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Construções com DAR + Sintagma Nominal: a gramaticalização desse verbo e a

alternância entre perífrases verbo-nominais e predicadores simples

Giselle Aparecida Toledo Esteves

(2)

PERÍFRASES VERBO-NOMINAIS E PREDICADORES SIMPLES

Giselle Aparecida Toledo Esteves

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do Título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa).

Orientadora: Profa. Doutora Marcia dos Santos Machado Vieira.

Rio de Janeiro Julho de 2008

(3)

Giselle Aparecida Toledo Esteves

Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa).

Examinada por:

_____________________________________________________________________ Presidente, Professora Doutora Marcia dos Santos Machado Vieira – UFRJ

_____________________________________________________________________ Professora Doutora Mariangela Rios de Oliveira – UFF

_____________________________________________________________________ Professora Doutora Célia Regina dos Santos Lopes – UFRJ

_____________________________________________________________________ Professora Doutora Silvia Rodrigues Vieira – UFRJ, Suplente

_____________________________________________________________________ Professor Doutor Mário Eduardo Toscano Martelotta – UFRJ, Suplente

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Rio de Janeiro Julho de 2008

Esteves, Giselle Aparecida Toledo. dar

Construções com + Sintagma Nominal: a gramaticalização desse verbo e a alternância entre perífrases verbo-nominais e predicadores simples./ Giselle Aparecida Toledo Esteves. Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2008.

xxiii, 334f.:il.; 31cm.

Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira

Dissertação (Mestrado) – UFRJ/ FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, 2008.

Referências Bibliográficas: f. 309-313.

1. Sociofuncionalismo 2. Gramaticalização de dar 3. Alternância entre construções dar + SN e predicadores simples equivalentes 4. Contribuições para o ensino de Português.

I. Machado Vieira, Marcia dos Santos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. III. Título.

(5)

Mãe

Dedico este trabalho àquela enviada por DEUS para ensinar-me a

amar, a lutar pelos meus sonhos e a transformar adversidades em

bênçãos.

(6)

segurança, por tantas bênçãos alcançadas e tanta coragem para continuar lutando por novos sonhos.

À minha mãe Cida, pela dedicação incondicional e cumplicidade em todos os momentos da minha vida e ao meu pai Mario, pelo incentivo, pela torcida “tricolor” (é claro!) e por nossas “idas e vindas”.

À vovó “Goinha”, pelo colinho fofinho e pelas orações.

Ao meu tio Waldir, que sempre apostou no meu sucesso, ainda que, algumas vezes, nem eu mesma acreditasse.

A Jorginho, pelo apoio, pelas gargalhadas e pela “namoramizade” compartilhada durante todos os momentos empolgantes e preocupantes dessa trajetória.

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo estímulo à permanência no mundo da pesquisa, com as bolsas de Iniciação Científica (do Programa PIBIC/UFRJ) e de Mestrado.

Aos meus professores de Ensino Médio Ronaldo Prestes e Márcia Salazar, não somente pelas animadas aulas de Português, mas, principalmente, por terem sido os únicos professores, naquela época, que incentivaram meu Vestibular para o curso de Letras.

Às Professoras de Inglês Norma Joseph, que tanto me apoiou, levando palavras de fé quando estava indecisa a prestar o concurso para o ingresso no Mestrado, e Silvia Becher, também pelo carinho, pelo apoio e por ser um exemplo de mestre que quero seguir.

À Professora Silvia Rodrigues Vieira, pelas aulas-show, pela generosidade e pelo carinho com os quais sempre me tratou.

À Professora Silvia Figueiredo Brandão, por ter me acolhido com tanta simpatia na primeira vez que entrei na sala de pesquisa.

Às Professoras Célia Regina dos Santos Lopes e Mariangela Rios de Oliveira por terem, tão gentilmente, aceitado participar da banca examinadora.

À Professora Eliete Figueira Batista da Silveira, pelo carinho e torcida.

Aos Professores das disciplinas do Mestrado João Antônio de Moraes, Violeta Virginia Rodrigues, Mario Eduardo Toscano Martelotta, Maria Luiza Braga, Vera Lucia Paredes Pereira da Silva, e Maria da Conceição Paiva. Em especial, às Professoras Dinah Maria Insensee Callou, por agüentar uma aluna tão ansiosa, Maria Maura Cezario, pelas riquíssimas orientações sobre o trabalho de final de curso e pelo incentivo, ainda na época de graduação, às apresentações das Jornadas de Iniciação Científica, Leonor Werneck dos Santos, pelas

(7)

À minha super-amiga Elaine Marques Thomé Viegas, por formar comigo a dupla dinâmica “as super-ansiosas”, por compartilhar muitas gargalhadas e, principalmente, preocupações praticamente diárias por e-mails, por horas ao telefone e por MSN.

À Joana Mendes de Oliveira por ter sido tão companheira e por termos vivido tantos momentos de vitórias e receios durante o período de Iniciação Científica, e por, apesar da distância, continuar torcendo e me apoiando.

À Carla da Silva Nunes, à Luciana Leitão da Silva e à Simone Sant’Anna, pela amizade desde a graduação, por sonhos compartilhados e pelos “segredinhos” trocados.

À Leila Vasti da Paz, pela amizade e pelas importantes mensagens de fé que me passa. À Lílian Alves Jandir, pela amizade construída durante a Iniciação Científica.

À Natália Gilvaz Pontes, pelas longas conversas, pelas gargalhadas e piadinhas e, principalmente, por suas palavras acalentadoras!

A Vinícius Maciel de Oliveira, por, em tão pouco tempo, ter se tornado tão amigo, por ter sempre uma palavra de apoio, por estar sempre disposto a me ouvir ao telefone, mesmo à meia-noite.

À Ana Paula Klem, à Renata Gouvêa Cordeiro, à Cristina Marcia Monteiro de Lima Correa e à Alessandra de Paula Santos, por terem tido tanto empenho em me ajudar em horas “metodologicamente” difíceis.

A Thiago Giammattey Machado Ricardo e à Maíra Silva de Paiva, pelo alto-astral nos eventos e pela elaboração, em conjunto, de diversos trabalhos de Iniciação Científica.

À Maria de Fátima Vieira e à Daniely Cassimiro de Oliveira Santos, pela companhia nas viagens e torcida nas apresentações.

A Rodrigo Campos Ribeiro, por ter se tornado meu “personal presentation” e me dado tantas dicas interessantes e à Adriana Rodrigues, pelos pensamentos positivos.

A Rafael Braga, pela amizade cultivada há 14 aninhos, repleta de longas conversas!!! À Daniele de Jesus Siqueira, por, há 18 anos, ser minha “maninha” de todas as horas. A Carlos Filipe Colicigno, sempre divertido, por me apoiar desde a época do Vestibular. A meus ex-alunos e amigos Carlos Alberto Polônio, pelo apoio e confiança, Alexandre Adão, pela homenagem inesquecível e emocionante, e Débora Dias, pelos conselhos “perigosos” e “radicais”.

A todos os informantes que colaboraram com o preenchimento das pesquisas de opinião, especialmente àqueles que participaram das entrevistas/gravações.

(8)

AGRADECIMENTO ESPECIAL

À professora Marcia dos Santos Machado Vieira, por ter aberto as

portas da pesquisa para mim, pela paciência com uma orientanda tão

“meticulosa” e “preocupada”, pela confiança em mim depositada,

pelas valiosas orientações, pelo apoio nas horas mais difíceis dessa

trajetória e por compartilhar a felicidade da concretização desse

sonho.

(9)

No princípio era o Verbo, e o Verbo

estava com Deus, e o Verbo era Deus.

(Novo Testamento, João 1:1)

(10)

Parte desta pesquisa foi desenvolvida com

financiamento do CNPq (09/2006 – 07/2008)

(11)

SINOPSE

Análise, à luz de pressupostos funcionalistas, da polifuncionalidade/gramaticalização de dar em construções dar+SN e investigação, sob orientações sociofuncionalistas, da alternância entre algumas dessas construções e verbos plenos de sentido equivalente (dar saltos/saltar, dar parabéns/parabenizar), com base no comportamento lingüístico e em atitudes de usuários do Português.

(12)

VERBO-NOMINAIS E PREDICADORES SIMPLES Giselle Aparecida Toledo Esteves

Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira

Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Língua Portuguesa.

A presente dissertação enfoca o uso das construções dar+SN em Português. Uma análise ainda que superficial do uso da língua, em diversos contextos interacionais, já indica a polifuncionalidade de dar. No entanto, esse tema, geralmente, não é tratado em gramáticas e dicionários, cujos autores consideram dar apenas, nessas construções, como verbo principal (Eu dei uma boneca à menina). Logo, faz-se necessária a observação do comportamento sintático-semântico desse item, para que se descubram diferentes categorias gramaticais as quais pode vir a pertencer. Ademais, tenciona-se demonstrar resultados do estudo de alternância entre perífrases com verbo-suporte dar (dar abraço/ dar saltos) e verbos predicadores cognatos (abraçar/ saltar).

O estudo de gramaticalização (HEINE et alii, 1991 & HOPPER, 1991) abarcou dados do Português Brasileiro e do Português Europeu, enquanto, para o de alternância (DIK, 1997; LABOV, 1973; LAVANDERA, 1985), recorreu-se aos corpora apenas do Português Brasileiro. Os resultados do primeiro demonstraram que existe um continuum de gramaticalização que abarca as seguintes categorias de dar: verbo predicador pleno, verbo predicador não pleno, verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte. A segunda pesquisa permitiu a depreensão de aspectos, tais como “presença de nuances semânticas” e “diferença entre o número de sílabas”, que favorecem o uso de dar + SN no lugar de um verbo pleno.

A reflexão sobre o ensino de Português também é alvo de interesse desta dissertação. Portanto, desenvolveram-se orientações e algumas atividades que auxiliem a abordagem de questões acerca da polifuncionalidade de dar e do emprego de construções dar + SN (PCN, 1998 e MENDONÇA, 2006).

Palavras-chave: (socio)funcionalismo, gramaticalização, alternância, verbo-suporte. Rio de Janeiro

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THE GRAMMATICALIZATION OF THIS VERB AND THE ALTERNANCE BETWEEN COMPLEX AND SIMPLE PREDICATES

Giselle Aparecida Toledo Esteves

Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira

Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Língua Portuguesa.

This dissertation focuses on the use of give + NP constructions in Portuguese. A superficial analysis of the Portuguese language use indicates the polifunctionality of “give” when applied in different contexts. Nevertheless, such a theme generally does not appear in grammars and dictionaries where authors regard give as a predicator verb (I gave a doll to a girl.). Thus, it becomes necessary to find out different categories to which give can belong by analyzing the syntactic-semantic behavior of this verb. In addition, another aim of this research is to show the results of the alternance process that occurs between constructions that are headed by the support verb give (give a hug/ give an example) and equivalent cognate verbs (to hug/ to exemplify).

The corpora used in this dissertation are formed by Brazilian and European Portuguese. The results show that there is a continuum of grammaticalization (HEINE et alii, 1991 & HOPPER, 1991) which is composed by the following categories: full predicator, non-full predicator, full predicator-support verb and support verb. Also, the results related to the study of alternance (DIK, 1997; LABOV, 1973; LAVANDERA, 1985) present some aspects, such as “difference between numbers of syllables” and “the existence of semantic nuances”, which favor the use of give + NP instead of a simple predicator.

Dealing with issues about teaching Portuguese is also a goal. For this reason, some activities that involve the use of give + NP constructions were developed in this dissertation. They were based on PCN (1998) and Mendonça (2006).

Key words: functionalism, grammaticalization, sociolinguistics, alternance, support verb.

Rio de Janeiro Julho de 2008

(14)

ABREVIATURAS E CONVENÇÕES... 23

1. INTRODUÇÃO... 24

1.1 Tema... 24

1.2 Objetivos ... 25

1.3 Hipóteses quanto ao trabalho realizado com amostras de comportamentos lingüísticos... 27

1.4 Hipóteses quanto ao trabalho realizado com testes de atitude ... 30

1.5 Estrutura da dissertação... 30

2. A DESCRIÇÃO DO VERBO DAR E DE CONSTRUÇÕES COM VERBOS-SUPORTE... 31

2.1 Em algumas obras de orientação tradicional ou descritiva... 31

2.2 Em alguns dicionários... 38

2.3 Em estudos lingüísticos ... 43

3. REFERENCIAL TEÓRICO... 54

3.1 Funcionalismo: pressupostos básicos ... 54

3.1.1 Teoria da Gramática Funcional (orientação holandesa) ... 56

3.1.1.1 Formação de predicadores... 63

3.1.1.2 Relações funcionais... 65

3.1.2 O fenômeno de gramaticalização... 71

3.2 Sociofuncionalismo: a conjugação de duas abordagens... 87

3.3 Fundamentos para a pesquisa com testes de atitude... 92

3.4 Fundamentos para uma abordagem de construções DAR+SN no ensino de Português... 94

4. ENFOQUE METODOLÓGICO... 97

4.1. Procedimentos para a análise das amostras de dados... 97

4.2 Procedimentos para a aplicação dos testes de atitude... 102

5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS... 106

5.1 Análise do fenômeno de gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte... 106

5.1.1 Uma cadeia de gramaticalização... 107

(15)

5.1.5 Distribuição dos dados por modalidade expressiva... 134

5.1.6 Distribuição dos dados por gêneros textuais... 136

5.1.6.1 Anúncios, editoriais e notícias do século XX... 136

5.1.6.2 Artigos de opinião, editoriais e notícias do século XXI... 137

5.1.7 Produtividade das categorias funcionais de dar em tipos de textos distintos... 140

5.1.8 Produtividade das categorias funcionais de dar em textos passíveis de avaliação (narrativas, dissertações e provas)... 142

5.1.9 Comparação da produtividade das categorias funcionais de dar em textos passíveis de avaliação e em textos não avaliados na escola... 144

5.1.10 Distribuição dos dados por tipo de vocabulário... 145

5.1.11 Natureza semântica das categorias investigadas... 148

5.1.11.1 Acepções depreendidas de certos usos de dar na categoria de verbo predicador não pleno... 148

5.1.11.2 Noções veiculadas pela categoria [-gramatical] verbo predicador a verbo-suporte e [+gramatical] de verbo-verbo-suporte... 150

5.1.12 Aspectos que podem afastar dar da categoria lexical (de verbo predicador) e o aproximar da categoria gramatical (de verbo-suporte) e que podem interferir nos níveis de integração entre o verbo e o sintagma nominal das perífrases em que dar já se apresenta com algum grau de gramaticalização... 154

5.1.12.1 Natureza do sintagma nominal ligado a dar... 154

5.1.12.2 Caracterização semântica do sintagma nominal... 157

5.1.12.3 Funções semânticas do sintagma nominal... 162

5.1.12.4 Mobilidade do elemento não-verbal... 166

5.1.12.5 Configuração sintática da perífrase... 171

5.1.12.6 Possibilidade de permuta de dar por outros itens verbais... 177

5.1.12.7 Possibilidade de substituição do SN em predicadores complexos cujo verbo já apresenta algum grau de gramaticalização... 181

5.1.12.8 Possibilidade de substituição do predicador complexo dar+SN por outro verbo de sentido equivalente... 183

5.1.13 Níveis de integração das estruturas em que o verbo apresenta algum grau de gramaticalização... 186

5.2 Testes de atitudes referentes ao fenômeno de gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte... 201

5.2.1 Objetivo dos testes... 201

5.2.2 Configuração dos testes e análise dos resultados obtidos... 201

5.3 Análise dos dados referentes ao fenômeno de alternância entre perífrases com verbo-suporte dar e verbos predicadores de sentido equivalente... 226

(16)

o da perífrase... 237

5.3.2.3 Atuação da variável tipos de textos... 239

5.3.2.4 Atuação da variável tempo verbal... 244

5.3.2.5 Atuação da variável graus de escolaridade... 248

5.3.2.6 Atuação da variável modalidade expressiva... 253

5.3.2.7 Atuação da variável faixa etária... 255

5.3.2.8 Atuação da variável fontes dos textos jornalísticos... 258

5.3.2.9 Considerações gerais... 260

5.4 Testes de atitudes referentes ao fenômeno de alternância entre perífrases com verbo-suporte dar e verbos predicadores de sentido equivalente... 262

5.4.1 Objetivo dos testes... 262

5.4.2 Configuração dos testes de atitude... 262

5.4.3 Análise dos resultados obtidos... 263

5.4.4 Considerações gerais sobre os resultados dos testes de atitude... 291

6. CONSTRUÇÕES DAR+SN NO ENSINO DE PORTUGUÊS... 293

6.1 A abordagem de construções dar+SN em alguns materiais didáticos... 293

6.2 Possíveis abordagens das construções dar+SN em aulas de Português... 299

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS... 304

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 309

(17)

Quadro 1: Algumas acepções e construções do verbo dar encontradas ao longo do verbete

(HOUAISS, 2001)

39 Quadro 2: Algumas acepções e construções do verbo dar encontradas ao longo do verbete

(BORBA, 1990)

41 Quadro 3: Algumas acepções e construções do verbo dar encontradas ao longo do verbete

(CALDAS AULETE, 1925)

42 Quadro 4: Formação da estrutura subjacente de cláusula 60

Quadro 5: Tipo de estados de coisas 66

Quadro 6: Parâmetros [± dinâmico], [± controle], e [± télico] no estado de coisas da

predicação

67 Quadro 7: Relação entre estados de coisas da predicação e parâmetros semânticos 68 Quadro 8: Funções semânticas nucleares 69 Quadro 9: Hierarquia das funções semânticas atribuídas às funções sintáticas sujeito e

objeto.

70 Quadro 10: Fontes da coleta de dados em acervos do Português Brasileiro para estudo da

gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte

98 Quadro 11: Fontes da coleta de dados em acervos do Português Europeu para estudo da

gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte

99 Quadro 12: Corpus do Português Brasileiro e do Português Europeu para estudo da

gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte

99 Quadro 13: Fontes da coleta de dados em acervos do Português Brasileiro (ESCRITO) para

estudo da alternância entre construções dar+SN e verbos predicadores cognatos de sentido equivalente.

101

Quadro 14: Fontes da coleta de dados em acervo do Português Brasileiro (ORAL) para

estudo da alternância entre construções dar+SN e verbos predicadores cognatos de sentido equivalente.

101

Quadro 15: Corpus do Português Brasileiro para estudo da alternância entre construções

dar+ SN e verbos predicadores cognatos de sentido equivalente. 101

Quadro 16: Normas para transcrição das entrevistas 103 Quadro 17: Escolaridade dos informantes 104 Quadro 18: Acepções de dar como verbo predicador não-pleno identificadas no corpus 148 Quadro 19: Presença das acepções de dar como verbo predicador não pleno do corpus nos

dicionários consultados 149

Quadro 20: Variáveis controladas na pesquisa 226 Quadro 21: Ordem decrescente de seleção de variáveis 260 Quadro 22: Alguns contextos discursivos que apresentam dar em diferentes categorias

funcionais.

301 Quadro 23: Alguns contextos discursivos e questões relacionadas às implicações da

substituição do verbo dar (como verbo predicador a verbo-suporte) por outro item verbal.

(18)

Figura 2: Modelo de interação verbal da Gramática Funcional de Dik (1997: 8-9, v.1) 57 Figura 3: Possíveis relações derivativas entre categorias de predicadores, segundo (DIK,

1997:196, v.1) 64

Figura 4: A estrutura de cadeias de gramaticalização (HEINE et alii, 1991:16) 73 Figura 5: Um cenário de gramaticalização como meio de resolução de um problema (HEINE

et alii, 1991:29) 78

Figura 6: Uma rede conceptual de gramaticalização (HEINE et alii, 1991:99) 81 Figura 7: Macroestrutura conceptual da gramaticalização (HEINE et alii, 1991:108) 82 Figura 8: O modelo metonímico-metafórico 83 Figura 9: Cadeia de gramaticalização de dar: de verbo predicador a verbo-suporte 110 Figura 10: Cadeia de gramaticalização de dar (de verbo predicador a verbo-suporte) com

alguns exemplos do corpus

126 Figura 11: Valores semânticos encontrados no continuum de gramaticalização de dar: de

verbo predicador a verbo suporte a verbo-suporte

153

TABELAS

Tabela 1: Produtividade das categorias funcionais de dar (todos os dados do corpus). 126 Tabela 2: Produtividade das categorias funcionais de dar (todos os dados do corpus) por

variedades nacionais

127 Tabela 3: Produtividade das categorias funcionais de dar em notícias e em editoriais dos

séculos XX e XXI pertencentes ao Português Brasileiro e ao Português Europeu

128 Tabela 4: Distribuição dos dados (extraídos de notícias e editoriais) por cada categoria

funcional dos séculos XX e XXI em função de variedades nacionais distintas.

129 Tabela 5: Produtividade das categorias funcionais de dar em textos jornalísticos (anúncios,

editoriais, notícias e artigos de opinião) de PB e PE dos séculos XX e XXI.

130 Tabela 6: Produtividade das categorias funcionais de dar ao longo do século XX (somente

corpus escrito – anúncios, editoriais e notícias).

130 Tabela 7: Distribuição dos dados (notícias, editoriais e anúncios) por cada categoria

funcional no século XX

131 Tabela 8: Produtividade das categorias funcionais de dar ao longo do século XX e XXI

(somente editoriais e notícias).

132 Tabela 9: Distribuição dos dados (extraídos de notícias e editoriais) por cada categoria

funcional de dar ao longo dos períodos do século XX e no período inicial do século XXI

133 Tabela 10: Produtividade das categorias funcionais de dar por modalidades expressivas

(dados extraídos do corpora oral e escrito de PB e PE – VARPORT século XX).

134 Tabela 11: Distribuição dos dados por cada categoria funcional de dar e por cada

modalidade expressiva (dados extraídos do corpora oral e escrito de PB e PE – VARPORT século XX).

(19)

Tabela 13: Distribuição dos dados por cada categoria funcional de dar e por cada

modalidade expressiva (dados extraídos do corpora oral e escrito de PB– Discurso e Gramática).

136

Tabela 14: Produtividade das categorias funcionais de dar em gêneros textuais distintos

(anúncios, editoriais e notícias) do século XX (PB e PE).

136 Tabela 15: Produtividade das categorias funcionais de dar em gêneros textuais distintos

(artigos de opinião, editoriais e notícias) do século XXI (PB e PE).

137 Tabela 16: Produtividade das categorias funcionais de dar em tipos de textos distintos do

projeto D&G (narrativas de experiência pessoal, narrativas recontadas e relatos de opinião)

140 Tabela 17: Produtividade das categorias funcionais de dar (relação entre tipos de textos do

projeto D&G e modalidades expressivas).

141 Tabela 18: Produtividade das categorias funcionais de dar em textos passíveis de avaliação

(redações e provas)

142 Tabela 19: Produtividade das categorias funcionais de dar em narrativas que são objetos de

avaliação formal em confronto com narrativas que não foram compostas com esse fim.

144 Tabela 20: Produtividade das categorias funcionais de dar em função do tipo de vocabulário. 146 Tabela 21: Noções veiculadas por dar nas categorias de verbo-suporte e de verbo predicador

a verbo-suporte

152 Tabela 22: Natureza predicante ou não do SN relacionada às categorias funcionais de dar 156 Tabela 23: Natureza predicante ou não do SN relacionada aos valores expressos pelas

categorias verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte 156

Tabela 24: Caracterização semântica do SN relacionada às categorias funcionais de dar 160 Tabela 25: Caracterização semântica do SN relacionada aos valores expressos pelas

categorias verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte 161

Tabela 26: Função e traços do elemento não-verbal relacionados às categorias funcionais de

dar

164 Tabela 27: Função e traços do elemento não-verbal relacionados aos valores expressos pelas

categorias verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte

165 Tabela 28: Mobilidade do elemento não-verbal relacionada às categorias funcionais de dar 168 Tabela 29: Configuração sintática do SN relacionada às categorias funcionais de dar 169 Tabela 30: Configuração sintática do elemento não-verbal relacionada às categorias

funcionais de dar

173 Tabela 31: Configuração sintática do elemento não-verbal relacionada aos valores expressos

pelas categorias verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte

175 Tabela 32: Possibilidade de substituição do verbo em predicadores complexos cujo dar já

apresenta algum grau de gramaticalização

178 Tabela 33: Possibilidade de substituição do verbo relacionada aos valores expressos pelas

categorias verbo predicador a verbo-suporte e verbo-suporte

179 Tabela 34: Possibilidade de substituição do elemento não-verbal em predicadores complexos

cujo dar já apresenta algum grau de gramaticalização.

(20)

relacionada às categorias de dar que já apresenta algum grau de gramaticalização.

Tabela 37: Possibilidade de substituição do predicador complexo dar+SN por outro verbo de

sentido equivalente relacionada aos valores expressos pelas categorias verbo predicador a

verbo-suporte e verbo-suporte

185

Tabela 38: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DAR SHOW.

202 Tabela 39: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DAR UMA FAXINA.

202 Tabela 40: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DÁ UMAS PORRADA

202 Tabela 41: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DEU BOLA

203 Tabela 42: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DEU BOLA

203 Tabela 43: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DEU UM PULO

204 Tabela 44: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DER MOLE

204 Tabela 45: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DANDO CURTO 204

Tabela 46: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DÁ ÊNFASE 205

Tabela 47: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de anteposição do SN em

enunciado com a estrutura DAR VAZÃO 206

Tabela 48: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de inserção de elementos na

estrutura DEU CONTA 209

Tabela 49: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de inserção de elementos na

estrutura DER MOLE

210 Tabela 50: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de inserção de elementos na

estrutura DÁ UM ATAQUE

211 Tabela 51: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de inserção de elementos na

estrutura DÁ TRÉGUA

211 Tabela 52: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de inserção de elementos na

estrutura DÁ GOSTO

212 Tabela 53: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de substituição de dar em

DEI UM GOL

215 Tabela 54: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de substituição de dar em

DAR UMA SURRA

215 Tabela 55: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de substituição de dar em

DAR UM ESCÂNDALO

216 Tabela 56: Resultados de teste de atitudes sobre a possibilidade de substituição do SN

“aulas” em DÃO AULAS

(21)

em DAR VOZ

Tabela 59: Número de dados e índices de input e significância encontrados em todas as

rodadas

233 Tabela 60: Índices de input encontrados no nível zero e no nível selecionado nas rodadas 234 Tabela 61: Atuação da variável presença de nuance semântica 234 Tabela 62: Pesos relativos da variável presença de nuance semântica em relação a perífrases

dar + SN em cada uma das rodadas (dados com e sem nuance semântica)

235 Tabela 63: Tabulação cruzada entre presença de nuance semântica e configuração sintática

das perífrases

236 Tabela 64: Atuação da variável diferença entre o número de sílabas do verbo predicador e o

da perífrase

237 Tabela 65: Pesos relativos da variável diferença entre o número de sílabas do verbo

predicador e o da perífrase em todas as rodadas

238 Tabela 66: Atuação da variável tipos de texto 239 Tabela 67: Pesos relativos da variável tipos de texto na rodada geral (dados de com e sem

nuance semântica) e na rodada D&G (dados de com e sem nuance semântica)

240 Tabela 68: Tabulação cruzada entre tipos de texto (D&G) e presença de nuance semântica 241 Tabela 69: Pesos relativos da variável tipos de texto na rodada geral (dados com e sem

nuance semântica) e na rodada com a amostra de “textos jornalísticos” (dados com e sem nuance semântica)

242

Tabela 70: Tabulação cruzada entre tipos de texto (textos jornalísticos) e presença de nuance

semântica

243 Tabela 71: Atuação da variável tempo verbal 244 Tabela 72: Pesos relativos da variável tempo verbal nas rodadas gerais, nas rodadas com a

amostra de “textos jornalísticos” e na rodada com a amostra de “textos para avaliação” (dados sem nuance semântica)

245

Tabela 73: Tabulação cruzada entre diferença entre o número de sílabas do verbo

predicador e da perífrase e tempo verbal (apenas textos jornalísticos)

247 Tabela 74: Tabulação cruzada entre diferença entre o número de sílabas do verbo

predicador e da perífrase e tempo verbal (apenas textos para avaliação)

247 Tabela 75: Atuação da variável graus de escolaridade 248 Tabela 76: Pesos relativos da variável graus de escolaridade nas rodadas gerais e nas

rodadas D&G

249 Tabela 77: Tabulação cruzada entre graus de escolaridade e presença de nuances

semânticas (apenas dados da amostra D&G)

250 Tabela 78: Tabulação cruzada entre graus de escolaridade e modalidade expressiva (apenas

dados da amostra D&G)

251 Tabela 79: Atuação da variável graus de escolaridade (apenas dados da amostra de textos

para avaliação)

252 Tabela 80: Tabulação cruzada entre graus de escolaridade e presença de nuance semântica

(apenas dados da amostra de textos para avaliação)

(22)

Tabela 83: Atuação da variável faixa etária 255 Tabela 84: Pesos relativos da variável faixa etária nas rodadas gerais e nas rodadas D&G 255 Tabela 85: Tabulação cruzada entre faixa etária e presença de nuance semântica (apenas

dados da amostra D&G)

257 Tabela 86: Tabulação cruzada entre faixa etária e modalidade expressiva (apenas dados da

amostra D&G)

257 Tabela 87: Atuação da variável fontes dos textos jornalísticos 258 Tabela 88: Tabulação cruzada entre fontes dos textos jornalísticos e presença de nuance

semântica

259 Tabela 89: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções

PREOCUPANDO MUITO e DANDO MUITA PREOCUPAÇÃO

264 Tabela 90: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções ESCULACHA e

DÁ UM ESCULACHO

266 Tabela 91: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções PARABENIZAR

e DAR PARABÉNS

268 Tabela 92: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções ENTRISTECIA e

DAVA MUITA TRISTEZA

270 Tabela 93: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções GOLEEI e DEU

UM GOL

272 Tabela 94: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções REZEI UM

POUQUINHO e DEI UMA REZADINHA 274

Tabela 95: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções AJUDAR e DAR

UMA AJUDAZINHA 276

Tabela 96: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções EDUCAR BEM

e DAR UMA BOA EDUCAÇÃO 278

Tabela 97: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções ESFAQUEOU e

DEU ALGUMAS FACADAS

280 Tabela 98: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções ESTAPEOU e

DEU UNS TAPAS

282 Tabela 99: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções ATIRAR e DAR

TIROS

282 Tabela 100: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções

AMEDRONTAR e DAR MEDO

284 Tabela 101: Resultado de teste de atitudes sobre o emprego das construções

PARABENIZAR e DAR PARABÉNS

(23)

E.F. Æ Ensino Fundamental E.M. Æ Ensino Médio E.S. Æ Ensino Superior

Faixa A Æ Faixa etária entre 18 e 25 anos Faixa B Æ Faixa etária entre 26 e 35 anos I Æ Informante

Inq. Æ Inquérito Inf. Æ Informante Ind. Æ Indicativo

Nível 1 Æ Semi-alfabetizados

Nivel 3 Æ Escolarizados (Ensino superior)

NURC Æ Projeto Norma Lingüística Urbana Culta Oco Æ Ocorrência

PB Æ Português do Brasil PE Æ Português europeu PR Æ Peso relativo Pres. Æ Presente

Pret. Perf. Æ Pretérito perfeito Pret. Imp. Æ Pretérito imperfeito SN (SNs) Æ Sintagma(s) nominal (is) SPrep Æ Sintagma preposicional X1 Æ Argumento 1 X2 Æ Argumento 2 C1 Æ Predicação nuclear C2 Æ Predicação central C3 Æ Predicação estendida C4 Æ Proposição C5 Æ Ato de fala

f Æ Estado de coisas da predicação [V] Æ Verbo

[VN] Æ Predicação verbo-nominal σ2 Æ Satélite de nível 2

σ1 Æ Satélite de nível 1

π2 Æ Operador de segundo nível

(24)

O verbo dar é geralmente tratado apenas como predicador1 na maioria dos dicionários e das gramáticas normativas da língua portuguesa, ou seja, um elemento que, além de possuir comportamento lexical na estruturação do enunciado, é o único responsável pela atribuição de papel temático aos argumentos, como em:

(Ex.:1) (...) sua amasia deu-lhe um chá. [PB escrito, notícia, E-B-91-Jn-004]

Contudo, uma análise ainda que superficial do uso de dar em diversos contextos interacionais indicará a polifuncionalidade desse verbo no Português, especialmente em construções dar + SN. Normalmente, os poucos textos didáticos que mencionam o comportamento gramatical de dar (como verbo-suporte) consideram-no apenas “sem conteúdo semântico” (NICOLA, 2006:146) e nem sempre apresentam tratamento que articule a teoria a respeito dessa categoria verbal com seu emprego em diversos contextos de interação. Ademais, as gramáticas que abordam esse tema (MATEUS et alii, 2003 e MOURA NEVES, 2000) têm circulação restrita (geralmente, apenas em cursos de Graduação em Letras) e, apesar de conterem mais informações do que os compêndios didáticos, ainda carecem de descrições mais específicas sobre o processo de gramaticalização de verbos (no continuum de predicador a verbo-suporte), particularmente de dar, e sobre motivações semântico-discursivas que levam os falantes a empregar predicadores complexos com esse verbo. Logo, é necessária a descrição do comportamento sintático-semântico desse item verbal, com a conseqüente depreensão das diferentes categorias gramaticais às quais ele se relaciona e dos diferentes contextos discursivos que favorecem seu uso na estruturação de predicadores complexos.

A presente dissertação enfoca as construções dar + SN em Português, com o aporte da teoria funcionalista para fundamentar a investigação do comportamento de dar nesse tipo de construção (DIK, 1997) e do fenômeno de gramaticalização (HEINE et alii, 1991; HOPPER, 1991) de verbo predicador a verbo-suporte. Com o intuito de aprofundar a descrição das construções com verbo-suporte, desenvolve-se, com base em pressupostos sociofuncionalistas (DIK, 1997; WEINREICH, LABOV e HERZOG, 1968; LABOV, 1972; LAVANDERA,1985), um estudo acerca da alternância entre perífrases com verbo-suporte

1 Nesta dissertação, emprega-se o termo predicador para indicar formas verbais plenas (predicadores simples) e construções com verbo (semi-)gramatical (predicadores complexos) que têm função de projetar argumento(s) e atribuir-lhe(s) papel temático.

(25)

dar (dar abraço, dar saltos) e verbos predicadores cognatos aos SNs das construções

(abraçar, saltar). Esses estudos pautam-se em materiais que revelam o comportamento lingüístico de usuários do Português na organização de seus discursos orais ou escritos e/ou suas atitudes/percepções em relação a opções verbais, formas de estruturação lingüística.

Recorrendo-se a esses materiais, desenvolvem-se, então, reflexões e análises que buscam lidar, basicamente, com os seguintes problemas: (1) em que condições (em termos de uso e percepção), com que configuração semântica e morfossintática e com que gradação se processa a gramaticalização de dar nas construções em análise? e (2) quais são as motivações e/ou restrições e as avaliações subjetivas da alternância entre predicadores complexos com verbo-suporte dar e predicadores simples?

A reflexão sobre o ensino de Língua Portuguesa é alvo de interesse desta dissertação, no que tange às questões acerca da polifuncionalidade de dar em construções dar + SN e do emprego de perífrases com verbo-suporte. Objetiva-se, portanto, demonstrar como esses temas são abordados em textos didáticos e desenvolver uma proposta de tratamento para o assunto em sala de aula que seja coerente com uma abordagem sociofuncionalista. Levam-se em conta, portanto, as considerações sobre o processo de ensino-aprendizagem apresentadas pelos PCN de Língua Portuguesa (1998), a importância da corrente funcionalista da linguagem para o ensino do Português, tratada por Oliveira e Cezario (2007), além da concepção de “análise lingüística” proposta por Mendonça (2006).

1.2 Objetivos

Os objetivos gerais desta dissertação são:

z investigar a natureza categorial do verbo dar, analisando sua trajetória de verbo predicador pleno a verbo-suporte;

z depreender os condicionamentos lingüísticos e extralingüísticos que levam à possibilidade de alternância entre perífrases dar + SN e verbo pleno de sentido equivalente (cognato ao SN);

z verificar se há diferenças dialetais na caracterização de predicadores complexos com verbo-suporte dar entre as variedades européia e brasileira da língua portuguesa; e

z oferecer contribuição para descrições sobre categorização e comportamento verbal em livros/materiais didáticos.

(26)

Levando-se em conta os dois principais fenômenos investigados, os objetivos específicos distribuem-se conforme se apresenta a seguir.

(1) Na investigação do processo de gramaticalização de dar (de verbo predicador a verbo-suporte), tenciona-se:

(i) definir os marcos predicativos do predicador dar e dos predicadores complexos com verbo-suporte dar que estão entre as construções dar + SN dos corpora analisados;

(ii) investigar parâmetros estruturais e semânticos que influenciam na integração entre o verbo dar e o SN, observando alguns aspectos, tais como a presença ou a ausência, na configuração do SN, de elementos com caráter determinante, a posição do SN em relação ao verbo-suporte e a natureza semântica do SN;

(iii) apresentar uma cadeia de gramaticalização que evidencie o continuum das categorias funcionais de dar encontradas nos corpora;

(iv) determinar os graus de integração entre o verbo dar e o SN presentes nas estruturas dos corpora;

(v) utilizar, como material de análise, testes de atitude, no intuito de checar alguns aspectos que podem influenciar a gramaticalização de dar; e

(vi) propor uma abordagem para o ensino das categorias detectadas no continuum de gramaticalização, buscando-se destacar a multifuncionalidade de dar em construções dar+SN.

(2) Na investigação do fenômeno de alternância entre predicadores complexos dar + SN e formas verbais simples “correspondentes” (cognatas aos SNs encontrados nas perífrases), almeja-se:

(i) checar a possibilidade de alternância entre predicadores complexos com dar e formas verbais simples “correspondentes”;

(ii) explicitar a relação entre a possibilidade de alternância entre perífrases com verbo-suporte dar + SN e verbos plenos e os possíveis condicionamentos extralingüísticos, como o grau de escolaridade e a faixa etária dos falantes;

(27)

(iii) formular e aplicar testes de atitude para, entre outros intuitos, ajudar (a) a solucionar casos de dúvida quanto à análise da possibilidade de comutação entre as perífrases com dar + SN e verbos plenos equivalentes e (b) a detectar efeitos semântico-discursivos alcançados pelo emprego dessas construções perifrásticas; e

(iv) encaminhar proposta de tratamento, nas aulas de Português, da alternância entre construções dar + SN e verbos plenos equivalentes e, principalmente, das implicações de natureza pragmático-discursiva envolvidas no emprego dessas formas.

1.3 Hipóteses quanto ao trabalho realizado com amostras de comportamentos lingüísticos

Com relação ao fenômeno de gramaticalização de dar – de verbo predicador a verbo-suporte –, a pesquisa desenvolve-se a partir de hipóteses quanto à distribuição dos dados, à natureza categorial de dar, a características que afastam esse item da categoria lexical (de verbo predicador) e o aproximam da categoria com caráter gramatical (de verbo-suporte) e a aspectos estruturais e semânticos que interferem nos diferentes graus de integração entre verbo-suporte e elemento não-verbal quando estes formam um predicador complexo.

„ Quanto à distribuição dos dados,

(i) crê-se que, tanto na variedade brasileira quanto na variedade européia da língua portuguesa, as freqüências das categorias funcionais de dar serão bastante semelhantes, pois se assume que o fenômeno de gramaticalização se dá de maneira regular no sistema;

(ii) calcula-se que a freqüência de ocorrência (“token frequency”) de construções com verbo-suporte dar aumente ao longo do século XX, haja vista o pressuposto de que, quanto mais gramatical é a categoria de um item, maior é sua produtividade na língua;

(iii) espera-se que, tanto na fala quanto na escrita, a produtividade do verbo-suporte dar seja maior em relação à de outras categorias nessa trajetória.

„ Quanto à natureza categorial de dar,

(v) por participar de construções de comportamento sintático-semântico regular, o verbo dar pode ser funcionalmente categorizado em um continuum de gramaticalização, cujos extremos são as categorias de verbo predicador pleno e verbo-suporte.

(28)

„ Quanto às características que afastam dar da categoria lexical (de verbo predicador) e o aproximam da categoria semi-gramatical (de verbo-suporte),

(v) acredita-se que haja uma configuração morfossintática prototípica para as construções com verbo-suporte – provavelmente, o elemento não-verbal ocorrerá, em maior número de casos, posposto ao verbo-suporte (“dar cabo”) e não anteposto a este (“bênçãos sejam dadas”), já que, quanto mais gramatical for o verbo, maior será sua integração com o SN que o acompanha.

„ Quanto aos aspectos estruturais e semânticos que interferem nos diferentes graus de integração entre verbo-suporte dar e o elemento não-verbal ao formarem um predicador complexo,

(vi) cogita-se que, entre as características que fazem com que o grau de integração entre verbo-suporte dar e elemento não-verbal seja maior, esteja o fato de este se apresentar, tipicamente, com valor [+abstrato], com configuração de caráter [-determinado], com função [-referencial] a entidades do mundo biossocial e com traço [+quantificação universal] nos elementos integrantes da classe dos SNs (“dar origem”);

(vii) é possível que a presença de modificadores qualificativos na estruturação de predicador complexo com verbo-suporte dar seja a configuração que pese mais significativamente para diminuir o grau de integração entre o verbo-suporte e o SN (“dando importantes contribuições”); diferentemente, os predicadores complexos em que se percebem os maiores graus de integração não devem apresentar elementos intervenientes na configuração de seus SNs; quando isso ocorrer, os elementos intervenientes serão, provavelmente, de natureza [-determinante], como modificadores intensificadores e artigos indefinidos ou definidos genéricos (“dar os parabéns”; “dar muita tranqüilidade”);

(viii) acredita-se que a possibilidade de substituição do verbo-suporte dar por um outro verbo (quase) sinônimo, sem alteração (significativa) do sentido da estrutura compósita, provavelmente colabora para a diminuição do grau de integração entre os componentes da perífrase verbo-nominal com dar (dá segurança – passa segurança);

(ix) supõe-se que a possibilidade de substituição do elemento não-verbal da construção com

dar por outro (quase) sinônimo, sem alteração (significativa) do sentido da estrutura

compósita provavelmente contribui para a diminuição do grau de integração entre os componentes da perífrase (dá ajuda – dá apoio).

(29)

Com relação ao fenômeno de alternância entre predicadores complexos dar + SN e formas verbais simples “correspondentes” (cognatas aos SNs encontrados nas perífrases), a pesquisa desenvolve-se a partir das seguintes hipóteses:

(i) Supõe-se que não se pode considerar que todos os predicadores complexos e predicadores simples (cognatos aos SNs das perífrases) apresentam o “mesmo significado básico”, visto que há expressões (como “dá impressão”) que não apresentam o mesmo significado básico da forma verbal simples cognata ao nome (“imprimir”).

(ii) Provavelmente, haverá diferença em termos de freqüência/probabilidade de uso (ou percepção de uso) de perífrases com verbo-suporte em função de modalidade expressiva (fala ou escrita) e de grau de formalidade: os níveis de produtividade de perífrases com dar + SN serão maiores na fala e em contextos informais/coloquiais, enquanto a maior produtividade dos verbos simples equivalentes aparecerá na escrita e em situações às quais se atribui algum grau de formalidade.

(iii) Contextos discursivos em que há maior preocupação em demonstrar riqueza vocabular não propiciarão o recurso de construções com verbo-suporte dar; diferentemente, em contextos em que os falantes estão menos tensos, não demonstrarão preocupação dessa natureza.

(iv) Crê-se que o falante recorra a estrutura (predicadores complexos com dar ou verbos plenos) que apresente menor extensão silábica.

(v) Quanto ao nível de escolaridade, acredita-se que, quanto maior o nível de instrução, maior também será a escolha por verbos plenos. Imagina-se que os alunos são aconselhados a substituir expressões com dar+SN por predicadores simples para demonstrar riqueza vocabular em seus textos e, com sucessivas recomendações a esse respeito na escola, passam a ficar atentos a isso.

(vi) Quanto à faixa etária, provavelmente, quanto menos idade tiver o falante, maior será o emprego de construções dar+SN em relação aos verbos plenos, já que seu arcabouço vocabular é menos diversificado e a pressão normativa da escola no que tange a seleção lexical também é menor.

(30)

1.4 Hipóteses quanto ao trabalho realizado com testes de atitude

„ Com relação aos testes de atitude que se referem à integração de construções dar+SN nas quais o verbo já demonstre algum grau de lexicalização, postulou-se a seguinte hipótese geral: (i) os informantes, ao analisarem estruturas com maior grau de integração entre dar+SN, provavelmente optarão pela impossibilidade de anteposição do SN, de inserção de elementos de caráter mais determinante na configuração de SNs incorporados e de substituição do verbo ou do SN das perífrases.

„ Com relação aos testes relacionados à alternância entre predicadores complexos com dar e verbos plenos (cognatos aos SNs das perífrases), acredita-se que, em geral,

(ii) os informantes, ao analisarem estruturas que pertençam a situações de registro informal e/ou à fala, optarão, possivelmente, pelo emprego de predicadores complexos com dar. Além disso, é provável que os falantes se manifestem quanto à diferença de sentido entre algumas formas apresentadas.

1.5 Estrutura da dissertação

Após esta introdução, há sete capítulos. No capítulo 2, desenvolve-se uma descrição sobre o verbo dar com base em gramáticas e dicionários da língua portuguesa e uma reflexão crítica acerca de aspectos da literatura lingüística que aborda construções com verbo-suporte. No capítulo 3, expõe-se a fundamentação teórica que norteia a pesquisa, tecem-se considerações sobre o enfoque funcionalista adotado no estudo da trajetória de gramaticalização de dar (de verbo predicador a verbo-suporte) e mais detalhes sobre como a conjugação das teorias da Gramática Funcional e da Sociolingüística (Sociofuncionalismo) colabora para fundamentar o estudo da alternância entre construções com dar + SN e verbos predicadores (cognatos aos SNs das perífrases) de sentido equivalente (dar amor = amar, dar resposta = responder). O capítulo 4 é dedicado à metodologia de pesquisa e contém informações a respeito dos corpora utilizados e dos procedimentos para aplicação dos testes de atitudes, bem como das etapas da investigação. O capítulo 5 concentra a análise e a interpretação dos materiais relativos ao comportamento lingüístico e às atitudes dos falantes. Em seguida, destacam-se, no capítulo 6, contribuições da pesquisa para o ensino de Língua Portuguesa. Por fim, no capítulo 7, encontram-se as considerações finais relativas ao estudo desenvolvido, seguido pelo capítulo 8, em que são expostas as referências bibliográficas fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa.

(31)

2. A DESCRIÇÃO DO VERBO DAR E DE CONSTRUÇÕES COM VERBOS-SUPORTE

2.1 Em algumas obras de orientação tradicional ou descritiva

O conceito de verbo nas obras pesquisadas2 difere em função do grau de aprofundamento do assunto no enfoque dado a aspectos semânticos ou sintáticos que constituem essa categoria. Em Bechara (1999), encontra-se uma definição para verbo (“unidade de significado categorial que se caracteriza por um molde pelo qual organiza o falar seu significado lexical”3) que, talvez, ficaria mais clara se, com o auxílio de exemplos, houvesse a explicação do que se entende por um “significado categorial” e por um “significado lexical”. O gramático menciona a existência de verbos que possuem significado amplo e vago, considerando-os ou verbos de cópula ou verbos auxiliares que acompanham formas nominais de infinitivo, gerúndio ou particípio e formam com estes locuções verbais. Além disso, expõe as seguintes categorias que existem de acordo com o tipo de flexão dos verbos: regulares, irregulares, anômalos, defectivos e abundantes. Dar não aparece em qualquer consideração do autor quanto a verbo, o que faz com que o leitor, tendo em vista as definições de categorias tratadas nessa obra, considere-o como “irregular” quanto à flexão, somente como “verbo” em construções com dar + SN/SPrep (por exemplo: dar um lápis – entregar um lápis, dar origem – originar, dar medo – causar medo ou amedrontar, e dar em cima – paquerar) e como “auxiliar”, quanto à função, em estruturas do tipo dar de beber, dar para comprar. Apesar de o autor não ter exposto exemplos com o verbo dar ao demonstrar algumas aplicações dos verbos auxiliares, acredita-se que, em construções do tipo dar de beber, esse item verbal possa ser considerado um “auxiliar acurativo” que indica “início de futuro” e cuja característica é “determinar com mais rigor os aspectos do momento da ação verbal que não se acham bem definidos na visão geral de tempo presente, passado e futuro”4. Diferentemente, em expressões do tipo dar para comprar, dar seria classificado como “auxiliar modal” que indica possibilidade e cuja característica é “determinar com mais rigor o modo como se realiza ou se deixa de realizar a ação verbal”5.

2 As obras consultadas foram: as brasileiras Bechara (1999), Borba (1996), Cunha & Cintra (2001), Neves (2000) e Rocha Lima (1992); e a portuguesa Mateus et alii (2003).

3 Bechara (1999:129) 4 Ibidem, p. 231 5 Ibidem, p. 231

(32)

Quanto às características do verbo pertencente a um predicado nominal, Bechara (1999) menciona que esse signo léxico passa por esvaziamento semântico, esvaziamento que se cumpre com o auxílio de um nome (substantivo ou adjetivo). Além disso, esse tipo de predicado apresenta a particularidade de concordar o predicativo em gênero e número com o sujeito, como em: “as meninas são belas”. Comenta que o signo lingüístico que aparece na função de núcleo costuma ser um nome – substantivo ou adjetivo – e apresenta como exemplos apenas de estruturas com verbos de ligação. Apesar de adotar essa ótica, não aborda outras estruturas às quais se podem associar propriedades semelhantes – por exemplo, dar solução (solucionar), dar tiro (atirar) e dar saltos (saltar) –, que também poderiam ser vinculadas à definição dada, se, com base nesta, se levasse em conta que tais verbos também são semanticamente esvaziados, ainda que não completamente6, e que o nome adjacente é o centro semântico do predicador complexo (verbo-nominal).

Rocha Lima (1992:122) utiliza, inicialmente, o critério semântico para a definição de verbo: “expressa um fato, um acontecimento: o que se passa com os seres”. Comenta que é “a parte da oração mais rica em variações de forma ou acidentes gramaticais”; não fornece, contudo, exemplos para fundamentar essa explicação, o que pode deixar o leitor um tanto confuso ao analisar frases como, por exemplo, “Adoro sapatinhos”, em que é possível perceber a presença de mais acidentes gramaticais de forma no substantivo “sapatinhos”, devido ao acréscimo do sufixo “inho” e do morfema “s” do que no verbo “adorar”, composto apenas da desinência número-pessoal “o”. Ao continuar sua explicação, o autor comenta que o papel dos acidentes gramaticais é fazer com que o verbo exprima cinco idéias: modo, tempo, número, pessoa e voz.

Assim como em Bechara (1999), em Rocha Lima (1992) há explicações sobre predicado nominal, aquele cujo núcleo é um nome (substantivo, adjetivo ou pronome). Este gramático acrescenta a noção de predicado verbo-nominal ou misto: aquele que tem dois núcleos, um expresso por um verbo intransitivo ou transitivo e o outro indicado por um nome, chamado também de predicativo, como nos exemplos “O trem chegou atrasado” e “A Bahia elegeu Rui Barbosa senador”.

6 Machado Vieira (2004:93) esclarece que o verbo de ligação também não deve ser considerado totalmente esvaziado de significado, pois “contribui para a significação da estrutura perifrástica, uma vez que a permuta de um operador semi-gramatical por outro altera o significado da expressão, conforme mostram os exemplos (permanência, em SER, versus transitoriedade, em ESTAR, da propriedade atribuída; o caráter permansivo decorrente do uso de CONTINUAR; o matiz de hesitação/aparência (“modalização”) da predicação em virtude da opção por PARECER)”.

(33)

Rocha Lima (1992:250) rotula de “conglomerados” as construções formadas por verbo + objeto direto que “equivalem muitas vezes a verbos simples: ter medo a (= temer), ter amor a (= amar), fazer guerra a (= guerrear), pôr freio a (= refrear), etc”. Logo, apesar de considerar a existência de verbo transitivo ou intransitivo em um predicado verbo-nominal, e não apenas o verbo de ligação, não trata devidamente a existência de predicadores complexos formados por verbo + elemento nominal, em que este, apesar de não ser um predicativo do sujeito, partilha com o verbo a função de núcleo da predicação, como em “A menina deu telefonemas para a mãe” ou em “Todos têm medo da violência”.

O verbo é “uma palavra de forma variável que exprime o que se passa, isto é, um acontecimento representado no tempo”, de acordo com Cunha & Cintra (2001:379). Tal definição pauta-se no aspecto morfológico e, principalmente, no aspecto semântico. Nem sempre é possível generalizá-la para todos os casos de frase verbal, pois em orações do tipo “Eu sou brasileira”, não pode ser considerado algo “que se passa”, um “acontecimento representado no tempo”, mas apenas um estado. Os autores também recorrem ao aspecto sintático ao afirmar que o verbo possui “função obrigatória de predicado”7 e esclarecem que nem todo núcleo de predicado é verbo, pois adjetivos e substantivos também podem desempenhar essa função.

Ao tratar de predicação verbo-nominal, os autores, em geral, ignoram a função de núcleo do elemento nominal em construções perifrásticas cujos nomes não são predicativos do sujeito, mas auxiliam o verbo a selecionar argumentos (dar tiros, por exemplo). Por conseguinte, definem apenas três tipos de verbos quanto à função: (i) verbo principal – “um verbo de significação plena, nuclear de uma oração” 8, (ii) verbos de ligação – “servem (sic) para estabelecer a união entre duas palavras ou expressões de caráter nominal (...) um elo entre este (o sujeito) e o predicativo” 9, e (iii) verbo auxiliar – “desprovido total ou parcialmente da acepção própria, se junta a formas nominais de um verbo principal, constituindo com elas locuções que apresentam matizes significativos especiais.”10. Logo, o verbo dar nas construções do tipo dar socos teria de ser classificado como “verbo principal” e nas expressões do tipo dar de cantar ou dar para viver como “verbo auxiliar”. Neste caso, o fato de os autores não considerarem graus de auxiliaridade verbal conduziu à classificação de

7 Cunha & Cintra (2001:379) 8 Ibidem, p.387

9 Ibidem, p.133

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dar, em tais complexos, como verbo auxiliar (à semelhança do que ocorre com ter e haver em

estruturas de tempo composto) e não como verbo semi-auxiliar, com base em parâmetros abordados, por exemplo, por Machado Vieira (2004).

Neves (2000) denomina predicados11 as palavras da língua que designam propriedades ou relações. Afirma que o predicado “se aplica a certo número de termos que se referem à entidades, produzindo uma predicação que designa um estado de coisas, ou seja, uma codificação lingüística que o falante faz da situação”12. A autora afirma ainda que a estrutura da predicação pode transferir-se “também para o nível interno da oração, em torno de nomes que têm força predicativa, como, por exemplo, remessa, que constitui um predicado ao qual se podem aplicar, por sua vez, os termos Poder Executivo, texto e Congresso Nacional, como em remessa do texto ao Congressso Nacional pelo Poder Executivo.13

Ao afirmar que verbos, em geral, “constituem os predicados das orações”, a abordagem de Neves (2000:25) assemelha-se à de Cunha & Cintra (2001). Quanto à transitividade verbal, a autora destaca as seguintes classes principais de verbos: (i) verbos cujo objeto sofre mudança no seu estado; (ii) verbos cujo objeto não é um paciente afetado; (iii) verbos que possuem um complemento não-preposicionado (objeto direto) e um complemento preposicionado, (iv) verbos que têm complementos oracionais e (v) verbos-suporte. Considera os verbos-suporte “verbos de significado bastante esvaziado que formam, com seu complemento (objeto direto), um significado global, geralmente correspondente ao que tem um outro verbo na língua”14. Utiliza, em seus exemplos, as seguintes construções com dar: “dar um grito”, “dar um riso”, “dar um beijinho”, “dar um chute” e “dar uma investida”. Menciona que os verbos das construções com verbos-suporte podem funcionar como verbos plenos quando apresentam uma alta carga de significação e possuem como complemento um sintagma nominal referencial, como nos exemplos: “A molecada dava o grito de alerta (...)” (= emitir o grito), “Eu não lhe dera a cacetada pelas costas” e “(...) Matatu deu-lhe uma facada no peito”. Não se compreende muito bem o motivo pelo qual a autora considerou os dois últimos exemplos (dar a cacetada e dar uma facada) como “verbo pleno”. A autora não

11 O termo predicado usado pela autora (com acepção semelhante à de “predicador” apresentada neste estudo) tem significado distinto do normalmente usado por gramáticas normativas que explicam esse conceito afirmando que há três tipos básicos de predicados: verbal, nominal e verbo-nominal. Por exemplo, em Rocha Lima (1992:238): “o predicado verbal, que exprime um fato, um acontecimento, ou uma ação, tem por núcleo o verbo, acompanhado, ou não, de outros elementos.”.

12 Neves (2000:23) 13 Ibidem, p. 24 14 Ibidem, p. 53

(35)

demonstra a “alta carga de significação” desse verbo nos contextos apresentados. Diferentemente, acredita-se que, nessas construções, o verbo dar está esvaziado semanticamente (perdeu a noção primária de transferência de algo concreto), age sobre o elemento nominal, conferindo-lhe função predicante e com ele formando um todo significativo, ou seja, possui as características de verbo-suporte.

A autora também salienta a existência de “outros tipos de construções com verbo semanticamente esvaziado + objeto que podem manter relações de paráfrase com os verbos simples, mas que não constituem verbos-suporte por serem expressões fixas, cristalizadas”15, como: faz parte, faz idéia, faz questão, faz sucesso. Tal observação pode ser passível de questionamentos, visto que não são informados os critérios com base nos quais a autora se pautou para decidir se uma expressão é cristalizada ou não. Inclusive, a autora utiliza o exemplo “Eu também faço parte do fã-clube do Giovane.”16 para ilustrar uma construção com verbo-suporte que gera um significado não-idêntico ao da construção com verbo pleno (participar), ou seja, vale-se de uma mesma estrutura como exemplo ora de construção cristalizada, ora de construção com verbo-suporte. Por isso, talvez seja necessário rever a noção de expressão fixa e, conseqüentemente, a aplicação do conceito de verbo-suporte para tais estruturas. Neves (2002) já propõe um continuum de estruturas verbo + objeto cujos extremos seriam expressões cristalizadas, sem qualquer liberdade sintática entre seus constituintes e verbos plenos + nomes complementos, totalmente livres e com formação pouco previsível. As construções no entremeio desse continuum são as de verbo-suporte, que, segundo a autora, são compostas de um verbo com determinada natureza semântica básica e de um sintagma nominal que, além de configurar o sentido do todo, determina os papéis temáticos da predicação. No intuito de distinguir as construções com verbo-suporte das construções cristalizadas/lexicalizadas, a autora enfoca, por meio de testes, a possibilidade de substituição dos componentes da estrutura, da própria construção e a possibilidade de mobilidade do SN, entre outros fatores. No entanto, Basílio et alii (2003:146) concluem que esses testes servem, na verdade, para detectar o nível de coesão entre os elementos de uma expressão e que há certas construções “não completamente cristalizadas” que são menos flexíveis.

15 Neves (2002:54)

Referências

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