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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL N° 328.182 - RS (2001/0070121-2)

RELATOR : MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA

RECORRENTE : BEATRIZ HELENA BAPTISTA MALLMANN E

OUTRO

ADVOGADO : DANIEL BISOL E OUTRO

RECORRIDO : PORTO SUL AGÊNCIA DE VIAGENS E TURISMO

LTDA

ADVOGADO : ÊNIO ROBERTO GONÇALVES FERREIRA E

OUTRO

EMENTA

DIREITO DO CONSUMIDOR. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. VÍCIO DE QUALIDADE. ART. 20, CDC. VIAGEM TURÍSTICA. DANO MATERIAL E DANO MORAL. DISTINÇÃO. OPÇÃO DO CONSUMIDOR. ADEQUAÇÃO À REPARAÇÃO DO DANO. RECURSO DESACOLHIDO.

I - Na prestação de serviços de viagem turística, o desconforto, o abalo, o aborrecimento e a desproporção entre o lazer esperado e o obtido não se incluem entre os danos materiais, mas pertencem à esfera moral de cada um dos viajantes, devendo a esse título ser ressarcidos.

II - Os danos materiais, que sabidamente se distinguem dos morais, devem recompor estritamente o dispêndio do consumidor efetuado em razão da prestação de serviços deficiente, sem o caráter de punir o fornecedor.

I I I- O direito de opção mencionado no art. 20, I a III do Código de Defesa do Consumidor, relaciona-se com a suficiência da reparação do dano, não devendo afrontar nem a proporcionalidade entre a conduta do fornecedor e o dano causado, nem o princípio que veda o enriquecimento indevido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, não conhecer do recurso. Votaram com o Relator os Ministros Barros Monteiro, Cesar Asfor Rocha, Ruy Rosado de Aguiar e Aldir Passarinho Júnior.

Brasília, 9 de outubro de 2001(data do julgamento). Ministro Cesar Asfor Rocha

Presidente

Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira Relator

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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL N° 328.182 - RS (2001/0070121-2)

RECTES : BEATRIZ HELENA BAPTISTA MALLMAN E

OUTRO

RECDA : PORTO SUL AGÊNCIA DE VIAGENS E TURISMO

LTDA.

EXPOSIÇÃO

O SR. MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA:

Os recorrentes contrataram uma viagem turística de Porto Alegre, onde residem, até o litoral sul da Bahia, incluindo, para eles e seus três filhos menores, passagens aéreas de ida e volta, uma semana em hotel em Porto Seguro, BA, traslado rodoviário de Ilhéus a Porto Seguro e um passeio em locais históricos.

O traslado se deu, segundo afirmam, em ônibus e não em carro ou microônibus, tendo o casal que desembolsar uma passagem a mais para acomodar as crianças e submeter-se a um percurso de sete horas, em vez de duas, como avençado.

A hospedagem, por sua vez, não foi possível em quartos conjugados, indisponíveis no hotel indicado, mas em suíte única para todos, desconforme ao contratado, que igualmente acarretou gasto extraordinário para o casal.

Sob essas alegações, os recorrentes ajuizaram ação contra a recorrida, fundando-se no vício de qualidade na prestação do serviço e na falta de informação no momento da celebração do contrato, e pleiteando a restituição da quantia paga, os danos morais provenientes do desconforto e o ressarcimento dos gastos a mais advindos do descumprimento contratual de parte da agência de viagens ora recorrida.

O Juiz de primeiro grau acolheu parcialmente a pretensão, excluindo os danos morais, porque inacumuláveis com os materiais, e condenando a ré "à devolução dos valores pagos pelos requerentes pela aquisição do pacote turístico, com correção monetária desde o desembolso, ao pagamento de valores correspondentes às diferenças de diária de hotel, gastos com fax e passagem de ônibus de linha, também com correção a contar do desembolso, computando-se juros legais de mora desde a citação" (fl. 317, v. 2).

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, sob a relatoria do Desembargador Antônio Janyr Dall'AgnoI Júnior, proveu integralmente a apelação dos autores e parcialmente a da ré para diminuir o valor dos danos materiais e incluir os morais, com esta fundamentação, no pertinente:

"No todo, o serviço foi prestado, mas o foi mal.

E, em assim sendo, efetivamente merecem ser ressarcidos os autores naquilo em que se viram constrangidos a, por própria conta, despender.

Não tenho por adequado, como o fez o digno Magistrado, determinar que se opere a devolução integral, eis que, assim fora, estar-se-ia efetivamente desconsiderando o pressuposto inarredável do prejuízo, que é o material, pois disso que estamos ainda a cuidar.

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Superior Tribunal de Justiça

[...]

Estaria propenso a, desde logo, pondo fim a esta pendenga de alguns anos, estabelecer os danos extrapatrimoniais, fazendo-o em valor equivalente a duas passagens (ida e volta) a Porto Seguro, utilizando-se os autores do numerário como melhor entenderem" (fls. 382-384).

Opostos embargos declaratórios, foram eles parcialmente acolhidos para especificar o valor de referência das passagens aéreas como o oferecido ao "cidadão comum" pelas agências de viagem.

Adveio o recurso especial, com invocação de ofensa ao art. 20, II do Código de Defesa do Consumidor. Sustentam os recorrentes que, ao optarem pela devolução integral da quantia, não podia o Tribunal conceder-lhes indenização parcial do valor pago. Argumentam com o caráter pedagógico da lei de proteção ao consumidor.

Contra-arrazoado e não admitido o recurso na origem, provi agravo (Ag 299.523-RS) para melhor exame da espécie.

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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 328.182 - RS (2001/0070121-2)

VOTO

O SR. MINISTRO SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA(RELATOR):

A matéria do recurso especial se limita ao valor dos danos materiais, que, concluiu o Tribunal, abrangeria somente as quantias despendidas a mais pelos autores recorrentes, tanto no traslado rodoviário, quanto nas diárias do hotel, rechaçando a devolução integral do pacote turístico. A propósito, reza o art. 20, CDC, cuja ofensa se apontou:

"Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:

I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;

II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos;

III - o abatimento proporcional do preço.

§ 1º A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor.

§ 2º São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade".

Ao ajuizar a ação, os consumidores recorrentes pediram a restituição integral do que pagaram, perfazendo a opção mencionada nesse artigo 20. Todavia, primeiro, é de salientar-se que os danos materiais apartam-se dos morais. Assim é que, a título de "danos extrapatrimoniais", o acórdão impugnado estipulou o equivalente às passagens aéreas de ida e volta entre Porto Alegre e Porto Seguro. Já os danos materiais não incluem o desconforto, o abalo, o aborrecimento e a desproporção entre o lazer esperado e o obtido. Todos esses fatores se incluem na esfera moral de cada um dos viajantes e não na perda material que sofreram. Quanto a esta, deve efetivamente limitar-se aos gastos extraordinários despendidos pelos autores no percurso, em razão da assentada má qualidade na prestação do serviço.

Segundo, a opção mencionada no art. 20, CDC para a responsabilidade do fornecedor de serviços pelos vícios de qualidade relaciona-se com a suficiência da reparação do dano, vale dizer, o dispositivo não afasta a proporcionalidade entre a conduta e o dano, que norteia afinal a disciplina da responsabilidade civil. A respeito, ao comentar o art. 20, registrou

Antônio Hermen de Vasconcellos e Benjamin:

"Em primeiro lugar, embora o comando legal diga que as opções são de livre escolha do consumidor, nem sempre assim o será. As diversas alternativas foram imaginadas como maneira de propiciar ao consumidor uma reparação adequada e eficiente. E só. Seu objetivo, portanto, não é punir o fornecedor.

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Conforme já aventamos, a reexecução dos serviços, sempre a expensas do fornecedor, nem sempre é possível ou mesmo recomendável. Por exemplo, ao adquirir e utilizar um bilhete de transporte aéreo, o consumidor pode receber um serviço com vício de qualidade por inadequação (um atraso decorrente de overbooking). Ora, não faz sentido determinar que o fornecedor, em tal caso, reexecute inteiramente o serviço. Ou seja, esta alternativa só é admissível quando a reexecução significar uma recomposição economicamente viável do vício de qualidade por inadequação. Como já dito, não é ela forma de punição do fornecedor, nem de enriquecimento sem causa do consumidor" (Comentários ao Código de Proteção do Consumidor, coord. Juarez Oliveira, São Paulo: Saraiva, 1991, art. 20, p. 106).

Aliás, fosse livre a escolha do consumidor, independentemente da natureza do serviço, entre pedir a restituição integral e o abatimento proporcional do preço, não há dúvida de que a maioria não optaria por este último, podendo preferir a devolução total.

Ou seja, o direito de opção previsto no art. 20, CDC, não pode afrontar, nem a proporcionalidade da conduta em relação ao dano causado, nem o princípio que veda o enriquecimento indevido.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO

QUARTA TURMA

Número Registro: 2001/0070121-2 RESP 328182 / RS

NÚMERO ORIGEM: 1194068043

PAUTA: 09/10/2001 JULGADO: 09/10/2001

Relator

Exmo. Sr. Ministro SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro CESAR ASFOR ROCHA Subprocuradora-Geral da República

Exma. Sra. Dra. CLÁUDIA SAMPAIO MARQUES Secretária

Bela: CLAUDIA AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE BECK AUTUAÇÃO

RECORRENTE : BEATRIZ HELENA BAPTISTA MALLMANN E OUTRO ADVOGADO : DANIEL BISOL E OUTRO

RECORRIDO : PORTO SUL AGÊNCIA DE VIAGENS E TURISMO LTDA ADVOGADO : ÊNIO ROBERTO GONÇALVES FERREIRA E OUTRO

ASSUNTO : CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR - RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA (FABRICANTE E FORNECEDOR) - VÍCIO DE QUALIDADE OU DE QUANTIDADE

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia QUARTA TURMA ao apreciar o processo em epígrafe, em sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

A Turma, por unanimidade, não conheceu do recurso.

Os Srs. Ministros Barros Monteiro, Cesar Asfor Rocha, Ruy Rosado de Aguiar e Aldir Passarinho Junior votaram com o Sr. Ministro Relator.

O referido é verdade. Dou fé.

Brasília, 09 de outubro de 2001

CLAUDIA AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE BECK Secretária

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