1. Carta aos delegados
Caras Delegadas, Caros Delegados,
Temos enorme satisfação em lhes dar boas vindas a este V MIRIN. Durante cinco dias, esperamos perceber a vontade e a dedicação de todos nesta que será a primeira simulação de uma Conferência Interministerial da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) no MIRIN. Em um comitê onde Comércio e Desenvolvimento são os assuntos em pauta, não poderíamos ter escolhido um assunto mais atual: a cooperação Sul-Sul no Setor Energético.
Por um lado, os desafios ambientais se mostram cada vez mais urgentes: o aquecimento global, antes visto como um risco do futuro, é hoje uma realidade, e políticos, economistas e organizações internacionais bus-cam uma solução conjunta para esta que parece ser a grande crise do início do século XXI. Por outro, um bilhão de pessoas, ou 1/6 da população do planeta, está em situação de pobreza extrema, enquanto outros milhões vivem pouco acima dos limites de pobreza. Enquanto na China e na Índia o crescimento econômico surpreendente demonstra as contradições e as possibilidades destas sociedades, a África parece estar fican-do cada vez mais para trás na busca fican-do desenvolvimento.
É exatamente nesta intersecção que a energia se torna um desafio crucial da atualidade: a busca por desenvolvimento não pode ocorrer sem acesso à energia; contudo, as fontes atuais de energia contribuem de forma determinante para o aquecimento do planeta. É esta tensão entre desenvolvimento e sustentabilidade que coloca a cooperação energética no centro dos debates da UNCTAD: como promover o desenvolvi-mento econômico para bilhões sem destruir o planeta? Como os países do Sul podem cooperar para garantir seu acesso ao desenvolvimento econômico e qual o papel dos países desenvolvidos nesta dinâmica? Quais as oportunidades e desafios criados pelo uso dos biocombustíveis- a grande aposta nesse início de século? Aproveitamos este espaço para fazer nossos agradecimentos, em primeiro lugar, ao Secretário-Geral Daniel "Queijinho" Edler e ao Vice Secretário Acadêmico Fernando "Fencas" Malta, pela confiança deposi-tada em nosso projeto e pelas orientações durante a confecção do Guia. Ao Professor Paulo Ferraccioli, pelo apoio com vasta bibliografia e pela solicitude em nos apoiar.
Esperamos que todos passem ótimos momentos lendo este Guia, assim como nós passamos o escreven-do, a seis mãos e em dois continentes. Esperamos ansiosamente encontrá-los em julho deste ano! Boa sorte e bons estudos!
Alexandra Teixeira Thiago Scot Fernanda Monteiro
2. Apresentação do Tópico
"O Comércio não é um fim em si próprio, mas um meio para [a promoção de] crescimento e desenvolvi-mento" (UNCTAD, 2004). Assim se inicia a análise final da XI Conferência da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) no que tange aos desafios do sistema internacional de comércio e das negociações comerciais para o desenvolvimento. Desde sua criação, em 1964, a UNCTAD colabora para a criação de uma estrutura de comércio global, assim como para a formulação de políticas públicas no nível nacional, que promovam o crescimento econômico dos países em desenvolvimento.
Neste contexto, a dinâmica de cooperação no eixo Sul-Sul, ou seja, entre países em desenvolvimento, vem se mostrando como um enorme desafio, mas também como uma brilhante oportunidade para a promo-ção do crescimento econômico dos países em desenvolvimento. O comércio Sul-Sul é uma estratégia alter-nativa para tais países, em complementaridade à relação comercial tradicional Norte-Sul. Segundo as publi-cações recentes da UNCTAD, a promoção do comércio Sul-Sul é desejável por causa do crescimento lento nos países em desenvolvimento e, principalmente, pelas barreiras continuadas contra produtos de exporta-ção do interesse desses países.
Mais especificamente, a cooperação no setor energético é vista como um campo onde enormes oportu-nidades ainda esperam os países em desenvolvimento. As recentes altas nos preços internacionais do petró-leo, assim como o grande interesse por recursos energéticos alternativos, como os biocombustíveis, interes-sam diretamente aos países em desenvolvimento, que têm a oportunidade de utilizar tais fenômenos em seu favor promovendo o tão desejado desenvolvimento sócio-econômico.
Como pode ser percebido, há uma relação estreita entre comércio de energia, comércio Sul-Sul, meio ambiente e desenvolvimento. Através das relações, oportunidades e desafios entre esses diferentes campos da política e da economia internacionais que a XII Conferência Interministerial da UNCTAD irá abordar os desafios da cooperação Sul-Sul no setor energético.
3. Histórico do Comitê
Para entender o contexto no qual se origina a UNCTAD é preciso, primeiramente, analisar o envolvimento da ONU na questão de desenvolvimento. Nos fins da década de 1950 e início da década de 1960, a ONU passa a dar prioridade às questões de desenvolvimento econômico. O fator mais importante para essa mu-dança foi a entrada de um grande número de países em desenvolvimento na ONU em decorrência do pro-cesso de descolonização. Esses Estados recém-independentes perpetuavam uma estreita ligação com as suas ex-metrópoles. Para quebrar esse ciclo vicioso, era necessário promover o desenvolvimento interno nesses países. A ONU foi a principal arena para a formulação de quais seriam as bases para permitir tal desenvolvimento. Houve diferentes fases no envolvimento da ONU na questão do desenvolvimento. De 1945 a 1963, a ONU entendia que o desenvolvimento econômico deveria ser quase exclusivamente obtido pela ação doméstica. A segunda fase corresponde ao período de 1963 a 1982, com o estabelecimento de novas orientações. Passa a ser colocado em dúvida se o modelo econômico a ser adotado pelos países que saíam do processo de descolonização seria semelhante ao modelo das economias capitalistas avançadas. Ganha repercussão nesse período a idéia de que as forças do mercado isoladas não podem promover o desenvolvimento, e a intervenção governamental, em ocasiões que expressassem falhas de mercado, passa a ser vista como um mecanismo necessário de apoio à promoção do desenvolvimento. Contudo, as ações
domésticas não poderiam, por conta própria, atingir o desenvolvimento pretendido. O Sistema Internacional também teria influência significativa sobre a política nacional.
Durante essa segunda fase, no ano de 1964, é criada a UNCTAD, a partir de uma iniciativa dos países menos desenvolvidos para tentar retificar as disparidades presentes no pós-guerra, resultantes do Sistema de Bretton Woods1. Seus objetivos são: maximizar as oportunidades comerciais, de
inves-timento e de desenvolvimento dos países em desenvolvimento, assim como integrar os países em desen-volvimento na economia mundial. As três funções principais da UNCTAD são: (1) desenvolver pesqui-sas, análises e coletas de dados para auxiliar nos debates entre os representantes dos Estados mem-bros; (2) funcionar como fórum intergovernamental de discussões e (3) promover assistência técnica aos países em desenvolvimento, aos menos desenvolvidos (LDCs) e às economias em transição (UNCTAD, 2002b).
A primeira Conferência da ONU sobre comércio e desenvolvimento ocorreu em Genebra em 1964. Devido à magnitude dos problemas em questão e a necessidade de debatê-los, a Conferência foi institucionalizada e marcada para ocorrer a cada quatro anos, com um secretariado permanente para dar apoio logístico à Conferência.
A principal força para a criação da UNCTAD veio dos países menos desenvolvidos. Baseados no prin-cípio da soberania ou do direito de autodeterminação, tais países faziam suas reivindicações diretamente aos países desenvolvidos, que passaram a ser considerados responsáveis pelo nível de atraso em que se encon-travam. Um dos principais pontos de insatisfação para os países em desenvolvimento se referia às tendências econômicas desfavoráveis que vinham se perpetuando desde a década de 1950, especialmente com a dete-rioração de sua posição no comércio mundial no período. Assim, a criação da UNCTAD pode ser vista como uma reação dos países em desenvolvimento em face de uma posição crescentemente desvantajosa no comércio internacional, nos anos 50 e início dos anos 60.
O pensamento Cepalino2 teve grande influência na criação da UNCTAD. Segundo essa vertente teórica,
a situação de subdesenvolvimento produziu-se historicamente quando a partir da expansão do capitalismo, os Estados passaram a apresentar posições distintas na estrutura do sistema internacional. Assim, entre as economias desenvolvidas e as subdesenvolvidas não existe apenas uma diferenciação de nível de desenvol-vimento, mas relações de dominação. A situação de dependência em que alguns países se encontram é condicionada pelo desenvolvimento dos países aos quais são subordinados. Ou seja, o subdesenvolvimento
1O chamado "Sistema de Bretton Woods" foi resultado da Conferência Monetária Internacional de Bretton Woods
ocorrida em 1944. O acordo visava a construção de uma nova ordem econômica mundial para assegurar a estabilidade monetária no pós-guerra. Foi prevista a criação de 3 instituições internacionais responsáveis pelo gerenciamento na Nova Ordem: o FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Banco Mundial) e a Organização Internacional do Comércio (que não chegou a tornar-se realidade)
2"Cepalino" refere-se à Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), estabelecida por uma Resolução do
Comitê Econômico e Social (ECOSOC) das Nações Unidas em 1948. A CEPAL é uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas, tendo sido fundada para contribuir ao desenvolvimento da América Latina, para coordenar as ações para sua promoção e para reforçar as relações dos países latino-americanos entre si e com o resto do mundo. Posteriormente, seu trabalho se ampliou para países do Caribe e incorporou o objetivo de promover o desenvolvimento social. A sua missão inclui a formação, o acompanhamento e a avaliação de políticas públicas. A Comissão está constituída por representantes dos governos dos Estados membros, que se reúnem em sessões a cada dois anos. Dentre outros, o fundamento teórico que guiou o pensamento da CEPAL foi elaborado pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, pelo professor Theotônio dos Santos e pelo argentino Raul Prebisch. (cf. SOBRE A CEPAL. Disponível em: <http://www.eclac.org/>)
das periferias (países subdesenvolvidos) é conseqüência direta do desenvolvimento dos países centrais (pa-íses desenvolvidos). O enfoque Cepalino busca reconhecer que "no plano político-social existe algum tipo de dependência nas situações de subdesenvolvimento e que essa dependência teve início historicamente com a expansão das economias dos países capitalistas originários" (BIELSCHOWSKY, 2000, p.507). Os países subordinados ou subdesenvolvidos não conseguem acumular capital porque são exportadores de matéria-prima, cujo preço é depreciado, e importadores de bens manufaturados de altos preços. Essa defasagem é chamada de "deteriorização dos termos de troca".
As noções de "centro" e "periferia" são conceitos igualmente importantes para a teorização da CEPAL. As economias dependentes ligam-se aos países que atuam como centro nas distintas fases do processo capitalista. Um exemplo claro dessa vinculação é o pacto colonial através do qual a economia do país colonizado (periferia) dependia da expansão da economia metropolitana (centro). Para os autores Cepalinos, o desenvolvimento nas condições da periferia latino-americana não seria uma "etapa" de um processo universal de desenvolvimento, mas um processo inédito e relacionado com as especificidades da experiência local. Portanto, os resultados do desenvolvimento latino-americano são distintos do desenvolvimento dos países centrais. A tarefa proposta era "entender o subdesenvolvimento como um contexto histórico específico, que exige teorização própria" (Ibid., p.22). No fundo, apesar de diferen-tes maneiras de formular a questão, os teóricos Cepalinos colocavam uma mesma mensagem central: a necessidade de realizar políticas de industrialização como forma de superar o subdesenvolvimento e a pobreza (Ibid., p.25). Um exemplo de estratégia política sugerida é a substituição de importações. Um dos principais expoentes desse pensamento, Raúl Prebisch, foi nomeado o primeiro secretário Geral da UNCTAD, o que demonstra o impacto desta corrente teórica nas formulações da agência.
Na década de 1980, a UNCTAD se deparou com um ambiente político-econômico em mudança. Houve como conseqüência uma transformação significativa no pensamento econômico do órgão. As estratégias de desenvolvimento se tornaram mais voltadas para o mercado, focando-se na liberalização do comércio e na privatização. Um grande número de países em desenvolvimento passava por uma crise de dívida profunda. Apesar das tentativas de ajuste estrutural por parte do FMI e do Banco Mundial, a maioria dos países em desenvolvimento afetada não logrou se recuperar rapidamente. Por essa razão, a década de 80 ficou conhe-cida como "a década perdida". Nesse contexto, a interdependência econômica aumentou enormemente. Durante esse período histórico, a UNCTAD se esforçou para fortalecer seu conteúdo analítico e para abar-car o gerenciamento macroeconômico e as questões monetárias e financeiras internacionais. Ainda, ampliou o escopo das suas atividades para assistir os países em desenvolvimento nos seus esforços de integração ao sistema de comércio internacional. Outras duas estratégias adotadas pelo organismo foram: a promoção da cooperação Sul-Sul, e a organização da primeira Conferência da ONU sobre países menos desenvolvidos, em 1981 (UNCTAD, 1985).
Nos anos 90, a globalização financeira levou a uma grande instabilidade e volatilidade na medida em que os fluxos financeiros aumentaram de forma espetacular. A análise da UNCTAD buscou chamar atenção para os riscos e impactos destrutivos das crises financeiras nos países em desenvolvimento. A organização enfatizou a necessidade de uma arquitetura financeira internacional mais orientada para o desenvolvimento. A X Con-ferência, realizada em Bangkok, em 2000, foi uma tentativa de responder ao contexto econômico e financei-ro vigente. O "Espírito de Bangkok" corresponde à estratégia de colocar a agenda do desenvolvimento em um mundo globalizado.
Nos anos recentes, a UNCTAD se focou na pesquisa analítica sobre as ligações entre comércio, investi-mento, tecnologia e desenvolvimento empresarial. O órgão também desenvolveu uma "Agenda Positiva"
para os países em desenvolvimento nas negociações internacionais de comércio, formulando a posição des-ses paídes-ses nas complexas negociações multilaterais de comércio. A UNCTAD expandiu atualmente sua as-sistência técnica, que passou a abranger uma vasta gama de áreas que incluem: treinamento de negociações de comércio, gerenciamento de dívida, lei e política de competição e a relação do comércio com o meio ambiente.
3.1. Aspectos institucionais da UNCTAD
A UNCTAD foi criada não como um órgão direto da ONU, mas como uma agência especializada3,
tendo assim, desde sua criação, certa independência em relação à ONU. Mas, apesar de ser uma agência especializada sem ligação direta à ONU, não pode ser considerada como um órgão totalmente independen-te. Ela se reporta à Assembléia Geral das Nações Unidas através do ECOSOC e tem seu Secretário-Geral nomeado pela própria ONU. Como classificação, os países pertencentes à organização se dividiam, a prin-cípio, em quatro categorias:
-Grupo A: Estados da África e da Ásia, acrescentando-se a Iugoslávia; -Grupo B: economias desenvolvidas ou países ocidentais;
-Grupo C: Estados latino-americanos; -Grupo D: países comunistas.
O grupo do G77, que também foi criado em 1964, se compunha dos Grupos A e C em contraposição aos Grupos B e D.
A UNCTAD é composta de três órgãos: o Trade and Development Board (TDB), os Comitês subordina-dos ao Trade and Development Board e a Conferência Ministerial.
O Trade and Development Board ou Junta de Comércio e Desenvolvimento é o órgão executivo da UNCTAD, que se caracteriza por um conselho aberto a todos os membros da organização e encontra sua sede em Genebra durante o intervalo entre as Conferências. O órgão também conta com comitês subor-dinados à Junta de Comércio e Desenvolvimento. Os comitês permanentes se encontram geralmente uma vez ao ano com o intuito de prover competências técnicas em questões políticas específicas.
A Conferência corresponde a encontros periódicos que ocorrem a cada quatro anos, são de nível ministerial e visam formular orientações para a política nacional, internacional e estabelecer prioridades às suas atividades. Sendo uma agência especializada e respondendo à Assembléia Geral da ONU, as deci-sões da Conferência não têm caráter obrigatório, ainda que carreguem consigo todo o peso de uma decisão da comunidade internacional. É este órgão, que se reúne em sua XII Conferência em 2006, que discutirá a cooperação Sul-Sul no setor energético.
Na sua criação, a Conferência tinha como objetivo transformar as regras do sistema internacional de comércio. Mais precisamente, a missão da UNCTAD era assegurar equidade entre os países em desen-volvimento e os desenvolvidos, de forma que todos os países se beneficiassem do desendesen-volvimento econômico, do progresso técnico e dos investimentos. No Ato final da primeira Conferência, a UNCTAD
3De acordo com as Nações Unidas, "Agências especializadas são organizações autônomas trabalhando com a ONU e
entre si através da coordenação institucional do ECOSOC no nível intergovernamental e através da coordenação do Chief Executive Board (CEB) no nível inter-secretariado" ("The United Nations System", disponível em http://www.un.org/ aboutun/chart_en.pdf). Outras Agências Especializadas, com mesmo status, são a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO).
recebeu o mandato de buscar um sistema internacional de cooperação econômica mais efetivo e de cons-truir as fundações para uma melhor Ordem Econômica (UNCTAD, 2002b). As principais funções da UNCTAD eram as seguintes: 1) promover o comércio internacional; 2) formular princípios e políticas sobre comércio internacional; 3) revisar e facilitar a coordenação das atividades das outras instituições dentro do sistema ONU no campo do comércio internacional; 4) iniciar ação, quando apropriado, com os órgãos competentes da ONU; 5) estar disponível como um centro para harmonizar o comércio e as políticas de desenvolvimento dos governos e dos grupos econômicos regionais.
4. Histórico da Questão: Cooperação Sul-Sul, Energia e Desenvolvimento 4.1 - Commodities: no centro da problemática do desenvolvimento
O comércio de commodities4 é central para a questão do desenvolvimento no cenário internacional e
por isso ocupa um vasto espaço nos debates da UNCTAD. A Conferência afirma que em 50 países em desenvolvimento mais da metade da renda de exportação provém da comercialização de três ou menos
commodities. Se incluirmos recursos energéticos nesse cenário, mais de 60 países possuem 90% ou mais
de sua renda dependente da renda gerada pela exportação de commodities (UNCTAD, 2005).
Tais dados demonstram que quaisquer políticas que visem promover o crescimento econômico nos países em desenvolvimento devem lidar com a questão do comércio internacional de commodities e com as políticas públicas nacionais relacionadas a tal comércio. No nível mundial, é necessária uma deliberação concertada da comunidade internacional que permita maior acesso aos mercados e melhores termos de troca para as exportações de commodities dos países em desenvolvimento; no nível nacional, são neces-sárias políticas públicas que gerem capacidade produtiva e competitiva para as empresas nacionais expor-tadoras de commodities (UNCTAD, 2005).
Nas últimas décadas, a constante queda e a instabilidade no preço internacional de commodities mos-traram-se como um impedimento recorrente ao desenvolvimento dos países exportadores desses produ-tos, sobretudo ao conjunto de Países Menos Desenvolvidos (Least Developed Countries - LDCs). Des-ta forma, a luDes-ta contra a miséria, a fome e a morDes-talidade infantil em diversas áreas do mundo foram dificultadas pela impossibilidade de geração de renda através destas que são as principais fontes de diver-sas nações exportadoras, sobretudo na África Subsaariana e no Leste Asiático. Além disso, a instabilida-de na obtenção instabilida-de renda pela exportação instabilida-de commodities impeinstabilida-de o investimento em setores econômicos mais dinâmicos, bem como a introdução de novas commodities que possam diversificar a produção nacional e, desta forma, diminuir a dependências destas nações das flutuações internacionais de preços. Forma-se assim, um ciclo vicioso: a queda e instabilidade dos preços de commodities impedem a moder-nização da economia, que por sua vez mantêm tais nações dependentes dos preços internacionais de suas
commodities exportadas.
4Podemos definir commodities como produtos que, em um determinado mercado, não possuem diferenciação qualitativa,
e, por isto, possuem seu preço definido exclusivamente pela dinâmica de oferta e demanda do mercado. Em outras palavras, um produto denominado "commodity" poderia ser livremente trocado por outro do mesmo tipo (digamos, um saco de arroz de certa marca por outro de marca diferente) sem qualquer diferenciação de preço. Exemplos de commodities são grãos em geral (trigo, milho, soja), metais, carvão e petróleo cru.
4.2 - Nova Geografia do comércio: Cooperação Sul-Sul
Até recentemente, a geografia do comércio internacional possuía um eixo bastante definido: Norte-Sul. Em geral, os países em desenvolvimento do Sul exportavam produtos primários e de menor valor agregado para o Norte, em contrapartida importando produtos mais elaborados e de maior valor agregado dos países desenvolvidos. Esta situação, contudo, vem mudando. Na última década, o comércio Sul-Sul teve um cres-cimento médio de 10% ao ano, mais que duas vezes o crescres-cimento do comércio internacional em geral (UNCTAD, 2006). Hoje, este movimento já representa 40% das exportações dos países do Sul, e 11% do total de comércio mundial.
O grande motor deste desenvolvimento do comércio Sul-Sul são os países do Leste Asiático: seu impres-sionante crescimento na década de 90 fez com que suas importações vindas de países em desenvolvimento crescessem a uma média de 14% ao ano, ao longo do período 1990-2003. O crescimento desta região, sobretudo puxado pelos resultados de Índia e China, fez com que o comércio Sul-Sul de commodities, em comparação com o comércio Norte-Sul, tenha aumentado em praticamente todos os produtos e regiões.
Para se obter todas as vantagens possíveis do comércio Sul-Sul, contudo, diversos obstáculos ainda têm de ser superados. Em primeiro lugar, as tarifas de proteção no comércio Sul-Sul ainda são muito maiores que, por exemplo, no eixo Norte-Norte: 11,2% no primeiro caso, enquanto apenas 4,3% no segundo. Em segundo lugar, o comércio Sul-Sul ainda persiste concentrado no Leste Asiático. Acrescente-se a isto que a maior parte deste comércio se dá entre os países de renda média-alta e média-baixa, enquanto os países de baixa renda continuam com uma participação bastante marginal (em torno de 1% do total mundial) (OCDE, 2006). Desta forma, percebe-se que, ainda que o comércio Sul-Sul demonstre grande potencial, os desafios a serem superados para que se tire o máximo de suas oportunidades ainda são enormes, e uma maior cooperação través das instituições multilaterais se mostra fundamental.
4.3 - Commodities Energéticas: o grande desafio contemporâneo
O debate sobre os recursos naturais energéticos e seu impacto na economia internacional tem seu ponto fundamental de início em 1973. Neste ano, o primeiro choque do petróleo5 fez com que o preço do recurso quadruplicasse em função das limitações de produção e comércio impostas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Em decorrência da crise gerada pelo choque do preço do petróleo, diversas medidas foram tomadas, tanto no âmbito internacional quanto nacionalmente.
No cenário internacional, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cria, em 1974, a Agência Internacional de Energia (AIE), ao mesmo tempo uma organização que determinava níveis de estoque de recursos energéticos que garantissem a segurança de oferta em caso de rompimento do fornecimento de energia, e um think-thank6 que produzisse análises do cenário energético internacional.
Nos países ocidentais, iniciou-se uma busca por fontes alternativas de energia que pudessem diminuir a dependência nacional do petróleo proveniente do Oriente Médio, uma região cada vez mais caracterizada
5O primeiro choque do petróleo ocorreu em decorrência da Guerra do Yom Kippur, envolvendo Israel e países Árabes.
Como medida de retaliação a todas as nações que suportassem Israel na guerra, a OPEP limitou a produção de petróleo por seus membros e embargou o comércio com diversas nações que apoiavam Israel. Como resultado, o preço internacional do petróleo disparou, atingindo a barreira de U$12/barril, contra, em média, U$3/barril antes da crise
6Um think-thank é um grupo ou organização que promove pesquisas e/ou se engaja nas áreas de: estratégia política,
política social, consultoria, entre outras. Podem ser financiados pelo governo, mas muitos não possuem fins lucrativos. Um think- thank também é conhecido como um Instituto de Política.
pela instabilidade política e pelos conflitos militares. Nos Estados Unidos, não apenas medidas de redução de consumo (como limites de velocidade nas estradas) foram adotadas, mas também o Congresso America-no aprovou as primeiras leis de incentivo à produção de etaAmerica-nol. No Brasil, o goverAmerica-no militar institui, em 1975, o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), uma vasta iniciativa para incentivar a produção de etanol e a substituição da frota automotiva movida à gasolina por veículos movidos a etanol. Na Austrália, ainda, um programa governamental substitui grande parte dos aquecedores a óleo por outros a propano ou gás natural. Desde então, a questão de segurança de fornecimento de recursos energéticos tornou-se um ponto central na formulação de políticas econômicas tanto nacionais quanto nas organizações internacionais.
O fim do século XX, contudo, viu o debate acerca das commodities energéticas ressurgir com ainda mais força; desta vez, o foco central desloca-se da capacidade de adquirir recursos energéticos fósseis para uma questão mais fundamental: a viabilidade ambiental da utilização de tais recursos.
As primeiras medições do chamado "efeito estufa" (o efeito de certos gases atmosféricos na manutenção da temperatura global) e os primeiros modelos sobre a relação entre a quantidade de certos gases e a temperatura terrestre foram feitas no fim do século XIX, pelo químico sueco Svanthe Arrhenius. Na primeira metade do século XX, contudo, seus estudos permaneceram na obscuridade, até que, nos anos 50, o geoquímico Charles Keeling retoma as medições dos gases de efeito estufa, que ele continuaria até o ano de sua morte, em 2005. Nesse espaço de tempo, segundo os estudos do cientista, a quantidade de tais gases teria aumentado de 214ppm (partes por milhão) para 280ppm (HENRY, 2007).
A partir de então, e sobretudo no início do século XXI, com estudos como o relatório Stern7 e os
docu-mentos do IPCC (Intergovernamental Panel of Experts on Climate Change), a questão da contribuição da combustão de recursos energéticos fósseis para o aquecimento global tornou-se um debate fundamental na comunidade internacional. Em vista da cada vez mais aceita necessidade de se alterar a matriz energética de combustíveis fósseis para fontes "renováveis", como o biodiesel e o etanol, a produção e comércio de recur-sos energéticos renováveis tornou-se central para a questão do desenvolvimento. É possível que os países em desenvolvimento utilizem-se da produção de matérias renováveis para promover seu desenvolvimento, sem com isso afetar o balanço ambiental do planeta? Tais debates, que envolvem a estrutura internacional de comércio, a liberalização dos mercados desenvolvidos e em desenvolvimento para commodities energéticas renováveis e as políticas públicas de incentivo à produção e comercialização de biodiesel e etanol, estão no centro das discussões previstas para a XII Conferência Interministerial da UNCTAD.
5. Pontos de Tensão do Tópico 5.1 Cenário atual de energia
Em Janeiro de 2008, o preço do barril de petróleo cru atingiu seu nível histórico, chegando ao patamar de U$100,00. Ainda que, corrigido pela inflação ao longo dos anos, o preço da commodity não tenha ultrapas-sado o limite alcançado após a crise de 1973, a barreira psicológica de U$100 ultrapassada elevou as tensões ao redor do globo, prenunciando tempos difíceis para a economia global e estressando, mais do que
7Divulgado em Outubro de 2006, o relatório "The Economics of Climate Change", do pesquisador Britânico Nicholas
Stern, mostrava um vasto panorama dos efeitos econômicos do aquecimento global. Suas conclusões foram fundamentais para garantir uma maior mobilização política contra o aquecimento do planeta.
nunca, a necessidade de novas alternativas viáveis para a economia global.
As reservas de petróleo ainda encontram-se distantes do esgotamento: com o nível de crescimento econômico mantido, as reservas atuais de petróleo durariam em torno de 40 anos; isto não leva em conta, por um lado, a possibilidade da aceleração do crescimento mundial, sobretudo puxada pela Índia e China, e, por outro, a possibilidade de novas reservas serem descobertas, o que aumentaria esta previsão. Contudo, existe um vasto consenso de que o uso de combustíveis fósseis deve ser diminuído em favor de outros recursos energéticos que produzam uma menor quantidade de gás carbônico (CO2) em sua queima.
A alta dos preços das commodities energéticas (petróleo e gás natural, sobretudo) mostra-se, ao mesmo tempo, como uma ameaça e uma oportunidade para os países em desenvolvimento.
Por um lado, o aumento dos preços do petróleo possui repercussões mais profundas nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. O Secretário Geral da Conferência de Comércio e De-senvolvimento, Supachai Panitchpakdi, afirma que "para a UNCTAD, a energia é uma importante questão de comércio e desenvolvimento. Constitui um componente essencial do fomento da capacidade comercial e da luta contra a pobreza. A falta de infra-estrutura energética diminui a competitividade de um país e priva suas empresas de oportunidades de investir no futuro da sua nação" (UNCTAD, 2007b).
As fontes de energia contribuem, assim, para reduzir a pobreza ao aumentar a produtividade, ampliando a diversidade e qualidade dos produtos elaborados por países menos desenvolvidos. Desta forma, a falta de acesso às fontes de energia é um grave obstáculo para o desenvolvimento social sustentável e para o cresci-mento econômico. A situação do continente africano demonstra a enorme importância de tratar a questão energética: apenas 35% da população africana possui acesso à energia comercial e menos de 10% tem acesso à eletricidade; no total, dois bilhões de pessoas no mundo desenvolvido, ou 1/3 da população mun-dial, não possuem acesso à energia elétrica (UNCTAD, 2007).
Por outro lado, a alta dos preços de recursos energéticos provê duas diferentes oportunidades para diferentes grupos de países em desenvolvimento. Em primeiro lugar, grande parte das reservas petrolíferas e de gás natural do globo situa-se em regiões subdesenvolvidas, notadamente nos países membros da OPEP (Arábia Saudita, Irã, Kuwait, Venezuela, Angola, Argélia, entre outros). Desta forma, o boom no preço de tais commodities significa uma oportunidade para estes países se aproveitarem das rendas provenientes de suas exportações e gerarem emprego, modernizarem sua infra-estrutura e investirem em setores econômicos mais dinâmicos que impulsionem seu desenvolvimento. Desta forma, a oportunidade está não apenas na renda gerada, mas na possibilidade de política públicas que invistam essa renda de forma a diversificar a produção doméstica e diminuir a dependência em único setor econômico (produção de petróleo/gás natural). Por outro lado, o pico de preços das energias fósseis, que veio se somar às crescentes preocupações ambientais quanto ao aquecimento global, incentivou a produção de fontes energéticas alternativas. Nas últimas décadas, os biocombustíveis (tanto o biodiesel quanto o etanol) vêm sendo largamente cultivados em diversos países em desenvolvimento e têm se consolidado como produto de exportação para alguns destes países. Desta forma, uma nova matriz energética global, que se apóie mais em combustíveis alternativos com baixa emissão de carbono do que em combustíveis fósseis, pode significar um novo mercado para países como Brasil, Índia e China. Para uma parcela de países em desenvolvimento, desta maneira, a nova configu-ração econômica do setor energético mostra-se como uma enorme oportunidade de crescimento e desen-volvimento econômico.
5.2 Biocombustíveis e Segurança alimentar
2008, todos com um mesmo motivo: a alta dos preços de cereais fundamentais à alimentação humana (trigo, milho, soja)8. A elevação dos preços de alimentos mostra-se como uma ruptura histórica, uma vez que, no
longo termo, a tendência de preços alimentares era uma leve queda. Ainda que o aumento dos últimos anos seja causado em partes por alterações fundamentais nos padrões de consumo mundiais (a ascensão de uma classe média na China e Índia fez disparar o consumo mundial de carne; isso faz com que parte da produção de cereais seja divergida para a alimentação animal, elevando assim o preço da parcela dirigida ao consumo humano), o súbito aumento dos grãos em geral no último ano está intimamente ligado à progressiva demanda por biocombustíveis, notadamente o etanol produzido a partir do milho. Já em Janeiro de 2007, milhares se mobilizaram no México em protesto contra o alto preço da farinha, alimento-base da população através do consumo de Tortillas - de onde se denominou o incidente "Crise das Tortillas"9.
A relação entre a produção de etanol e os preços de grãos no mercado internacional é simples: o alto preço petróleo incentiva o uso de combustíveis alternativos, como o etanol (diz-se que, na maioria dos países, estando o barril de petróleo entre U$60 e U$ 70, o etanol torna-se uma opção competitiva; com o petróleo em torno de U$90, pode-se imaginar o resultado); uma vez havendo uma grande demanda por etanol, os produtores tendem a utilizar sua produção de milho não para uso alimentício, mas para o uso energético. Mais do que isso, outros agricultores, vendo os lucros possíveis com o etanol, trocam suas produções de, digamos, trigo ou soja, pela de milho. A menor oferta desses produtos nos mercados interna-cionais faz com que seu preço aumente. Desta maneira, a utilização massiva de biocombustíveis não apenas aumenta o preço da matéria-prima utilizada para a produção do combustível, como também de produtos correlacionados que são afetados por estes.
Como aponta o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas da Alimentação (International Food Policy Research Institute - IFPRI), baseando-se nas atuais previsões de expansão do uso de biocombustíveis, o preço internacional do milho (para produção de etanol) tende a aumentar em 26% e o preço de sementes oleaginosas (para produção de biodiesel) em 18%, nos próximos 12 anos (IFPRI, 2007). Os efeitos desta alta de preço, contudo, se darão de forma desigual: os mais afetados serão os mais pobres dos países menos desenvolvidos. Porque frente ao aumento dos preços de alimentos-base, as populações menos favorecidas têm maior tendência a voltar-se para alimentos de menor qualidade nutricional e valor calórico, e desta forma têm sua alimentação mais afetada10. Países como México, Bangladesh, Nepal e Arábia Saudita, fortemente
dependentes da importação de alimentos-base, verão suas contas de importação disparar; para certos paí-ses cujas populações vivem apenas acima do nível de sobrevivência, quaisquer aumentos nos preços de alimentos bases como grãos poderiam se catastróficos do ponto de vista humanitário.
Nem todos os biocombustíveis, contudo, afetam de forma similar a questão da segurança alimentar. En-quanto a produção de etanol no Brasil se dá exclusivamente a partir da cana-de-açúcar (que não é um alimento-base), nos Estados Unidos o etanol é produzido a partir do milho. Apesar desta forma de produção ser energeticamente menos eficiente que a tecnologia brasileira (ou seja, possuir um resultado de emissão de carbono pior), além de colocar uma maior pressão nos preços de alimento-base no cenário internacional, o governo norte-americano não apenas subsidia em aproximadamente U$7 bilhões de dólares por ano a
indús-8 Cf, por exemplo, "Indonésia takes action over Soyabeans", Financial Times, 15/01/2008. Disponível em: http://www.ft.com/
cms/s/0/566f6e44-c363-11dc-b083-0000779fd2ac.html?nclick_check=1. Acessado em: 15 Janeiro 2008.
9 Cf. "The end of cheap Food?" The Economist, 8-14 Dezembro 2007; pp. 77-79. 10"The end of cheap Food?" The Economist, loc. cit.
tria de etanol de milho, como também taxa em U$0,54 o galão de etanol importado. Os defensores norte-americanos do etanol afirmam, contudo, que o etanol ainda é muito mais eficiente que os com-bustíveis fósseis, e por isso vale a pena o investimento, além de afirmarem que a maior parte da produção de milho americana vai para o gado, e não para a alimentação humana, e por isso não pressionaria os preços internacionais.11
5.3 - Biocombustíveis e o uso de terras
A expansão do cultivo de commodities que podem ser transformadas em biocombustíveis possui outro efeito delicado, que influencia, também, nos preços mundiais de tais produtos: o uso das terras dedicadas a esses cultivos. Se por um lado o avanço destas culturas ameaça aqueles espaços dedi-cados a outras commodities (desta maneira pressionando os preços no mercado internacional), por outro ela ameaça também terras antes não cultivadas e em diversos casos protegidas. Em países como o Brasil, o cultivo de commodities para a produção de biocombustíveis, como a cana e a soja, ameaça avançar sobre áreas da Floresta Amazônica, colocando em perigo a biodiversidade e o equilíbrio ecológico de tais regiões.
O aumento dos preços das commodities energéticas e a expansão do uso de biocombustíveis criam, assim, uma tensão para diversos países em desenvolvimento. Por um lado, os governos naci-onais incentivam a produção de tais biocombustíveis e sua exportação para mercados internacinaci-onais, gerando desta maneira o capital necessário para investimentos que permitam a modernização da economia e o desenvolvimento; por outro, o avanço destas culturas sobre áreas de proteção ecoló-gica não apenas ameaça um recurso importante para o país, mas também gera diversas críticas tanto da comunidade internacional (de organizações intergovernamentais ambientais, a exemplo do PNUMA) como da sociedade civil (ONGs nacionais e internacionais).
5.4 - Comércio de Biocombustíveis e OMC
Ainda que o potencial dos biocombustíveis seja amplamente aceito e diversos países já possuam projetos de utilização de biocombustíveis em sua frota automotiva12, o comércio internacional de
biocombustíveis e de suas matérias-primas ainda é relativamente insignificante. Enquanto, em 2004, 920 bilhões de litros de petróleo foram negociados no mercado internacional, o comércio de etanol ficou em torno de três bilhões de litros, com cerca de 50% deste total tendo sido exportado pelo Brasil (UNCTAD, 2006a).
Os benefícios que o mundo em desenvolvimento pode obter da produção de biocombustíveis, contudo, provêm amplamente de sua capacidade de exportar tais produtos e utilizar a renda obtida na modernização de suas economias. Desta forma, a questão do comércio internacional de biocombustíveis deve ser vista como um ponto crucial na promoção do desenvolvimento.
As regras do comércio internacional são definidas, atualmente, através da Organização Internaci-onal do Comércio (OMC)13. Criada em 1995, a OMC institucionaliza as diversas negociações que
11Para uma discussão aprofundada dos benefícios e/ou malefícios do programa de etanol norte-americano, cf. RUNGE;
SENAUER, 2007.
12Cf. "Posição dos Blocos"
ocorriam desde o fim da Segunda Guerra Mundial através do GATT (General Agreements on Trade and Tariffs, ou Acordos Gerais sobre Comércio e Tarifas), em fases denominadas Rodadas. Assim, foi a Rodada do Uruguai (1989-1994) que determinou as regras de comércio que vigoram atualmente, e que também criou a OMC. Em 2001, em mais um esforço para continuar a liberalização do comér-cio internacomér-cional (ou seja, diminuir as tarifas e barreiras de entrada de produtos importados em seus países membros), a OMC lançou a Rodada de Doha, também chamada de Rodada do Desenvolvi-mento, graças a sua missão de fazer da liberalização do comércio internacional um mecanismo de desenvolvimento para os países menos desenvolvidos. Contudo, devido a diversos desacordos entre os países em desenvolvimento (negociando, em geral, através do G77, um grupo de 77 países em desenvolvimento liderado por Brasil, Índia e China) e os desenvolvidos (sobretudo Estados Unidos, Japão e União Européia), a Rodada parou suas negociações em 2006, a espera que as áreas de desacordo sejam superadas.
5.5.1 - O Artigo 31 da Agenda de Doha
A Agenda do Desenvolvimento de Doha (documento que lança a Rodada e estabelece seus objetivos), contudo, contém um artigo de extrema importância para o comércio internacional de biocombustíveis. O Artigo 31 da Agenda estabelece que:
"Com o objetivo de ampliar o apoio mútuo entre comércio e desenvolvimento, concorda-mos com as negociações de (...):
(…)
(iii) A redução ou, se apropriado, a eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias para produtos e serviços ambientais" (OMC, 2004).
Desta forma, a Rodada de Doha abria espaço para a redução ou até mesmo a eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias (como, por exemplo, regras de origem, barreiras sanitárias,...) para produtos e serviços ambientais; a definição de "produtos e serviços ambientais" que estava sendo feita por comitês especializados da OMC, contudo, parou junto com as negociações da Roda-da, em Julho de 2006. Desta forma, como apontam relatórios da UNCTAD, os países interessados podem encaminhar-se para acordos bilaterais ou regionais na liberalização do comércio de biocombustíveis, afetando assim a criação de um verdadeiro mercado internacional.
Nas negociações que continuam a se desenrolar dentro de comitês especializados da OMC, a delegação brasileira sugeriu, mais uma vez, em Novembro de 2007, que os biocombustíveis sejam considerados "produtos ambientais" e com isso tenham suas tarifas reduzidas de maneira especial nas negociações de Doha. Numa tentativa de responder aos desafios técnicos da avaliação e descrição de quais seriam estes "produtos ambientais", o Brasil sugeriu que estes fossem definidos em um sistema de "Projetos Ambientais", nos quais os governos nacionais avaliariam as propostas de "pro-dutos ambientais" e, caso aprovados, seriam incluídos nesta categoria especial. Esta modalidade, anteriormente já sugerida pela Índia, opõe-se ao modelo de "lista", através dos quais os membros da OMC definiriam uma lista fixa de quais produtos seriam considerados "ambientais", e, desta maneira, estariam sujeitos à diminuição de tarifas (preferência de países como Japão, Canadá e Estados Uni-dos, assim como da União Européia). A proposta, apoiada por países como Chile, Colômbia, Singapura e Nova Zelândia, foi recebida com cautela pelos Estados Unidos, União Européia, Austrália e Japão, que ainda possuem reservas quanto à inclusão de produtos agrícolas na categoria de "produtos ambientais". (UNCTAD, 2006; YU, 2007).
6. Posicionamento dos Blocos 6.1. América Latina
6.1.1. Brasil
O Brasil iniciou em 1975 o maior programa comercial de biomassa do mundo a partir do auxílio governamental. O Pró-Álcool tinha como principal objetivo diminuir a dependência da importação de petróleo. Para o país, a fonte mais viável de produção de álcool é a cana-de-açúcar, tanto econômica como ambientalmente. De acordo com o US Congressional Research Service, a produção brasileira de etanol custa de 14% a 50% menos que a americana. Trinta anos depois do início do Pró-Álcool quase metade da lavoura de cana-de-açúcar brasileira é utilizada para a produção de etanol (UNCTAD, 2006, p.13). A expansão atual de canaviais é conseqüência de três fatores fundamentais: o aumento da demanda por biocombustíveis, a diminuição dos custos de produ-ção e o desenvolvimento de novas técnicas de cultivo (UNCTAD, 2006, p. 13). Apesar do grande beneficio que a produção de biocombustível traz ao meio ambiente, no Brasil há preocupações com a emergência de monoculturas regionais. Ainda há áreas para a expansão das lavouras no país, entretanto a existência de infra-estrutura apropriada, a substituição de outros cultivos pelo da cana e os impactos ambientais ainda devem ser examinados com cuidado (Ibid., p.14).
Além das iniciativas relacionadas ao etanol, em 2002 o Brasil iniciou um programa de biodiesel que tem similaridades com o programa anterior. Em 2004 foi sancionada a lei 11.097 que autorizou que fosse adici-onado 2% de biodiesel ao diesel derivado do petróleo. Algumas isenções são permitidas na produção do biodiesel para aumentar a participação de áreas rurais do Nordeste brasileiro no programa.
Segundo o MRE, a "estratégia brasileira na área de biocombustíveis está associada à preocupação com a segurança energética e sustentabilidade"14. Segundo o governo, o Brasil é hoje referência para o resto do
mundo por ter introduzido os biocombustíveis na sua matriz energética. "O momento é propicio para que o Brasil exerça papel protagônico no processo de transformação dos biocombustíveis em commodities energéticas mundiais" (Idem). A estratégia brasileira na área de biocombustíveis tem três vertentes: global, regional e bilateral. No âmbito global o Brasil tem defendido a adoção de padrões e normas internacionais técnicas para o estabelecimento de um mercado global para esses produtos. Na vertente regional, o Brasil tem esti-mulado a integração energética da América do Sul, com a diversificação da matriz energética dos países da região e com o incentivo às fontes de energia renováveis. Na terceira vertente a estratégia brasileira abarca iniciativas de cooperação técnica e a promoção de intercâmbio científico e acadêmico.
6.1.2. Argentina e Paraguai
Os dois países citados assumem posturas favoráveis à iniciativa de estimular as fontes de energia renováveis. Nesse sentido, a participação argentina e paraguaia na elaboração do Memorando de Entendimentos do MERCOSUL15 (para a ampliação da cooperação no tema torna evidente o engajamento de ambos na
questão. Todavia, é imprescindível ressaltar que tal colaboração pode ser entendida dentro de uma
conjun-14"Perspectivas para os biocombustíveis". Disponível em: www.mre.gov. Acessado em:15/12/07
15MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) constitui um bloco regional fundado em 1991 com a assinatura do Tratado de Assunção.
Apesar do nome, a instituição, na prática, é uma união aduaneira formada originalmente pela República Federativa do Brasil, pela República Argentina, pela República Oriental do Uruguai e pela República do Paraguai. No entanto, em 2006, houve a adesão da República Bolivariana da Venezuela ao bloco. Para continuar o estudo acesse o site oficial do MERCOSUL: http://www.mercosur.int
tura em que as discussões sobre biocombustíveis ganharam bastante importância na região do Cone Sul. Logo, o esforço no sentido de estimular a produção de biocombustíveis, principalmente o etanol e o biodiesel deve ser entendido como uma tentativa de diversificar a matriz energética e a integrar produtivamente o bloco (Divisão de atos internacionais, 2006). Contudo, a cooperação também se dá no âmbito bilateral, como é demonstrado pelo acordo entre o Paraguai e o vizinho brasileiro para a fomentação do desenvolvimento dos combustíveis renováveis no primeiro (Divisão de Atos Internacionais, 2007). Já a Argentina tem tido impor-tante desempenho na exportação de biocombustíveis, recebendo grandes investimentos norte-americanos para tal fim. Neste contexto, o país vem desenvolvendo novas tecnologias para a produção de biocombustíveis, a exemplo da produção de biodiesel a partir de algas marinhas.
6.1.3. Bolívia, Cuba e Venezuela
Os três governos criaram, durante a V Cúpula da Alternativa Bolivariana para as Américas, a ALBA, o Conselho Energético, além de assinarem o Tratado Energético. Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela, manifestou ao longo do mês de março de 2007, juntamente com Fidel Castro, preocupação a respeito dos efeitos da política de incentivo ao etanol em larga escala (Boletim OPSA, 2007). Eles afirmam que tal estímulo pode provocar escassez de alimentos. Assumindo argumento semelhante ao de seus companheiros, Evo Morales, presidente da República da Bolívia, em seu discurso na Assembléia Geral das Nações Unidas, também contestou a estratégia brasileira de incentivo aos biocombustíveis. Em virtude disso, pode-se dizer que esses países freqüentemente tomam posicionamentos polêmicos sobre o tema. Contudo, na ocasião da I Cúpula Energética Sul-Americana, Chávez, reconheceu a importância de etanol para seu país, restabelecendo, por meio de acordo com Lula a isenção tarifária em benefício de tal transação comercial.
Para muitos analistas, a oposição de Chávez à política de incentivo ao etanol deve-se ao intenso comércio deste produto entre Brasil e Estados Unidos. Assim, as críticas do presidente venezuelano seria uma estraté-gia para evitar a aproximação dos dois países.
6.1.4. Haiti, México, Panamá e Peru
Foram anunciados, durante a visita oficial de Lula à casa de campo do presidente americano em Camp David, futuros investimentos para o desenvolvimento dos biocombustíveis. A República do Haiti integra o grupo de países a ser beneficiado por tal iniciativa. O país ainda é favorecido pelo "Everything But Arms", iniciativa da União Européia que estabelece a isenção de tarifas, assim como de quotas, sobre as importa-ções oriundas dos países menos desenvolvidos. Contudo, Peru e Panamá também usufruem dos arranjos preferenciais de comércio do bloco, facilitando, desse modo, a importação de etanol. Além disso, estes últimos dois países, tal como o México, contam com apoio brasileiro, visando a promover a transferência de tecnologia e o consumo de biocombustíveis, em particular o etanol o e biodiesel.
6.2. Ásia 6.2.1. China
A China desenvolveu uma iniciativa de biocombustíveis (The National Biomass Ethanol gasoline Pilot Project) em 2002 em resposta à crescente necessidade de combustível no país, ao aumento nos níveis de poluição e por causa do seus objetivos de desenvolvimento econômico rural. A produção chinesa de bioetanol aumentou muito em função dos incentivos do governo, como por exemplo subsídios para os envolvidos na produção, transporte e distribuição do bioetanol (UNCTAD, 2006, p.16). Entretanto, na China não houve
nenhum programa especial de incentivo ao biodiesel apesar de pesquisas tecnológicas estarem sendo feitas nesse campo. Em janeiro de 2005, o Congresso Nacional Popular da China passou uma lei (Lei de Energia Renovável da República Popular da China) que confirma a importância da estratégia nacional energética, incentiva o investimento no desenvolvimento da biomassa e estabelece um sistema de garantia financeira para o desenvolvimento de energia renovável. Esse sistema foi pensado para incentivar toda a sociedade, especi-almente as companhias, a desenvolver e usar energia renovável (Idem).
6.2.2. Filipinas
O governo das Filipinas está promovendo os biocombustíveis como uma forma de aumentar sua auto-suficiência energética, o desenvolvimento econômico e a preservação do meio ambiente. O país ainda é altamente dependente da importação de petróleo, que corresponde a quase 50% de toda sua energia. Outro grande incentivo para a iniciativa governamental foi a preocupação com o meio ambiente. Em 2005 foi lançado o Plano de Energia que tem como meta atingir 60% de auto-suficiência até 2010. Ainda, as Filipinas estão se promovendo como uma receptora de projetos financiados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto.
Em 2005 o Congresso filipino passou uma lei que obrigou que em toda gasolina vendida houvesse 5% de etanol. O governo promoveu incentivos para a promoção de energia renovável e para o desenvolvimento de projetos relacionados a energias renováveis. Tais ações têm sido bem sucedidas em incentivar o setor priva-do a investir em biocombustíveis. Apesar das perspectivas serem positivas ainda há algumas barreiras a serem transpostas: a falta de padrões, o alto custo da produção, o clima e a falta de tecnologia (UNCTAD, 2006, p.17).
6.2.3. Japão
Devido à sua geografia, o Japão possui recursos naturais energéticos bastante escassos, dependendo, assim, grandemente na importação destes. Para diminuir sua dependência em fontes externas de energia, o governo Japonês investe também na energia nuclear, que representa mais de 13% da oferta total do país.
Contudo, o governo japonês acredita ser possível utilizar parte de sua produção de arroz para produção de bioetanol, estabelecendo a meta de que 10% do transporte japonês seja alimentado, até 2030, por etanol.16
6.3 África
O acesso africano à energia comercial a preços viáveis é vital para o seu crescimento econômico; contu-do, a indústria africana emergente de gás e petróleo necessita de recursos para explorar as reservas do continente.
Na África do Sul, mais de 80% da energia provem do carvão e do petróleo (sendo este último majorita-riamente importado). Assim, visando aumentar sua eficiência energética e diminuir sua emissão de carbono, o governo de Pretória criou, em 2006, um programa de incentivo à produção de bioetanol a partir do milho e da cana-de-açúcar.
16Entrevista com o ex-Conselheiro do Ministério de Agricultura Internacional do Japão, Hiroshi Shiwaiwa, disponibilizada
pelo International Food & Agriculture Trade Policy (IPC). Disponível em: http://www.agritrade.org/blog/2007/05/03/biofuels-in-japan-qa-with-hiroshi-shiraiwa/. Acessado em: 24/01/08
Contudo, críticos consideram o programa culpado pelo aumento dos preços dessas matérias-primas no país: enquanto a inflação média de alimentos foi de 7.8%, os preços do milho e do açúcar aumentaram em, respectivamente, 28% e 12,6%. O economista inglês Nicholas Stern alertou que o investimento limitado ao milho e à cana-de-açúcar pode provocar inflação nos alimentos; o ideal, prossegue, seria investir em plantas que não necessitam de terras cultiváveis para crescer, como a Jatropha, que pode produzir biodiesel.17
Em alguns países como Angola e Nigéria (ambos membros da OPEP), a abundância em recursos energéticos, notadamente petróleo, ainda não se reverteu em desenvolvimento para as populações locais: a imensa pro-dução de petróleo é quase inteiramente exportada e os cidadãos ainda têm dificuldade em obter um forneci-mento de energia confiável. Assim, ainda que o auforneci-mento dos preços internacionais do petróleo se mostra como uma oportunidade para o aumento da renda com a exportação, a reversão dos benefícios para as populações da região ainda é um desafio.
No geral, os países africanos continuam a depender de carvão vegetal para uso doméstico e petróleo nas atividades industriais. O uso de biocombustíveis, por sua vez, ainda é mínimo. Isso não significa, contudo, que o continente africano não tenha potencial para a produção de biodiesel ou etanol: diversos países, dentre eles Malawi, Nigéria e Moçambique já começaram a desenvolver programas de utilização de etanol em seus transportes e de incentivo à produção local de etanol. Congo, Tanzânia, Zâmbia e Quênia, por exemplo, possuem uma considerável produção de cana-de-açúcar que poderia ser revertida para a produção de etanol. Os grandes desafios relacionados à produção de biocombustíveis, por sua vez, estão no campo de acesso a tecnologias, ao uso de terras aráveis, ao impacto no preço de alimentos e, sobretudo, à ampliação dos benefícios gerados para as populações locais (ARUNGU-OLENDE, 2007)
6.4 Estados Unidos da América
Nos EUA, o etanol é produzido do milho, com um alto consumo de combustível fóssil no seu processo produtivo e menor potencial energético se comparado com o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar (UNCTAD, 2006, p.7). O número de veículos no país utilizando etanol está crescendo parcialmente como conseqüência da necessidade de diminuir a poluição do ar para cumprir o Clean Air Act. Novas leis com impactos no consumo de biodiesel também foram formuladas. Por exemplo, a Farm Bill estabelece novos programas de apoio ao desenvolvimento de novas bio-refinarias, para educar a população sobre os benefí-cios do uso do biodiesel e para apoiar os pequenos e grandes agricultores a comprar novos sistemas de energia. (Ibid. p.8). No final de 2004, a gasolina misturada com etanol recebeu certa isenção do governo o que tornou a mistura competitiva com a gasolina. Em 2005, a isenção de tarifa será substituída por uma taxa de crédito (Volumetric Ethanol Excise Tax Credit- VEETC). A VEETC é o incentivo fiscal mais importante para estimular o uso de etanol. Ainda, diversos Estados subsidiam a produção de biocombustíveis. Os sub-sídios e incentivos americanos são providos independente de considerações ambientais. "Apoiar a produção de biocombustíveis nos EUA parece ter sua maior razão de ser nas preocupações de segurança energética muito mais do que em consideração ao meio-ambiente" (UNCTAD, 2006, p.8).
A produção americana de etanol é muito concentrada. São 5 companhias responsáveis por 30% pela sua manufatura. Ainda 80% da produção é concentrada no Cinturão do Milho (Corn Belt) no Meio Oeste. As regiões consumidoras são distantes das produtoras e o etanol deve ser transportado, tendo impactos ambientais.
17"Biofuels making staple-food more expensive". Reuters, 28/05/07. Disponível em: http://www.alertnet.org/thenews/newsdesk/
Outros efeitos negativos ao meio ambiente são causados pela grande quantidade de água e fertilizantes usados na produção de milho18.
6.5 União Européia
A matriz energética dos países-membros da União Européia (hoje com 27 membros) é bastante variada. Enquanto países como Reino Unido e Espanha dependem de forma majoritária das reservas de petróleo e gás natural, França e Lituânia têm na energia nuclear a fonte de maior relevância. Desta forma, por mais que no nível europeu se tente uniformizar a política energética da Europa dos 27, os interesses nacionais ainda são muito divergentes.
Em Janeiro de 2007, a Comissão Européia divulgou um ousado plano ("Climate Action") para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, colocando assim a EU na liderança mundial da luta contra o aquecimento global. Hoje com 8,5% de sua energia proveniente de recursos renováveis, a CE propôs que, até 2020, essa média alcance a marca de 20%. Com diferentes metas para cada país, de acordo com suas necessidades de desenvolvimento e sua capacidade energética atual, o plano vem suscitando grande debate na Europa, com diversos líderes colocando em dúvida a capacidade de seus países alcançarem as metas estipuladas19.
Contu-do, a Comissão afirma que o plano deve custar, para o conjunto de países do bloco, apenas cerca de 1% do PIB. Caso nada seja feito, adverte a Comissão, os efeitos do aquecimento podem causar uma diminuição de 3% a 5% do PIB mundial nas próximas décadas, como estudos semelhantes ao Relatório Stern já propuseram. No que concerne especificamente aos biocombustíveis, a Comissão propõe que, até 2020, eles repre-sentem 10% da energia utilizada nos transportes europeus. Oferecendo um detalhado plano de aprovação de biocombustíveis cujas matérias-primas sejam cultivadas de forma realmente sustentável, a Comissão preten-de aplacar as críticas preten-de que os biocombustíveis não sejam realmente energeticamente eficientes.
A maior parte da produção européia de biocombustíveis corresponde ao biodiesel. A UE é de longe o maior produtor de biodiesel do mundo, sendo a Alemanha responsável pela produção de quase metade de todo o biodiesel europeu. A França também é um importante produtor, enquanto a Espanha é o líder europeu na produção de bioetanol. A produção de biocombustíveis na Europa ainda depende de subsídios e, no caso do bioetanol, também precisa de tarifas de importação altas para evitar a concorrência externa.
6.6 Rússia
A Rússia é uma das grandes potências energéticas do mundo atual. Com uma enorme produção de petróleo e gás natural, Moscou é também o principal fornecedor de energia do Leste Europeu, provendo 40% do gás natural utilizado na União Européia. O papel da estatal russa Gazprom, maior produtora de gás natural do mundo, é amplamente contestado: a empresa sofre acusações de funcionar como um braço polí-tico do governo russo, exercendo pressão em países do Leste Europeu em troca de apoio polípolí-tico a Moscou (Scot, 2007).
O potencial russo para produção de biocombustíveis, contudo, é imenso: segundo o Ministro para Agri-cultura do país, a Rússia tem potencial para produzir 1 bilhão de toneladas de biomassa por ano, o que seria
18Para aprofundar o estudo cf: "Biofuels related regimes", In: The emerging Biofuels market: regulatory, trade and development implications, p. 9
19Le Monde, "Réactions mitigées au plan de lutte contre le réchauffement climatique de Bruxelles". 24/01/08. Disponível em
: http://www.lemonde.fr/sciences-et-environnement/article/2008/01/24/reactions-mitigees-au-plan-de-lutte-contre-le-rechauffement-climatique-de-bruxelles_1002900_3244.html#ens_id=965049 . Acessado em: 24/01/08.
energeticamente equivalente a cerca de 6,7 bilhões de barris de petróleo por dia. Considerando que atualmente o país produz 9,1 bilhões de barris por dia, isso significa um potencial de aumentar em até 73% sua produção energética20.
6.7 Oriente Médio
As maiores reservas de petróleo do mundo encontram-se nos países do Oriente Médio, sobretudo na Arábia Saudita. Para promover os interesses dos países da região e harmonizar suas políticas comerciais relacionadas ao recurso, Iraque, Irã, Kuwait e Arábia Saudita (além de Venezuela) criaram, em 1960, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Em 1972, quando da Guerra do Yom-Kippur, a OPEP mostrou pela primeira vez sua força no cenário internacional, elevando seus preços e causando enor-me impacto nas economias ocidentais. Desde então a Organização, que hoje conta com 13 Membros, possui vasta influência nos mercados internacionais de petróleo, sendo, recentemente, pressionada a aumentar sua produção, face ao boom no preço do barril. Os biocombustíveis não possuem relevância na matriz energética da região.
6.8 Índia
Com um crescimento econômico de 9.7% em 2006/2007, a expansão da demanda energética da Índia alcança hoje a casa dos 5% ao ano. Atualmente, mais de 60% da energia Indiana provem de materiais fósseis, com o carvão sendo o principal recurso tanto para a indústria quanto para o uso doméstico, e representando mais de 50% da energia total do país.
Face ao enorme crescimento econômico e às pressões internacionais por maior eficiência energética, o governo Indiano incentiva o desenvolvimento de biocombustíveis como uma forma de aumentar sua seguran-ça energética (UNCTAD, 2006b). O etanol indiano é produzido em sua quase totalidade a partir da cana-de-açúcar; contudo, o governo indiano tenta incentivar também a produção de biodiesel através da Jatropha ("Pinhão-Manso"), planta local que pode ser cultivada em terras pouco férteis.
No cenário internacional, a Índia, junto a outros países em desenvolvimento, deseja a liberalização do comércio de biocombustíveis, tendo sido pioneira na proposição de uma definição de "produtos ambientais" pela OMC através de projetos aprovados a nível nacional.
7. Questões que uma Resolução deve responder
a)Como equilibrar as vantagens e desvantagens produzidas pelo alto preço das commodities energéticas? Ou seja, como fazer com que os países exportadores utilizem-se desta alta para promoção do desenvolvimento sem desestabilizar as economias dos países dependentes da importação destas commodities? Em que grau a cooperação é possível nesta área?
b)Como responder ao impacto da produção de biocombustíveis nos preços de alimentos-base? Existem tipos de combustíveis que possuam um impacto menor, e caso sim, como incentivar sua produção em detrimento de variedades mais impactantes?
20"Green Giant Rusia to produce 1 billion tons of biomass for export" Biopact.com. Disponível em: http://biopact.com/2007/02/ green-giant-russia-to-produce-1-billion.html . Acessado em: 24/01/08
c)De que maneira o comércio de biocombustíveis pode ser liberalizado e incentivado? Em que níveis devem se dar tais negociações (bilateral, regional, global)? Existem recomendações para as futuras negociações da Rodada de Doha no que concerne à liberalização para biocombustíveis?
8. Bibliografia
ARUNGU-OLENDE, S. 2007. Biofuels: Benefits and Risks for developing countries. Disponível em: http:// www.scidev.net/Opinions/index.cfm?fuseaction=readOpinions&itemid=694&language=1. Acessado em: 25/01/08. Association for the study of Peak Oil and Gas, ASPO Newsletter, 2006. Disponível em: http://www.peakoil.ie/ downloads/newsletters/newsletter64200604.pdf, Acessada em 10/01/08.
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