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O amor em Santo Agostinho: vontade que move a busca

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

EVALTO PEREIRA DO NASCIMENTO

O AMOR EM SANTO AGOSTINHO: VONTADE QUE MOVE A BUSCA

NATAL-RN

2009

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Evalto Pereira do Nascimento

O amor em Santo Agostinho: vontade que move a busca

Monografia apresentada ao Curso de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como pré-requisito à obtenção do título de Bacharel em Filosofia.

Orientador: Prof. Dr. José Ramos Coelho

Natal-RN 2009

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Catalogação da Publicação / Bibliotecário Raimundo Muniz de Oliveira CRB15 – 429

Nascimento, Evalto Pereira do.

O amor em Santo Agostinho: vontade que move a busca / Evalto Pereira do Nascimento. – 2009.

45 f. : il.

Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Curso de Filosofia. Natal, RN, 2009.

Orientador: Prof. Dr. José Ramos Coelho.

1. Santo Agostinho – Monografia. 2. Amor - Monografia. 3. Felicidade - Monografia. I. Coelho, José Ramos. II. Título.

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À minha esposa, Izabel, por ter me incentivado a cursar uma faculdade, mesmo sabendo das minhas limitações de trabalho e idade.

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À Jussara Marques, minha filha; Dulcineide da Silva, minha cunhada; Janne Cristina, sobrinha.

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“Ama e faz o que quiseres.“ Santo Agostinho.

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RESUMO

A presente monografia surgiu a partir de uma tentativa de amenizar o problema existencial da infelicidade. Como o amor pode tornar as pessoas mais felizes? Optou-se em examinar a solução apresentada por Santo Agostinho sobre o problema, enfocando a exposição minuciosa realizada por Étienne Gilson, o seu grande comentador. Das análises preliminares acerca do tema, resultou que o amor é a vontade que move a busca da felicidade. Daí surgiram três questionamentos: O que é o amor? Qual a sua fonte verdadeira? Será que amamos o que deve ser amado? Do resultado da pesquisa, conclui-se que o homem deve esforçar-se no sentido de subsidiar a alma a tomar a decisão correta, para poder encontrar o seu lugar na natureza, acima do que deve dominar e abaixo do que deve submeter-se, e assim encontrar a felicidade.

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ABSTRACT

This monograph arose from an attempt to alleviate the problem of existential unhappiness. How love can make people happier? We chose to examine the solution presented by St. Augustine on the problem, focusing on the full details held by Etienne Gilson, its great commentator. The preliminary analysis on the subject, it appeared that love is the desire that drives the pursuit of happiness. This has led to three questions: What is love? What is your real source? Do we love to be loved? The search result, it follows that man should strive to support the soul to make the right decision in order to find its place in nature, most of which should dominate and below should submit, and thus find happiness.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 08

2 CORPO E ALMA; DUAS REALIDADES... 11

2.1 Afelicidade...11

2.2 A alma tende para Deus... 16

3 AMOR, VONTADE QUE MOVE A BUSCA...23

3.1 O que a filosofia ensina... ... 23

3.2 A moral é ato de amor... 28

3.3 Regras e Leis - das virtudes e da ordem... 28

3.4 Amor, movimento de busca...32

3.5 Caridade: o amor perfeito...37

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 43

REFERÊNCIAS... 45

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1 INTRODUÇÃO

O amor sempre foi contado e cantado em prosa e verso, em todas as gerações que se cederam na história, embora os primeiros registros só tenham aparecido referentes ao período mitológico, mas é verdade que ele está presente em todas as épocas e lugares. Porém, para efeito de uma melhor compreensão, será feito uma breve avaliação do que é o amor na visão de alguns filósofos renomados.

A idéia de monografar sobre o amor surgiu da tentativa de amenizar o problema existencial da infelicidade. Pois, no contato diário com as pessoas, na convivência social, e em diversas leituras, constata-se o quanto as pessoas são pouco felizes, e com que intensidade gostariam que a vida fosse diferente.

Percorrendo sumariamente as contribuições dos filósofos ao longo dos tempos sobre o amor, vejamos algumas concepções apresentadas nos períodos clássico, patrístico e moderno.

Na primeira fase, mas ainda no período naturalista, Hesíodo e Parmênides entenderam que o amor é a força que move as coisas e as mantem juntas. Para Platão (1979) o amor pode se apresentar de várias maneiras, mantendo as características do amor sexual. Platão, em “O banquete” (1979, p. 31-42), dimensionou o amor numa escala crescente de quatro níveis. Em primeiro lugar coloca o amor mantendo características do amor sexual, que se apresenta como necessidade de conquistar aquilo que ainda não tem, é desejo, carência e necessidade. Em segundo lugar amor é a estima do bem, ou desejo do bem. Em terceiro lugar, é o desejo de manutenção da vida; e, em quarto lugar, há o amor mais nobre que é o amor pela sabedoria. O amor nessa escala crescente se desenrola do sensível ao metafísico, Aristóteles (2002) fala do amor como algo meramente humano, “e a cada pessoa o que é bom e agradável é o que assim se afigura para ele” (ARISTÓTELES, 2002, p.179). Pra ele o amor é um sentimento e a amizade uma disposição de caráter; com efeito, pode-se sentir amor até pelas coisas inanimadas, mas o amor envolve escolha e as escolhas originam-se de uma disposição de caráter. Ademais os homens desejam bem a quem ama por eles mesmos e não em razão de um sentimento, mas de uma disposição de caráter. (ARISTÓTELES, 2002). Sendo reconhecidamente humano, não tem referências

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metafísicas nem teológicas, mas é bom lembrar que a tese do primeiro motor que move o mundo, e, portanto tudo que está dependente dele, coloca Aristóteles na condição daqueles que creem que o amor é a força que move o mundo, como objeto de amor, e como termo do desejo as coisas tem de alcançar a perfeição de Deus (Met, X1I7, 1072 b apud ABBAGNANO, 2000, p. 40).

A segunda fase, a patrística, onde predomina o pensamento cristão, será comentada depois. Na terceira fase, que para efeito deste estudo, começa com o Romantismo, há uma mudança mais radical do pensamento filosófico e se estende até os dias de hoje. Pode-se dizer que a marca do início dessa fase é o pensamento de Espinosa com o panteísmo, que é um movimento divulgador da idéia de que Deus é a natureza. A partir daí, muitos filósofos se referiram ao tema do amor, com variadas idéias. Aqui citaremos alguns deles, apenas de relance e espaçadamente.

O panteísmo, por exemplo, cujo maior expoente é Espinosa desenvolve a doutrina de que Deus é a natureza do mundo. A causalidade divina é identificada com a causalidade natural. Em Feuerbach existe uma teologia sem Deus, e o movimento positivista moderno tende a identificar Deus com a humanidade se Deus é a humanidade, não há quem ele ame, ele só pode amar a si mesmo. E o amor só se realiza se houver quem ame e quem seja amado (ABBAGNANO, 2000, p. 42). Valvernargues diz que o amor é objeto dos sentidos e Kant compactua com esta idéia quando diz que o amor a Deus como inclinação é impossível, pois Deus não é objeto dos sentidos. Num outro momento, Espinosa, numa de suas conceitualizações, diz que o amor como qualquer outra emoção (affectus), consiste numa alegria acompanhada de uma causa externa, em outras palavras, ele quer dizer que Deus não ama ninguém, porque não está sujeito a causas externas. (ABBAGNANO, 2000, p. 43).

Há muitas opiniões a respeito do amor, no campo filosófico. O amor como força unificadora - Hesíodo e Parmênides; o amor como necessidade, carência, desejo e filosofia - Platão; o amor como disposição de caráter - Aristóteles; Deus como natureza - Espinosa; Deus como humanidade - Feuerbach e o movimento positivista de Augusto Comte e seus seguidores. Por último, que compactuam com a mesma idéia de que a relação de amor entre Deus e os homens é impossível porque Deus não é objeto dos sentidos.

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Sintetizando, chega-se à conclusão de que a filosofia clássica grega acreditava no amor como sendo uma relação do homem com ele mesmo e com as coisas, tendendo para alcançar o bem maior; já a filosofia moderna, apresenta o amor com uma relação que não pode existir entre o sensível e o não sensível.

Agora, voltando para avaliar a segunda fase da história da filosofia, marcada pelo cristianismo, que teve como maior expoente o filosófico Santo Agostinho, se percebe que ele foi o único a defender o amor como uma relação do homem com ele mesmo na pessoa do seu próximo e com a divindade, ou seja, com o bem maior.

Trazer de volta ao campo de análise a perspectiva agostiniana sobre o amor é importante para a filosofia e para a humanidade, porque nela a alma reencontra a possibilidade do seu desejo de felicidade ser realizado. O anseio da humanidade pelo divino começa a se perder com as novas teorias surgidas a partir do panteísmo e que evolui com o aparecimento do positivismo e das várias formas de materialismos modernos.

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2 O CORPO E A ALMA: DUAS REALIDADES

2.1 A Felicidade

Tudo que será visto pode ser muito interessante para o crente, mas para o cético não teria nenhum valor filosófico, se não houvesse a dialética agostiniana, conferindo valores de verdade a seus argumentos. Portanto, faz-se necessário em alguns pontos, seguir passo a passo a argumentação das provas auferidas às suas verdades, a começar pelo tratamento dado à beatitude, que é o caminho para se atingir o amor.

“É próprio de todos os homens quererem ser felizes” (AGOSTINHO, 1995 a, p. 433). Mas como é aguçado esse desejo? A busca da felicidade pelas almas é despertada por lembranças de uma “doce pátria” (GILSON, 2007, 18) onde um dia haverão de aportar, mas um obstáculo lhes ameaça na entrada desse porto: “o orgulho e a paixão da vangloria” (GILSON, 2007, p.18). Mas se alguma coisa pode ser chamada de presente de Deus podemos dizer que é uma vida de felicidade. Lutar para vencer a ameaça do porto, é pedir para receber a felicidade, aceitá-la do modo de Deus. É a única via de tê-la.

Santo Agostinho entende que há muita especulação acerca de como encontrar a felicidade, mas é uma busca inglória por que sempre termina no homem. O conhecimento da verdade é condição necessária para alcançar a beatitude. Pode-se dizer que Agostinho se utiliza do preceito socrático (“Conhece- te a ti mesmo”) apenas para que a alma saiba o que ela é, e possa “viver de acordo com sua natureza, ou seja, para que se deixe governar por aquele a quem deve estar sujeita e acima das coisas às quais dominar”. (AGOSTINHO, 1995 a, p. 319- 320).

A transformação sofrida após o conhecimento de si mesmo, conduz a alma ao conhecimento da verdade, aliás, talvez aqui, a alma descubra que nada sabe.

Mas, enfim, em que consiste a felicidade? “Aqueles que não tem o que o desejam não são felizes, mas não se podem dizer felizes todos àqueles que têm o que desejam”. (GILSON, 2007, p.18). Agostinho amarra esse pensamento numa frase da obra Hortensius de Cícero, “A malícia da vontade causa-nos mais mal do que a fortuna não nos faz bem” (apud GILSON, 2007, p.19). Ora, a fortuna pode

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trazer males, mas a malícia da vontade muito mais, por que é pela vontade que o homem arquiteta o mal. Portanto “ninguém é feliz se não tem o que quer, mas não basta ter o que quer para ser feliz” (GILSON, 2007, p.19). Quem “não é feliz é miserável, e por consequência àquele que não tem o que quer é miserável” (GILSON, 2007, p.19). Logo, não basta ter o que quer, é necessário querer o que se deve querer para ser feliz. Mas como se pode conquistá-lo?

É verdade que o bem que se procura é para o homem, mas o homem é formado por duas realidades, corpo e alma, corpo mortal e alma imortal. E aprendeu-se, depois de conhecer a si mesmo, que o lugar da alma é acima do corpo e abaixo de Deus, portanto, o bem que se procura não é para o corpo e sim para a alma. Logo, sendo para a alma e como é todo o homem que quer ser feliz, esse bem deve ser “independente do acaso e da fortuna. Nada de caduco pode ser possuído por nós quando queremos o tanto quanto o queremos. Por outro lado amar o que se pode perder é viver no temor perpétuo incompatível com a verdadeira felicidade” (GILSON, 2007, p.19). E o que é permanente e independente do acaso e da fortuna? Somente Deus. Então ele é o único caminho que conduz a beatitude. Em quais condições podemos deseja-lo?

Alguns como “o cético ou o acadêmico” (GILSON, 2007, p.19), não creem encontrar a verdade, não obstante a procuram, se procuram é por que querem, mas já se sabe que aquele que não tem o que quer é infeliz, portanto não tem Deus nem a beatitude. Mas ainda, “se a sabedoria implica a beatitude, e se a beatitude implica Deus, o cético não poderia possuir nem Deus, nem a beatitude, nem a sabedoria” (GILSON, 2007, p. 20). Para Santo Agostinho a verdade é condição indispensável na busca da beatitude.

Entre os que creem que a descoberta da verdade não é impossível, nem todos concordam que a posse da sabedoria de Deus implica a verdade. Em “Soliloquios e a Vida Feliz” (AGOSTINHO, 1998) numa discussão entre Licênio, Trigésio e Adeodato, surgem três opiniões “- Possui a Deus quem vive bem - Possui a Deus quem faz o que Deus quer que se faça. (...) - Possui a Deus quem não tem em si o espírito imundo” (AGOSTINHO, 1998, p. 131). É notável que as três opiniões formem uma só: por que quem faz o que Deus quer vive bem, quem vive bem faz o que Deus quer, e não pode ser dito que naquele em que não habita o espírito impuro possa viver mal, por que quem vive na castidade da alma, que é a

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ausência de luxuria e mais ainda de todo pecado, não pode viver mal (GILSON, 2007). Se Deus está presente nas três formas e as três são a mesma coisa que viver bem, precisamos então saber o que é viver bem.

Deus sempre quis que o homem o procurasse. Se procurando a Deus se faz o que ele quer, não se pode dizer que aquele que procura Deus vive mal visto que faz a sua vontade; por outro lado quem procura Deus é por que não o tem, em outras palavras que quem não tem Deus é miserável. Mas como é miserável aquele que faz a vontade de Deus? Ver-se-á como Agostinho resolve essa dificuldade.

Já foi dito anteriormente que a felicidade é um bem do espírito. Isto posto, a perda dos bens materiais não pode comprometer em nada a beatitude, por isso, quem é sábio deseja apenas o que é possível para jamais ter seus desejos frustrados, pois limita-se a desejar apenas o que é possível. Mas a felicidade não pode ser senão for plena, a plenitude é componente indispensável à felicidade. A falta de plenitude é carência e miséria. Uma plenitude justa nem falta nem excede a medida. Se a beatitude só pode ser plena, logo sem a plenitude não há sabedoria. Então qual a relação da sabedoria com a plenitude?

A plenitude, sabe-se, comporta uma medida, onde não há falta nem excesso, por ela o espírito se liberta dos excessos como: o orgulho, a ambição, a luxuria, vícios pelos quais os espíritos desordenados acreditam encontrar a felicidade. Também pela plenitude rejeitam-se defeitos como: a baixeza da alma, a crueldade, a tristeza, a cupidez e outros correlatos que possam diminuir o homem e causar a sua infelicidade. Quem uma vez descobriu a sabedoria e a guardou, nunca ultrapassa a medida, ou seja, nunca precisa de nada. Dessa forma é a mesma coisa possuir a medida ou a sabedoria e ser feliz.

Que sabedoria é essa? Para a filosofia pode parecer estranho querer explicar algo como a sabedoria a partir de uma citação bíblica, como a que escreveu o apóstolo Paulo (I Cor. 1,24), “é a sabedoria de Deus”, ou seja, o filho de Deus é a sabedoria de Deus. Mas se a sabedoria é Deus e chega-se a conclusão de que, quem possui Deus possui a beatitude e implicitamente a sabedoria, então não é preciso nenhuma estranheza. E se Ele também disse, “eu sou a verdade” (em Jó. 4,6) e como já foi dito, que a verdade é condição necessária para a beatitude, e se a verdade só existe em função da medida suprema então a felicidade é um bem

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daquele que chegou pela verdade à medida suprema. Desta forma, estar de posse da sabedoria é gozar da posse de Deus pelo pensamento.

Já percorremos um caminho à procura de uma resposta para a pergunta; o que é viver bem? Já descobrimos que quem não tem a posse de Deus vive na miséria e que “viver bem é precisamente esforçar-se para possuí-lo” (GILSON, 2007, p. 23). Pode-se dizer que da fonte da verdade, que é a sabedoria, brota na alma outras verdades que não se pode abrir mão delas como: a necessidade de conhecer a si mesmo; o que se deve desejar para ser feliz; e a medida suprema. Todas essas coisas rememoram a lembrança de Deus. Mas quem pode dizer ter a posse total desses bens? Conclui-se daí que o homem não tem nem a sabedoria, nem a beatitude (GILSON, 2007). Não temos ainda uma vida feliz a não ser no conhecimento do Espírito Santo (GILSON, 2007). Podemos dizer que a nossa felicidade está em ter o Espírito Santo que nos liga à verdade e à medida suprema. “Espírito, verdade e medida, que são apenas uma única substância, um só Deus”. (GILSON, 2007, p. 23).

Foi falado bastante no bem que deve ser possuído para ter a felicidade. Mas onde entra o “conhecer” nessa historia? A sabedoria que beatífica não é um bem que se deve apenas conhecer: “se é verdadeiro dizer que conhecer algo pelo pensamento já é possuí-lo, não se pode dizer que conhecê-lo seja possuí-lo perfeitamente” (GILSON, 2007, p. 25). É o pensamento suficiente para ver, porém não é para amar, pois o amor é um desejo sensível, como tal deve voltar-se ao bem soberano, submetendo-o a ordem da razão; é isto que permite uma melhor contemplação. A alma amando inteíramente aquilo que só o pensamento contemplou pode atingir a sua meta. Ela não precisa só conhecer o amor, como por exemplo, por experiência de outro, ela precisa amar para de certo modo tornar- se amor.

É, com efeito, próprio do amor que o objeto amado reaja, na alma, de alguma maneira sobre isso que ela ama para transformá-lo em sua imagem e assimilá-lo. Amar o material e o perecível é materializar-se e condenar-se a perecer; amar o eterno é ao contrário, eternizar-se; amar Deus é torna-se ele. (GILSON, 2007, p. 26).

Cada vez mais nota-se que a beatitude está entranhada com a verdade. Ela é um bem mais possuído do que visto (GILSON, 2007). “Conhecer o ouro e o querer sem o ter, é algo possível; e o mesmo ocorre com todos os outros bens materiais;

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mas conhecer a verdade, se de antemão a amamos, é por definição tê-la de alguma maneira”. (GILSON, 2007, p.27).

Por essa doutrina agostiniana, só há vida feliz se houver verdade nela, não há espaço para o ceticismo nem para o relativismo. Já que o destino do homem é a felicidade ele quer ter já nesta vida uma certeza incondicional. É necessário que a alma tenha, já nesta vida, uma prova real da verdade, o que lhe dará uma certeza incondicional da beatitude eterna, haja vista que a verdade nunca se extingue.

Se a beatitude que é totalmente ligada à verdade é um bem a ser mais possuído do que conhecido, em hipótese alguma se deve abrir mão do conhecimento, porque o próprio Cristo, autor da beatitude diz: “ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo. 17,3). Para que a beatitude atinja seu fim só conhece-la não é suficiente; é necessário de algum modo sê-la, e para completar essa primeira máxima Jesus diz: “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o espírito”. (Mt. 22,37). Desse modo a sabedoria conduz para um fim onde Deus flui naturalmente, a sabedoria se consome nesta alegria sem se consumir.

A doutrina formulada por Santo Agostinho pode ser chamada de trans- filosófica: pois a filosofia definida e aceita por todos como amiga da sabedoria e que traz a felicidade para o homem, fica aquém da doutrina agostiniana que conduz a Deus como uma vida eterna. “Pois seguimos Deus aqui embaixo quando vivemos como sábios, mas seguir a Deus é apenas viver bem, ao passo que, para ser feliz é necessário possuí-lo”. (GILSON, 2007, p.28-29). Encontram-se aqui duas consequências; uma é a especulação racional e que tem um papel necessário, mas que é somente uma preparação para Deus, e uma especulação racional não comporta com um simples esboço, uma contemplação mística que leva à posse de Deus, perfeita beatitude eterna.

A segunda consequência é que classificada como trans-filosófica, que remete a Deus, esse objeto da sabedoria se encontra em numa região que só poderá ser atingida plenamente na outra vida. De agora em diante será visto como o homem se move na direção de Deus, como o bem supremo. Primeiro pelo conhecimento que apresenta Deus como um termo e depois pela caridade como amor perfeito por onde é possível possuir Deus, o amor.

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2.2 A alma tende para Deus

No capítulo anterior foi abordado que a beatitude (vida feliz), só pode ser alcançada em Deus. Ele é o Bem Supremo que deve ser buscado. Mas, se Deus não existir, será prudente continuar com esta pesquisa?

Neste momento o mais prudente é seguir os passos de Santo Agostinho para saber aonde ele vai chegar. É fato que para ele “a idéia de Deus é um conhecimento universal e naturalmente inseparável do espírito humano” (GILSON, 2007, p. 31). Quando o homem percebe essa existência e o procura conhecer, ele dá-se a conhecer, mas somente o tanto de provocar mais e mais o desejo de conhecê-lo. De modo que na finitude humana não se pode enxergar Deus infinito, mas nem por isso pode-se negar sua existência. (GILSON, 2007).

Não é que não exista nenhum homem que ignore a existência de Deus, existe sim, mas é por deficiência deles, pois Deus sempre se fez presente, mas espera ser reconhecido por eles.

É verdade que Agostinho teve experiência pessoal de Deus, o que lhe dá uma garantia de sua existência, mas é por que a própria escritura enfatiza no SI. 14(13), 1 “Diz o insensato em seu coração “Deus não existe!”...”. Que Agostinho coloca esse problema, pois o homem pode chegar a esse grau de endurecimento do coração, mas não que Deus não exista. Mas, quando se busca a razão pela qual tais homens negam a Deus, se percebe que os corações que negam a Deus foram corrompidos por vícios e abominações, e uma vez corrompidos, perderam a noção da verdade. Mas o conhecimento de Deus nunca se afastou do coração dos homens, no entanto apenas a sua cegueira não lhes permitem enxergar a Deus. Pois todo ser racional ao olhar para o mundo, pode perceber que Deus o criou (GILSON, 2007). Por conseguinte, só para um pequeno número de pessoas é necessário provar essa existência de Deus, no entanto é um grupo de difícil compreensão, como não crêem por si mesmos, logo, não querem descobri-lo. Mas a existência de tais homens é real. Entretanto, devem ser abandonados em sua cegueira ou seria mais conveniente fazer um esforço para tirá-los daí? Agostinho prefere a segunda opção, mas é surpreendente ao iniciar tal tarefa, a da prova racional para o insensato.

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Para aquele que não crê no que está sendo professado aqui, mas busca saber se isso é verdade, Agostinho sendo incumbido de provar-lhe isto, nunca começaria pela prova racional, mas sim, tentando lhes fazer conhecer “a verdade das Escrituras que ensinam à existência de Deus” (GILSON, 2007, p.34) e, apenas depois de ter conseguido este ato de fé, que é condição necessária para compreensão do seu método, é que esboçaria a prova racional.

Daí pode-se concluir que o método de Agostinho, da prova da existência de Deus, através da razão, só se dá pelo auxilio da fé, e não alcançaria todas as pessoas, ficando de fora “aqueles que fazem profissão de não poder encontrar a verdade, como o cético ou o Acadêmico” (GILSON, 2007, p.19), não podendo ter Deus nem a beatitude. Assim, ele fundamenta sua demonstração na fé, pois a razão sozinha jamais poderia conhecer a prova desta existência. Isto poderia ser uma conclusão precipitada por que “com certeza absoluta, a razão é capaz de provar para si a existência de Deus, dado que esta verdade é conhecida pelos filósofos pagãos, fora de toda revelação e de toda fé” (GILSON, 2007, p.34). O problema é que a situação do homem se complica depois do pecado e a fé tornou- se o melhor caminho a ser seguido pela razão. O homem deve o menos possível hesitar de passar por este caminho, que lhe leva à beatitude, no entanto, isto não tira o direito de se justificar a fé através da razão, alias “(...) longe de perder-se ao seguir a fé ao contrário, a razão se encontra” (GILSON, 2007, p.35).

Em nada Agostinho diminui o valor da razão, ele deixa entender que aquele que tem fé crê que Deus existe, mas também quer saber. Partindo para sua demonstração racional, trata de derrubar a maior rival da sua tese, aquela adotada pelos céticos, a da incerteza, e antes de chegar à conclusão de que Deus existe Agostinho estabelece a possibilidade da certeza em geral (GILSON, 2007), “(...) o homem já sabe que ele mesmo existe, este conhecimento é de todos o mais manifesto, pois, para que fosse falso seria necessário que quem o possui se engane e, para se enganar, é preciso ser.” (GILSON, 2007, p.36-37). Essa evidencia é forte, porque à medida que nega está aprovando pelo ato de negar. “Eu sou e sei que sou” (GILSON, 2007, p.36). Como posso me enganar com isto já que “se me engano, eu sou!” (GILSON, 2007, p.36). Essa primeira certeza cria a possibilidade da existência de Deus.

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Quando se busca provar a existência de Deus, o homem descobre a si mesmo existindo, assim ele sabe que vive, e para saber que existe e que vive é necessário conhecer. Desta busca apreendem-se três termos: o ser, o viver e o conhecer. Dos três é necessário saber qual o mais importante. Para isso será aplicado o seguinte método: “Dadas duas coisas quaisquer, pode-se considerar superior àquela que basta ser colocada para que a outra seja posta, e inferior àquela que não basta ser colocada para que a outra necessariamente o seja” (GILSON, 2007, p. 36) Apliquemos o método aos três termos encontrados: o ser, a vida e o conhecimento. A pedra existe, não vive nem conhece; a planta vive, existe, mas não conhece; o homem conhece, vive e existe. Segue-se daí que o conhecimento é o mais elevado. (AGOSTINHO, 1995 b).

Agora se sabe que o conhecimento é o mais elevado dos três termos, mas isto ainda não é um cume permanente; pois ainda não se sabe o que é o conhecimento. O primeiro conhecimento que se nos apresenta, vem dos sentidos, que podem ser divididos em duas partes: os sensíveis próprios e os sensíveis comuns. Os sensíveis próprios são aqueles que são percebidos por apenas um sentido como: a cor pela visão; o odor pelo olfato; o duro, o mole, o liso, o rugoso pelo tato etc, “as qualidades como a grandeza e a pequenez, o ser redondo e outros do mesmo gênero podem ser percebidos tanto pela visão quanto pelo tato, por isso eles não são os sensíveis próprios, mas os sensíveis comuns” (GILSON, 2007, p. 37). Mas não é pelos sentidos próprios, que se discerne ou toma-se conhecimento do que os sensíveis têm de comum ou não, mas, de antemão, sabemos que não é a razão, pois os animais são capazes de ter sentimentos de repúdio em relação a alguns objetos.

Então, deve haver nos animais e nos homens um sentido interior superior aos sentidos externos, ainda que inferior à razão, ao qual todas as sensações exteriores são reportadas, é ele que, no homem, discerne os sensíveis comuns e que, nos animais, percebe o que os objetos tem de útil ou de nutritivo; mas este sentido interno por sua vez, deve ser ultrapassado. (GILSON, 2007, p.37).

Há, no entanto, conhecimentos que não são percebidos nem pelos sentidos exteriores nem interiores. Pois nem o sentido interior pode discernir que os sons e as cores não são percebidos pela visão e audição respectivamente, essa diferença só pode ser distinguida pela razão. Assim o conhecimento que a princípio se

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estabelecia no cume bem alto, agora está decomposto em três termos de forma crescente: sentido exterior, sentido interior e razão.

Tem-se então uma nova forma de hierarquização. A matéria que somente é, é o objeto do sentido exterior. O sentido exterior que a percebe é superior a seu objeto por que tem vida que basta ser colocada para que o objeto apareça, ou seja, o ser. Agora resta saber se o sentido interior é superior ao exterior. Está claro que “o sentido interior implica os sentidos exteriores na ordem do ser[...]” (GILSON, 2007, p.38); pode-se até dizer que o sentido interior conhece o sentido exterior sem ser por este notado; “mas não se pode colocar como princípio que o sujeito cognoscente é superior ao objeto conhecido, pois o homem conhece a sabedoria e, no entanto, ela é superior a ele”. (GILSON, 2007, p.38). Pode-se ter como certo que o sentido interior dirige e julga o sentido exterior, porque é ele quem adverte a visão para ver, comanda a audição, e realiza os julgamentos. Se o que julga é superior ao que é julgado, então está claro, o sentido interior é superior ao exterior.

Este mesmo princípio sendo aplicado à razão em relação ao sentido interior, e este sentido interior não podendo discernir entre si mesmo e o sentido externo, e não podendo definir, classificar e hierarquizar, sobra então esta responsabilidade para a razão que julga o sentido interno. Daí conclui-se que a razão é superior aos sentidos, mas será que existe alguma coisa superior à razão?

O comentador Etienne Gilson, diz que Santo Agostinho percebe com notável profundidade metafísica que descobrir uma realidade superior ao homem não é necessariamente encontrar Deus, mas não é uma realidade qualquer que se está procurando, é um ser que seja

necessário, imutável, eterno, tal que não exista nada de maior e que por consequência seja Deus. Então não é suficiente ultrapassar o homem para alcançar tal ser, mas deve-se ultrapassar no homem algo tal que o que se encontre além dele só possa ser Deus. (GILSON, 2007, p.39).

Seguindo paulatinamente os passos de Agostinho, primeiro apreende-se o ser, depois o conhecimento e a razão; só falta agora discutir sobre a verdade, se ultrapassando a esta, se Deus não for encontrado, então toda a busca terá sido em vão. Todavia, sempre é possível localizar em cada termo encontrado um ponto de apoio para o passo seguinte. E o da razão qual será? “Dentre os conhecimentos racionais, alguns apresentam a característica notável de serem verdades”.

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(GILSON, 2007, p.40). Por exemplo, da soma de dois números não se diz que deveria ser “X” mas sim que é “X”. Por que é dito assim com tanta convicção? Por que essa proposição é uma necessidade, imutável e eterna. Essas características tanto pertencem às verdades morais quanto às especulativas.“Por exemplo: se digo que a sabedoria é uma verdade tal que quem a conhece possui, por isso, ‘o Bem Soberano’, afirmo uma proposição tão necessária quanto uma verdade matemática”. (GILSON, 2007, p.40). São muitos os que não concordam quanto a natureza do conhecimento beatificador ser a sabedoria, mas todos acreditam que a sabedoria traz a beatitude. “Assim, quer se trate da ordem teórica ou da ordem prática, do número ou da sabedoria, as verdades são conhecimentos necessários, imutáveis e comuns a todos os espíritos que as contemplam simultaneamente” (GILSON, 2007, p.40). Essas características de onde vêm?

Alguém pode dizer que a verdade está nos objetos, e os sentidos a descobre. Sabe-se que a matéria é mutável, e, portanto não pode fornecer substância para a ciência que é imutável. Ainda pode-se dizer que foi tirada a idéia de números dos objetos, mas como tirar deles as leis de composição dos números? Um número é uma quantidade qualquer de unidades. Referente à unidade, como poderia tirar essa idéia dos objetos se eles não as têm? Todo corpo, pode ser dividido em inúmeras partes, e isto o torna múltiplo, mas antes de percebê-lo a idéia de unidade já era conhecida. (...) “não são nem os corpos, portanto, nem os sentidos que pode me dar tal idéia”. (GILSON, 2007, p. 41). As origens das verdades que a razão apreende, não podem ser buscadas abaixo da razão.

Como foi visto, a verdade não vem dos corpos, nem pode vir de uma realidade inferior ao pensamento, mas será que pode vir dele como o efeito vem da causa? Como a verdade é comum a todas as razões ela não pode ser efeito de uma razão individual.

Ela pode ser considerada como um tipo de luz, que não é nossa nem vossa, nem de algum homem em particular, mas ao mesmo tempo secreta e pública, possuída por qual quer um, portanto, a mesma em todos os que percebem, no mesmo momento as mesmas verdades imutáveis. (GILSON, 2007, p. 42)

A verdade não pode ser inferior à razão em geral, nem individual, por que não se julga a verdade, antes, julga-se através dela. O pensamento faz julgamentos das

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coisas sensíveis dizendo: “isto não é tão perfeito quanto aquilo” ou “este azul não é tão azul quanto deveria ser.” No entanto não se diz que “7 e 3 deveriam ser 10” ou ainda “o eterno deveria ser superior ao temporal”. Não se pode julgar a verdade, contudo é por ela que julgamos todo o resto. Fica cada vez mais claro que a verdade não é inferior à razão, tentar-se-á verificar se é superior a ela (GILSON, 2007)

Quando alguém julga os corpos, coloca-se superior a eles, agindo como juiz quanto à verdade. Quando diz que “ela é”, e não que “deveria ser”, há uma submissão a ela, como quem se submete a uma ordem, há uma obrigação em concordar com ela. Pode-se dizer que o mesmo comportamento que o homem, portador da razão, tem em relação aos corpos e as coisas sensíveis têm em relação a si mesmo e a outros espíritos, por que ele diz: “este homem é menos dócil, ou, mais inflamado do que aquele”. Mas quando o homem se refere às regras de julgamento ele não as julga, mas se regula por elas e a elas se submete. “Ele não se coloca como um crítico que corrige, mas como um inventor que se alegra com uma descoberta”. (GILSON, 2007, p.43). Ele se sente pequeno diante de sua descoberta porque a verdade descoberta não depende dele,

[...] pois o que é verdadeiro é eternamente verdadeiro e subsiste numa imutabilidade perpétua, enquanto o pensamento que apreende a verdade, apodera-se dela apenas por um tempo e de maneira provisória Logo, a verdade é independente e transcendente em relação ao espírito que ela regula. Mas, no mesmo ato, ao descobrir a transcendência da verdade, o pensamento descobre a existência de Deus, posto que o que ele percebe acima do homem é o eterno, o imutável e o necessário, ou seja, uma realidade que possui todos os atributos de Deus. (GILSON, 2007, p.43)

Porém é importante observar que ao ver a verdade no próprio pensamento o homem não vê de fato a existência de Deus. “Ela ainda não alcança o termo cuja posse lhe confere ria a beatitude, mas ele pelo menos ver qual o termo resta a ser alcançado para gozar a beatitude e nela repousar”. (GILSON, 2007, p. 43-44). Agostinho não provoca o impacto esperado ao concluir a prova da existência de Deus, talvez pelo fato desta descoberta ter sido distribuída em pequenas partes desde o inicio, quando descobre-se a primeira certeza (o cogito), demonstrando que, quem tem dúvida tem certeza que duvida, portanto ele simplesmente diz que, quando se vê a verdade, o pensamento enxerga uma lei que lhe é superior, e uma natureza imutável que é Deus. “Vida primeira, essência primeira, sabedoria

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primeira”. (GILSON, 2007, p.44). Necessário se faz agora, para ser justo com espírito da prova é diferenciar a verdade das verdades. Alcançando a verdade, alcançamos de fato é

um conteúdo da nossa razão que não pode ser explicado do ponto de vista dela e que nos obriga, por consequência, a transcendê-la para afirmar a existência da luz que a esclarece: a Verdade substancial, eterna e imutável que é Deus. Tudo que pode nosso pensamento faz é elevar-se de objeto a objeto até atingir a verdade como termo, a qual é muito diferente daquela Verdade mesma, que não se busca por que o pensamento humano que raciocina busca o que ele é. (GILSON, 2007, p.44).

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3 AMOR, VONTADE QUE MOVE A BUSCA

3.1 O que a filosofia ensina

Para chegar-se a essência mesma do amor, que é a caridade em Santo Agostinho, precisa-se percorrer um longo caminho, que às vezes se torna “enfadonho”, mas isto parece ser próprio da filosofia, e a palavra certa não seria “enfadonho”. No entanto, dever-se-ia considerar “apetitoso” degustar passo a passo através da dialética as descobertas que se apresentam, e ao mesmo tempo vencer as dificuldades encontradas no caminho. Já se falou da beatitude, que é vida feliz, do caminho que a alma percorre para alcançar Deus através da verdade, e já foi visto que “ela ainda não alcança o termo cuja posse lhe conferiria a beatitude, mas ela pelo menos vê qual termo resta ser alcançado, para gozar a beatitude e nela repousar”. (GILSON, 2007, p. 43-44). Cuja essência se irá apreciar, para melhor compreender a meta que se deseja alcançar. Se a sabedoria é o termo que concede a beatitude, deve-se então conhecer as regras dessa ação, como e por que.

A principal motivação que se tem para conhecer é a felicidade, motivação que deve ser saciada como um apetite, para que a beatitude se estabeleça. O saber pelo saber nunca chega ao seu fim, mas o saber para ser feliz coloca limites, estabelece regras e uma meta a ser alcançada por caminhos determinados.

Quando se busca o saber pelo saber, para satisfazer ao desejo de felicidade, esta conferindo-se um sentimento real à palavra “filosofia”. Marcos Varrão, num tratado de filosofia hoje perdido (apud AGOSTINHO, 2001), faz um levantamento das seitas que admitem o Soberano Bem só no corpo, só na alma e na alma e no corpo. Com mais algumas diferenças entre eles, chega-se a uma contagem de 288 opiniões diferentes, porém todas com o mesmo objetivo, alcançar a felicidade. Embora tenham os filósofos caído em muitos erros, a luz natural não permitiu que perdessem de vista a meta a ser alcançada. Daí conclui-se que mesmo com a diversidade de idéias, o que a filosofia pretende é tornar os homens felizes, obtendo o Bem e se desviando do mal. (AGOSTINHO, 2001).

Agora que já se sabe que o que a filosofia ensina é o que pode tornar os homens felizes; note-se então, por definição, e aceito por todos, filosofia é “o amor pela sabedoria”. “Se, por um lado, o conhecimento humano, enquanto se ordena em

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direção à felicidade, é à filosofia, e se, por outro lado, a filosofia é o amor da sabedoria, então se entende que a sabedoria é o conhecimento beatificador que a filosofia busca”. (GILSON, 2007, p.224-225). O que é então a sabedoria?

É concordável que a sabedoria é uma espécie de ciência, mas ciência é um gênero, logo sabedoria só pode ser uma espécie. Porém, sendo a ciência um conhecimento certo e indubitável e a sabedoria uma espécie de ciência, ela também é de conhecimento certo e indubitável. Será uma igual à outra, ou será uma maior que a outra? São Paulo quando dizia em 1Cor 12,8 que a uns é dado a sabedoria a outros a ciência, ele estava dizendo que uma é diferente da outra. Qual será essa diferença? Pela definição de gênero e espécie, um debate desta ordem seria destruidor para a sabedoria. Mas, ao que parece, aquele que defende a sabedoria tem um trunfo na manga, pois a sabedoria conduz à beatitude que é a felicidade, e qual ciência levaria o homem a um fim tão nobre? Para responder a essa questão é necessário descobrir quais os fins mais nobres a que o pensamento pode conduzir o homem.

Levando em consideração que há no ser humano dois homens, o exterior, que nos deixa comum com os animais, por causa do corpo material, vida vegetativa, conhecimentos sensíveis, imagens e lembrança das sensações, e também o homem interior, que nos diferencia dos animais, quando “julgamos as nossas sensações, comparamo-las entre si, medimos os corpos e as figuras submetendo-os às proporções e asubmetendo-os números”. (GILSON, 2007, p.226). Em cada uma dessas operações, como foi visto, intervêm as razões eternas e divinas, que são perceptíveis apenas ao pensamento propriamente dito: mens. “O homem é, portanto, essencialmente seu pensamento, ou seja, em outros termos, a mens é o homem interior”. (GILSON, 2007, p. 226).

Para Santo Agostinho, a mens, ou pensamento, é uma essência espiritual, portanto indivisível. Deixada a si própria ocupar-se-ia apenas com as coisas inteligíveis ou ligadas à contemplação. Mas como regente de um corpo, é obrigada a usar seu pensamento para garantir a vida desse corpo; volta então seu pensamento para as coisas que não são os fins mais altos. (GILSON, 2007, p. 266).

Com isso, não deixa de ser ele mesmo, apenas é como se ele exercesse duas funções. Parece existir aí um problema, mas para resolvê-lo Agostinho faz uma analogia com o Gênesis. Quando Deus viu que não era bom que o homem

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ficasse só, tirou do homem mesmo uma companheira; logo a mulher não é outro, é ele mesmo com a função de se ajudar. Eles são o único casal na natureza que pode ser chamado de dois em um, pois, são uma só carne. (AGOSTINHO, 1995a). Analogamente, o que aconteceu com a carne aconteceu com o espírito, que consagrado à contemplação, tem necessidade de um apoio que o ajude nas necessidades temporais, enquanto este cuida das coisas próprias do espírito, a contemplação. Mas essa ajuda não poderia vir de outro lugar, se não dele próprio, que apenas exerce duas funções diferentes, que são identificadas por Agostinho por dois nomes diferentes: “razão superior” e “razão inferior”, respectivamente, sem ser esquecido o fato essencial de sua unidade, as duas razões são somente dois ofícios de única e mesma razão”. (32GILSON, 2007, p.227). Em qual dessas razões está a sabedoria?

O último fim é a beatitude. Como foi dito anteriormente, a sabedoria é o que torna os homens felizes, ou seja, a sabedoria implica a posse da beatitude; fica claro então que ela não pode ser uma atividade meio, e sim, atividade fim. Logo existe outra que é a atividade meio. Desse modo, se envolve com a ação, porque é a ação que vai dar suporte á contemplação. (GILSON, 2007, p. 227-228). Essa dupla função da mente acaba por definir a distinção entre dois tipos de vida, a ativa e a contemplativa, que na tradição judiaco-cristã é bem simbolizada pela antítese entre Raquel e Lia ou Marta e Maria. A vida ativa, que é luta, trabalho e esforço, é uma espécie de exercício para gozar uma recompensa que só pode ser alcançada no outro mundo. A vida contemplativa aqui na terra é uma espécie de experiência real daquilo que será na outra vida; “ela é, portanto, o repouso obtido no fim, a visão parcial aqui embaixo da verdade beatificadora, a esperar sua posse total no além”. (GILSON, 2007, p.228). É como se existisse uma subordinação da ação à contemplação, ou seja, é necessário passar por toda uma atividade moral, adquirindo virtudes e realizando boas obras, para alcançar a contemplação mística de Deus. Agostinho, sendo bastante racionalista, coloca a vida prática da cidade, com suas exigências, como um exercício livre da contemplação. Pode-se discernir que não há distinção entre a vida da ação e a vida contemplativa, o que existe é uma trajetória, que se divide em duas partes apenas para efeito de cognição.

Como existem duas funções no pensamento, há uma possibilidade de escolha que será decidida pelo coração de cada um. Quando o pensamento faz

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opção pela contemplação, através da razão superior, está se voltando para a fonte do saber, que são as idéias divinas, que permite julgar tudo por elas e a elas se submete para julgar todo o resto. A isto se chama de sabedoria. Pela contemplação o homem se submete àquela fonte da verdade que acalma todos os pensamentos. Uma vez que opte pela (razão inferior), está abrindo mão das idéias imutáveis, ficando com aquilo que é provisório, ou seja, o mundo sensível, pelo qual ele vai se apoderar para explorar em proveito próprio. A isto vai chamar de ciência. “Em poucas palavras, ao nos voltarmos para as Ideias, a sabedoria nos orienta para o divino e o universal; ao nos voltarmos para as coisas, a ciência nos submete ao criado e nos confina aos limites do individual”. (GILSON, 2007, p.229).

A esse movimento da alma que se recusa a possuir em comum e se apropria das coisas para a satisfação pessoal, a Escritura chama de “avareza” em I Tm. 6,10, “na origem dessa avareza encontra-se o orgulho, que é segundo outras palavras da Escritura, initium peccatr”. (GILSON, 2007, p.230). O homem sabe que é apenas parte do universo que é regido por Deus e que é convocado a tomar seu lugar na ordem universal, reportando qualquer coisa ao fim comum. Mas ele pode negar-se a aceitar tal ordem e preferir a parte ao todo, e esta parte escolhida é ele mesmo. É uma opção insana, mas explicável do ponto de vista da negação de Deus; ele prefere a si próprio, isto por causa do orgulho que logo se transforma em avareza. O avarento jamais satisfaz seu desejo de querer amontoar coisas sensíveis para si. Como abriu mão do inteligível e universal, seu corpo é o instrumento que encontra para deter aquilo que quer; naturalmente só possui aquilo que o corpo pode apoderar-se. “Segue-se que a alma se engaja num tipo de fornicação espiritual, de que sua imaginação é simultaneamente instrumento e sede” (GILSON, 2007, p.231), seu interior torna-se um perigoso campo.

Não se pode dizer que, em si, a ciência é idêntica a essa defasagem do pensamento, mas, se dela for feito mau uso chegará o homem a esse patamar de negligência toda vez que abrir mão do todo e preferir a parte, pois aquele que quer a ciência pela ciência está sempre sujeito à matéria e longe do campo das idéias, que é o universal. Mas o que diria Agostinho da sabedoria?

A opção sendo feita por algo que liberta da servidão do corpo, está a alma caminhando para as razões eternas, ou seja, “idéias imutáveis e necessárias de Deus” (GILSON, 2007, p.231), e isto não é pensamento avarento, “visto que as

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idéias divinas são universais e comuns a todos os espíritos”. (GILSON, 2007, p.231). Submeter-se àquilo que é de uso comum é sinal de humildade. Fazer julgamento a partir das idéias universais é ter alcançado Deus, e assim que Ele seja alcançado, tudo vai em direção a Ele. Isto, pois, é sabedoria: “a oposição entre ciência pura e sabedoria pura é, portanto, completa, as características desses dois modos de conhecimento se contradizem ponto a ponto”. (GILSON, 2007, p.232).

Embora a dialética agostiniana tenha nos conduzido a este ponto, ele não se dar por satisfeito, pois, quem estabelece a ciência e o tem como fim, é impossível alcançar a sabedoria, nisto a contradição é correta. Contudo, quem escolhe a sabedoria não pode sacrificar a ciência.

Ninguém pode alcançar a sabedoria sem usar a ciência como trampolim. Embora a sabedoria possa reger aquilo que é temporal, mas para fazer é preciso conhecê-lo. “As virtudes, por exemplo, que são boas maneiras de agir, supõe que se saiba como lidar com o temporal para agir”. (GILSON, 2007, p.232). Portanto, mesmo estando subordinada à sabedoria, a ciência tem o seu papel distinto, mas agora, boa, legítima e necessária. A ciência tanto serve para adquirir a sabedoria como para mantê-la.

Alcança-se a sabedoria quando se tem as idéias eternas, é por elas que se alcança a Deus. Porém, esse alcançar ainda não é possuir plenamente, porque a clareza das idéias assusta a alma e esta se precipita ao passado. Quando a alma cai, é na ciência que encontra apoio. A ciência recebe as nossas experiências passadas, que são confiadas à memória, onde são meditadas pelo espírito, permitindo reencontrar os caminhos percorridos pelo pensamento para encontrar o inteligível. Tem-se como exemplo disso “quando ouvimos uma melodia bela e sabida: ela se desenrola no tempo, e, contudo, é no silêncio imóvel da alma que percebemos seu número”. (GILSON, 2007, p.233). E mesmo quando ela deixa de ser, é neste silencio da alma que podemos reencontrá-la; “do mesmo modo, a ciência recolhe as experiências da sabedoria e impede que, perdendo totalmente sua lembrança, depois de qualquer uma delas, tenhamos que recomeçar sua conquista tudo de novo”. (GILSON, 2007, p. 233).

É visto que há uma oposição entre a ciência e a sabedoria, ao mesmo tempo em que há dependência entre elas, principalmente da sabedoria em relação à ciência. Por isso é importante não sacrificar nem uma nem outra, como diz São

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Paulo, “não é sempre para os mesmos que é dado serem sabedores e serem sábios” (apud GILSON, 2007, p. 234), contudo ambas veem do mesmo espírito. Sacrificar a sabedoria é abrir mão do que há de mais elevado no homem, sua dignidade; sacrificar a ciência é mutilar a sabedoria. E como não convém desperdiçar o conhecimento divino, convém nos esforçarmos para ultrapassar a diferença entre elas, ordenando-as harmoniosamente numa mesma unidade, de modo que seja colocado no lugar mais nobre aquilo que há de mais elevado, “a sabedoria”.

3.2 A moral é ato de amor

Estabelecendo a sabedoria como fim, o pensamento se submete a ela e, dessa forma, desenvolve o seu caráter de moralidade. Uma vez ordenado no lugar adequado, o pensamento dispõe cada coisa no seu lugar e sabe como se comportar em relação a elas.

“O primeiro efeito desse desenvolvimento inicial é que, a partir de então, submetido à ação reguladora das idéias, o pensamento julga tudo do ponto de vista de Deus” (GILSON, 2007, p.233).

3.3 Regras e leis: das virtudes e da ordem

Já se sabe que a sabedoria é o que a filosofia ensina, que ela se desenvolve na razão superior, e que a sabedoria propriamente dita se encontra com a alma quando esta se volta para a fonte de todo o saber, as idéia divinas, segundo as quais ela julga tudo e às quais ela se submete para julgar por elas todo o resto. Será tratado agora o para que a alma deva submeter-se à sabedoria.

Desde o principio dessa busca percebe-se que Agostinho vem se ocupando em demonstrar a existência de uma ordem no universo, onde cada coisa tem o seu lugar, e que o da alma é acima do corpo e abaixo de Deus. Dois elementos aí se destacam como verdades: o da ordenação e o da submissão. Essas verdades ficaram mais evidentes depois da prova da existência do ser: “Se duvido, sou”. (GILSON, 2007, p.45). Tem-se ainda as verdades matemáticas, que são eternas. Mas as verdades não existem só pelo conhecimento, elas existem também pela

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ação, apresentando as mesmas características para ambas e tendo também a mesma origem, já que são igualmente verdades.

Assim como as verdades matemáticas são para a ciência verdades certas e indubitáveis, há também na ordem da ação verdades certas e indubitáveis como as ditas pelo pregador: “E eu achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e cujas mãos são ataduras; quem for bom diante de Deus escapará dela, mas o pecador virá a ser preso por ela”. (Ecl. 7,26). Para quem pode deduzir as consequências de um fato tão importante percebe a sabedoria colocada no mesmo plano que o número.

É inegável que é pela sabedoria que vemos o soberano bem e o possuímos. “Pode haver desacordos quanto às vias a serem seguidas para chegar a ela, mas não quanto à meta a ser alcançada.” (GILSON, 2007, p.244). O homem sempre quis ser sábio e feliz e tem noção do que é isso; esse desejo é tão claro quanto as verdades matemáticas, e é nessa noção de sabedoria e felicidade que reside o princípio de toda moral.

A idéia de felicidade esta enraizada na memória da alma. Ela não pode procurar alguma coisa que não tenha dela nenhuma lembrança.

Onde e quando experimentei a vida feliz, para poder recordar, amar e desejar? Não sou eu o único, nem são poucos os que a desejam. Todos, absolutamente todos querem ser felizes. Se não conhecêssemos a vida feliz por uma noção certa, não a desejaríamos com tão firme vontade. Que significa isto? (AGOSTINHO, 1999, p. 28).

É evidente para todos que há regras seguidas pela lei da natureza que tornam as verdades da matemática imutáveis, isto na ordem do conhecimento, mas na ordem da sabedoria elas também existem, pois é de consenso que é necessário respeitar a justiça; subordinar o inferior ao superior; manter a igualdade entre as coisas iguais; dar a cada um o que lhe pertence; que o incorruptível é superior ao corruptível, o eterno ao temporal, o inviolável ao que se pode infligir etc. Todas essas posições são percebidas no pensamento, mas elas não pertencem a nenhum pensamento, pois são comuns a todos os homens e a origem desses conhecimentos “são as regras, ou luzes, ensinadas ao nosso pensamento pelo mestre interior, ou desvelados aos olhos da alma pela luz que clareia todo homem vindo a este mundo”. (GILSON, 2007, p.245). São as regras imutáveis da sabedoria.

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Demonstrou-se aí duas ordens de leis: as do número e as da sabedoria. Precisa-se agora saber se elas são da mesma natureza ou se são irredutíveis uma a outra. Seria inconveniente dizer que a sabedoria vem do número, como ficou parecido. Muitas pessoas sabem contar, mas sábios existem poucos, ou melhor, ainda é necessário encontrá-los. No entanto, a sabedoria tanto é mais rara que a ciência do número, como também é vista como superior a este. Mas quando se avalia a verdade imutável dos números percebe-se que ela é equivalente a da sabedoria; para notá-la é preciso adentrar num tipo de recuo interior e, ao voltar, utilizar de objetos sensíveis para poder expressar-se. Como se pode dizer que são diferentes se residem ambos na mesma região? Quando se lê nas escrituras que a sabedoria “estende com vigor de um extremo ao outro do mundo e governa o universo com bondade” (Sb 8,1), o que é estendido, com certeza, é o número e o que governa é a sabedoria propriamente dita, que coloca não apenas o número, mas também a ordem. Realizando ambos, evidentemente, é porque vem da mesma sabedoria.

Estão aparecendo sinais de que, não pelo menos, a sabedoria não vem do número, e passamos a constatar agora uma diferença evidente entre a sabedoria e o número e que não está na ordem da origem, mas em relação à natureza, aos objetos aos quais se aplicam. “Com efeito, Deus conferiu o número a todas as coisas, mesmo àquelas que são as mais ínfimas e se encontram no grau mais baixo das criaturas; não obstante, os corpos, que são os últimos seres, têm seus números” (GILSON, 2007, p.246). No entanto, Deus não conferiu a sabedoria a nenhum corpo, sequer eles são capazes de reconhecê-los, nem a todos as almas, “mas somente as almas racionais em que ela reside”. (GILSON, 2007, p.246). A julgar por essas regras, percebe-se que os objetos estão abaixo de homens e são julgados pelos números, aos quais os homens dão pouco valor. E mais ainda, como é difícil encontrar um espírito sábio, e fácil encontrar os que sabem contar, os homens têm admiração pela sabedoria e menosprezam os números. Todavia, ao elevar o pensamento e perscrutar as leis do número e da sabedoria, percebe-se que eles transcendem o pensamento, ambos estão subsistentes na verdade, e provem da mesma unidade da natureza. Mas como se dá esse processo, se nos permitimos compreender que os corpos são julgados pelos números e as almas racionais pela sabedoria? Diz o comentador Étienne Gilson: “nenhuma diferença separa os

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números que a sabedoria dá e a sabedoria que os dá” (2007, p.247). Os números estão entranhados da sabedoria; em outras palavras, eles participam da sabedoria até no ponto em que é possível os corpos receberem a sabedoria.

Tal como uma única fogueira aquece os corpos vizinhos e ilumina aqueles cujo distanciamento o impede de lhe aquecer; a mesma fonte aquece os espíritos com o calor da sabedoria e difunde a luz dos números sobre os corpos, cuja materialidade os distancia dela. (GILSON, 2007, p.247).

Portanto, é uma única lei da natureza que submete à sabedoria, tanto ao mundo dos corpos como dos espíritos.

A grande pergunta dessa parte foi: para que a alma deve submeter-se à sabedoria? Para colocar-se no seu lugar dentro da ordem do universo, acima do corpo e abaixo de Deus.

Já foi tratado anteriormente que a alma, deixada a si mesma, cuidaria apenas da vida contemplativa, mas tendo um corpo a reger, ela se voltaria para as coisas temporais a fim de dar vida ao corpo. Ora, antes de ser sábio ou feliz já se tem uma noção do que seja isso, ou seja, sabe-se que para ser feliz precisa-se ser sábio. Para reger o corpo a alma descobre a ciência dos números; para reger-se a si próprio descobre a sabedoria, ambas são verdades imutáveis e, portanto, tem a mesma origem, a sabedoria. Fica claro agora que a alma se submete à sabedoria para iluminar as suas ações na regência do corpo e aquece-se em relação a beatitude. A alma, uma vez aquecida, esta pronta para fundir-se ao objeto de seu desejo, que é a sabedoria. Para que isto aconteça, basta cumprir as exigências impostas pela lei eterna de que tudo seja perfeitamente ordenado. A paz do corpo é a ordenada complexão de suas partes; a paz da alma racional é a ordenada harmonia entre o conhecimento e a ação. Ou seja, que o inferior esteja subordinado ao superior (AGOSTINHO, 2001). No entanto, essa submissão não é imposta de qualquer maneira; o homem recebe da própria sabedoria que ele busca o auxílio das virtudes cardinais como: prudência, força, temperança e justiça. A temperança refreia os desejos carnais, impedindo que esses dominem o pensamento; desse modo, prepara as vias para a recepção da sabedoria. A prudência faz discernir o bem do mal, “é ela que nos ensina que é mal consentir ao pecado, e bom não ceder ao arrebatamento do desejo” (GILSON, 2007, p.250). A justiça atribui a cada o que lhe é devido, por exemplo, submetendo o corpo à alma e a alma a Deus. Mas isto se

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torna capaz em virtude da força, “pois o homem crendo que é capaz de alcançar a felicidade já nesta vida, mesmo que cheio de males, a força lhes torna capas de suportar estas misérias, esperando a beatitude verdadeira, que unicamente nos libertará” (GILSON, 2007, p.251). É bom lembrar que na doutrina agostiniana estas virtudes não estão na alma, mas, “é precisamente ao conferir as virtudes à alma que Deus lhe confere a vida” (GILSON, 2007, p.251). Não significa dizer que sem as virtudes ela seja menos alma, mas que é uma alma morta como um lago sem vida. Ao conceder-lhe as virtudes, Deus anima a alma assim como a alma anima o corpo. Isto é nada mais e nada menos do que conceder-lhe a ordem da lei universal. Isso responde a pergunta inicial: para que a alma deve submeter-se a sabedoria? Para colocar-se na ordem da lei universal. Sob tais condições, portanto, o homem estaria perfeitamente ordenado? (GILSON, 2007)

3.4 Amor, movimento de busca

Submeter-se a sabedoria para colocar-se em seu lugar de ordem imposta pela lei universal, é dever do homem que, sendo parte integrante dessa natureza, lhe compete submeter-se a ordem como todas as outras essências temporais e eternas, dentro de uma hierarquia de realidades superiores e inferiores. No entanto, aparece uma diferença quando se trata das ações que dependem da vontade humana: “no lugar de serem necessariamente regidas pela ordem divina, essas ações têm como objeto realizá-la.” (GILSON, 2007, p.252). O homem não é obrigado a participar da ordem divina, mas ele deve, para seu bem, querê-la e colaborar com o seu cumprimento. No entanto, conhecendo a regra, tem a liberdade de escolha; é ele quem vai decidir se segue a regra que ver imposta à natureza, ou se cria a sua própria regra. Dessa decisão é que depende a sua beatitude.

A liberdade é própria da vontade, não da razão, no sentido em que entendiam os gregos. E assim se resolve o antigo paradoxo socrático de que é impossível conhecer o bem e fazer o mal. A razão pode conhecer o bem e a vontade rejeitá-lo, porque, embora pertencendo ao espírito humano, a vontade é uma faculdade diferente da razão, tendo uma autonomia própria em relação a razão, embora seja a ela ligada. A razão conhece e a vontade escolhe, podendo escolher inclusive o irracional, ou seja, aquilo que não está em conformidade com a reta razão. (REALE, ANTISERI, 1990, p.457)

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A força que está à disposição da alma, para lhe ajudar nessa tomada de decisão, é a sua vontade. A vontade é primordial para a alma, tanto nas decisões de ordem prática, como nas decisões de ordem cognitiva e teórica. É verdadeiro dizer: assim como é à vontade tal é o homem. Agostinho dizia que com atos da sua vontade chegava onde não queria (AGOSTINHO, 1999). Essa dominação da vontade sobre o homem, marca a psicologia agostiniana e nesta demonstração será estudada primeiro na ordem dos sentimentos, depois na do conhecimento.

Existem quatro paixões fundamentais, das quais dependem todos os movimentos sensíveis da alma. São elas: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza. Desejar é o mesmo que permitir por um movimento livre da vontade na direção de um objeto; alegrar-se é comprazer-se na posse desse objeto; ter medo é permitir à vontade recuar diante de um objeto, desviando-se dele; e entristecer-se é não consentir a um mal efetivamente sofrido. Desse modo, todos os movimentos do homem estão relacionados com um bem a ser adquirido ou conservado, ou com um mal do qual ele quer se livrar ou descartar. “O movimento livre da alma para adquirir ou para evitar algo é a vontade” (GILSON, 2007, p.253). Assim todos os movimentos estão atrelados à vontade.

Na parte do conhecimento, as operações cognitivas da alma também estão ligadas à vontade. Sabe-se que na sensação, que é uma das operações mais simples, a vontade tem que ter a sua parte, intervindo, para que um órgão sensorial seja fixado a um objeto. Para cada tipo de sensação a vontade, através de um órgão correlato, tem papel de uma força, sem a qual a sensação não aconteceria. Pois mesmo que o órgão sensorial permaneça tocando em um corpo, e este continue a lhe informar da sua imagem, mas se a vontade de receber aquela informação não estiver acionada, é como se aquele órgão não estivesse ali. “Ao contrário, se a vontade de sentir cresce em intensidade, não será mais somente uma sensação que se produzira, mas um amor, um desejo e uma paixão verdadeira de sentir, pela qual o corpo todo perderá ser ofertado” (GILSON, 2007, p.254).

Mas quando se trata de uma impressão sensível não percebida, o caso é mais difícil. Se a vontade faz tocar um dos órgãos sensoriais em um objeto qualquer, essa mesma vontade segue em duas direções: uma é para manter o órgão fixado ao objeto, e outra para guardar a sensação na memória, para quando o órgão sensorial deixar de tocar o objeto, a imagem da sensação continuar: Desse

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modo fica claro que não só a sensação está submetida ao controle da vontade, mas também à memória. Se uma informação é verdadeira para a memória, é também para os sentidos internos e para a imaginação.

Como ela retém as sensações e fixa as lembranças, a vontade compõe ou separa as imagens, assim recebidas e conservadas, de maneira a fazê-las reentrar, ao seu agrado, mas combinações mais diversas. Logo, ela combina como quiser os elementos tomados do mundo sensível para criar um mundo imaginário segundo os movimentos livres dela. (GILSON, 2007, p.255).

Dessa forma, a vontade nos induz a admitir uma grande quantidade de erros através dessa vontade conjuctricem ac separatricem, quando traz informações imaginarias e passa como verdadeiras.

Há, no entanto, uma possibilidade de ultrapassar essas informações enganosas e chegar a um entendimento puro, e essa possibilidade também depende da vontade, pois também é ela que constrói o conhecimento racional. Já vimos, quando estudada a atividade intelectual do homem, como a verdade chega ao intelecto humano, mas para que tudo se faça, é necessário que se deseje; como é a vontade que engendra o conhecimento sensível, também é ela que constrói o conhecimento puro. Quando essa vontade de conhecer se torna grande, intensa, poderá ser chamada de estudo; é quando se empenha para conhecer o que é ciência em profundidade (AGOSTINHO, 1995a). Mas não é só para o conhecimento sensível ou para a ciência que a vontade se aplica, é para qualquer tipo de conhecimento. Desse modo, qualquer busca que se apreende, é efeito da vontade sobre os movimentos voluntários; então se pode dizer que a vontade é o homem. Precisa-se agora saber, qual é o princípio da vontade.

É possível verificar nos anais da física grega, principalmente com Aristóteles, que “todo elemento move-se para sua esfera se não for impedido” (apud ABBAGNANO, 2000, 462). Essa esfera é um lugar natural ao qual pertence cada corpo, e se os quatro elementos naturais que compõem a natureza, terra, água, ar e fogo, forem misturados numa espécie de caos, cada um tenderá a voltar ao seu lugar natural, e uma vez tendo alcançado seu lugar, lá pararão: “O fogo no alto, o ar abaixo do fogo, a terra embaixo e a água abaixo da terra” (GILSON, 2007, p.256). Essa tendência natural dos elementos é o que faz a pedra deixada a si mesma cair.

Referências

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