Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestrado em Arqueologia, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Catarina Tente e coorientaçãodo do técnico superior do Laboratório de Arqueociências da DGPC Carlos Pimenta.1
AGRADECIMENTOS
Para a realização desta dissertação de mestrado muitas pessoas contribuíram, às quais não posso deixar de dizer o meu muito obrigada.
A Zooarqueologia foi-me apresentada pela primeira vez do ponto de vista prático durante as escavações arqueológicas realizadas em São Gens (Celorico da Beira, Guarda). Isto tenho de agradecer à Sílvia Casimiro e à Prof. Dra. Catarina Tente, que vendo o meu interesse por esta área, me propôs realizar um estágio curricular no LARC, e que desde então e até à realização desta dissertação, como orientadora científica, se mostrou sempre prestável, portadora de bons conselhos, pronta a preparar e a construir bons investigadores.
Na impossibilidade de trabalhar com macrofaunas, tive o meu primeiro contacto com as microfaunas durante o estágio curricular realizado no LARC, no último ano da Licenciatura.
Neste contexto tenho de agradecer ao Carlos Pimenta, responsável pelo meu estágio e posteriormente meu coorientador, que desde este primeiro momento me recebeu sempre com grande simpatia, entusiasmo e paciência por me abrir as portas para o estudo das microfaunas, partilhando comigo algum do seu conhecimento, sem a sua orientação a realização desta dissertação não teria sido possível. Tenho ainda de agradecer ao LARC por me ter recebido em ambas as ocasiões com grande à vontade, permitindo a utilização dos equipamentos que tornaram possível o estudo do material aqui apresentado, bem como a todos os seus investigadores, que sempre me trataram de forma cordial ao longo do moroso período de estudo das microfaunas, e, de uma forma geral à DGPC.
Neste seguimento tenho de agradecer ao Prof. Dr. António Faustino de Carvalho, pela disponibilidade dos materiais ostelógicos correspondentes às microfaunas provenientes da Pena d´Água aqui estudados e pelo facto de se ter mostrado sempre disponível para me ajudar e esclarecer no que fosse necessário do ponto de vista arqueológico, como arqueólogo responsável pela escavação, e logístico durante a preparação das amostras para estudo.
À Dra. Liliana Póvoas, investigadora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, a quem foi inicialmente pedido para estudar este material, por me ter cedido, sem reservas, as amostras ainda por estudar, por me ter instruído nas práticas
laboratoriais necessárias para o tratamento deste tipo de amostras e por se ter mostrado disponível para me auxiliar sempre que necessário, do ponto de vista científico. Neste sentido tenho ainda de agradecer de um modo geral, ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência por me ter recebido, permitindo aí realizar uma parte significativa do meu trabalho que tornou possível a realização desta dissertação e, em particular, a todos os técnicos do Departamento de Mineralogia, Geologia e Paleontologia do Museu (Sr. João Paulo Lopes, Drs. César Lopes e Bruno Ribeiro) pelo bom acolhimento e por todo o apoio que me prestaram durante a preparação das amostras de sedimento, tendo-se mostrado tendo-sempre disponíveis a ajudar no que fostendo-se necessário e, claro, ao Wilamy Rita, também técnico do Museu, que me ajudou a realizar as primeiras lavagens de sedimento.
Tenho ainda de agradecer ao CSIC por me ter recebido nas suas instalações em Madrid e permitir a utilização dos equipamentos que tornaram possível a realização das fotografías dos restos odontológicos apresentadas na Sistemática desta dissertação, e neste contexto à Dra. Marta Moreno García e ao Carlos Pimenta pela ajuda e boleia.
Não esquecendo todo o trabalho que foi realizado antes de mim, tenho de agradecer a todos os investigadores que se dedicam a esta arqueociência e sobretudo àqueles cujo conhecimento contribuiu de algum modo para a realiazação desta dissertação, e ao LARC por todo o esforço e trabalho que tiveram ao criar aquela que é hoje uma coleção osteológoca de referência, que permite a muitos investigadores esclarecer as suas dúvidas.
Um obrigado ainda ao Pedro, por ter aturado com a sua paciência de santo os meus momentos de maior stress quando a escrita não saía a feição, por reler os meus textos e por me ouvir lê-los em voz alta vezes e vezes sem conta.
Por último, mas não menos importante – bem pelo contrário – tenho de agradecer aos meus pais, principais responsáveis pela realização deste trabalho, na medida que puserem à minha disposição desde sempre todos os meios financeiros necessários à minha educação e me deixaram sempre seguir com os meus sonhos e vontades, apoiando-me incondicionalmente nas minhas escolhas.
AS MICROFAUNAS DO ABRIGO DA PENA D´ÁGUA (TORRES NOVAS): PROPOSTA DE METODOLOGIA PARA O ESTUDO DE MICROFAUNAS EM
CONTEXTOS ARQUEOLÓGICOS
MARTINA SOFIA GONÇALVES MONTEIRO
RESUMO
PALAVRAS-CHAVE: Arqueologia; Neolítico Antigo; Ação Antrópica; Micromamíferos; Espécies comensais (Mus).
O Abrigo da Pena d'Água localiza-se na freguesia da Chancelaria, concelho de Torres Novas, distrito de Santarém. Trata-se de um abrigo sob rocha situado na base da escarpa conhecida na região por Arrife da Serra d'Aire.
As escavações realizadas entre 1992 e 1997 permitiram constatar a existência de ocupação humana no local durante todo o Neolítico e ocupações esporádicas desde o Epipaleolítico até à Época Moderna (Carvalho, 1998).
Na presente dissertação são alvo de estudo os restos osteológicos correspondentes aos micromamíferos recolhidos nos níveis de ocupação humana datadas do Epipaleolítico e Neolítico Antigo. Pretende-se, através da sua análise e a partir da metodologia de estudo aqui proposta, caracterizar a distribuição dos micromamíferos identificados na área envolvente do Abrigo da Pena d'Água, tendo em conta as alterações ambientais e ecológicas aqui ocorridas após a introdução da agricultura no início do Neolítico Antigo e compreender o seu significado paleoclimático. Foi possível constatar que a introdução da agricultura na área da Pena d´Água teve como consequência a introdução de novas espécies de roedores, nomeadamente Mus, e, a redistribuição de espécies de roedores já existentes, nomeadamente Microtus cabrerae, devido as alterações causadas por esta prática no meio natural.
ABSTRACT
KEYWORDS: Archaeology; Early Neolithic, Anthropic action; Small mammals; Commensal species (Mus).
The Pena d’Água rock-shelter is located in the village of Chancelaria, municipality of Torres Novas, district of Santarém. This archaeological site is situated on an escarpment known as Arrife da Serra d'Aire.
Between 1992 and 1997 were carried out archaeological excavation that showed evidence of occupation during the Neolithic and some sporadic occupations in the Epipaleolithic to the Early Modern Period (Carvalho, 1998).
This master dissertation is about the study of osteological remains of small mammals (micro-fauna) of the archaeological record of Epipaleolítico and Neolithic occupations.
The principal aim is to characterize the micro-fauna distribution in this levels and try to characterize and understand the ecological and environmental changes resulting from the introduction of agriculture in the early Neolithic.
ÍNDICE
LISTA DE ABREVIATURAS
0. NOTAS INTRODUTÓRIAS ……….… Pág. 1 0.1. OBJETIVOS ………..………..…...……… Pág. 5 0.2. ESTADO DA ARTE ………..………...…..………… Pág. 7
CAPÍTULO I: O ABRIGO DA PENA D´ÁGUA E O SEU CONTEXTO
1. O sítio arqueológico ………... Pág. 10 1.1. Contextualização geográfica ………...… Pag. 12 1.1.1. Implatação e exploração dos recursos animais ……… Pág. 12 1.1.2. O coberto vegetal e as práticas agrícolas ……….… Pág. 15 1.2. Contextualização arqueológica ………..…………. Pág. 19 1.2.1. Crono-estratigrafia ………..………. Pág. 19 1.3. Contextualização cultural: a Neolitização ……….. Pág. 23
CAPÍTULO II: AS AMOSTRAS E AS MICROFAUNAS
2. Amostras estudadas ………...….. Pág. 25 3. Metodologia de estudo ……….………….. Pág. 27 4. Taxonomia ………...……….. Pág. 36 4.1. Sistemática ………..…… Pág. 38 4.1.1. Micromamíferos ……….……….. Pág. 38 4.1.1.1. Ordem Soricomorpha ……….…………...… Pág. 38
4.1.1.2. Ordem Rodentia ………...……….… Pág. 42
CAPÍTULO III: DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5. Processos deposicionais – Agentes tafonómicos ………….…...….. Pág. 62
6. Processos pós-deposicionais ………...…... Pág. 64 6.1. Estado das amostras ………...………. Pág. 68
7. Distribuição espacial dos restos analisados ………..…. Pág. 70
8. Significado paleoecológico, paleoambiental e paleoclimático das espécies identificadas durante o Epipaleolítico e o Neolítico Antigo ………..…... Pág. 73
CONCLUSÃO ………...……… Pág. 78
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ………....……….…. Pág. 83
ANEXOS
LISTA DE ABREVIATURAS
LARC: Laboratório de Arqueociências
CSIC: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas RI: Restos Identificáveis
NI: Não Identificáveis
NMI: Número Mínimo de Indivíduos NRD: Número de Restos Determinados
NRDa: Número de Restos Determinados anatomicamente NRDt: Número de Restos Determinados taxonomicamente ND: Não Determinados
NTR: Número Total de Restos M1: Primeiro molar superior
M2: Segundo molar superior
M3: Terceiro molar superior
Pm4: Quarto pré-molar superior
M1: Primeiro molar inferior
M2: Segundo molar inferior
M3: Terceiro molar inferior
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0. NOTAS INTRODUTÓRIAS
O Abrigo da Pena d'Água (Torres Novas) é um sítio arqueológico de grande importância para o conhecimento do período Neolítico da Estremadura e do atual território português, na medida em que é o único contexto que preserva uma estratigrafia que apresenta uma sequência crono-cultural extensa e uma boa conservação dos restos materiais e orgânicos exumados (Carvalho, 1998). Constitui, assim, o único sítio arqueológico conhecido até ao momento em Portugal detentor de uma sequência estratigráfica contínua desde o Neolítico Antigo Cardial até ao Neolítico Final e, o único identificado na vertente Atlântica Ocidental que permitiu reconhecer indicadores indiretos da ocorrência de práticas agrícolas e pastoris durante o Neolítico Antigo (Carvalho 2003b e 2008, Póvoas, 1998; Figueiral, 1998; Valente, 1998). O sítio revelou ainda uma sequência sedimentar Holocénica com aspetos interessantes para o estudo da evolução das associações microfaunísticas, e sobretudo de micromamíferos, durante o período de transição entre o final do Epipaleolítico e o início do Neolítico Antigo (Póvoas, 1998).
É do ponto de vista zooarqueológico que esta dissertação se insere no estudo do sítio arqueológico do Abrigo da Pena d'Água, tendo como objeto os restos osteológicos microfaunísticos recuperados nos níveis estratigráficos correspondentes às ocupações do Epipaleolítico e do Neolítico Antigo.
A Zooarqueologia, surge como disciplina auxiliar da Arqueologia durante os anos 40 do século XX como consequência da aplicação de conceitos como “funcionalismo” e “contexto” à Arqueologia e beneficia do novo entendimento do comportamento humano que surge neste período, não apenas meramente artefatualista, mas sobretudo de compreensão da adaptação do Homem ao meio ambiente e animal, pondo em destaque o papel que os animais desempenharam nesta adaptação (Reitz & Wing, 1999). Mas é durante o surgimento da Nova Arqueologia que esta disciplina se desenvolve, assumindo um papel determinante na compreensão da formação de contextos faunísticos em sítios arqueológicos, adquirindo uma perspetiva sobretudo tafonómica (Reitz & Wing, 1999). Neste contexto surgem dois conceitos com objetivos distintos no estudo de faunas provenientes de contextos arqueológicos: a Zooarqueologia, que se dedica ao estudo de restos osteológicos animais de proveniência
2 arqueológica no sentido de reter informação de tipo antropológico (comportamento do Homem) e a Arqueozoologia, que dá prioridade à componente biológica dos restos osteológicos com a finalidade de estudar a evolução das espécies representadas através dos elementos osteológicos fósseis (Reitz & Wing, 1999). Neste sentido ao longo desta dissertação optamos pelo termo Zooarqueologia.
A Zooarqueologia como área de investigação que se dedica ao estudo dos restos osteológicos de origem animal provenientes de contextos arqueológicos (Moreno-García et al, 2003), aborda diferentes tipos e dimensões de restos faunísticos, para o trabalho em questão, tratando-se de um estudo microfaunístico, são apenas abordados os restos faunísticos de menores dimensões, denominados de microfaunas.
Embora esta dissertação se dedique à criação de uma metodologia de estudo de restos osteológicos de microfaunas provenientes de contextos arqueológicos, importa clarificar que apenas foram alvo de estudo os restos odontológicos, mandíbulas e maxilares com dentes inclusos, por serem aqueles que se encontram em maior abundância nas amostras estudadas e por constituírem restos diagnósticos a nível taxonómico, de espécies de micromamíferos e dentro deste grupo as correspondentes às Ordens Rodentia (roedores) e Soricomorpha (insectívoros), por serem as únicas que se encontravam representadas nas amostras analisadas.
Todavia, estas duas Ordens de micromamíferos integram um conjunto de espécies, que pelas suas características adaptativas a diferentes biótopos e habitats, nos permitem reconhecer eventuais alterações ambientais registadas ao longo da sequência cronológica aqui estudada, tivessem sido elas de origem natural ou provocadas pela ação antrópica devido ao desenvolvimento da agricultura e da pastorícia na área em redor do abrigo.
Após esta nota há a necessidade de esclarecer algumas noções básicas dos grupos abordados, nomeadamente microvertebrados e micromamíferos.
O grupo dos microvertebrados engloba todos os animais vertebrados de menores dimensões. Estes distribuem-se pelas Classes: Amphibia (anfíbios), que compreende as Ordens Anura (sapos e rãs) e Caudata (salamandras e tritões) (Ferrand de Almeida, 2001); Reptilia (répteis), que, neste contexto, incluí as espécies de menor dimensão distribuídas pela Ordem Squamata – Famílias Emydidade e Bataguridae (cágados), Amphisbaenidae (cobra-cega), Gekkonidade (osgas), Lacertidae (lagartos e lagartixas),
3 Anguidae (licranço ou cobra-de-vidro), Chamaleonidae (camaleão), Scincidadae (cobras-de-pernas) e Colubridae (serpentes) (Barbadillho, 1999); Aves, considerando as aves pertencentes às espécies de menores dimensões que, no essencial estão concentradas na Ordem Passeriformes (excluindo algumas espécies de corvídeos); e Mammalia, representada pelas espécies que integram os Mamíferos de menores dimensões denominados de micromamíferos, que incluem as Ordens Soricomorpha (insectívoros) (Gállego & López, 1982), Chiroptera (morcegos) (Sevilha, 1986), Rodentia (roedores) (Mitchell-Jones et al 1999; Gállego & Alamany, 1985) e algumas espécies pertencentes à Ordem Carnívora, tais como pequenos Mustelídeos (doninha e arminho).
Embora o termo "micromamíferos" não possua valor taxonómico, este é amplamente utilizado na literatura científica deste tipo para mencionar os Mamíferos pretendentes às Ordens, Famílias e Géneros em que a maioria das espécies possui uma dimensão reduzida. Esta denominação geralmente inclui insectívoros, morcegos e roedores, embora algumas espécies de roedores de maior dimensão como o castor, a marmota e o ouriço-cacheiro não estejam incluídos neste grupo (López-García, 2008, pp. 119). O mesmo sucede com os Lagomorfos (coelhos e lebres).
O estudo dos restos osteológicos de micromamíferos provenientes de contextos arqueológicos é imprescindível para a caracterização ambiental, climática e ecológica de assentamentos arqueológicos, sobretudo de períodos mais recuados. Constituem-se como óptimos indicadores paleoecológicos, paleoambientais e paleoclimáticos, por serem organismos bastante sensíveis à alteração de fatores como a temperatura, a humidade e do coberto vegetal (Sése, 2011). Devido ao seu reduzido tamanho, altas taxas de reprodução e baixa mobilidade são altamente sensíveis a mudanças climáticas, ambientais e ecológicas, permitindo compreender estas variações ao longo do tempo num determinado sítio arqueológico (Chaline, 1972). Por último, em contextos sedimentares antigos, estes são ainda indicadores bioestratigráficos muito precisos, sobretudo no caso roedores, permitindo estabelecer uma cronologia relativa para os depósitos onde se encontram (Chaline, 1972).
A partir do seu estudo é ainda possível retirar conclusões relacionadas com a ação antrópica. A existência e/ou ausência ou a diminuição drástica da representação de determinados microvertebrados num contexto arqueológico, poderá estar diretamente relacionada com a ação antrópica ocorrida nesse local.
4 A intervenção humana no meio natural, sobretudo a partir do desenvolvimento da agricultura e da pastorícia, teve profundas implicações na paisagem, originando variações na distribuição espacial das comunidades de micromamíferos (Mateus et al, 2002). A introdução da agricultura, tal como o desenvolvimento das rotas comerciais, traduziram-se numa sucessão de introduções involuntárias de microvertebrados que, no caso dos roedores, teve consequências profundas, quer ao nível da competição estabelecida com as espécies autóctones, quer da relação oportunista/comensal das atividades humanas. O ratinho-doméstico (Mus domesticus), o rato-preto (Rattus rattus) e a ratazana-castanha (Rattus norvegicus), são exemplos disso (Mateus et al, 2002).
Neste sentido a Zooarqueologia assume um papel incontornável para o conhecimento do passado zoogeográfico dos animais.
Por último, tendo em conta que o estudo microfaunístico é um processo bastante complexo, quer pela diversidade de Taxones existentes, quer devido às alterações morfológicas sofridas pelos mesmos ao longo do tempo, a Zooarqueologia, necessita recorrer a análises cada vez mais aprofundadas nos diferentes ramos das Ciências Naturais (Biologia, Ecologia, Genética, etc.). É no conhecimento da Biologia e dos requisitos ecológicos das espécies atuais que residem bases imprescindíveis para interpretar os vestígios que nos chegam do passado (Cabral, 2005; Palomo & Gisbert, 2007).
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0.1. OBJETIVOS
A seguinte dissertação de mestrado tem como objetivo principal propor uma metodologia para o estudo de restos osteológicos de microfaunas provenientes de contextos arqueológicos.
Através desta proposta metodológica e a partir da identificação das espécies existentes nas amostras sedimentares analisadas, pretende-se caracterizar as associações de micromamíferos (roedores e insectívoros) provenientes dos níveis do Epipaleolítico e Neolítico Antigo do Abrigo da Pena d'Água. Desta forma aspira-se igualmente perceber se os taxones identificados correspondem a um tipo de zona biótica específica e, deste modo chegar à compreensão do seu significado paleoecológico, paleoclimático e paleoambiental, e caracterizar a sua distribuição na área envolvente ao Abrigo da Pena d'Água, verificando se o aparecimento/desaparecimento de determinadas espécies de micromamíferos se prende com alterações climáticas e/ou ambientais, com a existência de pressão antrópica ou devido a relações de competição com outros micromamíferos.
Os micromamíferos sendo animais muito sensíveis a condições meteorológicas precisas, a ocorrência de alterações climáticas força-os a migrar para outras áreas. Devido às suas necessidades energéticas e fisiológicas concertas, à grande diversidade de espécies existentes, que se traduzem em relações complexas de competição, possuem faixas geográficas de distribuição muito limitadas, habitando biótopos específicos. Estas características fazem com que este grupo de animais seja uma ferramenta muito útil no momento de aferir características climáticas e de vegetação dos depósitos arqueológicos em que aparecem (López-García, 2008, pp. 119).
Por último, pretende-se identificar e compreender os processos deposicionais – agentes tafonómicos – e pós-deposicionais – agentes diagénicos – que originaram a acumulação destes restos osteológicos no Abrigo d'Água e condicionaram a sua preservação desde a sua deposição até à sua recuperação.
A Tafonomia é a ciência que reconstitui os fenómenos que afetaram os restos esqueléticos animais desde a sua morte, quando este ainda se encontra na biosfera, até à recuperação do elemento osteológico durante o processo de escavação, ou seja, depois da sua incorporação na litosfera (Lyman, 2001; Valente, 2000; Moreno García et al, 2003)
6 São vários os fatores tafonómicos que condicionam a conservação dos restos osteológicos em contextos arqueológicos. Existem fatores de origem natural, animal e antrópica (Lyman, 2001). Concretamente no que diz respeito às microfaunas os mais relevantes são os de origem natural, nomeadamente, a acidez dos solos (PH), as alterações de temperatura e a presença ou ausência de humidade.
A caracterização dos agentes tafonómicos que estiveram na origem da acumulação destes restos osteológicos será possível através da identificação de marcas registadas sobretudo nos restos odontológicos, relacionadas com processos de desgaste (desgaste do esmalte dos dentes devido ao longo período de uso) ou de digestão (causadas pelos líquidos gástricos existentes no estômago que permitem a digestão dos alimentos ingeridos). Desta forma, esta acumulação em traços gerais pode ser resultado da desagregação de dejetos/ regurgitações de predadores que frequentaram o local como abrigo (Pecharromán, 1993) e/ ou originada pela morte de forma natural de animais que utilizaram este espaço para o mesmo fim.
Existem diferentes tipos de predadores que incluem micromamíferos na sua dieta, nomeadamente aves de rapina noturnas e diurnas e pequenos e médios carnívoros, e que em função do tipo de ingestão e digestão das suas presas, podem ser responsáveis pela formação de acumulações fósseis de restos destes animais, nomeadamente em contextos de gruta e de abrigo sob rocha (Andrews, 1990). As aves de rapina noturnas (sobretudo corujas) são as principais responsáveis por este tipo de acumulações. Devido ao seu processo de ingestão e digestão (ingestão das suas presas inteiras e posterior expulsão das partes não digestíveis do seu organismo através de regurgitações) levam à acumulação de esqueletos na maioria dos casos completos, pelo contrário os pequenos carnívoros, por possuírem um processo de ingestão e digestão muito destrutivos em relação aos restantes predadores de micromamíferos, são responsáveis por uma fraca acumulação de restos osteológicos, que na maioria dos casos possuem um elevado grau de digestão (López-García, 2008, pp. 119).
As acumulações de restos osteológicos em contextos arqueológicos podem ainda, embora seja menos frequentemente, ser resultado de armadilhas naturais (onde os animais morrem de forma natural) (Pimenta et al, 2015) e em raríssimos casos da ação antrópica (Andrews, 1990).
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0.2. ESTADO DA ARTE
O Abrigo da Pena d'Água, foi alvo de escavações arqueológicas entre os anos de 1992 e 2000, sob a coordenação do arqueólogo António Faustino de Carvalho, atualmente docente na Universidade do Algarve.
Os resultados das escavações decorridas entre 1992 e 1997 foram publicados pelo arqueólogo responsável em 1998 na Revista Portuguesa de Arqueologia (Carvalho, 1998). Neste número foram também publicados outros artigos que abordaram os resultados de diversos estudos realizados a artefactos e ecofactos recolhidos neste sítio, nomeadamente cerâmicas2, restos vegetais3, restos macrofaunísticos4 e microfaunístico5. Após a publicação dos resultados das escavações de 1992-1997, foi publicado um artigo referente ao estudo das cerâmicas estampilhadas da Idade do Ferro descobertas nos níveis arqueológicosdo abrigo.6 Por último em 2012, foi publicado o estudo geoarqueológico do abrigo.7
Apesar do significativo desenvolvimento que a investigação na área da Zooarqueologia de um modo geral tem conhecido na última década em Portugal, sobretudo desde a criação do LARC e das suas coleções osteológicas de referência (Moreno-García et al, 2003), no que diz respeito concretamente ao estudo de restos microfaunísticos provenientes de contextos arqueológicos, apesar desta arqueociência
2 FERREIRA, Maria Mulize Neves (1998) – “As cerâmicas medievais/modernas do Abrigo da Pena
d'Água (Torres Novas).” Revista Portuguesa de Arqueologia, vol.1, nº2, pp. 97-106.
3 FIGUEIRAL, Isabel (1998) – “Abrigo da Pena d'Água (Torres Novas): a contribuição da antracologia.”
Revista Portuguesa de Arqueologia, vol.1, nº2, pp. 73-80.
4 VALENTE, Maria João (1998) – “Análise preliminar da fauna mamalógica do Abrigo da Pena d'Água
(Torres Novas): campanhas de 1992-1994.” Revista Portuguesa de Arqueologia, vol.1, nº2, pp. 85-96.
5 PÓVOAS, Liliana (1998) – “Faunas de Micromamíferos do Abrigo da Pena d'Água (Torres Novas) e o
seu significado paleoecológico: considerações preliminares.” Revista Portuguesa de Arqueologia, vol.1, nº2, pp. 81-84.
6 CRAVALHO, António Faustino de (1998) – “Cerâmica estampilhada do Abrigo da Pena d'Água
(Torres Novas): contexto, cronologia e breve enquadramento regional.” In BERNARDES, J. P, org – Sic memorat. Estudos em homenagem a Teresa Júdice Gamito. Pp. 53-68.
7 SIMÕES, Carlos (2012) – “Estudio geoarqueológico del Abrigo da Pena d'Água (Torres Novas,
Portugal) en el contexto de la Neolitizaciôn de la vertiente atlântica meridional peninsular.” Revista Estudios de Cuarternario, nº2, pp. 49-69.
8 ser já recorrente em vários países, nomeadamente em Espanha (para uma síntese geral ver López-García, 2008) e em França (para uma síntese geral ver Chaline, 1972), em Portugal encontra-se pouco desenvolvida. O fraco incremento de estudos microfaunísticos em Portugal poderá relacionar-se sobretudo com razões de recolha, por não se encontrar ainda implementada na maioria das escavações arqueológicas a recolha de amostras de sedimento para crivagem com água, único meio de recolha de restos osteológicos de dimensões tão reduzidas.
Até ao presente foram alvo de estudo microfaunístico apenas um número muitíssimo reduzido de sítios arqueológicos em Portugal. Estes têm sido realizados sobretudo em contextos arqueológicos de épocas mais recuadas, essencialmente com ocupações Pré-históricas localizadas em contextos de grutas.
Estes estudos revelaram-se essenciais para a compreensão e caracterização destes sítios arqueológicos, uma vez que permitiram retirar conclusões relacionadas com o tipo de ecologia e coberto vegetal existentes e, mais importante, permitiram através de dados indiretos concluir o tipo de economia aí desenvolvida.
Tendo em conta o facto deste trabalho se dedicar apenas ao estudo de restos de micromamíferos, abaixo é apresentada uma síntese dos sítios arqueológicos portugueses nos quais foram analisados restos faunísticos de associações de micromamíferos:
Castro do Zambujal – Torres Vedras – (Storch & Uerpmann, 1976);
Abrigo do Algueirão de Goldra – Loulé – (Antunes et al, 1986; Póvoas et al, 1993; Póvoas, 2001);
Gruta do Caldeirão – Tomar – (Antunes, 1989; Póvoas et al, 1992; Póvoas, 2001);
Castro de Leceia – Oeiras – (Cardoso et al, 1996);
Cidadela Medieval de Mértola – Mértola – (Morales, 1997); Pena d'Água – Torres Novas – (Póvoas, 1998);
Gruta da Figueira Brava – Setúbal – (Jeannet, 2000);
Abrigo do Lagar Velho – Lapedo – (Moreno-García et al, 2002); Gruta da Furninha – Peniche – (Brugalet al, 2012);
Bom Santo – Alenquer – (Pimenta, 2013).
Procuro, assim, com este trabalho contribuir de algum modo para o desenvolvimento do estudo de microfaunas provenientes de contextos arqueológicos, e,
9 acrescentar informação à que foi dada a conhecer por Liliana Póvoas (Póvoas, 1998), para o caso concreto do Abrigo da Pena d'Água.
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CAPÍTULO I: O ABRIGO DA PENA D'ÁGUA
1. O sítio arqueológico
O Abrigo da Pena d'Água localiza-se na zona centro-oeste de Portugal, na localidade da Rexaldia, pertencente à freguesia de Chancelaria, concelho de Torres Novas e distrito de Santarém.
Trata-se de um abrigo sob rocha, situado a 120 metros acima do nível médio das águas do mar, na base da escarpa de falha, com cerca 30 metros de altura, que separa as serras do Maciço Calcário Estremenho da Bacia Terciária do Tejo. Este ponto da escarpa, conhecida na região por Arrife da Serra d'Aire, é designado por Pena d'Água por existirem neste local pequenas exsurgências (Carvalho, 1998, pp. 41).
O sítio arqueológico foi descoberto em 1992, aquando da deslocação ao local de membros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia (S.T.E.A) com o intuito de levar a cabo trabalhos de desobstrução de algumas exsurgências visíveis na parede do Arrife, e, desse modo verificar a possibilidade de exploração espeleológica dessas cavidades. O surgimento de fragmentos de cerâmica pré-histórica e de pedra lascada na terra removida pela retroescavadora utilizada na desobstrução das fissuras, revelaram a presença de um depósito arqueológico, posteriormente reconhecido pelo arqueólogo Dr. João Zilhão (Carvalho, 1998, pp. 42).
A observação dos cortes efetuados pela máquina permitiu verificar a ocorrência de vestígios arqueológicos, resultantes da ocupação humana no local, até uma profundidade de cerca de 5 metros (Figura 1). Tendo em conta que a área destruída pela
Mapa 1: localização do concelho de Torres Novas
no mapa de Portugal e da freguesia de Chancelaria e da localidade de Rexaldia no concelho de Torres Novas (Fonte: pt.wikipedia.org)
11 máquina retroescavadora se localiza na extremidade oriental do abrigo, pode considerar-se que apenas uma pequena fração do sítio arqueológico foi afetada por esta (Carvalho, 1998, pp. 42).
Figura 1: topografia do Abrigo da Pena d'Água – levantamento realizado pela S.T.E.A em 1992
12
1.1. Contextualização Geográfica
1.1.1. Implantação e exploração dos recursos animais
O ponto da escarpa do Arrife da Serra d'Aire (Figura 2) onde se localiza o Abrigo da Pena d'Água, contorna a Serra d'Aire ao longo da sua vertente virada ao Tejo, estendendo-se desde Ourém, a Norte, até Rio Maior, a sul. Possui uma topografia muito irregular, apresentando como ponto mais elevado o próprio cume da Serra d'Aire, erguido a 679 metros de altura (Araújo & Zilhão, 1991).
Vis ta
Figura 2: vista do Arrife a partir da planície existente abaixo do Abrigo da Pena d´Água (Fotografia da
autoria de A. F. Carvalho).
No que concerne à implantação na paisagem, o Abrigo da Pena d'Água encontra-se numa posição de charneira, entre o maciço calcário e o rebordo ocidental da Bacia Terciária do Tejo. Devido à sua localização entre estas duas realidades geologicamente distintas, o abrigo integra-se, tal como todo o Arrife, num contexto de ecótono (Carvalho, 2003a, pp. 137). Se por um lado, o abrigo é sobranceiro à planície do Tejo e reúne um conjunto de condições favoráveis ao desenvolvimento da agricultura, como a existência de solos irrigados, devido à proximidade a um dos principais afluentes do Rio
13 Almóada, a Ribeira do Alvorão, por outro lado, é detentor de um bom domínio visual para Leste e Sul e localiza-se junto a bons acessos naturais à Serra d'Aire, que facilitavam a existência de pastoreio (Figura 3).
Figura 3: vista para o Vale do Alvorão (Fotografia da autoria de A. F. Carvalho).
Ainda que o abrigo ocupado pelo Homem durante o Neolítico seja atualmente quase irreconhecível (Figura 4), devido ao derrube da sua pala original, como é possível constatar nas suas imediações, onde são ainda visíveis grandes blocos de calcário resultantes da sua queda, a escolha deste local como abrigo prende-se sobretudo com a existência deste contexto de ecótono, que tornava possível a exploração simultânea dos recursos espontâneos pelas populações neolíticas e o desenvolvimento da agricultura e da pastorícia. Localizado junto de solos aráveis e densamente irrigados que permitiam o desenvolvimento de uma agricultura primitiva nas terras baixas, e próximo da serra que possibilitava a ocorrência da atividade pastoril nas áreas montanhosas do maciço (Carvalho, 1998, pp. 43).
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Figura 4: à esquerda vista da área em escavação desde 1992; à direita vista atual (2014) da área escavada
(Fotografia da autoria de A. F. Carvalho).
A existência de uma economia assente na exploração simultânea de recursos domésticos e recursos selvagens é comprovada pelo estudo da fauna mamalógica. Ainda que as principais espécies identificadas para os níveis do Neolítico tenham sido a cabra e a ovelha domésticas, foram também identificados, embora em menor número, restos osteológicos pertencentes a animais selvagens, nomeadamente javali e veado (Valente, 1998, pp. 85).
É de salientar, por um lado, o facto de terem sido identificados restos osteológicos de ovelha e cabra doméstica em todos os níveis do Neolítico, o que demonstra que a primeira exploração pastoril na Serra d'Aire ocorreu desde o início do Neolítico Antigo, e por outro lado, o facto de restos osteológicos de veado se encontrarem também associados a todos os níveis do Neolítico, revelando que a caça detinha um papel importante na economia neolítica, funcionando como complemento à pastorícia, embora esta predominasse sobre a caça (Quadro 1) (Valente, 1998, pp. 85; 90).
15
Quadro 1: número de Restos por Taxa identificados em cada uma das camadas arqueológicas escavadas
no Abrigo da Pena d´Água (Valente, 1998, pp. 95).
1.1.2. O coberto vegetal e as práticas agrícolas
A zona onde se insere o Abrigo da Pena d'Água integra-se na zona ecológica Atlanto-mediterrânea/ Sub-mediterrânea, tendo como principais espécies arbóreas espontâneas o zambujeiro, o pinheiro bravo, o pinheiro manso, o carvalho e o sobreiro (Araújo & Zilhão, 1991).
No que concerne ao coberto vegetal espontâneo atualmente existente na área em torno do abrigo, este é composto sobretudo por espécies rasteiras e arbustivas, registando-se escassos casos de árvores de grande porte. No que diz respeito à arboricultura local, esta consiste sobretudo na exploração de laranjeiras e oliveiras, culturas típicas de zonas de clima mediterrâneo.
A partir do estudo antracológico realizado aos carvões recolhidos durante os trabalhos arqueológicos desenvolvidos no Abrigo da Pena d'Água, foi possível constatar que a paisagem envolvente seria, já no Neolítico Antigo, de tipo mediterrâneo, sendo o coberto vegetal composto sobretudo pela variedade brava da oliveira, o zambujeiro. De facto foi possível constatar que já durante o Epipaleolítico ou Paleolítico Superior Final, o coberto vegetal seria de tipo mediterrâneo, uma vez que os resultados verificados para
16 as camadas F e E são em traços gerais muito semelhantes (Quadro 2) (Figueiral, 1998, pp. 74).
Quadro 2: espécies identificadas a partir dos carvões recolhidos nas camadas arqueológicas datadas do
Epipaleolítico (a cima) e do Neolítico Antigo (a baixo) (Figueiral, 1998, pp. 77).
Através da análise realizada aos 1294 fragmentos de carvões recolhidos nas camadas arqueológicas B, D, E e F, verificou-se que das 22 espécies identificadas, a espécie que se destaca por ser aquela que domina em todas as camadas arqueológicas é, como já referido acima, a Olea europeia (zambujeiro), com percentagens que oscilam entre os 55% e os 90%, o que evidencia a larga predominância de uma composição vegetal de tipo mediterrâneo (Figueiral, 1998, pp. 73). Das restantes espécies identificadas, apenas o Rhamnusalaternus/ Phillyrea sp. (aderno/ lentisco bastardo), espécie habitual em compostos vegetais da região mediterrânica, é comum a todas as camadas arqueológicas (Figueiral, 1998, pp. 74)
Os resultados mostram a existência de um espetro vegetal dominantemente de carácter esclerófilo, adaptável a longos períodos de seca e calor. Apenas foi identificada
17 uma espécie arbórea associada a cobertos vegetais típicos de zonas húmidas, o Fraxinus excelsior (freixo) (Figueiral, 1998, pp. 75).
É ainda de salientar a identificação de espécies arbustivas, como o medronheiro, as urzes, as cistáceas e algumas leguminosas (giestas) que testemunham a existência de áreas de matagal, como as ainda hoje registadas em torno do Abrigo da Pena d'Água, e a total ausência de carvões pertencentes a pinheiros em todas as camadas arqueológicas, o que poderá estar relacionado com o declínio dos pinhais durante o Holocénico Médio devido à expansão da vegetação de carácter esclerófilo, e, muito provavelmente com a intensificação das atividades humanas a partir do Neolítico, que terão levado à desflorestação dos pinhais da Estremadura e à expansão do zambujeiro (Figueiral, 1998, pp. 75 e 76).
A existência de um coberto vegetal de tipo mediterrâneo na área envolvente do Abrigo da Pena d'Água é também comprovada pelos resultados obtidos do estudo preliminar realizado a uma fração de restos microfaunísticos provenientes deste sítio arqueológico (Póvoas, 1998).
Segundo o estudo realizado, os micromamíferos identificados nas amostras sedimentares recolhidas no Abrigo da Pena d'Água estão representados por cinco espécies de roedores, dos quais os géneros Apodemus e Mus são os mais frequentes. A predominância dos murídeos (Apodemus sylvaticus e Mus) face aos arvicolídeos (Microtus), é característica das regiões de clima e coberto vegetal de tipo mediterrâneo (Póvoas, 1998, pp. 81).
A predominância dos murídeos permite-nos retirar duas conclusões determinantes na caracterização da área envolvente ao abrigo: se por um lado o domínio de Apodemus silvaticus em todas as camadas arqueológicas, a par da percentagem constante de Eliomys quercinus, são observações que demonstram a existência de manchas de bosque onde estas espécies encontram os biótopos favoráveis ao seu desenvolvimento, por outro lado, a presença de Mus, nomeadamente de Mus spretus e Mus musculus, espécies associadas à expansão da agricultura, a partir da camada Ea, demonstra a consolidação da neolitização nesta área a partir do Neolítico Antigo Evoluído (Póvoas, 1998, pp. 83). A presença de ambas as espécies a partir da camada Ea indica igualmente que a instalação da paisagem agrícola que sustenta a sua existência terá sido um processo com início numa etapa anterior, o que por seu lado permite deduzir a existência de práticas agrícolas pelo menos a partir das ocupações
18 humanas registadas na camada Eb-topo, subjacente àquela. Note-se, porém, que embora a campanha de 1995 tenha sido integralmente consignada à recolha de elementos carpológicos (através da escavação de um setor neolítico antigo e sua crivagem sistemática a água), não foi possível até ao momento identificar indicadores diretos de agricultura neolítica (isto é, sementes de leguminosas ou cereais domésticos).
Por último, a identificação de insectívoros, representados sobretudo pelo género Crocidura, evidencia a existência de áreas detentoras de biótopos secos de cobertura vegetal arbustiva, de tipo matagal, habitat onde este Género se desenvolve, e, a baixa percentagem de Microtus indica uma reduzida extensão das áreas de solos húmidos que estes arvicolídeos escavam (Póvoas, 1998. pp. 83).
A ocorrência maioritariamente de áreas de bosques é também confirmada pelo estudo realizado aos restos de mesofauna e de macrofauna recolhidos dos mesmos níveis arqueológicos da Pena d'Água, o qual, entre outros pontos, revelou uma elevada ocorrência de javali (Sus scrofa) e veado (Cervus elaphus), no que concerne aos animais selvagens (Valente, 1998). Ambas as espécies desenvolvem-se preferencialmente em ambientes de bosque com clareiras, como o registado antracologicamente na área envolvente do Abrigo da Pena d'Água.
Em suma, as conclusões retiradas dos estudos faunísticos vêm ao encontro dos resultados verificados pelo estudo antracológico, comprovando a existência na área em torno do abrigo de áreas arborizadas alternadas por cobertos arbustivos e por clareiras desflorestadas, e em suma a dominância de um espetro vegetal de carácter esclerófilo em detrimento dos cobertos vegetais mais húmidos (Figueiral, 1998), o que de um modo geral está de acordo com as características bioclimáticas típicas do Holoceno Médio.
19
1.2. Contextualização arqueológica 1.2.1. Crono-estratigrafia
As oito campanhas arqueológicas levadas a cabo no local do Abrigo da Pena d'Água, entre os anos de 1992 e 2000, permitiram constatar a existência de uma sequência sedimentar com 2 m de potência estratigráfica incorporando vestígios de ocupação humana datáveis desde o Epipaleolítico, nos níveis mais antigos (camada F), até à Época Moderna, nos níveis mais recentes (camada A) (para uma síntese, ver Carvalho, 1998).
Ao longo dos trabalhos arqueológicos foram exumados artefactos que apontam para ocupações humanas contínuas durante todo o período do Neolítico, ocupações esporádicas durante o Epipaleolítico, a Idade do Ferro e a Época Romana, e para ocupações muito efémeras durante a Época Medieval e Moderna.
Neste contexto foi possível identificar seis camadas estratigráficas distintas, onde são visíveis os vários momentos de ocupação do abrigo:
Camada A
Corresponde ao nível de derrube da pala do abrigo. É sobretudo constituída por grandes blocos de pedra, sendo os artefactos muito raros, registando-se apenas alguns fragmentos de cerâmica de Época Medieval e Moderna, relacionados com ocupações humanas muito efémeras, talvez resultantes da passagem de pastores ou caçadores pelo local após o derrube da pala do abrigo (Ferreira, 1998, pp. 97;106), e escassos restos osteológicos de microfaunas e de macrofauna recente, com deposição de origem antrópica, tendo em conta a marcas de corte e sinais de classificação que apresentam (Carvalho, 1998, pp. 48).
Camada B
Corresponde sobretudo ao nível de ocupação do Neolítico Final, embora ocorram também escassos fragmentos cerâmicos datados da Idade do Ferro e da Época Romana (designadamente integrados numa lareira datada do início da Era cristã), o que poderá significar que o topo desta camada serviu de superfície deste depósito arqueológico durante pelo menos 3 mil anos, desde finais do Neolítico até ao colapso da pala do abrigo no início da Época Romana. Este nível é caracterizado pela
20 ocorrência sobretudo de cerâmica lisa carenada com esféricos mamilares de pastas vermelhas, vasos esféricos e hemisféricos e cerâmica estampilhada, no que concerne as ocupações datadas da Idade do Ferro (Carvalho, 2008, pp.13-14). No que concerne aos utensílios líticos, há no Neolítico Final uma preferência pela utilização de rochas locais – quartzo e quartzito – para a produção de utensílios simples em lascas, e de sílex apenas na produção de lâminas e pontas de seta. Esta camada é datável dos finais do IV milénio BC, a julgar pelos paralelos obtidos noutros contextos estremenhos (Carvalho, 1998, pp. 48; 62).
Camada C
Corresponde ao episódio de transição entre o Neolítico Final e o Neolítico Médio, tendo em conta a ausência dos líticos registados na camada B e a menor frequência de vasos carenados. Registam-se ainda escassos fragmentos intrusivos de vasos da Idade do Ferro (Carvalho, 1998, pp. 49).
Camada D
Corresponde ao nível de ocupação do Neolítico Médio. Esta camada encontra-se subdividida na camada Da, que corresponde ao Neolítico Médio Final, e Db, que por sua vez corresponde ao Neolítico Médio Inicial. É de notar o reduzido número de vasos decorados, apresentando como técnica decorativa predominante a incisão, sobretudo na camada Db, predominando a cerâmica lisa com formas geométricas simples não carenadas. No que diz respeito aos utensílios líticos em pedra lascada, são sobretudo utilizas matérias-primas locais — quartzo e quartzito. O sílex apenas é utilizado para a debitagem de lamelas. Estão ainda presentes micrólitos geométricos. Datável da 1ª metade do IV milénio BC. (Carvalho, 1998, pp.49; 64).
Camada E
Corresponde ao nível de ocupação do Neolítico Antigo. Encontra-se também subdividida em camada Ea e camada Eb-topo, ambas correspondentes ao Neolítico Antigo Evoluído, e na camada Eb-base, correspondente ao Neolítico Antigo Cardial. As camadas Ea e Eb-topo são caracterizadas pela ocorrência de cerâmica com decoração impressa e incisa sob o bordo e por utensílios líticos muito semelhantes, no que concerne à tipologia e técnicas de talhe, com os registados para as ocupações do
21 Neolítico Médio, enquanto que a base da camada Eb-topo é caracterizada pela ocorrência sobretudo de cerâmica de tipo cardial e por um elevado número de utensílios em sílex, o maior registado em toda a sequência estratigráfica. Deste conjunto de realidades estratigráficas há diversas datações de radiocarbono realizadas sobre carvões, a mais antiga das quais de 6390 ± 150 BP correspondente ao Neolítico Antigo Cardial (Carvalho, 1998, pp. 49; 67; 70).
Camada F
Corresponde aos níveis de ocupação do Epipaleolítico. Destaca-se a indústria lítica sobre lascas, algumas lâminas em sílex e a utensilagem macrolítica. Datada por datação absoluta de 7370 ± 110 BP (Carvalho, 1998, pp. 49; 71).
Os trabalhos arqueológicos desenvolvidos no Abrigo da Pena d'Água revelaram ser de grande importância para o conhecimento do Neolítico em Portugal, uma que vez permitiram a elaboração de um primeiro modelo crono-estratigráfico deste período na Estremadura portuguesa, devido à grande sequência sedimentar escavada e ao elevado grau de conservação dos artefactos e ecofactos exumados.
Na sequência deste modelo crono-estratigráfico, e tendo em conta a interpretação realizada por Carvalho (1998), é possível verificar a existência de cinco fases de deposição de sedimentos, que correspondem a três tramos distintos:
o tramo superior, que corresponde à queda da pala do abrigo (camada A), e ao qual não está associada nenhuma ocupação contínua;
o tramo intermédio, que corresponde as ocupações contínuas registadas no abrigo (da camada B à camada E), mais bem conservadas no registo estratigráfico devido à abundância de artefactos e à acelerada e crescente deposição de sedimentos registada durante o Neolítico;
o tramo inferior que corresponde à primeira ocupação humana do abrigo (camada F) que subjaz aos blocos depositados aquando o primeiro episódio de abatimento da pala do mesmo.
22
Modelo crono-estratigráfico:
Fase 1
Corresponde à camada F e à ocupação datada do Epipaleolítico. Fase 2
Marcada pelo surgimento da 1ª descontinuidade estratigráfica: primeira fase de abatimento da pala do abrigo e deposição dos grandes blocos que marcam a transição da camada F para a camada E. Caracteriza-se pela baixa deposição sedimentar, o que poderá estar relacionado com a fixação dos solos causada pela expansão das florestas durante o Holocénico Inicial.
Fase 3
Marcada pela possível introdução da agricultura. Grande aumento do ritmo de sedimentação de origem argilosa registada nas camadas E a B, provavelmente relacionado com a desflorestação de origem antrópica para abertura de campos de cultivo e pastoreio durante o Neolítico Antigo e com a ocupação contínua do abrigo.
Fase 4
2ª Descontinuidade estratigráfica após a formação da camada B, devido ao provável abandono do Maciço Calcário pelas comunidades Calcolíticas e consequente fim da exploração agro-pastoril deste território, que por sua vez levou a um novo desenvolvimento das florestas e fixação dos solos. Fim das ocupações contínuas do abrigo. Deposições posteriores de vestígios datados da Idade do Ferro e da Época Romana, resultantes de ocupações esporádicas durante estes períodos.
Fase 5
Abatimento definitivo da pala do abrigo, selando as ocupações anteriores. Marcada pela ocorrência de ocupações esporádicas durante a Época Medieval e Moderna.
23
1.3. Contextualização Cultural: A Neolitização
A Neolitização do extremo ocidental peninsular ocorre a partir de cerca de 5.400 B.C., aquando da chegada das primeiras populações portadores do chamado “pacote neolítico” e de uma cultura material e rituais funerários próprios, que os distinguia dos grupos mesolíticos então fixados em Muge, no Sado e no litoral alentejano (ver Carvalho, 2003a, 2003b, 2008 e referências citadas por este autor). Estas populações seriam, segundo os estudos realizados até ao momento acerca desta temática, grupos humanos exógenos, originários de outras regiões do Ocidente mediterrâneo, que chegaram à fachada atlântica peninsular por via marítima, e que se instalaram ex novo em determinadas regiões, em territórios marginais aos ocupados pelas populações mesolíticas, onde predominavam condições ambientais de tipo mediterrâneo e que ofereciam boas condições para o desenvolvimento de uma economia produtora, criando os chamados "enclaves neolíticos".
No que diz respeito concretamente à Estremadura portuguesa, tendo por base datações absolutas atualmente disponíveis para o VI milénio a.C., os testemunhos mais antigos da presença de populações neolíticas até ao momento identificados no extremo ocidental peninsular, parecem ocorrer nesta região, nas grutas do Caldeirão e Almonda, no Abrigo da Pena d'Água e no sítio de ar livre do Cerradinho do Ginete (Carvalho, 2008, pp. 50).
Os primeiros grupos neolíticos que chegaram à Estremadura portuguesa instalaram-se em territórios despovoados ou marginalmente explorados pelas comunidades mesolíticas (Carvalho, 2003b, pp. 80). Após o estudo dos vários contextos arqueológicos identificados na área envolvente do Arrife da Serra d'Aire, foi possível concluir que este parece ter funcionado como a espinha dorsal da neolitização na região estremenha, atraindo as primeiras populações neolíticas que aqui se instalaram por terem encontrado condições geomorfológicas propícias à instalação de uma economia produtora (Simões, 2012, pp. 52). Uma vez que, e apesar da precariedade dos resultados da prospeção na planície, todos os assentamentos humanos datados do Neolítico Antigo se localizam ao longo do Arrife, de forma a aproveitar as potencialidades oferecidas por esta região de contexto ecótono, em contacto com dois ambientes ecológicos e geográficos distintos. Houve, assim, a ocupação sistemática de locais-chave onde se poderia praticar a exploração conjunta e
24 simultânea da serra e da planície (Carvalho, 2003a, pp. 135;142).
Apesar de o Epipaleolítico se encontrar bem documentado na região, tendo sido identificadas ocupações humanas datadas deste período ao longo do Arrife, inclusive na Pena d'Água, é de salientar o facto de se ter verificado que não existe continuidade Mesolítico-Neolítico (Carvalho, 2003a, pp. 135). Em termos económicos, é visível na transição do Mesolítico para o Neolítico uma tendência generalizada para a substituição de uma economia assente em partes iguais em recursos aquáticos e terrestres para uma economia baseada em exclusivo em recursos terrestres, através da introdução de uma economia produtora na fachada atlântica da Península Ibérica a partir de meados do VI milénio a.C., a que se fez referência acima (Carvalho, 2008, pp. 50). Ainda que a caracterização económica do Neolítico Antigo do Portugal meridional padeça de várias lacunas, devido sobretudo a limitações de ordem tafonómica e ao facto de até ao momento ainda não ter sido possível identificar restos carpológicos que comprovem a existência de práticas agrícolas desde o início do Neolítico Antigo, foi possível verificar através de análises arqueozoológicas de mamíferos (Valente, 1998; Póvoas, 1998; Carvalho, 2008, pp. 48), o desenvolvimento da agricultura e da pastorícia desde o início da Neolitização nesta região.
Relativamente às características residenciais, os assentamentos humanos identificados em torno do Arrife da Serra d'Aire seriam, segundo os indicadores económicos-funcionais disponíveis, geralmente de curta duração, uma vez que apenas foram exumados vasos cerâmicos de pequena dimensão, como é possível verificar no caso da Pena d'Água, à exceção dos vasos de armazenamento registados no sítio do Forno do Terreirinho, que indicariam a existência de um habitat de carácter mais permanente, ou pelo menos de maior duração, que obrigaria ao armazenamento dos produtos produzidos (Carvalho, 2003a, pp. 135; 143).
Assim, tendo em conta a sua localização em ambiente ecótono, a prática de caça associada ao pastoreio, o predomínio de rochas locais e o domínio de utensílios domésticos, é possível afirmar que estes assentamentos praticariam um sistema de povoamento assente numa estratégia de mobilidade residencial, onde por vezes estão bem documentadas atividades económicas específicas, como a caça, a recolha e/ou processamento de vegetais e a pastorícia (Carvalho, 2003a, pp. 135; 150).
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CAPÍTULO II: AS AMOSTRAS E A MICROFAUNA
2. Amostras estudadas
Para a realização deste estudo foi apenas utilizada uma fração da totalidade dos sacos de sedimento recolhidos durante as campanhas arqueológicas realizadas entre 1992 e 2000 no Abrigo da Pena d'Água. Foram estudadas no total oito amostras de sedimento provenientes dos quadrados N29, N30, L29 e L30 e das camadas arqueológicas F e E, correspondentes às ocupações humanas do abrigo mais antigas datadas do Epipaleolítico e do Neolítico Antigo. Estas foram recolhidas no decorrer das campanhas arqueológicas realizadas em 1993 e 1994.
Na figura 5, abaixo apresentada, é possível visualizar a localização destes quadrados e respetivas camadas arqueológicas na planta geral da escavação.
Figura 5: planta geral da escavação (quadrados escavados à esquerda, camadas arqueológicas em baixo e
linha denteada correspondente ao limite do depósito após ação da retroescavadora (Carvalho, 1998, pp. 45).
26 No quadro seguinte (Quadro 3) é possível verificar os quadrados e respetivas camadas arqueológicas alvo de estudo neste trabalho.
Cada amostra possuía cerca de 10 Litros de sedimento (entre 7 a 10 Kg de sedimento), que correspondiam a cada um dos níveis artificiais escavados com cerca de 5 cm de altura por cada camada arqueológica.
As amostras encontravam-se armazenadas em sacos de plástico acompanhados por etiquetas com a respetiva informação arqueológica (sigla do sítio arqueológico, quadrado, camada e data da recolha).
Camada Quadrado Data da recolha
L30 F2 16/09/1993 N29 E10 07/10/1993 N30 E1 23/09/1993 N30 E3 07/09/1993 N30 E4 07/10/1993 L29 E1 23/09/1993 L29 E2 24/09/1993 L29 E5 06/09/1994
Quadro 3: quadrados e respetivas camadas arqueológicas das amostras de sedimento arqueológico
27
3. Metodologia de estudo
A fim de realizar este estudo foi necessário estabelecer uma metodologia de estudo, dividida em três fases principais, cada uma delas realizada em locais diferentes: a primeira fase teve lugar no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Lisboa), a segunda no Laboratório de Arqueociências (LARC) (Lisboa) e a terceira no Consejo Superior de Investigaciones Cientificas (CSIC) (Madrid).
A primeira fase do trabalho consistiu no tratamento e na crivagem a água das amostras de sedimento a fim de recolher os restos osteológicos das microfaunas.
Antes de iniciar a crivagem do sedimento das amostras, este foi pesado e procedeu-se ao registo manual do quadrado, da camada e da data a que cada um destes correspondia, bem como do peso e da data do dia em que foi realizado o processamento da amostra. De seguida o sedimento foi retirado do saco de plástico em que se encontrava e deitado em dois recipientes plásticos (alguidares) em igual quantidade (para facilitar a desagregação da argila), aos quais foi anexada uma etiqueta autocolante com a respetiva informação arqueológica, tendo sido sujeito a um tratamento de desagregação dos elementos argilosos através de uma solução preparada com água oxigenada a 120 volumes diluída em água a 20% (1/5 de água oxigenada por cada litro de solução, num total de 3 litros de solução por cada amostra de sedimento processada).
Durante o processo de desagregação dos elementos argilosos (que durou pelo menos 48 horas) o sedimento permaneceu no interior de uma câmara de exaustão de vapores (Figura 6).
Figura 6: à esquerda balança utilizada para pesar os sacos de sedimento; ao centro garrafa da água
oxigenada a 120 volumes utilizada para desagregação dos elementos argilosos; e à direita os alguidares com sedimento no interior da câmara de exaustão de vapores (Local: Museu Nacional de História Natural e da Ciência).
28 A metodologia utilizada na crivagem foi a de crivagem com recurso a água corrente e a duas malhas de crivo. Na primeira fase da crivagem a malha de crivo utilizada foi de 4 mm para retenção dos elementos de maiores dimensões (fração grossa) e na segunda fase foi utilizada uma malha de crivo de 0,6 mm para retenção dos elementos de menores dimensões (fração fina) (Figura 7), que tornou possível a recolha dos elementos osteológicos de dimensões muito reduzidas (como dentes soltos).
Figura 7: à esquerda malha de crivo de 4 mm utilizada na recolha da fração grossa; à direita malha de
crivo de 0,6 mm utilizada na recolha da fração fina (Local: Museu Nacional de História Natural e da Ciência).
Após a crivagem do sedimento correspondente a cada amostra os materiais arqueológicos daí resultantes foram armazenados em tabuleiros metálicos, aos quais foi anexada uma etiqueta autocolante com a respetiva informação arqueológica, e colocados numa estufa (marca Memmert) (Figura 8) para secagem dos mesmos a uma temperatura nunca superior a 40º C, durante cerca de 24 horas.
Após a secagem, os materiais foram armazenados em dois sacos de plástico tipo zip, um contendo a fração grossa e outro a fração fina, acompanhados por uma etiqueta autocolante com a respetiva informação arqueológica.
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Figura 8: tabuleiros metálicos utilizados na armazenagem dos materiais arqueológicos, no interior da
estufa Memmert utilizada para a secagem dos materiais arqueológicos após a sua lavagem (Local: Museu Nacional de História Natural e da Ciência).
Concluída a crivagem da totalidade do sedimento das amostras deu-se início à segunda fase do trabalho que consistiu na triagem, análise e estudo dos restos osteológicos resultantes da crivagem.
Foi realizada uma primeira triagem com o objetivo de separar os restos osteológicos e os restantes materiais arqueológicos que poderão ocorrer (sementes, carvões, fragmentos de cerâmica, esquirolas…) dos restos pétreos que passaram na malha do crivo. Foi analisada uma fração grossa, correspondente a restos faunísticos de macro e microfauna, a carvões de maiores dimensões e a fragmentos líticos e cerâmicos (Figura 9), e, uma fração fina, correspondente a microfauna e a carvões de menores dimensões (Figura 10). No caso da fração fina houve recurso à lupa binocular (Olympus SZ 60) (Figura 11).
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Figura 9: elementos arqueológicos retidos na fração grossa: em cima restos faunísticos e carvões de
maiores dimensões; em baixo fragmentos de cerâmica e de líticos (Local: CSIC).
Figura 10: elementos arqueológicos retidos na fração fina: restos faunísticos e carvões de menores
dimensões (Local: CSIC).
Tendo em conta a elevada quantidade do conteúdo das amostras correspondentes à fração fina e o tempo disponível para realização do estudo, foi necessário adotar uma metodologia de triagem em que foram apenas triados 250 grs de cada saco com cerca de 1 kg, em vez da totalidade da amostra como aconteceu com as amostras da fração grossa. O restante conteúdo das amostras foi armazenado em novos sacos de plástico tipo zip, acompanhados por uma etiqueta com a respetiva informação arqueológica, a fim de ser sujeito a estudo no futuro.
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Figura 11: lupa binocular Olympus SZ 60, existente no LARC, utilizada na triagem e análise dos restos
microfaunísticos (Local: LARC).
Os restos osteológicos correspondentes à microfauna separados foram alvo de uma nova triagem com recurso à lupa binocular, com o intuito de separar os restos identificáveis (RI) de cada Ordem/ Família, dos restos osteológicos não identificáveis (NI). Foram apenas separados os restos odontológicos e algumas mandíbulas por serem aqueles que pelas suas características morfológicas permitem realizar identificações taxonómicas específicas. Estes são denominados de restos diagnósticos.
Os restos diagnósticos considerados para cada uma das Ordens, Famílias e Géneros existentes nas amostras foram:
Ordem Soricomorpha – foram separados:
Do Género Crocidura, todas as mandíbulas e dentes isolados exceto incisivos.
Ordem Rodentia – foram separados:
Da Família Arvicolinae – Géneros Terricola, Microtus e Arvicola todos os dentes molares superiores e inferiores (M1; M2; M3; M1; M2; M3) isolados e
mandíbulas com dentes inclusos, embora apenas tenham sido considerados os M1 para
32 Da Família Muridae – Géneros Apodemus e Mus, todos os dentes molares superiores e inferiores (M1; M2; M3; M
1; M2; M3) isolados, embora apenas
tenham sido considerados os M1 para realizar identificações ao nível do Género.
Da Família Gliridae – Género Eliomys, todos os dentes pré-molares e molares superiores e inferiores (Pm4; M1; M2; M3; Pm4; M1; M2; M3).
O critério utilizado é aquele que é habitualmente considerado na bibliografia de referência (López-García, 2008).
Os restos odontológicos diagonóstico foram então alvo de uma análise individual à lupa binocular tendo sido divididos por Ordem (Rodentia e Soricomorpha), Família (Muridae, Arvicolidae e Gliridae), e por elemento anatómico (Pm4; M1; M2; M3; Pm4; M1; M2; M3), e colocados em pasta adesiva (bostik) organizados em fiadas
paralelas (Figura 12). Esta tipo de organização (em fiadas paralelas no bostik) permitiu por um lado a referenciação individual de cada dente (ver Tabela 1 em Anexo) e permitirá se necessário uma fácil revisão do material no futuro, e por outro lado, mantem os restos odontológicos intactos dado a sua fragilidade. Ao longo deste procedimento foi realizada a identificação taxonómica, verificada a lateralidade e a ocorrência de alterações relacionadas com os processos tafonómicos e pós-deposicionais de cada dente.
Figura 12: restos odontológicos correspondentes à Família Muridae (à esquerda) e Arvicolidae (à
esquerda) organizados no bostik (Local: CSIC).
Durante este processo houve o registo sistemático manual dos resultados obtidos em três tabelas distintas (ver Tabela 1, Tabela 2, Tabela 3 em Anexo). Uma primeira onde foram registados todos os M1 correspondentes à Família Muridae existentes em
33 cada amostra (Tabela 1 em anexo), uma segunda onde foram registados por amostra todos os restos odontológicos e mandíbulas correspondentes a cada uma das Ordens/ Famílias identificadas, tendo sido separados por Taxon e por elemento anatómico (Tabela 2 em anexo), e, uma última, uma tabela geral onde foram incluídos todos os resultados da análise e foram tidos em conta os seguintes parâmetros: informação arqueológica original (quadrado, camada arqueológica, data e fração), Classe, Ordem, Família, Género, Taxon, identificação anatómica, lateralidade, quantidade e processo tafonómico quando existente (Tabela 3 em anexo). Estes dados foram posteriormente introduzidos numa base de dados informatizada (Programa SPSS), para tratamento estatístico.
A identificação anatómica e taxonómica dos restos osteológicos foi realizada com recurso a comparações com os esqueletos disponíveis nas coleções de referência existentes no Laboratório de Arqueociências (Moreno-Garcia et al, 2003; Pimenta & Moreno-Garcia, 2004), e em alguns casos através da consulta de fontes bibliográficas específicas mencionadas no texto.
Para atingir algumas determinações específicas, caso do Género Microtus, tornou-se necessário efetuar medições de parâmetros odontométricos (Figura 13), apesar de estes se terem mostrado pouco conclusivos dado o estado de conservação dos restos odontológicos.
Figura 13: medições realizadas num M1 de Microtus (Terricola) duodecimcostatus/ lusitanicus: à
esquerda comprimento total e à direita largura do complexo T4 e T5 (Quadrado L30/ Camada F2) (Local: CSIC).