Procedimento Preparatório nº 1.23.002.000189/2015-55
Assunto: EDUCAÇÃO INDÍGENA. NÍVEL SUPERIOR. UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ (UFOPA). POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO DA “BOLSA PERMANÊNCIA” - MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – COM O “AUXÍLIO EMERGENCIAL” - UFOPA. MEDIDAS DE CONTROLE DO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS À PERCEPÇÃO DOS BENEFÍCIOS.
RECOMENDAÇÃO Nº 02/2015
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelo Procurador da República signatário, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, com amparo nos artigos 127,
caput, 129, incisos II e VI, da Constituição da República, artigos 1o, 2o, 5o, incisos III, "e", IV e V, 6o, incisos VII, "a" e "d", e XX, e 8o, inciso II, da Lei Complementar nº 75/93;
Considerando que o Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, possuindo a incumbência constitucional de promover a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, adotando, para tanto, as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias no exercício de suas funções constitucionais;
Considerando que é função institucional do Ministério Público a defesa dos interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos (arts. 127, caput, e 129, III, da Constituição da República; arts. 81/82 e 91/92 da Lei 8.078/90 e art. 21 da Lei n.º 7.347/85);
Considerando que a Educação (em todos os níveis) é um direito de todos e dever do Estado e da família, e deverá ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, nos termos do art. 205 da Constituição Federal;
Considerando que deverão ser adotadas todas as medidas especiais e necessárias para a salvaguarda das pessoas, instituições, bens, culturas e meio ambiente dos
povos indígenas interessados, sendo que tais medidas não podem ser contrárias aos desejos expressos livremente por tais povos (art. 4º, 1 e 2, da Convenção nº 169/OIT);
Considerando que deverão ser adotadas todas as medidas necessárias para garantir aos membros dos povos indígenas interessados a possibilidade de adquirirem educação em todos os níveis, pelo menos em condições de igualdade com o restante da comunidade nacional (art. 26 da Convenção nº 169/OIT);
Considerando reunião realizada na sede do Ministério Público Federal em Santarém/PA, ocasião em que cerca de 50 (cinquenta) estudantes universitários indígenas da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) manifestaram significativa preocupação com suas permanências no curso de nível superior em virtude da iniciativa da referida instituição de ensino de eliminar o “auxílio emergencial” pago diretamente pela universidade aos estudantes, com sustentáculo na Lei nº 12.155/2009 (art. 10, inciso I) e no Decreto nº 7.416/2010 (art. 1º, inciso I);
Considerando que a Lei nº 5.537/1968 (que cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) instituiu, em seu art. 3º, alínea “g”, que compete ao FNDE “prestar assistência técnica e financeira, conforme disponibilidade de dotações orçamentárias, para garantir o acesso e a permanência do estudante no ensino superior” e que, em seu § 8º, dispõe que “A assistência financeira de que trata a alínea g ocorrerá por meio da concessão de bolsas de estudo e permanência e ressarcimento de despesas dos estudantes, na forma, condições e critérios estabelecidos pelo Ministério da Educação”;
Considerando que o Programa Bolsa Permanência (PBP), sustentado legalmente na Lei nº 5.537/1968 (alterada pela Lei nº 12.801/2013), foi efetivamente regulamentado (e não criado) através da Portaria nº 389, de 09 de maio de 2013;
Considerando que o PBP nada mais é que a materialização do fim buscado pelo FNDE e pela Lei nº 5.537/1968, qual seja, ampliar e garantir o acesso e permanência à educação em nível superior dos estudantes que apresentem algum quadro de vulnerabilidade socioeconômica;
Considerando que a bolsa permanência e/ou extensão concedida diretamente pelas Universidades (denominada pela UFOPA de “Auxílio Emergencial”), diferentemente da bolsa permanência concedida pelo Governo Federal através do MEC (acima indicado como PBP), fora instituída através da Lei nº 12.155/2009 e regulamentada através do Decreto nº 7.416/2010;
Programa Bolsa Permanência (Lei nº 5.537/1968 - alterada pela Lei nº 12.801/2013) e o “Auxílio Emergencial” (Lei nº 12.155/2009) possuem igual hierarquia no ordenamento jurídico brasileiro;
Considerando que a Lei nº 5.537/1968 não veda, em qualquer de seus artigos, a cumulação da bolsa permanência com outras bolsas de estudo de cunho acadêmico, ao contrário, em seu art. 3º, §8º, autoriza;
Considerando que a Portaria nº 389/2013, em consonância com a Lei nº 5. 537/1968, autoriza expressamente, em seu art. 6º, a cumulação da bolsa permanência concedida pelo Governo Federal com outras modalidades de bolsas acadêmicas e com auxílios para moradia, transporte, alimentação e creche criados por ato próprio das instituições federais de ensino superior;
Considerando que às normas disciplinadoras de direitos e/ou garantias fundamentais deve-se dar a maior aplicabilidade possível, não podendo ser atribuída exegese que lhe retire toda e qualquer densidade normativa, notadamente em observância ao princípio da proibição do retrocesso, que não permite a extinção/limitação de direitos fundamentais nem mesmo ao constituinte originário;
Considerando que há, dentre as formas de interpretação das normas jurídicas, a interpretação sistemática e teleológica, através das quais deve se compreender a norma a partir de seus fins e sem jamais perder de vista o sistema em que está inserida;
Considerando que o fim das referidas normas acima, reitere-se, é justamente ampliar e garantir o acesso e permanência à educação em nível superior dos estudantes que apresentem algum quadro de vulnerabilidade socioeconômica;
Considerando que o sistema em que restam inseridas tais normas é aplicável em um país em que, apesar dos inequívocos avanços vistos nos últimos anos em termos de acesso ao nível superior, ainda é bastante deficitário em termos de instrumentos hábeis a garantir o pleno acesso à educação de jovens e adultos vulneráveis do ponto de vista socioeconômico;
Considerando que conforme o Manual de Gestão do Programa Bolsa Permanência, disponibilizado pelo SESu/SETEC/MEC “(...) uma grande vantagem da Bolsa Permanência concedida pelo Ministério da Educação é ser acumulável com outras modalidades de bolsa acadêmicas, a exemplo do Programa da Bolsa do Programa Tutorial-PET, do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica -PIBIC; entre outros. Além disso, o Bolsa Permanência do Governo Federal também é acumulável com
outros auxílios pagos com recursos próprios das Instituições Federais de Ensino de ensino Superior ou do Programa Nacional de Assistência Estudantil-PNAES como auxílio de moradias estudantil, alimentação, transporte, creche. (...);
Considerando que a Política Nacional de Assistência Estudantil é um conjunto de princípios e diretrizes que norteiam a implantação de ações para garantir o acesso, a permanência e a conclusão de curso de graduação aos estudantes universitários, agindo preventivamente nas situações de repetência e evasão decorrentes das condições de vulnerabilidade socioeconômica;
Considerando que o principal objetivo da Política Nacional de Assistência Estudantil é garantir a permanência e a diplomação de estudantes, na perspectiva da inclusão social, da formação ampliada, da produção de conhecimento, da melhoria de desempenho acadêmica e da qualidade de vida;
Considerando que as receitas das quais se originam o Bolsa Permanência e o “Auxílio Emergencial” são distintas, sendo aquela arcada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e esta pela própria instituição de ensino superior, no caso a UFOPA;
Considerando que uma das maiores vantagens da UFOPA no cenário universitário nacional é justamente o fato de estar situada numa região em que há relativa proximidade geográfica com os locais originários de habitações de inúmeras sociedades indígenas amazônicas, o que lhe confere um status natural de instituição de ensino verdadeiramente pluriétnica;
Considerando que a subtração do “Auxílio Emergencial” por certo comprometerá a permanência de inúmeros estudantes indígenas na Universidade;
Considerando que a Bolsa Permanência paga pelo MEC não se apresenta como instrumento unicamente suficiente a garantir tal permanência, tendo em vista, sobretudo, as peculiaridades culturais dos povos indígenas, que, em sua grande maioria, possuem o hábito gregário de sempre se locomoverem em família, o que majora os custos de manutenção do estudante na zona urbana de Santarém/PA;
Considerando que a Universidade Federal do Oeste do Pará não disponibiliza aos seus estudantes qualquer Restaurante Universitário, tampouco qualquer Residência Universitária, o que, obviamente, majora os custos de manutenção e sobrevivência desses estudantes, que ainda têm que ter disponibilidade orçamentária para adquirir materiais didáticos;
Considerando que há relatos de que muitos estudantes não-indígenas beneficiários do “Auxílio Emergencial” não efetivamente fazem jus ao benefício, pois não verdadeiramente apresentam vulnerabilidade socioeconômica;
Considerando que a vulnerabilidade socioeconômica é presumida no caso dos estudantes indígenas e quilombolas, nos termos do que estabelece o art. 5º, § 1º c/c art. 5º, inciso I, ambos da Portaria nº 389/2013, a qual é aplicável, para este fim específico, ao “Auxílio Emergencial”, por interpretação analógica.
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL resolve, com fundamento no art. 6o, XX, da Lei Complementar n. 75/93, RECOMENDAR à Sua Magnificência, a Sra. Reitora da Universidade Federal do Oeste do Pará -UFOPA, RAIMUNDA NONATO MONTEIRO, na condição do exercício funcional, extensível a quem quer que o substitua em atribuição, com vistas a prevenir responsabilidades e evitar eventuais demandas judiciais para responsabilização das autoridades competentes, que:
1) adote as medidas necessárias a fim de garantir o pagamento do “Auxílio Emergencial” a todos os estudantes da referida Instituição, sejam eles indígenas ou não, independentemente do fato do aluno estar cadastrado no Programa Bolsa Permanência do Governo Federal (Ministério da Educação), haja vista a possibilidade legal de cumulação, a teor do que estabelecem o art. 6º da Portaria nº 389/2013 – MEC e a Lei nº 5.537/1968 (alterada pela Lei nº 12.801/2013);
2) adote as medidas necessárias à revisão de todos os benefícios de “Auxílio Emergencial” e do Programa Bolsa Permanência recebidos pelos alunos não-indígenas e não-quilombolas desta Instituição, a fim de verificar se há o preenchimento do requisito da real vulnerabilidade socioeconômica. Como diligência indispensável, indica este Parquet a necessidade de que a UFOPA promova a visita de técnicos e/ou assistentes sociais (do quadro efetivo e/ou contratados) às casas dos alunos beneficiários, tal como fazem os assistentes sociais do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
A partir da data da entrega da presente recomendação, o Ministério Público Federal considera seu destinatário como pessoalmente ciente da situação ora exposta e, nesses termos, passível de responsabilização por quaisquer eventos futuros imputáveis a sua omissão.
Por fim, faz-se impositivo constar que a presente recomendação não esgota a atuação do Ministério Público Federal sobre o tema, não excluindo futuras recomendações ou outras iniciativas com relação aos fatos supra mencionados.
Fica concedido à autoridade destinatária o prazo de 15 (quinze) dias, a contar do recebimento, para informar se haverá cumprimento da presente Recomendação e quais as diligências já foram efetivamente providenciadas, sob pena de adoção das medidas judiciais cabíveis.
Comunique-se às 5ª e 6ª Câmaras de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal.
Às providências de praxe. Cumpra-se.
Santarém/PA, 21 de maio de 2015.
LUÍS DE CAMÕES LIMA BOAVENTURA