Corpo Nacional de Escutas
MÍSTICA E
SIMBOLOGIA
Mística e Simbologia
do Corpo Nacional de Escutas
Ficha Técnica:
Título: Mística e Simbologia do Corpo Nacional de Escutas Autor: Secretaria Nacional Pedagógica - Corpo Nacional de Escutas Paginação: Gonçalo Vieira
Impressão: Depósito Legal: ISBN: 978-972-740-191-8 Edição:
Corpo Nacional de Escutas Escutismo Católico Português Ano: 2014
Introdução
O Escutismo proposto no Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português assenta num rico e vasto património transmitido desde a fundação. Esse património foi, desde sempre, com-plementado e enriquecido com o melhor contributo daqueles que ao longo dos anos se entre-garam especificamente ao desenvolvimento e condução do CNE. Houve, certamente, períodos de maior esclarecimento e decisão, tal como outros terá havido de menor lucidez nas propostas efetuadas. Uma coisa afigura-se como clara: o movimento soube sempre, de uma forma ou de outra, manter a sua pertinência na educação de crianças e jovens segundo o método escutista. A matriz essencial que deu corpo à proposta escutista do CNE, o elemento que lhe permitiu sub-sistir e que, inclusive, lhe deu notoriedade, deriva da sua condição católica. É Escutismo, sim; é português, sim; mas é essencialmente Escutismo Católico.
Por ser Escutismo Católico, a sua proposta é informada por uma visão cristã do Escutismo, assente sobre uma mais concreta base católica. Não se trata de nada de extraordinário, pois o Escutismo nasceu sobre uma sólida base espiritual e religiosa. Extraordinária será qualquer proposta escu-tista que ignore essa dimensão ou que a remeta meramente a um dever de reflexão sobre a Lei e os Princípios do Escutismo, repetido fastidiosamente. De facto, partir do pressuposto de que a base sobre a qual se desenvolve o Escutismo é religiosa católica, faz toda a diferença e define uma forma única de propor o Escutismo.
Para além de outros aspetos que podem ser referidos, nomeadamente as questões orgânicas e institucionais – onde a vertente eclesial do CNE está patente de forma inequívoca –, o que marca verdadeiramente o “tom” do Escutismo Católico Português é aquilo a que se chama “Mística”, mais até do que a “Simbologia”.
Por esse motivo, na mais recente revisão do Programa Educativo, deu-se um relevo muito acen-tuado à “mística”, conforme é entendida em ambiente escutista (e como vem explicitado nesta publicação). Considerando o excelente trabalho já efetuado nessa área, procurou-se agora encon-trar uma maneira mais clara de os conteúdos religiosos, acentuadamente bíblicos, darem forma às atividades escutistas e, mais ainda, moldarem toda a ação pedagógica, mesmo que muitas vezes isso não aconteça de forma explícita. O objetivo não foi o de confundir Escutismo com catequese, embora a catequese de infância, adolescência e idade adulta seja fundamental no viver cristão. O objetivo foi o de complementar o itinerário proposto nas catequeses paroquiais, fornecendo uma base para desenvolver, em chave escutista, grandes temas bíblicos.
A definição de uma “mística”, da qual deriva, e para a qual simultaneamente aponta, uma “simbo-logia”, e em perfeita articulação com um “imaginário” escutista, caracteriza a proposta agora feita ao Escutismo Católico Português. Estou em crer que vem em boa hora, e espero que possa ajudar a contribuir para a melhoria sempre desejada do nível, já elevado, da ação do CNE.
Aqui fica o convite a todos os adultos encarregados da ação educativa no CNE no sentido de ler e aprofundar a “mística e simbologia” agora propostas, para bem da sua ação e para bem do Escutismo católico.
Padre Rui Jorge de Sousa Silva (Assistente Nacional - Junho 2013)
MíSTICA E SIMBoLogIA Do CNE
A mística e simbologia, expressão portuguesa adaptada da expressão anglo-saxónica symbolic
framework, é um dos sete elementos constituintes do método escutista.
> Método Escutista
O método escutista, elemento pedagógico original e identitário do Escutismo, criado por Lord Baden-Powell of Gilwell, é um sistema de autoeducação progressiva, baseado em sete elementos igualmente relevantes, conforme a figura abaixo.
Lei e Promessa
A Lei e a Promessa constituem o ideário fundacional e fundamental do Escutismo, agre-gando e apresentando os valores por este preconizados em toda a fraternidade mundial.
Mística e Simbologia
A mística e simbologia consubstancia-se na existência de um enquadramento espiritual, temático e simbólico que serve de fundo à vida e vivência das atividades escutistas, po-dendo estar presente – em termos macro – associada a uma secção, a qual se organiza em seu torno, bem como – em termos micro – em atividades particulares que o têm como elemento temático. Lei e Promessa Mística e Simbologia Relação
Educativa NaturezaVida na
Sistema de
Progresso Aprender Fazendo
Sistema de Patrulhas
Vida na Natureza
A Vida na Natureza é, desde a sua génese, um dos elementos mais marcadamente identi-ficadores do método escutista enquanto proposta pedagógica.
Aprender Fazendo
O Escutismo tem como objetivo ajudar as crianças e os jovens a desenvolver integral-mente as suas capacidades, para que se tornem membros ativos e responsáveis na sua comunidade. Esse desenvolvimento deve resultar progressivamente em maior autono-mia da criança ou do jovem. Para tal, este não pode apenas ouvir dizer “como é que se deve fazer” ou ver os outros a atuar. Para aprender é necessário experimentar, sentir, estar nas situações. Isto porque a aprendizagem é um processo dinâmico e ativo. O jogo – num sentido amplo – é onde, de diversas formas, por excelência se criam ou geram as situações de experiência e aprendizagem que desafiam as crianças e jovens, sendo pois o elemento essencial do Escutismo. Nele, a criança ou o jovem encontram desafios e obs-táculos, desenvolvem capacidades e solidariedades, aprendem e crescem com os outros e uns com os outros.
Sistema de Patrulhas
O Sistema de Patrulhas, tal como idealizado por Lord Baden-Powell of Gilwell, pelo qual as crianças e jovens de um grupo se organizam em pequenos grupos com uma identidade e vida própria, uma liderança e organização interna, constitui um dos elementos mais marcantes e distintivos do Escutismo enquanto pedagogia educativa.
Sistema de Progresso
Sendo o autodesenvolvimento de cada criança e jovem a finalidade do Escutismo, a pro-gressão pessoal, que se concretiza nos objetivos educativos, constitui a métrica proposta para cada faixa etária. O Sistema de Progresso, que procura envolver – de forma conscien-te – cada criança e jovem no seu próprio desenvolvimento, é a principal ferramenta de suporte à progressão pessoal, assentando numa perspetiva personalista, considerando as características individuais de cada um, e baseando-se num conjunto de objetivos edu-cativos.
No Corpo Nacional de Escutas, o método escutista encontra-se – naturalmente – estruturado da forma acima descrita, designadamente quanto à mística e simbologia, sendo realçadas, quando existam, as especificidades de cada secção.
MíSTICA E SIMBoLogIA Do CNE
No Corpo Nacional de Escutas, a vivência escutista, independentemente do escalão etário, baseia--se sempre num ambiente simbólico forte que lhe dá enquadramento, coerência e consistência.
> Mística
Considerando que a expressão “mística” é hoje, em geral, extremamente ambígua, é compreen-sível que também no Escutismo o seu uso tenha suscitado (e suscite ainda) confusões. Referindo--se à dita ambiguidade do termo, afirma o padre Luís Rocha e Melo: «No seu sentido original,
mystérion ou mystikós são palavras que expressam a ideia “de uma comunicação de Deus feita ao
homem e de uma iniciação do homem nos desígnios de Deus, na sua ação e no seu próprio ser”1.
Mystérion, usado inicialmente na literatura profana, tem o sentido de coisa escondida e secreta
para além da experiência empírica. Myô ou mystés significam esconder ou escondido. Usado nas religiões mistéricas da Grécia, o verbo significava também fechar a boca: “Os mistéricos foram assim chamados, porque os que eram iniciados deviam fechar a boca e não explicar a ninguém estas coisas.”2 A palavra mística também não se encontra na Escritura; surge na linguagem cristã,
mais tarde, na escola de Alexandria e designa um conhecimento mais profundo das verdades da fé não comunicável a todos.»3
Continua o mesmo autor, dizendo: «É o Pseudo-Dionísio4 quem emprega pela primeira vez a
ex-pressão Teologia Mística. Essa é para o autor um conhecimento mais íntimo e secreto de Deus, que nasce na união com Ele e na experiência dessa mesma união. É um conhecimento de nature-za experimental, imediato e intuitivo, superior ao que nos dá a especulação sobre a fé. Este sen-tido conservou-se na tradição e conserva-se ainda nos dias de hoje.»5 Em suma, a noção cristã de
mística concentra em si o sentido de «unidade – comunhão – presença» presente na expressão paulina: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).»6
É de sublinhar que a palavra mística continua hoje a não ser unívoca, sendo também aplicada, por exemplo, para designar os fenómenos extraordinários com alteração dos estados de consciência e ainda, na forma substantiva7, para designar os instruídos em determinados mistérios,
geralmen-te de cariz esotérico. Só o respetivo congeralmen-texto permitirá identificar o sentido pregeralmen-tendido e tornar claro o uso da expressão.
No caso escutista, segundo o uso do Corpo Nacional de Escutas, a palavra mística é utilizada para caracterizar um «enquadramento temático religioso ou uma vivência espiritual sugerida como base ou fundamento da ação pedagógica escutista». Não tendo propriamente uma ligação exata
1 A. Solignac, Mystique, em Dictionnaire de la Spiritualité Ascétique et Mystique, T. X, V. 2, Col. 1861.
2 C. A. Bernard, Le Dieu des Mystiques, Cerf, Paris, 1994, p. 188. O autor cita um estudo de G. Sfameni Gasparro. 3 Luís Rocha e Melo, O vento sopra onde quer – notas de espiritualidade, Editorial A.O., p. 76s.
4 Pseudo-Dionísio, ou Areopagita, é o nome por que é conhecido o autor de um conjunto de textos provavelmente dos séculos
V e VI d. C.
5 Luís Rocha e Melo, O vento sopra onde quer – notas de espiritualidade, Editorial A.O., p. 77. 6 Ibidem.
à «experiência de Deus» em sentido teológico, no uso dessa definição está presente uma das ideias mais originais do termo, que é a de um caminho de descoberta do que não é totalmente conhecido a priori. Além disso, como se verá mais facilmente na explicação da mística atualmen-te proposta a cada secção escutista, também aqui reside a ideia da comunicação de Deus ao Homem, e do acolhimento da parte deste ou, pelo menos, da procura de uma resposta a Deus. O referido enquadramento temático religioso – a mística – visa o aprofundamento da relação com Deus em comunhão com a Igreja sendo, por isso, um aspeto central da pedagogia escutista no seio do Escutismo Católico Português. É precisamente esse objetivo final, comum a todas as crianças, jovens e adultos, de acordo com a fase em que se encontram, que justifica a escolha da Mística de cada secção. Não é demais sublinhar tratar-se de um dos aspetos basilares de toda a ação escutista no CNE, sendo a sua proposta imprescindível na perspetiva da educação integral dos jovens.
> Mística no CNE
A mística do Programa Educativo do Corpo Nacional de Escutas assenta num esquema de quatro etapas, com vista a uma formação humana e cristã integral, sólida e madura. Estas etapas são sequenciais – cada uma é trabalhada para uma secção, ainda que de forma não estanque – e complementam-se [nenhuma vale por si mesma], na medida em que estão interligadas e adqui-rem o seu pleno sentido na sobreposição das partes. Desenrolam-se na lógica de um caminho a percorrer, constituindo um itinerário de crescimento individual e comunitário proposto a cada Escuteiro. Há aqui um desejo explícito de seguimento da História da Salvação, em etapas que se interpenetram e complementam, sendo que, como é geralmente feita a abordagem da História da Salvação, esta é lida e apresentada numa perspetiva sempre cristológica, iluminada à luz da fé pascal da ressurreição de Cristo. O percurso sugerido ao longo de quatro etapas tem como meta a maturidade da fé cristã e define os seguintes objetivos para cada uma das secções:
o louvor ao Criador
O Lobito louva Deus Criador, descobrindo-O no que o rodeia.
A descoberta da Terra Prometida
O Explorador aceita a Aliança que o conduz à descoberta da Terra Prometida.
A Igreja em construção
O Pioneiro assume o seu papel na construção da Igreja de Cristo.
A vida no Homem Novo
O Lobito louva Deus-Criador, descobrindo-O no que o rodeia. O Explorador aceita a Aliança que conduz à descoberta da Terra Prometida. O Pioneiro assume o seu papel na construção da Igreja de Cristo. O Caminheiro vive cristãmente em todas as dimensões do seu ser.
o louvor ao
Criador
A descoberta
da Terra
Prometida
A Igreja em
construção
Homem Novo
A Vida no
J E S U S C R I S T O
J E S U S C R I S T O
No percurso sugerido, procura-se que o Escuteiro compreenda que a sua vida tem duas dimen-sões fundamentais, uma sobrenatural e uma natural, e que ambas se relacionam intimamente: Cristo, Senhor da Vida, não se reduz à vivência espiritual e mística do Homem; Ele está presente na vida do dia-a-dia e ao longo de toda a existência humana. É, por isso, presença constante na vida de um Escuteiro.
Nesta perspetiva, o itinerário proposto está sempre centrado em Cristo, pois tem no Senhor o seu centro e fonte de irradiação de sentido.
> Patronos, Modelos de Vida e grandes Figuras
O Programa Educativo do Corpo Nacional de Escutas propõe um aprofundamento da mística espi-ritual com recurso à figura de patronos e modelos de vida. Como complemento, apresenta ainda grandes figuras ligadas ao imaginário de cada secção.Patronos
A escolha de patronos para o Escutismo remonta às origens do próprio Escutismo, com a de-signação de São Jorge para patrono mundial, por motivos históricos, culturais, pedagógicos e, naturalmente, religiosos.
Afirmava Baden-Powell, começando por se referir aos «Cavaleiros da Távola Redonda»: «Tinham a São Jorge por padroeiro8, porque entre os santos era o único cavaleiro. É o padroeiro da
cava-laria e santo especial da Inglaterra. É também o padroeiro dos escuteiros em todo o mundo. Por isso todos lhe devem conhecer a história. [...] São Jorge foi o que o escuteiro deve ser. [...] São Jorge comemora-se a 23 de abril. Nesse dia todos os bons escuteiros se lembram de meditar sobre a sua promessa e lei. Recordai-vos disto no próximo dia 23 de abril e saudai os vossos ir-mãos escuteiros espalhados pelo mundo.»9
Na frase «São Jorge foi o que o escuteiro deve ser» está sintetizado o valor pedagógico dos pa-tronos no Escutismo e a sua razão de ser. De facto, a vida dos santos, sendo inspiradora para qualquer crente, é-o também para qualquer escuteiro, com especial destaque para os Católicos (em comunhão com Roma) e os Ortodoxos, visto serem estes a valorizar mais o papel dos santos como estímulo à santidade.
Note-se ainda que «santos» era um dos nomes primitivos dado aos cristãos (cf. At 9.13.32.41; Rm 12.15.16; 1Cor 6.16; etc.). O Concílio Vaticano II, ao sublinhar a vocação universal de todos à santidade (Lumem Gentium 39), relaciona-a com a santidade da Igreja, esposa do único «Santo», Cristo Jesus. É, pois, na medida em que se vive em Cristo (Gl 2,20) que se é santo, razão pela qual os batizados, mergulhados com Cristo na morte para com Ele ressuscitarem e, portanto, consti-tuídos membros do Seu Corpo Místico, são efetivamente chamados «santos».
Não obstante, e porque este Povo de Deus constituído organicamente no Corpo de Cristo ainda peregrina na terra (com o que de limitação, finitude e pecado isso implica), o seu caminho carece de estímulos e exemplos que ajudem a seguir o caminho certo. Os santos e os beatos, reconheci-dos oficialmente pela Igreja por via da canonização e beatificação, são pequenos faróis colocareconheci-dos sobre a falésia das nossas incertezas e dúvidas que nos ajudam a encontrar o caminho certo, longe do perigo de rochedos e outros obstáculos. Eles não são a Luz, mas fazem-nos chegar a ela, tal como São João Batista não era a luz mas veio para dar testemunho da luz (Jo 1,7): a Luz dos Povos é Cristo (Lumen Gentium 1) e só Cristo!
8 Patron no original inglês (cf. Robert Baden- Powell, Scouting for Boys – The original 1908 Edition, p. 241). 9 Robert Baden-Powell, Escutismo para Rapazes, ed. 1998, p. 237-238.
Como na animação espiritual no Escutismo nenhum elemento surge isoladamente nem desligado das outras dimensões pedagógicas, a escolha dos patronos de secção encontra-se intimamente relacionada com a mística e imaginário respetivos.
Convencionou-se considerar os patronos «santos ou beatos da Igreja que, no decurso da sua vida, encarnaram na plenitude os valores que se pretendem transmitir através da mística e do imaginário de uma determinada secção, sendo por isso escolhidos como protetores e exemplo de vivência para os jovens dessa mesma secção».
Surge nessa definição um outro aspeto muito importante que se prende com a chamada «comu-nhão dos santos», ou seja, «a comu«comu-nhão entre as pessoas santas (sancti), isto é, entre os que, pela graça, estão unidos a Cristo morto e ressuscitado. Alguns são peregrinos na terra; outros, que já partiram desta vida, estão a purificar-se, ajudados também pelas nossas orações; outros, enfim, gozam já da glória de Deus e intercedem por nós. Todos juntos formam, em Cristo, uma só família, a Igreja, para louvor e glória da Trindade.»10
A respeito da intercessão dos santos, ensina ainda o Catecismo da Igreja Católica, citando o Con-cílio Vaticano II: «Os bem-aventurados, estando mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade [...]. Eles não cessam de interceder a nosso favor, diante do Pai, apresentando os méritos que na terra alcançaram, graças ao Mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo [...]. A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna.»11
Em síntese, há dois motivos principais pelos quais se apresentam diversos patronos no CNE: - por serem exemplo, referência e testemunhas de Cristo ressuscitado;
- para intercederem por todos os Escuteiros e Dirigentes.
O patrono é exemplo de vida, uma referência singular, um estímulo para uma vida pautada pelos valores perenes e, simultaneamente, é um intercessor junto de Deus, razão pela qual é invocada a sua proteção.
No Escutismo Católico Português, Nossa Senhora foi desde sempre invocada como Mãe dos Escu-tas e continua hoje a ser assim considerada. São Jorge, por motivos históricos, é invocado na qua-lidade de Patrono Mundial do Escutismo. E São Nuno de Santa Maria, que desde o nascimento do Corpo Nacional de Escutas foi invocado na qualidade de patrono, ainda que até 2009 enquanto beato da Igreja, é o santo patrono de todo o CNE.
10 Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 195. 11 Catecismo da Igreja Católica, 956 (cf. Lumen Gentium 49).
Notas Biográficas
Maria, ou «Miriam», em hebraico, foi uma jovem judia esco-lhida por Deus para ser mãe de Jesus, o Salvador do Mundo. Tradicionalmente, é considerada da família do rei David, embora não haja certezas sobre se o seria diretamente ou por ter casado com José. Também não se sabe ao certo nada de seguro sobre os seus pais ou o local de nascimento. Há apenas alguns dados da tradição que apontam no sentido de Joaquim e Ana serem os seus pais. Lc 1,26 e Lc 2,4 indi-cam que Maria morava em Nazaré da Galileia.
Significado de Santa Maria para a Igreja
O Concílio Vaticano II ensina que «o culto a Maria faz com que, ao honrarmos a Mãe, seja bem conhecido, amado e glo-rificado o Filho» (LG 66-67). O ponto mais elevado da vida de Nossa Senhora foi o acolhimento da Anunciação que lhe dirigiu o anjo Gabriel, enviado por Deus. Vendo no anjo a vontade divina, Maria colocou-se por inteiro nas mãos de Deus com confiança, dizendo: «Faça-se em mim segundo a Vossa palavra.» (Lc 1,38) Por isso, Santa Maria é exemplo de vida de fé e de pleno acolhimento do querer de Deus. Nossa Senhora é invocada pelos fiéis de muitas formas, entre as quais está a invocação de «Mãe de Deus». Por ser «Mãe de Deus» e «nossa Mãe», Maria é apoio seguro a quem sempre podemos recorrer, e singular intercessora junto de Deus. Maria ocupa ainda um lugar singular na devoção cristã em Portugal, desde os tempos mais remotos da nacio-nalidade, sendo mesmo a característica mais vincada da religiosidade popular no nosso país.
Santa Maria é invocada no CNE como «Nossa Senhora, Mãe dos Escutas».
Notas Biográficas
São Jorge (séculos III-IV) é um dos mais conhecidos santos da Igreja, e a sua reputação continua viva, em especial no Oriente, mas também um pouco por todo o mundo. Não há quaisquer pormenores históricos exatos sobre a vida deste santo da Igreja, sabendo-se, contudo, que o seu culto se es-palhou rapidamente a partir da Palestina.
As lendas em torno desta figura insigne descrevem-no, geralmente, como cavaleiro da Capadócia (atual Turquia) que resgatou uma donzela de um dragão, gesto esse que levou ao batismo de milhares de pessoas. É de referir que o pormenor lendário sobre a existência de um «dragão» foi um acrescento medieval à lenda já existente sobre São Jorge. Mais tarde, vítima da perseguição do imperador Diocleciano (244-311 d.C.), terá sido torturado e decapitado devido à fé que sempre e destemidamente defendeu. O seu martírio é celebrado liturgicamente pela Igreja no dia 23 de abril.
São Jorge e o Escutismo
Persistem algumas dúvidas relativamente à origem da de-voção a São Jorge em Inglaterra, mas há dados que apon-tam no sentido de ter sido considerado protetor, da Ordem da Jarreteira, já no reinado de Eduardo III, no século XIV. Tendo o Escutismo nascido em Inglaterra, Baden-Powell confiou, ao mesmo santo protector, o Movimento Escutista Mundial. Por isso, São Jorge é o Patrono Mundial do Escu-tismo, representando a unidade dos Escuteiros do mundo inteiro e, simultaneamente, o desejo de uma vida fiel e corajosa no cumprimento da vontade de Deus.
Atualmente, São Jorge é o patrono de Inglaterra, dos solda-dos e solda-dos Escuteiros, havendo numerosas igrejas em todo o mundo a ele dedicadas.
Notas Biográficas
Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360 no Castelo do Bon-jardim. Na juventude integrou o séquito de D. Fernando, sendo armado Cavaleiro. Casou, por obediência a seu pai, com D. Leonor de Alvim, de quem teve uma filha.
Estando ameaçada a independência nacional, após a morte do rei, Nuno abraça a causa do Mestre de Avis, nomeado pelo povo Regedor e Defensor do Reino, lutando contra Cas-tela, encabeçando exércitos, sendo nomeado Condestável e vencendo sucessivas batalhas até à consolidação da nova dinastia.
Profundamente religioso, e devoto de Nossa Senhora, leva uma vida de profunda oração mesmo no campo de batalha, sendo audaz na contenção dos excessos usuais à época nos períodos pós-batalha. Ganha, assim, fama de santidade, fazendo que mesmo os inimigos o admirassem e procuras-sem conhecer nos períodos de tréguas. Em 1415, participou ainda na Tomada de Ceuta.
Triunfador no campo de batalha e na construção política de uma nova dinastia que assegurava a independência de Portugal, acumula riquezas imensas, tornando-se na pes-soa mais rica do Reino.
Após enviuvar, dedica-se à construção do Convento do Car-mo em Lisboa, onde em 1422 recolhe coCar-mo irmão donato, após partilhar todos os seus bens, tomando o nome de Nuno de Santa Maria e entregando-se fervorosamente à oração e à caridade, sendo visto pela cidade a pedir esmola e a acudir aos mais necessitados, seja na doença, seja na subsistência. Morre em 1431, na sua pobre cela, rodeado pelo rei e pelos príncipes.
Cada secção tem, por sua vez, o seu patrono próprio:
São Francisco de Assis;
Alcateia
São Tiago [Maior]
Expedição São Pedro Comunidade São Paulo Clã
Modelos de Vida
Os modelos de vida definidos no programa educativo do CNE estão intimamente ligados aos «pa-tronos» sendo que, ao contrário destes (que são definidos nacionalmente), aqueles podem ser complementados localmente de acordo com a tradição religiosa e a cultura de cada local (sendo apenas sugeridos nacionalmente possíveis modelos). Aplica-se, pois, aos «modelos de vida» tudo o que atrás foi referido sobre os «patronos».
Sinteticamente, definimos os «modelos de vida» como «figuras da Igreja Católica que, à semelhan-ça dos patronos, também encarnam os valores e ideais da mística e do imaginário da secção a que estão ligados e que exprimem a diversidade de caminhos e carismas possíveis para os viver». Considerando a natureza dos patronos e dos modelos de vida, entende-se por «figuras da Igreja» somente santos ou beatos da Igreja (isto é, reconhecidos oficialmente pelo Magistério oficial da Igreja mediante a canonização ou beatificação).
O principal motivo para a apresentação de modelos de vida encontra-se na referência aos diferen-tes carismas eclesiais. Pode ser pedagogicamente benéfico sublinhar que a vocação à santidade é universal e se concretiza em pessoas de todos os tempos e lugares, homens e mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos. Na medida em que os escuteiros se sentirem identificados com os «mo-delos» apresentados, maior pertinência estes terão na implementação do Programa Educativo, constituindo um estímulo real e efetivo para a vida de santidade.
É de evitar a profusão de propostas e exemplos nesta área. Se não for benéfica a sua introdução, pode até vir a ser localmente omitida. O que verdadeiramente importa é que as crianças e jovens revejam na vida concreta de tantas pessoas o eco da Santidade de Cristo, ou o seu esplendor. Esse é o critério derradeiro de aferição da pertinência dos «modelos» a apresentar.
grandes Figuras
Ao contrário dos «patronos» e dos «modelos de vida», as grandes figuras não estão propria-mente associadas à mística de cada secção, mas ao respetivo “imaginário”. A sua indicação, que nas sugestões apresentadas é meramente ilustrativa, visa estimular os escuteiros a desenvolver qualidades e talentos em ordem ao seu desenvolvimento integral.
Não se trata de sublinhar todas as dimensões da vida de cada personalidade, nem tão-pouco a vida no seu todo, mas alguma característica em que esta se notabilizou. São escolhidas pessoas de diferentes quadrantes, culturas e religiões, bem como de diversas áreas de intervenção no espectro das múltiplas atividades humanas, procurando com isso fazer despertar em cada jovem o desejo de trilhar o seu próprio caminho, de acordo com os dons que Deus lhe deu.
Definimos as grandes figuras como figuras que na sua vida realizaram grandes feitos, associados ao imaginário da secção, que marcaram a história da humanidade.
Imaginário
Cada secção possui e vive um imaginário próprio, isto é, um ambiente que a envolve e que se traduz por um espírito e uma linguagem próprios, uma história com heróis e símbolos, induzindo a um sentimento de pertença em relação ao grupo e permitindo a transmissão de determinados valores: • O Livro da Selva, escrito por Rudyard Kipling [em dois volumes] é o ambiente onde o Lobito
vive as suas atividades.
• Para o Explorador/Moço, o imaginário desenvolve-se em torno da figura do próprio Explora-dor – aquele que vai mais longe, mais além, aquele que descobre.
• Para o Pioneiro/Marinheiro, o imaginário desenvolve-se em torno da figura do próprio Pio-neiro – aquele que desbrava, que se instala, que constrói, que desenvolve.
• Já o Caminheiro/Companheiro não possui imaginário formal permanente, pois como jovem adulto já perspetiva as suas ações em prática no terreno real, na vida do dia-a-dia, sem pre-juízo de poder ter e usar imaginários nas atividades específicas.12
Tal como no caso da “mística”, também a expressão “imaginário” designa diferentes realidades conso-ante o contexto. No entanto, o sentido dado no CNE a esta última não difere muito significativamente do sentido mais comum do termo. Em todo o caso, importa clarificar também este conceito. Os “imaginários” podem ser preciosos no desenvolvimento da ação educativa na medida em que, dando um enquadramento temático sugestivo, permitem veicular a transmissão de valores fundamentais de maneira informal, didática e atraente.
Em virtude de ter sido edificado um novo Programa Educativo, foram também identificados os imaginários de secção (apesar de não terem sofrido alterações relativamente ao programa edu-cativo anteriormente em vigor) que são fixos e que servem de base para a criação dos imaginários das atividades (a escolher localmente em cada caso). Isto é, do imaginário geral de uma secção
12 Doravante, sempre que se referir Explorador (elemento da II Secção), entenda-se igualmente Moço; o mesmo é válido para
derivam os diferentes imaginários, pontuais, de atividade sendo que, ao contrário destes últimos, o imaginário geral é proposto previamente pelo CNE de acordo com as características das crianças e jovens de cada secção.
Os imaginários de atividades são escolhidos na preparação das mesmas, segundo a pedagogia es-cutista, onde tudo deve concorrer para que cada elemento do grupo se sinta envolvido e estimu-lado a participar. Por esse motivo, na escolha de imaginários de atividade os escuteiros (crianças e jovens) têm importante e mesmo determinante voz ativa, cabendo aos respetivos Dirigentes o papel de enquadrar e enriquecer a proposta previamente escolhida pelos escuteiros. No fundo, esta dinâmica aplica a interessante nota sugestiva de Baden-Powell: «Ask the Boy!», verdadeira chave de “sucesso” pedagógico porquanto promove níveis de motivação muito elevados por par-te dos participanpar-tes na atividade.
Símbolos
Para que toda esta vivência seja completa, existe um conjunto de símbolos – elementos/objetos representativos de realidades, características ou atitudes que materializam o ideal proposto na mís-tica de cada secção – que ajudam a transmitir e reforçar o ideal presente no imaginário e na mísmís-tica. No Programa Educativo do Corpo Nacional de Escutas, todas as secções têm o seu símbolo identi-ficativo, podendo este ser único ou integrado num conjunto de símbolos complementares. É possível encontrar muitas definições de «símbolo» consoante os contextos. Segundo a conce-ção do teólogo belga Johan Vloet (da Universidade Católica de Lovaina), os símbolos são formas de expressão tipicamente humanas que, recorrendo a imagens, «estabelecem uma ligação com uma realidade mais profunda dentro de nós» 13.
Segundo o mesmo autor, «é impossível ao ser humano viver sem símbolos» pois estes «expres-sam algo daquilo que o ser humano é, pensa, sente, e daquilo que não consegue exprimir por palavras»14. Isto traduz o facto de os símbolos perpassarem toda a vida humana nas suas
múl-tiplas dimensões e, por isso, estarem também envolvidos na componente educativa diretriz do desenvolvimento de cada indivíduo.
Contudo, apesar de possuírem evidentes qualidades pedagógicas, os símbolos não são meros ins-trumentos ou realidades de segunda categoria, pois uma imagem tem o singular poder de exprimir o nível de realidade que se quer expressar, de tal forma que, na linha de Romano Guardini, se pode até dizer que «a imagem é de algum modo essa realidade»15.Na verdade, o símbolo é um real
agente transformador e «a linguagem simbólica, antes de ser uma linguagem de explicação, é uma linguagem de tentação que nos conduz para um outro comportamento mental e emocional»16.
13 J. Vloet, O símbolo e a nossa linguagem acerca de Deus, in Communio VI (1989) 6, p. 499-508. 14 Ibidem.
15 Ibidem, p. 500.
Uma segunda dimensão presente no “simbólico” é a sua qualidade reconciliadora ou unitiva, em contraposição com o “diabólico”, que é precisamente o que divide. Como escrevia o padre António Rego: «O simbólico é a cura harmónica da cisão humana, o caminho mais certo que nos conduz à saudável incerteza do mistério.»17
Por fim, além do uso mais formal dos símbolos de acordo com o que atrás foi dito, toda a vida escutista está cheia da linguagem simbólica em todas as suas expressões: bastaria pensar nos ges-tos de saudação, no uniforme, nas atividades escutistas (jogos, raides, fogos de conselho, etc.)... Em tudo está presente a linguagem simbólica e, de certa forma, esse é um dos aspetos que mais contribui para a transmissão do chamado «espírito escutista» aos mais novos e, mais importante, a transmissão de valores.
I Secção II Secção III Secção IV Secção
Explorador
[o que descobre] [o que constrói]Pioneiro sem imaginário formal
O Louvor ao Criador A descoberta da
Terra Prometida A Igreja em construção A vida no Homem Novo Livro da Selva Imaginário Mística Flor de Lis Vara Chapéu Cantil Estrela Rosa-dos-Ventos Machada Gota de Água Icthus Vara Bifurcada Tenda Mochila Evangelho Pão Fogo Cabeça de Lobo Símbolos
São Tiago Maior São Pedro São Paulo
São Francisco de Assis Patrono Abraão Moisés David Santo António Santa Isabel de Portugal
São João de Brito Santa Teresinha do
Menino Jesus Santa Catarina de Sena
São João de Deus Beata Teresa de Calcutá
Santa Teresa Benedita da Cruz São João Paulo II Santo Inácio de Loyola Santa Clara de Assis
Beatos Francisco e Jacinta Marto
Modelos de Vida
Grandes
Exploradores PioneirosGrandes PersonalidadesGrandes
---grandes Figuras
Mística
Quando um Lobito chegar ao final da passagem pela I Secção, pretende-se que tenha descoberto Deus-Pai enquanto Criador. Utilizando uma linguagem adequada à idade dos Lobitos, transmite--se que Deus é a fonte de todas as coisas boas, procurando, assim, fazer despertar sentimentos religiosos de gratidão e de louvor.
Deus criou tudo o que faz do Lobito uma criança feliz e contente – ou seja, a natureza, com todos os animais, mares, rios, florestas, montanhas, etc. e, muito especialmente, todos os meninos e meninas que vivem ao seu lado, bem como a sua família. Quando o Lobito descobre as maravilhas da Natureza e vive alegre, contente, obediente, amigo de todos e disposto a imitar em tudo o Menino Jesus, percebendo que Este o ama, aprende a louvar o Criador. Pretende-se que o Lobito, olhando para a realidade criada, aprenda a ver nela o Amor de Deus e se volte para o Criador. Naturalmente, o Lobito será mais sensível a um discurso centrado em Jesus – nestas idades fre-quentemente chamado «Menino Jesus» –, pelo que será essa a via mais adequada para enca-minhar para o início da descoberta de Deus. É importante que a descoberta de Deus seja acom-panhada pela descoberta da família, dos amigos, de todos os meninos e meninas e de todas as pessoas, para que o Lobito encontre na relação com os outros um caminho privilegiado para fazer a vontade de Deus.
Grata a Deus por tudo o que de bom tem na sua vida, a criança aprenderá a dizer «obrigado» a Deus, e irá despertando para a necessidade de corresponder ao Amor de Deus através do louvor.
> Mística e Simbologia da I Secção
O Lobito louva Deus-Criador, descobrindo-O no que o rodeia. Quando o Lobito descobre as maravilhas da Natureza e vive alegre, contente, obediente, amigo de todos e disposto a imitar em tudo o Menino Jesus, percebendo que Este o ama, aprende a louvar o Criador.
o louvor
ao Criador
Fot o: Tiag o P er eir aNotas Biográficas
Francisco nasceu em Assis, na Itália, no ano de 1182. O seu pai era um rico comerciante de tecidos, o que permitiu a Francisco ter uma infância e juventude abastada e feliz. Devido às desigualdades sociais, ocorreu uma revolta do povo contra os nobres da cidade de Assis. Francisco, como muitos jovens da sua época, tomaram partido na causa so-cial do povo. Só que Perugia, uma cidade vizinha, man-dou um exército bem preparado para defender os nobres. Na luta sangrenta, Francisco foi preso (assim como os seus jovens companheiros), tendo sido libertado ao fim de um ano, quando o seu pai pagou pela sua libertação.
De volta a Assis, doente, enfraquecido e sem projeto de vida, Francisco entregou-se a outra causa: a Igreja procurava voluntários para a defesa dos seus territórios. Francis-co, inspirado nas histórias de heróis e valentes cavaleiros, alistou-se e preparou-se com a melhor armadura de cava-leiro. Após a partida, na primeira noite em que o exército se reuniu junto a uma cidade chamada Espoleto, Francisco, doente, ouviu Deus a perguntar-lhe: «Francisco, a quem de-ves servir, ao Senhor ou ao servo?» «Ao Senhor», respondeu Francisco. Disse Deus: «Então, porque trocas o Senhor pelo servo?» Francisco compreendeu, então, que deveria servir a Deus. Abandonou o seu ideal de cavaleiro e retornou a Assis humilhado, sendo gozado por muitos.
São Francisco de Assis
Esta etapa será eminentemente prática, não estando dependente de discursos ou transmissões orais de conteúdos. O desafio que é colocado aos animadores desta secção é o de encontrar for-mas cativantes e dinâmicas de, através do jogo, educar no sentido descrito.
Patrono
Nesta etapa da vida das crianças, o exemplo de São Francisco de Assis, com a sua vida de simplici-dade e de comunhão com a obra criada por Deus, é apontado como referência a seguir.
Em Francisco foi-se operando uma transformação. Pas-sava muitas horas sozinho, buscava lugares isolados no campo e quando encontrava um mendigo, doava o que dis-punha no momento. Certo dia, estava a rezar na Igreja de São Damião – uma capelinha quase destruída – e olhan-do um crucifixo e examinanolhan-do as paredes caídas ao reolhan-dor, compreendeu o pedido que tinha ouvido de Deus: «Francis-co, reconstrói a minha Igreja!» Para empreender o projeto de reconstruir a Igreja, Francisco utilizou bens do pai. Este, já enfurecido pelas atitudes de Francisco e prevendo o risco de perder o património nas mãos do filho, abriu um processo perante o bispo para o deserdar. Diante das acusações do pai, na frente do bispo e de todos, Francisco tirou as próprias vestes e, nu, devolveu-as ao pai dizendo: «Daqui em diante tenho apenas um pai: O Pai-nosso do céu!» Depois de ter re-construído a Igreja de São Damião, restaurou também uma outra conhecida como Porciúncula, onde decidiu permanecer. Com o tempo, Francisco compreendeu que deveria recons-truir a Igreja dos fiéis e não somente as igrejas de pedra, marcando a sua vida pela obediência, pela paz, pela con-versão, pelo anúncio da Boa Nova e pela “senhora pobreza”, como gostava de dizer. Aos poucos, o seu estilo de vida e as suas palavras começaram a tocar os corações de alguns que o quiseram seguir (o primeiro foi Bernardo, um nobre e rico amigo seu). Os que o seguiram na altura, tal como acon-tece hoje entre os diferentes ramos da Ordem Franciscana, doaram tudo o que tinham aos pobres...
Orando, ajudando os pobres, cuidando dos leprosos, pre-gando e dedicando-se a atividades missionárias, Francis-co assistiu ao crescimento da “sua” Ordem, denominada dos Frades Menores, que se espalhou por diversas partes do mundo. Embora a velhice ainda não tivesse chegado, o seu corpo tornou-se frágil, agravado por um problema na vista que o deixou quase cego. Ainda que espiritualmente forte, nunca mais recuperou fisicamente, até que no dia 3 de outubro de 1226, junto à Porciúncula, Francisco pede aos irmãos que o coloquem no chão, despojado. Recitando o Salmo 142, que os irmãos acompanhavam lentamente, Francisco partiu rumo ao céu.
São Francisco viveu os valores evangélicos com grande radicalidade. Depois do encontro pro-fundo com Cristo, a sua vida foi inteiramente colocada ao serviço da vontade divina, para bem da Igreja. Na harmonia com as criaturas, São Francisco encontrou (ou, melhor, foi encontrado) e deixou-se cativar pelo Criador. Por isso, tudo lhe falava de Deus. O seu exemplo de vida contagiou imensos homens e mulheres, e continua ainda a contagiar, a ponto de ser uma figura notável da falange venerável dos santos da Igreja. Com São Francisco aprende-se a alegria, a simplicidade, a entrega de vida, a fidelidade, a amizade, a fraternidade mas, sobretudo, o Amor a Jesus Cristo. Considerando a mística proposta para esta secção, e a vida deste santo da Igreja, reconhecemos que esta é ícone daquela. Ou seja, conhecendo a vida de São Francisco, e observando o seu percurso de santidade, reconhecemos no Santo de Assis os principais traços que constituem os Objetivos Educativos para os Lobitos, na Área Espiritual, que é como que o “substrato” das demais. Por esse motivo, e não por qualquer motivo de ordem exclusiva ou prioritariamente devocional, a escolha do patrono recaiu sobre São Francisco.
Modelos de Vida
Além do patrono são ainda propostos aos Lobitos outros modelos de vida, que evidenciam a diversidade de personalidades e carismas que conduzem à santidade e apresentam modelos que cativem os Lobitos e neles façam despertar o desejo de caminhar para a santidade.
Os modelos de vida propostos para os Lobitos são Santa Clara de Assis e os Beatos Francisco e Jacinta Marto.
Notas Biográficas
Clara nasceu em Assis, em Itália, em 1194. A vida sorria--lhe mas, aos dezoito anos, preferiu deixar tudo para se en-tregar Àquele que a fascinara: Jesus Cristo. Abandonando secretamente a sua casa na noite de Domingo de Ramos de 1211, sem que a família disso suspeitasse, Clara inicia uma aventura que a elevará à santidade, pelos caminhos da simplicidade, da caridade e da pobreza. Tudo abando-nou, a exemplo de São Francisco, seu profundo amigo, para se entregar ao Amor de Jesus no pequeno Mosteiro de São Damião, em Assis. Foi tal o impacto causado pela original aventura de Clara que, em breve, grande número de jovens seguiu o seu exemplo, como aconteceu com a sua irmã Inês. Partiu para o céu a 11 de agosto de 1253.
Notas Biográficas
Francisco Marto nasceu em Aljustrel a 11 de junho de 1908 e a sua irmã, Jacinta Marto, a 11 de março de 1910. Ti-nham uma prima chamada Lúcia, um pouco mais velha, que com eles cresceu e com eles partilhou a infância. A 13 de maio de 1917, estas três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Fátima. Lúcia tinha 10 anos, Francisco 9 anos e Jacinta 7 anos. Por volta do meio-dia, depois de rezarem o terço, viram uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago, decidi-ram ir-se embora, mas outro clarão iluminou o céu e vi-ram, em cima de uma pequena azinheira, uma “Senhora mais brilhante que o sol” de cujas mãos pendia um terço branco.
A Senhora disse aos três pastorinhos que era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem à Cova da Iria du-rante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. Lúcia, Francisco e Jacinta assim fizeram, apesar de alguns percalços. Na última aparição, a 13 de outubro, a Senhora disse-lhes que era a “Senhora do Rosário” e que fizessem ali uma capela em Sua honra. Estes acon-tecimentos foram muito importantes para Lúcia, Fran-cisco e Jacinta. Amavam tanto Jesus que o maior desejo de Francisco era “consolar Nosso Senhor”, de tal maneira que passava horas a consolar “Jesus escondido” no Sacrá-rio, enquanto Jacinta fazia muitos sacrifícios por amor ao Coração de Maria, pelo Papa e pelos pecadores, para que se arrependessem.
Francisco e Jacinta morreram ainda pequeninos. Fran-cisco partiu para o céu no dia 4 de abril de 1919 e Ja-cinta no dia 20 de fevereiro de 1920. A 13 de maio de 2000, no Santuário de Fátima, o Papa João Paulo II beatificou-os. São celebrados liturgicamente a 20 de fevereiro.
Imaginário
O imaginário dos Lobitos tem por base a história de Máugli de O Livro da
Selva. Esta história encontra-se nos dois volumes da célebre obra de
Ru-dyard Kipling, e tem um sentido claramente alegórico. As diferentes per-sonagens que compõem o enredo dos maravilhosos episódios do Menino--Lobo representam alguns aspetos característicos da sociedade em que viveu o autor, e que estão igualmente presentes na sociedade hodierna. Trata-se, por isso, de uma obra de grande atualidade e, sobretudo, de um precioso instrumento pedagógico que permite, através do jogo, ajudar a conhecer o mundo e transmitir valores essenciais.
Ali, na Selva, todos vivem vinculados à Lei, sendo cada figura a personifi-cação de determinados tipos de carácter e personalidade, os quais ajudam os Lobitos a perceberem as diferentes personalidades e atitudes, e o dife-rente valor destas, e a construírem a sua própria personalidade, eviden-ciada nas atitudes quotidianas.
Símbolo
A Cabeça de Lobo, que encima o Mastro Totem da Alcateia, é o símbolo máxi-mo da Unidade e de cada Lobito. Considerando as características psicológicas das crianças desta idade, e considerando que os símbolos têm, por definição, uma função unificadora, propõe-se um símbolo único para as crianças desta faixa etária.
A cabeça de Lobo evoca o imaginário da secção e, simultaneamente, remete para a mística dos Lobitos, que tem por base o tema da Criação. O Lobo per-sonifica todos os animais que Deus criou – que embelezam terra, céus, mares e rios –, trazendo ao espírito a ideia de que tudo é dom da sua bondade e de que, por isso, Deus deve ser sempre louvado.
Ao mesmo tempo, a cabeça de Lobo representa o processo evolutivo do Me-nino-Lobo, no seio da Alcateia, aludindo à caminhada que todo o ser humano deve procurar realizar.
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Mística e Simbologia da II Secção
O Explorador aceita a Aliança que o conduz à descoberta da Terra Prometida.
O Explorador reconhece Deus na sua vida e aceita a Aliança que este lhe propõe, pondo-se a caminho tal como o Povo do Antigo Testamento.
A
descoberta
da Terra
Prometida
Mística
Quando um Explorador chegar ao final da passagem pela secção, pretende-se que tenha desco-berto a importância de acolher a Aliança que Deus lhe propõe.
Depois da descoberta do Criador através da obra criada – muito em especial da Humanidade, criada à imagem e semelhança de Deus –, segue-se o acolhimento da relação de Deus com os Homens. Esta relação tem em Deus a sua origem, e materializa-se no firmamento de uma Alian-ça. A Aliança que Deus propõe aos homens é, num certo sentido, desigual, na medida em que, por exemplo, não obstante a eventual infidelidade do Homem, Deus não deixa de ser fiel à Sua Aliança. Deus oferece à Humanidade a possibilidade de viver em paz e felicidade, com uma des-cendência incontável, na Terra Prometida. Essa é a grande promessa do Antigo Testamento. Ao longo da história de Israel, Deus estabeleceu várias vezes uma Aliança com o Seu Povo, mas só Jesus Cristo vem estabelecer a Nova e Eterna Aliança.
O Explorador ainda não entende, naturalmente, todo o alcance desta Aliança em Cristo, mas sente-se motivado a fazer caminho de descoberta. Por isso, começa por acolher o desafio que Deus lhe coloca e, tal como o povo hebreu fez ao caminhar pelo deserto, aceita partir em busca do cumprimento das promessas de Deus, isto é, da Terra Prometida onde «mana leite e mel», sinal da vida em abundância.
A Terra Prometida é uma imagem da vida em abundância prometida por Cristo (Jo 10,10).
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Para um Explorador, a Terra Prometida personifica a realização de tudo aquilo que o faz feliz. À medida que for crescendo, irá perceber que tudo depende da relação pessoal com Cristo, o Salvador de todo o género humano. O Explorador tem – como não podia deixar de ser – Cristo Jesus como modelo supremo e como meta a alcançar. Cristo adquire, também nesta faixa etária, obviamente um lugar central na Pedagogia da Fé.
Todo o imaginário sobre os heróis do Povo de Deus pode ser um ótimo elemento para ajudar a dinamizar as atividades desta secção, à luz da mística proposta. O Explorador que se identifica com o Povo peregrino através do deserto começa também a descobrir a dimensão comunitária da sua vida. A noção de Povo escolhido, chamado e enviado por Deus é-lhe apresentada, primei-ro através da vivência em patrulha e, numa segunda fase, através de uma pprimei-rogressiva abertura aos outros, em diferentes instâncias. Isso remete para a descoberta da Igreja que, sobretudo na secção seguinte, será já mais concreta.
Patrono
O patrono proposto para a II Secção é São Tiago [Maior], que viveu os principais valores que se pretende transmitir para os escuteiros nesta faixa etária.
Notas Biográficas
Por vezes designado como São Tiago Maior (para distin-guir do outro Apóstolo chamado Tiago), este santo da Igre-ja, filho de Zebedeu e de Salomé, e irmão de João, foi escolhi-do por Jesus Cristo para ser um escolhi-dos Doze Apóstolos. Os escolhi-dois irmãos, provavelmente por causa do seu carácter colérico, eram chamados «Boanerges», isto é, «Filhos do Trovão». Tal como o seu pai, eram pescadores no mar da Galileia, origi-nários de Cafarnaum, onde também André e Pedro traba-lhavam.
Sabe-se também, pelos próprios dados evangélicos, que foi um dos mais próximos de Jesus, mesmo dentro do grupo mais restrito dos Doze, já que esteve na ressurreição da fi-lha de Jairo, na Transfiguração e na Agonia no Horto das Oliveiras de forma peculiar.
Testemunha das aparições do Senhor Ressuscitado e da Sua Ascensão, recebe o Espírito no dia de Pentecostes. Na
São Tiago [Maior]
Sagrada Escritura, a última referência que se faz a Tiago é justamente a da sua prisão e morte, às mãos de Herodes Agripa, novo rei da Judeia, que o mandou passar à espada, provavelmente no ano 44 da nossa era, em Jerusalém. Tanto quanto se sabe até ao momento, os relatos dos atos con-cretos da sua vida e atividade enquanto Apóstolo encontram--se relatados fora da Sagrada Escritura e são apenas parte da Tradição da Igreja, com posteriores adições lendárias. Nesses relatos, conta-se que Tiago, saindo de Jope, na Ju-deia, teria vindo até à Hispânia, para evangelizar, tendo desenvolvido atividade sobretudo na Galaecia (Galiza) e na zona hoje correspondente a Aragão. Aqui teria deixa-do, segundo a lenda, estabelecidos alguns bispos, e teria também tido uma visão da Virgem Maria, em cima de um pilar, em Caesaraugusta (Saragoça) e que lhe teria pedido para ali lhe fazer uma capela. Na Galaecia, a sua pregação teria deixado muitos cristãos. A Igreja de Braga, capital da-quela província romana, reclama-se de fundação apostóli-ca, por o seu primeiro bispo, mais ou menos lendário, Pedro de Rates, ter sido discípulo de Tiago.
Da Galaecia, Tiago teria regressado à Judeia, tendo sido morto da forma que vem relatada nos Atos dos Apóstolos, ao «fio da espada».
Lenda Hispânica
De acordo com a forma mais conhecida de uma lenda his-pânica, Atanásio e Teodoro, hispânicos de origem, teriam levado o corpo de Jerusalém, numa barca, até Padrón, a pou-cos quilómetros do local onde hoje se ergue a cidade de Com-postela. Ali, teriam pedido à rainha Lupa, uma chefe tribal mais ou menos romanizada, um local para o sepultarem, e esta, tendo-lhes dado uma parelha de touros selvagens para puxarem o carro com o corpo do Apóstolo, tentando gozar com o esforço dos dois, apercebeu-se que os dois animais se comportavam como bois mansos. Onde estes pararam, aí o sepultaram, tendo a própria Lupa, agora convertida, ofere-cido o mausoléu.
A Peregrinação Jacobeia
Com a fama, e com os favores pontifícios, os peregrinos co-meçam a afluir, em verdadeiras multidões, à Galiza, criando assim o primeiro itinerário verdadeiramente europeu, onde a Europa se fez, espiritual e culturalmente. Ali acudiam pe-nitentes em busca do perdão das suas faltas, ou cavaleiros em busca de aventuras (como o pai do nosso primeiro rei, Henri-que de Borgonha) ou viajantes ilustres ávidos de conhecimen-to. Os itinerários principais acabaram por ficar mais ou me-nos cristalizados a partir de uma certa época, e as estruturas de apoio a tantos peregrinos dariam modelos às albergarias, hospitais e hospedarias do resto da Idade Média e Moderna. O Caminho de Santiago ficou como o caminho de peregrina-ção por excelência, mais até que a própria ida a Jerusalém ou a Roma em certas alturas da Idade Média.
ordem de São Tiago da Espada
Para proteger os peregrinos que iam a Santiago de Composte-la, surgiu em Leão, em 1171, uma milícia de cavaleiros, que viviam comunitariamente segundo a regra de Santo Agosti-nho, e cuja função foi depois redefinida para reconquista das terras hispânicas aos muçulmanos e sua defesa posterior. Esta Ordem, chamada primeiro dos Cavaleiros de Cáceres (a segunda sede) e depois de Uclés (a segunda e definitiva), colo-cou-se debaixo do patrocínio do Apóstolo São Tiago, tomando poucos anos depois o nome de Ordem de São Tiago (nos reinos espanhóis) e de Ordem de Santiago da Espada (em Portugal). Por causa da sua faceta guerreira, a insígnia da Ordem, pre-sente na representação heráldica da maior parte dos municí-pios e outras autarquias do sul do Tejo, que foram até ao século XIX terras de posse da Ordem, é uma cruz-espada púrpura. Em Portugal, a devoção medieval ao santo, sobretudo em zo-nas de Reconquista ou de Caminho de Peregrinação, era enor-me, comparável à que hoje podemos verificar para os chamados santos populares.
O encontro pessoal com Cristo foi decisivo na vida de São Tiago, tornando-se o fundamento da sua vida. Acolhendo o plano de Deus a seu respeito, e fortalecido pelo Espírito Santo, aceitou fazer parte da comunidade cristã nascente. O mesmo Espírito enviou-o em missão, para levar o Evangelho a outros povos.
Batizado no sangue de Cristo, acolheu a Nova e Eterna Aliança que o fez aspirar aos bens do Alto e viver inteiramente para os outros.
A Terra Prometida foi, para si, uma realidade: reconheceu, em Cristo, a instauração do Reino de Deus, e dedicou a sua vida a anunciar ao mundo a presença do Reino entre os homens.
Com o exemplo de São Tiago, pretende-se motivar cada Explorador para uma vida de acolhimen-to de Deus e de partilha da Fé, mesmo que, para isso, seja necessário percorrer um longo e, por vezes, árduo caminho.
Modelos de Vida
Outros modelos de vida, entre Heróis do Povo de Deus e santos da Igreja, são, para além do pa-trono, propostos aos Exploradores, mostrando formas diversas de se caminhar em direção à Terra Prometida, de forma a motivá-los a também caminhar nessa direção.
Os modelos de vida propostos para os Exploradores são Abraão, Moisés, David – figuras da Bíblia –, Santo António de Lisboa e Santa Isabel de Portugal – figuras da Igreja.
Notas Biográficas
Abraão foi o primeiro dos patriarcas do Antigo Testamento. Pertenceu provavelmente a uma comunidade imigrante que, entre 2000 e 1700 a.C. se deslocou do deserto siro-arábico e da Mesopotâmia em direção ao território de Canaã. Há refe-rências que apontam no sentido de Abraão ser originário de Ur da Caldeia, e outras de Haran. Em Canaã, Abraão fixou--se sobretudo em Siquém, Betel e Bersabé. Segundo o relato biblico, também esteve no Egito. Sara foi a sua esposa. O Senhor fez com ele uma Aliança, em que lhe prometeu a posse futura de toda a terra de Canaã e uma descendência infindável, sinal da bênção de Deus. Abraão é considerado nosso “pai” na fé.
Como Abraão, também os Exploradores são convidados a fazer caminho, no acolhimento da Aliança e da vontade de Deus.
Abraão
Notas Biográficas
Há poucas informações certas sobre Moisés, embora a sua existência seja inegável. Para o Judaísmo posterior, Moisés é visto como a principal figura da História da Salvação. Se-gundo a leitura do Novo Testamento, Moisés é, em primeiro lugar, o mediador da Lei que recebeu de Deus no monte Si-nai. É também considerado um “profeta”, isto é, alguém que anuncia Cristo. Segundo Ex 2, Moisés terá sido casado com Séfora, filha de Raguel (ou Jetro, segundo Ex 3,1), e pai de Gersam.
O momento determinante da sua vida aconteceu quando o Senhor lhe apareceu na sarça-ardente, escolhendo-o para fazer sair o povo hebreu do Egito, conduzindo-o à Terra Pro-metida.
Como Moisés, os Exploradores aceitam pôr-se a caminho, cer-tos de que Deus cumpre sempre as Suas promessas.
Moisés
Notas Biográficas
David, natural de Belém, na Judeia, foi o filho mais novo de Isaí ou Jessé. Depois de ter sido escudeiro do rei Saul – com quem veio a ter graves contendas –, e ter adquirido nessa função grande popularidade, David foi ungido rei de Israel e Judá, entre 1010 e 970 a.C. Segundo 1 Sam 16, David teria jeito para a música. Era ainda um excelente guerreiro. A sua importância prende-se essencialmente com o facto de ter sido o fundador de um Estado unificado e independen-te, que englobava todo o Israel (Norte e Sul), Estado esse que, apesar de ter subsistido pouco tempo, ficou para sempre na memória dos israelitas como um tempo ideal.
Como David, os Exploradores começam a descobrir que são parte de um Povo que reconhece Deus como único Senhor.
David
Notas Biográficas
António nasceu em Lisboa em 1195, tendo sido batizado como Fernando de Bulhões. Morreu perto de Pádua, em Itália, a 13 de junho de 1231. Até aos 20 anos, António foi cónego regular, ten-do prosseguiten-do em Coimbra os estuten-dos que iniciou em Lisboa. Motivado pelo desejo de ser missionário, juntou-se aos frades franciscanos e foi enviado, em missão, para Marrocos, num meio dominado pelo Islamismo. Por motivos de saúde, regressou à Europa, tendo vivido algum tempo num eremitério em Itália. Pouco tempo depois, descobriu o seu invulgar dom de pregar, ministério que passou a exercer com extrema eloquência. O seu conhecimento bíblico era notável, e os seus sermões chegavam a todo o tipo de destinatário.
De tal forma a sua fama de santidade se espalhou, que foi cano-nizado logo um ano depois da sua morte.
Como Santo António, os Exploradores procuram encontrar a sua vocação, sabendo que têm de percorrer etapas para a descobrir.
Santo António de Lisboa
Notas Biográficas
D. Isabel nasceu em 1271, em Aragão, e faleceu em Estremoz a 8 de julho de 1336. Com 12 anos de idade, casou-se com o rei D. Dinis de Portugal. Enquanto esteve casada, D. Isabel procurou apoiar sem-pre as iniciativas de ajuda aos mais necessitados, nomeadamente a criação de um hospital, uma “casa de refúgio” para mulheres e um orfanato. Procurou sempre ser instrumento de concórdia entre todos, e revelou exemplar perseverança e capacidade de sofrimento num casamento que não a fez feliz. Depois de enviuvar, em 1325, D. Isabel dedicou-se inteiramente ao serviço de Deus e de todos os que dela precisaram, ficando conhecida como Rainha Santa. Como Santa Isabel, os Exploradores descobrem que o caminho em direção à Terra Prometida se encontra mais facilmente quando se faz o bem aos outros.
grandes Exploradores
Com o intuito de estimular para a vida ativa e empenhada na construção do mundo, apresentam-se, a título de exemplo, alguns exploradores notáveis:
• Fernão de Magalhães, navegador português que comandou a primeira viagem de circum-navegação;
• Ernst Shackleton, figura notável da exploração da Antártida;
• Neil Armstrong, primeiro homem a pisar o solo lunar;
• Gago Coutinho, herói da primeira travessia aérea do Atlântico Sul;
• …
Fernão de Magalhães Ernst Shackleton Neil Armstrong gago Coutinho
Imaginário
O Explorador, aquele que parte à descoberta do desconhecido.
Este imaginário é muito genérico, podendo dar azo a muitas e diversas interpretações, mas a sua aplicação no Escutismo dever-se-á cingir às dimensões que podem contribuir para o verdadeiro desenvolvimento e educação dos escuteiros, na linha dos valores e princípios do movimento. Ou seja, a descoberta do desconhecido tem como grande objetivo proporcionar uma descoberta de si próprio e dos outros, que conduza à descoberta do amor de Deus.
A noção de caminho a percorrer está presente neste imaginário, de forma central, e pode cons-tituir o elemento decisivo das atividades dos Exploradores, à imagem e semelhança dos grandes exploradores de mares e desertos, selvas e cordilheiras, zonas polares e espaço estelar...
Ao falar de caminho, aborda-se o tema da meta a alcançar, assunto que permite uma abordagem das questões centrais da vida humana, sem perder de vista o horizonte de eternidade que norteia a vida dos crentes em Cristo. Reflete-se, igualmente, sobre aquilo que é verdadeiramente útil e imprescindível para uma caminhada – a caminhada da vida –, o que proporciona uma reflexão sobre os bens materiais, sobre os valores e sobre as grandes opções de vida.
Símbolos
O símbolo que identifica a II Secção é a Flor-de-Lis, não significando isso uma superior importân-cia desse símbolo face aos demais. Todos têm a sua importânimportân-cia no encaminhamento para uma melhor vivência da mística e do imaginário.
Flor de Lis
Indicando o norte nas cartas topográficas e de marear, a Flor de Lis é símbolo de rumo, um auxiliar básico do Explorador que pretende descobrir o mundo. Símbolo original do Escutismo, nas suas três folhas reconhecemos e recor-damos os três Princípios do Escutismo e os três compromissos assumidos na fórmula da Promessa.
De certa forma, sendo símbolo do caminho a seguir, a Flor de Lis pode tam-bém ser utilizada como símbolo da Fé que guia a vida do crente (recordando que o verdadeiro “Símbolo da fé” é o que conhecemos por “Credo”). A Fé é, geralmente, representada por uma Cruz, pois nesta, despojada de Cristo, antes morto e agora ressuscitado, assenta a fé cristã. Contudo, e sem deixar de considerar a Cruz, esta associação da Flor de Lis à Fé pode permitir abor-dar o tema da relação do Escutismo com a Espiritualidade e com a Religião, de maneira adequada à respetiva faixa etária, recordando que geralmente a “Profissão de Fé” integrada no percurso da catequese de infância e adoles-cência é realizada por volta da idade dos Exploradores e Moços.
Chapéu
Símbolo da proteção, da proteção do sol, mas também do frio e da chuva, o Chapéu representa a preparação e o planeamento do Explorador que parte à aventura.
Aquele que parte em busca da “Terra Prometida” tem de se preparar para a caminhada. Nem tudo são facilidades, pois o percurso é por vezes árido e sinuoso. É Deus quem dá a proteção, mas é requerida, da nossa parte, a abertura aos Seus dons. Através do símbolo do chapéu podemos trabalhar o tema do auxílio que de Deus recebemos quando para Ele nos voltamos com fé e confiança. Contar com a proteção para a caminhada traduz a confiança na presença de Deus no caminhar.
Cantil
Símbolo da responsabilidade e da preparação do Explorador que guarda água para saciar a sua sede nas dificuldades do caminho, sede que é tam-bém de conhecimento, de descoberta e de ação. A água guardada no Cantil simboliza igualmente o seu Batismo, água que dá sentido à sua exploração. O Cantil é o que nos permite saciar na “Água Viva” que é Cristo. Este símbolo está intrinsecamente ligado à Eucaristia e permite ver o tema numa perspetiva
ad intra mas também ad extra. Saciamo-nos nesta Água e recebemos a missão
de a levar aos outros. Não se pode deixar de dar aos outros o que nos sacia verdadeiramente para a vida eterna, que é o Senhor Jesus, prefigurado profe-ticamente na água que brotava no rochedo pelas mãos de Moisés (cf. Ex 17,6).
Vara
A Vara auxilia o Explorador na caminhada, na progressão da marcha, na na-vegação e na ultrapassagem de obstáculos, perigos e adversidades. Simboliza também a solidariedade e o progresso, e evoca ainda a vara de Moisés e o que Deus realizou através dela.
A Vara pode evocar também aquela no cimo da qual Moisés construiu uma serpente de bronze para salvação de todos os que eram afligidos pelo flagelo da mordedura venenosa das serpentes (cf. Nm 21,9). Essa vara com a serpen-te é imagem de Cristo elevado na Cruz.
Estrela
Símbolo da orientação, as estrelas são pilares da imensidão no céu, que transmitem ao Explorador a segurança da Fé, e a certeza do sucesso. A Estre-la recorda a Promessa de Deus a Abraão, de lhe dar uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu.
A estrela é também a última fronteira das explorações – a descoberta de Je-sus – «quando descobriram onde parou a estrela, os magos descobriram-n’O». Cristo é a Estrela Polar que guia o nosso caminho.
> Mística e Simbologia da III Secção
O Pioneiro assume o seu papel na construção da Igreja de Cristo. O Pioneiro é chamado a colocar os seus talentos ao serviço da Comu-nidade e a assumir a tarefa de ser construtor de comunhão.
A Igreja em
construção
Mística
Quando um Pioneiro chegar ao final da passagem pela secção, deverá ter assumido o seu papel na construção da Igreja de Cristo.
Pressupondo o reconhecimento de que o Criador é a fonte de todos os dons, considerando que Deus nos colocou neste mundo para realizar um projeto de felicidade para toda a Humanidade, e tendo por base, ainda, que a nossa participação nesse projeto tem origem na Aliança que Deus firmou com os Homens, o Pioneiro começa a descobrir as consequências de ter caminhado em direção à Terra Prometida. Ou seja, é hora de amadurecer a Fé que professa, e é altura para re-descobrir o significado do seu Batismo, mediante o qual foi configurado com Cristo. O Pioneiro descobre que ser membro de Cristo faz dele artífice da Nova Humanidade. Descobre ainda que é parte de um todo mais vasto e que, no respeito absoluto pela sua individualidade, ele é membro da Igreja, Corpo Místico de Cristo.
Provavelmente, será mais imediato o reconhecimento do valor da comunidade, numa escala me-nor, isto é, na equipa. Depois desse reconhecimento, seguir-se-á a abertura aos outros e, num nível mais amadurecido, a consciência de que cada batizado é membro ativo da Igreja e que, portanto, tem um papel útil, necessário e insubstituível na comunidade cristã.
Esta mística sugere ao Pioneiro que ele é chamado a colocar os seus talentos ao serviço da Comunidade e a assumir a tarefa de ser construtor de comunhão. Tem, por isso, um sentido profundamente eclesiológico. Fot o: R egião de P ort alegr e e Cas telo Br anc o
Patrono
O patrono proposto para a III Secção é São Pedro, com quem os Pioneiros, apesar das normais dúvidas humanas, aprendem a firmeza da Fé.
Notas Biográficas
Não se conhece com exatidão a data do nascimento de Pedro, mas com toda a certeza nasceu no século I a. C., em Betsaida da Galileia. Segundo a tradição, terá sofrido o mar-tírio em Roma, por volta dos anos 64-67 d. C., no tempo do imperador Nero. Era pescador no mar da Galileia, casado, ir-mão de André, e residia em Cafarnaum. Foi precisamente o seu irmão André que o desafiou a seguir Jesus de Nazaré. Ambos foram escolhidos por Cristo para fazer parte do grupo dos Doze Apóstolos. O Senhor disse que queria fazer dele, não apenas pescador de peixes, mas «pescador de Homens». Depois de pregar às multidões, a partir do barco de Pedro, Jesus disse-lhe: «Faz-te ao largo; lança as tuas redes para a pesca.» (Lc 5,4-7). Depois disso, ante a incredulidade de Pedro, que trabalhara toda a noite na faina sem nada apanhar, o Senhor fez diante deles o mila-gre de uma pesca abundante, sinal da pesca para a qual dora-vante Pedro e os companheiros iriam ser convocados, e sinal da presença do Reino de Deus entre os homens.
O seu nome de nascimento era Simão, mas Jesus deu-lhe o nome aramaico de Cefas, que significa rocha, pedra, do qual vem a derivar o nome português – Pedro.
Pedro foi escolhido para ser a coluna base da construção da Igre-ja de Cristo. A ele o Senhor disse: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevale-cerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.» (Mt 16,18s)
O Novo Testamento coloca Pedro em grande destaque. A pre-ponderância do seu lugar no seio dos Apóstolos é inquestio-nável, apesar de a sua inicial incompreensão da dimensão