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PROCESSO Nº TST-RO A C Ó R D Ã O SBDI-2 GMRLP/aon/th

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP

A C Ó R D Ã O SBDI-2

GMRLP/aon/th

RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA DA LITISCONSORTE PASSIVA. ACIDENTE DE TRABALHO. LESÕES DECORRENTES DE QUEIMADURAS QUE ATINGIRAM 47% DO CORPO DO EMPREGADO. IMPOSSIBILIDADE DE RETORNO ÀS FUNÇÕES IGUAIS OU SIMILARES ÀS ANTERIORMENTE EXERCIDAS. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS PREVISTOS NO ART. 300 DO CPC/2015. CONCESSÃO PARCIAL DA SEGURANÇA. Conclui-se caracterizada a

probabilidade do direito e o perigo de dano de que cogita o art. 300 do CPC/2015 quando verificado que o Tribunal Regional, ao conceder parcialmente a

segurança, fundamentou-se

essencialmente na prova

pré-constituída formada nos autos, a qual revela fatos incontroversos relacionados ao acidente de trabalho sofrido pelo impetrante e também à impossibilidade, ao menos em princípio, do exercício de atividades iguais ou similares às praticadas anteriormente ao infortúnio causador de queimaduras em 47% do corpo do empregado. Nestas circunstâncias, o indeferimento do pedido de troca de função e/ou setor de trabalho para atividade diversa daquela exercida anteriormente ao acidente de trabalho evidencia ofensa a direito líquido e certo do impetrante, mormente quando demonstrado o preenchimento dos

requisitos legais necessários à

concessão parcial da tutela pretendida.

Recurso ordinário conhecido e desprovido.

RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA DO IMPETRANTE. ACIDENTE DE TRABALHO. LESÕES DECORRENTES DE QUEIMADURAS QUE ATINGIRAM 47% DO CORPO DO EMPREGADO. PRETENSÃO DE RECONHECIMENTO DE “ESTABILIDADE

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP

ACIDENTÁRIA” E CONSEQUENTE GARANTIA DE EMPREGO ATÉ A APOSENTADORIA. A

pretensão de reconhecimento da

“estabilidade acidentária” e a consequente garantia de emprego até a aquisição do direito à aposentadoria, com base em interpretação da norma coletiva, deve ser objeto de análise exauriente no

juízo natural da causa, sendo

insuscetível de deliberação em sede de mandado de segurança. Recurso ordinário

conhecido e desprovido.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Ordinário n° TST-RO-20171-78.2019.5.04.0000, em que são Recorrentes e Recorridos PIRELLI PNEUS LTDA. e LUCIANO CANEVA DE ANDRADE e Autoridade Coatora JUÍZO DA 3ª VARA DO TRABALHO DE GRAVATAÍ/RS.

Trata-se de mandado de segurança impetrado Luciano Caneva de Andrade em face de decisão proferida pelo Juízo da 3ª Vara do Trabalho de Gravataí/RS, nos autos da reclamatória que tramita sob o número 0020717-50.2018.5.04.0233, indeferindo o pedido de tutela antecipada que pretendia a troca de sua função e/ou setor de trabalho,

dentro da sede da ora litisconsorte e o reconhecimento da “estabilidade

acidentária” e a garantia de emprego até a aposentadoria.

A liminar foi parcialmente deferida por decisão monocrática do relator (págs. 498-501, seq.2).

O litisconsorte interpôs agravo regimental

(págs.536-544).

Posteriormente, o Tribunal Regional, por maioria, concedeu parcialmente a segurança (págs.638-647).

Inconformados, o impetrante e o litisconsorte passivo interpuseram recurso ordinário (págs. 660-676 e 652-659).

Foram apresentadas contrarrazões (págs. 690-695 e 696-701).

O Ministério Público do Trabalho opinou pelo conhecimento e desprovimento dos recurso ordinários (seq.6).

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP Os autos foram redistribuídos a este relator em 05/03/2020 (seq.12).

É o relatório.

V O T O

RECURSO ORDINÁRIO DA PIRELLI CONHECIMENTO

Preenchidos os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso ordinário.

MÉRITO

O recorrente pretende a reforma do acórdão recorrido afirmando que “Ao contrário do entendimento esboçado pelo E. Tribunal, não há suporte fático nem legal para o pedido objeto do presente mandamus, de tutela de urgência para „determinar a troca de função e/ou setor do impetrante dentro da empresa‟” e “Os documentos trazidos aos autos pelo impetrante foram impugnados na ação de origem, por não haverem sido elaborados ou avalizados por médico do trabalho ou perito do INSS, não comprovando sobremaneira que o impetrante tenha qualquer doença atualmente e especialmente que seja decorrente do trabalho”.

Diz que “Contrariamente ao que quer fazer crer a parte impetrante, de toda

a documentação carreada aos autos não se vê uma única orientação médica ou mesmo do INSS para a troca de função”; “os laudos médicos mencionados e juntados pelo impetrante, não contem indicação de troca de função”; “As duas premissas são absolutamente distintas, especialmente porque as atividades desenvolvidas pelo impetrante jamais lhe causavam risco ou exposição a calor excessivo, muito menos risco ergonômico” e “desde a alta previdenciária, ocorrida em 16/01/2018 o impetrante está em plena atividade, laborando normalmente”.

Assevera que “Na verdade, o impetrante busca narrar uma situação inexistente, fatos que jamais ocorreram, na tentativa de induzir o juízo em erro, o que não pode ser permitido”.

Pugna para que “seja dado provimento ao presente recurso ordinário e

reformado o acórdão, a fim de que reste determinada a suspensão do ato impugnado, que mandou reintegrar o autor ao quadro de funcionários da recorrente, observado o mesmo cargo, salário, vantagens e sistema de jornada de trabalho aplicados ao tempo da dispensa, com acréscimo das vantagens eventualmente concedidas à categoria durante o período de afastamento”.

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP

O Tribunal Regional, por maioria, concedeu

parcialmente a segurança pelos seguintes fundamentos. In verbis: FUNDAMENTAÇÃO

Alega o impetrante que na ação subjacente, busca, além da tutela de urgência aqui em debate (tendo em conta o indeferimento pela autoridade coatora), o reconhecimento da estabilidade acidentária e a consequente

garantia de emprego prevista no acordo coletivo de trabalho, em razão do acidente de trabalho sofrido por ele em 23-06-2017. Ainda, naquela

ação, postula a manutenção do plano de saúde, a condenação das reclamadas ao pagamento de indenização por danos morais e materiais e o pagamento de pensão mensal vitalícia, bem assim honorários advocatícios. Dito isso, refere que foi contratado pela reclamada em 04-09-2008 para exercer o cargo de "Auxiliar Produção Pneus", mencionando que em tal função, laborou três semanas nos frisos, passou para o armazém e, dois meses depois, foi transferido para a máquina RASPADEIRA ESPADONE DO FLANCO BRANCO, responsável por fazer o acabamento final do pneu de Harley. Salienta que nessa máquina, ele era responsável por realizar duas atividades: a raspagem do pneu, a qual operava a 400ºC, e, posteriormente, a inspeção do mesmo. Diante do risco iminente existente na máquina, afirma que existia nela um sistema anti-incêndio, que deveria prevenir a explosão através de sensores de calor e tubos de CO2. Afirma que por turno, realizava a raspagem de 120 a 180 pneus. Todavia, não obstante o cuidado de realizar a limpeza de resíduos, aduz que por vezes ocorria princípios de incêndio na máquina, tendo em vista que se criava uma pequena brasa atrás do rebolo, fruto do acúmulo de pó de borracha. Destaca que enquanto laborou nessa máquina (durante 9 anos - até o acidente), ele participava de reuniões mensais entre os operadores, coordenadores e gestores para falar sobre a segurança do trabalho, reuniões essas denominadas de "Diálogo de Segurança"; ocasiões em que na presença dos coordenadores, relatava os perigos iminentes da máquina , tendo em vista que diariamente criava-se uma chama/brasa, colocando em risco a vida de todos com princípios de incêndios, porém, não obteve resposta, senão pelo contrário: permanecia a inércia da reclamada em relação aquele risco. Assim, afirma que no dia 23-06-2017, deu-se início ao turno em que ocorreu o acidente de trabalho. Assevera que após ligar a máquina e passar alguns pneus, abriu a "portinhola" para realizar a limpeza do pó de borracha que, como de costume, deveria estar acumulado e grudado na carenagem da exaustão. Foi então que, ao verificar a quantidade de pó que estava acumulado, aduz que viu o clarão e o fogo vindo em sua direção, de cima para baixo, dando tempo, tão somente, de virar o rosto para o outro lado, acontecendo, a partir daí, várias explosões, através de um "efeito lança chamas". Defende que tal fato ocorreu porque, ao que tudo indica, uma brasa havia sido sugada no turno anterior e, principalmente, porque o sistema de CO2, não estava funcionando, modo contrário os sensores ativariam a liberação do CO2 que eliminaria o oxigênio e, via de consequência, evitaria a proliferação do fogo.

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP Alega que o fogo foi tamanho que durante três meses a máquina ficou queimando por dentro o pó de borracha altamente inflamável, porquanto não conseguiam limpá-la adequadamente. Em decorrência disso, informa que teve grande parte do seu corpo queimado e deu-se início ao seu sofrimento e desespero. Relata a demora da reclamada em lhe prestar as devidas assistências, apontando que embora o acidente tenha ocorrido por volta das 14/15h do dia 23-06-2017, ele só deu entrada no Hospital Mãe de Deus às 3h48min do dia 24-06-2017, ou seja, mais de 12 horas depois, com 49% da superfície corporal queimada, entre cabeça, tronco posterior e membros superiores, vindo a permanecer na UTI durante quase um mês. Menciona que durante esse período ficou durante duas semanas em coma induzido e, dentre outras coisas, passou por ressuscitação volêmica, hemodiálise, bem assim teve que colocar uma sonda retal. Aduz que pleiteou junto à Generali Brasil Seguros, conveniada da reclamada, o seguro referente à invalidez permanente, o qual lhe fora concedido, destacando que após quase seis meses em benefício acidentário pelo INSS, retornou ao trabalho no dia 15-01-2018. Salienta que, em que pese seu coordenador Anderson Jardineiro tivesse tentado colocá-lo na mesma máquina em que ocorreu o acidente, ele acabou sendo lotado na máquina "Conserto do Flanco Branco", embora esteja incapacitado de continuar a exercer a função que vinha exercendo, tanto numa, quanto noutra máquina, em razão da limitação funcional, fruto das sequelas deixadas pelas queimaduras. Além disso, afirma que não obstante o grave acidente ocorrido com ele, o modus operandi da máquina segue exatamente igual, estando o trabalhador, mais uma vez, exposto ao alto risco que ela oferece, porquanto labora ao lado da mesma. Aponta que o atestado médico emitido em janeiro de 2019 pela Dra. Mercedes Balkey dá conta de que ele encontra-se em "acompanhamento dermatológico pós queimadura cutânea extensa", sendo recomendado "evitar exposição aos extremos de temperatura". Dessa forma, salienta que é desnecessária a dilação probatória para inferir que ele possui sequelas permanentes, fruto do acidente de trabalho sofrido. Em que pese estar apto para exercer atividades laborais, aduz que evidentemente que essas devem ocorrer em local adequado, que não concorra para o agravamento da sua enfermidade. Destaca que, considerando a redução da sua capacidade laborativa, em virtude das sequelas deixadas pela queimadura de 39% do seu corpo (cicatrização hipertrófica e queloidiana), que restringe sua atuação em ambientes de calor ou frio, tendo em vista a perda da proteção térmica da pele, bem assim a exposição a produtos químicos (arol, negro do fumo, óleo, graxa, canavieira etc), névoas, gases, poeira, dentre outros, constituem-se em uma clara limitação funcional/ambiental, em razão do que se pretende a correção da ilegalidade perpetrada pelo juízo a quo com o ajuizamento deste writ, para efetivar a troca de sua função e/ou setor de trabalho. De outra banda, menciona que há garantia de emprego prevista em acordo coletivo vigente durante o seu contrato de trabalho, estabelecida na cláusula 17ª. Assim,

requer a concessão, com deferimento liminar, nos termos do inciso III, do art. 7º, da Lei n.º 12.016/09, porquanto preenchido os requisitos

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP

legais do art. 300 do CPC, para: a) reconhecer a estabilidade acidentária e a consequente garantia de emprego prevista na cláusula décima sétima do acordo coletivo de trabalho, até a aquisição do direito à aposentadoria e/ou enquanto perdurar a doença, com a manutenção do contrato de trabalho até o final julgamento do feito subjacente; b) ordenar a sua imediata troca de função e/ou setor dentro da empresa, devendo observar e consignar em sua ficha de empregado restrição ambiental, ou seja, não exposição ao calor e/ou frio, bem como produtos químicos (arol, negro do fumo, óleo, graxa, canavieira, etc), névoas, gases, poeira, dentre outros; tal como sugerido na inicial, no setor administrativo.

Examino

Nos termos do art. 1º da Lei nº 12.016/09, "conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça".

No caso concreto, mostra-se cabível a interposição de mandado de segurança, pois não há outro recurso para cassar decisão interlocutória que indefere pedido de tutela provisória de urgência.

Entendo estar evidente a presença dos requisitos do art. 300 do CPC/2015, quais sejam, a probabilidade do direito e o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo, os quais restaram firmemente demonstrados, a saber.

A probabilidade do direito, apto ao deferimento da tutela requerida no presente mandamus, deferida liminarmente, está no fato de que está devidamente demonstrado pela prova documental que o impetrante sofreu grave acidente de trabalho, nas dependências da reclamada. Em decorrência disso, restou com sequelas permanentes e restrições para o labor nas mesmas condições em que ocorrido o acidente.

Nesse sentido, destaco o teor do atestado médico acostado no ID. 464afa8 - Pág. 1, no qual a Dermatologista Mercedes Balkey afirma que o impetrante deve evitar exposição aos extremos de temperatura. As fotos juntadas no ID. b5176f2 - Págs. 7 a 9 não deixam dúvidas acerca da gravidade das queimaduras sofridas pelo trabalhador.

Por outro lado, verifico que a cláusula 17ª do acordo coletivo, vigente de 2016 a 2018, dispõe que:

"ESTABILIDADE ACIDENTADOS/PORTADORES DOENÇA

PROFISSIONAL CLÁUSULA DÉCIMA SÉTIMA - GARANTIA DE EMPREGO AO EMPREGADO ACIDENTADO

Será garantido aos empregados acidentados no trabalho, incapacitados de continuar a exercer a função que vinham exercendo, e em condições de exercer qualquer função compatível com seu estado físico, após o acidente, que serão mantidos na EMPRESA, sem prejuízo da remuneração antes

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP percebida, até a aquisição pelo empregado do direito à aposentadoria, devendo ser observado o seguinte:

a) - Estes empregados não poderão ser despedidos a não ser em razão de acordo ou prática de falta grave, independentemente da apuração judicial; b) - Demonstrando o empregado por atestado do INSS que é portador de doença profissional, e que a adquiriu no seu atual emprego, ou teve agravada, enquanto esta perdurar, passará a gozar das garantias previstas nesta Cláusula.

c) - Essa garantia é assegurada durante a vigência do presente ACORDO COLETIVO, inclusive em relação aos acidentes ocorridos em data anterior à referida vigência." - ID. 6b3cd7b - Pág. 4. Grifou-se.

Ademais, os documentos constantes nos autos da ação subjacente, ID. b5176f2 e seguintes, corroboram as assertivas do impetrante, no que diz respeito à necessidade de troca de função e setor de trabalho na litisconsorte, bem como em relação a ser detentor da garantia de emprego, nos moldes previstos em norma coletiva, ou seja, até a sua aposentadoria.

Na realidade, na situação dos presentes autos, sequer é necessário que se aprofunde a atual redução da capacidade laborativa do autor, em razão do acidente de trabalho do qual foi vítima, pois, segundo constatado por meio

da prova documental juntada pelo impetrante, é evidente a sua incompatibilidade física (e até mesmo emocional) em seguir no exercício das atividades laborativas desempenhadas por ele anteriormente.

Nesse contexto, a reclamada deveria ter, no mínimo, revisto o enquadramento do autor em função similar aquela desenvolvida quando do sinistro (e laborando ainda ao lado da máquina que o vitimou), e, considerando o contexto apresentado, encaminhado o trabalhador para uma atividade mais apropriada ao seu atual estado de saúde.

A situação que exsurge dos autos da ação subjacente faz presumir que a manutenção do indeferimento da tutela antecipada poderia ocasionar prejuízos indeléveis ao impetrante, o que evidencia a plausibilidade da concessão da tutela, sem olvidar do princípio da proporcionalidade - o que corresponde, também, ao dano ou risco resultado útil do processo. Busca-se evitar que um bem maior (a saúde integral do trabalhador) seja sacrificado em face de um bem menor (a eventual reversão desta decisão em sentença), segundo uma escala racional de valores - o que se evidencia pela urgência que possui o impetrante em ver seus pleitos deferidos.

Não desconheço que a análise acerca do cabimento ou não da tutela provisória de urgência cabe ao julgador da origem, entretanto, quando não há recurso específico contra a decisão e estão preenchidos os requisitos para concessão da medida antecipatória, entendo haver direito líquido da parte, em face do que dispõe o inciso LXXVIII do art. 5º, da CF/88.

Igualmente, quando é flagrante a ausência dos requisitos do art. 300 do CPC/2015 e o julgador concede a tutela provisória pretendida, entendo que a

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP parte prejudicada pode valer-se do mandado de segurança para cessar os efeitos da decisão, por se tratar de ato ilegal. Tal entendimento resta confirmado pela redação do Código de Processo Civil de 2015, que abandonou a expressão "poderá" do antigo art. 273 e a substituiu por "será" no art. 300 do atual CPC, verbis:

"A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo."

CONCEDO A SEGURANÇA e ratifico a decisão liminar em que

concedida a tutela de urgência postulada no processo n.

0020717-50.2018.5.04.0233, reconhecendo a estabilidade acidentária e a consequente garantia de emprego prevista na cláusula 17ª, do acordo coletivo de trabalho, até a aquisição do seu direito à aposentadoria e/ou enquanto perdurar a doença, bem como ordenando a sua imediata troca de função e/ou setor dentro da empresa, preferencialmente para a área administrativa, devendo ser consignada em sua ficha de empregado, a sua restrição ambiental, química e física.

BRIGIDA JOAQUINA CHARAO BARCELOS Relator

VOTOS

DESEMBARGADOR ROGER BALLEJO VILLARINHO:

Na condição de Revisor, acompanho os mesmos fundamentos da divergência parcial apresentada pelo Exmo. Desembargador Manuel Cid Jardon.

DESEMBARGADOR RAUL ZORATTO SANVICENTE:

Com a devida vênia, acompanho as divergências, porém ressalvando fundamentos, especialmente no que concerne ao seguinte trecho do voto:

"O mero fato de o trabalhador ter sido vítima de acidente de trabalho não é condição que lhe assegure a vantagem em questão até aposentadoria, ademais quando sequer foi obtida a reabilitação pelo trabalhador junto ao INSS".

DESEMBARGADOR ANDRÉ REVERBEL FERNANDES:

Acompanho as divergências, porém com as ressalvas de fundamentos do DESEMBARGADOR RAUL ZORATTO SANVICENTE.

DESEMBARGADOR FERNANDO LUIZ DE MOURA CASSAL: Peço vênia ao eminente Relator para acompanhar a divergência apresentada pelo Exmo. Desembargador Manuel Cid Jardon.

DESEMBARGADORA KARINA SARAIVA CUNHA: Divergência parcial.

Tal como a Exma. Relatora entendo que a necessidade de troca de setor e função configura situação que demanda tutela de urgência, em razão da condição de saúde do impetrante.

Entretanto, o reconhecimento de estabilidade acidentária e consequente garantia de emprego prevista na cláusula 17ª, do acordo coletivo de trabalho, até a aquisição do seu direito à aposentadoria e/ou enquanto

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP perdurar a doença demanda cognição exauriente, imprópria de ser concedida no juízo sumário do Mandado de Segurança.

Voto por conceder em parte a segurança para determinar a imediata troca de função e/ou setor do impetrante dentro da empresa, preferencialmente para a área administrativa.

DESEMBARGADOR FABIANO HOLZ BESERRA:

Com a vênia da eminente Relatora, acompanho a divergência apresentada pelo Desembargador Manuel Cid Jardon, com a ressalva de fundamentos feita pelo Desembargador Raul Zoratto Sanvicente.

DESEMBARGADORA ANGELA ROSI ALMEIDA CHAPPER: Com a vênia da Exma Relatora, acompanho a divergência lançada pelo Des. Manuel Cid Jardon.

DESEMBARGADOR MARCOS FAGUNDES SALOMÃO:

Peço vênia ao eminente Relator para acompanhar a divergência apresentada pelo Exmo. Desembargador Manuel Cid Jardon.

DESEMBARGADOR MANUEL CID JARDON:

Com a devida vênia da Exma. Relatora, divirjo parcialmente do voto condutor.

O impetrante é empregado da litisconsorte e sofreu acidente de trabalho em 23/06/2017, sofrendo queimaduras em 47% do corpo.

Usufruiu de benefício previdenciário até 15/01/2018 e, assim, foi detentor da garantia de emprego do artigo 118 da Lei n. 8.213/91 até janeiro de 2019.

Por conta disso, postulou a troca de setor, bem como a garantia de emprego até a aposentadoria, conforme previsto na cláusula 17 da Convenção Coletiva de Trabalho de 2016/2018 (ID 6b3cd7b) , cujos

termos são os seguintes:

CLÁUSULA DÉCIMA SÉTIMA - GARANTIA DE EMPREGO AO EMPREGADO ACIDENTADO

Será garantido aos empregados acidentados no trabalho, incapacitados de continuar a exercer a função que vinham exercendo, e em condições de exercer qualquer função compatível com seu estado físico, após o acidente, que serão mantidos na EMPRESA, sem prejuízo da remuneração antes percebida, até a aquisição pelo empregado do direito à aposentadoria, devendo ser observado o seguinte:

a) - Estes empregados não poderão ser despedidos a não ser em razão de acordo ou prática de falta grave, independentemente da apuração judicial; b) - Demonstrando o empregado por atestado do INSS que é portador de doença profissional, e que a adquiriu no seu atual emprego, ou teve agravada, enquanto esta perdurar, passará a gozar das garantias previstas nesta Cláusula.

Segundo o preconizado no instrumento normativo, há a garantia de emprego quando constatada a incapacidade laboral, o que, no caso, não se evidencia sem produção de prova exauriente. Cumpre destacar que este exame de prova é pertinente à ação subjacente, e não à cognição sumária de mandado de segurança.

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP

O mero fato de o trabalhador ter sido vítima de acidente de trabalho não é condição que lhe assegure a vantagem em questão até aposentadoria, ademais quando sequer foi obtida a reabilitação pelo trabalhador junto ao INSS.

Ainda, eventuais danos estéticos não possibilitam a interpretação extensiva de norma coletiva. Há que se atender estritamente os contornos de norma prevista pelas entidades sindicais, senão se estará criando norma não prevista em instrumento normativo.

Assim, não se denota a ilicitude e a abusividade da decisão de origem que não concedeu liminar de concessão da garantia de emprego até a aposentadoria, nos moldes normativos.

Todavia, quanto à troca de setor, mostra-se razoável e prudente, tendo em vista que o impetrante já foi vítima de grave acidente no local no qual atualmente presta serviço.

Concede-se parcialmente a segurança para ordenar a sua imediata troca de função e/ou setor dentro da empresa, preferencialmente para a área administrativa, devendo ser consignada em sua ficha de empregado, a sua restrição ambiental, química e física. (sem

destaques no original)

Consoante se depreende dos autos, o Tribunal Regional, por maioria, decidiu “conceder parcialmente a segurança para ordenar a sua imediata troca de função e/ou setor dentro da empresa, preferencialmente para a área administrativa, devendo ser consignada em sua ficha de empregado, a sua restrição ambiental, química e física”. Para tanto, o Colegiado Regional consignou, dentre outros, os seguintes fundamentos: a) “Entendo estar evidente a presença dos requisitos do art. 300 do CPC/2015, quais sejam, a probabilidade do direito e o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo, os quais restaram firmemente demonstrados”; b) “A probabilidade do direito, apto ao deferimento da tutela requerida no presente mandamus, deferida liminarmente, está no fato de que está devidamente demonstrado pela prova documental que o impetrante sofreu grave acidente de trabalho, nas dependências da reclamada. Em decorrência disso, restou com sequelas permanentes e restrições para o labor nas mesmas condições em que ocorrido o acidente”; c) “Nesse sentido, destaco o teor do atestado médico acostado no ID. 464afa8 - Pág. 1, no qual a Dermatologista Mercedes Balkey afirma que o impetrante deve evitar exposição aos extremos de temperatura. As fotos juntadas no ID. b5176f2 - Págs. 7 a 9 não deixam dúvidas acerca da gravidade das queimaduras sofridas pelo trabalhador“; d) “Ademais,

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP os documentos constantes nos autos da ação subjacente, ID. b5176f2 e seguintes, corroboram as assertivas do impetrante, no que diz respeito à necessidade de troca de função e setor de trabalho na litisconsorte, bem como em relação a ser detentor da garantia de emprego, nos moldes previstos em norma coletiva, ou seja, até a sua aposentadoria”.

Ressaltou-se, ainda, que “segundo constatado por meio da prova documental juntada pelo impetrante, é evidente a sua incompatibilidade física (e até mesmo emocional) em seguir no exercício das atividades laborativas desempenhadas por ele anteriormente”; e “A situação que exsurge dos autos da ação subjacente faz presumir que a manutenção do indeferimento da tutela antecipada poderia ocasionar prejuízos indeléveis ao impetrante, o que evidencia a plausibilidade da concessão da tutela, sem olvidar do princípio da proporcionalidade - o que corresponde, também, ao dano ou risco resultado útil do processo. Busca-se evitar que um bem maior (a saúde integral do trabalhador) seja sacrificado em face de um bem menor (a eventual reversão desta decisão em sentença), segundo uma escala racional de valores - o que se evidencia pela urgência que possui o impetrante em ver seus pleitos deferidos”.

Portanto, o Tribunal Regional, ao conceder

parcialmente a segurança, fundamentou-se essencialmente na prova pré-constituída formada nos autos, a qual revela fatos incontroversos relacionados ao acidente de trabalho sofrido pelo impetrante e também a impossibilidade, ao menos em princípio, que aquele exerça atividades iguais ou similares às exercidas anteriormente ao infortúnio causador de queimaduras em 47% do corpo do empregado.

Como bem salientado no acórdão recorrido, “a reclamada deveria ter, no mínimo, revisto o enquadramento do autor em função similar aquela desenvolvida quando do sinistro (e laborando ainda ao lado da máquina que o vitimou), e, considerando o contexto apresentado, encaminhado o trabalhador para uma atividade mais apropriada ao seu atual estado de saúde”.

Desta forma, o indeferimento do pedido de troca de função e/ou setor de trabalho para atividade diversa daquela exercida anteriormente ao acidente de trabalho evidencia ofensa a direito líquido e certo do impetrante, mormente quando adequadamente demonstrada a

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP probabilidade do direito e perigo de dano previsto no art. 300 do CPC/2015 a evidenciar a necessidade de concessão da tutela pretendida.

Portanto, diante dos fatos acima destacados, aliados aos fundamentos consignados pelo Tribunal Regional, não se vislumbra a possibilidade de alterar o acórdão recorrido.

Os demais aspectos levantados pelo recorrente nas razões do recurso ordinário devem ser dirimidos no juízo natural da causa, sendo insuscetíveis de deliberação em sede de mandado de segurança.

Ante o exposto, nego provimento ao recurso ordinário.

RECURSO ORDINÁRIO DO IMPETRANTE CONHECIMENTO

Preenchidos os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso ordinário.

MÉRITO

O recorrente reitera fatos e argumentos expostos na petição inicial, além de outro caracterizado como “fato novo e superveniente” para sustentar a necessidade de reconhecimento da estabilidade acidentária prevista em norma coletiva.

Pugna pelo “PROVIMENTO a este recurso para conceder totalmente a segurança, reconhecendo a estabilidade acidentária e a consequente garantia de emprego prevista na cláusula 17ª do acordo coletivo de trabalho vigente à época do acidente de trabalho, até a aquisição do direito à aposentadoria e/ou enquanto perdurar a doença, com a manutenção do contrato de trabalho até o final julgamento do feito subjacente”.

Contudo, a pretensão de reconhecimento da “estabilidade acidentária” e a consequente garantia de emprego até a aquisição do direito à aposentadoria, com base em interpretação da norma coletiva, deve ser objeto de análise exauriente no juízo natural da causa, sendo insuscetível de deliberação em sede de mandado de segurança.

Aliás, a matéria levantada pelo impetrante revela-se de uma natureza demasiadamente controvertida, tanto é assim que no voto divergente do Desembargador Manuel Cid Jardon, acolhido pela maioria, a pretensão foi afastada aos fundamentos de que “Segundo o preconizado

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Firmado por assinatura digital em 16/12/2020 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP no instrumento normativo, há a garantia de emprego quando constatada a incapacidade laboral, o que, no caso, não se evidencia sem produção de prova exauriente. Cumpre destacar que este exame de prova é pertinente à ação subjacente, e não à cognição sumária de mandado de segurança” e “O mero fato de o trabalhador ter sido vítima de acidente de trabalho não é condição que lhe assegure a vantagem em questão até aposentadoria, ademais quando sequer foi obtida a reabilitação pelo trabalhador junto ao INSS”.

Portanto, no aspecto em particular, não se vislumbra ilicitude e a abusividade da decisão que indeferiu a tutela provisória

de urgência reconhecendo a “estabilidade acidentária” e a garantia ao emprego até

a aposentadoria.

Ressalte-se, por fim, que a petição e documentos juntados pelo impetrante nos seqs.7 e 10 e não servem ao propósito pretendido, visto que a matéria invocada deve ser dirimida no juízo de origem.

Nego provimento.

ISTO POSTO

ACORDAM os Ministros da Subseção II Especializada em

Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade: I – conhecer do recurso ordinário da Pirelli Pneus Ltda. e, no mérito, negar-lhe provimento; II - conhecer do recurso ordinário do impetrante, e, no mérito, negar-lhe provimento. Por consequência, indeferem-se os pedidos veiculados nas petições de seqs. 7 e 10.

Brasília, 15 de dezembro de 2020.

Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)

RENATO DE LACERDA PAIVA Ministro Relator

Referências

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