H á u m século, W i l h e l m D i l t h e y , na Einleitung in die
Geisteswís-senschaften, dava início à tarefa de elaborar a Crítica da Razão Histórica.
Se a Crítica kantiana da R a z ã o P u r a realizava, aos olhos d e D i l t h e y , a missão de f u n d a m e n t a r g n o s e o l o g i c a m e n t e as m a t e m á t i c a s e as chamadas ciências da natureza (consideradas s e g u n d o o ideal n e w t o -niano), esta n o v a Crítica seria destinada a f u n d a m e n t a r as ciências d o espírito, as «moral sciences» a q u e se referira Stuart Mill, as «sciences morales» na t e r m i n o l o g i a francesa. E esse u m passo decisivo para c o n c e d e r d i g n i d a d e científica e i n d e p e n d ê n c i a gnoseológica a essas ciências d o espírito, h a b i t u a l m e n t e designadas, h o j e e m dia, p o r ciências h u m a n a s o u ciências d o h o m e m . E c o m D i l t h e y se fixa, c o m a distinção e n t r e ciências da natureza e ciências d o espírito, a c o r r e s p o n d e n t e diferença m e t o d o l ó g i c a : as ciências da natureza o p e r a m p o r explicação ou, mais r i g o r o s a m e n t e , p o r construção, ao passo q u e nas ciências d o espírito (a história, a psicologia, o direito, etc.) o m é t o d o seria o da compreensão. C o m p r e e n d e r (Verstehen) consistirá, para D i l t h e y , n o processo p e l o qual «conhecemos q u a l q u e r coisa d o psíquico c o m a a j u d a de sinais sensíveis q u e lhe são manifestação»1; q u a l q u e r coisa de interior, p o r t a n t o , é t e s t e m u n h a d a p o r sinais «percebidos d o e x t e r i o r pelos nossos sentidas». P r e o c u p a ç ã o c o m u m das ciências h u m a n a s seria a elaboração desses t e s t e m u n h o s . «A arte de c o m p r e e n d e r as manifestações vitais fixadas d e u m a m a n e i r a p e r d u r á v e l »2, de c o m p r e e n d e r os d o c u m e n t o s h u m a n o s , vai designá-la D i l t h e y p o r u m a palavra possuidora de u m a l o n g a t r a d i ç ã o —
herme-nêutica — a arte de i n t e r p r e t a r os d o c u m e n t o s h u m a n o s e m e s m o
1 Wilhelm DILTHEY, Die Ensteltuug der Hermeneutik in Gesammelte Schriften, V. Band, Göttingen 41964, p. 318.
2 Ibidem, p. 319.
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sagrados. Deste m o d o , acrescenta o nosso filósofo, «à análise da experiência interna acrescenta-se a análise da c o m p r e e n s ã o c ambas j u n t a s f o r n e c e m a p r o v a de q u e as ciências d o espírito são capazes, d e n t r o d e certos limites, de u m a validade universal, na m e d i d a e m q u e são d e t e r m i n a d a s pela m a n e i r a c o m o os factos psíquicos nos são p r i m i t i v a m e n t e d a d o s »3.
A distinção nítida e n t r e os m é t o d o s dos dois tipos de saber, o saber explicativo, baseado n o m e c a n i s m o causal, e o saber c o m p r e e n -sivo, a q u e preside u m a c o n e x ã o de t i p o teleológico, e o q u e d e t e r m i n a os seus m o d o s diferentes de f u n d a m e n t a ç ã o .
D i l t h e y aparece n o t e r m o de u m l o n g o d e s e n v o l v i m e n t o que r e m o n t a à época e m que surge a n o v a ciência da natureza. T r i u n -fante o carácter mecanicista desta na física, estende-se à c o m p r e e n s ã o d o b i o l ó g i c o e m geral, e x p u l s a n d o as noções tradicionais usadas nesse d o m í n i o e p e r m i t i n d o a constituição de u m a ciência rigorosa d o h o m e m ; mas, para o conseguir, h o u v e q u e r e d u z i r este ú l t i m o à p u r a d i m e n s ã o material. E este m é t o d o , tão eficaz n o estudo da esfera material, q u e p e r m i t e u m p r o g r e s s i v o d o m í n i o sobre a natureza e a coloca ao serviço d o h o m e m , é e x t r a p o l a d o para outras áreas: para a área d o psíquico, d o social e d o m o r a l .
O p r o b l e m a q u e sc a p r e s e n t o u aos espíritos da época foi o de e n c o n t r a i o f u n d a m e n t o desta n o v a ciência da natureza, constituída à m a r g e m e m e s m o c m oposição à filosofia tradicional, intrinseca-m e n t e intrinseca-mecanicista, e q u e l o n g e de constituir u intrinseca-m saber c o n t e intrinseca-m p l a t i v o , t o r n a v a , e m princípio, o h o m e m « d o m i n a d o r d o Universo». Este exercício e p i s t e m o l ó g i c o de f u n d a m e n t a ç ã o impôs-se à filosofia. Descartes, m a n t e n d o - s e ainda fiel à tradição aristotélica, considera a metafísica a ciência dos princípios da ciência, «exercendo u m a p r i o -ridade sobre t o d o s os o u t r o s saberes, t r a n s f o r m a n d o - o s e m r a m o s de u m t r o n c o c o m u m c salvaguardando, deste m o d o , a sua u n i d a d e »4. Assim — a f i r m a Descartes — «toda a filosofia é c o m o u m a árvore, cujas raízes são a metafísica, o t r o n c o é a física, e os r a m o s q u e saem desse t r o n c o todas as outras ciências»5. T e m o s deste m o d o a realização d e u m a síntese «entre u m a física de exigência m a t e r i a -lista e determinista, p e l o m e n o s e m princípio, e u m a metafísica que
3 Ibidem, p. 319.
4 G. GUSDORF, Introduction aux sciences limnaiues. Bssai critique sur leurs origines et leurs développemeuts, Paris, 1960, p. 80.
5 Carta a Picot servindo de prefácio à edição francesa dc «Les príncipes de la Philo-sopliie» ia DESCARTES, Oeuvres phihsophiques, t o m o III (1643-1650), edição de F. Alquié, P a r i s 1 9 7 3 , p p . 7 7 9 - 8 0 .
salvaguarda os direitos de u m a o n t o l o g i a espiritualista»6, e n t r e u m a o n t o l o g i a da substância pensante e «um m e c a n i s m o estrito, neces-sário para a substância extensa q u e c o m p õ e a natureza material. O s direitos p r i m o r d i a i s da metafísica e n c o n t r a m - s e salvaguardados, m a s a física vê-se d o t a d a de u m a certa a u t o n o m i a f u n c i o n a l »7. O c o r p o h u m a n o , explicado c o m o m a q u i n i s m o , l o g o extenso, nada t e m q u e ver c o m a res cooitans. o
A história c o m o disciplina científica n ã o se constitui ao t e m p o da n o v a ciência da natureza. M a n t é m - s e mais c o m o g é n e r o literário de c o m o saber o r g a n i z a d o . E u m d o m í n i o o n d e a i m a g i n a ç ã o , a fantasia, a m e m ó r i a , a a u t o r i d a d e são factores i m p o r t a n t e s e esses factores são segregados pela a t i t u d e intelectualista dos pensadores d o século xvii, p o r considerarem q u e p e r t u r b a m a pureza da f a c u l d a d e d o e n t e n d i m e n t o . A v e r d a d e é u n i c a m e n t e a t r i b u t o da ciência exacta. «O ser h u m a n o c o n c r e t o — escreve G u s d o r f — c o m seus pensa-m e n t o s inexactos, c o pensa-m suas contradições, releva de u pensa-m c o n h e c i pensa-m e n t o a p r o x i m a d o c a m b í g u o , de u m a técnica e de u m a m o r a l , mais d o q u e de u m a reflexão intelectual»8. As disciplinas históricas são conside-radas meras narrações d e factos que, u m a vez fixados, apenas se alteram p o r acrescentamento. Descartes assume b e m esta a t i t u d e q u a n d o n o Discurso do Método manifesta d e s d é m pela cultura antiga e e m La Recherchc de la Vérité, o b r a editada p o s t u m a m e n t e , a f i r m a q u e as línguas, a história, a geografia, d e p e n d e m essencialmente da experiência, n ã o se a d q u i r e m m e d i a n t e q u a l q u e r discurso, sendo, p o r isso, desvalorizadasl >. O p t o u Descartes p o r u m a c o n c e p ç ã o episte-m o l ó g i c a c episte-m q u e o t e episte-m p o r a l n ã o assuepiste-me r e l e v o (o q u e se e n c o n t r a patente na concepção d o t e m p o c o m o sucessão de instantes i n d e -pendentes uns dos outros, na d o u t r i n a da criação c o n t i n u a d a na da criação das verdades eternas). O ideal da inteligibilidade é a intuição, presença imediata e directa ao espírito. A história, q u e pressupõe u m t e m p o e m que o presente se articula i n t i m a m e n t e c o m o passado e prepara o f u t u r o , n u m a constante fluidez, aparece, deste m o d o > m a r -cada o n t o l o g i c a m e n t e c o m o deficiente.
Parece encontrar-se ausente o sentido histórico dos grandes espí-ritos d o século xvii. E necessário esperar p o r Leibniz para surgir
6 G . GUSDOKF, O. C., p. 9 5 .
7 Ibidem, p. 82.
B Ibidem, p. 190.
9 DESCARTES, Oeuvres philosophiques, t o m o II (1638-1642), edição de F. Alquié. Paris 1967, pp. 1111-12.
14 D I D A S K A L I A
u m a c o n c e p ç ã o e m q u e a v e r d a d e metafísica apresente condições de possibilidade à ciência positiva. E na o r d e m metafísica q u e se u n e o necessário e o c o n t i n g e n t e , o e t e r n o e o t e m p o r a l . Para o h o m e m , p a r e c e aleatória, c o n t i n g e n t e , a m a r c h a dos sucessos h u m a n o s ; c o n t u d o , para D e u s , c r i a d o r omnisciente d e toda a reali-dade, a o r d e m histórica é t ã o inteligível c o m o a o r d e m m a t e m á t i c a e assim desaparece a contingência histórica. A substância individual —• escreve Leibniz n o Discurso de Metafísica — possui, p o r essência, u m a n o ç ã o tão c o m p l e t a , q u e D e u s , p o r e x e m p l o , e m relação à n o ç ã o i n d i v i d u a l o u haecceitas d e A l e x a n d r e M a g n o , vê, simultanea-m e n t e , a razão d e t o d o s os seus atributos, de t o d o s os predicados q u e se lhe p o d e m atribuir. Saber este, n a t u r a l m e n t e , h a u r i d o a priori. Para D e u s n ã o há, p o r t a n t o , história; só para o h o m e m existe distinção e n t r e vérités de raison e véritês de fait. M a s existe para Leibniz u m a lógica oculta nas vérités de fait q u e «pode revelar-se pela consideração c o n j u n t a da análise infinitesimal e d o cálculo das probabilidades»1 0 e q u e as a p r o x i m a e 110 limite as r e d u z a vérités
de raison. Se, p o r u m lado, este sistema filosófico parece t o r n a r
possível a história, vai reduzi-la, m e t o d o l o g i c a m e n t e , às ciências da natureza, graças a u m d e t e r m i n i s m o q u e se p o d e r á adivinhar através das novas f o r m a s da análise m a t e m á t i c a .
*
* •
A o l o n g o da I d a d e M o d e r n a v ã o nascendo as ciências i n d i v i dualizadas. U m a s , d e carácter material, servidas p e l o m é t o d o m a t e -m á t i c o - e x p e r i -m e n t a l , ú n i c o q u e lhes é a d e q u a d o . O u t r a s , q u e -mais t a r d e D i l t h e y englobaria na r u b r i c a Geisteswissenschaften (história, psicologia, direito, a n t r o p o l o g i a e tantas mais), constituem-se lenta-m e n t e , c o lenta-m hesitações lenta-m e t o d o l ó g i c a s , t r a n s f e r i n d o para o seu p r ó p r i o c a m p o os processos m e t ó d i c o s d e investigação das ciências da natureza. Vico, Voltaire, M o n t e s q u i e u , a Escola Histórica suscitam p r o b l e m a s d e f u n d a m e n t a ç ã o . V ã o ser as disciplinas históricas, o p e n s a m e n t o histórico, as sciences morales, u m caso particular da razão física o u haverá necessidade d e lhes c o n c e d e r u m f u n d a m e n t o p r ó p r i o ? C o n s -t i -t u i r ã o u m a razão his-tórica?
O p o s i t i v i s m o francês e inglcs s e g u e m a p r i m e i r a via ( C o m t e , Stuart Mill, Spencer); aliados a o cientismo, decalcam as ciências históricas e culturais p e l o m é t o d o naturalista, t o r n a n d o - a s saberes estritamente positivos. A i n d a n o seu l i v r o «A crise das ciências e u r o -peias e a f e n o m e n o l o g i a transcendental», escrito e n t r e 1930 e 1938, l a m e n t a v a Husserl o i m p é r i o desse cientismo difuso, q u e explicava «a exclusividade c o m q u e o h o m e m m o d e r n o se d e i x o u d e t e r m i n a r , na segunda m e t a d e d o século x i x , pelas ciências positivas e pela ' p r o s p e r i t y ' delas derivada, o q u e significa u m a a b a n d o n o i n d i f e r e n t e das questões q u e são decisivas p a r a u m a autêntica h u m a n i d a d e »1 1. E p e r g u n t a v a : « Q u e t e m a ciência a dizer ao h o m e m c o m o sujeito de
liberdade? A n o v a ciência dos c o r p o s e v i d e n t e m e n t e q u e n a d a ; abstrai de t u d o o q u e é subjectivo» E c o n t i n u a v a n o m e s m o t e x t o : «A v e r d a d e objectiva, científica, é e x c l u s i v a m e n t e verificação d a q u i l o q u e o m u n d o de f a c t o é, t a n t o física c o m o c u l t u r a l m e n t e . M a s p o d e r ã o o m u n d o e a existência h u m a n a possuir e m si m e s m o s u m sentido, se as ciências só p e r m i t e m saber c o m o v e r d a d e i r o o q u e é, desta m a n e i r a , o b j e c t i v a m e n t e verificável?»1 2.
D i l t h e y irá i n a u g u r a r o s e g u n d o c a m i n h o , q u e passa pela razão histórica. C o m este p e n s a d o r , c o m o v i m o s atrás, as ciências d o h o m e m , n ã o apenas a história stricto sensu, m a s o direito, a teologia, as concepções d o m u n d o , a sociologia, a estética, r e c e b e m u m a f u n d a m e n t a ç ã o .
Este esquema d i l t h e y a n o da d u a l i d a d e ciências da n a t u r e z a c i ê n -cias d o espírito f o i recolhida p o r W i n d e l b a n d , sob a influência d o k a n t i s m o , da descoberta hegeliana d o espírito c o m o algo q u e se realiza n o t e m p o histórico e da reflexão d e Lotze sobre os valores. D i v i d e W i n d e l b a n d as ciências, s e g u n d o a estrutura interna, e m
nomotéticas (ciências naturais, orientadas para a investigação d e leis p o r g e n e
-ralização d e factos particulares) e ideográficas o u culturais, estas últimas individualizantes, q u e b u s c a m a f o r m a d o particular. R i c k e r t r e t o m a e a p r o f u n d a estas posições, c o n s i d e r a n d o q u e existe u m a oposição f o r m a l e n t r e ciência de generalização (as da natureza) e ciências i n d i v i d u a -lizantes (as da cultura). E n q u a n t o as primeiras se o c u p a m dos seus objectos, abstraindo leis gerais d e casos particulares, as últimas apli-cam-se ao particular. Esta busca d e objectividade, neste ú l t i m o caso, traduz-se n u m a reflexão transcendental sobre as estruturas f o r m a i s da
1 1 E . HUSSERL, Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale
Phäno-menologie, ed. por W . Biemel, Husserliana VI, Den Haag, 1954, p. 3.
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i n t e r p r e t a ç ã o histórica, concluindo-se pela impossibilidade, neste d o m í n i o , de u m a universalidade lógica, pois se aplica a u m c o n t e ú d o q u e é «a presença histórica da realidade h u m a n a concreta». As estruturas f o r m a i s , à m a n e i r a kantiana princípios de inteligibilidade, o b r i g a m o investigador a certas opções f u n d a m e n t a i s , q u e reflectem a sua p e r s o n a l i d a d e1 3. Posição esta a d e R i c k e r t , q u e fez época e influenciou, m e t o d o l o g i c a m e n t e , M a x W e b e r . O s seus «tipos ideais» (do capitalismo, d o socialismo, d o liberalismo, etc.) c o r r e s p o n d e m a u m a o b j e c t i v i d a d e relativa, a p a n á g i o das ciências h u m a n a s .
Apesar d o esforço d e construção destas ciências e da reflexão sobre as suas condições de possibilidade, L e ó n B r u n s c h w i c g ainda interpretaria os m o m e n t o s da filosofia ocidental exclusivamente pelos m o m e n t o s das m a t e m á t i c a s e da física, nada c o n c e d e n d o às ciências d o h o m e m . « D e u m p o n t o d e vista n i t i d a m e n t e espiritualista — escreve B r u n s c h w i c g — o espírito h u m a n o , desde o seu apa-r e c i m e n t o , desde q u e t o m a consciência, n o sabeapa-r científico, da sua potência criadora, reconhece-se l i b e r t o da o r d e m da m a t é r i a e da vida» u. D e u m m o d o geral, o m e t a f í s i c o t o m o u u m a atitude de agnosticismo e i n face das ciências h u m a n a s , c o n t i n u a n d o a assumir a p r i o r i d a d e o n t o l ó g i c a d o cogito cartesiano.
E , n ã o obstante, as ciências h u m a n a s p r o g r i d e m d e u m m o d o tão seguro, m u l t i p l i c a m - s e n u m r i t m o t ã o veloz, q u e p a r e c e m ameaçar os «domínios» e m q u e a filosofia era, ate então, rainha i n c o n -testada. C o m alegria de m u i t o s e p r e o c u p a ç ã o de alguns, a filosofia parecia esvaziar-se e m f a v o r da constelação das ciências d o h o m e m .
*
• *
D i l t h e y , n o sulco d e K a n t e p r e t e n d e n d o c o m p l e t á l o , a p r e -senta-nos, c o m o v i m o s , a divisão d o saber e m ciências da natureza, de c u n h o explicativo e c o n s t r u t i v o e as ciências d o h o m e m , ciências d o espírito, e m q u e d o m i n a a c o m p r e e n s ã o , n u m a d i c o t o m i a clara, e a d m i t i n d o a o l a d o da Crítica da Razão Pura, a Crítica da Razão
Histórica, reflexão transcendental sobre ase ondições d e possibilidade
das ciências h u m a n a s . D o m í n i o s diferentes, m e t o d o l o g i a s diferentes, f u n d a m e n t a ç õ e s diferentes. T e m o s assim u m a dualidade na crítica da R a z ã o . C o m o superar essa dualidade, essa d i c o t o m i a , u m a vez q u e
.. 1 3 . . G . GÜSDORF, O. C., p . 1 0 2 .
14 L. BRUNSCHWICG, Bulletin de la Sociélé Fratiçaise de Philosophie, 1928. Apud
o esforço da R a z ã o t e n d e p a r a a u n i d a d e , a R a z ã o é instância u n i f i c a d o r a ?
As tentativas diltheyanas nesse s e n t i d o são p o u c o claras e m u i t o f r a g m e n t á r i a s . E n c o n t r a r - s e - á essa u n i d a d e n a m e t a f í s i c a ? M a s a metafísica foi r e d u z i d a p o r D i l t h e y a W e l t a n s c h a u u n g pluralista e limita-se a ser u m a t e n t a t i v a d e e x p r i m i r , a n í v e l c o n c e p t u a l , o m i s t é r i o o u o e n i g m a da vida, vida e m q u e j á n o s e n c o n t r a m o s e d e q u e f a z e m o s parte. A l é m d o p l u r a l i s m o i n e r e n t e às W e l t a n s c h a u u n g e n , e n c o n t r a m s e estas ainda condicionadas pelas t r a n s f o r m a ç õ e s o c o r r i -das n o d e s e n v o l v i m e n t o dos h o r i z o n t e s culturais.
A situação agravase ainda. Se D i l t h e y , e m plena v i g ê n c i a p o s i -tivista, para salvar a a u t o n o m i a das ciências d o h o m e m p r e t e n d e u d a r l h e u m a f u n d a m e n t a ç ã o a u t ó n o m a e se, d e v i d o à sua m u l t i p l i c i -d a -d e e c o m p l e x i -d a -d e , elas se c o n s t i t u e m s e g u n -d o processos m e t ó -d i c o s variáveis, e m b o r a r a d i c a n d o na compreensão, é n o nosso t e m p o q u e surge u m a v i r a g e m n o d o m í n i o c i e n t í f i c o - h u m a n o : a constituição da actual ciência linguística, e m especial a fonologia, e q u e utiliza c o m o m é t o d o a análise estrutural, d e o r i g e m m a t e m á t i c a . R e s u m i d a m e n t e , dirseá da estrutura q u e , «dado u m c o n j u n t o , p o d e i n t r o duzirse sobre esse c o n j u n t o (mais p r e c i s a m e n t e , e n t r e os e l e m e n -tos desse c o n j u n t o ) u m c e r t o n ú m e r o d e relações definidas pelas suas p r o p r i e d a d e s f o r m a i s ( m e d i a n t e a x i o m a s a p r o p r i a d o s ) . D i z - s e então q u e se m u n i u esse c o n j u n t o d e u m a e s t r u t u r a d e d a d a espécie»1 5. A estrutura n ã o é o c o n j u n t o , n e m os e l e m e n t o s q u e dele f a z e m p a r t e , n e m as constelações q u e p o d e m f o r m a r esses elementos, m a s as relações definidas s o b r e esse c o n j u n t o ; os e l e m e n t o s , apenas se sabe q u e s e r v e m d e s u p o r t e a u m a d e t e r m i n a d a espécie d e e s t r u t u r a1 6. Esta ú l t i m a é u m a realidade p u r a m e n t e relacional, distinta d o dispositivo material, q u e l h e serve d e s u p o r t e1 7. « R e p r e -senta-se p o r m e i o da l i n g u a g e m das relações se f o r d e n a t u r e z a estática o u d e u m a l g o r i t m o se f o r d e n a t u r e z a d i n â m i c a »1 8. Seja c o m o f o r , é d e n a t u r e z a lógica e possui u m carácter c o n c r e t o desde q u e t e n h a u m s u p o r t e f o r m a d o p o r d e t e r m i n a d o s m a t e r i a i s r e u n i d o s d e certa m a n e i r a ; «pode, deste m o d o , o s u p o r t e ser u m a m á q u i n a , u m a célula viva o u u m i n d i v í d u o h u m a n o »1 9.
1 5 Jean LADBIÈRE, Vie sociale ei destinée, G e m b l o u x 1973, p. 162.
16 Ibidem, p. 162.
17 Ibidem, p. 164.
18 Ibidem, p. 164.
« Ibidem, p. 164. 2
18 DIDASKALIA
A análise estrutural t o r n o u - s e o cerne da linguística, disciplina de c u j o carácter h u m a n o n ã o é lícito d u v i d a r e estende-se a toda u m a série de ciências c o m o a a n t r o p o l o g i a , a sociologia, a psicologia, a ciência da literatura, a estética e m e s m o à p r ó p r i a história. C o m R o l a n d Barthes p o d e r e m o s a f i r m a r q u e «o o b j e c t o de q u a l q u e r actividade estruturalista, seja de carácter reflexivo o u poético, consiste e m reconstituir u m ' o b j e c t o ' de tal m o d o que, e m sua reconstrução, a p a r e ç a m as regras d o seu f u n c i o n a m e n t o »2 0. S e m e n t r a r e m p o r m e nores, aqui desnecessários, u m p o n t o há a considerar, de i m p o r -tância capital: a t e n d ê n c i a a transferir-se, para as restantes ciências d o h o m e m , o m o d e l o linguístico, m o d e l o esse explicativo. Isto significa q u e a explicação j á n ã o é u m m o d e l o p r ó p r i o das ciências da n a t u r e z a , transposto i n d e v i d a m e n t e para as ciências d o espírito. C o m o esclarece P a u l R i c o e u r , «hoje a explicação j á n ã o é u m conceito e x t r a í d o das ciências da n a t u r e z a e transferido para o u t r o d o m í n i o (...); saiu da p r ó p r i a esfera da l i n g u a g e m , p o r transferência analógica das p e q u e n a s u n i d a d e s da língua ( f o n e m a s e lexemas) para as grandes unidades posteriores à frase, tais c o m o narração, f o l k l o r e , m i t o , (...). Assim, a i n t e r p r e t a ç ã o ( m o d a l i d a d e da c o m p r e e n s ã o , acrescentamos nós) j á n ã o está c o n f r o n t a d a c o m u m m o d e l o exterior às ciências h u m a n a s ; estará e m discussão c o m u m m o d e l o de inteligibilidade q u e p e r t e n c e , de nascença se é possível dizê-lo, a o d o m í n i o das ciências h u m a n a s e a u m a ciência de p o n t a nesse d o m í n i o : a linguística»2 1. C o m isto a situação complica-se deveras: m u l t i p l i c i d a d e crescente das disciplinas h u m a n a s , m é t o d o s q u e n ã o e x c l u e m a explicação, ao a r r e p i o d o q u e D i l t h e y teorizara e q u e escapam, a p a r e n t e m e n t e , a t o d a a f u n d a m e n t a ç ã o filosófica; o saber encontra-se f r a g m e n t a d o n u m a c o m p l i c a ç ã o crescente. A i m a g e m d o h o m e m q u e r e v e l a m n ã o é d e m o l d e a deixar o filósofo t r a n q u i l o .
Q u a l o papel q u e a filosofia d e v e ser c h a m a d a a d e s e m p e n h a r nesta c o n j u n t u r a , e m q u e as ciências h u m a n a s p a r e c e m n ã o respeitar a instância filosófica e vir a instalar-se nos d o m í n i o s q u e até agora
2 0 R o l a n d BARTHES, Essais critiques, Paris 1964, p. 191, apud Jan M . BROEKMANN, El estruturalismo, trad. do alemão por C. Gancho, Barcelona 1974, p. 11.
2 1 P. RICOEUR, «Qu'est-ce q u ' u n texte? Expliquer et comprendre», in Hermeneutik und Dialektik, vol. II, Tübingen 1970, p. 193.
lhe t i n h a m sido exclusivos ? Seria a filosofia, r e a l m e n t e , u m a g r a n d e nebulosa q u e se f r a g m e n t o u , o r i g i n a n d o a p l u r a l i d a d e dos saberes particulares, seus h e r d e i r o s legítimos e e n t r e os quais sobressairiam as ciências d o h o m e m ? H o j e e m dia a filosofia só p o d e r i a considerar-se u m a sabedoria residual, a g u a r d a n d o q u e novas disciplinas científicas a v e n h a m g r a d u a l m e n t e d e s a g r e g a n d o ? A cibernética, a linguística, a psicanálise, m e s m o a a n t r o p o l o g i a n ã o são outras tantas f r e n t e s de ataque à subjectividade «que i n e g a v e l m e n t e constitui o c e n t r o da filosofia, p a r t i c u l a r m e n t e da filosofia reflexiva?»2 2 «A psicanálise i n t r o d u z n o â m b i t o científico u m 'es d e n k t ' , a linguística u m pensar e m terceira pessoa, e a p r ó p r i a cibernética r e f o r ç a t a m b é m , e m p a r t e , esse p e n s a m e n t o e m terceira pessoa, pois nela se realiza u m a ' o b j e c t i -vação' das operações d o p e n s a m e n t o , de c e r t o m o d o materializadas graças à construção d e m á q u i n a s cuja eficiência ultrapassa a d o psi-q u i s m o h u m a n o »2 3.
E de absoluta necessidade estabelecer as distinções q u e se d e v e m ter e m conta e n t r e a filosofia e as ciências h u m a n a s , n ã o só p o r a m o r da filosofia, m a s para garantir a cientificidade das p r ó p r i a s ciências. E v i d e n t e m e n t e q u e a filosofia n ã o vai garantir esse carácter científico d e n t r o de u m a perspectiva científica, q u e é d e o u t r a o r d e m , m a s r e c o n h e c e n d o - l h e esse valor, q u e a ultrapassa, vai de u m n o v o p o n t o de vista — o filosófico — a p o n t a r - l h e os limites d e validade, p a r a q u e n ã o p e r c a m a consciência desses limites, c o n v e n c e n d o - s e de q u e t o m a r a m o lugar da filosofia o u , o q u e t a m b é m é g r a v e , e R i c o e u r sublinha, «segregarem d e si u m a filosofia mais o u m e n o s disfarçada, mais ou m e n o s evidente, e q u e gozaria i n d e v i d a m e n t e d o prestígio da ciência»2 4.
A filosofia t e m q u e ser f o r ç o s a m e n t e crítica, e m s e n t i d o i d ê n t i c o a o k a n t i a n o ; s i m p l e s m e n t e a g o r a n ã o a p o n t a r á os limites a u m a razão pura, mas ao saber científico; 110 caso presente, às ciências h u m a n a s . Dizer crítica significa ainda dizer fundamentadora. E c e r t o que, c o m o j á observara Husserl, as concepções sistemáticas da filosofia, e n q u a n t o visões d o m u n d o e d o h o m e m , estão e m m u i t o s dos seus aspectos destinados s e m p r e «a passar ao m u s e u silencioso d a história». M a s e n q u a n t o f u n d a m e n t a d o r a d o saber, a filosofia n ã o cria o saber. O s saberes, na sua generalidade, são-nos dados pela experiência, pelas
2 2 J . - D . ROBERT, «Le sort de la philosophie à l'heure des sciences de l'homme», in Revue des sciences philosophiques et théologiques, 51(1967), p. 573.
23 Ibidem, p. 574.
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crenças, pela investigação científica. O p a p e l da filosofia é de os f u n d a m e n t a r racional e r a d i c a l m e n t e . N ã o altera o saber e m si m e s m o ; j u s t i f i c a - o , graças a u m a f u n d a m e n t a ç ã o peculiar e, p o r isso, p o d e r e d u z i r esses saberes aos seus l e g í t i m o s limites. N a t u -r a l m e n t e , q u e esta f u n d a m e n t a ç ã o «não v e m suplanta-r n e m duplica-r artificialmente a a u t o - f u n d a ç ã o p r ó p r i a d e u m a d a d a ciência e que, e v i d e n t e m e n t e , l h e p e r t e n c e »2 5 Esta reflexão sobre as condições de possibilidade n ã o interessa a o cientista c o m o tal ( n o nosso caso ao c u l t o r d e u m a ciência h u m a n a ) . A f u n d a m e n t a ç ã o é de o u t r a o r d e m , encontra-se e m p l a n o d i f e r e n t e d o p l a n o científico.
N ã o c u r e m o s d e i n d a g a r os c o n t e ú d o s d e u m a filosofia desta sorte. N a t u r a l m e n t e t r a d u z i r ã o o d i n a m i s m o d o p e n s a m e n t o q u e elabora essas condições d e possibilidade. F i x e m o - n o s de preferência na especificidade da f u n d a ç ã o das disciplinas científicas (humanas). Q u a l q u e r q u e seja o t i p o d e ciência a considerar, as suas características e o seu d e s e n v o l v i m e n t o , o c e r t o é q u e a a t i t u d e d o filósofo na f o r m u l a ç ã o e solução de p r o b l e m a s é f o r m a l m e n t e d i f e r e n t e da q u e o cientista assume a o p ô r questões e ao resolvê-las. As p r o b l e m á t i c a s e as soluções p r o p o s t a s situam-se e m planos diferentes e, p o r isso, e m m e u e n t e n d e r , d e v e m a filosofia e a ciência respeitar-se m u t u a m e n t e . M a s n a d a i m p e d e o cientista d e p ô r interrogações, e m seu p r ó p r i o n o m e , dirigidas a o filósofo e m e s m o de r e s p o n d e r a elas, mas, nesse caso, está-se j á m o v e n d o n o p l a n o da filosofia.
P o d e m o s considerar u m a p r i m e i r a reflexão sobre a ciência e m q u e é o especialista q u e analisa a natureza, os progressos, os p r o b l e m a s e p i s t e m o l ó g i c o s da disciplina q u e cultiva. Supera contradições, afina a sua u t e n s i l a g e m intelectual, abre n o v o s c a m i n h o s , n u m a palavra, r e n o v a a sua ciência. D a q u i p o d e avançar-se para u m n o v o p l a n o de f u n d a m e n t a ç ã o , a b a n d o n a n d o o t e r r e n o das disciplinas científicas p r o p r i a m e n t e ditas e a s c e n d e n d o a o p l a n o de u m a disciplina d e o r d e m s u p e r i o r , u m a epistemologia geral, ainda d e o r d e m positiva, q u e c o n t r i b u i , n a t u r a l m e n t e , p a r a o a p r o f u n d a m e n t o e avanço das disci-plinas científicas e ainda p r e p a r a o acesso a u m a o u t r a o r d e m de f u n d a m e n t a ç ã o — a JilosoJia das ciências p r o p r i a m e n t e dita. Casos h á e m q u e o cientista, graças a implicações de o r d e m metafísica evidenciadas nos resultados das suas pesquisas, acende a u m a n o v a filosofia geral. T e m o s c o m o e x e m p l o s Husserl e Jaspers, q u e c h e g a r a m
2 5 J . - D . ROBERT, l. c., p. 574, resumindo o pensamento de M . D u f f r e n e expresso no inquérito de Cahier de Philosophie, n.° 1, Paris 1966, pp. 5-15.
à metafísica, p a r t i n d o de u m a reflexão s o b r e as especialidades q u e professavam: a m a t e m á t i c a e a psiauiatria. F i n a l m e n t e , t e r e m o s u m a terceira o r d e m de f u n d a m e n t a ç ã o , afundamentação estritamente filosófica. Se a filosofia da ciência possuía c o m o n ú c l e o u m a reflexão crítica e m e t o d o l ó g i c a sobre a ciência, a g o r a transcende-se o nível a n t e r i o r de f u n d a m e n t a ç ã o : «trata-se de u m a pesquisa q u e se situa n o seio d e u m a intenção d e reflectir sobre tudo. T r a t a - s e d e saber o q u e é a ciência, a sua natureza como ser»26. C o m o t e r m i n a esta f u n d a ç ã o ? P o d e
ser c o n d u z i d a «até ao ú l t i m o dos f u n d a m e n t o s , até u m a final e
extrín-seca c o n d i ç ã o de possibilidade da ciência, q u e r seja sob a f o r m a d e
u m Geist, d e u m noésis noéseos, o u de u m Deus»27.
D i z e r q u e a filosofia f u n d a as ciências significa, aplicando o caso às ciências h u m a n a s , q u e a filosofia a p o n t a os limites a essas ciências, mas as conserva intactas c o m o tais, n ã o as altera e ainda m e n o s as destrói. Alterá-las o u destruí-las, só a o nível d o c a m p o científico estrito, c o m o f r u t o de m o d i f i c a ç õ e s epistemológicas e m e t o d o l ó g i c a s . Mas essa f u n d a ç ã o exige t a m b é m q u e as ciências d o h o m e m sejam consideradas vias de a p r o x i m a ç ã o a u m a realidade c u j a transfinita riqueza as ultrapassa, vias e n t r e si diferentes, e m b o r a c o m p l e m e n -tares. C a d a u m a delas v ê u m aspecto, t o m a u m a área c o m o c a m p o de investigação, apresenta u m resultado s e m p r e susceptível d e acres-c e n t a m e n t o , o q u e é sinal d e intrínseacres-ca finitude. E s t a m o s e m presença de u m resultado parcial o u , se p r e f e r i m o s , d e u m a v e r d a d e parcial. Seria p u r o e n g a n o , c o n t u d o , acreditar q u e a v e r d a d e total consistiria na justaposição d e verdades parciais. O h o m e m , d e q u e a filosofia q u e r conhecer o mistério, n ã o é u m m o s a i c o o u s o m a t ó r i o d e f r a g m e n -tos d o h o m e m q u e as ciências h u m a n a s alcançam. Estas ú l t i m a s c o n s i d e r a m o h o m e m c o m o u m o b j e c t o , susceptível d e ser analisado de p o n t o s d e vista diversos. E esgotarseá a sua realidade n a o b j e c t i -v i d a d e ? N a resposta a o i n q u é r i t o dos Cahiers de Philosophie d e 1956 acerca da necessidade da filosofia, J . - P . Sartre é b e m claro: «na
2 6 J.-D. ROBERT, «Approches méthodologiques des problèmes posés par la distinction et les rapports de droit entre disciplines scientifiques et disciplines philosophiques», in Sciences ecclésiastiques, 19(1967), p. 181.
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m e d i d a e m q u e a a n t r o p o l o g i a apresenta objectos (Sartre refere-se à a n t r o p o l o g i a científica), d e v e estudar a l g u m a coisa d o h o m e m q u e n ã o é o h o m e m total e que, d e certa m a n e i r a , é u m reflexo p u r a m e n t e o b j e c t i v o d o h o m e m (...), são as actividades h u m a n a s e n q u a n t o m e d i a d a s p o r u m m a t e r i a l r i g o r o s a m e n t e objectivo que as r e m e t e para a o b j e c t i v i d a d e »2 8. E f o r m u l a adiante a p e r g u n t a filo-sófica q u e se i m p õ e n o c o n f r o n t o c o m as ciências h u m a n a s : «como d e v e ser u m o b j e c t o para q u e se possa captar c o m o sujeito? E c o m o d e v e ser u m sujeito p a r a q u e o a p r e n d a m o s c o m o quase-objecto
(e, n o limite, c o m o objecto)»?
N ã o nos e n c o n t r a m o s , p o r é m , apenas c m presença de u m a m u l t i p l i c i d a d e crescente de ciências h u m a n a s ; h á t a m b é m u m p l u r a -l i s m o inevitáve-l, d e p e n d e n t e d o níve-l de f u n d a m e n t a ç ã o que a reflexão filosófica alcança e q u e se vai traduzir n u m a variedade de a n t r o p o l o g i a s filosóficas q u e t a m b é m é necessário situar u m a s e m relação às outras, s e g u n d o relações d e hierarquia e de c o m p l e m e n -taridade. H á , p o r isso, q u e p r o c u r a r u m d i á l o g o e n t r e estas variadas f o r m a s de disciplinas h u m a n a s e as múltiplas a n t r o p o l o g i a s filosóficas, o q u e p e r m i t i r á o r g a n i z a r u m a p l u r a l i d a d e d e f o r m a s convergentes a despeito da sua diversificação. E nisto q u e d e v e consistir, e m nosso e n t e n d e r , a interdisciplinaridade n o d o m í n i o das ciências d o h u m e m A realidade h u m a n a n ã o se esgota e m n e n h u m a ciência; q u a l q u e r delas t r a d u z apenas «uma aproximação» a essa realidade, a p r o x i m a -ções essas diferentes u m a s das outras Para t o r n a r possível esse trato dialógico e n t r e disciplinas científicas e disciplinas filosóficas respei-tantes a o h o m e m e seus p r o b l e m a s , há q u e utilizar, c o m o m e d i a d o r , u m «referencial» q u e se situe f o r a da pluralidade das ciências h u m a -n a s2 9. R e f e r e n c i a l transdisciplinar, q u e deverá possuir características b e m precisas. N ã o p o d e r á situarse o b v i a m e n t e n o p l a n o das m u n d i -vidências n e m das ideologias, n e m das religiões. Estas crescem j u n t a m e n t e c o m as ciências, d a n d o - s e p o r vezes, entre elas u m a simbiose. N ã o t e m sido a f i r m a d o q u e a filosofia ( c o m o m u n d i v i -dência) n ã o passa d o espírito d e u m a época elevado à d i g n i d a d e d o c o n c e i t o ? D e p o i s , n ã o se e n c o n t r a m as ciências vigentes ligadas a u m a g a n g a d e saberes j á ultrapassados, d e g r a d a d o s , p o r assim dizer, ao p l a n o i d e o l ó g i c o ? R o d e a d a s de crenças, usos e costumes,
2 8 Resposta ao inquérito dos Cahiers de Philosophie, n.° 2-3, Paris 1966, p. 3. 2 9 J . - D . ROBERT, «La phénoménologie c o m m e 'référentiel' c o m m u n des sciences de l ' h o m m e » , in Laval theologique et philosophique, 32(1976), p. 277.
q u e f a z e m p a r t e d o nosso q u o t i d i a n o ?3 0. O referencial necessário exige que sc ultrapasse a p l u r a l i d a d e dos c a m p o s e dos conceitos operacionais c, p o r isso, «não p o d e ir buscar-se às ideologias d o seu t e m p o e da sociedade e m q u e essas áreas científicas c r e s c e m3 1. E v i t a n d o o i d e o l ó g i c o c o m o e l e m e n t o filosófico a b a s t a r d a d o e p o n d o t a m b é m de l a d o o c a m p o o p e r a t ó r i o das ciências d o espírito, esse trato ideológico e n t r e estas e as disciplinas filosóficas só p o d e r á realizar-se n o c a m p o n e u t r o , s e r v i n d o de referencial c o m u m , q u e é a fenomenologia. C e r t a m e n t e q u e n ã o a f e n o m e n o l o g i a e n q u a n t o sistema de filosofia transcendental, mas c o m o m é t o d o de análise, de descrição, l i b e r t o de c o m p r o m i s s o c o m q u a l q u e r c o n s t r u ç ã o filosófica, seja a d e Husserl, a de M e r l e a u - P o n t y o u d e q u a l q u e r o u t r o . Apenas t o m a d a c o m o m é t o d o descritivo eidético, v i s a n d o o
eidos, a essência concreta i n e r e n t e a o f e n ó m e n o , c o n j u n t a m e n t e d a d o
c o m ele e a descobrir p o r d e s v e l a m e n t o n o seio d o f e n ó m e n o . Esta análise eidética irá estabelecer u m a c o r d o «doseado na p r ó p r i a natureza da pesquisa h u m a n a como tal, s u b m e t i d a a o p r o g r e s s o n o diálogo e através d o d i á l o g o »3 2. P e r m i t e esta f e n o m e n o l o g i a , h e r m e -nêutica c dialogai, evidenciar dados humanos autênticos, captar o d i á l o g o c o n s t r u t o r dos m u n d o s especificamente h u m a n o s : religiosos, artísticos, científicos, ideológicos, e t c .3 3.
N ã o é aqui o t ó p i c o e m q u e se possa explicar p o r m e n o r i z a d a -m e n t e os processos de evidenciação utilizados pela f e n o -m e n o l o g i a . Bastará a p o n t a r q u e essa busca d o eidos nos c o n d u z a u m p l a n o q u e se p o d e r i a designar, c o m v o c á b u l o de Husserl, o mundo da vida (Lebenswelt) e m que todos v i v e m o s , t a n t o o cientista q u e se p r e o c u p a e ocupa de u m m u n d o d e símbolos e de f o r m a s , c o m o o m e t a f í s i c o q u e busca sínteses interpretativas d o real. «A ciência, escreve M e r l e a u -- P o n t y , m a n i p u l a as coisas e r e n u n c i a a habitá--las». «O h o m e m , nas ciências h u m a n a s , é u m manipulandutm34. O r a o t e r r e n o da
f e n o m e n o l o g i a , t o m a d a neste sentido, p e r m i t e evidenciar o c o r d ã o umbilical q u e liga todas as ciências, todas as actividades, a este m u n d o da vida, m u n d o p r é p r e d i c a t i v o , précientífico e q u e lhe c o n -fere o a u t ê n t i c o s e n t i d o h u m a n o .
3 0 J . - D . ROBERT, «Les fonctions de la p h é n o m é n o l o g i e à l'égard des sciences d e l ' h o m m e et des anthropologies philosophiques» in Laval théologique et philosophique, 32(1976), p. 282.
" Ibidem, p. 283.
12 Ibidem, p. 286.
" Ibidem, p. 286.
24 D I D A S K A L I A
É este t e r r e n o d o m u n d o da vida q u e se apresenta c o m o charneira q u e e n t r e si articula a m u l t i p l i c i d a d e das disciplinas sobre o h o m e m , as c o n f r o n t a c o m as a n t r o p o l o g i a s filosóficas q u e t a m b é m d i v e r g e m e n t r e si, p o i s f o r a m constituídas a níveis diversos d e f u n d a m e n t a ç ã o e p o r isso v ã o ser c r i t i c a m e n t e c o o r d e n a d a s e hierarquizadas. T o d o o t r a b a l h o d e análise f e n o m e n o l ó g i c o - h e r m e n ê u t i c a , q u e incidiu sobre as diversas disciplinas h u m a n a s , visa t a m b é m essas antropologias. A interdisciplinaridade t r a d u z - s e j á , a u m nível inicial, na colaboração e n t r e diferentes sectores das ciências h u m a n a s : psicologia e psiquiatria, e t n o l o g i a e história c o m p a r a d a das religiões, exegese e sociologia; m a s t o d a s estas disciplinas r e m e t e m para u m a experiência vivida. A análise f e n o m e n o l ó g i c a , a g o r a , para a l é m das observações, expli-cações e estruturas q u e as diversas disciplinas d e s e n v o l v e m , vai incidir n o acréscimo de sentido, p a r a falar c o m RAcoeur, q u e graças à ideação, à r e d u ç ã o a o eidos, a experiência v i v i d a faz surgir e q u e se t r a d u z e m «certas estruturas o u c o n f i g u r a ç õ e s universais, e m b o r a concretas, d o h u m a n o n o seu d i á l o g o e n a sua relação existencial c o m o seu m u n d o »3 5 e «põe à l u z a historicidade inscrita n o coração d o h o m e m » . A «natureza h u m a n a » , se é lícito falar dessa m a n e i r a e m f e n o m e n o l o g i a , «é essencialmente e necessariamente 'situada'»; significa isto q u e , « e m b o r a a p r e s e n t a n d o certas estruturas transcen-dentais e universais, s e m p r e assinaláveis, é de m a n e i r a s e m p r e n o v a q u e a n a t u r e z a h u m a n a as realiza concretamente» 3 6. A tarefa q u e se i m p õ e será a d e analisar o estatuto o n t o l ó g i c o d o existente h u m a n o , tal c o m o se m a n i f e s t a n a existência efectiva e q u e se t o r n a possível p e l o e x a m e dos factos e m q u e essa existência se constitui, graças à c o l a b o r a ç ã o interdisciplinar d o c i e n t i s t a3 7. Esta f e n o m e n o l o g i a h e r m e n ê u t i c a , p o r sua vez, seria p a r t e o u m o m e n t o de u m estilo c o n c r e t o d e filosofar, p r e s i d i d o p o r u m a a m p l a filosofia d a l i n g u a g e m . D e facto, a l i n g u a g e m é a encarnação d o p e n s a m e n t o ( M e r l e a u -- P o n t y ) , é, s e m d ú v i d a n e n h u m a , d e p e n d e n t e d o q u e a palavra e x p r i m e ; m a s «a palavra é só palavra p o r a q u i l o q u e nela ascende à l i n g u a g e m e, r e c i p r o c a m e n t e , t a m b é m o q u e ascende à palavra n ã o é u m d a d o m u d o , m a s recebe n a palavra a d e t e r m i n a ç ã o d e si m e s m o »3 8. N e s t a filosofia da l i n g u a g e m trata-se da desocultação
3 5 J . - D . ROBERT, «Les fonctions de la p h é n o m é n o l o g i e à l'égard des sciences de l ' h o m m e et des anthropologies philosophiques», 1. c., p. 288.
36 Ibidem, p. 287.
3 7 A. DE WAELHENS, Existence et signification, Louvain 1959, p. 261. 3 8 H . - G . GADAMBR, Wahrheit und Methode, T ü b i n g e n 1965, p. 450.
das significações da experiência; «nela saberíamos dar c o n t a das disciplinas exegéticas e d e a r g u m e n t a ç ã o , d o sentido q u e t o m a c o r p o n u m inconsciente f r e u d i a n o e d o sentido q u e se materializa nas m á q u i n a s cibernéticas (...). Para p r e p a r a r esta filosofia — e d e n o v o citamos R i c o e u r — filosofia a m p l a , c o m p r e e n s i v a , articulada, será preciso c o m p r e e n d e r c o m o o h o m e m , a u m t e m p o , é capaz d o m i t o e da m a t e m á t i c a , da poesia e d a física, d o saber e da fabricação de r o b o t s »3 9. P o r o u t r a s palavras, o h o m e m d o filósofo, aquele q u e o filósofo busca, é o q u e j á está inscrito na psicologia, n a sociologia, na história e demais ciências h u m a n a s , q u e é i n t e r p e l a d o p e l o sagrado na filigrana dos textos escriturários, m a s repensado, reflexivamente, a p a r t i r da r e d u ç ã o ao m u n d o da vida, e q u e t a m b é m chega até nós pelos grandes textos filosóficos q u e há q u e c o n f r o n t a r h e r m e n e u t i c a m e n t e c o m os resultados das ciências h u m a n a s . Trata-se de e n c o n t r a r o h o m e m , a i m a g e m h u m a n a , « c o m o h o r i z o n t e e cifra d e t o d o s os saberes»4 0.
Mihi quaestio factus sum. Esta frase d o D o u t o r d e H i p o n a ,
d e s i g n a n d o a u m t e m p o o sujeito e o o b j e c t o d o p r o b l e m a h u m a n o , i m p õ e - s e ao cabo de m i l e q u i n h e n t o s anos, c o m a m e s m a p r e m ê n c i a , e m b o r a n u m a perspectiva a d a p t a d a aos t e m p o s e m q u e as ciências individualizadas acerca d o h o m e m se m u l t i p l i c a m , se c o m p l i c a m , se diversificam, p r e t e n d e n d o o c u p a r o l u g a r q u e p o r direito d e tradição c o m p e t e à filosofia. A questio processar-se-á a g o r a a o l o n g o d e u m a interdisciplinaridade das ciências h u m a n a s , d e q u e será i n s t r u m e n t o u m a filosofia h e r m e n ê u t i c a , e c u l m i n a r á n u m saber d e s o c u l t a d o r d e todas as significações d o m u n d o da cultura, e m exegese das obras o n d e a vida d o espírito se e n c o n t r a objectivada e n u m «sagrado d e q u e o sujeito n ã o p o d e dispor, s a g r a d o q u e interpela o h o m e m e nesse interpelar se anuncia c o m o o q u e dispõe da sua existência, p o r q u e a p õ e a b s o l u t a m e n t e , c o m o esforço e c o m o desejo d e ser»4 1.
A L E X A N D R E F R A D I Q U E M O R U J Ã O
3<> P. RICOEUR, «La philosophie à l'âge des sciences humaines», in Cahiers de philosophie, n.° 1, 1966, p. 99.
4 0 G . GUSDORF, o. c., p . 7 7 .