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6. Estas histórias foram fruto de uma verdade vivida com nudez crua e, por isso, foi estendido sobre todas aquele manto do Eça, o

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Academic year: 2021

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Notas explicativas

1. Meu caro leitor, uma advertência: está a abrir um livro de mor-tos. Morreu o mundo onde as cenas se passam e todos os que nelas intervêm. Mas se, mesmo assim, quer conhecer um mundo que aca-bou, venha daí! Muna-se de um lenço branco e de uma vela, dois objectos indispensáveis para se poder participar como convém num drama e num mistério.

Cujo pano de fundo é a vida de um médico em Trás-os-Montes nas duas primeiras décadas do século XX. Este médico, o doutor Ama-deu, existiu realmente, tal como existiram a Implantação da República, as contra-revoluções e incursões Couceiristas, a Grande Guerra de 1914--1918, a pandemia de Gripe Pneumónica e o Reino da Monarquia do

Norte. Existiu também (e existe ainda) a família do médico e da mulher do médico, tal como o cenário onde decorre a acção, Macedo de Ca-valeiros, então uma vilazita a despontar e em que os recursos da medi-cina eram poucos ou quase nenhuns – como em todo Portugal.

2. Estas histórias foram urdidas a partir de dois objectos: um fun-do de granada de obus e uma etiqueta manuscrita. O pedaço de grana-da de obus, partido e retorcido mas pesado, de cinta estriagrana-da, andou por nossa casa por aqui e por ali, a servir de pisa-papéis e de bibelot, tratado com alguma reverência por ser algo que tinha uma inscrição feita pelo avô Amadeu: «Fragmento de granada incendiária disparada

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contra Mirandela no combate de 9 de Fevereiro de 1919, pelas tropas realistas». A etiqueta foi encontrada entre papéis antigos, um pequeno cartãozinho com um texto escrito à pena, também pelo avô, que, se-gundo ainda ouvi ao meu pai, em tempos fora a legenda dum pedaço rasgado de cetim vermelho: «Retalho da bandeira que estava hasteada na varanda da casa do Registo Civil em Macedo e os amotinados quei-maram na manhã de 6-X-911 quando n’este concelho procuraram se-cundar os esforços de Paiva Couceiro para a reimplantação da Monarchia em Portugal». Desde sempre que tais objectos eram mais do que meras recordações de episódios passados – testemunhos palpáveis de uma fase intensa da história que foi vivida ainda há menos de um século e sobre a qual as pessoas de hoje parecem ter tomado a atitude de a querer esquecer.

3. Há anos, veio-nos um convite para uma festa de aniversário da Isabelinha, na Casa da Arcã, em Alijó. Fomos os cinco, a Mariana, os nossos filhos Vicente, Manuel e Vasco e eu. Nunca ali tinha ido. A casa efervescia de gente e rapidamente todos se espalharam em conversas e brincadeiras pelos aposentos. Uma parte da festarola decorria no rés--do-chão, numas antigas lojas de uso agrícola, reacomodadas e rede-coradas para fins mais consentâneos com a forma de viver do início do século XXI. A Casa da Arcã foi construída quase na viragem do século XIX para o XX, numa altura em que a Monarquia começava a ter muita gente que achava que ela devia fechar para balanço.

Esse dia de festa ficou-me inesquecível. Não só andei pela casa adivinhando cada aposento, prevendo cada porta, cada janela e cada lanço de escadas, mas também fiquei surpreendido porque o feitio dos rodapés, das ombreiras das portas, das almofadas, das dobradiças e, até, dalgumas fechaduras, era o mesmo da nossa casa de Macedo, na parte reconstruída em 1909 pelo avô Amadeu. Questão de modas da época!, dir--me-ão e eu aceitarei tal comentário como natural e plausível.

Só que houve ainda mais um pormenor insólito – e que porme-nor! – que aconteceu nessa festa: no hall de entrada estava uma mesa de centro, pé-de-galo a salientar a aparição, no tampo da qual estava pousado um velhinho álbum de fotografias. Era um daqueles álbuns

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Belle Époque para fotografias coladas em cartão impresso. Abri-o com uma intuição nervosa de que havia ali qualquer coisa. E se havia! Logo a primeira de todas, a ocupar toda a folha, era do avô Amadeu, foto de protocolo de licenciatura, pose sentada com ar grave de investidura, como uma que está pendurada no corredor da casa de Macedo.

Porquê?!, se o avô não era da família daquela casa? Chamei a atenção dos nossos anfitriões, disseram-me nada saber daquele álbum nem conhecer ninguém que ali estivesse retratado. «Esse álbum era de cá, quando muito de Alvites», foi a explicação que me deram, «és o primeiro a reconhecer aí quem quer que seja! Nós não conhecemos daí ninguém!». O Rodrigo Sarmento de Beires escreveu o nome do avô na própria foto. Pelo menos deixava de estar ali anonimamente.

Assumi os factos dessa tarde como uma interpelação, mais do que uma mera feliz coincidência.

4. O avô Amadeu, pai do meu pai, foi uma figura que eu nunca conheci. Morreu doze anos antes de eu ter nascido e a forma como me foi sempre retratado não foi simpática. Mais a modos, até, de não ser pessoa muito edificante: «morreu com aterosclerose, meio chôcho, a dizer e a fazer disparates»; «deu à Avó uma vida infeliz»; «os filhos foram-se-lhe embora de casa, por vergonha»; «era um mulherengo, gas-tava o dinheiro com mulheres, com umas quaisquer», foram frases que me habituei a ouvir toda a vida. Se na humanidade a história é escrita pelos vencedores, nas famílias é-o pelos sobreviventes e como foi a minha avó que lhe sobreviveu, uma senhora que o amou apaixonada-mente e a quem ele traiu até nas ilusões…

Comecei, então, a perguntar por ele a pessoas que ainda o tinham conhecido, e, se bem que todas tivessem implícito que, de facto, tinha defeitos, que me foram descrevendo, frase aqui, episódio ali, também tinha qualidades, surgindo-me uma imagem diferente do homem que no fim do século XIX deixou o Porto, onde estudou e fez o curso de medicina, e foi para Macedo, onde passou o resto da vida.

Compus, assim, o personagem que imergia de todas essas histó-rias contadas, a fazê-lo calhar com as fotografias em que aparecia em pose, a reconstituir pedaços da sua vida a partir de recortes de jornais,

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de anotações na sua biblioteca escolar e médica, das frases das suas notas de agenda e dos comentários de quem ainda tinha levado com um dos seus tratamentos – acompanhados de uma retórica própria, eloquência de província típica não só de uma época mas de quem tem tempo para dar mais do que atenção ao que está a fazer: «Ó tu que de humano tens mais que o gesto e o feito, vira para cá o c… e põe-te a jeito!» e zás!, dava então, acto contínuo, uma injecção ao primo Adria-no Falcão, ainda garoto, atarantado tanto com a tirada camoniana como com a agulha que o ia espetar no sim-senhor!

Acabei por estudar não apenas o homem mas também a família toda e a época – o que tem sido muito mais gratificante e cheio de peripécias do que uma aventura fantástica! Nasceu este livro, que o leitor tem na mão, e que nos faz mergulhar no ambiente de uma família trasmontana nas tremendas e vertiginosas duas primeiras décadas do século XX. Com uma trama imaginada onde se prendem factos verda-deiros, ocorridos nas localidades referidas e com a participação de muitos dos personagens colocados em cena. Em contraponto com um fio tecido cuja denúncia, aqui e agora, seria retirar ao leitor o sabor de se deixar arrastar entre a ficção e a realidade – ou de a descobrir por si, tarefa tão ou mais fascinante do que ficar-se pela leitura destas linhas. 5. Para esta prosa ser possível, foi preciso um grande volume de trabalho e foram executadas numerosas entrevistas e diligências pes-soais em arquivos e bibliotecas e recorrido a uma vasta bibliografia para consulta. Não caberão aqui todos a quem teria que agradecer mas não posso deixar de referir especialmente a Dr.ª Ana Maria Afonso e suas colaboradoras, do Arquivo Distrital de Bragança; o Dr. Gabriel Carvalho e as funcionárias do Registo Civil de Macedo; da Biblioteca de Vila Flor; da Biblioteca Municipal de Mirandela; a Lígia, a Margarida e a Maria do Pilar de Sousa Cardoso, minhas irmãs, que me contaram histórias e tes-temunhos e, a última, que teve a pachorra de andar a farejar em alfarra-bistas; o primo Luís Manuel Miranda Pereira, que me facultou fotocópias de documentos de família e me concedeu um nihil obstat necessário para manter a autenticidade de fundo dalgumas das histórias; a especial e minha única centenária amiga Maria Isabel Charula, que me fez

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co-mungar de muitas memórias; a muito amiga Maria Noémia Pontes, que me cedeu um libreto, perdido durante anos e achado a tempo de cum-prir o seu papel inspirador, verdadeira janela aberta sobre a tertúlia da

farmácia; o meu amigo Joaquim Ribeiro, que me emprestou um opús-culo sobre a Traulitânia; a prima Maria Antónia, extraordinária contado-ra de episódios e happenings, fundamental pacontado-ra a identificação de alguns personagens e lugares; a Rosalba e o Alexandre Carvalho Neto, que me espicaçaram a escrever as histórias investigadas; o primo José e a Blé, que, quase sem se aperceberem, me deram dicas de onde brotaram parágrafos, assim como os primos Adriano, Maria Fernanda e António de Sousa Falcão, com quem partilhei muitos serões e momentos ines-quecíveis – absolutamente inesines-quecíveis! – de recordação e recitação de acontecimentos e de quem este livro bebe muita saudade.

Foi, até, este último, quem acabou por ser o percutor de uma boa parte do meu interesse pelo avô. É que uma vez que eu lhe disse «parece que o avô Amadeu morreu já tonto, sem saber bem o que fazia, dias antes a querer dar quinhentos escudos pelo beijo de uma criada», ele retorquiu-me que «não, o teu avô não estava tonto, dizer isso foi uma forma de passar um pano sobre coisas que ficavam da vida dele». Por decoro familiar mais não me explicou mas o sentido um tanto enigmático e agathachristiano da frase veio aguçar mais ainda o meu já elevado interesse. A partir daí, não parei. Não podia deixar de investi-gar sobre uma história que aqui se escreve para que se não perca.

Mas este livro não é um livro de história. É de histórias. E, uma vez escritas, para saber se mereceriam ser lidas, vali-me da opinião dos meus compadres Ana Cristina e o Afonso Ruano, de uma crítica directa e sem rebuço, e da do Dr. Coutinho, amante de clássicos e capaz de me aconselhar a estante ou o caixote do lixo. De salientar que leram a primeira versão, ainda em bruto e antes de ser mondada e podada! Cabe, por isso, agradecer-lhes o duplo sacrifício, a pachorra e o esfor-ço! Tal como a que teve o meu caro cunhado Gonçalo, que leu, ano-tou, sugeriu e assumiu a responsabilidade do imprimatur.

6. Estas histórias foram fruto de uma verdade vivida com nudez

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manto diáfano da fantasia, para que o avô Amadeu e os que nelas aparecem não se sintam traídos. Todos eles me merecem o maior dos respeitos e fiquei a ter por eles, ao surpreendê-los no seu dia a dia de trabalho e aventura, nos seus sonhos e nos seus dramas, mais do que uma grande saudade. Que me obrigou, acima de tudo, a escrever com todo o amor.

E, por falar de amor, não poderia, de maneira nenhuma, esquecer aqui o maior agradecimento de todos: à Mariana – habituada a ler

best--sellers e obras-primas! – e que teve a pachorra de ler, reler e sugerir um retoque nalguma frase menos elegante. Pode crer o leitor que lhe fica a dever tanto como eu!

Finalmente, aos nossos filhos Vicente, Manuel e Vasco, a gratidão por terem aguentado os meses de redacção, perplexos diante de res-postas agrestes que não era eu a dar-lhas mas um outro, absorto em querer meter na ordem algum jacobino, a enxotar de casa algum carbo-nário ou, simplesmente, exausto depois de uma jornada a cavalo a ver doentes e a aturar teimosias na asneira!

Manuel Cardoso

solstício de Verão de 2005, oitenta e três anos depois de grassar a primeira vaga da gripe espanhola.

Regionalismos

Abonde – suficiente Baraço – cordel Bichas – lombrigas

Escarqueijar – lavar a fundo de modo a tirar o sarro dos interstícios; desodorizar

Esvarar – escorregar Mancar – fazer troça

Referências

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