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A Representação de Maria nas publicações católicas do século XX

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Academic year: 2021

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Gênero e Religião – ST 24 Nadia Maria Guariza UFPR

Palavras-chave: Nossa Senhora, catolicismo, publicações.

A Representação de Maria nas publicações católicas do século XX

Muitos estudos1 que tratam da relação que a Igreja Católica manteve com o gênero feminino enfatizam o seu aspecto contraditório, pois se encontramos discursos que incentivavam a participação da mulher na instituição, por outro lado, o lugar atribuído a ela era secundário. Durante a história do catolicismo percebe-se entre a maior parte dos teólogos uma visão negativa do gênero feminino, entendendo-o como de natureza perversa e mais propensa ao pecado do que o gênero masculino. Sendo assim, era prescrito às mulheres permanecerem sob a tutela masculina.

Segundo Zaíra ARY2 esta visão católica sobre a mulher estava ancorada na mitologia do Jardim do Éden, na qual a mulher seria a responsável pela desobediência de Adão a Deus e, por isso culpabilizada pela queda da Humanidade. Portanto, Eva simbolizaria a fraqueza feminina e demonstraria a importância de manter as mulheres sob vigilância. Nesta percepção, as mulheres deveriam pagar as penas de Eva assumindo as dores do parto e o seu papel naturalmente secundário em relação ao homem.

O imaginário católico foi e é permeado por estas idéias provenientes deste mito fundador o que colocou as mulheres dentro da instituição em lugares determinados e em situação de submissão em relação à autoridade masculina.

Entretanto, Eva não é a única representação feminina no catolicismo, outras figuras são recorrentes, como Madalena e Maria. No caso de Madalena durante muito tempo a sua representação estava associada à pecadora arrependida, o que reforçava a idéia de que as mulheres eram mais propensas ao pecado. No caso de Maria encontramos a salvação do feminino colocando-a como co-participante da redenção da Humanidade.

A figura de Maria era entendida como que uma antítese a de Eva, não era por acaso que muitos se referiam a Maria como a Segunda Eva, ou seja, a renovação do elemento feminino na humanidade. Não obstante, a sua positividade como modelo feminino, Maria se configurava como uma exceção entre as suas pares. Maria foi concebida sem a mácula do Pecado Original e a sua maternidade assexuada também é outro elemento que a poupou do destino das

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outras mulheres. Neste sentido, Maria tornou-se um modelo inatingível às mulheres, ressaltando a inferioridade do gênero feminino.

Marina WARNER demonstra a ambigüidade que esta representação assumiu no ocidente cristão, pois se Maria adquiriu as dimensões de mito, apesar de ser mulher, a sua representação modelar reforçava a submissão e a inferioridade feminina3.

Para Marina WARNER, Nossa Senhora era uma figura polivalente que se apresentava com muitas aparências e se constituía em modelo feminino da Igreja, tornando-se, com o tempo, a personificação do ideal feminino católico. Por isso, no decorrer dos séculos esta representação sofreu mutações, adequando-se às novas circunstâncias impostas pela sociedade.

Não obstante a representação de Nossa Senhora ter sido apresentada pelos discursos religiosos como eterna e imutável, despojando-a de seu caráter histórico, podemos perceber as mudanças de significados e de interpretações no decorrer de sua existência. Da mesma forma podemos observar a mensagem dúbia que este modelo divulgava.

Se, por um lado, Maria era uma das poucas figuras femininas que assumiu as dimensões de mito no ocidente cristão, por outro, esta representação modelar reafirmava a submissão e a inferioridade feminina, por lembrar às fiéis que era impossível alcançá-la. De certa maneira, a representação de Nossa Senhora demonstrava, com propriedade, a relação que a Igreja Católica mantinha com as suas fiéis.

Na história do cristianismo as mulheres eram consideradas importantes por causa de seu poder de persuasão, mas ao mesmo tempo eram vistas como inferiores e deveriam ficar submetidas à tutela masculina. Neste sentido, a representação mariana foi utilizada como elemento estimulador da ação feminina, porém dentro dos parâmetros impostos pela Igreja Católica.

As publicações católicas no século XX de maneira entusiasta trataram deste mito materno que é Maria. Este artigo optou na análise de dois autores, um deles associado ao catolicismo conservador do início do século XX, o pe. Júlio Maria De Lombaerde (1878-1944) fervoroso seguidor de Nossa Senhora e autor de vários livros sobre Maria. Outro autor analisado é Leonardo de Boff (1938-) que estava ligado aos movimentos progressistas da Igreja Católica nos anos de 1960 a 1970. A idéia deste artigo é contrapor as idéias e as representações marianas destes dois autores que foram representantes de linhas diferentes do catolicismo brasileiro para compreender o papel divulgado por eles para as mulheres.

O pe. Júlio Maria De Lombaerde escreveu livros tratando de aspectos doutrinários sobre Nossa Senhora, defendendo o culto mariano das objeções protestantes, e os livros devocionais

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que procuravam divulgar Maria como modelo de simplicidade para incutir a moralidade católica nas fiéis.

Deve-se estar atento ao fato de que o pe. Júlio Maria estava falando de um lugar específico. O padre engrossava o coro ultramontano do período, procurando fortalecer a Igreja diante das mudanças modernizantes e reforçando a hierarquia entre clero e fiel, assim como a autoridade de Roma.

O ultramontanismo atribuía a responsabilidade pela devassidão da sociedade moderna a pouca fé e a desobediência da população às suas normas. Sendo assim, todas as orientações expressas por este movimento conservador eram justificadas e legitimadas pela idéia de salvação da sociedade.

No pensamento ultramontano, a figura feminina serviu como uma estratégia da Igreja para manter o seu poder social. Neste sentido, a representação feminina foi construída como o esteio moral do lar e para isso a representação de Nossa Senhora era modelar.

Nossa Senhora tornou-se modelo por excelência do ultramontanismo, sobretudo porque a mãe cristã foi valorizada no processo de reconquista da sociedade. Essa valorização materna se processou devido a teoria dos “círculos concêntricos”, que entendia que a Igreja chegaria pela mãe ao filho e ao marido, assim reconquistando a família e, por conseguinte, a sociedade4.

Neste contexto, a representação da mãe cristã era entendida como a de educadora moral. A mãe era responsável pela educação religiosa dos seus filhos explicando os dogmas, ensinando as orações e a moral cristã. Por isso, ela deveria ser preparada para exercer esta função tão importante para a Igreja Católica por meio das associações, dos livros, dos manuais e dos colégios femininos.

Nas palavras do padre eram perceptíveis os objetivos da Igreja Ultramontana em valorizar o papel materno para reconduzir os fiéis à igreja, nota-se que a feição esboçada para a mãe cristã compunha a de uma guardiã que deveria ser vigilante, repreendendo e até punindo o seu filho que poderia fraquejar diante das tentações da sociedade e se desviar do caminho correto do catolicismo.

Para ser guardiã da moral católica no lar, a mãe cristã também deveria zelar por seu comportamento e seu trajar e neste ponto, novamente, o padre apresentou Maria como exemplo... “Modesto e circunspecto era o seu porte, graves os seus passos e sem pretensões; o seu olhar era doce, firme e limpido e a sua voz afável e atenciosa (...). As suas palavras sempre comedidas, quanto a sua conversação era calma e nobre, excitando ao bem e à virtude”5.

Sendo assim, da mãe cristã se esperava o recato, a paciência, a amabilidade, a humildade, a mansidão. A mãe cristã deveria zelar para que seu esposo e filhos se mantivessem

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nos limites do catolicismo, porém sem sobressaltos ou agitações, pois se Maria conseguia irradiar o amor a Deus com sua candura que santificava os ambientes, as mães cristãs deveriam fazer o mesmo.

Em contrapartida, Leonardo BOFF em seu livro “O rosto materno de Deus: um ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas”6 mostra uma compreensão diferente do papel de Maria e das mulheres no catolicismo. Esta visão diferente é fruto do contexto, no qual Leonardo Boff se inseria por se tratar de um autor que viveu as transformações empreendidas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e, posteriormente as das Conferências de Medellín (1968) e Puebla (1972). Além disso, Boff se posicionou ativamente na defesa deste catolicismo progressista na América Latina, por intermédio da Teologia da Libertação.

A Teologia da Libertação, coerentemente com a proposta do Concílio Vaticano II, tinha como foco principal a libertação da população pobre de sua situação de opressão e miséria. A catequese foi preterida e substituída pelo movimento espontâneo da população. A figura do padre também sofreu modificações, do único portador da verdade para o facilitador no processo de construção da libertação nas comunidades.

O evangelho recebe uma interpretação com víeis marxista e as personagens como Jesus e Maria passam a ter uma conotação revolucionária. Nesta nova interpretação, as figuras de Jesus e Maria são retratadas em seu contexto de pobreza e simplicidade em Nazaré, procurando uma aproximação com a situação da maior parte da população latino-americana.

Neste sentido, nota-se que neste ponto há uma continuidade da representação de Maria histórica proposta por Júlio Maria e a de Leonardo Boff, pois Julio Maria opta por uma leitura de modéstia e de pobreza para Maria de Nazaré, não enfatizando a sua ascendência real como alguns autores do século XIX.

Por outro lado, para Boff a virgindade de Maria não é de fundamental importância, até porque na Palestina da época de Maria ser virgem seria algo humilhante para as mulheres. Boff procura entender a imagem de Maria em seu contexto próprio, sendo assim há uma dimensão histórica nesta representação. Além disso, o autor expõe que a leitura e o significado da figura de Maria assumem características diferentes nas sociedades no decorrer do tempo.

Portanto, o autor inicia o seu texto propondo uma leitura diferente sobre o feminino na Igreja e, em especial na figura de Maria. Sendo assim, algumas indagações são levantadas por Boff “Como o feminino que conhecemos se constitui em caminho de conhecimento de Deus? Como Deus mesmo pode ser compreendido e se apresenta concretizado sob traços femininos?”7

Para o autor os fatos misteriosos que se opera em Maria é um meio para que Deus revele o humano e o seu destino. E o fato de ter escolhido uma mulher para revelar esta nova

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humanidade que renasceria com a Redenção não é indiferente. Segundo Boff, “ Não é indiferente o fato de Maria ter sido uma mulher. Então a pergunta se especifica: que rosto Deus nos quer mostrar mediante o feminino? Como o feminino nos leva a Deus? Qual o sentido último do feminino para a salvação, para a humanidade e para Deus mesmo?”8

Leonardo Boff propõe uma releitura da mariologia, pois na tradição católica Maria nunca foi tratada como centro da missão salvítica, esta perspectiva pode contribuir para novas possibilidades na interpretação do culto mariano. Por que Deus escolheu vir por intermédio de uma mulher? A teologia deve buscar o sentido desta escolha.

Zaíra ARY9 aponta que o discurso católico sobre o masculino e o feminino após o Concílio Vaticano II assumiu uma conotação aparente de igualdade entre os gêneros, porém com o pressuposto da eliminação da diferença sexual. Sendo assim, em algumas passagens da Campanha da Fraternidade de 1990 percebe-se a afirmação recorrente de que Deus é composto pelo masculino e pelo feminino.

Não obstante, essa aparente igualdade entre os homens e as mulheres, a narrativa destes documentos da Campanha da Fraternidade esboçava uma representação de Deus que não possuía características femininas. Portanto, as mulheres para se tornarem imagem deste Deus teriam que se misturar de tal forma a figura masculina que provocaria a anulação de sua feminilidade.

Neste sentido, a imagem que Leonardo Boff expõe em seu livro de Deus com elementos femininos e masculinos poderia ser pensada inserida nesta contradição entre a igualdade entre os gêneros e a anulação do feminino para que isso ocorra.

... Na nossa meditação deverá ter ficado claro que o significado de Maria alcança para além de Maria, para além da mulher, atingindo o mistério do ser humano religioso da criação. ‘Maria, representante da criação inteira, representa simultaneamente o homem e a mulher’ (...) Ela se constitui um ideal humano e não apenas um ideal para a mulher10.

O feminino para Boff, não se encerra na maternidade física, mas no fato de Maria ter voluntariamente aceito participar da salvação da humanidade. Novamente Boff remete a uma idéia muito comum no catolicismo da maternidade espiritual de Maria, o que nos remete a ambigüidade deste autor que ora parece propor uma leitura diferente, ora retorna a tradição.

Segundo Ivete RIBEIRO11, ao se estudar o discurso católico temos que ficar atentos ao fato de que suas palavras estão ancoradas na tradição, pois a Igreja apesar de ser uma instituição histórica sujeita às mudanças, ela também está condicionada pelos parâmetros da Teologia.

Portanto, no decorrer do século XX podem-se encontrar significados diferentes à representação de Maria, contudo lembrando que o discurso católico sempre inova a partir da tradição. A teologia e a tradição dos padres não podem ser negadas por estes autores ligados à Igreja Católica, o que pode ocorrer é uma pequena liberdade criadora do escritor ao descrever

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esta figura secular do catolicismo. Neste sentido, tanto pe. Júlio Maria quanto Leonardo Boff cada um ao seu modo representam o catolicismo de sua época e, a partir disso criaram uma leitura diferente de Maria e do seu papel na Igreja.

1

BROWN, Peter. O corpo e sociedade: o homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. DUBY, Georges. O cavaleiro, a mulher e o padre. Lisboa: Dom Quixote, 1992. DUBY, Georges; PERROT, Michele. A história das mulheres: medieval. Porto: Afrontamentos, 1994. SALISBURY, Joyce.

Pais da Igreja, virgens independentes. São Paulo: Editora Página Aberta Ltda, 1995. 2

ARY, Zaíra. Masculino e feminino no Imaginário Católico: da Ação Católica à Teologia da Libertação. São Paulo: Annabluma, 2000. (Col. Diálogos). p.6.

3

WARNER, Marina. Alone all her Sex: the myth and the Virgin Mary. New York: Vintage Books, 1993. p. 335.

4

MANOEL, Ivan. Igreja e educação feminina (1859-1919): uma face do conservadorismo. São Paulo: UNESP, 1996. p. 49.

5

LOMBAERDE, Júlio Maria. Maria e a Eucharistia: estudo doutrinal de um título e de uma doutrina. Manhumirim: O Lutador, 1937. p. 405.

6

BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus: um ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1979. 7 BOFF, idem, p. 25. 8 Idem, p. 23. 9

ARY, Zaíra. op cit. p. 253-254.

10

BOFF, O rosto... p. 264-265.

11

RIBEIRO, Ivete. O amor dos cônjuges. IN: D’ INCAO, Maria Ângela (org.). Amor e família no Brasil. São Paulo: Contexto, 1989.

Referências

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