TERRITÓRIO, IDENTIDADE E MOVIMENTO
Márcio Emanuel Dantas Estevam
RESUMO: O objetivo deste artigo é demonstrar a diversidade de analises que podem ser feitas à cerca da temática territorial, considerando o território um con-ceito complexo e polissêmico que deve ser utilizado ponderando, varias escalas além da aquela proposta tradicional mono escalar, dos territórios nacionais. Neste artigo há uma proposta ilustrativa de analise superficial, porém demonstrativa e que merece ser aprofundada em estudos futuros sobre a construção dos territóri-os ciganterritóri-os.
PALAVRAS-CHAVE: Território; identidade; movimento; epistemologia.
ABSTRACT: This article's objective is to show the diversity of analyzes that can be do about the territorial thematic, considering the territory a complex and polisence concept. That must be used in a lot of scales beside that traditional proposed mono scaler, of the national territories. In this there is in illustrative propose of a superfici-al ansuperfici-alyze, but demonstrative and beserve to be propossuperfici-al in future studies about the gypsies territories construction.
KEY WORDS: Territory; identity; moviment; epistemology.
TERRITÓRIO
Dentro do caminho epistemológico percorrido pela Geografia lidando com um dos conceitos principais desta análise, o TERRITÓRIO, observaremos que este foi utilizado pela primeira vez pelo alemão Fredrich Ratzel no final do século XIX. Para ele, território seria uma "determinada porção da superfície terrestre apro-priada por um grupo humano" (MORAES, 1990, p.23). Este conceito tomou como base a definição utilizada pelas ciências naturais (Zoologia e Biologia), pois relaci-ona a apropriação do espaço a uma forma de sobrevivência. Ratzel faz referência à ligação do território com o Estado, este sendo criado como forma de um povo
*Mestrando em Geografia pela Universidade Federal da Bahia. Área de concentração: Análise do espaço urbano e regional. Professor do nível médio e de Geografia Urbana da Faculdade Maria Milza.BA. [email protected]
manter a sua defesa afirmando ainda que a única forma de uma sociedade alcan-çar um nível de desenvolvimento superior seria conquistando novos territórios.
Outros teóricos como Camile Vallaux e Elisée Reclus foram importantes para a reflexão sobre o conceito de território uma vez que estes levaram em consi-deração as questões do poder e suas implicações com as ações políticas e econô-micas.
Vallaux, “(...) reconhece como inevitável que a formação dos Estados passe necessariamente pela definição de soberania de um povo sobre uma porção determinada do solo, definindo aí um território, ou seja, um espaço de domínio polí-tico” (COSTA, 1992, p.45).
Reclus, “(...) procurava estabelecer as relações entre as classes sociais e o espaço ocupado e dominado” (ANDRADE, 1994, p.213). Tais autores levaram em consideração o território dentro de uma perspectiva mono escalar (Estado-nação) e sempre ligado à questão de dominação do espaço.
Raffestin trabalha com a relação espaço e poder, utilizando o conceito de território mais como “(...) um espaço onde se projetou um trabalho seja energia e informação, e que, por conseqüência revela relações marcadas pelo poder (...)”¹. O autor distingue os conceitos de território e espaço, território seria “(...) a prisão que os homens constroem para si”. Enquanto espaço seria "(...) a prisão original; o espaço é, portanto anterior preexiste a qualquer ação (...)”². Para este autor, o ter-ritório é compreendido através de códigos e sistemas sêmicos, e mostra que toda forma de apropriação do espaço remete a uma representação dele. Assim sendo, qualquer “projeto é sustentado por um conhecimento e uma prática, isto é, por ações e/ou comportamentos que, é claro, supõem a posse de códigos, de siste-mas sêmicos”, o projeto ao qual remete o autor refere-se a um projeto de territoria-lização. (1993, pp. 143 e 144).
Para além de uma abordagem simplificadora do território baseada numa perspectiva política e mono escalar (Estado-nação), muitos autores, além de utili-zar a dimensão política priorizam também a dimensão simbólica, vendo o território como fruto de uma apropriação simbólica, especialmente através das identidades territoriais, como. Corrêa (1994), Souza (1995) e Haesbaert (1997). Souza (1995) aborda territorialidade de uma forma crítica, para ele:
(...) o território será um campo de forças, uma teia ou rede de rela-ções sociais que, a par de sua complexidade interna, define ao mesmo tempo um limite, uma alteridade: a diferença entre 'nós'
(insiders) e os 'outros' (outsiders). (SOUZA, 1995, p.86).
O autor prioriza mais as relações projetadas no espaço do que propriamen-te o espaço concreto. Para ele, o substrato referencial pode permanecer o
mes-¹Citação referente a obra de Raffestin, 1993, mesma edição. Ver bibliografia. ²Idem.
mo, porém as territorialidades sobre ele podem ser as mais diversas, construírem-se e dissiparem-construírem-se rapidamente, com um caráter de estabilidade ou instabilidade, regularidade ou apenas periodicidade.
Souza propõe ainda conectar escalas diferenciadas que procuram relacio-nar os territórios descontínuos (rede) aos territórios contínuos (superfícies), assim a realidade concreta abarca tanto as redes quanto os territórios. Haesbaert (2002a) faz uma diferenciação entre as redes: as extrovertidas, que através de flu-xos podem destruir territórios e as introvertidas, que podem estruturar novos terri-tórios, existindo assim as redes desterritorializantes e as redes territorializantes. Estas últimas são “(...) aquelas mais simbólicas ou de solidariedade, voltadas para as territorialidades mais alternativas ao sistema dominante (...)”. (HAESBAERT, 2002b, p.123). As relações entre os vários territórios ciganos se enquadram nesta perspectiva, são menos organizacionais e mais afetivas e solidárias baseadas nos elos familiares e culturais.
Haesbaert (2002a) propõe uma nova determinação aos processos atuais de territorialização, que atualmente passam por diversas escalas numa, segundo o autor, “(...) simultaneidade de eventos, onde se vivenciam também, ao mesmo tempo, múltiplos territórios (...)” onde “(...)ora somos requisitados a nos posicionar perante uma determinada territorialidade, ora perante outra, como se nossos mar-cos de referência e controle espacial fossem perpassados por múltiplas escalas de poder e de identidade(...)”(p.140)¹, o que o autor virá a chamar de realidade mul-titerritorial.
TERRITÓRIO E A IDENTIDADE
O território como um conceito polissêmico pode ser analisado de diversas formas. Uma delas parte da identidade territorial e os símbolos que alicerçam tais identidades, além da forma como se estruturam. Corrabora-se neste artigo com a proposta de analisar o território partindo do princípio que, o (...) “território não é o substrato, o espaço social em si, mais sim um campo de forças, as relações de poder espacialmente delimitadas e operando, destarte sobre um substrato refe-rencial” (SOUZA, 1995, p. 97). Assim, é importante destacar que os territórios são relações de poder, construídas sobre um substrato material, que são refletidas no espaço em forma de territorialidade. O processo territorializador parte da:
(...) apropriação e dominação do espaço (...), sendo que apro-priação seria o processo efetivo de territorialização; que reúne uma dimensão concreta de caráter predominantemente “fun-cional” e uma dimensão simbólica afetiva; enquanto que domi-nação tende a originar territórios puramente utilitários e funcio-¹Citação referente a obra de Haesbaert, 20002a. Ver bibliografia.
nais, sem um verdadeiro sentido compartilhado e/o uma rela-ção de identidade com o espaço possa ser construída. (LEFEBVRE In HAESBAERT, 1997, p.41).
Assim a dominação seria uma distorção da apropriação, a criação apenas de territórios funcionais. Partindo da idéia de apropriação do espaço, esta dar-se-á no processo de construção de uma identidade com uma porção do espaço geo-gráfico (o território). Pois, “De uma forma muito genérica podemos afirmar que não há território sem algum tipo de identificação e valoração simbólica (positiva ou negativa) dos espaços pelos seus habitantes (...)” (HAESBAERT In CORRÊA, 1999, p.172). Desta forma, podemos perceber que a territorialização parte da apro-priação de espaços e construção de identidades territoriais que permitirão delimi-tar os contornos do território, “nossos espaços e os espaços dos outros”.
Muitas vezes ligadas ao processo identificatório, percebe-se uma hierarqui-zação ou classificação das culturas, com a utilihierarqui-zação de parâmetros de comparabi-lidade transformando o que é apenas diferente em desigual. Como foi dito anterior-mente por Haesbaert, a territorialidade é constituída de identificação e valorização simbólica. A valorização simbólica ou a construção de símbolos indicam ações con-cretas e a decodificação desses símbolos irá auxiliar no entendimento de como se processa a territorialidade daquele grupo. Sobre o símbolo afirma se que:
Constituindo a base das representações que orientam as dire-ções das adire-ções dos homens sobre o espaço, o domínio do simbó-lico possui um inegável valor explicativo. Mais do que fonte de sobrevivência, a Terra é um registro simbólico por excelência e, apesar de a racionalidade moderna ter conquistado os espaços objetivos das relações sociais, as representações permanecem nos dispositivos simbólicos, nas práticas codificadas e ritualiza-das, no imaginário e em suas projeções. (CASTRO, 1997, p.156)
Como a territorialidade é um processo de criação de raízes culturais e iden-tificatórias, o geógrafo Yi-Fu-Tuan (1983) demonstra a transformação do espaço, aqui entendido como território, em lugar, quando aquele (espaço) passa a ter sig-nificado para quem nele habita. A partir desta abordagem, pretende-se compreen-der quais os elos afetivos entre as pessoas e o seu território, já que estes exercem aparentemente uma territorialidade mais temporária que permanente qual arsenal simbólico utilizado para a criação das identidades territoriais, se tais identidades serão realmente afetivas e/ou funcionais.
Levando em consideração que territórios são relações de poder projetadas no espaço, consideraremos também as relações entre poder e cultura. (COSGROVE, 1998), quando analisa a relação da cultura e do poder, ressalta que existem subculturas dentro de uma cultura dominante, que tem o objetivo de vali-dar-se como hegemônica e assim legitimar sua posição em uma sociedade de
classes. Quanto às subculturas ou culturas alternativas são menos visíveis e sub-divididas em: Residuais - utilizadas para reconstrução de antigas geografias; Emergentes - de caráter mais transitório e com baixo impacto sobre as paisagens. Ainda segundo o autor “Está na natureza de uma cultura emergente oferecer um desafio à cultura dominante existente, uma visão de futuros alternativos visíveis” (p.53)¹, como os "hips". Excluídas - Paisagens excluídas de investigação ou com estudos ocasionais, pertencentes a grupos excluídos, porem da mesma forma que as demais paisagens urbanas repleta de significados simbólicos.
TERRITÓRIO, IDENTIDADE E MOVIMENTO
Como sugestão de análise no sentido de integrar território, identidade e movimento, lançamos mão dos espaços ciganos, que são espaços apropriados por estes agentes também através da identidade, porém ao mesmo tempo demonstra-se uma territorialidade temporária, (movimento) graças as caracterís-ticas nômades deste grupo. Assim, esta proposta não exige neste artigo uma necessidade de aprofundamento das relações deste grupo com o espaço, mas o usa apenas como um instrumento ilustrativo desta proposta de análise.
Bonnemaison em (CORRÊA & ROSENDHAL 2002) traz reflexões sobre o território e o movimento a partir de análises de sociedades tradicionais; para ele, o território teria um núcleo forte bem como uma periferia e seu entorno, mais os pon-tos e os itinerários entre esses, que caracterizariam o espaço vivenciado definiri-am uma real apropriação, gerando a verdadeira afetividade pelo território. Esta visão sobre o território é importante, pois leva em conta a não fixação dos grupos em pontos do espaço, mas também os movimentos como fatores identificatórios, como exemplo, temos os grupos ciganos que, em sua maioria, partilham do noma-dismo ou seminomanoma-dismo, desta forma, “A territorialidade se situa na junção des-sas duas atitudes; ele engloba aquilo que é fixação dito de outra maneira, os itine-rários e os lugares” (BONNEMAISON In CORREA & ROSENDHAL, 2002, p.99). Apesar deste caráter fluido da identificação do espaço, para o autor existem luga-res que possuem um significado maior, “pontos fortes” ou itinerários reconhecidos que iram determinar os “territórios de errância”. Para ele a idéia de cultura está no centro de seus estudos de forma indissociada ao território. Assim, “(...) é pela exis-tência de uma cultura que se cria um território e é pelo território que se fortalece e se exprime a relação simbólica existente entre cultura e espaço” (BONNEMAISON In CORREA & ROSENDHAL, 2002, p.99), daí surgindo uma forma de analisar o espaço, denominada de “geocultural”.
Bonnemaison (2002) nos lembra ainda que o território é, ao mesmo tempo, “espaço social” e “espaço cultural”, o primeiro sendo relacionado à organização social, às funções políticas, sociais e econômicas da sociedade e o segundo tanto à função social quanto à simbólica. Para o autor, são dois aspectos complementa-res não devendo haver o descuido de separá-los.
Mais particularmente sobre a identidade cigana, a socióloga Maria Patrícia L. Goldfarb, no seu artigo “Tempo e Espaço na Construção da identidade Cigana” (2004), demonstra como as categorias tempo e espaço, influenciam na formação da identidade cigana na cidade de Souza - PB. Utiliza os significados como forma de compreender os grupos ciganos, prioriza a concepção de como as pessoas se pensam, o “Ser cigano” em oposição com os “Não ciganos”.
Quanto à questão do tempo-espaço, relaciona-os às concepções de noma-dismo e sedentarização. Na sua pesquisa, a autora percebeu que a base da identi-dade deste grupo está situada em um passado um pouco distante, onde o noma-dismo predominava nas relações dos ciganos com o espaço. O nomanoma-dismo, pre-sente nas representações coletivas em torno do passado grupal, é o que irá permi-tir uma identificação com uma historia em particular, esta continuidade do passado é o que diferenciará os ciganos da população nacional. A autora constatou ainda a partir de alguns discursos, que apesar das inovações trazidas pela sedentariza-ção, o passado nômade é ainda valorizado positivamente.
Para concluir, território, identidade e movimento mesclam-se na tentati-va científica de compreender uma realidade espacial através de um arcabouço teó-rico conceitual de base geográfica contemporânea e crítica rompendo com con-cepções tradicionais que envolvem o conceito de território. A proposta de análise de espaços ciganos por si própria demonstra a tentativa deste autor em tornar clara a aplicabilidade do conhecimento geográfico, não apenas em questões pura-mente econômicas ou políticas, mas sim em uma realidade muito mais complexa que não envolve apenas a racionalidade como também a subjetividade.
REFERÊNCIAS
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