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Para sempre, memória

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Academic year: 2021

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(1)

RESUMO

Procura tratar a questão da rremona do pcnto de vista cntolâgicoenquanto elem::mtode reconhecinentoe afinna-ção do ser humano por si préprio.Exa-mina sucintamenteo projeto ll'Oderno enquantotentativadeliberadade rup-tura cem o passado e suas conseqUen-cias.

O tema da memória

é

subjacente à própria condição humana,

à

medida que suas raizes se fundam nas necessidades de autoconservação e no medo. O im-pulso

à

autoconservação nasce do medo mítico da perda do próprio eu, medo da morte e da destrui-çao.

Ser nascido para a morte, não dotado de onipresen-ça e onisciência, o homem se afirma e se reconhece como tal, enquanto conserva a sua memória e, nela, a possibilidade de manter e transmitir a tradição, transcendendo a morte através da cultura. Primeira das ciências humanas, tão velha quanto a própria memória humana, no dizer de Foucault, a HistÓria exerceu na cultura ocidental, desde a Grecia Anti-ga, a função de mantenedora da memória e do mito, transmissora da palavra e do exemplo, veículo da

*

Arquiteta, Professora da Faculdade de Arquitetu-ra da UFBa.

(2)

tradição. Essa História, até então unilinear, dita prê-moderna, caracteriza-se por uma concepção de tempo eontinuum. O tempo dos homens era regulado pelo devir do mundo, visto atrav€s da cronologia humanal.

Tal era a postura, -por exemplo, dos tratadistas: a descrição e o levantamento das formas antigas, ao tempo que permitiam uma certa continuidade formal, deixavam margem para pequenas acomodações "quando

a vida J.>e. t01Lnava p1Lú,ione.úta de. n01Lma.6 p1Le.e-üaJ.>

,,2.

Esse fluir contínuo, entretanto, é rompido com o Iluminismo, quando a razão, colocada a serviço do conhecimento e como antídoto do medo, propoe-se a liberar os homens da ignorância, das superstições e do obscurantismo. A ciência é tomada como para-digma do saber.

A Revolução Francesa dá-nos o modelo e o exemplo mais dramático de uma nova concepção da História. Como credo religioso, considera o homem de forma abstrata para além das sociedades particulares. A História passa a ser vista como a história do pro-gresso da razão, irresistível e necessário em di-reção às luzes.

Liga-se à perspectiva iluminista a idéia de que a ignorância e as superstições sao mantidas pelo po-der de forma difusa entre os oprimidos, no sentido de dominar suas consciências. A emancipação inte-lectual torna-se emancipação política e a memória, então associada ao obscurantismo,

é

substituída

(3)

pelo esquecimento. Aquilo que é aniquilado sem re-torno deixa o campo livre para um começo. A cons-ciência revoltada quer começar por um ato rápido e decisivo de destruição a partir do qual resplan-decerá um novo dia3• ~ o instante zero de uma nova era, a Era Moderna.

Na gênese do projeto moderno está a renegaçao do passado, a ordem racional da cultura, a idéia de um progresso ilimitado, fundado no desenvolvimento cumulativo da indústria, da tecnologia, enfim, do conhecimento científico como veículo capaz de con-duzir a humanidade à liberdade e à paz social.

Paradoxalmente, para mencionar apenas dois dos inúmeros aspectos contraditórios da modernidade, falar em conhecimento científico tem significado para o homem moderno falar também em violência, destruição e morte. Visceralmente vinculado às ex~gencias do processo bélico, o saber científico é o sustentáculo da demanda de guerra.

Por outro lado, esse saber cientifico, cada vez mais especializado e analítico, para se

auto-rea-lizar necessita da fragmentação do seu objeto de estudo, que passa a ser substituído por um modelo abstrato. Vale dizer, para produzir conhecimento, para alcançar a verdade científica, a ciência mo-derna "mata" o próprio objeto do conhecimento, e a razão, tomada como caminho único e luminoso, capaz de conduzir a Eros, mostra ser também a via que leva a Thanatos.

Acuado, preso nas próprias cadeias por ele RUA,Salvador,v.2,n.3,p.65-74,1989

(4)

das, esse homem tenta retomar as questões metafi-sicas, o questionamento do sentido de ser, reemer-gindo então o tema da memória enquanto impulso

ã

autoconservação. Para o homem pós-moderno o con-ceito de memória se confunde com o conceito mesmo de imaginário, entendido não como fantasia ou ne-gação da dimensão material da história, mas en-quanto conjunto de imagens que cada sociedade

acio-- 4

na nas suas representaçoes . Para Walter Benjamin, História no sentido estrito

ê

o esforço de recupe-raçao da experiência do passado contra um mundo que a reduz a um presente sem passado. Passado ri-tualizado no presenteS

o

momento histórico em que surge o nário

ê

também o momento em que a reconhece o próprio imaginário. Ou acorda de um sonho, mas acorda-se para citar Freud, um .dos monstros

tema do imagi-histor10graf1a seja, não se para um sonho, da modernidade.

~ interessante notar que a cultura ilum1nista;fun-damentada na razão e na ruptura com o passado,

é

a mesma a lançar as bases da preservação dos monu-mentos históricos. Passado e presente desarticula-dos passam a fazer parte de mundos totalmente dis-tintos. A obra do passado passa a ser vista como fato concluído, limitado num determinado tempo e lugar, não mais capaz de sofrer ulteriores redef1-nições figurativas.

Nascem na França p6s-revolucion!ria os primeiros inventários do patrimônio monumental, as primeiras tentativas de teorização no campo do restauro, as primeiras leis relativas

a

preservação. A mesma RUA,Salvador,v.2,n.3,p.6S-74,1989

(5)

cultura que se propoe a esquecer o passado cons-cientemente toma a si a tarefa de preservar os edif!cios que de alguma forma representam esse passad06• A proposição é paradoxal somente em apa-rência, se se leva em conta a conceituação de me-mória, por exemplo, em Proust.

Na sua obra fundamental,

Em bu~~a

do tempo

pe~d~o,

obxa de toda uma vida segundo ele próprio, Proust tenta s·alvar a vida e as sensações da voracidade do tempo. Para alcançar o seu objetivo ele se apóia na memória, não naquela que coleciona mais do que unifica e que, uma vez evocada, devolve-nos um amontoado de fragmentos esparsos.

Proust, como Bergson, distingue dois tipos de me~ mória: a memória voluntária - que diz respeito

à

consciência e que pertence, portanto,

à

inteligên-cia, oferecendo-nos aspectos falsos do passado, porquanto fragmentados e esparsos - e a memória dita involuntária - que se forma no inconsciente pela atração que um momento exerce sobre o outro, permanecendo a! submersa até que um pequeno elo de similaridade entre o passado e o presente desenca-deie uma explosão capaz de trazer ao presente to-do um segmento de eventos contíguos.

A deflagração da memória involuntária nao nos faz reviver o passado enquanto tal, mas oferece-nos a realidade em toda a sua inteireza: o passado em toda a sua forma e solidez restaurado no presente. Emergindo da memória involuntária, somente as ima-gens entendidas como representação de um complexo emocional e intelectual num determinado instante

(6)

do tempo, e somente elas, trazem para Proust o selo da autenticidade. Nada daquilo que não tivemos de elucidar para nós próprios, nada do que estava claro antes de aparecermos pertence-nos de fato,se nós nem ao menos sabemos que

é

real, diz Proust. A memória involuntária, por ser inconsciente,

ê

a instância que conserva o passado de maneira durá-vel, enquanto que a consc1encia, através da qual todas as impressões são introduzidas nas camadas mais profundas do inconsciente, preserva lembran-ças, sendo estas o verdadeiro esquecimento. O in-consciente

é,

portanto, o lócus da memória,enquan-to que o lugar do esquecimento

é

a consciência. Não

é

estranho, pois, pensar que a mesma cultura que gestou a modernidade tenha ela própria nutrido as primeiras experiências no campo da preservação dos monumentos históricos. De fato, só pode ser lembrado aquilo que foi previamente esquecido. A institucionalização da preservação do patrimônio cultural, tal como

é

sentido pela modernidade, diz respeito mais ao esquecimento que lhe

ê

genético do que propriamente

à

memória que lhe

ê

estranha. A perplexidade do homem moderno ao se defrontar com o seu próprio esquecimento poderá ser bem ilustrada com um exemplo retirado da obra de Italo Calvino, Le

Qittâ invi~ibili

na parábola de zora7, a cidade inesquec!vel que, para melhor ser lembra-da, quis permanecer igual a si própria: "Pa~a

al~m

do~ ~ei~

~io~ e da~

t~ê~

Qadeia~

de montanha~

~u~ge

Zo~a,

cidade que quem a v~u uma

vez

nunQa

mai~

a e~qaeQe.

Não que ela deixe

na~ ~eQo~da~õe~.

(7)

eomo out~a4

eidade4 memo~ãvei4,

uma imagem

6o~a do

eomum.

Embo~a não m04t~e

beleza

ou ~a~idade4

pa~-tieula~e4,

Zo~a tem a p~op~iedade

de pe~maneee~

na

memó~ia

ponto po~ ponto,

na 4uee44ão

da4 4ua4

~a4,

e da4 4ua4 ea4a4 ao longo da4 ~ua4, e da4

po~ta4

e da4 janela4 na4 ea4a4.

O

4eu 4eg~edo

e4tâ no

mo-do eom que o oiha~ pe~eo~~e

6igu~a4

que 4e 4ueedem

eomo em uma pa~titu~a

mU4ieal,

na qual não 4e pode

t~oea~

ou muda~

nenhuma

nota.

O

homem

que tem

g~a-vado na memõ~ia

eomo Zo~a

é. eompo4ta,

li noUe

qUM-do in4one,

imagina-4e

eaminhando

po~ 4ua4 ~ua4

e

~eeo~da

a o~dem em que 4e 4ueedem

o ~elõglo

de

eo-b~e,

a banea li4t~ada

do ba~bei~o,

o ~epuxo

eom

4eU4 nove jato4,

a to~~e

de vid~o

do a4t~ônomo,

a

ea4inha

do vendedo~

de

melaneia4,

a e4tâtua

do

e~emita

e do leão,

o banho tu~eo,

o ea6ê

da

e4qui-na, a t~ave44a

que vai da~

no

po~to.

E44a

eidade

que não 4e apaga da mente

é. eomo uma ~etZeula

em

euja4 enva4adu~a4

a4 pe44oa4

podem

di4pO~

a4

eoi-~a4 que que~em ~eeo~da~:

nome4

de homen4 ilu4t~e4,

vi~tude4,

núme~o4,

ela44i6iea~õe4

vegetai4

e

mine-~ai~,

data4 de batalha4,

eon4tela~õe4.

Ent~e

eada

no~ão

e eada ponto

do itine~ã~io

pode~ã

e4tabele-ee~ um elo de a6inidade

ou de eont~a4te

que

4i~va

de elemento

de6lag~ado~

da memó~ia.

De tal

6o~ma

que

o~

homen~ mai4 4ãbio~

do mundo

4ão aquele4

que

gua~dam

Zo~a na mente.

Po~é.m,inutilmente, viajei pa~a vi4ita~

a

eidade:

ob~igada

a pe~maneee~

imóvel

e igual

a 4i

p~õp~la

pa~a melho~

4e~

~eeo~dada

Zo~a 4e

e4vaiu,

4e

de~-6ez e de4apa~eeeu.

A

Te~~a a

e4queeeu".

(8)

1. Foucault, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. são Paulo: Martins Fontes, 1985. p.384.

2. Rossi, Aldo. Autobiografia científica. Barcelo-na: Gustavo Gili, 1984, p.lO. A avidez pela no-vidade absoluta, juntamente com a convicção de que a inovação como tal é algo por si s5 dese-jável, são características marcantes do mundo em que vivemos, estranhas até o século XVII, quando a rejeição de toda a tradição torna-se comum. Sobre o assunto, ver Arendt, Hannah. ~ condição humana. Rio de Janeiro: Forense Uni-versitária, 1983. p.260-269.

3. Starobinski, Jean. 1789, os emblemas da razão •. são Paulo: Companhia das Letras, 1988. p.38-52. 4. Ribeiro, Renato Janine. "Moda" histórica revi-ve narrativa e cria objetos. Folha de são Pau-~ são Paulo, 12 novo 1988. Livros, H-I. Nesse artigo o autor examina sucintamente os novos caminhos apontados pela historiogra~ia contem-porânea nos últimos 20 anos, quais sejam a re-cuperação do relato dos fatos, condenado pelas mais importantes correntes modernas (marxismo, estruturalismo, semiõtica, etc.> e o interesse por temas que até então não eram merecedores de atenção por parte dos historiadores: sexo, co-zinha, amor filial, bruxaria, etc. Para essa "nova" história, que dá ênfase

ã

eficácia do simbõlico, o factual não interessa tanto en~ quanto fato, mas por aquilo que revela, porque o social

é

pensado a partir da idéia ampla de cultura. Aí são contempladas, por exemplo, a

(9)

antropologia, as teorias freudianas do ato fa-lho, do sonho, etc.

"Muda,

ne~~e

hi~t5~ia,o

pa-pel do imaginã~io.

A~

õo~ma~ mentai~

nao

~ao

mai~ medida~

pela ~ealidade

~atenial

e ela~

ex-te1z.nMma~

ela~ pn5p1tia~ ~e entendem

c.omo pa~te

da nealidade,

c.omo loc.al de l~ta,

e não

me~o

dec.alque, eõeito

ou ~epe~c.u~~ão pa~~iva

de

ten-~oe~

c.uja

c.ena e~tã Õo~a dela, O hi~tõ1tic.oe~tã

em

toda

a pa~te".

Id., ibid.

5. Benjamin, Walter. Magia e têcnica, arte e polí-tica: ensaios sobre literatura e história da cultura. são Paulo: Brasiliense, 1987. p. 222-232. 6. No Brasil o Íenâmeno se repete: em 1936, como

Diretor do Departamento de Cultura da Municipa-lidade de são Paulo, Mário de Andrade redige o anteprojeto que veio a servir de base

ã

cria-ção, no ano seguinte, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mário, por essa epoca, jã realizava o primeiro inventário bra-sileiro.

7. Calvino, Italo, Le cittã invisibili. In: _ La cittã e Ia memoria. Torino: Einaudi, 1972. p. 23-24. O romance, em forma de parábola, sur-preende o grande imperador Kublai Kan no momen-to em que, superado o orgulho pelas terras con-quistadas, ele se dã conta de que pela ampli-dão e diversidade de seus domínios, lhe será negado o conhecimento do seu próprio imp~rio. ~ nesse momento que Kublai Kan solicita a um vi-sionário, Marco Polo, que lhe faça o relato das suas viagens por estranhas cidades que não se encontram nos mapas cartogrãÍicos e nem se sabe a que epoca pertencem. E as descrições dessas

(10)

cidades de mil e uma noites vão-se sucedendo num lento transmutar-se, até nos surpreendermos em meio ãs megalópoles contemporâneas. No rela-to de Zora, como nos de Diomira, Isidora, Zaira e Maurilia, o tema da mem5ria

é

exp11cito.

Referências

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