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Márcia Perozzi Gonçalves de SOUZA*

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Academic year: 2021

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H U M O R E R E S I S T Ê N C I A E M BRÁS, BEXIGA E BARRA

FUNDA, D E A N T Ô N I O D E A L C Â N T A R A M A C H A D O

Márcia Perozzi Gonçalves de SOUZA*

B r á s , Bexiga e B a r r a F u n d a (Machado, 1961), é uma c o l e t â n e a composta por onze contos que tecem um panorama do cotidiano dos imigrantes italianos e seus descendentes na cidade de S ã o Paulo, no início deste s é c u l o .

Temos, assim, uma galeria de tipos que desfilam pelos contos: c r i a n ç a s í t a l o - p a u l i s t a s , costureirinhas, comerciantes, e m p r e s á r i o s , barbeiros, descendentes de italianos que se tornam brasileiros j a c o b i n o s ( 1 9 6 1 , p.20), todos à s voltas com o processo de i n t e g r a ç ã o à nova pátria, desde a busca por uma s i t u a ç ã o e c o n ô m i c a estável a t é a procura de reconhecimento social.

Os contos registram, t a m b é m , o processo de a d a p t a ç ã o lingüística, o que se verifica na e x p r e s s ã o das personagens, em italiano ou numa mistura desse idioma com a língua portuguesa.

A a p r e s e n t a ç ã o dessas personagens é feita por um narrador que registra os fatos e os apresenta ao leitor, assemelhando-se a uma c â m e r a . Os contos s ã o compostos por cenas separadas por e s p a ç o s em branco, que focalizam as personagens em diferentes momentos. Essa t é c n i c a de c o m p o s i ç ã o do texto remete à forte influência das artes visuais (cinema, pintura) na literatura do p e r í o d o modernista.

A l é m dessa t é c n i c a , vale lembrar a p r e s e n ç a de um t o m h u m o r í s t i c o que permeia os contos, seja a t r a v é s da palavra nas c o n s t r u ç õ e s i r ô n i c a s do narrador, ou na linguagem arrevesada das personagens, seja no aproveitamento do risível que h á em determinadas s i t u a ç õ e s exploradas nos contos.

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Apresentados alguns elementos utilizados na c o n s t r u ç ã o dos contos e considerando, sobretudo, os que se referem ao delineamento da figura do ítalo-paulista, buscaremos, agora, discutir uma q u e s t ã o que divide a crítica em r e l a ç ã o ao tratamento dispensado por A n t ô n i o de A l c â n t a r a Machado à s personagens que retratou.

Parte da c r í t i c a ' v ê na obra desse autor, uma e x p r e s s ã o de clara r e s i s t ê n c i a à figura do imigrado por a p r e s e n t á - l a de forma distanciada e quase sempre risível, r e a l ç a n d o , assim, os seus contrastes em r e l a ç ã o ao novo meio. Sua atitude para com o imigrado n ã o iria a l é m da v i s ã o de c i m a para baixo com que o aristocrata observa e descreve uma classe totalmente distante dele.

Essa leitura a p ó i a - s e , como vimos, em dois elementos presentes no texto: primeiro, a p o s i ç ã o do narrador, que apresenta as personagens de forma distanciada. Tal p o s i ç ã o poderia ser vista como uma a u s ê n c i a total de envolvimento do narrador com o objeto narrado, o que contribuiria para neutralizar t a m b é m a possibilidade de identificação do leitor com as personagens.

O segundo elemento que complementa essa linha de a r g u m e n t a ç ã o , reforçaria essa impossibilidade de identificação: a forma risível com que s ã o apresentadas as personagens e as s i t u a ç õ e s por elas vividas. A o nos defrontarmos com figuras e s i t u a ç õ e s c ô m i c a s , tais como a do imigrado novo-rico, Salvatore M e l l i , do conto " A Sociedade" que, embora possua o poder e c o n ô m i c o , é totalmente desprovido de cultura e ainda quebra regras de etiqueta t ã o caras à aristocracia, s e r í a m o s levados ao riso de rejeição em r e l a ç ã o ao objeto. O mesmo ocorreria todas as vezes em que uma personagem de Brás,

Bexiga e Barra Funda reforça um t r a ç o tido como e s t e r e ó t i p o do imigrante

italiano, como por exemplo: a passional idade, o h á b i t o de gesticular e falar alto, a rudeza nas r e l a ç õ e s familiares, a falta de higiene, etc.

A a p r e s e n t a ç ã o desses t r a ç o s seria um meio de chamar a a t e n ç ã o para um comportamento c o n t r á r i o aos p a d r õ e s sociais apreciados e n t ã o , levando o leitor a r i r dele, ao mesmo tempo que o repele e repreende. Esse argumento

Exemplos desse ponto de vista estão expressos em "O bloqueio" de Franklin de Oliveira e em "Antonio de Alcântara Machado e o imigrante e Brás, Bexiga e Barra Funda, uma anti-homenagem", de Maria Alice de Oliveira Faria (Carelli, 1985, p. 173-176).

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remete ao c a r á t e r punitivo que o riso representa em r e l a ç ã o aos desvios da norma, como p r o p õ e Bergson (1983), ou ainda ao conceito de c ô m i c o como forma de a d v e r t ê n c i a do c o n t r á r i o , proposto por Pirandello (1993). Segundo esses dois conceitos, o c ô m i c o se c o n s t r ó i justamente a partir do n ã o envolvimento do narrador (e por e x t e n s ã o do leitor) com o objeto do riso.

Essa v i s ã o da crítica expressa sobretudo por M a r i a A l i c e de O l i v e i r a Faria, nos trabalhos citados, parece, à s vezes, estar contaminada pela leitura de outros textos do autor, como artigos de j o r n a l , alguns deles reunidos no volume

Cavaquinho e saxofone (1940) ou mesmo no seu l i v r o de viagens, Pathé Baby

(1926) em que e s t á presente a figura do italiano em seu p a í s de origem.Nessas duas obras, aparecem referências aos italianos e, sobretudo em Pathé Baby, a Itália e seus habitantes s ã o apresentados de forma risível. Esse fato se explica, no entanto, se observarmos que a i n t e n ç ã o do autor ao compor essa obra parece ter sido a de romper com os c l i c h ê s , tanto em r e l a ç ã o à literatura de viagem, quanto à v i s ã o mitificadora que os brasileiros tinham (ou t ê m ) da Europa. Dessa forma, parece ser natural a o p ç ã o pelo tom caricatural com que s ã o apresentadas as personagens.

Mas essa v i s ã o estaria presente t a m b é m nos contos de Brás, Bexiga e

Barra Funda? O u ainda, o riso que resulta da leitura dessa obra é mesmo o riso

de repulsa, de r e p r e e n s ã o ? M á r i o Carelli em Carcamanos e comendadores (1985), adota uma outra perspectiva crítica que se coloca de forma oposta à que citamos, e que a j u d a r á talvez a responder essas perguntas.

De acordo com a leitura que faz da obra de A l c â n t a r a Machado, esta n ã o seria uma e x p r e s s ã o de r e s i s t ê n c i a em r e l a ç ã o ao imigrado. O que h á é uma tentativa de imparcialidade por parte do narrador ao apresentar as personagens, para que o leitor as analise. N o " A r t i g o de Fundo" que abre a c o l e t â n e a de contos, o narrador evidencia essa busca pela imparcialidade:

Brás, Bexiga e Barra Funda, como membro da livre imprensa que é, tenta fixar tão somente alguns aspectos da vida trabalhadeira, íntima e cotidiana desses novos mestiços nacionais e nacionalistas (...) não tem partido nem ideal. Não comenta. Não discute. Não aprofunda (Machado, 1961, p.8).

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A p r e f e r ê n c i a pela neutralidade em r e l a ç ã o à a p r e s e n t a ç ã o do imigrante, t a m b é m está presente no trecho seguinte, retirado de Cavaquinho e

Saxofone:

O drama da imigração no Brasil é estupendo e pode, sozinho, alimentar largo tempo mais de uma literatura. Mas será sempre falseado se aquele que o desenhar e descrever puser nisso qualquer intuito que não seja exclusivamente literário. Quero dizer: o interesse nacionalista ou o objetivo da campanha contra ou mesmo pró só poderão dar (...) um aspecto parcial dele e, portanto, uma visão errada (Machado, 1961, p.82).

Essas c i t a ç õ e s explicam, em parte, a escolha do distanciamento narrativo na c o m p o s i ç ã o de Brás, Bexiga e Barra Funda, mas h á outros argumentos que podem ser arrolados para esclarecer a o p ç ã o por essa t é c n i c a . U m deles seria a j á citada a p r o x i m a ç ã o da literatura com as artes visuais e gráficas (cinema, revistas ilustradas, charges, pintura) c a r a c t e r í s t i c a presente no modernismo, que pode ser uma e x p l i c a ç ã o para a u t i l i z a ç ã o do narrador que se assemelha à c à m e r a .

A l é m disso, o que parece haver aqui é uma c o n f u s ã o entre a p o s i ç ã o do narrador e a do autor, que n ã o s ã o necessariamente iguais. Desse modo, parece-nos bastante i m p r ó p r i a a leitura que, fundamentada no distanciamento narrativo, busca estender esse distanciamento à figura do autor, conferindo-lhe uma v i s ã o a r i s t o c r á t i c a e de resistência em r e l a ç ã o ao imigrante italiano.

Voltaremos agora à outra pergunta que surgiu anteriormente sobre o tipo de riso que a leitura dos contos suscita.

Citamos Pirandello e sua d e f i n i ç ã o de c ô m i c o como uma a d v e r t ê n c i a para um comportamento que se manifesta de forma c o n t r á r i a ao p a d r ã o , e que faz r i r desse comportamento, repelindo-o e repreendendo-o. Em o p o s i ç ã o a esse conceito, Pirandello estabelece outro, o de h u m o r que leva à a n á l i s e e à reflexão sobre a natureza do comportamento c o n t r á r i o , fazendo com que este seja compreendido. Provoca t a m b é m o riso, mas em lugar da repulsa, gera a c o m p l a c ê n c i a , a acolhida, a c o n d e s c e n d ê n c i a . N ã o há mais a a d v e r t ê n c i a do c o n t r á r i o e sim o s e n t i m e n t o do c o n t r á r i o .

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A i n d a segundo Pirandello, a personagem h u m o r í s t i c a sente e sofre, e o riso que provoca muitas vezes p r o v é m do sofrimento e n ã o da comicidade. Estabelece-se aqui o limite entre a dor e o riso: um momento de sofrimento (que se n ã o for atenuado se t o r n a r á t r á g i c o ) é suspenso por uma brincadeira, um gracejo, uma ironia, tornando-se, assim, risível.

E m Brás, Bexiga e Barra Funda, é constante a o c o r r ê n c i a desses momentos em que s i t u a ç õ e s t r á g i c a s s ã o atenuadas por elementos provocadores do riso, mas de um riso que, como afirma M a r i o Carelli "jamais procede da ironia mordaz, mas serve para ocultar as e m o ç õ e s " (1985, p.169).

C o m o exemplo, temos o t r á g i c o da cena da morte de Gaetaninho, no conto h o m ô n i m o , cujo maior sonho era andar de a u t o m ó v e l , que se ameniza pelo humor da cena final, criado pelo deslocamento da f o c a l i z a ç ã o para outro menino, o Beppino, que desfila num carro, acompanhando o enterro de Gaetaninho e exibindo "soberbo terno vermelho que feria a vista da gente".

Ou ainda no conto " A m o r e Sangue", a d e c l a r a ç ã o de N i c o l i n o Fior D ' A m o r e ao delegado, em que afirma ter matado a namorada Grazia porque estava louco, é transformada em " c a n ç ã o da a t u a l i d a d e para ser cantada com a m ú s i c a do Fubá, letra de Spartaco Novais Panini", provocando "furor na zona".

Se levarmos em c o n s i d e r a ç ã o esses exemplos, dentre outros, poderemos notar que os elementos que resultam no riso em Brás, Bexiga e

Barra Funda n ã o s ã o sempre provocadores da rejeição às personagens, mas

expressam uma tentativa de a t e n u a ç ã o das e m o ç õ e s . N a verdade, n ã o h á afastamento do narrador em r e l a ç ã o ao objeto: aquele aproxima-se deste a t r a v é s do riso de acolhida, n ã o de repulsa. Esse parece ser o tom predominante em

Brás, Bexiga e Barra Funda, ou seja, h á uma s u p e r p o s i ç ã o do t o m h u m o r í s t i c o

em r e l a ç ã o ao satírico (ou c ô m i c o , no conceito de Pirandello).

Difícil seria agora expressar uma p o s i ç ã o definitiva com r e l a ç ã o ao tratamento dispensado por A l c â n t a r a Machado à figura do í t a l o - p a u l i s t a em

Brás, Bexiga e Barra Funda. Os textos apresentam uma mistura de modalidades

c ô m i c a s : se, por um lado, algumas personagens se aproximam do caricatural, como nos exemplos vistos anteriormente, por outro, n ã o h á como negar a p r e d o m i n â n c i a do t o m h u m o r í s t i c o na obra. A l é m disso, n ã o nos parece que o c a r á t e r risível dos contos deva ser avaliado como forma de r e s i s t ê n c i a ao imigrado e à sua i n t e g r a ç ã o ao Brasil, resultado da visão aristocrática do autor.

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Pelo c o n t r á r i o , ao retratar o cotidiano dos imigrantes italianos e seus descendentes, A l c â n t a r a Machado está, quando menos, evidenciando a e x i s t ê n c i a dos "bairros que as pessoas de sua casta quatrocentona s ó olhavam de longe".(Carelli, 1985, p. 182).

Esse fato torna-se mais relevante ainda, se pensarmos que, apesar da forte p r e s e n ç a do imigrante italiano e seus descendentes, em S ã o Paulo, bem como em outras r e g i õ e s do país, ele é uma figura bem pouco presente em nossa literatura. A l é m disso, é interessante notar que, como afirma M á r i o Carelli, "historicamente, a i n t e g r a ç ã o dos italianos na sociedade paulista n ã o se fez sem conflitos nem preconceitos de ambas as partes" (1985, p.186), e A l c â n t a r a Machado tem o m é r i t o de ultrapassar esses preconceitos ao retratar aqueles que denominou os novos mamalucos, registrando aspectos culturais e humanos desse grupo durante o processo de i n t e g r a ç ã o à nova pátria.

A i n d a em r e l a ç ã o à p r e s e n ç a do humor na c o m p o s i ç ã o das personagens de Brás, Bexiga e Barra Funda, é n e c e s s á r i o lembrar que tal recurso é m u i t o c a r a c t e r í s t i c o na literatura do p e r í o d o modernista. O p r ó p r i o A l c â n t a r a Machado, num artigo intitulado Subsídios para a História da

independência (19'40, p.303) expressa essa preferência modernista pelo riso, em

detrimento do aspecto grave e severo que aponta na literatura produzida no Brasil, a t é e n t ã o . Para ele, um dos maiores b e n e f í c i o s trazidos pelos modernistas, foi justamente introduzir o riso na literatura, em s u b s t i t u i ç ã o ao tom sério, afetado e choroso que esta p o s s u í a . Reafirmando ainda essa c o n c e p ç ã o , A n t o n i o Candido afirma que "uma das grandes l i ç õ e s do nosso Modernismo foi o papel profilático, regenerador e humanizador do h u m o r i s m o " (1992, p.137).

Compreende-se, assim, a o p ç ã o pelo tom h u m o r í s t i c o no delineamento das personagens de Brás, Bexiga e Barra Funda , e esse tom h u m o r í s t i c o , enquanto forma de acolhida, parece-nos dificultar a leitura da obra como e x p r e s s ã o de r e s i s t ê n c i a à figura do ítalo-paulista.

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