ACÓRDÃO. Vistos, relatados e discutidos os autos.

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ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. VALORA-ÇÃO DE TÍTULOS. ENTIDADE PRIVADA. REMUNERA-ÇÃO PAGA PELO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS). ADMISSIBILIDADE.

1. Admite-se a valoração, em concurso público do Município de Pelotas, do trabalho prestado a entidades privadas, mas remunerado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como título. Os critérios adotados para corrigir provas em concurso público não merecem apreciação pelo órgão judiciário, a quem não é dado estabelecer verdades científicas, e, assim, inadmissível obter sua revisão judicial ou a invalidação dos editais. Precedente do STJ.

2. SENTENÇA CONFIRMADA.

REEXAME NECESSÁRIO QUARTA CÂMARA CÍVEL

N° 70002585859 PELOTAS

EXMA. SRA. DRA. PRETORA DA 4ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE PELOTAS

CLARICE FARIAS COLLA RES

MUNICÍPIO DE PELOTAS

APRESENTANTE;

AUTORA E

RÉU.

A C Ó R D Ã O

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, confirmar a sentença sob reexame.

Participaram do julgamento, além do signatário, os eminentes Senhores Desembargadores, JOÃO CARLOS BRANCO CARDOSO e WELLINGTON PACHECO

BARROS.

Porto Alegre, 06 de junho de 2001.

DES. ARAKEN DE ASSIS, Presidente e Relator.

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R E L A T Ó R I O

DES. ARAKEN DE ASSIS (RELATOR) – CLARICE FARIAS COLLARES ajuizou ação cautelar

inominada contra o MUNICÍPIO DE PELOTAS.

Segundo alega, foi aprovada no concurso público para o cargo de Dentista, após prova escrita eliminatória, e, quando da apresentação dos títulos, não obteve a pontuação relativa ao serviço prestado em entidade pública de saúde. Salienta que possui considerável experiência no desempenho da atividade de saúde pública, devido aos vários anos em que prestou e continua a prestar trabalho em entidades públicas. Postula seja concedida liminar, determinando ao réu que se abstenha de proceder à classificação e homologação final do concurso público 001/99, bem como seja procedida a avaliação dos títulos apresentados referentes ao item 4.3.3.2.a, do edital do concurso nº 013/99, com atribuição da pontuação respectiva, suspendendo os trâmites do concurso, até que seja efetivamente realizada a pontuação correta nos termos do edital e da lei. Ao final, a concessão definitiva da liminar.

Liminar deferida.

O Município de Pelotas contestou, sustentando que a atribuição de pontos não se efetivou como pretendido pela autora, em razão de as entidades para as quais prestou serviço tratarem-se de pessoas jurídicas de direito privado, não podendo ser julgada procedente a ação.

A autora ajuizou a ação principal, repisando os termos da cautelar e requerendo a anulação dos editais nºs 075/00 e 076/00, no que se refere ao cargo de dentista. O Município de Pelotas contestou, nos mesmos termos da cautelar.

Houve réplica.

A Pretora julgou parcialmente procedentes os pedidos da autora, para manter a liminar concedida, definitizando-a com a atribuição da pontuação dos títulos. Face à sucumbência, condenou o réu ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, que arbitrou para ambos os feitos em 04 URH, nos termos o § único, do art. 21 do CPC.

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Independente de recurso voluntário, os autos subiram em reexame necessário.

O Dr. Procurador de Justiça opinou no sentido de ser confirmada a sentença, em reexame necessário.

É o relatório.

V O T O

DES. ARAKEN DE ASSIS (RELATOR) – Eminentes Colegas.

1. Correta se ostenta a respeitável sentença da lavra da Pretora SUZANA VIEGAS N. SILVA, que confirmo pelos seus próprios fundamentos, adotando-a como razões de decidir (fls. 101-104):

...

Diante da prova documental carreada, e, por desnecessária a realização de audiência de instrução para tomada de prova testemunhal, por tratar-se de matéria de direito, passo a julgar o feito no estado em que se encontra.

A pretensão da autora reside em carrear na pontuação de seus títulos o período que trabalhou junto à Escola Municipal Abriguinho Infantil e ao Instituto de Menores de Pelotas, com remuneração prestada pelo Sistema Único de Saúde.

A demandada recusa tal reconhecimento, sob o argumento de que ambas instituições não se caracterizam como entidade pública.

Segundo estabelece o artigo 24 da Lei nº 8.080/90,

quando as disponibilidades forem insuficientes para garantir a cobertura assistencial à população de uma determinada área, o Sistema Único de Saúde (SUS) poderá recorrer aos serviços ofertados pela iniciativa privada, sendo a participação complementar formalizada mediante contrato ou convênio.

Dispõe ainda o artigo 25 da referida lei, que na hipótese do artigo anterior, as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos terão preferência para participar do Sistema Único de Saúde, caso em que o pagamento será financiado pelo mesmo.

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Nesse sentir, vale colacionar a lição do renomado JOSÉ CRETELLA JR. em “Manual de Direito Administrativo”, Ed. Forense, 1992, p. 206 a 209:

“Serviço público próprio é o executado diretamente pelo Estado, é o serviço executado pela Administração direta, com emprego de seu pessoal... Quando o Estado delega a pessoa jurídica de direito privado a feitura de obra pública ou de trabalho público, temos o serviço impróprio e indireto... Serviços executados pelas pessoas jurídicas públicas, políticas ou administrativas são serviços públicos... que interessam à coletividade e são executados por uma pessoa jurídica de direito público, política ou autárquica.

No entanto, inúmeras vezes, o Estado permite que pessoas jurídicas de direito privado realizem serviços públicos, que são denominados, tecnicamente, serviços de utilidade pública. Assim, uma corporação, associação ou sociedade reconhecida como executante de um serviço de utilidade pública, goza, por isso, de vários benefícios legais.”

Logo, em sendo a autora remunerada através de verba do Sistema Único de Saúde, como consta nos documentos de fls. 25 e 26, exercendo típica atividade subsidiária ou complementar, na área da saúde, mediante recurso público, não sendo relevante que a entidade seja privada, eis que se trata de serviço de utilidade pública, com subvenção do órgão administrativo

da saúde. Além do mais, vale destacar que a Escola cuja

certidão de fl. 26, relata o serviço da autora, consta como integrante da rede municipal.

Todavia, deixo de acolher o pedido da autora , no sentido

de tomar nulos os editais relativos à classificação para o cargo de dentista, por inexistir elementos acerca da formação da nota final dos concursados.

No demais, o assunto mereceu exame do Dr. Procurador de Justiça ANTÔNIO CARLOS KRINDGES MARQUES (fls. 109-110):

...

A sentença merece ser integralmente confirmada.

O controle judicial limita-se à verificação da legalidade do edital e do cumprimento de suas normas pela comissão responsável.

Nesse sentido a seguinte decisão, extraída de “Juris

Síntese”, nº12, versão jul-ago/98:

“700874 - CONCURSO PÚBLICO - JUIZ DE DIREITO

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JUDICIAL – À Banca Examinadora de Concurso Público compete a avaliação das questões das provas, sendo vedado ao Poder Judiciário a reapreciação que refuja à verificação da legalidade do Edital e do cumprimento de

suas normas pela Comissão responsável. (STJ - RMS

5.988 - PA – 6ª T - Rel. Min. Vicente Leal - DJU

18.12.1995).”

Porém, restou comprovado nos autos que agiu ilegalmente a Comissão do Concurso em questão ao deixar de carrear na pontuação dos títulos da autora o período em que trabalhou junto à Escola Municipal Abriguinho Infantil e junto ao Instituto de Menores de Pelotas, uma vez que ela, ao prestar serviços nessas localidades, era remunerada pelo Sistema Único de Saúde (fls. 25/26 dos autos da ação cautelar). Ora, sendo a autora remunerada pelo SUS, evidente que se trata de serviço de utilidade pública, com subvenção do órgão administrativo da saúde. Neste caso, não é relevante que a entidade seja privada, ao contrário do alegado pelo réu, o que importa é que, mediante contrato ou convênio, o SUS, por não possuir disponibilidades suficientes para garantir a cobertura assistencial à população, pode recorrer aos serviços ofertados pela iniciativa privada, financiando o pagamento destes serviços, como ocorreu com a autora.

Vale destacar, ainda, que a Escola Municipal Abriguinho Infantil, a qual prestou serviços a autora, consta como integrante da rede municipal, como observou a magistrada.

Sendo assim, não procede a negativa pelo demandado de pontuar os títulos da autora referentes aos serviços prestados nesta escola e no Instituto de Menores de Pelotas, por entender que se tratam de entidades privadas, pelo que devem ser reconhecidos tais pontos no certame.

2. Pelo fio do exposto, confirmo a sentença sob reexame.

DES. JOÃO CARLOS BRANCO CARDOSO – De acordo.

DES. WELLINGTON PACHECO BARROS – De acordo.

SR. PRESIDENTE (DES. ARAKEN DE ASSIS) – Reexame Necessário nº 70002585859, de

Pelotas – A decisão é a seguinte: CONFIRMARAM A SENTENÇA SOB REEXAME.

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