UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO MESTRADO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
ÍTALO JOSÉ BASTOS GUIMARÃES
ACESSIBILIDADE EM WEBSITES DE COMÉRCIO ELETRÔNICO: AVALIAÇÃO
ATRAVÉS DA INTERAÇÃO COM USUÁRIOS CEGOS.
ÍTALO JOSÉ BASTOS GUIMARÃES
ACESSIBILIDADE EM WEBSITES DE COMÉRCIO ELETRÔNICO: avaliação através
da interação com usuários cegos.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (PPGCI/UFPB), como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação.
Orientador: Prof. Dr. Marckson R. Ferreira de Sousa.
Linha de pesquisa: Memória, Organização, Acesso e Uso da Informação.
G963a Guimarães, Ítalo José Bastos.
Acessibilidade em websites de comércio eletrônico: avaliação através da interação com usuários cegos / Ítalo José Bastos Guimarães.- João Pessoa, 2016.
172f. : il.
Orientador: Marckson R. Ferreira de Sousa Dissertação (Mestrado) - UFPB/CCSA
1. Ciência da informação. 2. Acessibilidade na web. 3. Comércio eletrônico. 4. Usuários cegos. 5. Teste de acessibilidade.
ÍTALO JOSÉ BASTOS GUIMARÃES
ACESSIBILIDADE EM WEBSITES DE COMÉRCIO ELETRÔNICO: avaliação através
da interação com usuários cegos.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (PPGCI/UFPB), como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação.
Orientador: Prof. Dr. Marckson R. Ferreira de Sousa.
Aprovada em: 21 de março de 2016.
AGRADECIMENTOS
Todos nós temos uma trajetória de vida e uma história para contar, o importante é reconhecer e valorizar as pessoas que compartilharam seu tempo e se dedicaram de maneiras diferentes para me ajudar a chegar até aqui. O sentimento de gratidão representa para mim o mesmo que fazer justiça com aqueles que, sem nenhum interesse, contribuíram efetivamente para meu sucesso. Como diria Isaac Newton: “se cheguei até aqui foi porque me apoiei no ombro de gigantes”. Pode ser um clichê, no entanto, ilustra o momento em que escrevo meus agradecimentos.
Inicialmente, agradeço ao Deus soberano e único digno de toda gratidão, por me proporcionar o dom gratuito da vida, pela força e determinação que são características da minha personalidade. Pela saúde e paz que foram determinantes para conclusão desta etapa. Sem Teu apoio incondicional e Tua graça sobre minha vida, eu não teria força suficiente para concluir esta etapa. Sem Ti, nada seria possível. Obrigado Senhor!
Aos meus pais também expresso minha imensa gratidão. Palavras não seriam suficientes para descrever o quanto sou grato por todo carinho e amor dedicados a mim durante estes 24 anos de vida. Sou grato à Deus pela minha família, pois, é a base da minha sustentação. Mãe, só em pensar no que representas, já caem lágrimas dos meus olhos. Um dia espero te proporcionar em dobro tudo que fizestes por mim. Pai, obrigado pelo esforço, dedicação e suporte a nossa família, agradeço a educação recebida. Meu irmão, te agradeço por acompanhar minha trajetória no mestrado, pelo apoio dado, obrigado. A minha noiva, Andrezza Estanislau, sinto-me orgulhoso de nossa trajetória, minha felicidade representa a sua alegria. Obrigado pela sua cumplicidade.
Agradeço ao NEDESP, na pessoa da professora Drª Adriana de Andrade Gaião e Barbosa, coordenadora do Núcleo de Educação Especial da UFPB, pela disponibilidade dos computadores e infraestrutura necessária para realização da pesquisa. Aos usuários cegos que colaboraram com à pesquisa, por questões éticas não citarei nomes, mas, dedico a todos meus sinceros agradecimentos. Aprendi muito com vocês!
À banca avaliadora, nas pessoas da professora Drª. Adriana Bogliolo Sirihal Duarte, Universidade Federal de Minas Gerais; professor Dr. Guilherme Ataíde Dias, Universidade Federal da Paraíba; professor Dr. José Washington de Morais Medeiros, Universidade Estadual da Paraíba e professor Dr. Edvaldo Carvalho Alves, Universidade Federal da Paraíba. Expresso minha imensa gratidão por fazerem parte deste importante momento de minha trajetória acadêmica.
A todos os meus colegas do mestrado que compartilharam conhecimento e contribuíram para minha formação profissional, muito obrigado. Em particular a Zayr Cláudio, Emilson Ferreira, Hanna Pachu e os doutorandos Emy Porto, Thais Catoira e Geysa Flávia.
RESUMO
Apresenta uma abordagem acerca da acessibilidade em websites de comércio eletrônico, cujo objetivo é delinear sua estrutura através da interação com usuários cegos nos websites mais acessados no Brasil, das empresas Americanas, Netshoes e Walmart. Dentre os aspectos metodológicos, foi adotado o levantamento bibliográfico com a realização de uma pesquisa exploratória e descritiva através de uma abordagem quali-quantitativa. A aplicação da pesquisa foi dividida em duas etapas: (1) avaliação automática de acessibilidade nos websites que fazem parte da pesquisa e (2) teste de acessibilidade com cinco usuários cegos dividido em três tarefas, a saber: navegação de reconhecimento, pesquisa de um produto no website e realização dos procedimentos de compra. Em relação aos aspectos relacionados à compreensão da deficiência visual, foi definido o conceito da cegueira e explanados aspectos peculiares referentes a sua classificação e causas, além de apresentar as principais legislações vigentes no país e o uso de tecnologias como processo de inclusão social. A acessibilidade como suporte aos usuários cegos na web é abordada com a finalidade de aprofundamento da temática, bem como principais iniciativas desenvolvidas por instituições internacionais e nacionais. Apresenta, ainda, aspectos relacionados ao comércio eletrônico no Brasil, em que se discorre sobre seus conceitos e caracterização, descreve o panorama do mercado eletrônico no Brasil e elenca os principais websites, considerando o número de acessos. Os relatórios do teste automático de acessibilidade apontaram que os websites analisados não passaram na bateria de testes com o nível mínimo recomendado pelo WCAG 2.0. Além disso, os resultados com o teste de usuários demonstraram que os websites apresentam barreiras de acessibilidade que dificultaram a navegação de usuários cegos nas páginas analisadas, impossibilitando, pelo menos um usuário, de concluir os procedimentos de compra. Conclui-se, portanto, que são necessárias alterações na estrutura das páginas testadas com o objetivo de corrigir as barreiras relatadas no presente estudo. Deste modo, as empresas envolvidas no estudo devem compreender as diferenças entre a navegação dos usuários cegos e os videntes, com a finalidade de proporcionar ambientes informacionais digitais inclusivos e acessíveis.
ABSTRACT
This study presents an approach about the accessibility in e-commerce, whose research objective is to outline its structure through interaction with blind users in most accessed websites in Brazil, like Americanas.com, Neshoes.com.br and Walmart.com.br. Among the methodological aspects, was adopted the review literature with the realization of an exploratory and descriptive research through one qualitative and quantitative approach. The deployment of this research was divided into two stages: (1) automatic accessibility evaluation on websites that are part of the search and (2) accessibility test with five blind users divided into three tasks, namely: recognition navigation, search a product on the website and realize the purchasing procedures. For aspects related to the understanding of visual impairment, the concept of blindness was defined and explained specific aspects related to its classification and causes, as well as presenting the main legislation in force in the country and the use of technologies such as social inclusion. The accessibility as support for blind users on the web is approached with the purpose of deepening the theme, as well as major initiatives undertaken by international and national institutions. It also presents aspects related to e-commerce in Brazil, in which it discusses its concepts and characterization, describes the overview of the electronic market in Brazil and lists the main websites, considering the number of access. The automatic accessibility test reports showed that the websites analyzed did not pass by the test battery with a minimum level recommended by WCAG 2.0. In addition, the results with the user test showed that the websites have accessibility barriers that hindered navigation blind users in the analyzed pages, making it impossible, at least one user, to complete the purchase procedures. Therefore, are needed changes in the structure of pages tested with the objective of correcting the barriers reported in this study. Thus, companies involved in the study should understand the differences between the navigation of the blind users and sighted users, in order to provide inclusive and accessible digital information environments.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Dados gerais sobre a deficiência no Brasil ...17
Figura 2 - Tipos de deficiência: percentual de pessoas deficientes no Brasil...18
Figura 3 - Ranking dos websites de comércio eletrônico mais acessados no Brasil ...28
Figura 4 - Infraestrutura para realização do teste de acessibilidade...32
Figura 5 - Logomarca – Virtual Vision ...41
Figura 6 - Interface do Dosvox ...42
Figura 7 - Interface do JAWS ...43
Figura 8 - Logomarca do NVDA ...43
Figura 9 - Logomarca do ORCA ...44
Figura 10 - Princípios do WCAG 2.0 ...53
Figura 11 - Página inicial do DaSilva – Validador automático de acessibilidade na web...56
Figura 12 - Página inicial do AccessMonitor Validador automático de acessibilidade na web ...57
Figura 13 - Página inicial do TAW – Validador automático de acessibilidade na web ...58
Figura 14 - Página inicial do Examinator – Validador automático de acessibilidade na web ...59
Figura 15 - Análise da página inicial da Americanas em forma de sumário copilado ...72
Figura 16 - Análise da página inicial do Netshoesem forma de sumário copilado ...75
Figura 17 - Análise da página inicial do Walmart em forma de sumário copilado...78
Figura 18 - Página inicial da empresa Americanas ...92
Figura 19 - Página inicial da empresa Netshoes ... 106
Figura 20 - Continuação da página inicial da empresa Netshoes ... 108
Figura 21 - Página inicial da empresa Walmart ... 120
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Evolução do volume de vendas no comércio eletrônico no Brasil em 2014...64
Gráfico 2 - Ticket médio das compras realizadas por usuários brasileiros na internet em 2014...64
Gráfico 3 - Número de pedidos realizados por usuários do comércio eletrônico em 2014 ...65
Gráfico 4 - Evolução do número de consumidores no comércio eletrônico de 2011 até 2014 ...65
Gráfico 5 - As 10 categorias de produtos mais vendidos pela internet no Brasil em 2014 ...66
Gráfico 6 - Avaliação dos usuários sobre a navegação de reconhecimento no website da empresa Americanas ...94
Gráfico 7 - Avaliação dos usuários sobre a pesquisa de um produto no website da empresa Americanas ...98
Gráfico 8 - Avaliação dos usuários sobre os procedimentos de compra no website da empresa Americanas ... 101
Gráfico 9 - Avaliação dos usuários sobre a navegação de reconhecimento no website da empresa Netshoes ... 109
Gráfico 10 - Avaliação dos usuários sobre a pesquisa de um produto no website da empresa Netshoes ... 112
Gráfico 11 - Avaliação dos usuários nos procedimentos de compra no website da empresa Netshoes ... 114
Gráfico 12 - Avaliação dos usuários sobre a navegação de reconhecimento no website da empresa Walmart ... 124
Gráfico 13 - Avaliação dos usuários sobre a pesquisa de um produto no website da empresa Walmart ... 128
Gráfico 14 - Avaliação dos usuários sobre os procedimentos de compra no website da empresa Walmart ... 131
Gráfico 15 - Análise comparativa da tarefa 1 – Navegação de reconhecimento ... 137
Gráfico 16 - Análise comparativa da tarefa 2 – Pesquisando um produto no website ... 138
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Grau de severidade da deficiência visual no Brasil ...18
Quadro 2 - Distribuição por sexo e faixa etária da deficiência visual no Brasil...19
Quadro 3 - Atividades realizadas no teste de acessibilidade ...34
Quadro 4 - Classificação de comprometimento visual, segundo a OMS ...36
Quadro 5 - Aspectos relacionados à acessibilidade na web ...49
Quadro 6 - Dez websites de comércio eletrônico mais acessados do Brasil em 2015 ...67
Quadro 7 - Indicadores de validação automática de acessibilidade na web ...71
Quadro 8 - Recomendações para Americanas baseadas nos relatórios dos validadores automáticos de acessibilidade na web ...73
Quadro 9 - Recomendações para Netshoes baseadas nos relatórios dos validadores automáticos de acessibilidade na web ...76
Quadro 10 - Recomendações para o Walmart baseadas nos relatórios dos validadores automáticos de acessibilidade na web ...79
Quadro 11 - Perfil inicial dos participantes da pesquisa ...82
Quadro 12 - Frequência e aprendizagemdo Braille pelos participantes da pesquisa ...83
Quadro 13 - Experiência dos usuários cegos com uso da internet...83
Quadro 14 - Frequência, tempo de uso e atividades realizadas na internet pelos usuários cegos ...84
Quadro 15 - Software leitor de tela mais utilizado pelos usuários cegos participantes da pesquisa ...85
Quadro 16 - Nível de experiência dos usuários cegos com leitores de tela ...86
Quadro 17 - Nível de experiência dos usuários cegos em websites de comércio eletrônico no Brasil ...87
Quadro 18– Resumo das plataformas utilizadas no teste de acessibilidade na web ...90
Quadro 19 - Tempo de duração do teste de acessibilidade na web e data de aplicação da pesquisa ...91
Quadro 20 - Principais barreiras encontradas pelos usuários cegos durante o teste de acessibilidade no website da empresa Americanas ... 103
Quadro 21 - Recomendações para o website da empresa Americanas com base no teste de acessibilidade na web ... 104
Quadro 22 - Principais barreiras encontradas pelos usuários cegos durante o teste de acessibilidade no website da empresa Netshoes ... 116
Quadro 23 - Recomendações para o website da empresa Netshoes com base no teste de acessibilidade na web ... 118
Quadro 24 - Principais barreiras encontradas pelos usuários cegos durante o teste de acessibilidade no website da empresa Walmart ... 133
Quadro 25 - Recomendações para o website da empresa Walmart com base no teste de acessibilidade na web ... 135
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
B2B Business-to-business
B2C Business-to-consumer
C2B Consumer-to-business
C2C Consumer-to-consumer
CDPD Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
CE Comércio Eletrônico
CEP Comitê de Ética e Pesquisa
CGI.br Comitê Gestor de Internet no Brasil
CI Ciência da Informação
CORDE Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência
CTIC Centro Tecnológico Especializado em Tecnologias de Internet
DV Deficiência Visual
e-MAG Modelo de Acessibilidade do Governo Eletrônico
IBC Instituto Benjamin Constant
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
JAWS Job access with speech
NCE Núcleo de Computação Eletrônica
NEDESP Núcleo de Educação Especial da UFPB
NVDA NonVisual desktop access
OMS Organização Mundial de Saúde
ONG Organizações não Governamentais
ONU Organizações das Nações Unidas
TA Tecnologia Assistiva
TAW Test accessibilidad web
TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
TIC Tecnologia de Informação e Comunicação
UFPB Universidade Federal da Paraíba
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
W3C World wide web consortium
WAI World acessibility iniciative of W3C
SUMÁRIO
1 AMPLIANDO OS HORIZONTES DO CONHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE CEGUEIRA
NO BRASIL E ACESSIBILIDADE NA WEB ... 16
1.1 Caracterização do problema de pesquisa ... 20
1.2 Objetivos ... 22
1.3 Justificativa ... 22
1.4 Organização da dissertação ... 24
2 PERCURSO METODOLÓGICO: PROCEDIMENTOS E TÉCNICAS... 26
2.1 Aspectos gerais da pesquisa... 26
2.2 Definição do universo e seleção da amostra ... 29
2.3 Apresentação do local e infraestrutura ... 31
2.4 Caracterização dos instrumentos de coleta de dados ... 33
3 COMPREENDENDO A CEGUEIRA ... 35
3.1 Panorama sobre a cegueira: conceito, classificação e causas ... 35
3.2 Legislação brasileira: direitos dos deficientes nos ambientes informacionais digitais... 37
3.3 O uso de tecnologias no processo de inclusão social ... 40
4 ACESSIBILIDADE COMO SUPORTE AOS CEGOS NA WEB ... 45
4.1 O campo da ciência da informação e sua relação com a acessibilidade na web ... 46
4.2 Acessibilidade na web ... 48
4.3 Web acessível para todos e iniciativas de acessibilidade ... 50
4.4 Webcontent accessibility guidelines ... 52
4.5 Validadores automáticos de acessibilidade na web ... 55
5 COMÉRCIO ELETRÔNICO NO BRASIL ... 60
5.1 Comércio eletrônico: conceitos e características ... 60
5.2 Panorama sobre o comércio eletrônico no brasil ... 63
5.3 Principais websites de comércio eletrônico no brasil ... 67
6.1 Validação automática de acessibilidade na web ... 70
6.1.1 Website 1: americanas... 71
6.1.2 website 2: netshoes ... 74
6.1.3 website 3: walmart ... 77
6.1.4 Considerações preliminares com base nos relatórios emitidos pelos validadores automáticos de acessibilidade na web ... 81
6.2 O perfil dos participantes da pesquisa ... 81
6.2.1 Experiência e familiaridade dos usuários com a internet ... 83
6.2.2 Experiência e familiaridade dos usuários com leitores de tela ... 85
6.2.3 Experiência e familiaridade dos usuários com websites de comércio eletrônico ... 87
6.3 Teste de acessibilidade na web ... 88
6.3.1 O pré-teste, informações iniciais e apresentação da infraestrutura do teste de acessibilidade na web... 88
6.3.2 Website 1: americanas ... 91
6.3.3 Website 2: netshoes ... 106
6.3.4 Website 3: walmart ... 119
6.4 Análise comparativa entre os websites pesquisados ... 137
6.5 Aproximando os dados coletados: um panorama sobre os resultados do teste automático versus teste com usuários ... 140
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 145
REFERÊNCIAS ... 150
APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO... 159
APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO – PERFIL DO USUÁRIO ... 161
APÊNDICE C – QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO DE ACESSIBILIDADE (TESTE DE ACESSIBILIDADE) ... 164
1 AMPLIANDO OS HORIZONTES DO CONHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE
CEGUEIRA NO BRASIL E ACESSIBILIDADE NA WEB
A deficiência é um tema dos direitos humanos de relevância mundial discutido internacionalmente através de tratados, convenções, eventos e legislações específicas. Na teoria, a finalidade é promover a igualdade de oportunidades entre pessoas com deficiência ou sem deficiência. Na prática, especificamente no Brasil, a realidade está distante daquilo que se considera ideal. Proporcionar aos deficientes meios, alternativas e oportunidades que impulsionem a sua capacidade com o objetivo de concorrer igualitariamente com pessoas não deficientes deve ser a principal meta estabelecida pelas instituições responsáveis como Governo Federal, instituições públicas e privadas, organizações não governamentais e a sociedade em geral.
O artigo 9º da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 2006, elencada por Resende e Queiroz (2008, p.45) destaca a acessibilidade “como ferramenta para que as pessoas com a deficiência atinjam a sua autonomia em todos os aspectos da vida”.A Legislação Brasileira sobre Pessoas com Deficiência Visual (Brasil, 2009) aprovou o texto da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência dentre eles o referente à acessibilidade em ambientes físicos e digitais. De acordo com o decreto nº 186 (Brasil, 2008, online)é dever do estado brasileiro criar medidas que possibilitem o “[...] acesso à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação [...]”, identificar e eliminar obstáculos e barreiras à acessibilidade em ambientes informacionais onde há comunicações e outros serviços, inclusive serviços eletrônicos e serviços de emergência, além de “promover o acesso de pessoas com deficiência a novos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, inclusive à internet.”
O direito assistido aos deficientes através da legislação vigente no Brasil pode ser considerado um avanço significativo nas últimas décadas. O aumento da população com deficiência física ou mental, a maior discussão sobre o tema com a sociedade e a preocupação das instituições responsáveis podem estar relacionados com as melhorias recentes atribuídas aos deficientes no país.
Figura 1- Dados gerais sobre a deficiência no Brasil
Fonte: Adaptado da cartilha do CENSO 2010 – pessoas com deficiência (BRASIL, 2012, p. 6)
A figura 2 apresenta uma distribuição percentual sobre a proporção de pessoas deficientes no Brasil. Cerca de 23,9% da população brasileira apresenta pelo menos uma das deficiências. A deficiência visual destaca-se com o maior índice obtido – 18,60% da população, mais de 35 milhões de pessoas sofrem algum problema na visão. As demais deficiências somadas resultam em 13,50%.
A avaliação do IBGE levou em consideração o uso de objetos facilitadores como óculos, lentes de contato, aparelhos de audição, bengalas e próteses o que obviamente elevou o número para o patamar dos 23,9% da população brasileira portadora de alguma deficiência física ou mental. As categorias analisadas foram: (i) tem alguma dificuldade em realizar, (ii) tem grande dificuldade, e; (iii) não consegue realizar de modo algum.
Sem deficiência 76,10% Possui algum
tipo de deficiência
23,9%
Figura 2 - Tipos de deficiência: percentual de pessoas deficientes no Brasil
Fonte: Cartilha do CENSO 2010 – pessoas com deficiência (BRASIL, 2012, p. 6)
Em relação ao grau de severidade da deficiência visual, de acordo com o levantamento do CENSO 2010, 3,46% da população brasileira sofre com a deficiência visual severa enquadradas nas respostas como “sim, grande dificuldade” ou “sim, não consegue enxergar de modo algum”. Isso representa cerca de 1,5 milhão de cidadãos brasileiros com grande dificuldade de enxergar. Outros 1,6% da população declararam-se totalmente cegas, aproximadamente 730 mil pessoas, conforme ilustra o quadro 1, foco da pesquisa atual.
Quadro 1 - Grau de severidade da deficiência visual no Brasil
Porcentagem Nº de pessoas
Deficiência Visual Severa 3,46% 1.577.969
Deficiência Visual Total (Cegos) 1,6% 729.696
Total 5,06% 2.307.665
Fonte: Adaptado da Cartilha do CENSO 2010 – pessoas com deficiência (BRASIL, 2012, p. 6)
Para compreender qual o momento real que o Brasil está vivenciando no que diz respeito à deficiência visual é necessário observar a prevalência entre os gêneros e a faixa etária. O quadro 2, apresenta a distribuição percentual entre sexo e idade.
Quadro 2 - Distribuição por sexo e faixa etária da deficiência visual no Brasil
Homens Mulheres
0 a 14 anos 4,8% 5,9%
15 a 64 anos 17,1% 23,1%
65 anos ou mais 47,3% 51,7%
Fonte: Adaptado da Cartilha do CENSO 2010 – pessoas com deficiência (BRASIL, 2012, p. 7)
Em todas as faixas etárias, de acordo com o quadro 2, as mulheres apresentaram o maior índice de deficiência visual no Brasil, superando a população masculina. Os homens se aproximaram das mulheres nas idades entre 0 e 14 anos. O levantamento realizado pelo CENSO (2010) demonstrou uma diferença de aproximadamente 5% entre as faixas etárias de 15 a 64 anos e 65 anos ou mais. Destaca-se com a maior incidência as pessoas mais idosas como portadoras de alguma deficiência visual, fator que pode estar ligado às doenças que afetam os idosos e geram problemas de visão.
De uma forma geral, os resultados demonstram que há uma parcela considerável da população brasileira com alguma deficiência visual e aproximadamente 730 mil pessoas totalmente cegas. De certo modo, por representarem 1,6% dos cidadãos brasileiros, sofrem com a falta de oportunidades e com o preconceito. Para sanar esses problemas é necessário que haja um maior comprometimento de todas as partes envolvidas ao respeitar os direitos humanos das pessoas com deficiência. De acordo com Lazzarin (2014) é preciso oferecer formas de acesso, uso e disseminação da informação de um esforço conjunto entre a união e a sociedade civil, refletindo sobre conceitos, ideias e informações que propunham ações concretas revelando as potencialidades dos deficientes visuais no mundo físico ou virtual.
universal que possa ser acessada por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo (ALEXANDER, 2003). Nesta ótica, observa-se a importância da realização de pesquisas focadas nas necessidades dos usuários com a finalidade de contribuir no processo de melhoria das páginas na web.
1.1Caracterização do problema de pesquisa
A inserção dos usuários cegos no ambiente digital é fundamental para promover a igualdade de oportunidades na sociedade. A forma como são desenvolvidas as páginas na web facilita ou limita a interação dos cegos com o conteúdo informacional disponível de forma digital. Para promover a inserção é necessária uma atuação em conjunto das partes envolvidas, pois há três componentes que precisam atuar em conjunto, a saber: (1) o usuário – necessita ter o domínio sobre os comandos do teclado do computador que atuam como “atalhos” e são fundamentais para o uso de tecnologias disponíveis para cegos; (2) recursos tecnológicos – como software leitores de tela e sintetizadores de voz compatíveis com os sistemas operacionais; e (3) desenvolvedores de conteúdo na web – são responsáveis pelo desenvolvimento de páginas de acordo com os padrões internacionais de acessibilidade na web (LAZZARIN, 2014).
A web está cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, devido tanto à diversidade de informações que comporta quanto à adesão mundial a seus diversos produtos e serviços. Os usuários estão cada vez mais participativos no processo de interação, fato que não acontecia no início de sua existência em 1991. Assim, a web deixou de servir como um repositório de documentos digitais e se transformou em uma plataforma mundial de comunicação, intercâmbio de conhecimentos, realização de negócios entre outras atividades que surgem e evoluem constantemente (W3C, 2013).
Auchariyabut e Limpiyakorn (2014) afirmam que os websites são frequentemente desenvolvidos com barreiras que dificultam ou impossibilitam seu uso por pessoas com deficiência. Trazendo para a realidade do comércio eletrônico, os fatores representam a incapacidade de realizar compras, buscar informações sobre os produtos e obter preços mais atrativos no mercado online.
De acordo com a Cartilha do CENSO 2010 – pessoas com deficiência (BRASIL, 2012) detalhada na introdução do presente estudo, são mais de 35 milhões de usuários com deficiência em enxergar, pois dependem do uso de óculos ou lentes e em casos mais graves chegam a perda parcial ou total da visão. Os dados revelam que aproximadamente 1,5 milhão de pessoas possuem grande dificuldade de enxergar e 730 mil são totalmente cegas. Esta parcela da população com deficiência está se adequando às novas tecnologias oferecidas que proporcionam o acesso às informações nos ambientes digitais. Os dados apresentam um número potencial de clientes que aos poucos estão se inserindo na web, com as mesmas necessidades convencionais de um indivíduo e com dificuldades físicas de se relacionar com as empresas presencialmente.
A ausência de iniciativas de acessibilidade na web prejudica as relações de negócios com potenciais consumidores que possuem uma deficiência visual. Cousin (2010) afirma que os usuários deficientes têm dificuldade em acessar os serviços de modo presencial devido as incapacidades físicas e devem ser capazes de fazer pleno uso de novos serviços online para tornar a vida integrada digital e socialmente. Desta forma, as empresas que atuam na web devem adequar suas páginascom a finalidade de atender a demanda dos usuários com deficiência física e atraí-los para a realização de compras no comércio eletrônico.
As discussões sobre o tema acessibilidade na web estão cada vez mais presentes entre governos, ONG, associações e profissionais de diversas áreas. Pesquisadores e instituições desenvolvem estudos sobre as carências dos usuários deficientes e elaboram recomendações sobre como podem ser sanadas, entretanto ainda há muito o que se explorar nesta área, principalmente estudos relacionados ao campo da Ciência da Informação (FERREIRA; CIANCONI, 2011).
online) é “conduzir a World Wide Web para que atinja todo seu potencial, desenvolvendo protocolos e diretrizes que garantam seu crescimento de longo prazo”. Por outro lado, existe a iniciativa nacional denominada Acessibilidade Brasil que é uma sociedade constituída por diversos especialistas nas áreas ligadas à web visando o apoio a ações e projetos que privilegiam a inclusão social e econômica de pessoas com deficiência (ACESSIBILIDADE BRASIL, 2014).
A demanda crescente de atividades de comércio eletrônico no Brasil, o número relevante de usuários com deficiência visual no país e iniciativas de políticas e práticas de acessibilidade na web são fatores que levantaram o seguinte questionamento: Qual a estrutura de acessibilidade oferecida aos usuários cegos em websites de comércio eletrônico no Brasil?
1.2Objetivos
O objetivo geral da pesquisa é delinear a estrutura de acessibilidade dos websites mais acessados em comércio eletrônico no Brasil através da interação com usuários cegos.
Para alcançar o objetivo geral, são elencados os seguintes objetivos específicos:
a) identificar barreiras de acesso à informação por parte das pessoas cegas aos websites de comércio eletrônico;
b) propor recomendações de melhorias na acessibilidade dos websites pesquisados; c) investigar como os cegos interagem durante o processo de navegação de
reconhecimento, pesquisa por um produto e realização dos procedimentos de compra nos websites analisados;
d) aproximar os resultados do teste automático de acessibilidade na web com os resultados obtidos através da interação dos cegos por meio do teste de usuários.
1.3Justificativa
O atual momento da Ciência da Informação é o tempo do conhecimento interativo iniciada a partir da internet, onde as tecnologias de informação e comunicação (TIC) transformaram as condições fundamentais na sociedade através da velocidade em que ocorrem as trocas de informações na web e o desenvolvimento de um espaço interativo em comunidades (BARRETO, 2002).
A interatividade, o acesso à informação e a velocidade característica de troca de dados representam a dinâmica da web que alcançou um patamar histórico, tornando-se parte do cotidiano das pessoas que a utilizam para atividades profissionais ou pessoais. Os atuais investimentos do governo federal em proporcionar internet gratuita em locais públicos e a participação do setor privado no desenvolvimento de equipamentos com preço de venda mais acessível à população de baixa renda promove o aumento do alcance da internet no Brasil.
Em 2013, o número de internautas alcançou a marca de 105,1 milhões de pessoas no Brasil, tornando o país o quinto colocado no ranking mundial de países mais conectados. Esse dado representa aproximadamente 50% da população brasileira com acesso à internet. De maneira geral, o Brasil desponta cada vez mais entre os países do mundo com a maior taxa de crescimento em relação ao número de internautas e o volume de compras em websites de comércio eletrônico (UOL, 2013).
De acordo com dados do E-bit (2014) o faturamento do comércio eletrônico no Brasil em 2011 foi de 18,7 bilhões de reais para 35 bilhões de reais em 2014, um crescimento de aproximadamente 85% em apenas 3 anos. Além do volume de compras, o número de pessoas que passaram a comprar na internet aumentou 97% de 2011 para 2014, saindo da marca de 32 milhões de pessoas para 63 milhões de usuários únicos. Em relação ao perfil dos usuários, cerca de 38 % têm a renda familiar entre R$ 1.000,00 e R$ 3.000,00 representando a maior faixa dos usuários ativos no comércio eletrônico.
comércio eletrônico ou que pretendem atuar, devem oferecer estrutura mínima para navegação dos usuários com deficiência física.
A relevância do estudo está pautada nos benefícios futuros que os resultados da pesquisa proporcionarão para a ampliação dos horizontes intelectuais na Ciência da Informação através do conhecimento específico das necessidades dos usuários cegos no processo de busca por informações e aquisição de um produto na internet, além da aproximação entre áreas de estudo que se integram: a CI e Administração.
A decisão de pesquisar sobre acessibilidade no comércio eletrônico foi tomada com base no crescimento expressivo no mercado nacional e na variedade de produtos que são oferecidos para o consumidor na internet. É necessário realizar um diagnóstico sobre a maneira como as empresas de e-commerce interagem com esse público e oferecem formas de acesso às informações básicas para o processo de compra. A escolha de trabalhar com usuários cegos foi definida por ser uma deficiência que atinge aproximadamente 730 mil pessoas no Brasil e pela afinidade do pesquisador com esses usuários, além da importância social de pesquisar sobre a deficiência com a finalidade de trazer benefícios futuros.
1.4Organização da dissertação
A dissertação é estruturada inicialmente por este capítulo introdutório abordando as primeiras informações sobre a deficiência visual, dados relacionados ao número de deficientes no Brasil, além da associação com a acessibilidade na web. Como parte da introdução, caracterizou-se o problema de pesquisa a partir do número relevante de usuários cegos no país, aumento de iniciativas de acessibilidade na web e o aumento gradativo do volume de vendas no comércio eletrônico no Brasil. Foram apresentados os objetivos: geral e específicos, além da justificativa do trabalho pautada na explicação da escolha do tema, estudo sobre comércio eletrônico e definição dos usuários da pesquisa.
O capítulo 2 apresenta o percurso metodológico, como os aspectos gerais da pesquisa envolvendo tipo e abordagem adotada para o estudo, caracterização do universo e amostra da pesquisa, explicação acerca do local e infraestrutura adotada para o estudo e, por fim, como se estruturou os instrumentos de coleta de dados.
interação dos usuários com as informações contidas na web e a contribuição da Ciência da Informação para o desenvolvimento de pesquisa e inovação para usuários cegos.
O capítulo 4 destina-se a exploração teórica da acessibilidade na web como um suporte para pessoas com cegueira. Apresenta a relação entre o campo da Ciência da Informação e a acessibilidade na web, os principais órgãos que tem a responsabilidade de desenvolver a web para alcançar a possibilidade de tornar as informações disponíveis a qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e discorre sobre os validadores automáticos de acessibilidade que são plataformas construídas para descrever os erros contidos em páginas web que dificultam ou impossibilitam a navegação pelos usuários cegos.
O capítulo 5 destaca o comércio eletrônico através da sua definição e características, realiza um panorama sobre o mercado em território nacional e lista os principais websites de comércio eletrônico atuantes no Brasil.
O capítulo 6 destina-se a apresentação dos resultados obtidos na pesquisa por meio dos dois métodos adotados: avaliação automática de acessibilidade na web e a realização do teste de interação com usuários cegos.
2 PERCURSO METODOLÓGICO: PROCEDIMENTOS E TÉCNICAS
A metodologia tem um papel fundamental para a realização de qualquer pesquisa científica, pois através dos procedimentos e técnicas adotadas pode-se alcançar os objetivos propostos. Para compreender os aspectos relacionados à metodologia, características da pesquisa e seus métodos, é necessário, anteriormente, estabelecer critérios de cientificidade. Demo (2000) estabelece (1) objeto de estudo bem definido e de natureza empírica; (2) objetivação; (3) discutibilidade; (4) observação controlada dos fenômenos; (5) originalidade; (6) coerência; (7) sistematicidade; (8) consistência; (9) linguagem precisa; (10) autoridade por mérito; (11) relevância social; (12) ética; e (13) intersubjetividade como critérios que comprovam a cientificidade de uma pesquisa.
Busca-se, neste estudo, cumprir os critérios definidos por Demo (2000) com a finalidade de contribuir para o avanço da ciência no tocante à acessibilidade para usuários cegos. Para o norteamento do trabalho, a seguir, apresenta-se a caracterização dos aspectos da pesquisa, universo e seleção da amostra, local e infraestrutura e a caracterização do instrumento de coleta de dados.
2.1Aspectos gerais da pesquisa
Adotou-se a pesquisa exploratória como tipo de pesquisa a ser conduzida. A decisão foi tomada baseada em dois fatores, (1) na premissa de que o tema foi pouco aprofundado em estudos anteriores; e (2) com a finalidade de contribuir para o avanço científico da Ciência da Informação através da realização da interação dos usuários cegos. Sampieri, Collado e Lúcio (2006, p. 99) defendem que a pesquisa exploratória deve ser adotada quando “o objetivo é examinar um tema ou problema de pesquisa pouco estudado, do qual se tem muitas dúvidas ou não foi abordado antes”.
Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o problema de pesquisa, optou-se por também utilizar do tipo de pesquisa descritiva. Gil (2008, p. 28) afirma que “pesquisas deste tipo tem objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou estabelecimento de relações entre variáveis”. Deste modo, adotou-se a associação entre dois tipos de pesquisa para a realização do estudo: a exploratória e descritiva.
(2002) afirma que um trabalho científico deve iniciar-se com uma pesquisa bibliográfica com o objetivo de auxiliar o pesquisador no aprofundamento do tema que adotou para a realização do estudo.
O levantamento inicial de fontes bibliográficas ocorreu através de periódicos e livros relacionados as áreas de estudo como Ciência da Informação, Ciência da Computação e Administração com a finalidade de analisar os estudos realizados nas diferentes áreas e extrair o conhecimento necessário para a construção do referencial teórico da dissertação. Sendo assim, buscou-se a compreensão dos principais conceitos relacionados, bem como as diferentes formas de aplicação da acessibilidade na web que permitiu fazer uma aproximação da inclusão dos usuários cegos aos websites de comércio eletrônico.
Trabalhar com pessoas cegas em um ambiente digital informacional consiste em um desafio para o pesquisador e participantes da pesquisa. A partir do pressuposto que a temática acessibilidade na web necessita de avanços no campo científico, adotou-se o teste de acessibilidade como estratégia de pesquisa. O teste de acessibilidade consiste em realizar uma análise do comportamento de um grupo de usuários que navegam por meio de tarefas pré-estabelecidas pelo pesquisador com a finalidade de diagnosticar na prática eventuais erros e falhas em um sistema informacional digital. No caso específico da pesquisa, os usuários cegos interagiram com websites de comércio eletrônico e realizaram três tarefas específicas, a saber: navegação de reconhecimento, busca por um determinado produto, e realização dos procedimentos de compra.
Figura 3 - Ranking dos websites de comércio eletrônico mais acessados no Brasil
Fonte: eMarketer (2013, online)
De acordo com a pesquisa apresentada pelo eMaketer.com, o Mercado Livre obteve 14,3 milhões de visitantes únicos até o período pesquisado e o website da Americanas.com alcançou a marca de 8,1 milhões de acessos de usuários no Brasil. A Walmart obteve 5,7 milhões, seguida da Netshoes com 5,3 milhões. As demais empresas apresentadas no ranking alcançaram a marca inferior a 5,2 milhões de usuários. Excluiu-se da presente pesquisa a empresa líder de acessos, Mercado livre, pois sua estratégia de atuação é baseada na mediação entre consumidores. Também levou-se em consideração os dados apresentados pela revista Exame em 2015, apontando as empresas Netshoes, Americanas e Walmart como os três websites de comércio eletrônico mais acessados por brasileiros em 2015.
comportaram os usuários cegos durante a pesquisa foi possível detectar significados ou motivos inerentes ao grupo investigado. A pesquisa qualitativa, conforme comentam Neves e Domingues (2007) requer uma maior aproximação do pesquisador junto ao grupo pesquisado, pois através da participação do pesquisador no processo de observação, será permitido um melhor detalhamento das questões levantadas e do grupo pesquisado.
A pesquisa quantitativa foi adotada através da mensuração dos índices de acessibilidade nos websites participantes da pesquisa por meio dos validadores automáticos de acessibilidade e por meio dos resultados numéricos mensurados no teste com usuários. Fonseca (2002, p. 20) afirma que a pesquisa quantitativa:
[...] se centra na objetividade. Influenciada pelo positivismo, considera que a realidade só pode ser compreendida com base na análise de dados brutos, recolhidos com o auxílio de instrumentos padronizados e neutros. A pesquisa quantitativa recorre à linguagem matemática para descrever as causas de um fenômeno, as relações entre variáveis, etc. A utilização conjunta da pesquisa qualitativa e quantitativa permite recolher mais informações do que se poderia conseguir isoladamente.
Através dos relatórios emitidos pelos validadores automáticos de acessibilidade foi possível diagnosticar itens que precisam passar por um processo de melhoria. Quantificar e comparar os websites através das técnicas da abordagem quantitativa é fundamental para a realização da pesquisa. Entretanto, buscou-se a utilização complementar entre as duas abordagens: quantitativa e qualitativa, para alcançar os objetivos estabelecidos.
2.2Definição do universo e seleção da amostra
investigação da pesquisa. Deste modo, a amostra é um subgrupo da população. Relacionado ao presente estudo, a população constitui-se de 16 alunosregularmente atendidos no NEDESP e a amostra de cinco estudantes cegos.
Adotou-se a estratégia de amostra não probabilística através da amostra intencional, que, como definem Kauark, Manhães e Medeiros (2010) são casos escolhidos para representar o “bom julgamento” da população ou universo. A definição da amostra de cinco usuários foi baseada nos pensamentos de Nielsen e Landauer (1993) e Krug (2008) para quem, através de estudos de usabilidade em usuários nos ambientes digitais informacionais, é possível identificar 31% dos problemas por meio de apenas um usuário. Cinco usuários conseguiriam, em média, encontrar 85% dos problemas. Durante a realização do teste com usuários, constatou-se que a amostra adotada foi suficiente para coletar os dados e alcançar os objetivos da pesquisa. Com o objetivo de promover a realização da pesquisa com os usuários cegos, foram necessárias a realização de atividades prévias que garantiram a ética e a imparcialidade, como a submissão do projeto ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da UFPB e a realização do pré-teste.
a) Comitê de Ética e Pesquisa: Após a qualificação, o projeto de dissertação de mestrado foi submetido ao CEP para avaliação de acordo com a Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde. Este procedimento é necessário a partir do momento que decide-se realizar pesquisas que envolvam seres humanos. Alguns requisitos básicos são necessários, como o Termo de Consentimento Livre Esclarecido – TCLE (APÊNDICE A) e a possibilidade de tradução para o Braille, caso haja a solicitação do praticante da pesquisa. Por se tratar de uma pesquisa que adotou o teste de acessibilidade em websites de comércio eletrônico, foi necessária a caracterização dos participantes antes da realização da avaliação dos websites, portanto, o questionário (APÊNDICE B) pôde ser respondido pelos usuários de três formas: (1) em formulário online através do auxílio do software leitor de tela; (2) impresso através do Braille; e (3) com o suporte do pesquisador que realizou as perguntas contidas no questionário oralmente e anotou as respostas dadas. A escolha foi feita por cada participante da pesquisa, sem influência do pesquisador. Para a realização do Teste de Acessibilidade (APÊNDICE C) os participantes assinaram o TCLE que esclarece toda a pesquisa.
realizado um pré-teste com um usuário participante da pesquisa. O principal objetivo do pré-teste é a identificação de falhas nos instrumentos de coleta de dados. Segundo Lakatos e Marconi (2003, p. 203), o pré-teste “evidenciará possíveis falhas existentes: inconsistência ou complexidade das questões; ambiguidade ou linguagem inacessível; perguntas supérfluas ou que causam embaraço ao informante”. Salienta-se, entretanto, que o usuário P1 foi escolhido para participar do pré-teste, e conforme as observações contidas, foi incluído na coleta e análise dos dados.
O pesquisador solicitou ao órgão competente da UFPB, o Comitê de Inclusão e Acessibilidade, uma lista com os dados cadastrais dos estudantes com deficiência visual regulamente matriculados, entretanto, não houve apoio da instituição. Para realização da pesquisa foi necessário o primeiro contato com a coordenadora do NEDESP que autorizou o uso da infraestrutura do núcleo para realização do teste com usuários. A partir disto, o pesquisador entrou em contato aleatoriamente com os possíveis participantes da pesquisa, por meio de uma lista fornecida pelo Núcleo de Educação Especial. A técnica utilizada foi Snowball Sampling, conhecida como “bola de neve”, que baseia-se na indicação, ou seja, ao final de cada teste, o pesquisador pedia sugestões de pessoas que pudessem contribuir com a pesquisa. Desta forma, os participantes indicavam seus amigos e pessoas que se encaixariam no perfil da pesquisa. Ressalta-se, também, a busca pela diversificação do perfil dos participantes da pesquisa no tocante ao nível de habilidades e experiência na web, gênero e familiarização com os leitores de tela.
2.3Apresentação do local e infraestrutura
notebooks, os demais usaram o computador do NEDESP. A figura 4 ilustra como foi estruturado o ambiente onde ocorreu o teste com usuários.
Figura 4 - Infraestrutura para realização do teste de acessibilidade
Fonte: Elaborado pelo autor (2015)
A adoção dos materiais definidos e da infraestrutura disponibilizada é fundamental para o alcance dos objetivos definidos da pesquisa. Através do gravador de áudio, câmera de vídeo, anotações em bloco de notas foi possível se aproximar da realidade proposta no problema de pesquisa. Além disso, os usuários, a qualquer momento realizaram comentários à medida em que julgaram necessário, com isso, forneceu-se dados qualitativos ao investigador durante a coleta de dados.
2.4Caracterização dos instrumentos de coleta de dados
Para a realização da pesquisa, foram adotados três instrumentos de coleta de dados. (a) avaliação automática de acessibilidade na web que visa analisar os websites por meio dos relatórios emitidos por validadores automáticos de acessibilidade; (b) questionário com perguntas inerentes ao perfil dos participantes da pesquisa, bem como perguntas relacionadas ao software leitor de tela que mais utiliza e o nível de experiência em relação a navegação na web; (c) teste de acessibilidade na web com a finalidade de conhecer e caracterizar a acessibilidade dos websites de comércio eletrônico participantes da pesquisa. Para melhor compreensão, apresenta-se a divisão dos três instrumentos didaticamente em:
a) Validação automática de acessibilidade na web: Ocorreu por meio dos validadores automáticos AccessMonitor (2013) e TAW (2014). A escolha de ambos foi determinada por eles serem considerados pelo pesquisador como sistemas completos de avaliação, fornecendo informações complementares. Ambos validadores realizam uma análise completa de páginas na web com base nas recomendações do WCAG. 2.0. A avaliação foi realizada através do método de inspeção pois não envolveu a participação direta dos usuários, apenas do sistema desenvolvido que analisa o código-fonte da página web e detecta possíveis erros e avisos sobre algum item que pode gerar dificuldade de interpretação dos leitores de tela. Os relatórios emitidos por cada validador foram essenciais para a análise quantitativa dos resultados;
b) Questionário: Forneceu ao pesquisador as informações necessárias sobre o perfil dos usuários, experiência com a web e software leitor de tela. A aplicação do questionário pôde ser realizada de forma virtual ou física. De forma virtual através do auxílio do Microsoft Word que é um dos programasde edição de textos mais acessível às pessoas cegas e de forma física através do questionário em Braille ou com o suporte do pesquisador. Todos optaram pela sua aplicação via comunicação oral, o pesquisador fez as perguntas e cada um respondeu verbalmente. O questionário é composto por 15 perguntas fechadas, mistas e abertas (APÊNDICE B). A sua aplicação só foi iniciada a leitura verbalizada pelo pesquisados aos participantes que assinaram juntamente com uma testemunha o TCLE;
a navegação nos websites participantes da pesquisa. As atividades foram (1) realizar navegação de reconhecimento através da primeira impressão sobre a página, (2) buscar por um produto com a finalidade de conhecer as informações necessárias para o processo de decisão de compra, (3) realizar procedimentos de compra do produto. Ao final da realização do teste, cada usuário participante respondeu ao questionário de avaliação (APÊNDICE C) sobre sua experiência de interação com os websites pesquisados, com a finalidade de identificar a percepção em relação às três atividades realizadas. O quadro 3 apresenta o resumo das atividades que foram analisadas durante a aplicação do teste de acessibilidade.
Quadro 3 - Atividades realizadas no teste de acessibilidade Cronograma de Atividades (Teste de acessibilidade) 1. Realizar Navegação
de reconhecimento
Os usuários foram instruídos a navegar na página inicial e comentar sobre as principais barreiras informacionais encontradas.
2. Pesquisar um produto no website
Foi dada a liberdade de escolha de um produto que seria pesquisado a partir do desejo de cada usuário com a finalidade de detectar se os participantes conseguem identificar as principais características dos produtos e as informações essenciais no processo de compra, como especificações técnicas, garantia, frete e preço.
3. Realizar
procedimentos de compra
Através desta atividade foi possível determinar em média o tempo de navegação, eventuais erros e dificuldades, bem como até que ponto, cada usuário, conseguiu chegar.
Fonte: Elaborado pelo autor (2015)
3 COMPREENDENDO A CEGUEIRA
“[...] Se todos os seres humanos percebessem o outro, a acessibilidade estaria apenas nas atitudes [...]”
Marco Antônio de Queiroz – MAQ (W3C, 2013, p. 5) Os estereótipos criados pela humanidade e os pré-conceitos são as principais causas de divisão na sociedade. Por vezes, fecham-se os olhos para compreender as pessoas que fazem parte de certos grupos sociais, como negros, índios e deficientes. Ferreira (2005) afirma que o caminho mais fácil para as pessoas que sofrem descriminação é “fechar os olhos”, ou seja, desistir de si mesmo e não encarar os diversos problemas. Assim, não são poucos que encaram a cegueira como uma condição limitadora, causadora de medo. Contudo, as potencialidades dos cegos precisam ser exploradas e incentivadas com a finalidade de possibilitar sua integração com a sociedade.
Busca-se apresentar os aspectos gerais relacionados à deficiência visual e aprofundar o conhecimento sobre caracterização, classificação, causas, legislações vigentes no Brasil, principais programas utilizados no processo de inclusão social, instituições que apoiam os cegos e a contribuição da Ciência da Informação na expansão de estudos científicos no acesso e uso da informação.
3.1Panorama sobre a cegueira: conceito, classificação e causas
Para Sonza et al (2013, p. 77) o termo deficiência visual “[...] pode ser atribuído a uma situação irreversível de diminuição da resposta visual, em virtude de causas congênitas ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico e/ou cirúrgico e uso de óculos convencionais”. O conceito dos autores refere-se, em linhas gerais, às dificuldades definitivas de enxergar impostas pelo organismo e, mesmo após tratamento médico, não surte efeitos para a cura.
Cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60º; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores.
Em linhas gerais, como declara o Ministério da Saúde através da portaria nº 3.128/GM/MS (Brasil, 2008, online) no parágrafo primeiro do artigo 1º “considera-se pessoa com deficiência visual aquela que apresenta baixa visão ou cegueira”. Gil (2000) apresenta os graus de visões que vão desde a cegueira total, até a visão perfeita. Para a autora, o termo “deficiênciavisual” faz referência às pessoas que possuem a perda total da visão ou têm a visão subnormal que é definida por Gil (2000, p. 6) como “alteração da capacidade funcional decorrente de fatores como rebaixamento significativo da acuidade visual, redução importante do campo visual e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades”. Brito e Veitzman (2000) apresentam um quadro-resumo da classificação adotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ilustrado pelo quadro 4:
Quadro 4 - Classificação de comprometimento visual, segundo a OMS
Fonte: Brito e Veitzman (2000, p. 50)
realizarem muitas atividades por dificuldade de visão; e, por fim, (4) a cegueira é classificada com o nível de acuidade visual menor que 0,05 ou campo visual menor que 10 graus. Com base na classificação apresentada, o presente trabalho visa abordar apenas pessoas com a acuidade visual menor que 0,05, consideradas cegas. Sousa, Bosa e Hugo (2005, p. 356) definem a acuidade como “[..] a capacidade de descriminação de formas, avaliada através da apresentação de linhas, símbolos ou letras progressivamente menores”. Apesar de as pessoas possuírem o nível mínimo de acuidade, percebem apenas “vultos” ou minimamente a iluminação. Deste modo, portanto, Lazzarin (2014, p. 72) afirma que essas pessoas “[...] podem ser consideradas cegas mesmo que sejam capazes de ter alguma percepção luminosa”.
Na literatura, de acordo com Batista e Enumo (2000) há diferentes classificações sobre deficiência visual (DV) que consideram a acuidade visual, campo visual, visão de cores e outros aspectos relacionados. Além disso, os autores expõem que as deficiências visuais podem ser (a) congênitas caracterizadas por pacientes que já nascem com a DV ou a adquirem até os cinco anos de idade, ou (b) adquiridas – que são causadas através de doenças ou acidentes após cinco anos de vida.
As principais causas cegueira ou graus da deficiência visual estão relacionadas à perda de visão decorrente de ferimentos, traumatismos, perfurações e vazamentos nos olhos. Crianças podem nascer com a deficiência se, no período da gestação, a mãe contrair doenças como rubéola, toxoplasmose e sífilis, além de infecções. Quando adultos, os pacientes desenvolvem a deficiência visual a partir de doenças como glaucoma, diabetes, toxoplasmose, descolamento de retina, catarata congênita, retinopatia da prematuridade, baixa oxigenação do cérebro (hipóxia) entre outras (PORTAL DA OFTAMOLOGIA, 2009).
Os impactos causados sobre o desenvolvimento de pessoas com cegueira, congênita ou adquirida, são inúmeros e variam de pessoa para pessoa. Normalmente, irá depender de como ocorre, do grau da deficiência, da relação com familiares, amigos e colegas e da intervenção de profissionais de saúde (GIL, 2000). A importância do apoio da sociedade civil e do governo são fundamentais para minimizar as dificuldades enfrentadas pelos deficientes visuais e contribuir para a inclusão social.
3.2Legislação brasileira: direitos dos deficientes nos ambientes informacionais digitais
relacioná-la aos ambientes digitais informacionais, especificamente no acesso e uso da informação na internet.
As ações governamentais brasileiras de políticas de integração e inserção social dos deficientes são baseadas na Lei nº 7.853 de 23 de outubro de 1989 (BRASIL, 1989) que regulamenta aspectos importantes ao apoio às pessoas com deficiência, sua integração social e define o papel da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE) e no Decreto nº 3.298 de 20 de dezembro de 1999 que consolida as normas de proteção relacionadas a Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (BRASIL, 1989; BRASIL, 1999).
O artigo 55 do Decreto nº 3.298/99 descreve aspectos relacionados ao levantamento de informações sobre os deficientes e a relevância da realização de pesquisas que beneficiem estes cidadãos. Assim, determinao Decreto nº 3.298 (Brasil, 1999, online):
Capítulo X
Do Sistema Integrado de Informações
Art. 55. Fica instituído, no âmbito da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, o Sistema Nacional de Informações sobre Deficiência, sob a responsabilidade da CORDE, com a finalidade de criar e manter bases de dados, reunir e difundir informação sobre a situação das pessoas portadoras de deficiência e fomentar a pesquisa e o estudo de todos os aspectos que afetem a vida dessas pessoas.
A partir dos anos 2000, com o início da popularização das tecnologias de informação e comunicação (TICs), foi sancionada a Lei nº 10.0 98/00 que trata sobre aspectos relacionados à responsabilidade do Poder Público em atuar na eliminação das eventuais barreiras de comunicação e informação. O artigo 17 da Lei nº 10.0 98 (Brasil,2000, online) esclarece:
Art. 17. O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer.
garantam a acessibilidade nos ambientes informacionais digitais. No que diz respeito aos websites do poder público, foi sancionado o Decreto Nº 5.296 (Brasil, 2004, online) que retrata sobre:
CAPÍTULO VI
DO ACESSO À INFORMAÇÃO E À COMUNICAÇÃO
Art. 47. No prazo de até doze meses a contar da data de publicação deste Decreto, será obrigatória a acessibilidade nos portais e sítios eletrônicos da administração pública na rede mundial de computadores (internet), para o uso das pessoas portadoras de deficiência visual, garantindo-lhes o pleno acesso às informações disponíveis.
Em dezembro de 2006, foi realizada a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência adotada pela ONU. Dois anos após o evento, o Congresso Nacional aprovou o texto da Convenção e de seu protocolo facultativo em 2008 – Decreto Legislativo nº 186, considerado um marco para a garantia dos direitos e equidades sociais para os deficientes. O propósito da Convenção, de acordo com a Legislação Brasileira de Portadores de deficiência (BRASIL, 2009, online) foi “promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente”.
O texto aprovado pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) aprovou 50 artigos relacionados aos temas mais preocupantes e que apresentam maiores dificuldades aos deficientes, como educação, saúde, recreação, lazer, esporte, trabalho, emprego, habitação, tratados de cooperações internacionais, entre outros. Em relação à acessibilidade, o artigo 9 da CDPD (Brasil,2009, online) destaca:
[...] os Estados-Partes tomarão as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de uso público, tanto na zona urbana como na rural. Essas medidas, que incluirão a identificação e a eliminação de obstáculos e barreiras à acessibilidade, serão aplicadas, entre outros, a:
a. Edifícios, rodovias, meios de transporte e outras instalações internas e externas, inclusive escolas, residências, instalações médicas e local de trabalho;
Para Cousin (2010) os direitos estabelecidos por lei são estendidos a população independentemente se possuem ou não alguma deficiência, pois contribuem para a evolução da internet e promoção de igualdade de oportunidades. Desta forma, recomenda-se ao poder legislativo a elaboração de projetos de lei e decretos que regulamentem padrões internacionais de acessibilidade. O propósito seria promover o acesso aos websites brasileiros com a finalidade de eliminar as barreiras informacionais que impossibilitam a interação dos usuários cegos.
3.3O uso de tecnologias no processo de inclusão social
A tecnologia, ao longo dos tempos, atua como suporte no processo de facilitação e interação entre os indivíduos contribuindo para adaptação, autonomia e evolução dos diversos sentidos humanos. Seu uso como suporte aos deficientes recebe a denominação de Tecnologia Assistiva (TA). Cada vez mais elas influenciam as relações humanas, inclusive remodelando seu espaço e tempo. As Tecnologias Assistivas permitem aos deficientes o alcance da autonomia e independência na realização de suas atividades rotineiras (SONZA; SALTON; STRAPAZZON, 2014).
Galvão Filho (2009) afirma que o uso do termo Tecnologia Assistiva é uma expressão recente na literatura que se refere a um conceito ainda em pleno processo de construção. Corroborando com o autor Bersch (2013) afirma que ao pesquisar sobre a TA deve-se associar aos termos mais comuns utilizados, por exemplo, na legislação brasileira como “ajudas técnicas” ou “tecnologia de apoio”.
Bersch (2013, p. 2) define a TA “[...] como um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária ou possibilitará a realização da função desejada e que se encontra impedida por circunstância de deficiência ou pelo envelhecimento”. Sonza (2008, p. 44) afirma que a TA “refere-se ao conjunto de artefatos disponibilizados às pessoas com necessidades especiais, que contribuem para prover-lhes uma vida mais independente, com mais qualidade de vida e possibilidades de inclusão social”. Para Galvão Filho (2009) uma tecnologia assistiva pode ser qualquer recurso que é desenvolvido para dar o suporte necessário aos deficientes, desde o uso de uma bengala para locomoção até o uso de software mais avançados tecnologicamente.
Tecnologias Assistivas. São incluídos os dispositivos de entrada, como mouses e de saída – sons, imagens e informações táteis. São exemplos de dispositivos de saída os leitores de tela ou leitores de texto impresso, impressoras em braile, entre outros (BERSCH, 2013).
As tecnologias disponíveis permitem aos cegos a navegação no computador, utilização de software para digitação de texto, leitura de livros ou textos em formato PDF, acesso e navegação na internet para atividades rotineiras como pesquisas na web e utilização do e-mail. No caso da deficiência visual ou cegueira, os leitores de tela disponíveis oferecem o suporte necessário para a realização das atividades citadas. Sonza (2008, p. 58) define os leitores de tela como” [...] programas que interagem com o sistema operacional e capturam informações existentes na tela do computador transformando-as em áudio para os deficientes visuais”. “Virtual Vision e Jaws são os leitores de tela mais utilizados no Brasil” afirma Sonza (2008, p. 58). Entretanto, apresenta-se, a seguir, os principais programas computacionais disponíveis no mercado que contribuem para a inclusão social dos deficientes visuais às plataformas digitais, como computadores e internet.
a) Virtual Vision: é um leitor de tela que permite ao deficiente visual utilizar com autonomia o Windows, Office e o Internet Explorer e outras aplicações através da leitura dos conteúdos disponibilizados nas telas dos computadores e notebooks através de um sintetizador de voz. O software permite o acesso ao conteúdo presente na internet através da leitura de páginas inteiras, leitura sincronizada, navegação, entre outros (MICROPOWER, 2014). A figura 5 apresenta a logomarca do software.
Fonte:http://www.virtualvision.com.br/. Acesso em: 12 jan. 2015.
O software foi desenvolvido pela empresa MicroPower em 1997 e em 1998 foi lançada a primeira versão. A empresa atua em parceria com o Banco Bradesco que disponibiliza gratuitamente o programa para seus correntistas. Para deficientes visuais não correntistas tem-se a opção de testes de 30 dias. Interage apenas com o sistema operacional Windows (nas versões 95, 98, NT, 2000, XP, Vista, Windows 7, 8 e 8.1).