À luz da Constituição da República de Angola, aprovada em Fevereiro de 2010, verificamos uma violação ao nº 3 do artigo 36. al. a) que diz o seguinte:

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Texto

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Caso Prático Laura

À luz da Constituição da República de Angola, aprovada em Fevereiro de 2010, verificamos uma violação ao nº 3 do artigo 36.° al. a) que diz o seguinte:

Artigo 3.°

«Odireito à liberdade física e à segurança individual envolve ainda:

a) O direito de não ser sujeito a quaisquer formas de violência por entidades públicas ou privadas.»

Analisando a hipótese prática, constatamos o seguinte:

No nosso ordenamento jurídico, para que exista relação laboral, não é necessário a existência de um contrato escrito.

Diz o nº 1 do artigo 15º. Da Lei Geral Do Trabalho (Lei 7/15), Artigo 15.°

«1- A celebração do contrato de trabalho assume a forma que for estabelecida pelas partes, salvo se expressamente a lei determinar a forma

escrita.»

.... basta que a haja uma relação de direcção e autoridade, para que se possa presumir a existência do contrato, relaçãoessa estabelecida desde os 16 anos da Laura. Dito de outro modo, a relação foi constituída a partir do momento em que a entidade empregadora passou a receber a actividade desenvolvida pela Laura e esta em contrapartida a receber uma remuneração.

1 - Quais os crimes que as condutas narradas integram, no ordenamento jurídico do seu país?

As condutas narradas integram o crime de violação e de atentado ao pudor, previstos e puníveis nos nºs 391.° e 393.° ambos do Código Penal, bem como o crime de violência doméstica previsto no nº 1 do artigo 3º, classificando-se em violência sexual, violência psicológica, violência verbal e violência física, previstas pelas alíneas a), c), d) e e) do nº 2 do artigo 3º da Lei 25/11, de 14 Julho.

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2 – Pode reproduziro texto das normas em questão? Normas do Código Penal

Artigo 391.°

Todo o atentado contra o pudor de uma pessoa de um ou outro sexo, que for cometido com violência, quer seja para satisfazer paixões lascivas quer seja por outo qualquer motivo, será punido com prisão.

Artigo 393.°

Aquele que tiver cópula ilícita com qualquer mulher, contra sua vontade, por meio de violência física, de veemente intimidação, ou de qualquer forma, que não constitua sedução, ou achando-se a mulher privada do uso da razão, ou dos sentidos, comete o crime de violação, e terá a pena de prisão maior de dois anos.

Lei 25/11 – Lei Contra a Violência Doméstica Artigo 3º

Definição e tipos de violência doméstica

1 – Para efeitos da presente lei, entende-se por violência doméstica, toda a acção ou omissão que cause lesão ou deformação física e dano psicológico temporário ou permanente que atente contra a pessoa humana no âmbito das relações previstas no artigo anterior.

2 – Violência doméstica classifica-se em:

a) violência sexual – qualquer conduta que obrigue a presenciara, a manter ou participar de relação sexual por meio de violência, coacção, ameaça ou colocação da pessoa em situação de inconsciência ou de impossibilidade de resistir;

c) violência psicológica - qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição de auto-estima ou que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento psico-social;

d) violência verbal – toda a acção que envolva a utilização de impropérios, acompanhados ou não de gestos ofensivos, que tenha como finalidade

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humilhar e desconsiderar a vitima, configurando calúnia, difamação ou injúria;

e) violência física – toda a conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da pessoa;

3 - Quais as penas previstas para esse(s) crime(s)?

Para este crime o Código Penal prevê como pena as seguintes: - Crime de violação: pena de prisão maior de dois a oito anos; - Crime de atentado ao pudor: pena de prisão até 2 anos; - Para crime violência doméstica na vertente sexual e psicológica de 2 a 8 anos. Obs.: A primeira situação tem como agravante especial pelo facto de o criminoso ter autoridade sobre a lesada em virtude da relação laboral, nos termos do artigo 398.°nº 2 do Código Penal. Nesta mesma situação, entendemos não haver consentimento da ofendida. Estamos diante de um crime semipúblico cujo impulso processual depende da parte lesada, nos termos do artigo 399.º do Código Penal.

Artigo 398º (Agravação especial)

Artigo 399º.

Nos crimes previstos nos artigos antecedentes, não tem lugar o procedimento criminal sem

prévia denúncia do ofendido, ou de seus pais, avós, marido, irmão, tutores ou curadores.

Nota: O Código Penal em vigor na República de Angola é o Código Português de 1886.

Para os crimes de violência doméstica a pena é de 2 a 8 anos, se outra pena mais grave não lhe couber nos termos da legislação em vigor.

Importa referir que os crimes de violência doméstica são crimes públicos nos termos doa artigo 25.º da Lei 25/11 – Lei Contra a Violência Doméstica

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4 – Estão previstas algumas penas acessórias?

Não estão previstas penas acessórias, à luz do actual Código Penal, mas o Regulamento da Lei contra a Violência Doméstica prevê medidas de protecção.

Artigo 7º

(Medidas de Prevenção)

1 – A vítima não deve ficar a sós com o agressor enquanto espera atendimento ou acareação.

2 – A vítima não deve ser portadora de notificação policial ou similar para ser entregue ao agressor.

3 – Se necessário, o agente policial deve proibir o agressor de se aproximar da vítima a uma distância não inferior a 500 metros.

5 – Na primeira situação poderá entender-se que houve consentimento? Não, quer pelo Código Penal, quer pela Lei Contra a Violência Doméstica, as circunstâncias em que os crimes ocorreram afastam o entendimento de ter havido consentimento, incluindo na forma presumida. O consentimento tal como vem definido no projecto do Código Penal, embora ainda não tenha entrado em vigor, é causa de exclusão de ilicitude quando se refere a interesses jurídicos livremente disponíveis e o facto de não ofender os bons costumes e a dignidade da pessoa humana.Considera-se, nesta senda, que o consentimento pode ser expresso por qualquer meio que traduza vontade séria, livre e esclarecida do titular do interesse juridicamente protegido, e pode ser dado livremente. Ora, uma vez que Laura apresentou objecçãodirecta em relação ao primeiro agente (o gerente) e foi fraudulentamente usada pelo segundo agente (o recepcionista) também não se pode deduzir dos actos praticados por Laura estar-se perante um consentimento presumido, na medida em que só há consentimento presumido quando a situação em que o agente actua permitir razoavelmente supor que o titular do interesse juridicamente protegido teria eficazmente consentido juridicamente protegido teria eficazmente consentido no facto, se conhecesse as circunstâncias em que este é praticado.

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Nestas circunstâncias e tendo em conta a vigência do Código Penal com dois séculos de existência, aplicar-se-ia a Constituição da República de Angola (CRA), pela circunstância do caso concreto situar-se no campo dos direitos fundamentais e de acordo com o disposto no artigo 28º da CRA é a mesma de aplicação directa. Nesta conformidade e nos termos do disposto no artigo 26º também da Lei Mãe aplicar-se-ia o Direito Internacional sobre a matéria, a que Angola se encontra vinculada.

Constituição

Artigo 28º

Artigo 26º

6 – Se Laura não apresentar queixa contra o gerente e o recepcionista, pode mesmo assim ser dado início ao procedimento criminal?

Em relação ao Código Penal não é possível na medida que os crimes atrás referidos são crimes semi-públicos,no entanto relativamente à Lei Contra a Violência Doméstica são considerados crimes públicos e por esse facto qualquer pessoa poderá dar inicio ao processo crime.

7 – Onde pode dirigir-se a vitima para apresentar a denúncia?

A vítima pode dirigir-se a uma esquadra dapolícia, ao Serviços de Investigação Criminal (SIC) à Procuradoria Geral da República (PGR). jun 8 – Que estruturas de apoio existiriam para Laura?

De acordo com a Lei Contra a Violência Doméstica e tendo em conta o caso previsto na hipótese dada, Laura contraria com assistência social nas instâncias vocacionadas para o aconselhamento familiar e que se encontram a funcionar sob dependência de Organizações-não-Governamentais, sobretudo de natureza religiosa, organizaçãoes partidárias e estaduais sem prejuízo de poder contar com o acolhimento num espaço de abrigo, em caso de necessidade. Entenda-se os casos em que o agressor não se encontra sob o controlo das autoridades e a vítima correr grave perigo de vida ou existir fundado receio que sem a protecção a vitima é encontrada pelo agressor. Os centros de acolhimento são na maioria de entidades religiosas.

9 – Se tiver apresentado uma queixa e o Ministério Público não proferir uma acusação, que pode ela fazer?

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Se o prazo para deduzir a acusação pelo Ministério Público terminar, a Laura pode constituir-se assistente nos autos e pode prosseguir com a cusação particular.

10 – No âmbito do processo crime acima referido, o gerente e o recepcionista podem ser sujeitos a algum tipo de medidas coactivas, prévias à realização da audiência de julgamento?

De acordo com o Código Penal não, se a pena a aplicar for efectiva e sim, se a pena a aplicar for suspensa da sua execução por período não inferior a dois anos, nos termos do artigo 88º, 89º e 90º do Código Penal, todavia de acordo com a Lei Contra a Violência Doméstica sobre a matéria, prevê apoio ao agente do crime que se traduz no apoio psicológico e psiquiátrico bem como programas de recuperação.

Por seu turno, o Regulamento da Lei Contra a Violência Doméstica prevê também a suspensão, em caso de necessidade, de tratamento adequado com interrupção do prazo para procedimento criminal.

11 – Na afirmativa, que medidas podem ser aplicadas e por quem?

As medidas a aplicar são pena de prisão ou de multa de acordo com os artigos 88º, 89º e 90º do Código Penal

Artigo 88º

(Suspensão da pena. Pressupostos e fundamentação)

Em caso de condenação a pena de prisão, ou de multa, ou de prisão e multa, o juiz, tendo ponderado o grau de culpabilidade e comportamento moral delinquente e as circunstâncias da infracção, poderá declarar suspensa a execução da pena se o réu não tiver ainda sofrido condenação em pena de prisão. A sentença indicará os motivos da suspensão da pena.

§ 1º - O tempo de suspensão não será inferior a dois anos, nem superior a cinco, e contar-se desde a data da sentença em que tiver sido consignada.

§ 2ª – A suspensão pode ser subordinada ao cumprimento de obrigações similares às que acompanha a liberdade condicional

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Artigo 89º

(Pena suspensa. Caducidade da suspensão, sua revogação e alteração de condicionamento da condenação)

Se decorrer o tempo da suspensão sem que o réu tenha perpetrado outro crime da mesma natureza daquele por que foi condenado ou qualquer outro crime doloso pelo qual venha a ser condenado em pena privativa de liberdade, ou infringido as obrigações impostas, a sentença deverá considerar-se de nenhum efeito.

§ 1º - No caso de nova condenação, o juiz acumulará a primeira pena à segunda, sem que todavia se confundam na execução, nem se prejudiquem as regras estabelecidas para a aplicação da pena no caso de reincidência ou sucessão de crimes.

Artigo 90º

(Substituição da pena de suspensão dos direitos políticos)

Quando algum individuo que não tenha ou não exerça direitos políticos, cometer algum crime, se a pena decretada pela lei for a pena fixa de suspensão dos direitos políticos pelo tempo de quinze ou vinte anos, será substituída pela prisão. Se for a de suspensão temporária do exercício de todos ou de alguns desses direitos, será substituída pela prisão até um ano.

§ 2º- No caso de infracção das obrigações impostas, poderá o juiz revogar a suspensão, ordenando a execução da pena, alterar ou manter o condicionamento da condenação.

12 – Para crimes como os supra-descritos, a lei estabelece prazos máximos para averiguar os factos, ser proferida a acusação e ser realizado o julgamento?

A lei angolana em vigor não faz referência expressa aos prazos máximos para averiguação dos factos, para ser proferida a acusação e ser realizado o julgamento. Os procedimentos previstos na Lei Contra a Violência Doméstica e o seu Regulamento seguem a forma de processo sumário devido a celeridade que a lei impõe. A lei refere prazos e procedimentos muito curtos para atendimento ao queixoso ou denunciante.

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Todavia, há remissões que a Lei Contra a Violência Doméstica faz para o Código Penal e as disposições criminais neles constantes seguem a forma ou de polícia correcional ou de querela e, nestes casos, o procedimento criminal é muito longo.

13 – Na afirmativa, quais?

Para o crime de violação – 45 dias

Para o crime de atentado ao pudor – 30 dias

Nos termos do nº 1 alínea a) e b) do artigo 25º do Código do Processo penal. (transcrever o artigo)

14 – Se Laura pretender pedir uma indmenização ao gerente e ao recepcionista, em virtude dos factos acima narrados, pode fazê-lo no âmbito do processo crime?

Sim, a vítima pode deduzir pedido de indeminização ou no processo penal ou em separado em caso de condenação.

15 – Na negativa indique o que Laura deverá fazer? Fica prejudicado com a resposta anterior.

16 – Na afirmativa, indique porque danos pode Laura pedir indeminização?

Laura poderá pedir uma indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais.

17 – Tendo em consideração a jurisprudência do seu país, indique o montante aproximado da indeminização que Laura receberia?

Não há montantes fixos nem para máximos nem para mínimos. Depende do caso em concreto e do julgador na apreciação das circunstâncias e da situação económica das partes.

18 – Em média, quanto tempo transcorre entre a data do início e a data de decisão de um Tribunal de 1ª instância num processo crime idêntico ao acima descrito?

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Não há prazos fixos.

19 – Indique algumas especificidades da sua legislação nacional sobre esta matéria que entenda útil?

1 - A existência de um projecto de Código Penal e de Processo Penal que introduz os crimes os crimes contra a liberdade e autoderminação sexual e penaliza novas condutas não contempladas pelo actual sistema penal.

2 – No projecto do Código Penal estão previstas penas acessórias.

3 - Para além disso, é de referir as insuficiências do Regulamento da Lei Contra a Violência Doméstica que não abarca o âmbito da aplicação da Lei, nos termos da qual “aplica-se aos factos ocorridos no seio familiar ou outro que, por razões de proximidade, afecto, relações naturais e de educação...” O Regulamento está muito limitado às situações ocorridas no seio familiar ou similares.

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Referências

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