneros (Fischer & Marques, 2001; Costa, 2007).
Tais ideais de romanticismo enraizados desde a Idade Média e concretizados a
partir da modernidade, no século XVIII, traziam o desempenho dos papéis de gênero
assumidos e protagonizados em torno dessas diferentes manifestações de intimidade a
partir da divisão das esferas de ação. Havia, portanto, uma maior preocupação por parte
dos indivíduos quanto à emissão de comportamentos socialmente definidos como
esperados e adequados para cada um dos membros da relação amorosa, principalmente no
28 relegadas à promoção do amor. Aos homens sucumbia o contrário, logo, a vida pública e o
papel de provedor material. (Villela, 1997; Costa, 1998; Saldanha, 2003)
Observa-se que foi a partir deste domínio contextual que se consolidaram na
sociedade os estereótipos tradicionais de gênero, que designam os homens como
assumindo um papel pró-ativo na iniciação das relações, e as mulheres como assumindo
um papel reativo, aceitando ou recusando as investidas masculinas. Pode-se perceber que
tais estereótipos se fazem presentes em vários campos de atuação dos indivíduos, um deles
é nas relações afetivo-sexuais, onde o uso do preservativo é extinto pelas mulheres apenas
por uma questão de passividade frente ao desejo do parceiro fixo de não usá-lo, o que
representa os ideais do mito do amor romântico, como indicado em estudos já
desenvolvidos. (Heilborn, 1992; Saldanha, 2003)
Frente a estas decorrências situacionais, Borges (2004) adverte que o equívoco
quanto às diferenças entre os sexos, se deu, precisamente, quando foram naturalizadas, ao
invés de serem analisadas dentro de um marco cultural delimitado por significados do ser
homem e de ser mulher, considerando as hierarquias e relações de poder existentes em
cada época, espaço e grupo social.
Apesar disso, os papéis sociais de gênero antes vistos como indiscutíveis perante
os ideais de romanticismo, passaram, nas últimas quatro décadas, a serem questionados,
discutidos e de fato modificados. De acordo com Vaitsman (2001), não se pode negar que
na contemporaneidade esses papéis vêm tecendo uma nova dimensão, principalmente com
a consolidação da liberdade sexual e no alcance em que as mulheres conquistam novos
espaços em termos de cidadania e direitos, desafiando a dicotomia público/privado.
Muito embora algumas consideráveis mudanças, ainda há de se levar em conta o
29 violência material e simbólica, relacionada ao comportamento sexual feminino e
masculino no domínio familiar e social, pelos déficits na capacidade de tomar decisões e
colocá-las em prática e pela pouca liberdade em manifestar ou contestar queixas. Por
conseguinte, o que tem resultado no impacto desproporcional às mulheres, visto que
mesmo em meio a vários ganhos relevantes em termos do feminismo e da conquista de
direitos políticos adicionais e civis, dificulta, ainda assim, o seu empoderamento,
colocando em jogo a valorização mulheril. (Heilborn, 1999; Saldanha, 2003; Matos,
2000; Neves, 2007; Moura, 2011).
Diante desses pressupostos, um dos pontos de exploração deste estudo é entender
como se dá, nos dias atuais, as diferenças e o desempenho dos papéis de gênero frente às
crenças e práticas concernentes na vivência da sexualidade de jovens em relacionamentos
amorosos estáveis. Assim, busca-se uma investigação sobre a ocorrência de transposição
na condição de constância dos laços amorosos, isto é, analisar se foram dissolvidas as
tradicionais distinções de funções entre os parceiros, descentralizadas do ideal de
subjetividade feminino.
Portanto, ao se analisar a vulnerabilidade ao HIV/AIDS em relacionamentos
amorosos estáveis, se faz necessário analisar as relações estabelecidas enquanto cenário
particular de estratégias de poder de gênero, pois nessa vertente ela se esboça como um
acordo, frente às múltiplas formas contratuais de relações entre homens e mulheres.
1.3. MODELO TEÓRICO DE CRENÇAS
A relevância que as questões de gênero e poder assumem para as práticas, na
discussão aqui proposta, é de caráter incontestável. Apreende-se que tais questões não
30 significativas e influentes em seu processo de formação. De tal modo, é a maneira como os
indivíduos compreendem essas circunstâncias que servem de orientação para a vivência de
suas práticas e dão margem a possíveis interpretações na formação de seus aspectos
subjetivos, como as crenças. Assim, compreende-se que para se refletir acerca das práxis
ou mesmo das suas necessidades de mudança, deve-se levar em conta os aspectos
subjetivos que circundam os indivíduos. Desta forma, é cabível entender que ao mesmo
tempo em que o indivíduo possui determinadas crenças, ele é também, de certo modo,
tomado por elas, isto é, passa a pensar, enxergar e agir no mundo através delas. Neste
aspecto, a crença é ao mesmo tempo uma forma de orientação das condutas, bem como de
limitação. (Pátaro, 2007; Freire & Saldanha, 2010).
Múltiplos teóricos sociais já se dedicaram ao objeto de estudo das crenças. No
entanto, para o presente estudo serão usadas as contribuições de três teóricos: Rokeach
(1981), Bem (1973) e Bar-Tal (2000).
Uma falha comum praticada por pesquisadores sociais é não estabelecer uma
diferença entre os conceitos de crença, conhecimento ou fé, conforme aponta Krüger
(2004). Para ele, o conhecimento estaria relacionado ao grau de confiança de uma
determinada informação que esteja sendo analisada, cuja constatação estaria vinculada à
existência de provas concretas que existem fora do indivíduo. A fé é entendida por Krüger
(2004) como proposições que são aceitas pelos indivíduos independentemente de provas
empíricas ou racionais, bastando apenas sua adesão pessoal para que seja apreciada como
coerente. No que se refere à crença, esta é caracterizada por uma proposição mais
subjetiva mantendo-se atrelada tanto a aspectos cognitivos quanto emocionais dos
31
Dessa forma, as crenças são então definidas como “um conjunto de conteúdos
mentais de natureza simbólica, cuja influência na cognição é manifestada na percepção e
interpretação que o percebedor faz de sua experiência social” (Krüger, 2004, p.59).
Rockeach (1981) condiz com esta idéia quando afirma que as crenças não podem ser
observadas diretamente, mas podem ser entendidas da melhor forma possível através dos
pensamentos e comportamentos.
Em sua teoria Rockeach (1981) considera ainda que as crenças “são inferências feitas por um observador sobre estados de expectativas básicos. Sendo, entretanto, difícil
de conhecer devido à subjetividade que permeia o ‘crente’” (p.1). Este teórico enfatiza
que um sistema de crenças representa o universo total de crenças de uma pessoa sobre um
mundo físico, o mundo social e o eu. E num sistema de crenças, o papel da crença
encontra-se relacionado à importância que a mesma desempenha na determinação do
comportamento de um indivíduo, pois algumas variam ao longo de uma dimensão
nomeada de periférica-central, isto é, constituem uma estrutura hierárquica, em que quanto
mais central for uma crença, maior será sua resistência à substituição ou mudança. E
ainda, quanto mais central for a crença que mudou, tanto mais difundidas as repercussões
no restante do sistema de crenças.
Para um melhor entendimento dessa premissa, Rockeach (1981) afirmou existirem
cinco tipos de crenças: tipo A – Crenças primitivas (consenso 100%); tipo B – Crenças primitivas (consenso zero); tipo C – Crenças de autoridade; tipo D – Crenças derivadas e tipo E – Crenças inconseqüentes.
1) Tipo A - Crenças Primitivas (consenso 100%): referem-se ao núcleo central no
sistema de crenças, sendo apreendidas no encontro direto do indivíduo com o objeto da
32
São aquelas relacionadas às “verdades básicas” sobre a realidade física, social e de natureza e identidade humana, como por exemplo, “quem eu sou” ou “qual o meu nome”.
Por seu caráter de unanimidade são, na maioria das vezes, tomadas como certas e,
portanto, representam um subsistema dentro do sistema total no qual a pessoa tem os mais
fortes comprometimentos, logo menos suscetíveis às mudanças.
2) Tipo B - Crenças Primitivas (consenso zero): caracterizadas igualmente as
anteriores aqui referidas, distinguindo-se apenas pelo fato de sua manutenção não
depender do compartilhamento e consenso com outros indivíduos ou grupos. Estas
também envolvem a existência e a auto-identidade. Deste modo, mesmo levantando
contestações, essas crenças também são mais difíceis de serem modificadas. Um exemplo
que ilustra essa tipologia é quando um jovem traz uma crença arraigada na sua
auto-identidade construída na relação afetiva, ou na realidade romantizada consolidada
sócio-historicamente. E essa crença, porventura, para se manter, não necessita do
compartilhamento com o parceiro ou com outros indivíduos, depende apenas da
sustentação do próprio indivíduo.
3) Tipo C – Crenças de Autoridade: Rockeach (1981) afirma que são relativas às
pessoas ou grupos de referência considerados como uma autoridade, independente de ser
positiva ou negativa. Tais crenças são controvérsias, isto é, uma vez que indivíduos tidos
como autoridade para algumas pessoas, não o são assim considerados para outras, logo, as
autoridades podem diferir de um indivíduo para outro. Um grupo de referência que
exemplifica esta crença é o Ministério da Saúde. Ao divulgar os dados epidemiológicos
sobre o HIV/AIDS atualizados anualmente, o grupo desvela em algumas pessoas, estados
de alerta devido os altos índices em públicos da população, a exemplo do último boletim
33 homens (HSH) com idade de 13 a 24 anos como as populações em maior risco atualmente.
(Brasil, 2011). Este dado pode ser encarado por alguns como “autoritário”, todavia por
outros não, transparecendo o caráter opositor da crença.
4) Tipo D – Crenças derivadas: são aquelas que a partir da confiabilidade na
autoridade são incorporadas pelos indivíduos. Logo, são estabelecidas mais com base no
processo de identificação com a autoridade, do que no contato direto com o objeto a que se
refere. No entanto, assim como nas crenças do Tipo C, são sujeitas a controvérsias. Ainda
dentro do exemplo trazido no Tipo C, se o indivíduo se identifica com o modelo de
autoridade (Ministério da Saúde) e passa a encarar o resultado divulgado no boletim
epidemiológico como confiável, e concorda, por efeito, com às práticas preventivas, ele
estará versando às crenças derivadas. Outro exemplo significativo remete aos profissionais
de saúde. Uma vez que as pessoas tenham confiança na capacidade profissional desses
atuantes, elas podem, em decorrência, incorporar crenças advindas deles. Deste modo,
ressalta-se a importância para os profissionais de saúde, dentre eles os psicólogos,
conhecerem as demandas ocorridas dos pacientes, tendo em mente a relevância do seu
posicionamento coerente e preciso frente a essas, principalmente na influência nos
mecanismos de enfrentamento às motivações de práticas de vulnerabilidade ao HIV.
Portanto, releva-se ainda a importância da capacitação desses profissionais estar sempre
em renovação.
5) Tipo E – Crenças Inconsequentes: que aludem a questões de gosto, mais
facultativas e menos arbitrárias. São assim nomeadas porque não mantêm nenhuma
ligação com outras crenças. Assim como os tipos A e B, são crenças que não admitem
controvérsias, pois se originam diretamente da experiência com o objeto da crença, e cuja
34 Em vista disso, de acordo com essa argumentação tipológica, Rockeach (1981)
declarou que as crenças mais centrais são as do Tipo A e B, enquanto as que ocupam uma
posição mais periférica estão representadas pelos Tipos C, D e E.
A partir da perspectiva teórica de Bem (1973), as crenças são desenvolvidas frente
à relação que os indivíduos estabelecem entre dois objetos e/ou pessoas. Assim, a partir do
momento em que um homem percebe alguma relação desse tipo, diz-se que ele tem uma
crença. Considera ainda que, as crenças humanas estão baseadas em quatro funções:
pensar, sentir, comportar-se e interagir, e por meio da aglomeração de suas crenças, os
indivíduos oferecem condições de esclarecer e explicar aspectos pautados a si e ao mundo
em volta.
Há algumas similaridades entre a teoria de Bem (1973) e a de Rokeach (1981). A
principal delas é que Bem (1973) também traz as crenças divididas em dois tipos: (1)
crenças primitivas e (2) crenças de ordem superior.
As crenças primitivas estão entre as primeiras que as crianças aprendem quando
interagem com o seu meio e, no sentido psicológico, elas estão constantemente sendo
validadas pela experiência direta com o objeto. Estão relacionadas à própria experiência
sensorial do individuo e/ou à credibilidade em alguma autoridade externa, a exemplo da
fé, que na validade da experiência sensorial é a mais importante de todas as crenças
primitivas.
Bem (1973) declara que as crenças primitivas podem ser: de ordem zero, de
primeira ordem e baseadas na autoridade externa. As crenças primitivas de ordem zero
estão vinculadas à fidelidade dos nossos sentidos e, frequentemente, são validadas pela
experiência. Isso significa que, em geral, o indivíduo não tem conhecimento de qualquer
35 exemplo, um indivíduo acredita que um objeto mantém o mesmo tamanho e forma quando
dele se afasta, muito embora suas imagens visuais mudem.
As crenças primitivas de primeira ordem são aquelas que o individuo é cônscio da
mesma, isto é, ele tem consciência que pode rapidamente imaginar alternativas para elas.
Todavia, assim como as de ordem zero, essas crenças não exigem confirmação formal ou
empírica independente, e apenas requerem uma citação breve da experiência direta. Se
uma pessoa questionar outra, por exemplo, se existem maçãs quadradas, a pessoa
responderá com base na sua experiência direta que não existem, todavia ela nunca teve
uma confirmação formal ou empírica para tal.
E por fim, as crenças primitivas baseadas na autoridade externa, que se
caracterizam na afirmação de Bem (1973): “não somente experienciamos nosso mundo, também ouvimos falar dele.” (p.16). É através destas crenças que os adolescentes que estão iniciando sua vida sexual, por exemplo, processam mentalmente, pela primeira vez,
informações intangíveis como acerca da necessidade de se fazer uso do preservativo nas
relações sexuais para evitar DST’s e gravidez indesejada, na medida em que a escola ou os pais (autoridades externas) alerta-os desta alternativa. Tal exemplo é resultado do estudo
de Saldanha et al. (2009).
Vale ressaltar que estes três tipos de crenças primitivas se complementam num
processo onde as crenças de primeira ordem, baseadas nas crenças de ordem zero da
credibilidade numa autoridade externa, não são fundamentalmente diferentes das crenças
de primeira ordem baseadas numa crença incontestável na exatidão dos nossos sentidos.
(Bem, 1973)
O segundo tipo de crenças trazidas por Bem (1973), as de ordem superior, são
36 estruturação vertical, baseada num raciocínio silogístico, isto é, argumento formado de três
proposições: a maior, a menor (premissas) e a conclusão deduzida da maior, por
intermédio da menor. Um exemplo que ilustra esta crença é terem-se as duas premissas:
(1) O Ministério da Saúde adverte que práticas sexuais desprotegidas podem causar
HIV/AIDS; (2) O Ministério da Saúde é digno de confiança. O que vai resultar na
conclusão: (3) Portanto, práticas sexuais desprotegidas causam HIV/AIDS. Logo, há a
introdução de premissas conscientes entre o que é dito por uma autoridade e a crença
particular. O seu caráter silogístico lhe dá respaldo diferenciado das crenças primitivas,
pois estas últimas não são elaboradas, ou completamente indiferenciadas, ao se levar em
consideração a ausência desta linha de raciocínio verticalizada.
Dando complementaridade a essa idéia, Le Bon (2002) certifica que dificilmente
em matéria de opiniões e crenças, os indivíduos possuem algo que seja realmente inerente
a eles. Para este autor, os indivíduos possuem apenas crenças e opiniões coletivas
adquiridas e compartilhadas com os grupos sociais a que pertencem. A adoção de crenças
e ações de determinado jovem em relacionamento amoroso, por exemplo, seria, portanto,
um fator crucial para a identificação da crença adquirida e compartilhada na pertença
ligada a sua respectiva díade afetiva. Se o jovem se identifica com a prática sexual
desprotegida devido o seu tempo do relacionamento e consequentemente a maior
confiança no parceiro(a) e identifica-se que esta crença é compartilhada na díade amorosa
com seu par, logo, não é inerente apenas à ele, mas sim, adquirida com base no sentido de
pertença interacional.
Continuamente, outro teórico de contribuições significantes no contexto da
essência das crenças individuais e compartilhadas é o psicólogo social Bar-Tal (2000). Ele
37 alcance ilimitado. São unidades básicas de categorias de conhecimento, tais como
ideologia, valores, normas, decisões, hipóteses, inferências, metas, expectativas, dogmas
religiosos ou justificativas, expressas através de vários produtos humanos, como livros,
revistas, filmes, pinturas, etc., e encontram-se armazenadas na mente dos indivíduos.
(Bar-Tal, 2000).
Em seu estudo, Bar-Tal (2000) certifica que qualquer teoria sobre crenças deve
levar em consideração o contexto social no qual elas são formadas. Assim, atentando-se às
interações socioculturais e ao grau de significância que cada indivíduo atribui aos objetos
com os quais se relaciona/inter-relaciona, é possível inferir que são inúmeras as crenças
que um indivíduo pode ter. Contudo, é o conteúdo da crença que poderá assegurar ao
objeto de crença o status de verdadeiro ou falso, bom ou ruim, correto ou incorreto.
Segundo a perspectiva de Bar-Tal (2000) há dois tipos de crenças: pessoais ou
individuais e as crenças comuns ou compartilhadas (grupais e/ou societais). A primeira
delas pertence às crenças formadas pelo indivíduo e que são exclusivamente armazenadas
em sua mente, compondo um repertório privado. O segundo tipo, as crenças
compartilhadas, são comuns no sentido de comunalidade, coletividade e podem ser
compartilhadas por alguns indivíduos, um pequeno grupo de membros de uma sociedade,
ou mesmo pela maioria dos seres humanos. São usualmente adquiridas por fontes
externas, exceto no caso em que os indivíduos formam uma crença pessoal e,
conseqüentemente, comunicam e disseminam a outras pessoas.
Portanto, as crenças individuais não são completamente independentes da
natureza social, podendo se tornar uma crença compartilhada assim que são assimiladas,
adotadas e comunicadas com outras pessoas através, por exemplo, da comunicação