herberto helder POESIA_TODA_1953-1989.pdf

Texto

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POESIA TODA / HERBERTO HELDER

AUTOR: Helder, Herberto, 1930-

PUBLICAÇÃO: Lisboa : Assírio & Alvim, 1990

DESCR. FÍSICA: 575 p. ; 24 cm

ISBN: 972-37-0252-5

DEP. LEGAL: PT -- 34018/90

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ÍNDICE

A COLHER NA BOCA (1953-1960)

Prefácio Tríptico

I - «Transforma-se o amador na coisa amada» com seu

II - Não sei como dizer-te que minha voz te procura

III - Todas as coisas são mesa para os pensamentos

O amor em visita O poema

I - Um poema cresce inseguramente

II - A palavra erguia-se como um candelabro,

III - Às vezes estou à mesa: e como ou sonho ou estou

IV - Nesta laranja encontro aquele repouso frio

V - Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria

VI - Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina

VII - A manhã começa a bater no meu poema.

Fonte

I - Ela é a fonte. Eu posso saber que é

II - No sorriso louco das mães batem as leves

III - Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta

IV - Mal se empina a cabra com as patas traseiras

V - Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,

VI - Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo

Elegia múltipla

I - Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa

II - Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta

III - Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.

IV - A colher de súbito cai no silêncio da língua.

V - Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam

VI - São claras as crianças como candeias sem vento,

VII - Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus

As musas cegas

I - Bruxelas, um mês. De pé sob as luzes encantadas.

II - Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada

III - Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio

IV - Mulher, casa e gato.

V - Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira

VI - É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto

VII - Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.

VIII - Ingoro quem dorme, a minha boca ressoa.

Narração de um homem em maio POEMACTO (1961)

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III - O actor acende a boca. Depois, os cabelos.

IV - As vacas dormem, as estrelas são truculentas,

V - As barcas gritam sobre as águas.

LUGAR (1961-1962)

Aos amigos

Para o leitor ler de/vagar Lugar

I - Uma noite encontrei uma pedra

II - Há sempre uma noite terrível para quem se despede

III - As mulheres têm uma assombrada roseira

IV - Há cidades cor de pérola onde as mulheres

V - Explico uma cidade quando as luzes evoluem.

VI - Às vezes penso: o lugar é tremendo.

VII - Pequenas estrelas que mudam de cor, frias

Lugar último Teoria sentada

I - Um lento prazer esgota a minha voz. Quem

II - Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada

III - A minha idade é assim — verde, sentada.

IV - Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis irrespiráveis

V - Muitas canções começam no fim, em cidades

VI - É a colina na colina, colina

Retratíssimo ou narração de um homem depois de maio O BEBEDOR NOCTURNO (1961-1966)

Poemas do Antigo Egipto Poemas do Velho Testamento Enigmas maias

Enigmas astecas

Poesia mexicana do ciclo nauatle Hino órfico à noite (Grécia)

Três canções do Epiro Poemas zen

O mistério de Ameigen (Irlanda)

Oração mágica finlandesa para estancar o sangue das feridas Canção escocesa

Quatro poemas árabes Poemas arábico-andaluzes

Canções de camponeses do Japão Quinze haikus japoneses

Poemas indochineses Canções indonésias Canção da Cabília Canções malgaxes Canção tártara

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Poemas dos peles-vermelhas

COMUNICAÇÃO ACADÉMICA (1963)

A MÁQUINA LÍRICA (1963)

Em marte aparece a tua cabeça

A bicicleta pela lua dentro mãe, mãe -A menstruação, quando na cidade passava Em silêncio descobri essa cidade no mapa Mulheres correndo, correndo pela noite.

Era uma vez toda a força com a boca nos jornais: Todas pálidas, as redes metidas na voz.

Tinha as mãos de gesso. Ao lado, os mal-Joelhos, salsa, lábios, mapa.

A MÁQUINA DE EMARANHAR PAISAGENS (1963)

HÚMUS (1966)

CINCO CANÇÕES LACUNARES (1965-68)

Bicicleta

Canção despovoada Canção em quatro sonetos Um deus lisérgico

Os mortos perigosos, fim.

OS BRANCOS ARQUIPÉLAGOS (1970)

ANTROPOFAGIAS (1971)

Texto 1: Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão

Texto 2: Não se vai entregar aos vários «motores» a fabricação do estio

Texto 3: Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé

Texto 4: Eu podia abrir um mapa: «o corpo» com relevos crepitantes

Texto 5: «Uma devassidão aracnídea» se se quiser

Texto 6: Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa

Texto 7: Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores

Texto 8: Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos

Texto 9: Porque também «isso» acontece dizer-se que se lavra

Texto 10: Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso

Texto 11: «Estudara» muito pouco o comportamento das paisagens

Texto 12: Sei de um poeta que passou os anos mais próximos do seu

ETC. (1974)

COBRA (1975-76)

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Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno. A parede contempla a minha brancura no fundo: As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se O espelho é uma chama cortada, um astro.

O rosto espera no seu abismo animal.

Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:

Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam EXEMPLOS (1977)

1. A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou

2. Eis como uma coisa como que nos interessa: destruir os textos.

3. Esta Ciência selvagem de investigar a força

4. Esta é mãe central com os dedos luzindo,

5. Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.

O CORPO O LUXO A OBRA (22-23.XI.77)

DE "PHOTOMATON & VOX" (1978)

(é uma dedicatória) (a carta da paixão) (similia similibus) (vox) (walpurgisnacht) (a morte própria) FLASH (Abril, 1980)

Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei. Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo

Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso Não te queria quebrada pelos quatro elementos.

Há dias em que basta olhar de frente as gárgulas Um espelho, uma trama de diamante onde a cabeça A CABEÇA ENTRE AS MÃOS (1981)

De antemão Mão: a mão

Todos os dedos da mão Onde não pode a mão Demão

AS MAGIAS (1986-87)

— Um poema (Iniji) que não é como os outros — (J.M.G. Le Clézio) — Iniji — (Henri Michaux)

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(Pigmeus, África Equatorial) (Dincas, Sudão)

— Dança e encantação — (Gabão)

— Noutra margem do inferno — (Robert Duncan)

— Canto das cerimónias canibais — (Huitotos, Colômbia Britânica) — o coração — (Stephen Crane)

— À Serpente Celeste, contra as mordeduras — (Pigmeus, África Equatorial) — Mulher cobra negra — (Gondos, índia Central)

— Serpente e lenço — (José Lezama Lima) (índios Comanches, EUA)

— Na cerimónia da puberdade feminina — (índios Cunas, Panamá) (Austrália)

— Os grandes feitiços — (Biaise Cendrars) — Figos — (D.H. Lawrence)

— A Príapo — (Tivoli, Roma)

— Juventude virgem — (D.H. Lawrence) — A Grande Rena Louca — (Colômbia) As trompas de Ártemis — (Robert Duncan) — Encantação — (México)

— Canto em honra dos ferreiros — (Mongólia) — Os ferreiros — (Marie L de Weich)

— As coisas feitas em ferro — (D.H. Lawrence) — A identidade dos contrários — (Edouard Roditi) (Conde de Saint-Germain)

ÚLTIMA CIÊNCIA (1985, revisto em 1987)

1 – Com uma rosa no fundo da cabeça, que maneira obscura 2 – Os animais vermelhos, ou de ouro peça a peça:

3 – Há uma árvore de gotas em todos os paraísos. 4 – Mulheres geniais pelo excesso da seda, mães 5 – Gárgula.

OS SELOS (1989)

Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos? Astralidade, zonas saturadas, a noite suspende um ramo.

Ela disse: porque os vestidos transbordam de vento. A oferenda pode ser um chifre ou um crânio claro ou

Entre temperatura e visão a frase africana com as colunas de ar São estes — leopardo e leão: carne turva e

Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta A poesia também pode ser isso:

Uma razão e as suas palavras, não sou leve não tenho

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HERBERTO HELDER

POESIA TODA

[1953-1989]

A COLHER NA BOCA

PREFÁCIO

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder tão firme e silencioso como só houve

no tempo mais antigo.

Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer, sorrindo com ironia e doçura no fundo

de um alto segredo que os restitui à lama. De doces mãos irreprimíveis.

— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas, as casas encontram seu inocente jeito de durar contra a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras. Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta do gosto, o entusiasmo do mundo.

Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio admirável das fontes —

pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste como fogo exemplar.

Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas

um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores tenebrosas, e temos memória

e absorvente melancolia

e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos. Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos, espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos que não viram as torrentes infindáveis

das rosas, ou as águas permanentes,

ou um sinal de eternidade espalhado nos corações rápidos.

— Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam pelos muitos sentidos dos meses,

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dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra, para que se faça uma ordem, uma duração,

uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha. Alguém viera do mar.

Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó. Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos, inspirações.

— Estas casas serão destruídas.

Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente no seu casamento solar, assim

se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,

vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos da terra

onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos múltiplas, as caras ardendo nas velozes

iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,

nome profuso entre as paisagens inclinadas. Traziam o sal, os construtores

da alma, comportavam em si

restituidores deslumbramentos em presença da suspensão de animais e estrelas,

imaginavam bem a pureza com homens e mulheres ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente, tocando uns nos outros —

comovidos, difíceis, dadivosos, ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam com o junquilho original,

arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres da inspiração.

— E as casas levantavam-se sobre as águas ao comprido do céu.

Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne doce e obsessiva — tudo isso

está longe da canção que era preciso escrever. — E de tudo os espelhos são a invenção mais impura. Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança nos abandona para sempre.

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celestes que fulguram lentamente

até uma baía fria — que talvez não exista, como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma, entre um incêndio,

junto ao modelo das searas,

na aprendizagem da paciência de vê-las erguer e morrer com um pouco, um pouco

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TRÍPTICO I

«Transforma-se o amador na coisa amada» com seu feroz sorriso, os dentes,

as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído e silêncio. Traz o barulho das ondas frias e das ardentes pedras que tem dentro de si. E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado silêncio da sua última vida.

O amador transforma-se de instante para instante, e sente-se o espírito imortal do amor

criando a carne em extremas atmosferas, acima de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro. E a coisa amada é uma baía estanque.

É o espaço de um castiçal, a coluna vertebral e o espírito das mulheres sentadas.

Transforma-se em noite extintora.

Porque o amador é tudo, e a coisa amada é uma cortina

onde o vento do amador bate no alto da janela aberta. O amador entra

por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate. O amador é um martelo que esmaga.

Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher que escuta

fica com aquele grito para sempre na cabeça a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve

e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito do amador.

Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador, dá-lhe o grito dele.

E o amador e a coisa amada são um único grito anterior de amor.

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E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito de amador. E ela é batida, e bate-lhe

com o seu espírito de amada.

Então o mundo transforma-se neste ruído áspero do amor. Enquanto em cima

o silêncio do amador e da amada alimentam o imprevisto silêncio do mundo

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II

Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor.

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III

Todas as coisas são mesa para os pensamentos onde faço minha vida de paz

num peso íntimo de alegria como um existir de mão fechada puramente sobre o ombro.

— Junto a coisas magnânimas de água e espíritos,

a casas e achas de manso consumindo-se,

ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se com um outrora lento, um sabor

de terra velha e pão diurno. E em cada minuto a criatura feliz do amor, a nua criatura da minha história de desejo,

inteiramente se abre em mim como um tempo, uma pedra simples,

ou um nascer de bichos num lugar de maio. Ela explica tudo, e o vir para mim —

como se levantam paredes brancas

ou se dão festas nos dedos espantados das crianças — é a vida ser redonda

com seus ritmos sobressaltados e antigos. Tudo é trigo que se coma e ela

é o trigo das coisas,

o último sentido do que acontece pelos dias dentro. Espero cada momento seu

como se espera o rebentar das amoras e a suave loucura das uvas sobre o mundo. — E o resto é uma altura oculta,

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O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela

encantarei a noite.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento.

Mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.

Uma mulher com quem beber e morrer.

Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas —

seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes. Ele — imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim

sobre um lençol mordido por flores com água. Em cada mulher existe uma morte silenciosa. E enquanto o dorso imagina, sob os dedos, os bordões da melodia,

a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,

desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. — Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob

as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, mulher de pés no branco, transportadora

da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra.

Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, cantarei seu sorriso ardendo,

suas mamas de pura substância, a curva quente dos cabelos.

Beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte.

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Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta,

onde uma chama comece a florir o espírito. À tona da sua face se moverão as águas, dentro da sua face estará a pedra da noite. — Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita viva.

— Porém, tu sempre me incendeias.

Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite imagem pungente

com seu deus esmagado e ascendido.

— Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. Entontece meu hálito com a sombra,

tua boca penetra a minha voz como a espada se perde no arco.

E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se desfibra — invento para ti a música, a loucura e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração.

E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta,

o corpo iluminado pelas luzes longas.

Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos transfiguram-se, tuas mãos descobrem

a sombra da minha face. Agarro tua cabeça

áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo — eu sou a beleza.

Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem

teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti que me vem o fogo.

Não há gesto ou verdade onde não dormissem tua noite e loucura,

não há vindima ou água

em que não estivesses pousando o silêncio criador. Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos

originais.

Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra a carne transcendente. E em ti

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principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma o sinal e a vinha.

Plantas, bichos, águas cresceram como religião sobre a vida - e eu nisso demorei

meu frágil instante. Porém

teu silêncio de fogo e leite repõe a força maternal, e tudo circula entre teu sopro e teu amor. As coisas nascem de ti

como as luas nascem dos campos fecundos, os instantes começam da tua oferenda

como as guitarras tiram seu início da música nocturna. Mais inocente que as árvores, mais vasta

que a pedra e a morte,

a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre,

insiste de violência a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em luz sobre as casas, a cidade arrebata-se,

os bichos erguem seus olhos dementes, arde a madeira — para que tudo cante pelo teu poder fechado.

Com minha face cheia de teu espanto e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor

e a água inicial de outros sentidos. Começa o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz.

Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem.

Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura.

És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros.

E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco

martirizado e vivo.

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darei minha voz confundida com a tua. Oh teoria de instintos, dom de inocência, taça para beber junto à perturbada intimidade em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde

a vária dor envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida ingénua e cara, o que pressente o coração engasta seu contorno de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa será nossa carne presa e morosa. — Começa o tempo onde se une a vida à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada em sua força e pungência.

E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo,

a erva incendiada que se derrama na íntima noite — o que se perde de ti, minha voz o renova num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira, eu estou no fruto como sol

e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto.

— E as aves morrem para nós, os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge

a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. E estás em mim como a flor na ideia

e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento na cevada pura, de ti viriam cheias

minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses em minha espuma,

que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? — No entanto és tu que te moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore

dormindo e acordando onde existe o meu sangue. Beijar teus olhos será morrer pela esperança. Ver no aro de fogo de uma entrega

tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus será criar-te para luz dos meus pulsos e instante

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do meu perpétuo instante.

— Eu devo rasgar minha face para que a tua face se encha de um minuto sobrenatural,

devo murmurar cada coisa do mundo até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso jovem da carne aspiram longamente

a nossa vida. As sombras que rodeiam

o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto seu bárbaro fulgor, o rosto divino

impresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros

do crepúsculo

— aspiram longamente a nossa vida. Por isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que

nos desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no peixe,

no cubo, no linho, no mosto aberto

— no amor mais terrível do que a vida. Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite.

Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua e branca das mulheres. Correm em mim o lacre e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao círculo de meu ardente pensamento.

Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam sobre o teu sorriso imenso.

Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra;

traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha.

Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, casa de madeira do planalto,

rios imaginados,

espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite. Ó meu amor,

em cada espasmo eu morrerei contigo. De meu recente coração a vida inteira sobe, o povo renasce,

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a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome encanta pela noite equilibrada, imponderável — em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro da tua entrega. Bichos inclinam-se

para dentro do sono, levantam-se rosas respirando contra o ar. Tua voz canta

o horto e a água — e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo.

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.

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O POEMA I

Um poema cresce inseguramente na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas, folhas dormindo o silêncio

— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as casas deitadas nas noites e as luzes e as trevas em volta da mesa e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo. — Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério.

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II

A palavra erguia-se como um candelabro,

a voz ardia como um inesperado campo de giestas. E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor e a tristeza divina. Quando os arbustos

eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés da terra as pedras cantavam e os mitos davam a forma das coisas.

Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas e em frente ao povo íamos cantando

a fábula e o próprio rosto do milagre.

Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula? Nada existe que não seja inocente, e o hálito

perpassa à flor dos lábios,

a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável ao primeiro sorriso. Toda a casa

acaba a noite, cria a auréola

em torno do objecto, enche cada instante de um poder obscuro.

A delicada taça partia-se nas mãos — sangue: um sinal, um símbolo. E cantar

era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta loucura. Cantar era uma razão

de morte e de alegria.

Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera da luz, ou na ressonância e volúpia

do tempo. E a mão procurava o punhal, a boca beijava a laje nua. Do braço divino

sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas ou no coração da sementeira.

E era então o fogo aquilo a que o beijo, em sua graça, firmemente aspirava. Nenhuma vida tanto se gastou que não seja visitada, nenhum deus

é tão grande que se não perca na substância da sombra. — Uma flor e um grito,

um copo e um breve minuto, ou a aurora cortando o peito, ou o primeiro respirar de um pensamento.

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Cantar onde a mão nos tocou,

o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo. Cantar na mesa, na árvore

sorvida pelo êxtase.

Cantar sobre o corpo da morte, pedra a pedra, chama a chama — erguido, amado,

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III

Às vezes estou à mesa: e como ou sonho ou estou somente imóvel entre a aérea

felicidade da noite. O sangue do mundo corre e brilha. Porque a minha carne se distrai entre as coisas altas da primavera nocturna. Ocupo-me nos símbolos, e gostaria

que meu coração

entontecesse lentamente, que meu coração caísse numa espécie de extática e sagrada loucura. E enquanto estou só e o céu rodeado de lírios amarelos, e animais de luz, e fabulosos órgãos de silêncio, descansa

sobre os meus ombros

seu doce peso antigo — eu penso

que haveria uma palavra vingativa e pura,

uma esfera com espinhos de fogo que me ferisse primeiro na voz ou na claridade

ou na tenebrosa

fantasia, e que depois me ferisse na minha própria morte, sob a intensa profusão celeste.

Penso que deve existir para cada um

uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse virgem de sentido e que,

vinda de um ponto fogoso da treva, batesse como um raio

nos telhados de uma vida, e o céu com águas e astros

caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez de um instrumento antigo, um nome ligado à morte — veneno, punhal, rio

bárbaro onde

os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes luas impassíveis.

Um abstracto nome de mulher ou pássaro.

Quem sabe? — Espelho, Cotovia, ou a desconhecida palavra Amor.

(24)

Sei que minha vida estremeceria, que os braços sonâmbulos

iriam para o alto e queimariam a ligeira . noite de junho, ou que o meu

coração ficaria profundamente louco. E nessa loucura

cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito, e cada nome seria iluminado

por todos os outros nomes da terra, e tudo arderia num só fogo, entre o espaço violento do mês de primavera e a terra

baixa e magnífica.

Com grandes dedos eu tocaria as trémulas campânulas dos signos, e beijaria

as rodas excitadas do ar.

Ferveriam os pequenos vulcões dos frutos. Dentro dos tanques tombaria a água

infantil da aurora. Comer ou sonhar ou estar à mesa da fantasia nocturna

seria para um homem, sob a abóbada da cabeça, como o espírito caído dentro da forma

e a forma incrustada, como uma lâmpada, na inspiração da cabeça.

— Cada boca pousada sobre a terra pousaria

(25)

IV

Nesta laranja encontro aquele repouso frio e intenso que conheço

como um dom impossuído. Do ouro terá a luz interior, terá

a graça desconhecida daquilo que mal pousa na mesa, no mundo.

— Passar nocturno da água que o sangue mudamente imita. Ilha cercada

de todos os lados

por uma inumerável, inominável sede humana.

Esta laranja lembra-me uma alta solidão

que nem pode ser nossa, de tão pura. Lembra-me ainda

uma urna fechada como gelo,

onde o ardor da criação guardado devagar se inspirasse numa fonte oculta. Onde

os veios amarelos, batidos ao longo do silêncio pelas pequenas espadas dos raios,

se movessem,

quem sabe até que inapercebido, louco, tão vivo coração de poema. Laranja

com facas e garfos em volta, ainda recebendo gota a gota a sua árvore — laranjeira de espírito desconhecido, irmão

de chuva, irmão de uma noite vagarosamente purificada. Laranja

encontrada entre dois momentos inimigos, ao meio como um grito

que bate em cheio entre os ossos e as veias fulminadas. Doada à poesia que esperava, entre a rigorosa visão e a experiência desmedida da carne.

Se a mão se atreve pela confluída laranja, sobe ao ombro o puro sentimento

de ligação ao mundo. São as manhãs impossíveis da terra, o subjacente e livre fogo

da noite, as águas a urdir

o peixe que vai nadando até se consumar em lento lírio.

Cerraria sobre esta laranja que aparta a inocência da treva

daquilo que o espírito caiou como luz indivisa — sobre ela cerraria a boca,

(26)

de muitas presenças fortes como sal.

— Talvez todo o enigma materno me fosse dado de inspiração

através da língua, por confusos órgãos, a todo um corpo tenso e apto aos segredos e às

delicadas subtilezas da terra.

Talvez esta laranja me dotasse de uma atenção vertiginosa,

e tudo fosse entrando como sabedoria pelo corpo evocativo, e cada gesto fosse depois

a íntima unidade deste Poema com as coisas. Laranja

(27)

V

Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria masculinidade. Era talvez um cego escorrer

de sangue pelos anéis e flores do corpo.

Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força da alegria da minha vida.

Havia também outra coisa a que se deveria dar

um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas como uma árvore se vai cercando de folhas

inúmeras. Tudo isso começava

a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente confusão. Era primeiro uma virtude.

Depois, este vagaroso acender da noite. O sangue despenhava-se

nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia que era a tristeza, a tristeza — um poder

mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes, e todo me circundava de uma torrente

silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora. Nunca se deve dizer que um rosto perde

as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra de uma fonte, sobre um instrumento rápido. Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se enlouquecer eternamente. Ou porque a colher pode ligar a terra à violência do espírito.

— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo, as portas, a loucura das pontes celestes

aonde a invenção chega como um frio arrebatamento. Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura do corpo subtilmente preso por crateras e picos ao tumulto das sombras.

Eu abaixava-me e tomava como nos braços essa criança ignota.

E porões enchiam-se de água, eu seria em breve um afogado. Tudo me inspirava

nessa noite abrupta, entre o começo e o fim do mundo. Como pode um coração absorver tanta matéria, tanta inocência da terra? Se era uma criança, sua vida circulava indecisamente; se eram os mortos, a distância tornava-se infinita. Apenas

a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor corria nas palavras adormecidas

(28)

e degelava as mãos que se cobriam de um sentido impenetrável.

— Essa forma amparava-se no sexo repleto de espinhos e espelhos,

e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito, uma louca morte

(29)

VI

Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina a harpa e a loucura desperta a pura espada em pleno sangue. Ó vasto,

amargo e límpido mês interior onde a graça se toca do fogo e o corpo se torna o cândido e longo varão de música. Escada de seiva entre arbustos de estrelas

e cubos de sal perpetuamente ardendo. — Por ti, mês feliz de confusão e génio, eu levanto minha húmida boca

até ao ar e ao vinho, levanto

minha obscura pedra por vias de tormento e instinto até

ao barro vermelho do céu, ao espasmo violento e sagrado das palavras.

Mês por onde subo fundamente agitado em meu coração de argila, em minhas veias de pequena infância espantada e grata. E subindo me incendeio e consumo. Mês das mãos purificadas.

Delicado mês para uma corola de nuvem, um vivo transporte entre coxas e mamas.

Em lama e areia se descobre

o pensamento, se perde a memória, se possui uma estreita palavra virgem

e extrema.

Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda música. Arde, vinho. Carne,

ave, grande mar, grande estátua fria, grande sorriso desfeito na face da solidão. Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz das catedrais de resina e o flanco

terrível e doce das montanhas

e o amor irmão da morte e da alegria. Mês do poema, substância de Deus servida como ceia e primeira pedra no espaço da minha angústia,

do meu encanto. Mês da aliança, tempo

tremendo da inocência onde a lua desce suas raízes ferozes

e a morte anuncia seus primeiros sinais de glória.

(30)

— E eu dormia. O sangue atravessava a noite como cantando baixo.

Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam no linho com o tremor comprido das veias.

Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia, vibrava na testa como o beijo da loucura.

— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto, o perdão nascia das formas,

e por todas as coisas corria o sopro alucinado e redentor

(31)

VII

A manhã começa a bater no meu poema.

As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas.

Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema. Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,

o rodopio das rosáceas do meu

poema batido pela revelação das coisas. Os finos ramos da cabeça cantam mexidos pelo sangue.

Talvez eu enlouqueça à beira desta treva rapidamente transfigurada.

Batem nas portas das palavras, sobem as escadas desta intimidade.

É como uma casa, é como os pés e as mãos das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só, deitado de costas, com o nariz que aspira,

a boca que emudece,

o sexo negro no seu quieto pensamento. Batem, sobem, abrem, fecham,

gritam à volta da minha carne que é a complicada carne do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa, fende-os ao meio

como os raios fendem as direitas taças de pedra. Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa, uma visita do sangue cheio de luzes interiores.

Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem levitante,

as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias. É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados do poema. É Deus que rola e a morte

e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal à beira

do povo que até mim separa os espinhos das formas e traz sua pureza aguda e legítima.

— Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais pequenos cravos de ouro ou peixes delicados de música fria.

(32)

O poema dói-me, faz-me feliz

e alto. O povo traz coisas para a sua casa do meu poema.

Eu acordo e grito, bato com os martelos dos dias da minha morte

a matéria secreta de que é feito o poema. — A manhã começa a colocar o poema na parte mais límpida da vida. E o povo canta-o

enquanto crescem os campos levantados ao cume das seivas.

A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida do mundo.

(33)

FONTE I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte

em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio

se esperava a noite,

ou se ouvia algures na paz da terra o urdir do tempo —

cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico.

Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente.

Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia.

Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta. Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se

com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio

de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu.

Hoje sei permanentemente que ela é a fonte.

(34)

II

No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem os dedos amarelos das candeias. Que balouçam. Que são puras. Gotas e candeias puras. E as mães aproximam-se soprando os dedos frios. Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões e órgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve. O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas. Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras. Elas respiram ao alto e em baixo. São silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares da chuva,

em volta das candeias. No contínuo escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque

os filhos estão como invasores dentes-de-leão no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos. E através da mãe o filho pensa

(35)

por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,

(36)

III

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta agora entre águas e silêncios.

Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos, nem os rios, nem os girassóis,

nem a paisagem arrebatada.

— Espero do tempo novo todos os milagres, menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado e sobes, carne das palavras outra vez imperecíveis e virgens.

— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen, outras mãos mais puras

e mais sagazes,

e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto. Mas tu estarás mais branca com a boca selada

pelas pedras lisas.

E sei que terei o amor e o pão e a água e o sangue e as palavras e os frutos. Mas tu, ó rosa fria,

ó odre das vinhas antigas e limpas? Do tempo novo espero

o sinal ardente e incorrupto,

mas levo os dedos ao teu nome prolongado, ó cerrada mãe, levo

os dedos vazios —

(37)

IV

Mal se empina a cabra com as patas traseiras na lua, e o cheiro a trevo

no focinho puro, e os cornos no ar

arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas, entre o sono e o vinho derramado,

curvam-se os ágeis cascos de demónio.

E o sonâmbulo desejo do coração absorve tudo ao alto numa vertigem tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas venenosas, o silêncio dos dedos docemente o procura.

Então as veias mudam a conjunção suspensa

do sangue que ascende e que mergulha. Uma estreia feroz queima a fronte de apolo.

E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono secreto, a beleza terrível

espalham sobre nós a branca luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge a cabra fremente no flanco

com uma flecha viva.

Cantamos devagar o espírito dos livros. E brilha toda a noite, no sangue espesso e maduro do bicho

maravilhoso,

o dardo do caçador.

Um dia começa o amor louco. Porque a cabra

é uma coisa materna e antiga. À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea abstracta, ou rosa aglomerada

e ardente. Na penumbra das casas as mulheres respiram — surdas, lentas, cegas

de beleza. E no sono as palavras são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre a forma árdua e amarga da melancolia.

(38)

V

Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa, formosura inclinada sobre a cinza descerrada

e o frio dos retratos.

Espero que a seiva ascenda a um puro gosto de reaver tua grave cabeça de mãe

com platina entre a aragem. Que se inspire na seiva o vermelho de uma face

adormecendo no vinho, acordando para o início das primaveras.

Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza e a boca vibre como um pensamento

na substância de um instante carnal, irremovível.

E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas — peço, mãe um dia

composta sobre a veemente confusão das forças e dos números, que resguardes

entre as descuidadas dobras de pedra o fulgor de onde plátanos e aves recebiam a doce e dolorosa vida

da beleza.

Rente ao tempo que nos cobria de previsão e silêncio,

arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado. Pequena e imensa coisa no alto das águas, no fundo de sementes desmemoriadas — mãe engolfada no leite renascente,

para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo incompleto, o sono da próxima

incontida primavera.

Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração novo. Por isso o ouro, o inseguro passo

de um dia que traz a morte em sua intensa juventude, roça a forma do espírito

em que tu mesma te buscavas — quente e rápida em nós, no equilibrado idioma

de fomes e sorrisos que nunca se decifram.

Num lugar onde a sombra é gémea do fogo irrevelado, não há

(39)

de rosa. Nunca se adormece

que não seja para ler um estuante anúncio nas pálpebras que se apagam.

Nasces da melancolia, e arrebatas-te.

Como os bichos nascem da matéria dos seus dias, como os frutos vacilam no bojo das auroras e se embebem até que o tempo os faz violentos,

cerrados,

(40)

VI

Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo onde rolam os cálices transparentes da primavera

de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras ou descubro o teu nome como uma paisagem, só há grutas virgens onde os candelabros se apagam. Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. Às vezes misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me, vertiginosa e triste, através

das palavras.

No outro lado da mesa estás inteiramente morta. Parece que sorris de leve no meu pensamento, mas sei que é apenas

a solidão espantada. Como pudeste morrer tão violenta e fria,

quando os meus dedos começavam a agarrar-te a cabeça inclinada dentro

das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos onde procuro afogar-me como uma criança

nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras, perdidos um no outro, sorrindo

como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna. Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa

da cidade da minha infância. Tu desapareceste. É um erro

das musas distraídas. Não há guindaste que te levante do coração das águas

onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível, ou recolhida na tua carne rápida, ou

ligeiramente tocada pelo ardor

de uma existência pura. Conheço grandes casas onde não habitas, flores que cheiro, tarefas silenciosas que cumpro humildemente, e luzes, instrumentos de música,

laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta às mais finas raízes das vísceras. Tu

desapareceste.

Imagino que seria possível tocares porventura

a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente que eu estremecesse nas traves

da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus ombros até que as lágrimas

(41)

dos teus dedos, e eu me sentisse

perdido entre os pilares e os túneis das cidades ressoantes.

Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira, e os olhos delicados de mulher restituída,

e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado — talvez

pudesses salvar-me como uma palavra pode salvar um pensamento, ou uma

breve música pode acordar do abismo inocente da noite

(42)

ELEGIA MÚLTIPLA

I

Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo

brilhante gelo nocturno? É pela cabeça que os mortos maravilhosamente pesam

no nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais temos medo de sorrir, as armas

lavradas, as liras que estremecem e pendem

sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre e vê sua confusa e grave geografia, as fontes livres de onde os pensamentos crescem como a folhagem iluminada das antigas idades do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo, procuro colocar-me num ponto irradiante da terra, olhar de frente

com toda a inspiração do meu passado, e estar à altura dos mortos, na zona

esplêndida e vasta

da sua nobreza — receber essa espécie de força indestrutível

que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias, de que as rosas bebem o jeito aéreo e a boca a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande arco das eras com os fogos rápidos

presos como campânulas, e a fixa vontade do homem ardendo e gelando

no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se que as mãos corram, deslumbradas

da sua grande luz

nas águas. Existe um nome suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça

dos mortos — a tua cabeça antiga como o verde nas pedras ou o movimento

das corolas frias,

essa cabeça sumptuosa rodeada de estreitas víboras —

sobe do meu coração até que a minha cabeça seja a possessiva, doce cabeça

(43)

II

Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta formosura do ouro. E se acordo e me agito,

minha mão entreabre o subtil arbusto de fogo — e eu estou imensamente vivo. Se com a neve e o mosto dei ao tempo a medida secreta, na minha vida tumultuam os rostos mais antigos. Não sei

o que é a morte. Enchia com meu desejo

o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore abismada e cantante. E a beleza é uma chama

solitária, um dardo que atravessa o sono doloroso. Nada sei dos mortos.

Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante, sei uma flor de coral: delicada, vermelha.

Porque morrem assim no interior do vinho quando

se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde as videiras se derramavam e subiam as escadas?

Um a um vão nascendo meus pensamentos nocturnos, e eu digo: porque morrem

os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam sobre a mesa

como seres imortais?

E agora é a minha vida que assombrada se fecha. A vida funda e selvagem. Porque um dia,

como se apaga a labareda de um cacho. o brilho se apagará onde estava a minha letra. Dançarei uma só vez em redor da taça,

festejando a última estação. Hoje

nada sei. Correm em mim os mortos, como água — com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência. E digo: não refulgia a carne quando

a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão? Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento? Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia

tanto ouro dentro e fora deles, porque se extinguiram?

Nada sei dos mortos.

Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,

(44)

um amor terrível.

(45)

III

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. O orvalho da muita manhã.

Corria de noite, como no meio da alegria, pelo orvalho parado da noite.

Luzia no orvalho. Levava uma flecha

pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado loucamente

por um caçador de que nada se sabia. E era pelo orvalho dentro.

Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse assim na morte,

batendo nas ervas extasiadas por uma morte tão bela.

Porque as ervas têm pálpebras abertas sobre estas imagens tremendamente puras. Pelo orvalho dentro.

De dia. De noite.

A sua cara batia nas candeias. Batia nas coisas gerais da manhã.

Havia um homem que ia admiravelmente perseguido. Tomava alegria no pensamento

do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas. Que têm os olhos cegos como sangue.

Este corria, assombrado. Os mortos devem ser puros. Ouvi dizer que respiram.

Correm pelo orvalho dentro, e depois estendem-se. Ajudam os vivos.

São doces equivalências, luzes, ideias puras.

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar — a morte é passar, como rompendo uma palavra, através da porta,

para uma nova palavra. E vejo

o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição através das portas de outros corpos.

Como uma qualidade ardente de uma coisa para outra coisa, como os dedos passam fogo

à criação inteira, e o pensamento pára e escurece

(46)

— como no meio do orvalho o amor é total. Havia um homem que ficou deitado

com uma flecha na fantasia. A sua água era antiga. Estava tão morto que vivia unicamente.

Dentro dele batiam as portas, e ele corria pelas portas dentro, de dia, de noite. Passava para todos os corpos.

Como em alegria, batia nos olhos das ervas que fixam estas coisas puras.

(47)

IV

A colher de súbito cai no silêncio da língua.

Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos puros. E sei que não é uma flor aberta

ou a noite cercada de águas extremas. Paro por esta monstruosa,

ingénua força da morte.

— A colher envolvida pelo silêncio extenuante da minha boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem, e tímido e arguto

alimenta a sua irónica inspiração solar, a inocente astronomia

de ossos e estrelas, veias e flores e órgãos genitais —

para que tudo se construa docemente,

com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados, sorrindo fixamente como as crianças na lírica,

tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo, manso, ponderado — uma

beleza evocativa e confusa.

Eis: sou um homem que instante a instante ganhava um sabor de perene

sentido, uma duração de sombra extasiada, laboriosa, inclinada no grave centro

da primavera — a sombra das minhas mãos.

A colher subia como um instrumento da criação, firme subia nos dedos

como que invocando, unindo os fragmentos do espírito,

a mímica na sugerida integridade da pessoa

colocada na doce integridade do tempo. Mas paro. Cai no silêncio da língua

a colher que era — quem sabe? — música, intimidade, sinal fortuito

de uma essência, um génio interior. O puro roer devagar roerá

a colher na mão e a boca na colher,

(48)

coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam na assimetria festiva e sagaz das invenções.

— Cai no silêncio da língua a colher tão brusca.

(49)

V

Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam sobre a minha vida.

Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites do mundo.

Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção devastadora. Oh feroz mundo puro,

oh vida incomparável. Cantam, cantam. Abro os olhos debaixo das águas silenciosas, e vejo que a minha lembrança é mais remota que tudo. Cantam friamente.

Não posso ouvir cantar.

Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê como bebe no anónimo da estação.

O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas. Ouve: não te maravilha

a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas? — Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico de um nome extremo.

Não cantem, não floresçam.

Não posso sentir encher-se assim a vida como uma canção fria e uma roseira tão espalhada em mim.

Pode ser que fosse ilesa esta época do ano, e minha existência de repente se tomasse por todo esse fervor.

Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade confluente

de um minuto de verão. — Estaria eu completo para a morte?

Não, não cantem essa lembrança de tudo. Nem roseira na sangrenta delicadeza da carne, nem o verão com seus símbolos de feroz plenitude.

Gostaria de pensar cada um dos meus dedos, esta cítara descida dentro da obra.

Toda a tristeza como uma vida admirável enchendo a eternidade.

As frias canções despovoam-me, e as roseiras tornam desavindas as rosas

recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme alui-se-me o uno sangue.

(50)

a minha vida inteira

tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio do que se não sabe.

Não se canta e floresce. Ninguém amadurece no meio da sua vida.

Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo, e a alta tristeza purifica os dedos.

Porque um homem não é uma canção fria ou uma roseira. Não

é um fruto como entre folhas inspiradoras.

Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha sobre ele, mas onde o corpo

arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro como um sacrifício antigo.

— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras, minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso de uma grande vida.

Pode ser que tudo esteja bem no plural de um mundo intenso. Mas

o amor é outro poder, a carne

vive de sua absorta permanência. Esta vida de que falo

não se escoa, não alimenta os superlativos diários. É única

e perene sobre a escondida fluência dos movimentos.

— Uma roseira, mesmo

incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha. Por detrás da noite de pendidas

rosas, a carne é triste e perfeita como um livro.

(51)

VI

São claras as crianças como candeias sem vento, seu coração quebra o mundo cegamente.

E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema, pelo terror dos dias, quando

em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param junto à eternidade.

As crianças criam. São esses os espaços onde nascem as suas árvores.

Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo, as crianças esmigalham-se.

Seu sangue evoca

a tristeza, tristeza, a tristeza primordial.

— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram pelos séculos

entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes e o olhar infinito de quem não possui alma.

Seu grito remonta ao verão. Inspira-as a velocidade da terra.

As crianças enlouquecem em coisas de poesia. Escutai um instante como ficam presas

no alto desse grito, como a eternidade as acolhe enquanto gritam e gritam.

— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono de onde saem

assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta. Dali a vida de um poema tira

por um lado apaixonadamente; por outro, purificação.

Nelas se festeja a imensidade

dos meses, a melancolia, a silenciosa pureza do mundo.

Quem há-de pensar para as crianças, sem ter espinhos nas vozes desertas

até ao fundo? É vendo-se aos espelhos, no seguimento da noite,

que as crianças aparecem com o horror

da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes crianças vigiadoras —

(52)

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas que a vingança não afaste.

As crianças invasoras percorrem os nomes — enchem de uma fria loucura inteligente

as raízes e as folhas da garganta.

Aprendemos com elas os corredores do ar, a iluminação, o mistério

da carne. Partem depois, sangrentas, inomináveis. Partem de noite

noite — extremas e únicas.

— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças se distanciam loucamente.

(53)

VII

Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,

amanhã morrerei.

Talvez eu comece a morrer na tua mão direita, alterosa e quente na minha mão

sufocada. Agora mesmo na europa

começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida percorrida por um álcool penetrante, é a imediata

atenção ao misterioso trabalho da idade.

Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais sombrios da carne, sobre um vasto segredo.

Será apenas isto, um ponto móvel

da eternidade, isto — a sufocação veloz e profunda da vida inteira na minha garganta? E depois

o acender das luzes, bruxelas como uma câmara de archotes e ao alto as ameias

enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande memória aquilo que acaba na violência triste do poema.

Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia partem rios. Por detrás das cortinas,

despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho vinte e nove bocas urdindo

a falsa doçura da confusão. Os países constroem a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão

pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante a loucura masculina

da minha vida. Pensa um pouco na beleza ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível das pessoas ou o seu respirar

que arde e brilha e se apaga à superfície

das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso rapidíssimo

que jamais desaparece do silêncio, na candeia que cobre com agulhas de ouro os escombros dos lírios. E por cima de tudo estende

a tua pequena mão eterna. Cai tu própria na treva quente da minha cega mão masculina de vinte

e nove

anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda

inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta cheia de sangue actual — amanhã morrerei.

(54)

Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas velozes, pedras que pareciam

imortais. Eram casas que se levantavam sobre o meu coração. Vi que tomavam animais feridos, flores imaturas, objectos

breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam alguma coisa eterna. Era gente

de vinte e nove anos que se despedia dolorosa pormenorizada

violentamente de uma parte da sua carne, a parte mais iluminada da sua

carne de vinte e nove anos. Amanhã morrerei.

(55)

AS MUSAS CEGAS I

Bruxelas, um mês. De pé sob as luzes encantadas. Em noites assim eu extinguiria minha alma

cantando humildemente. Fecharia os olhos sob os anéis dos astros, e entre os violinos e os fortes poços da noite descobriria a ardente ideia da minha vida.

Em noites assim amaria o fogo

da minha idade. Cantaria como um louco este grande silêncio do mundo, vendo queimarem-se nas trevas as vísceras tensas e os ossos e as flores dos nervos e a cândida e ligeira arquitectura

de uma vida.

Bruxelas com as traves da minha cabeça

e uma grinalda de carvões em torno dos testículos de um homem

bêbado da sua idade. Cantaria com esses testículos negros, as lágrimas, o coração ao meio do nevoeiro derramando o seu baixo e aéreo sangue,

a sua dor, o lírico

fervor, o fogo de porta entre os símbolos nocturnos. Era tão pura a ideia de que o tempo começava depois do verde e fértil e exaltado

mês da carne. Vergada sobre o livro onde o meu rosto ardia,

a vida esperava com suas torres vibrantes, seus grandes lagos límpidos. E eu adormecia

e sonhava um homem em voz alta, um vidro incandescente, uma fina flor

vermelha colocada sobre a mesa. Era tão violenta a ideia de cantar sem fim,

até que a voz consumisse esta garganta sombreada de estreitos vasos puros.

— Cantar fixa e fria e intensamente sobre a minha rasa

luminosa vida, ou sobre os campos transparentes e sombrios de bruxelas do mundo.

(56)

II

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada pelas vozes.

E enquanto dorme o leite, a minha casa pousa no silêncio e arde pouco a pouco.

No círculo de pétalas veementes cai a cabeça — e as palavras nascem.

— Límpidas, amargas. Eis um tempo que começa; este é o tempo.

E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas, é o pensamento que verga de flores actuais e frias.

A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro. E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado de seivas, para a noite que estremece

fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta, com maçãs dobradas à sombra do rubor.

Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando com a primeira música de água.

Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído, com esta coroa recente de ideias, esta mão

que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras

antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera de minúsculas folhas eternas como uma árvore.

Degrau a degrau devorei a alegria —

eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas desvairadas, entre jarros transbordando

húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer com os olhos queimados pelo poder da lua.

Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe procuro no meu silêncio uma outra forma

dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é a casa ligeira colocada num espaço

de profundo fogo.

E apagaram-se as luzes.

— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,

(57)

E é tão certo o dia que se elabora.

Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo. E não chames mais por mim,

pensamento agachado nas ogivas da noite. É primavera. Arde além rodeada pelo sal, por inúmeras laranjas.

Hoje descubro as grandes razões da loucura,

os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas. Há lugares onde esperar a primavera

como tendo na alma o corpo todo nu. Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego

que principia. — É preciso cantar como se alguém soubesse como cantar.

(58)

III

Eu teria amado esse destino imóvel, esse frio poço dos sons. Ela não dormia, estava

a meu lado, era uma gruta onde a música um instante se torna imensa.

Durante um mês viveu em mim, e não dormia. Foi o mês das musas, a penumbra da sua vida

estava coberta de ervas puras. Não dormia. Durante

o espantoso mês das musas, eu despertava como um espelho onde as brasas da cabeça principiam a girar.

Estava iluminada por dentro, e a noite ia e vinha sobre os arcos e os tanques e as frestas.

Eu cantava junto a esse sonâmbulo instrumento, eu era profundo e fecundo. O sangue

passava pelos arbustos do corpo e os pensamentos ardiam em mim, nessa monstruosa

noite da criação.

Sinto que tocaria esse intenso violino, e a vida

mudaria, as grandes estações do ano passariam devagar na minha confusão. Eu era um homem

e tinha na boca o ofício de sorrir o fluxo encantado

das imagens. E tinha as palavras que um homem tem para acender, como fogueiras,

nas margens cantantes e frias das águas do mundo.

Vejo a minha vida agitada, as pequenas faúlhas do rosto, minha dor e idade

de homem,

debruçadas sobre esse objecto misterioso e triste, e poderoso e vazio

como uma guitarra, uma coluna de obscuridade que dormia, que não podia jamais dormir

entre uma onda que vem do céu e da terra e uma noite que iria e viria sobre a paisagem

de arcos e pontes e torres e poços tenebrosos e ocos.

Às vezes eu levantava um braço que deixava arder ou pensava como era forte

a torrente do meu silêncio. Pensava

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Referências

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