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Desafios clínicos no tratamentoda hepatite  C.

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Academic year: 2021

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MESTRADO INTEGRADO EM MEDICINA

Desafios clínicos no tratamento da hepatite C

Ana Marques Pinho

M

2018

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Ana Marques Pinho - Nº aluno: 201304610

Mestrado Integrado em Medicina – 6º ano Profissionalizante Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar

Universidade do Porto

Endereço eletrónico: [email protected]

DESAFIOS CLÍNICOS NO TRATAMENTO DA HEPATITE C

CASE-REPORT

Dissertação de Candidatura ao grau de Mestre em Medicina submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar

Orientador:

Professora Doutora Isabel Maria Teixeira Carvalho Pedroto Professora Catedrática Convidada do Mestrado Integrado em Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar/ Centro Hospitalar do Porto, Porto, Portugal

Assistente Graduada Sénior de Gastroenterologia- Centro Hospitalar do Porto

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DESAFIOS CLÍNICOS NO TRATAMENTO DA HEPATITE C

CASE-REPORT

Dissertação de Candidatura ao grau de Mestre em Medicina submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar

_________________________________

(

Isabel Maria Teixeira Carvalho Pedroto)

_________________________________

(

Ana Marques Pinho)

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Agradecimentos

Á Doutora Isabel Pedroto por toda a disponibilidade, ajuda e conselhos dados para a elaboração deste trabalho.

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RESUMO

O vírus da hepatite C (VHC) é uma causa importante de morbimortalidade hepática afetando cerca de 170 milhões de pessoas em todo o mundo.

A eficácia do tratamento do VHC aumentou nos últimos seis anos para quase 100% para muitos grupos de doentes. No entanto, os doentes com infeção pelo genótipo (GT) 3, e especificamente cirróticos ou com experiência terapêutica prévia, têm taxas de resposta virológica sustentada (RVS) mais baixas do que os doentes com outros GTs ou

naive. Como o GT 3 apresenta mais desafios clínicos do que outros GTs, esta revisão

foca-se na evolução e na eficácia das opções dos tratamentos antivirais de ação direta (AAD) para a infeção pelo VHC, GT 3.

Nesta dissertação é objetivo, a partir de um caso clínico de uma doente transplantada renal, com cirrose hepática descompensada por VHC, GT3, fazer uma revisão dos AAD disponíveis para a infeção por GT3 e para cirrose descompensada e discutir os desafios que se colocam na gestão e segurança clínicas. Serão ainda

discutidos o potencial de melhoria dos parâmetros bioquímicos e fibrose hepática após o tratamento, a escolha do timing para transplante e tratamento com AAD, a relação entre VHC e o transplante renal e seguimentos após a cura do VHC.

Palavras-chave: Hepatite C; Vírus da hepatite C; Antivirais de ação direta; Interações

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iii

ABSTRACT

The hepatitis C virus is an important cause of liver morbidity and mortality affecting about 170 million people worldwide.

The efficacy of hepatitis C virus treatment has increased in the past six years to almost 100% for many groups of patients. However, patients with genotype 3 infection, and specifically those who are cirrhotic or with prior therapeutic experience, have lower sustained viral response rates than patients with other genotypes or naive. As genotype 3 presents more clinical challenges than other genotypes, this review focuses on the evolution and efficacy of treatment options with the direct antiviral agents for HCV infection, genotype 3.

In this dissertation, a clinical case of a renal transplant patient with decompensated hepatic cirrhosis by hepatitis C virus, genotype 3, aims to review the available direct antiviral agents for genotype 3 infection and for decompensated cirrhosis and to discuss the challenges that arise in the management and clinical safety. The potential for improvement of biochemical parameters and hepatic fibrosis after treatment, choice of timing for transplantation and treatment with direct antiviral agents, the relationship between hepatitis C virus and renal transplantation and follow-up after hepatitis C virus cure will be also discussed.

Key-words: Hepatitis C infection; Hepatitis C virus; direct antiviral agents; Drug-to-drug

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iv

Abreviaturas

AAD- antivirais de ação direta

ADN- ácido desoxirribonucleico

ALT- alanina aminotransferase

APRI- AST to platelet ratio

ARN- ácido ribonucleico

AST- aspartato aminotransferase

CHC- carcinoma hepatocelular

EASL- associação europeia para o estudo do fígado

EPO- eritropoietina

GGT- gama glutamil transferase

GT- genótipo

HIV- vírus da imunodeficiência humana

IFN- interferão

MELD- model for end-stage liver disease

Peg-IFN- interferão peguilado

RVS- resposta virológica sustentada

VHC- vírus hepatite C

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Índice AGRADECIMENTOS ... I RESUMO ... II ABSTRACT ... III INTRODUÇÃO ... 1 CASO CLÍNICO ... 3 DISCUSSÃO ... 6 O Genótipo ... 6 Cirrose Descompensada ... 10 Os Fármacos ... 11

Os AAD e o Transplante hepático ... 13

O VHC e o Transplante Renal ... 15

A Morbimortalidade após o Tratamento com AAD ... 16

O Seguimento após a Cura ... 17

CONCLUSÃO ... 18

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Índice de tabelas

Tabela I- Evolução dos dados laboratoriais………...……5

Tabela II- Recomendações da EASL para o tratamento GT 3 em 2018………..13

Tabela III- Variáveis para o cálculo do score BE3A………....14

Índice de figuras Figura 1- Resultados da RVS12 no estudo VALENCE. ... 7

Figura 2- Resultados da RVS12 no ensaio ALLY-3 ... 7

Figura 3- Resultados da RVS12 no ensaio ASTRAL-3. ... 8

Figura 4- Resultados da RVS12 e RVS16 no ensaio SURVEYOR-II. ... 9

Figura 5- Resultados da RVS na vida real. ... 10

Figura 6- Interaction Report from www.hep-druginteractions.org, 27/12/2017 ... 11

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1

INTRODUÇÃO

O vírus da hepatite C primeiramente diagnosticado em 1989 é uma causa importante de morbimortalidade hepática afetando cerca de 170 milhões de pessoas em todo o mundo e constitui a indicação mais frequente para transplante hepático. O VHC é um vírus ARN (Ácido ribonucleico) de cadeia simples no sentido positivo, com aproximadamente 9,6 Kb de comprimento tendo aproximadamente 9600 nucleótidos e codifica cerca de 3000 aminoácidos 1,2. É um membro da família Flaviviridae classificado

no género Hepacivirus. São conhecidos sete genótipos do vírus, identificados em múltiplas áreas geográficas distintas que variam pelo menos 30% na sua região codificante, e mais de 67 subtipos. 1,3,4

A transmissão do VHC ocorre habitualmente através do contacto com sangue contaminado. Os principais grupos de risco para contrair o VHC incluem pessoas que nasceram entre 1950 e 1970, utilizadores de drogas intravenosas, filhos de mães com hepatite C (risco de transmissão vertical 4-8%), reclusos, doentes em hemodiálise, residentes em áreas endémicas e aqueles que receberam transfusões de sangue ou foram transplantados antes de 1992, data após a qual foi introduzido o rastreio da infeção por VHC. 3,5

O VHC causa tanto hepatite aguda como crónica. A infeção é frequentemente assintomática, sendo sintomática em apenas 20-30% dos casos. Dos infetados, cerca de 15-25% eliminam espontaneamente o vírus nos primeiros 6 meses. Ou seja, 75-85% dos infetados evoluem para hepatite crónica e destes, 20-30% evoluem para cirrose em duas décadas e para carcinoma hepatocelular (CHC) (1-4% ao ano). 3,6 A história natural da

hepatite C crónica é, no entanto, caracterizada por uma grande variabilidade na sua progressão dado o papel de vários cofatores como álcool, coinfecção com vírus da hepatite B e vírus da imunodeficiência humana (HIV) e síndrome metabólica na progressão fibrinogénica.

O risco de CHC em doentes infetados com o VHC é 15-20 vezes maior do que na população não infetada. Na Europa, Estados Unidos, Japão e América do Sul o VHC é a principal causa de CHC. 6,7 A erradicação do vírus, especialmente em estadios avançados

da doença, não garante a reversão total da lesão hepática. No entanto, estudos recentes sugerem que pode haver reversão parcial da fibrose hepática e redução dos episódios de descompensação hepática e do risco de desenvolvimento de CHC.

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No passado, as terapêuticas baseadas no interferão (IFN) curavam cerca de 50% dos doentes mas associavam-se a muitos efeitos secundários como a fadiga, cefaleias, febre, dores musculares, insónias, náuseas e depressão medular, condicionando não só a adesão ao tratamento como a seleção dos doentes pelas contraindicações para o mesmo.

5,8 O tratamento da hepatite C crónica com esquemas com interferão peguilado (Peg-IFN)

e ribavirina estava absolutamente contraindicado nos seguintes grupos: doentes com depressão não controlada, doentes com psicose ou epilepsia, mulheres grávidas ou casais não dispostos a aderir a contraceção adequada, doentes com comorbilidades graves como retinopatia e doença tiroideia autoimune e doença hepática descompensada. A utilização de Peg-IFN não estava também recomendada em doentes com uma contagem absoluta de neutrófilos <1500/mm3 e/ou uma contagem de plaquetas ≤90.000/mm3.9 Recentemente

foram desenvolvidos AAD os quais, tendo como alvo protéases virais, polimerase viral ou proteínas não estruturais, permitem alcançar taxas de cura superiores a 95%.5,8

Apesar do sucesso terapêutico dos novos fármacos ainda existem doentes difíceis de curar, nomeadamente os cirróticos descompensados e sobretudo os infetados com o GT 3. As interações medicamentosas são também muito relevantes no contexto da segurança clínica particularmente quando falamos de imunossupressores em doentes transplantados. Nestes, especialmente nos renais, a via de eliminação dos AAD condiciona a escolha terapêutica.

Atualmente, diagnosticar os infetados e a acessibilidade terapêutica constituem os grandes desafios, particularmente nos países em desenvolvimento. Estima-se que apenas 10% da população mundial infetada tenha acesso a estes novos agentes. 5,8

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CASO CLÍNICO

M.F.O.F, sexo feminino, 47 anos (10-07-1970), residente em Argoncilhe – Santa Maria da Feira.

Doente hipertensa, submetida a transplante renal em 19/02/1993 por insuficiência renal crónica de causa não esclarecida após 1 ano de dialise peritoneal seguida da realização de hemodialise após infeção do orifício durante 6 anos. No contexto da doença renal crónica realizou transfusões desde 1983 sendo o diagnóstico do VHC conhecido desde 1990 (1ª carga viral conhecida 8280000 UI/mL em 2009, GT3a). Após o transplante desenvolveu necrose tubular aguda e crise de rejeição do enxerto tendo sido tratada com corticosteroides. Teve um acidente vascular cerebral isquémico em 20/04/1993 com hemiparesia direita, sem sequelas. Em 2004 realizou novo transplante renal por falha do anterior, com função imediata e sem complicações. Acompanhada no Hospital de Santo António no serviço de nefrologia e medicada com tacrolimus, sicrolimus, losartan 50 mg, calcitrol 0,25 mg e ácido acetilsalicílico.

Em 2011 realizou pesquisa de infeção pelo vírus da hepatite B e vírus da imunodeficiência humana 1 e 2 negativo (antigénio HBs negativo, HBs positivo, anti-HBc negativo, anti-HIV 1 e 2 negativo).

Em 2014 realizou TC abdominal revelador de: “fígado de estrutura ligeiramente heterógena, sem nódulos hiperdensos sugestivos de CHC e uma pequena lâmina de líquido peri-hepática, subfrénica direita e no fundo de saco de Morrison. Rins nativos atróficos e com calcificações.” A endoscopia digestiva alta não apresentava sinais de hipertensão portal. Foi referenciada para a consulta de hepatologia por ascite e para avaliação de tratamento para o VHC em janeiro de 2015. Na altura, apresentava os seguintes exames laboratoriais: hemoglobina-13 gr/dl; plaquetas-121x103/µL; creatinina-1,2 mg/dL; albumina

3g/dl; alfa-feto proteína 355,7 g/L; aspartato aminotransferase (AST) - 203 U/L; alanina aminotransferase (ALT) - 65 U/L e gama glutamil transferase (GGT) de 326 U/L (tabela I). A ecografia abdominal já realizada no âmbito da consulta de hepatologia revelava: “Fígado com dimensões normais, ecoestrutura ligeiramente grosseira com ecogenicidade elevada, bordos rombos e proeminência do caudado sem imagens focais, sem ectasia das vias biliares intra e extra-hepáticas. Presença de líquido livre peri-hepático no bordo antero-superior do fígado e periesplénico sobretudo na sua face hilar bem como inter-ansas em grande quantidade. Sinais de doença hepática cronica descompensada com ascite de

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medio/grande volume em paciente com rins nativos de insuficiência renal crónica e rim transplantado na fossa ilíaca direita com ligeira hiperecogenicidade parenquimatosa muito sugestivo de fenómenos de nefrite cronica.” Realizou ainda elastografia hepática transitória (FibroScan ®)- F4 (75 kPa). Em fevereiro de 2015 foi proposta para tratamento com sofosbuvir e ribavirina. Na altura medicada com tacrolimus 1,5 mg, sirolimus 1mg, complexo B, furosemida 40mg e espironolactona 25mg, inicia tratamento a 20/03/2015 após consulta do site de liverpool para as possíveis interações medicamentosas - sem interações - com 800mg de ribavirina (pesava 50Kg). No início do tratamento apresentava hemoglobina de 10,8 g/dL. A viremia basal era de 164000 UI/mL e a creatinina de 1,53 mg/dL (clearance de 55 mL/min- Cockcroft-Gault Calculator).

A 14/04/2015 (4ª semana de tratamento) é reobservada na consulta: o ARN do VHC era quase indetetável na colheita realizada à 2ª semana de tratamento (36 UI/mL), apresentava ascite de médio volume, astenia e cefaleias ligeiras e uma hemoglobina de 7,8 gr/dL. Optou-se pela redução da ribavirina para 600mg e iniciou eritropoietina (EPO). Uma semana depois recorre ao serviço de urgência por gengivorragias e epistaxis e foi constatada nova queda da hemoglobina para 6,7 gr/dL. A carga viral era já nesta altura indetetável (4ª semana). A EPO foi ajustada para 10000 U duas vezes por semana após transfusão de 2 unidades de eritrócitos. Dados os efeitos adversos da ribavirina foi requisitada uma autorização especial para a utilização de daclatasvir. O tratamento com sofosbuvir e ribavirina foi suspenso em abril e a 19 de maio e inicia sofosbuvir e daclatasvir, durante 24 semanas, após exclusão de interações medicamentosas com tacrolimus, sirolimus, furosemida e espironolactona. Aquando do início deste tratamento apresentava hemoglobina de 9,1 gr/dL. Concluiu o tratamento a 02/11/2015 apenas com queixas de insónias associadas ao início do daclastavir, medicada com zolpidem com melhoria das mesmas. Apresentava no final do tratamento valores de ALT 27 U/L e AST 34 U/L, GGT 64 U/L e carga viral indetetável (<15 UI/mL). Doze semanas após o término mantem carga viral indetetável. Mantem-se desde então em programa de rastreio do CHC e de estadiamento da hipertensão portal.

Cerca de dezoito meses após a cura do VHC apresentava-se clinicamente compensada. A ecografia abdominal de 17/06/2017 é demonstrativa de: “ Fígado com proeminência ligeira do lobo hepático esquerdo, de contornos arredondados, apresentando ecoestrutura heterogénea, achados em relação com doença hepática crónica já conhecida. Sem evidentes lesões parenquimatosas focais. Rim transplantado com dimensões

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preservadas, espessura parenquimatosa no limite da normalidade e diminuição da diferenciação parenquimo-sinusal, a correlacionar com o estudo analítico. Sem hidronefrose. Ausência de derrame peritoneal.”

Três anos após o fim tratamento mantém resposta viral sustentada (RVS) com melhoria significativa da função hepática e a elastografia hepática transitória (FibroScan ®) de 7,3 kPa correspondente a um grau de fibrose F3.

Tabela I– Evolução dos dados laboratoriais

Carga viral (UI/mL) Hg (gr/dL) Cr (mg/dL) α-fetoproteín a (microg/L) AST/ALT/ GGT (U/L) FibroScan ® Plaquet as (103/µL) Albumina (mg/L) Bilittubi na total (mg/dL) 2009 828000 0 12,7 1,21 2,5 84//93/89 - 196 - 0,45 25/11/2014 - 13 1,2 355,7 203/65/326 F4 121 - 0,98 12/01/2015 - 10,3 1,15 - 136/33/151 130 3,03 1,03 20/03/2015 164000 10,8 1,53 345,1 217/74/155 F4 (75 kPa) 144 2,88 0,86

Inicio tratamento: Sofosbuvir + Ribavirina

10/04/2015 36 7,8 1,4 201,6 22/10/105 - 170 3,29 1,09

21/04/2015 <15 6,7 1,44 22/10/74 - 195 3,64 0,75

Suspende Sofosbuvir + Ribavirina; inicia Daclatasvir + Sofosbuvir

19/05/2015 <15 9,1 1,39 - 27/12/62 - 180 - 0,5 02/11/2015 <15 12,7 1,51 - 34/27/64 - 174 - 0,51 17/09/2017 <15 13,9 1,09 2,9 22/17/31 F3 (10,5 kPa) 134 4,17 0,42 27/02/2018 <15 13,7 1,05 3,0 26/24/31 F2-F3 (7,3 kPa) 153 4,24 0,33

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DISCUSSÃO

O caso apresentado é relevante dado constituir um desafio clínico pela presença de vários fatores que dificultam a escolha e a resposta ao tratamento: GT3, cirrose descompensada, transplante renal e interações medicamentosas.

O Genótipo

O GT 3 é o segundo genótipo mais frequente em todo o mundo sendo responsável por 30,1% das infeções pelo VHC logo a seguir ao GT 1 (46,2%). 3 Está associado,

principalmente, ao uso de drogas injetáveis e a um pior prognóstico: uma progressão mais rápida da fibrose, maior probabilidade de desenvolvimento de CHC, menos opções terapêuticas e uma menor resposta aos antivirais de ação direta. 10

Até 2011, com o uso de Peg-IFN e da ribavirina, o GT 3 era considerado um GT de fácil tratamento, com elevadas taxas de cura quando comparado com os outros GTs - RVS 30%-40% genótipo 1 e 70%-90% nos GTs 2 e 3. A maioria das falências terapêuticas acontecia em doentes cirróticos. Com o início da era dos AAD, um grande espectro de medicamentos foi aprovado para o tratamento do VHC, mas menos eficazes para o GT 3, sobretudo cirróticos. 11,12

Em 2015, altura em que a doente foi referenciada para a consulta de gastroenterologia, existiam 3 opções disponíveis para o tratamento do GT3:

1. Combinação de uma dose semanal de Peg-IFN, uma dose diária de ribavirina e uma dose diária de sofosbuvir durante 12 semanas cuja resposta viral sustentada (RVS) era de 83% em doentes cirróticos e não cirróticos; 9

2. Uma dose diária de ribavirina e uma dose diária de sofosbuvir durante 24 semanas. No entanto este tratamento era subótimo em doentes cirróticos com experiência terapêutica e em doentes que não conseguiram alcançar uma RVS após o tratamento anterior com sofosbuvir e ribavirina. No ensaio VALENCE (figura 1), as taxas de RVS foram de 95% em doentes não cirróticos naive ao tratamento, de 92% em doentes cirróticos naive ao tratamento, de 87% em doentes não cirróticos com experiência terapêutica e de 62% em doentes cirróticos com experiência terapêutica. No entanto, este estudo apresentava algumas limitações: o número de doentes incluídos era reduzido e os e a

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existência de fatores comprometedores de resposta à terapêutica, com especial atenção para a presença de cirrose.9

Figura 1- Resultados da RVS12 no estudo VALENCE.13

3. Os doentes sem cirrose podiam ser tratados sem IFN, com uma combinação de uma dose diária de sofosbuvir e daclatasvir durante 12 semanas com RVS de 97% mas as taxas de RVS desciam para 58% em doentes cirróticos no ensaio de fase III ALLY-3 (figura 2). 9

Figura 2- Resultados da RVS12 no ensaio ALLY-3 14

85% 94% 79% 95% 92% 87% 62% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% To d o s Nai v e Ex p eri m en ta do s Não c irró ti c o s n a iv e Cir ró ti c o s n a iv e Não c irró ti c o s ex pe ri m e nt ad os C irró ti c os e x p e ri m e n ta d o s

Estudo VALENCE: Sofosbuvir + Ribavirina em GT3

90% 85% 97% 58% 94% 69% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Nai v e E xpe ri m en tad os N ão ci rr ót ico na ive C ir rót ic o nai ve N ão ci rr ót ico exp er im en tad o C ir rót ic o ex pe ri m en tad o

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Dada a contraindicação para interferão, doente transplantada renal, restavam apenas duas opções terapêuticas 2 e a 3. Embora a opção 3 fosse subótima dada a presença de cirrose.

De facto, em 2015, as opções terapêuticas eram claramente reduzidas e a eficácia e segurança clínicas imprevisíveis na cirrose descompensada. Os estudos de vida real, na altura não disponíveis, vieram confirmar que este grupo de doentes é especialmente difícil de tratar.

Atualmente existem mais 3 opções terapêuticas pangenotípicas sem interferão: 1. Sofosbuvir (400 mg) em associação com velpatasvir (100 mg) durante 12

semanas (RVS 98% em doentes naive sem cirrose, 93% em dentes naive com cirrose compensada, 91% em doentes experimentados sem cirrose e 89% em doentes experimentados com cirrose compensada segundo o ensaio Astral 3 (figura 3);15

Figura 3- Resultados da RVS12 no ensaio ASTRAL-3.16

2. Glecaprevir (300 mg) em associação com pibrentasvir (120 mg). Os doentes naive sem cirrose devem ser tratados durante 8 semanas, doentes experimentados sem cirrose e naive com cirrose compensada (Child-Pugh A) devem ser tratados 12 semanas e os doentes com experimentados com cirrose

95% 98% 93% 91% 69% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% To d o s Não c irró ti c o n a iv e Cir ró ti c o n a iv e Não c irró ti c o e x p e ri m e n ta d o Cir ró ti c o e x p e ri m e n ta d o

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compensada devem ser tratados durante 16 semanas. (RVS de 91% em não cirróticos experimentados quando o tratamento é feito durante 12 semanas e 96% quando o tratamento é feito 16 semanas. RVS de 98% em cirróticos naive em tratamento durante 12 semanas e 96% em cirróticos experimentados em tratamento 16 semanas – figura 4); 15

Figura 4- Resultados da RVS12 e RVS16 no ensaio SURVEYOR-II.17

3. Sofosbuvir (400mg) em associação com velpatasvir (100 mg) e voxilaprevir (100 mg). Doentes cirróticos devem ser tratados com esta opção durante 12 semanas, apesar de apenas haver estudos com o uso destes fármacos durante 8 semanas, uma vez que, por se tratar de uma situação de difícil tratamento, é mais seguro (RVS 98% em doentes naive e experimentados cirróticos – estudo POLARIS-2 e 3). A combinação de sofosbuvir e velpatasvir não deve ser utilizada em doentes com cirrose compensada (Child-Pugh A) pois está associada a resultados subótimos. 15

91% 96% 98% 96% 86% 88% 90% 92% 94% 96% 98% 100% Não c irró ti c o e x p e ri m e n ta d o 1 2 S Não c irró ti c o e x p e ri m e n ta d o 1 6 S Cir ró ti c o n a iv e 1 2 S Cir ró ti c o e x p e ri m e n ta d o 1 6 S

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Cirrose Descompensada

Outro desafio terapêutico prende-se com a presença de cirrose descompensada, como acontece no caso clínico apresentado. Nestes doentes, o uso de inibidores da protéase está contraindicado uma vez que estão associados a altos níveis de toxicidade pelo atingimento de concentrações mais elevadas. Os inibidores da protéase também não devem ser utilizados em doentes com cirrose compensada e que tenham história de descompensações prévias ao tratamento.

Em 2015 os doentes com cirrose descompensada (Child-Pugh B ou C), GT3, a aguardar transplante hepático eram tratados pré-transplante com a combinação de sofosbuvir e daclatasvir com ribavirina durante 12 semanas, contudo, os dados eram ainda limitados em doentes com cirrose Child-Pugh C (>12 pontos) ou com um score de MELD – (Model for End-Stage Liver Disease) > 20. 9 Atualmente, é recomendado o uso de sofosbuvir

e velpatasvir 12 semanas em associação com ribavirina (iniciando com 600mg e ir ajustando a dose) (figura 5). Caso haja contraindicação ao uso da ribavirina devem ser tratados com sofosbuvir e velpatasvir durante 24 semanas 15

Figura 5- Resultados da RVS na vida real. 18

69% 14% 50% 89% 76% 83% 73% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Child-Pugh A Child-Pugh B

Estudos da vida real: Sofosbuvir/Daclatasvir com e sem Ribavirina em GT3 Child-Pugh A e B 12 Semanas 12 Semanas + RBV 24 semanas 24 semanas + RBV

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A doente foi então inicialmente tratada inicialmente com sofosbuvir e ribavirina dado o daclatasvir não ser ainda comparticipado em Portugal após consulta das possíveis interações medicamentosas (figura 6). Após o desenvolvimento de efeitos adversos ao uso de ribavirina – anemia – foi requisitada autorização e suspendeu o tratamento anterior, iniciando daclatasvir em associação com sofosbuvir.

Figura 6- Interaction Report from www.hep-druginteractions.org, 27/12/2017

Após o tratamento foi constatada uma melhoria clinica e laboratorial com normalização das transaminases (20/03/2015 AST 217 U/L e ALT 74 U/L para AST 26 U/L e ALT 24 U/L em 27/02/2018) e subida significativa dos níveis séricos da albumina (de 2,88 mg/L em 20/03/2015 para 4,24 mg/L em 27/02/2018) (tabela I). Acresce o facto de não ter sofrido nenhum episódio de descompensação hepática desde a cura do VHC. A doente apresentava uma pontuação inicial de 7 no score de Pugh, correspondente a Child-Pugh B, e terminou com um score de 5, Child-Child-Pugh A.

Os Fármacos

A ribavirina é um análogo sintético do nucleosídeo guanosina. Inibe seletivamente a síntese de ácido desoxirribonucleico (ADN), ARN e proteínas virais em células hospedeiras infetadas e melhora a resposta imune mediada por interleucina 2, fator de necrose tumoral alfa e Interferon-gama pelos linfócitos T CD4+ e linfócitos T CD8+. As principais interações medicamentosas são com outros antivirais como a zidovudina ou abacavir. O seu principal problema é o facto de ter inúmeros efeitos secundários que correm com muita frequência sendo os principais anemia, cefaleias, astenia, mialgias, dores articulares e náuseas. 9

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O sofosbuvir é um nucleosídeo inibidor da polimerase NS5B e atua, após ativação através de fosforilação hepática, incorporando a cadeia ARN viral em formação interrompendo-a. Uma vez que a sua eliminação é predominantemente renal (80%) não é recomendado em pacientes com clearance de creatinina inferior a 30 ml/min. As principais interações medicamentosas são com a amiodarona, originando uma baixa acentuada na frequência cardíaca. Uma vez que é um substrato do transportador P-gp pode sofrer alterações na biodisponibilidade se associado com indutores deste transportador: rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, fenobarbital e ritonavir. Os principais efeitos secundários são cansaço, náuseas, insónias, cefaleias, anemia, neutropenia, prurido e tonturas. Estes ocorrem com maior frequência quando associados com ribavirina. É ainda desaconselhado o uso de sofosbuvir em doentes com doença hepática avançada uma vez que aumenta ainda mais o risco já associado de desenvolver acidose láctica. 19,20

O daclatasvir é um inibidor da proteína NS5A e atua interrompendo a replicação e integração viral. A sua eliminação é predominantemente fecal (53%) e não necessita de ajuste da dose à função renal. As principais interações medicamentosas são com os indutores da CYP3A como a fenitoina, a carbamazepina e a rifampicina e os inibidores da mesma como a claritromicina, o quetaconazol e os inibidores dos canais de cálcio necessitando de uma redução da dose se uso concomitante. Os principais efeitos secundários, embora raramente reportados, são cefaleias, fadiga, náuseas e diarreia. 19,20

O velpatasvir é um inibidor da proteína NS5A. É comercializado com sofosbuvir e pode ser administrado em doentes não cirróticos e cirróticos não necessitando de ajuste da dose à função hepática. As principais interações medicamentosas são as já descritas para o sofosbuvir. Adicionalmente, o uso concomitante com os inibidores da bomba de protões é desaconselhado e terá que ser ajustado uma vez que o aumento do pH gástrico diminui a absorção do fármaco. Os principais efeitos secundários, embora raros, são cefaleias, fadiga, náuseas, nasofaringite e insónias.19,20

O glecaprevir é um inibidor da proteína não estrutural 3/4A e o pibrentasvir é um inibidor da NS5A. Estes fármacos são comercializados em conjunto. A principal via de eliminação é biliar. Esta associação é contraindicada em doentes Child-Pugh B e C e pode ser utilizada em doentes com insuficiência renal sem necessidade de dialise e em dialise. Os principias efeitos secundários são cefaleias e fadiga. É necessário algum cuidado com a co-administração de outros fármacos que utilizam o sistema CYP3A na presença de uma estreita margem terapêutica como é exemplo o tacrolimus. 15

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13

O voxilaprevir é um inibidor da proteína não estrutural 3/4. É comercializado com sofosbuvir e velpatasvir (anteriormente discutidos). O voxilaprevir é metabolizado pelo CYP3A4 e excretado maioritariamente por via biliar. A combinação sofosbuvir, velpatasvir e voxilapevir não é recomendada em doentes com Child-Pugh B e é contraindicada se Child-Pugh C. Pode ser utilizado em doentes com insuficiência renal sem necessidade de ajuste da dose. Os principais efeitos secundários são cefaleias e diarreia.

Assim as atuais recomendações da associação europeia para o estudo do fígado (EASL) para o tratamento dos cirróticos GT 3 são as apresentadas na tabela II.

Doentes Glecaprevir Pibrentasvir Sofosbuvir Velpatasvir Voxilaprevir Sofosbuvir Velpatasvir Ribavirina GT3 Naive Cirrose compensada

12 Semanas 12 Semanas Não recomendado

GT3

Experimentado Cirrose

compensada

16 Semanas 12 Semanas Não recomendado

GT 3 Cirrose

descompensada

Não recomendado Não recomendado 12 Semanas

Tabela II- Recomendações da EASL para o tratamento GT 3 em 2018.

Os AAD e o Transplante hepático

Recentemente, tem-se debatido o momento ideal para realizar o tratamento com AAD em doentes com indicação para transplante hepático, não existindo consenso sobre se é preferível tratar antes ou após o transplante.

A realização do tratamento antes do transplante tem dois objetivos: a prevenção da recorrência da infeção no enxerto e a melhoria da função hepática pré-transplante. 21 Esta

evolução conduz não só a um melhor prognóstico pós-transplante como a uma redução do número de doentes que efetivamente têm indicação para o mesmo. No entanto, se o paciente deixa de ser candidato a transplante continua em risco de desenvolvimento de cirrose descompensada, CHC e morte. Estes fatores têm ainda mais peso caso não seja

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14

possível a eliminação do vírus, algo que não acontece na maioria dos doentes.15 Mesmo

em doentes curados, particularmente os cirróticos descompensados, 40% desenvolve falência hepática e ainda necessita de transplante. 21 Ou seja, melhorar a função hepática

e reduzir o MELD, pode retirar o doente da lista de transplante (o chamado purgatório MELD) e assim atrasar o mesmo quando este vier a ser necessário.

Atualmente, segundo a Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL), doentes com MELD <18-20 devem ser tratados antes do transplante. Este deve ser iniciado rapidamente para que seja possível completar o tratamento, atingir RVS, melhorar a função hepática e assim selecionar doentes a retirar da lista de transplante. Doentes com MELD> 18-20 devem ser transplantados primeiro exceto se a espera prevista for superior a 6 meses. 15

A doente apresentava um score de MELD pré-tratamento de 12 (mortalidade estimada a 3 meses de 6%) tendo indicação para tratamento pré-transplante. Após o tratamento o MELD diminuiu para 7 (mortalidade estimada a 3 meses de 1,6%).

Um novo score foi desenvolvido, o BE3A, para identificar os doentes com maior probabilidade de reversibilidade de descompensação hepática. Este score pode ser calculado pela soma de 5 componentes (tabela III) que permitirão identificar os doentes que beneficiam do tratamento pré-transplante. 22

Tabela III- Variáveis para o cálculo do score BE3A.

Variável

Índice de massa corporal Encefalopatia

Ascite ALT Albumina

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15

Se calcularmos este score na nossa doente, pré-tratamento, o valor seria de 3 o que significa uma probabilidade de alcançar um estadio A na classe de Child-Pugh de 34,7% e uma probabilidade de morte ou necessidade de transplante de 7,4%.

Figura 7- Cálculo do score BE3A para o caso clínico apresentado.

O VHC e o Transplante Renal

A infeção pelo VHC é a principal causa de doença hepática nos transplantados renais, tendo sido também associada a importantes manifestações extra-hepáticas que contribuem para o aumento da morbilidade e mortalidade após o transplante renal. Estes doentes possuem um risco acrescido de nefropatia membranosa e glomerulonefrite membranoproliferativa. O VHC também foi associado a um risco aumentado de resistência à insulina e a diabetes mellitus. 23

Numa grande meta-análise, Fabrizi e col. mostraram um aumento significativo da mortalidade e da perda do enxerto entre os recetores infetados pelo VHC.23 Entretanto,

noutro estudo retrospetivo de 230 pacientes, Roth et al. mostraram que o transplante renal em pacientes infetados pelo VHC conferiu um benefício de sobrevida a longo prazo em comparação com a permanência na lista de espera. 24

No caso clínico apresentado, pelo facto de a doente ser retransplantada renal, o tratamento com interferão não era uma opção devido ao risco inaceitável de rejeição. Consequentemente o tratamento foi adiado até à chegada dos AAD, altura em que já se encontrava em fase cirrótica e com a sua primeira descompensação sob a forma de ascite.

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16

Apesar da excreção renal do sofosbuvir, a terapêutica de associação com o daclatasvir decorreu sem quaisquer eventos adversos, tendo sido realizada uma monitorização clínica e analítica multidisciplinar.

A Morbimortalidade após o Tratamento com AAD

Estudos recentes confirmam que a resolução da infeção por VHC permite a redução da incidência de episódios de descompensação hepática bem como de todas as causas relacionadas de mortalidade e a taxa de mortalidade. Esta redução está diretamente associada ao atingimento de RVS: mortalidade de 8.9% em doentes que atingiram RVS vs 26.0% em doentes que não atingiram RVS. 12

Verifica-se ainda a regressão da fibrose hepática após eliminação do vírus. Esta deve-se à inativação de células estreladas e consequente redução dos mediadores inflamatórios responsáveis pela apoptose dos miofibroblastos. A redução da inflamação, bem como a remodelação vascular, degradação da matriz extracelular e a repolarização dos hepatócitos leva à geração de novo parênquima hepático. A regressão da cirrose foi reportada em 61% dos doentes após 3 anos da eliminação viral. 12 Foi também reportada

no caso clinico apresentado verificando-se um grau de fibrose F4 (cirrose) antes do tratamento e F2-F3 no último FibroScan® realizado (tabela I).

A terapêutica com AAD está também associada à diminuição do risco de CHC. No entanto, o aumento do risco em relação à população em geral ainda persiste após 10 anos da irradicação viral. Vários fatores já foram identificados como preditores de risco sendo que um grau avançado de fibrose e parâmetros bioquímicos como a albumina sérica, ALT, GGT, a contagem de plaquetas, o APRI (AST to Platelet Ratio Index) antes e depois do tratamento alguns deles. A idade, as comorbilidades metabólicas como a diabetes, a inflamação hepática persistente, a α-fetoproteína bem como fatores virais (variantes de proteínas do core e GT3) também têm influencia embora alguns autores afirmem que de forma menos pronunciada. 8

No sentido de avaliar o papel dos AAD na incidência de CHC foi conduzido um estudo em 2016 em Itália cujo objetivo se prendia com a análise da incidência de CHC em doentes tratados com AAD e a interferência de vários outros fatores como genótipo e estadio da doença hepática. O estudo envolveu 3075 doentes dos quais 41 desenvolveram

(26)

17

CHC ao fim de 10 meses (1.64 por 100 pessoas-ano). A incidência variou com a ausência (0,23 por 100 pessoas-ano) ou presença (1,93 por 100 pessoas-ano) de cirrose e foi maior em doentes com Child-Pugh B do que com Child-Pugh A, porém, esta diferença não foi estatisticamente significativa. A incidência obtida foi comparada com a incidência na população não tratada da mesma região (2,8 por 100 pessoas-ano) concluindo-se que o tratamento reduz a incidência de CHC, contrariando um estudo publicado um ano antes que defendia o oposto. Além disso, as únicas variáveis estatisticamente associadas com o risco de desenvolver CHC, foram a contagem de plaquetas e o valor AST no início do tratamento, enquanto género, idade, genótipo e esquema de AAD utilizado não mostraram ter relação estatisticamente significativa. O estudo mostrou ainda que os doentes que atingiram RVS tiveram uma incidência de CHC muito inferior (1,55 por 100 pessoas-ano) às que não atingiram (8,38 por 100 pessoas-ano). 25

Assim, segundo alguns autores, o índice APRI é o melhor preditor de risco de CHC, uma vez que estima o grau de dano hepático. É calculado através da fórmula

𝐴𝑆𝑇

𝑙𝑖𝑚𝑖𝑡𝑒 𝑠𝑢𝑝𝑒𝑟𝑖𝑜𝑟 𝑑𝑜 𝑛𝑜𝑟𝑚𝑎𝑙 𝐴𝑆𝑇

𝐶𝑜𝑛𝑡𝑎𝑔𝑒𝑚 𝑑𝑒 𝑝𝑙𝑎𝑞𝑢𝑒𝑡𝑎𝑠 109 e o aumento de 1 ponto neste índice corresponde a um

aumento de 10% no risco de desenvolver CHC. 25

O Seguimento após a Cura

Nos doentes com fibrose leve ou moderada que atingem RVS, a infeção pode ser considerada curada e podem ter alta clínica. No entanto, os doentes com fibrose moderada (F2) e com fatores de risco para doença hepática como história de consumo de álcool excessivo, obesidade e DM2, devem ser avaliados periodicamente.

Os doentes com fibrose avançada, F3 e F4, devem manter o rastreio semestral de CHC com ecografia abdominal após a cura da infeção. Nos cirróticos (F4) acresce a vigilância endoscópica da hipertensão portal de acordo com Baveno VI. A cura não confere imunidade. Assim, perante um aumento das transaminases e sobretudo em populações com comportamentos de risco a probabilidade de reinfeção deve ser considerada uma vez que pode atingir os 10-15% nestes doentes. 8,15

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18

CONCLUSÃO

Este caso foi um desafio clínico dado o contexto da doente - cirrose hepática descompensada, GT 3 e transplantada renal - numa altura em que as alternativas terapêuticas eram ainda escassas. Por outro lado, apesar da disponibilidade atual de novos fármacos para o GT 3 e especialmente para os doentes renais, a eficácia terapêutica ainda não se assemelha à observada nos restantes genótipos. De facto, a infeção pelo GT 3, especialmente no cirrótico descompensado, ainda é difícil de curar. Com a disponibilidade dos AAD, que são seguros e eficazes nos doentes renais, as decisões importantes concentram-se agora em determinar a combinação mais segura e eficaz. O tratamento do paciente pós-transplante exige uma monitorização cuidadosa da função renal e dos níveis de imunossupressores para garantir a manutenção da imunossupressão adequada.

Decorridos três anos após a cura observa-se uma melhoria da função hepática sem episódios posteriores de descompensação e livre de CHC o que está de acordo com o descrito na literatura.

(28)

19

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Imagem

Figura 1- Resultados da RVS12 no estudo VALENCE. 13
Figura 3- Resultados da RVS12 no ensaio ASTRAL-3. 16
Figura 5- Resultados da RVS na vida real.  18
Figura 6- Interaction Report from www.hep-druginteractions.org, 27/12/2017
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Referências

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