MACHADO, Roberto. Foucault, A Filosofia e a Literatura. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1991

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Texto

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ROBERTO MACHADO

FOUCAULT,

a filosofia e a lileralura

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A reflexao de Michel Foucault sobre a literatura nao foi esporadka ou marginal, como se poderia pensar quando se con-sidera o ca rater d isperso de seus textos sobre autores taodiversoscomo Holder) in, Sade, Roussel, Flaubert, Malfarme, Artaud, Batailfe, Klossovski, Blanchot Ela inseriu-se p e r f e f t a m e n t e e m suas pesquisas arqueoldg[cas sobre a psiquiatria, a me dicina e os saberes que dizem respeito ao homem de um modo geral, relacionan-do a literatura com a loucura. a rnorte e o ser da linguagem.

Foucault, a filosofia c a literatura pretende mostrar o quanto essa analise dos saberes m o d e r n o s , inclusive da filosofia, como saberes "antropo fog ices* e p r o f u n d a m e n t e jnspirada na critica nietzschlana do niilismo da modernidade. Mas seu objetivo e t a m b e m evfdendar como essa referenda a Nietzsche se deve principalmente aos literatos que, como Blanchot, introduziram na Franca um es-tilo nietzschiano, dialetico e nao-fenomenologico, de pensamento, levando Foucault a valorizara linguagem literaria como alternativa ao homem considera-do como a priori historico considera-dos saberes modernos.

Dal a hipdtese de Roberto M a c h a d o de que os textos de Foucault sobre li-teratura vao bem alem de uma tematica e s t r i t a m e n t e literaria, permitindo-lhe apresentar com mais llberdade o am ago de suas idetas filosoficas, que so apare-cem i m p l i c i t a m e n t e em suas analises criticas da modernidade.

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FOUCAULT,

a filosofia e a literatura

T h i s o n »

IlllillllllO

PEK.S-DYG-C9SR

Copyrighted material

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Roberto Machado

F O U C A U L T ,

filosofia e a literatura

3~ edigdo

Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro

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Copyright <£> 2000, Hobcrio Madia do T<*ius cis dircitns rcscrvadtis,

A rcprodu^ao nao-autorizada clesta puhlica^ao, no lodo ou em pane, oonsritui violacao de direitos iiuiorais. CLci 9610/98)

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ClP-lirasil. Caialogacao-rui-forrtc Sindicato Naciorval dos Kdilorcs de Livntis, RJ.

Machado* Roberto,

I'XZ-M133i Ftaicault, a filosofia e ;* literatura / Rorvrto Macha~ 3.ed. do, — 3 ed. — Rio de Janeiro. Jorge Zahar Hd.r 2005 ATK-KO; Lingua^"1 c literatura / pur Michel Foil-cault

Indui hihliografb ISBN 85-7110-529-4

1. Foucault, Michel, 1926-19tti. 2. Lneraium — Filosofia, 3. Filosofia fry.rK-i;sa. 1. TiTulo.

CDD 194 CDU 1(44 >

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Sumario

Lista de abremagdes, 1 Introducao, 9 A loucura, 15 A morte. 53 O ser da lioguagem, 85 O ocaso da literatura. 117 ANHXO: Linguafiern e literatura,

por Michel Foucault, 137 Bibiiografia, 175

BiblioRrafia citada, 181

Indice remi$siix>, 183

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Lista de abreviaf 6es

AS L'arcbeotogic da savuir [A arqueologia do saber] DF. Dits ei ectits IDitos u cscritos]

ITF Histoire de la folic [Historic! da loucura]

MC I/'s mots el les choses [As palavras e as coisas)

MMP Matadie me}dale et psyebotogie [Doenca mental e psicologia] \C Naissance de la c Unique [Nascirnento da clinica]

RR Ray mo j id Rousset

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Introdugao

Nao ha duvida etc que, q u a n d o se inti;i de pcri.sar :i arqueologia de Michel Foucault como metodo de invesLigaciio. ;i referenda filosofica imporiante para comprecnde-la e situ a-la no tempo e a epistemolo^ia francesa de Bachelard, Cavailles, Koyre, Cangui-Ihcm,.., desde que se leve em consideracao os dois principais deslocamentos que, no retoinar e reform u la r sous principios, ela produziu em relacao a sua principal inspirricao mefodologjca. Em prime ire j lugar. enquantu a hisioria cpistemologira se intcressou pulas regioes de ciemificidade da naturcza e da vida, esiud;mdo ciencias como matematica, fisica, quimica, biologia, a n a L o m i a , fisiologia, a histtiria arqueoltfgica investigou o homem como uma nova regiao, no sentido em que todas as s u a s analises forma ram uma jrrande pesquisa sobre a oonstituicao dos saberes do homem

na modernidade, A arqueologia e uma analise histonco-filosofica

do nascimento Lias ciencias do homem. Em segundo lugar,

en-quanto a epistemologia examinou, ao nivel dos conceitos cientifi-cos, a produgao de verdade nas ciencias, dehnidas como processes

hiMoricos de criac^o e desenvolvimento de racionalidades

especf-ficasp a arqueologia, pelo fato de ter gravitado em tomo do h o m e m ,

dominio a respeito do qual nao parece ser possivel estabelecer criterios rigorosos de cientificidade, pensou os conceitos como independences das ciencias, neutraltsmndo a questao da cientifici-dade e realizando uma histtfria filosofica de onde, em principio, desapareceram os tracos de uma historia do progresso da razao. do conhecimento ou da verdade, sem a qual o projeto

cpistemo-logico seria impossiveL Na medida em que nao prh ilegia em suas ana Uses a raeionalidade cientffica, o grande interesse da

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Ill FoitfanlU a filosofia # a literatitva

logia e ser capaz de dar conta desses saberes especificos, criados na modernidade, que sao bem diferentes dos cstudados peios epistemologos franceses, a ponto de nao se saber dizer com certeza se podern ou nao ser propriamente considers dos cientificos, o que toma, nesse caso, o metodo episremologieo ineficaz, insuficiente ou desinteressante.

Esse foi o tenia de meu livro Ciencia e saber. A trajeloria da

arqueologia de Foucault. Se volto agora a Michel Foucault, 6 com um objetivo diferente, mas complementer. Pretendo mostrar que, quando se trata de compreender, nao a arqueologia como metodo de invesugacao, como foi o caso, mas a tematica frlos6fica do Foucault arqueologo, as questoes que norteiam ou moUvam suas invesugacoes, e a filosofia de Nietzsche que deve ser privilegiada. Acredito mesmo que os deslocamentos metodologicos produzidos por Foucault em relacao a epistemologia para criar sua arqueologia se devem, em grande parte, ao interesse por Nietzsche e sua problematics filosoTica, bem diferente da dos epistemologos :i respeito da ciencia( da verdade, da razao ou da modernidade

Pretendo f assim, evidenciar o quanto sua analise dos saberes

modernos — inclusive da filosofia — como saberes u

antropol6gi-cos^ humanistas, € profundamenie inspirada na critica nietzschiana do niilismo da modernidade. Mas meu proposito e tambem e antes de tudo mostrar como essa referenda a Nietzsche se deve princi-palmente aos I iterates que introduziram na Franca nao propria-mente o comentario de Nietzsche f mas, o que e muito mais

importante, um estilo nietzschiano, nao-dialetico e nao-fenomeno-logico, de pensamento: Bataille, Klossowski, Blanchot.

Se acompanharmos as declaracoes de Foucault em entrevistas, ao longo dos anos 60 e 70, £ possivel notar sua reticeneia em se considerar fil6sofo3 seja lamentando que a filosofia se tenha

tornado uma disciplina universitaria sem importancia, seja argu-mentando historicamente que ela nao existe mais como atividade autonoma, encontrando-se disseminada por atividades cicntificas, politicas ou litcrarias. Esse tipo de declaracao nao si^nifica obviamente que, para ele, a filosofia tenha chegado ao fim, como sua propria pesquisa filos6fica pode atestar. Seu significado deve ser buscado em sua insatisfacao com a reducao, facilmente observada na atualidade, do fil6sofo ao historiador da filosofia e o consequentc desaparecimento da dimensao critica da atividade

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filosofica e sua exigencia de criaeao do novo, do diferente. Mas deve tambem, e talvez sobretudo, ser buscado no evidente esforco de Foucauk para escapar de uma filosofia do sujeito ou da conscieneia que dominava grandc parte do que ha via de mais criativo no pensamemo filosofico francos da epoca em que comecpu a filosofar. Acredito inclusive que essas posicoes

pro-Fundamenie nietzsehianas que guiam sua reflexao nos anos 60 permitem compreender o torn inegavelmente provocative da consideracao que fa7. de Bataille como um exemplo de escritor

que rompe incessantemente com a soberania do sujeito filosofico Mas acredito, sobretudo, que o fa to de sua leitura de Nietzsche ter tornado em consideracao o que escritores como Bataille, KJossowskih Blanchot fizeram com ele levou Foucault a valorizar

a literatura, our mais precisamentc, a lingua gem literaria1 como

alternativa ao homem considerado como a priori historico dos saberes da modernidade. Como se a linguagem, quando utilizada Jitcrariamente, livrasse, com seu poder de resistenciah de

contes-tacao ou de transgressaoh o pensamento do sono dogmatico e do

sonho antropologico a que ele esteve ou continua submetido na reflexao filosofica.

Nao estou evidentemente querendo sugerir com a investigate que agora me proponho a existencia de uma arqueologia da

literatura, isto er um estudo hist6rico-filos6ltco sistematico do

nascimento e das transformacoes das producoes literarias, como Foucault realizou a respeito dos saberes sobre o homem na modernidade em Historic da loucura, Nascimento da cltnica, As

paiavras e as coisas. Isto nao significa, no entanto1 que seu interesse

pela literatura tenha sido passageiro, esporadico ou marginal, como se poderia pensar, considerando o ca rater disperso e desordenado de seus textos sobre o tenia Tambem nao significa que seus estudos sobre autores tao di versos como Holderlin, Sade, fioussel, Flaubert, Mallarme, Artaud, BataUle, Klossowski> Blanche^ para citar os mais signiFicativos, constituam um simples o ma memo ou criaeao autonoma em relacao a sua producao historico-filosofica. Enquanto exisuu, desde o momento em que escrevia a Histdria

da loucura, ate um dia desaparecer ou se metamorfosear, depois da publicacao de As paiavras e as coisas, em 1966, ocupando a quase totalidadc dos artigos desse periodo, sua reflexao sobre a literatura, seu trabalho com a literatura, ou, como seria mais precise

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Patmault, a filos&fia ? i\ literatura

dizer, seu interesse pela linguagem literaria inseriu-se peifeitamente em suas pesquisas da e.poca: sobre a psiquiatria, sobre a medicina clmica, sobre os saberes que dizem respeiro ao homem de um

modo gem I

Por que nao se pode desconsiderar essa refleocao sobre a literatura quando se quer compreender a filosofia de Foucault? Pelo menos por dois motivos. Em primeiro lugar, porque seu trabalho com a literatura acompanhou os deslocamentos tematicos de suas pesquisas, seguindo de perto as inflexoes das analises

arqueologicas. Ao se referir, em maior ou menor grauT a textos e

autores Kterarios em seus livros ou em artigos escritos nessa epoca — publicados ciri livro, em 1994, como parte de seus Ditos e

escriios— Foucault sempre teve a ambicao de relacionar a Literatura a loucura, a morie> e a problerrtdtica geral do homem na moder-nidade, temas principais dessas pesquisas historico-filosOficas, Nao que os textos mais reeentes, que focal izam. temas diferentes dessa etapa arqueolOgica de seu pensamento, desautorizem ou Lnvalidem os anteriores, ao mudar de interesse tematico Assim como acontece com as invesugacdes arqueologicas, que no fundo formarn uma grande pesquisa sobre o aparecimento dos saberes sobre o homem na modernidade, ha tambem nesse caso uma complementaridade de temas que, quando conrelacionados, pennitem explicitar a concepcao que Foucault se faz da literatura como um tipo espe-cifico de saber moderno. E, neste sentido, veremos que o grande

invariante dessa reflexao e a questao da linguagem pensada como o amago do ato literario.

Em segundo lugar, esse seu interesse pela literatura significou um complemento de suas analises arqueologicas, na medida em que, ao valoriza-la como contestacao do humanismo das ciencias do homem e das filosofias modern as h revelou mais claramente o

aspecto positive, afirmativo, o I ado que diz sim, para retomar a expressao de Nietzsche, de um pensamento Filosofico que em suas pesquisas sobre as ciencias ou pseudociencias mostrou-se profun-damente negativoh eritico, demolidor. Ao explicitar e enaltecer,

como que num contraponto a suas pesquisas arqueologicas, uma poscura nao-humanista da literatura na modernidade — a partir do privilegio concedido a autores que realizam ou realizaram uma experiencia nao representation ou nao significativa da linguagem —, e ate mesmo sugerir uma ontologia da literatura concebida

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como uma teoria do ser da linguagem, os textos de Foucault sobre literatura vao bem alem de uma tematica cstritamente Kteraria, Neste sentido, isso Ihe permite apresentar com mais liberdade o amago de suas ideJas filosdtlcas, que so aparecem implicitamente nos estudos cririeos dos saberes antropoJogicos. Dai a important ia de dar conta dessas reflexoes em suas grandes linhas, articulan-do-as as pesquisas arqueol6gicas a que estao vinculadas.

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A loucura

Toda a pesquisa arqueol6gica de Foucault pretende pensar o que e o moderno, situando-o em relacao ao classico. Na Histdria da

loucura isso levou a duas descobcrtas fundamentais ou a desco-berta de uma descontinuidade, de uma grande ruptura em dois niveis diferentes: o das teorias sobre a loucura e o das praticas que dizem respeito ao louco Mais precisamente, um nfvel em que

preponderam as teorias, outro, em que preponderam as praticas, pois a esse respeito a separacao nao e total. O fundamental e" a existencia da loucura sob o olhar da nizao, ligando-se a um sistema de operacoes medica s relacionadas aos sintomas e as causas er

em outro nivel, por sinal mais elementar, do louco situado do outro lado da razao, ligando-se a concepcoes politicas, furidicas, economicas.1

Fazendo, mais ou menos no estilo dos epistem61ogosf uma

hist6ria que recua no tempo e procura compatibilidades c incom-patibilidades entre saberes do presente — no caso, a modernidade — e saberes do passado — o classicismo —, Foucault descobriu

algo original e muito importante: primeiro, que em um periodo recente da historia ocidental, que se estende ate a Revolucao Francesa, ainda nao existia a categoria psiquiatrica de doenca mental; segundo, que antes de se tornar doenca mental — com

Pinelj Esquirol e os psiquiatras do final do seculo xvii] e inicio do XIX —t a loucura era simplesmente doenca, e como doenca estava

integrada, como as outras doencas, no tipo especifico de

raciona-I Q J raciona-IF, p.200-2.

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Foiu-aitli, a Jitosofia e a litcnttitra

lidade medica proprio da epoca classica. Foucault aprofundara esse aspecto da Historia da loucura em seu Jivro seguinte, O

nascimento da clmica, quando mostrara que a medicina classica e uma medicina classificat6ria, uma medicina das especies pato-logicas, que, seguindo o modelo da historia natural, em relacao as plantas e aos an i ma is t estabelece identidades e difercncas entre

as doencast organizando um quadro em termos de classes, ordens,

especies. Para a racionalidade medica do seculo XVTII, a loucura e

uma doenca situada no jardim das especies pato!6gicas. Um bom exemplo disso encontra-se na Nosograjia metodica, de Boissier de Sauvages, que apresenta a seguinte classificacao: Classes— vicios, febres, flegmasias, espasmos, esfalfamentos, debilidades, dores,

loucura s, fluxos, caquexias. Classe MU — loucuras, "vesanias ou doencas que perturbam a razao": Ordem I — alucinacoes, que perturbam a imaginacao; Ordetn u — bizarrias, que perturbam o apetite, a vontade; Ordem m — delirios, que perturbam o juizo.

Especies de delirios— congestao cerebral, dementia, melancolia, demonomania c mania.2 Nao ha, portanto, na epoca classica, esse

exemplo mostra muito bem, uma medicina especial, como a psiquiatria, fundada na distingao entre o ffsico e o mental. Foucault salienta as dificuldades1 resistencias ou obstaculos que o

conned-mento da loucura encontra para se integrar na racionalidade medica classica. £ que, desrespeitando seus prinefpios, ao fazer denuncias morais e estabelecer causalidades fisicas, ou manter inalteradas algumas nocoes imaginarias mais essentia is do que seus conceitos, ou ainda utilizar teorias como as dos vapores e das doencas dos nervos, tigadas a pratica terapeutica, mas estranhas a medicina class ifica tor ia, o conhecimento da loucura nao permite que ela entre completamente na ordem racional das especies patologicas.^ Apesar dessas analises, que como nenhuma outra do livro aproxima a historia arqueologica da historia epistemologica, pode-se dizer que, de um modo geral, a loucura e uma doenca como as outras, so que com sinromas diferentes. lTnutil procurar distinguir, na

epoca classica, as terapeuticas fisicas e as medicacoes psicologicas. Pela simples razao de que a psicoiogia nao existe.1"1

2 a. Ill-, p.210-1.

3 Cf. III7, p.212-21. 4 ME7

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A loucura r

Mas a Historia da loucura estabelece uma ruptura ainda mais importante e cheia de consequencias: antes da Revolucao Francesa, antes de Pine] e Esquirol, nao ha via propriamente hospital psiquia-trico, uma instituicao terapeutica propria para os loucos conside-rados como doentes mentais. O "Hospital Geral", criado por Luis xrv em 1656, marco do grande enclausuramento classico, nao € uma instituicao medica; e uma instituicao assistencial situada entre a policia e a justica: uma ordem terceira da repressao, sugere Foucault, que nada tern a ver com as questdes da essencia da loucura e da recuperacao do louco, e sim com a exclusao dos individuos considerados perigosos porque associais- £ o lugar de pobres e ociosos, em que a obrigaciio de trabalho tern valor de exercfcio etico e garantia moral.s Foucault entao evidencia, com a

forca impressionante de seu estilo, como o grande enclausuramen-to classico constitui, produz uma populacao que para nossos olhos modernos, medica lizados, antropologizados, humanizados, apare-ce como heterogenea, mas que para a percepcao da epoca e perfeitamente coerente, porque agrupa o que aparece como outrot

como diferente, como estrangeiro aos olhos da razao e da moral e classifica como desrazao, desatino, o que pretende desclassificar. Fenomeno institucional que engloba, em primeiro lugar, a trans-gressao da sexualidade, ao internar o doente venereo — que contraiu a doenca fora de casa, e ponador mais de impureza do que propriamente de doenca e mcrece mais castigo do que remedio —, o sodomita, com sua sexualidade dcsrazoada, a prostituta, o devasso, os prodigos, os que mantem ligacao inconfessavel", "casamento vergonhoso"6 em segundo lugar, a "desordem do

coracao"': magia, feiric/aria, alquimia em terceiro lugar, a libcr-tinagem, estado de servidao no qual a razao e escrava dos desejos e do coracao,7 no qual o uso da razao esta alienado na desrazao

do coracao: basta pensar, para saber o que isso significa, que Sade foi um dos ele men Cos dessa populacao enclausurada; final mente, em quarto lugar, o louco, O louco, na epoca classica, e parte integrante de um perigo que a razao classica, nao como razao

5 Cf. HL\ p-H6.

6 Cf. Iff. p. 10*. 7 Cf. HI- p.IIS.

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Fouc&uli, a jtkuufia e a litenctturct

pura, cientifica, medica, mas como razao moral, social, classifica e desclassifica como desrazao, ausencia de razao, negatividade vazia da razao, "vac simulacra da razao" e exclui da sociedade.8

Estamos diante de uma das teses mais importantes da Historia

da loucura. a independencia, a estranheza, a cisao, na epoca classica, dos nfveis das teorias sobre a loucura e das praticas com

relacao aos loucos, O que Foucault enuncia em uma frase Japidar, a que melhor pcrmite compreender a estrutura do livro: "O seculo

KVIEI percebe o louco, mas deduz a loucura"f* No classicismot o

ato de considerar alguem louco nao se fundamenta em uma teoria medica da loucura; e, inversamente, a teoria da loucura se elabora nao a partir da observacao dos loucos, mas da doenca em geral, tal como aparece no ambito de uma medicina das especies pato-16gicas. .

Ha, portanto, quando se compara o classicismo e a moderni-dade, ruptura entre as noeoes de doenca mental e doenca, no que diz respeito ao conhecimento da loucura, e entre o hospicio e o grande enclausuramentor no que diz respeito as praticas de

inter-namento do louco. Mas sO podera seguir o fio condutor da argumentacio da Historia da hucura quern se der conta de que, diferentemente do que acontece nos outros Hvros arqueologicos de Foucault, as rupturas nao sao totais, de que as teorias e as praticas nao sao independentes do que antes se passou, de que

ha sempre condifOcs anteriores de possibilidade. Tomando o exemplo da loucura, esse primeiro grande livro de Foucault e uma critica da razao: uma analise de seus limites, das fronteiras que estabelece e desloca, exduindo o que ameaca sua ordem, sem jamais questionar radicalmente a criaeao dessas fronteiras, Masf

alem disso, esse deslocamento descontfnuo de fronteiras e um processo orientado: se da no sentido de uma crescente subordi-nacao da loucura a razao que tern como ultima etapa — a etapa moderna — a psiquiatria ou a psicologizacao da loucura. A psi-quiatria moderna, considerada como uma slntese hibrida, uma

6 I I E:, p.202. T,Oi7LT que t> racionulLsmn clas^o* > 0 puro £ diztii tin que; c3c JBC purific^Li, tMjmtj cKrlusJn, p<»r reruns, por dfuprv/o", L-SCIWC Midiel Serrv.f t-m uni dtis primclntxs comcntaritjs ;i Hisloiia da loucura illcrmes, 1, p.178).

9 I IE-,

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A loucura 19

mistura confusa, dos dois ntveis heterogeneos em que o classicismo lida com a loucura e com o louco, e um refinamento da sujeicao da loucura: "E essa queda na objetividade que domina a loucura mais profundamente e melhor do que sua antiga sujeicao as formas da desrazao."10

Radicalizacao de um processo de dominacao, a psiquiatria tern condi^oes antecedences. Mas para entcnder todo o alcance dessa ibnnulacao e preciso se dar conta de que ela aponta para as baixas origens dessa psicologizacao: suas condicoes histtfricas de possi-bilidade, suas "fundacoes sea-etas',11 sao mais institucionais do

que te6ricas. O que significa duas coisas. Em primeiro lugar, uma prioridade da pratica sobre a teoria, ou da percepcao moral e social sobre o conhecimento medico no proprio momento do nascimento da psiquiatria. A psicologizacao da loucura $ funda-mentalmente o resultado de um processo de humanizacao dos regimes punitivos que, na epoca da Revolucao Francesa, instaurou novas tecnicas sociais de controle e de assistencia. Isto e, foi menos o exame medico que individualizou o louco, constituindo-o como doente mental, do que a organizacao, o funcionamento e a trans-formacao das institutes de reelusao. Como diz a Historia da

loucura: "Seo personagem do medico pode apossar-se da loucura nao e porque a conhece, e porque a domina; e aquilo que para o positivismo assumira a figura da objetividade £ apenas o outro lado, a consequencia dessa dominacao,'0 2 "O que se chama pratica

psiquiatrica e uma tatica moral, contemporanea do final do seculo xviii, conscrvada nos ritos da vida asilar, e recoberta pelos mitos do positivismo.1'1 3 Mas, alem disso, essa prioridade da pratica sobre

a teoria mtidica e fundamentaImente hist6rica, temporal, A loucura so e objeto de conhecimento cientffico, na modernidade, porque foi antes objeto de excomunhao moral e social, porque foi herdeira da relacao classica da razao a desrazao. "O classicismo formava uma experiencia moral da desrazao que serve, no fundo, de solo para o nosso conhecimento cientifico1 da doenca mental "H Ou

LO i I F , p.463. n u i3, p.119. 12 IT]-, p.%H 13 n r , p.528. 14 IILR, p 121; cf. p

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20 Foucault. a Jilomfia c a titctwfura

como diz o prefauo do livro, aludindo a separacan entre razao e loucura instaurada pelo classicismo: riE constitutive o gesro que

separa a Loucura, e nao a ciencia que se estabelece, quando volta a caJma, depois que a separacao foi feita. E originaria a oesura que estabelece a distancia entre razao e niSo-razao; quanto 3 captura da nao-razao pela razaot para Ihe arrancar sua verdade de loucura h

ela deriva de Jonge da primeira/'1 "* Dai Foucault ser tao incisive

ao dizer que a psicologia jamais enunciara a verdade da loucura, porque £ a loucura que detem a verdade da psicologia.1 6

Foucault nega, assim, que a medicalizacao ou psicologizacao da loucura seja o resultado de um progresso que teria levado ao desvelamento de sua essencia. A ponto de Georges Canguilhem ter afirmado, no momento da defesa da tese — Historia da loucura

foi uma das duas teses de doutorado em filosofia de Foucault —, que uo questionamento das origens do estatuto cientifico da

psi-cologia nao sena a menor das surpnesas provocadas por esse estudoh l T e ter voltado a afirmar, mais recentemente, quase nos

mesmos termos, que um dos objetivos da Historia da loucura 6

"o questionamento das origens do estatuto cientifico da psicolo-g i ah l s Digamos que isso seja verdade. Mas para imediatameme

perguntar: como isso £ possivel, se, diferentemente dos

epistem6-logos, Foucault nao toma a cientificidade, definida pela atualidade de uma ciencia, como norma para avaliar o seu passado, sua historia? H, com efeito, ele enuncia explicitamente, no pretacio do livro, que sua escolha foi nao partir de H'verdades terminals" — a

expressao e 6tima em sua ambiValencia —, foi se desvencilhar de qualquer "verdade" psiquiatrica, usar uma linguagem "neutra'\ isto e, livre da terminologia cientinca sobre a loucura, para ser capaz de se aproximar das proprias paiavras da loucura, uma linguagem

H'sem apoio" cientifico, que va ate o fundo para trazer a superficie

da linguagem da razao as condicoes de sua separacao da loucura, ou, como ele diz no oorpo do livro, para deixar a loucura falar

15 In ]>!•:, 3, p.

159-LG Cf. MM I1, p.104; KF, p. 17^-6.

17 "PriSruppftrT. in Kribon, Michvt Foucmtil, p.l3S. 18 U' iMbat, n" 41. f*-3rt.

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A loucwa 21

sua propria linguagem7. Retomar no projeto arqueologico a

linguagem da razao seria compactuar com a reducao da loucura ao silencio, seria participar da responsabilidade da ordem da razao que torna a loucura cativa.

£ verdade que o psicanalista Daniel Lagache, que tambem fez parte do juri que avaliou a Historia da loucura, parcce ter obser-vado durante a defesa — e uma informacao de Didier Eribon2*' —

que Foucault nao pode se afastar totalmente, como pretendia, dos conceitos contemporaneos, considerando inclusive um pouco su-perficiais as paginas da tese sobre Freud. Seria, entao, a psicanalise a ultima e mais perfeita linguagem da ciencia da loucura, que Foucault utilizaria para avaliar sua historia ou pre-historia? Nao me parece. E um bom testemunho disso e uFazer justica a Freud*',21

conferencia de Jacques Derrida no rx Coloquio da Sociedade Internacional de Hist6ria da Psiquiatria e da PsicaniUise, em 1991, intitulado "Hist6ria da loucura, trinta anos depois". Ao analisar a posicao e o papel de Freud no livro, para responder a questao se o projeto de Foucault teria sido possivel sem a psicanaliset

consi-derando que ele fala pouco dela, e de modo equfvoco e ambiva-lente, Derrida se refere a um movimento pendular, de balancim, "um interminavel movimento atternado que sucessivamente abre e fecha, aproxima e afasta, repudia e aceita, exclui ou inclui, desqualifica ou legitima, domina ou liberta"," que ora quer creditar, ora quer descreditar Freud.

O ciedito aparece quando Foucault, comparando Freud a Janet, diz:"t por isso que e preciso ser justo com Freud ... Freud retomava a loucura ao nivel de sua linguagem, reconstituia um dos elementos essenciais de uma experiencia reduzida ao siiencio pelo positivismo ... restituia ao pensamento medico a possibilidade de um dialogo com a desrazao ... Nao e absolutamente de psicologia que se trata

19 HI-', p. 176,

20 Cf. up. ci(,, p.l^fi. Km entrtvisiu no jtjrntL] Lc Monde de 22 do julho de 61, "L> fulie h'k'Ki-stc que dans une sot'iotc*, Houaiuli, disimguindo Freud c Lacan, reconhece que foi stibrotudo o setfiindt* que t> msirciiu, c iLfrcscontu: "nus lamliem, e principal Iniente, OumciTil" (Oh, I, p.lftK).

2~\ let Foucault. teitumsda "Historia da loucura". Kin de Janeiro, Relume Dum»r4. I ' M .

22 Ibid., p.62.

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Foucault, a filosofia e a Hteratura

na psicanalise: mas de uma experiencia da desrazao que a psico-logia moderna teve como sentido mascarar.1'23 Freud estaria assim

associado a Nietzsche, e aos grandes artistas modemos que foram considerados loucos, como alternative a psicologizacao moderna da loucura. A importancia desse Freud que comecou a pressentir uma experiencia tragica —~4 o que o torna diferente dos

repre-sentantes da psicologia positivista, que reduziam a loucura ao siiencio — foi ele ter considerado a loucura como linguagem ou a linguagem como espaco proprio da loucura, ao ter aberto a possibilidade de a relacao do medico com o paciente se dar na forma de um dialogo em que a libertacao d3 linguagem, a mate-rial! zacao, a expressao dos fantasmas do paciente em palavras, cura.2<*

Mas isso nao € o bastante para Foucault continuar com Freud ate o fim. Um dcscredito, a meu ver muito mais forte do que o credito, aparece vMas vezes na Historia da loucura, quando Foucault estabelece uma continuidade de Pinel, Tuke, Esquirol e Broussais ate Janet, Breuler e Freud, e afirma que toda a psiquiatria do seculo xix converge para Freud. Por exemplo, quando diz que "o frcudismo nao conseguiu, porque nao estava a isso destinado, nos livrar inteiramente do conhecimento mode mo da loucura"; ou que a psicanalise "duplicou o olhar absoluto do vigilante com a palavra indeFmidamcnte monologada do vigiado ... um olhar nao reciproco uma linguagem sem rcsposta"; ou mesmo, no texto mais importante sobre a questao, que 'Freud fez deslizar na direcao do medico todas as estruturas que Pinel e Tuke haviam organizado no interna mento. Ele de fa to libertou o doente da existencia asilar, na qual o haviam alienado seus 'libertadores1; mas nao o Iivrou

do que ha via de essencial nessa existencia; ele reagrupou os seus poderes, ampliou-os ao maximo, atando-os as maos do medico ... £ talvez por nao ter suprimido essa ultima estrutura e ter conduzido

23 ur, p-360; Derrida, in op. cil., p.66.

24 A Wsldria da loucura diz o seguinte a esse respeito: "K ela„ sem duvida, que Freud, no ponto exiremo de sua rrsijctoria, comeeuu a predentin s i o seus grandes dila rem memos que clc quis sirnbolizar arrays dn Luia niitolofiiea enire a libido e o instinto de morte" (p.40).

25 I I I7, p.457.

(27)

A iQJfCHTW

a ela todas as outras que a psicanalise nao pode e nao podera ouvir as vozes da desrazao nem decifrar por si mesmos os sinais da insensatez. A psicanalise pode dcsfazer algumas das for mas da loucura; ela permanece estranha ao uabalho soberano da desra-zao"2 6

Alem disso, o importante artigo "A loucura, a ausencia de obra", que analisarei depoisf pode ser tornado como indicativo

ainda mais claro dessa posicao de Foucault em relacao a Freud, ao dizer que ele "devolveu as palavras a sua propria fontc — a essa regiao branca de auto-implicacao onde nada e dito" Pois esse envolvimento da palavra sobre si mesma, "dizendo outra coisa, abaixo do que ela diz11, significou, segundo Foucault, nao uma

livre expressao da loucura, mas a pen as um desloeamento em uma

•seYie de proibicoes de linguagem, que, apesar da ruptura que introduz em relacao a rcpressao da loucura como palavra proibida, caracteristica da psiquiatria, levou a um novo tipo de proibijao que consisu'u em submeter ;iuma palavra, aparentemente conforme

ao codigo reconhecido, a um outro c6digo, cuja cliave e dada nesta propria palavra*'.

Em ultima analise, a posicao de Foucault em Historia da

loucura e que a possibilidade de um dialogo da razao com a desrazao, no sentido de experiencia tragica, com que a psicanalise acenava, nao foi efetivada por causa do papel que o medico desempenha na psicanalise e que ele assimila, pelo menos duas vezes, ao de um taumaturgo no que diz respeito a relacao

medi-co-paciente Freud agora e dissociado de Nietzsche e associado a Pinel; e um herdeiro da psiquiatria. Georges Canguilhem disse, na abertura do mesmo Coloquio em que Derrida apresentou seu texto, que nao conseguta acreditar que Foucault tivesse sido seduzido pela psicanalise.^7 Considerando a oscilacao da posicao de Freud

no livro, mesmo se o descrcdito predomina, talvez essa afirmacao

seja exagerada. De todo modo, se nao e por a caso que so agora

um projeto como esse de Foucault pode se formar — e minha

hipotese — isso se deve menos a Freud ou a uma abertura da psiquiatria, responseveis por uma certa libertacao da loucura, como

26 III-, p.225, p.529^30, rcspcfiivamenif.

11 " A l H T i t u r a " , i n Fouc&ult, Leitttras <i& "Htsttirut da toitcura", p.y>.

(28)

2-i Foucault, a filosofia ea literal ma

supoe Derrida,- do que a Nietzsche. A grande ambicao da Historia

da loucura e medir a psicologia pela desmcsura, pela desmedida da obra de Nietzsche e alguns artistas que podem ser considerados seus alia dos2 9 como pensadores tragicos em busca de uma

alter-native ao papel preponderante e excludente da razao.

Como, entao, responder com precisao a questao formulada por Derrida em seu primeiro texto sobre a Historia da loucura, "Cogito e historia da loucura" — e retomada neste segundo — sobre o que, em ultima instancia, Foucault apoiou sua linguagem sem apoio?3" Minna posicao e a seguinte: se Foucault pode nao

partir de verdades terminals e usar uma linguagem sem apoio em uma razao psiquiatrica, psicol6gica ou psicanalitica, sem, ao mesmo tempo, se ter contentado em realizar uma historia meramente factual, descritiva, e porque partiu do queh inspirado em Nietzsche,

chamou de "experiencia tragica da loucura", pensada como um valor positivo capaz de avaliar as teorias e as praticas hist6ricas sobre a loucura; para isso procurou, como e dito no preflcio, "reencontrar, na historia, o grau zero de historia da loucura, onde ela e experiencia indiferenciada, experiencia ainda nao separada pela pr6pria separacaoh.31

A ideia de uma experiencia tragica da loucura e a funcao que ela desempenha na Historia da loucura sao o que mais afasta esse livro da epistemologia e da subordinacao, que ela estabelece, da analise historica de uma ciencia a ultima linguagem dessa ciencia tomacla como criterio de avaliacao da pr6pria racionalidade cien-tifica. Como se Foucault tivesse compreendido que a relacao dos ultimos conceitos psiquiatricos, psicologicos ou ate mesmo psica-naliticos com a loucura nao e a mesma que a de uma ciencia para com sua historia.3 2 Mas nao so isso. A importancia inegavel que

28 Cf. "Coflito et hisloirc de hi folk-", in L'ecriturv el let differctice, p.6l-29 Ell-, p.557.

3d Cf. op. cir, p.56: "CoRito et btflroirc de la Folk-", in op. cit. 3J OH, I , p. 159.

32 intciessanre {thaeivur que, cm "O que e um auTur?", Foucault distingue os fundadcuvs de ciencia, como Gatileu e Newton, de fundadores ou instiiuntdores de discuttividadc, como Freud e Marx, cmtxjni dipa, mt mesmo a no, na Arqueologia do saber, que Kreud produ7.iu uma ruptura em relac.'io ao discurso sobre LL sexuiilida.de. instil unindo um discurso de tipo cientifico (Cf. AS, p.252).

(29)

/ i loucura 25

tern, nesse momento da trajei6ria da arqueologia, a tese da exis-teneia de uma experiencia tragica da Joucura e o que mais aproxima Foucault da filosofia de Nietzsche, sobretudo do modo como ela e formulada em O nascimento da tragedia — livro com o qual

Historia da loucura apresenta uma homologia estrutural surpreen-dente.

O objetivo final de O nascimento da tragedia, dito em poucas palavras, e denunciar a modernidade como civilizacao socratica, racional, por seu espirito cientifico ilimitado, por sua vontade absoluta de verdade, e saudar o renascimento de uma experiencia tragica do mundo em algumas das realizac,de$ filosdficas e artisticas da propria modernidade. Essas criacoes Filos6ficas e artfsiicas, identificadas peio Nietzsche da epoca sobretudo em Schopenhauer e Wagner, retomam a experiencia tragica existence na tragedia grega, que, durante deterrninado momento, possibtlitou, pela arte, a experiencia do lado terrfvel, tenebroso, cruel da vida como forma de intensificar a propria alegria de viver do povo grego, mas foi reprimida, sufocada, invalidada pelo "socratismo estetico'vj que

subordinara a criaeao artistica a compreensao tedrica, ou, pela metaftsica* que, como dira depois Alem do bem e do mal, cria a oposLcao de valores; bem e mal, verdade e ilusao etc. Oposicao metafisica que esta na origem da razao, e que Nietzsche procurou desmistificar sem se situar no nivel da propria razao, do pensa-mento racional, e por isso conferiu tanta importancia a arte, sobretudo a arte tragica t o que o levou inclusive a escrever Assim

falou Zaratustra mais como uma tragedia do que como um livro ststematico e conceptual.

Ora, do mesmo modo que, para Nietzsche, a historia do mundo ocidental € a recusa ou o esquecimento da tragedia, a historia da loucura, tal como interpretada por Foucault, e a historia do vinculo entre a racionalidade moderna, tal como aparece nas ciencias do homem, e um Ion go processo de domina^ao que, ao tornar a loucura objeto de ciencia, a destituiu de seus antigos poderes.33

Tern, portanto, razao Habenmas quando, no Discurso filosdfico da

modernidade, diz, a respeito da Historia da loucura-. "o arquetilogo £ o modelo do historiador da ciencia que opera sobre a historia

33 cf. HI-', p 35$Mtt

(30)

26 Foucault, a filosofia c a literatura

da razao e que aprendeu com Nietzsche que a razao apenas constitui a sua estrutura pela via da exclusao dos elementos heterogeneos e da concentracao mori6dica sobre si mesma/'3 4

Deste modo, a loucura tal como aparece no livro, alem de Figura hist6rica, e tambem e fundamentatmente uma experiencia originana, crucial, essencial, que a razao, ao inves de descobrir, encobriu, ocultou, mascarou, dominou, embora nao a tenha des-truido toralmente, por ela ter-se mostrado ameacadora, perigosa. Assim como o primeiro livro de Nietzsche consiste na denuncia da racional izacao, e portanto da morte, da tragedia a partir da experiencia tragica presente nos poetas gregos pre-socraticos, a primeira pesquisa arqueol6gica de Foucault e a interpretacao, ou reinterpretacao, da historia da racionalizacao da loucura, a partir de seu confronto vertical com uma experiencia, ou uma estrutura tragica — constante, mais fundamental —, que permite denunciar como encobrimento esse "devir horizontal" que, em sua etapa moderna, define a loucura como doenca mental. Que Foucault tern presentet no momento em que escreve a Historia da loucura,

a analise de Nietzsche, uma pequena passagem do prefacio deixa bastante explicito, ao dizer que ele mostrou que "a estrutura tragica a partir da qual se faz a historia do mundo ocidental nao £ nada mais do que a recusa, o esquectmento e o ocaso silencioso da tragedia".35 E se quisermos um exemplo de como sua analise da

loucura se vincula & problematica de O nascimento da tragedia, basta essa frase do livro: "A bela retidao que conduz o pensamento racional a analise da loucura como doenca mental deve ser rein-terpretada numa dimensao vertical; e nesse caso verifica-se que, sob cada uma de suas formas, ela oculta de uma maneira mais completa e tambem mais perigosa essa experiencia tragica que tal retidao nao conseguiu reduzir. No ponto extremo da opressao, essa explosao, a que assistimos desde Nietzsche, era necessarian*6

34 Tr. purr, p. 227, nota 3. 35 In UK, I, p.161,

36 lir, p.40- Na entrcvista de 66 "Midid Foucault, Les mots et te$ chases", Foucault reconhoce que Ha qucstao da separacao entc razao e desra?iJo so se tornou ptissfvel a partir de Nietzsche e Artaud^ tnt:f I, p.500).

(31)

A loiicum 27

Sob a separacao da razao e da loucura, origem da linguagem excludente da razao sobre a loucura, Foucault detccta e utiliza criticamente um tipo mais fundamental de linguagem, uma lingua-gem do outro, que € voz, rumor, murmurio, abafado mas nao destruido, e se manifesta transgressivamente em criadores tragicos como Nietzsche. E importante, deste modo, notar, o que a meu ver nao tern sido feito, que essa loucura fundamental, essencial, nao e propriamente uma realidade, uma coisa, um objeto, e sim um fenomeno de linguagem. O que se ve muito bem quando, estudando o delirio dassico, Historia da loucura cnuncia: "A linguagem e a estrumra primeira e ultima da loucura."3 7 Ou quando,

ao apontar a nccessidade de se fazer um estudo da loucura como estrutura global, Doenca mental e psicologia, a caracteriza como "loucura liberada e desalienada, restituida de certo modo a sua linguagem de origem",3 8 o que, bem na linha de Nietzsche, parece

inclusive remeter ao logos grego, do qual o prefacio da Historia

da loucura diz que "nao tern contrario".

Nao me parece haver sentido em dizer, como ja se fez, que o livro teria tudo a ganhar se tivesse eliminado todo recurso a ontologia. O interessante € compreendcr o livro no que ele e, isto e, como ele funciona, e nao a partir da obra posterior de Foucault ou do que o interprete gostaria que ela fosse. £ evidence que ha uma ontologia em Historia da loucura. Alias, Elisabeth Roudinesco, na introducao do livro que apresenta o IX Col6quio da Sociedade Internacional de Historia da Psiquiatria e da Psicanalise, dizia, a meu vcr acertadameme, que o objetivo de Foucault nao era a verdade psico!6gica da doenca mental, mas a busca de uma verdade ontologica da loucura.3* O que seria ainda mais correto

se ela dissesse: a critica de uma verdade psicol6gica da doenca mental em nome da verdade ontologica da loucura. Mas, a esse respeito, o mais importante c assinalar que, se h^ uma ontologia

no pensamento do Foucault dessa epoca, trata-se de uma ontologia da linguagem, como sua reflcxao sobre a literatura mostra mais claramente do que suas pesquisas arqueologicas. E me parece

37 p.2V5

3B MM P. p 9 0 . 39 UJC fit., p.21.

(32)

2H Foucault, a filosofia c a Hteratura

tambem importante lembrar que, se ha um romantismo da Historia

da loucura, como alguns adoram repetir, e no Nietzsche do

Nascimento da tragedia que ele deve ser procurado, e em nenhuni outro lugar.

Se a Historia da loucura e um livro escrito Msob o sol da grande

pesquisa nietzschiana", como diz o seu prefacio,4 0 e, antes de tudo,

porque neie a hist6ria da relacao entre a razao e a loucura — que considerada pela razao como negatividade — e realizada a partir das <lestruturas do tragico", unica forma de nao cair na armadilha

de falar da loucura reduzindo-a ao silencio, como tern feito a razao, seja no racionalismo class ico, seja na ordem psiquiatrica moderna. E se a hipotese de uma experiencia tragica, considerada como "verdade imemorialV1 como "verdade ontologica1', como diz Pierre

Macherey,^2 e decisiva no livro, £ porque apenas essa experiencia

permite dizer a verdade da psiquiatria ou da psicologizacao da loucura, situando-a no processo historico de um controle cada vez mais eficaz efetuado pela razao, processo de controle que evidencia como uma cultura rejeita sua parte maldita. Vejamos brevemente os principals momentos dessa rejeicao, privilegiando o que 6 dito pela filosofia.

No Renascimcnto, em geral vigora uma hospitalidade para com a loucura, que a liga a todas as experiencias importantes da epoca,4 3

as grandes forcas tragicas do mundo,4 4 pcrmitindo que Shakespeare

e Cervantes deem testemunho de uma experiencia tragica da loucura nascida no seculo xv,4* que ainda nao a remete a verdade

e a razao, do mesmo modo que Bosch e Breughel a expressam livremente na iconografia. Apesar dessa constatacao, Foucault tambem detecta um incipicnte controle da loucura presente nessa e.poca atraves de uma critica moral que a situa como miragem, sonho, ilusao. f: o momento de Erasmo e Montaigne, em que uma consciencia critica subordina uma experiencia tragica do homem

40 "Preface" a Histaire de fa fohe, in I>H, t, p. 162.

41 HT, p,397.

42 "Niis origens d j Historia da loucura", in Recordar Foucault, p-66. 43 Cf 111-, p.lrt.

44 Cf III-', p.M-45 Idem.

(33)

,4 loucura

no mundo a um saber que ja" privilegia a verdade e a moraJ. Para Erasmo, por exemplo, a loucura faz o homem aceitar o erro como verdade, a mentira como realidade, a violencia como justica, a feiura como beleza.46

Na epoca classica, o controle se da atraves de um racionalismo que desclassifica a loucura como erro, perda da verdade, £ o momento de Descartes, em que a loucura £ excluida pelo sujeito que duvida, em que a loucura se toma condicao de impossibilidade do pensamento. Se eu penso nao posso ser louco, se sou louco nao posso pensar. Oucamos Foucault comentando Descartes: -LSe

o homem pode sempre ser louco, o pensamento, como exercicio de soberania de um sujeito que se atribui o dever de perceber o verdadeiro, nao pode ser insensato. Traca-se uma linha divisoria que logo tornara impossivel a experiencia tao familiar ao Renas-cimento de uma Razao desrazoaVel, de uma razoavel E>esrazao. Entre Montaigne e Descartes algo se passou: algo que diz respeito ao advento de uma ratio Enquanto Montaigne, meditando diante do poeta italiano Torquato Tasso, "o admira perguntando se o estado lastimoso dele nao se deve a uma clareza grande demais que o teria cegadoV" evidenciando que a razao nao esta livre do compromisso com a loucura, ou que razao e desrazao sao inse-paraveis, o que vigora no classicismo e uma incompatibilidade absoluta entre loucura e pensamento, que tern como consequencia sua reducao ao silencio E Foucault amplia e aprofunda sua interpretacao ligando o ato da razao que exclui a loucura a uma decisao, uma escolha etica, uma opcao da vontade responsavel pela verdade, que ele considera como a condicao do exercicio da razao e da exclusao da loucura. O que o leva a concluir que a razao classica — diferentememc da razao moderna, que se rela-ciona com a loucura por uma necessidade positiva — nasce no espaco da etica: "Assim como o pensamento que duvida implica .0 pensamento e aquele que pensa, a vontade<\e duvidar ja excluiu

46 Cf. EES-', p. 35

47 HP, p.58

4ft Maurice Blanchoi. "L'ouhlic. la dcraison", in L'eutretieu in/iui, p.zy3-4. Ksfci frase lembni t> que diz Heidegger a rcspi-ito de H<>kk-rlin: "A dareza hrilhante dcm;iis jugou o pocu n;is trcvas" (Approchv fte Ifotdvrliu. ]>.%).

(34)

Foucault, a Jtlosofia c a litemtttra

os encantamentos in voluntaries da desrazao e a possibllidade nietzschiana do filosofo louco. Bem antes do Cogito, existe a arcaica

implicacao da vontade e da opcao entre razao e desrazao. A razao

classica nao encontra a erica no extremo de sua verdade e sob as fornias das leis mora is; a etica, como escolha contra a desrazao, esta presente desde o imcio de todo pensamento ordenado.-1'4^

Exclusao da loucura do pensamento, correlata a sua exclusao da sociedade no Grande Enclausuramento^ Momento decisivo da

historia ocidental, como diz Maurice Blanchot, em que "o homem, como realizacao da razao, afirmac,ao da sabedoria do sujeito capaz de verdade e a impossibilidade da l o u c u r a ' I n t e i r a m e n t e ex-cluida, por um lado, inteiramente objetivada, por outro, a loucura

nunca se manifestou por si propria e numa linguagem que lhe seria propria,"^ A loucura classica c nao-ser, prova a contrario da

razao"

Na modernidade, finalmente, o processo historico de controle que Foucault pretende evidenciar atinge o maximo de sua eficacia

atraves de ciencias do homem que, aceitando a loucura como alienacao ''movimento pelo qual a desrazao deixou de ser

experiencia na aventura da razao humana e Foi circunscrita e como

que encerrada numa quase-objetividadeh — a patologizam como

doenca mental, t, o momento de Hegel, que no paragrafo 408 da

Enciciopedia, onde por sinal faz o elogio de Pinel, defende que a

alienacao mental nao e mais uma perda abstrata da razao, uma

ausencia de razao, mas um antagonismo, um conflito, uma opo-sicao, uma contradicao, entre o particular e o universal, no interior da prdpria razao. A loucura nao e mais considerada como total,

completa> absoluta, o que a fazia ser pensada como incuravel. Mesmo se ha perturbacao da razao em relacao a uma representacao particular, da qual sua consciencia e prisioneira, o alienado nao perdeu total mente a consciencia, ainda permanece nele uma

cons-49 lIF, p. 157. Snbrc Descartes, cf. 5M>, 156-7, 175, 3 f o 36«, 5tf

50 Uic. f i t . ,

51 FIP, p.lBVJ.

5 2 nr.

53 riF, p.J0-1. "...o dry fundiJ de uiiu experience juridica tlj alienaeact que se

constituiu :i oCnciji medica das d<tencus menials" {p. 144- Cf. p.l46-c».

(35)

A loucura 31

ciencia normal, moral, racional, um rcsto de razao, com a qual suas representacoes particulares estao em contradicao , e e

justa-mente o que toma possivel a sua cura. riO louco deixou que o

'genio mal' da particularidade uiunfasse dentro dele, mas nao perdeu a razao ... continua tendo consciencia do bem e do mal E o terapeuta pode assim apoiar-se no que ha de 'racional' no doente para devolve-lo ao melhor de si mesmo."5 4 Enquanto ainda

para Kant a loucura era incompativel com um pensamento em conformidade com as leis da experiencia, era incuravel e excluia toda acao terapeutica, para Hegel, que reconhece em Pinel o

responsevel por essa descoberta, ela implica a exisiencia de razao, de consciencia racional, no doente, o que o toma por naturezat

ou em principio, curavel. Deixando de ser erro, faLsidade, nao-ser, exterioridade da razao, outro da razao, desrazao, como na epoca classica, a loucura, agora doenca mental, diz respeito a alma humaria, penetra em sua interioridade, no sentido em que o homem, em estado de loucura, nao perde mais a verdade, mas

sua verdade, sua essencia, torna-se "estrangeiro com relacao a si proprio, AlienadoV:' uma "estrutura antropologica de ires termos

— o homem, sua loucura e sua verdade — substituiu a estrutura binaria da desrazao classica (verdade e erro, mundo e fantasia, ser e nao-ser, Dia e Noire)",*5

Com o deslocamento da loucura de fora para dentro do pensamento ou, mais especificamentet da razao, com seu estatuto

antropoldgico de outro que Ihe e interior, o caminho para o homem verdadeiro passa, na modernidade, pelo homem loucot pelo

alie-nadoj a via de acesso a verdade natural do homem descobre no louco sua verdade profunda,^7 O que faz com que o momento da

negatividade seja condicao de possibilidade da psicologia positiva,

54 Ciio a partir da parafrasc que faz Gerard Lebrun em "Transgrcdir a finiLudep, in Recorder Foucault, p. 16. Derrida tambem parafrascia esse paragrafo 4QH cm "Fazer justtca a Freud", op. cit., p. S4-5- A Hisidria da loucura o ciia a p-539-Stjbrc a cunccpcdo heReliana da loucura, cf. tamlicm "I>cux cpoqucs de la folicp de Gladys Sw:«in e c comentario desse lexio em Da clausttra do font ao/ora da

ctausura, de Peter Pclbart. 55 E Bt", p.535.

56 I I I , p.541. 57 i l l , p.537.

(36)

32 Foucault, a filosofia c a titerafura

no sentido em que a analise de fenomenos patol6gicos como o desdobramenio, a amnesia, a afasia, a debit idade mental estejam no fundamento das psicologias da personal idade, da memOria, da

linguagem, da inteligencia.^* Como diz Foucault numa f6rrnula Lapidar: "o homo psychoiogicus e um descendente do homo mertte

captus"*9 E se agora a loucura esta sob a inteira tutela da razao,

e por ela confiscada, e que, embora na loucura o homem possa aparecer alienado, afastado de si mesmo, a acao eminentemente moral da terapia pode desaliena-Jo, liberti-lo, traze-lo de volta a sua essencia, a sua natureza, a sua verdade, novamente apto para exercer sua razao. A cura do louco esta na razao do outro,*0 Com

a modernidade atinge-se, firialmente, a antropoLogizacao, a psico-logizacao, a humanizacio da loucura

A Historia da loucura nao e, portanto, um livro que da* voz ao louco. tt um livro que, "sob o sol da grande pesquisa nierz-schiana71, mostra como a experiencia trdgica da Loucura, que ainda

se manifestava livremente no Renascimento — na Franca, chegou a haver, no seculo XVTt uma literatura da Loucura, escrita por Loucos —, foi excluida, reprimida, em instituiooes como Ho grande

en-dausuramento* e o hospfcio, por um saber racional que, na epoca classica, a concebeu como desrazao et na modernidade, como

doenca mental.

Na Arqueologia do saber, de 1969, Foucault, pelo menos duas vezes, parece se mostrar desimeressado pela ideia de experiencia tragica, quando aFirma, a respeito de Histdria da loucura: "Come-reriamos seguramenxe um erro se perguntissemos ao propria ser da loucura, a seu conteudo secret*), a sua verdade muda e fechada em si mesma, o que pode ser dito a seu respeito em determinado momento" e "Nao se procura reconstituir o que podia ser a propria loucura, tal como se apresentaria inicialmente em alguma expe-riencia primitive, fundamental, surda, quase nao articulada, e tal como teria sido organizada em seguida (traduzida, deformada, deturpada, reprimida talvez) pelos discursos e pelo jogp obiiquOi frequentemente retorcido, de suas opera^oes", Sem diivida esses textos deixam perceber um Foucault que pens a com categorias 58 nr. p.544-5

6 0 U K , p.54fj.

(37)

A loucura 33

diferentes das que estao presentes em seu primeiro livro, princi-palmente no que diz respeito a ideia de uma experiencia tragica da loucura. Mas e interessante notar que ele nao parece rejeiui-la totalmeme, porque, logo em seguida a essa scgunda passagem, escreve: 'Sem duvida, semeihante historia do referente e possivelj nao se exclui de i mediate o esforco para desenterrar c libertar do texto essas experiencias pre-discursivas"'/''

t verdade que A arqueologia do saber, livro bem posterior a

Historia da loucura, apresenta, como veremos, uma concepcao bem diferente da hist6ria arqueologica. Mas, para que nao seja neglige nciada a importancia decisiva desse conceito de experiencia tragica na primeira pesquisa arqueologica, posso, por exemplo, lembrar dots fatos: o primeiro e que, em 64, na conferencia "Nietzsche, Freud, Mars1', Foucault aproxima Nietzsche e Freud por

terem lutado contra uma experiencia da loucura que seria Ha sancao

de um movimento da interpretacao que se aproxima ao infinito de seu centra e que desmorona, calcinado1';^ o segundo e que, em

1963, no "Debate sobre a poesiah, Foucault da como exemplo da

convergencia entre o seu trabalho e o da re vista justamente o problema da experiencia, defmindo-a como experiencia de trans-gressao e de contestacao, nocpes que ele reconhece ter como origem Bataille e Blanchot, explicitando, a seguir, que o jogo do limite, da contestacao, da transgressao, que na epoca classica se encontrava sobretudo presente na relacao razacxlesrazao, agora aparece com mais vivacidade no dominio da linguagem.6 3

Sabe-se que a palavra "experiencia1' esta abundantemente

pre-sente no pensamento de Foucault e mesmo que um sentido geral

61 ASH pA*y e 64-5. 62 DE, lr p.571.

63 Cf, "Debar, sur la pocste\ publicado cm Tel QuW, nU17, in l>K, I , p.395. 39**

KHHC scniido d j palavra mc parece, inclusive, scr condizentc cum a experiencia

interior, que Batiille idenrifiea com a experience Tllfclirti, cxtfuca, que ele define como "unia viagem ao cxLierno do possivci do homem, uma viagem em que se vai o mais longc que se pode e se atingc a fusao do sujeitu *,: do objeto" (Cf L'oyperiettce intcrieura, Galliinard, 1954, p . H , 17, 20h 55). El intcressanto obsorvar que Dalaillc nao a optic a razao: "A experiencia interior c diri^ida pela razao discursiva. Apenas a razao tern o poder de desfazer sua i]bra, de derrubar o que ela cdificava, A loucunt c sem efeito ... Sem o apoio da razao nao atingimcjs a 'sombria incandcsccneis1'' (p.64-5).

(38)

Fottcaalty a Jttosafia ea tilcratwa

da palavra percorrc sua obra, pcrmitindo falarh por exemplo, de

experiencia medica e de experiencia da sexualidade. Basra pensar na iniroducao do Uso dos prazeres para sentir a importancia que Foucault Ihc da no ultimo momento de sua pesquisa, E esse sentido englobante do termo aparece claramente quando, por exemplo,

Foucault o relaciona aos temas basicos queh nesse momento,

considera como principais eixos ou dimensoes de sua pesquisa, ao afirmar: "O projeto era, portanto, o de uma hist6ria da sexua-lidade como experiencia — se por experiencia se entende a correlacao, em uma cultura, entre dominios de saber, tipos de norm atividade e formas de subjetividade'1 6 4 Mas pode-se tambem

pensar no Nascimento da clinica\ onde a palavra "experiencia" £ inumeras vezes utilizada, notando-se entao que, alem dos sentidos de experiencia perceptiva, de observacao ou de pratica, ela tern o sentido mais geral e mais importante de experiencia medica,

englobando a percepcao e a teoria, o ver e o dizer.

Ora, a importancia do termo "experiencia" tambem e crucial na Historia da loucura) no sentido, proximo desse, de uma

"ex-periencia da loucura em sua totalidade, isto e, no con junto de suas formas cientificamente explicitadas e de seus aspectos silenciosos", o que o leva a apresentar a historia que faz nao como uma cronica de descobertas ou uma historia das ideias, mas como a que segue "o encadeamento das estruturas fundamentals da experiencia", Mesmo sentido que esta presente quando, expondo as duas fontes da psiquiatria que vai de Pinel a Bleuler, Foucault diz que ela "formara conceitos que no fundo sao apenas compromissos, in-cessantes oscilacdes, entre os dois domihios de experiencia que o seculo xix nao conseguiu unificar o campo abstrato de uma natureza te6rica, na qual se delineiam os conceitos da teoria medica, e o espaco concrete de um internamento artificialmente estabelecido, onde a loucura comeca a falar por si propria1'.^ Assim

concebida, portanto, a nocao de experiencia engloba tanto a percepcao do louco quanto o conhecimento da loucura. Ideia que esta em continuidade com a maneira como ele sempre a define,

M L'iisaaotiespiatsits, p. 10.

ffi Cf. nr, pMl, *>4& c 414 rL'specrlvunicntc.

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,-1 l&uCura 35

ao fazer dela o aspecto englobante dos elementos metodologicos a partir dos qua is concebe sua obra.

Mas nao e a esse sentido geral do termo que esrou querendo me referir. Nem a um outro uso da palavra, tambem abundante-mente presente no livro, em que ela a parece como sinonimo de

percepcao. Meu interesse e chamar a atencao para um outro sentido, mais restrito, e ainda mais importante, que se encontra na

Historia da loucura, quando o livro se refere a uma experiencia tragica, experiencia esta que funciona como a propria condicao de possibilidade da critica dos saberes racionais sobre a loucura, E, a esse respeito, do mesmo modo que nao duvido que a principal inspiracao filosofica de Foucault tenha sido Nietzsche, tambem acredito que essa inspiracao filosofica pcrmite passar sem solucao de continuidade a uma inspiracao literaria, atraves de escritores que introduziram na Franca, nao propriamente os estudos de Nietzsche, mas — o que e muito mais importante do que isso — um lipo de pensamento herdado de Nietzsche. Um pensamento tragico que foi marcantc tamo para o despertar de Foucault para o filosofo alemao, quanto para a elaboracao de sua propria maneira de pensar. Estou me rcferindo a Bataille e Blanchot, e suas tentativas de experimentar a linguagem independentemente do sujeito que fala

Minna hipotese, a esse respeito, e que nesse ultimo autor, e na maneira como e interpretado o primeiro a partir dele, a expe-riencia trdgica se torn a explicitamente uma expeexpe-riencia tragica da linguagem, o que permite a Foucault teorizar como experiencia de pensamento a "experiencia radical da linguagem", para usar essa boa expressao do Raymond Roussel^ que ele encontra na literatura moderna. Consider© inipossivel compreender lotalmentc a problematica filosofica da Historia da loucura sem privilcgiar essa nocao de experiencias de pensamento que sao experiencias-limite, de passagem ao experiencias-limite, realizadas no espaco da linguagem literaria, e que, bem na linha de Blanchot, sao experiencias de uma linguagem impessoal, que ultrapassa a oposicao da inte-rioridade e da exteinte-rioridade, do sujeito e do objeto, do eu e do mundo Como diz Bataille: "O eu nao tern a menor importancia.

66 RR,

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36 Foucaidt, a filosofia c u litermttra

Para o leitor, eu sou um ser qualquer: nome, identidade, hist6rico, nao mudam nada. Ele (o leitor) e um qualquer e eu (autor) tambem.h f t ? Como diz Blanchot; 'LO eu jamais foi sujeito da

expe-riencia; 'eu1 jamais seria capaz disso, nem o individuo que sout

essa particula de poeira, nem o eu de rodos que supostamente representam a consciencia absolura de si,.."^

Tanto a analise arqueologica da loucura quanto a reflexao sobre loucura e literatura estao ordenadas pelas nocoes de limite e de transgressao, que Foucault encontrou em Georges Bataille e Maurice Blanchot. Nao que a palavra "transgressao" esteja presente em Historia da loucura. Creio que nao esta. Mas a ideia me parece estar, Foi o que vimos quando Foucault diz se sentir proximo do grupo da revista Tel Quel justamente pela utilizacao dessa nocao, explicitando nao so que ela se encontra em Bataille e Blanchot, como tambem que ela Ihe permitiu contestar a separacao entre razao e loucura. E o mesmo se pode pereeber quando, em 64(

poucos anus depots da publicacao do livro, "A loucura, a ausencia de obra" considera a loucura a face visivel da uansgressao, e, ao fazer referencia a ""liberTacao obscura e central da palavra no amago de si-mesma, sua fuga incontrolavel para um niicleo sempre sem luz, que nenhuma cultura pode aceitar imediatamente'\ a caracte-riza como o jogo de uma palavra uansgressiva.^ Alem disso, em "O que e um autor', citando Beckett c constatando que a escrita contemporanea se libertou da expressao, ele a caracteriza como uma experiencia que esta sempre procurando transgrediros limites de sua propria regularidade. Ideia tambem ja exposta na confe-rencia "Linguagem e literatura", de 64, ao indicar que a palavra literaria £ uma transgressao da propria literatura, e, ate mesmo em 62, na introducao a Rousseaufuizdejean-jacques, quando tambem ele utiliza o termo, ao dizer que a Linguagem literaria e "ultrapas-sagem primeira, pura transgressao1".711

E verdade que essas afirmacoes poderao ser tidas como uma ilusao retrospectiva de Foucault, se for levada em consideracao

&7 F.'&cpcti&tce itttetieuw, p.70.

6» '^'experience- limiic". in L'Etttrvtimt ijtfini. p.331

6 9 U H. [. p . 4 1 4 c 4 1 6 .

70 Cf. " Linguagem e lilL-rarurj", l w . dr.. p.142-6 e 1>F. I, p.793 t- IH8.

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A kmCsirti 37

uma regra metodo log ica que considero indispensavel seguir para dar conta do que ele pensa cm dcterminado momento, isto e, que nunca se deve aceitar como uma cvidencia inqucsuonavel aquilo que ele diz de sua obra passada. Acontece que, mesmo se a palavra nao C usada, a ideia de transgressao e notoria em Historia da

loucura. Como se pode ver, por exemplo, quando o livro salienta que Sade reata com os poderes da desrazao no sentido de

expe-riencia tragica e reencontra a profundidade das profanacoes, como tambem quando ele se refere ao que ha de "profanador em uma obra1'7 1 Uso da palavra ''profanacao" no sentido de transgressao

que se toma claro quando se pensa que no "Prefacio a transgres-sao sobre Bataille, Foucault define a transgrestransgres-sao justamente como "uma profanacao que nao reconhece mais sentido positivo ao sagrado*.72 E talvez seja ainda mais significative, a.esse respeito,

o Fato de Foucault dizer, no prefacio, que a Historia da loucura e uma historia dos limites, historia tragica de como uma cultura rejeita a loucura, consider a ndo-a exterior, reduzmdo-a ao silencio, a um espaco de murmurios, a uma ausencia de obra.

Partindo da ideia de que toda cultura institui limites ou de que excluir, proibir c uma estrutura fundamental de toda cultura,

Historia da loucura estuda um desses limites: a separacao radical entre razao e desrazao. Foi o que vimos. Correlativamente, a

reflexao de Foucault sobre a literatura, ou o seu trabalho com a literatura, estabelecendo sua relacao com a loucura, complements a analise arqueologica no sentido em que e na experiencia literaria que o jogo do limite e da transgressaot cxistentc na experiencia

da loucura, a parece com mais vjvacidade como possibilidade de contestacao da cultural Neste sentido, se a razao se constitui pela exclusao da loucura como alteridade1 a abertura indefinida da

literatura em direcao a loucura e a tcntativa de transgredir, de ultrapassar as fronteiras entre a loucura e a razao, reinstaurando a linguagem comum entre as duasr o dialogo rompido entre elas,

e expressando no limite do possivel, ou no extremo limite, uma experiencia tragica do mundo e do homem.

71 ili'. p.40H c ^ 6 . 72 1>F, I, p.234.

73 "IX-Kn Sku" in pwKk'". id DE. i, p.3W.

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38 Foncatitt. a Jttoscfiti e et Hteratura

Que nao se pense, portanto, que se pode dar conta do projeto filosofico de Foucault nesse momento sem privilegiar a nocao nietzschiana de experiencia tragica. Procurer mostrar isso por sua

analise critica da consEituicao da psicologia da loucura Procurarei mostra-lo agora pela relacao que ele estabelece, na mesma epoca, entre loucura e linguagem literaria, onde, complementando a analise arqueologica que evidenciou que a loucura foi excluida socialmente e objetivada teoricamente, jamais tendo se manifestado por si mesma e com sua prdpria linguagem, a nao ser em criadores uagicos do porte de Goya, Nietzsche, Van Gogh, Nerval, Holderlin, Artaud etc., Foucault enaltece na literatura seu parentesco com a voz do louco que o saber racional considerou ausencia de obra, desclassificando seus poderes de experiencia originaria e verdade fundamental.

Essa relacao aparece tematizada, em primeiro lugar, no proprio livro, quando, como sempre, o Foucault arqueologo pensa a loucura em sua relacao com • arte e a lireratura demarcando tres epocas historicas. No Renascimento, a loucura tinha uma positivi-da o"e artfstica, no sentido em que o louco era alguem que via o que os outros personagens nao viam, como lady Macbeth, na tragedia de Shakespeare, que tern o poder de revelar a verdade quando se torna louca. Ao retomar quinze anos depois as analises de Historia da loucura, em conferencia no Japao,7** Foucault

enfatiza que o Renascimento tambem faz do louco objeto de exclusao com relacao as regras da linguagem, ou do discurso, como ele prefere dizer na epoca. Entao, lembrando a posigao privilegiada que ocupa o louco na cena teatral, por dizer a verdade, por ver melhor do que os nao-1 ou cos, Foucault salienta que ele jamais e escutado, que s6 se percebe que ele disse a verdade depois que a peca acabou, lima afirmacao como essa esta em eontinuidade com a tese de Historia da loucura, que ve na literatura renasccntista uma forma incipiente de controle da razao. Mas e importante assinalar que Shakespeare e Cervantes aparecem no livro como excecao, no sentido em que neles a loucura ocupa um lugar extremo1 e sem recurso, nao pode ser rccuperada pela

verdade ou pela razao.

74 "Ln folic or Li sod ere", in I>K, I, p.

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