OS MENORES E O CINEMA

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Texto

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As relações entre os menores e o cinema têm mere-cido cuidados extremos nas mais importantes nações do Mundo. Se exceptuarmos a Inglaterra, onde, por simples iniciativa particular, os menores são defendidos do mau cinema, sõmente a França, entre os principais Estados da Europa, se têm abstido de tomar providências legais para os proteger contra os perigos do cinema. A assis -tência das crianças às projecções cinematográficas, o seu emprêgo como actores na produção de filmes e a fiscali-zação das salas de cinema têm constituído objecto de di -plomas legais tendentes a eliminar ou pelo menos limitar o mais possível certos abusos qm\si inerentes à explora -ção da ind\1stria do cinema.

De todos estes aspectos, o mais importante, sem dú -vida, refere-se à assistência dos infantes e adolescentes às projecções cinematográficas.

A entiga Comissl!.o do Patrocinio da Infância, da

So-ciedade das Nações, que reconheceu a importância e o carúeter internacional desta. questão, interessou-se desde o seu comêç<> pela solução do delicado problema.

Não procedeu diversamente a. Comissão Consultiva

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algum tempo, trabalhou de colaboração com o Instituto Internacional do Cinematógrafo Educativo de Roma. Ainda em 2 de Agõsto de 1988 foi publicado o Relatório

da Comissão Consultiva sôbre o Cinema Recreativo e a

Mocidade- interessante compêndio das conclusões de

carácter provisório a que a Comissão chegou depois de

sérias investigações e estudos feitos pela Comissão de

Patrocínio da Infância, em 1986, Comissão Consultiva das Questões Sociais, em 1997 e em 1988, e Quinta Co-missão da Assembléia da Sociedade das Nações, em 1996

e 1987.

Também & Igreja se tem interessado vivamente por êste problema. So.b o aspecto doutrinal basta cit-ar a Carta escrita em 1984 pelo Cardinl Pacelli ao Presidente do

Ofício Católico Internacional do Cinema, a alocução de Sua Santidade aos delegados da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica reünida em Roma, em 1934, e a Encíclica Vigilanti Cura de 29 de Junho de 1998, em que o Pontífice reconheceu ua necessidade de todos se interessarem pela produçüo e expansão dos bons fil-mes, fazendo exercer a sua acção benéfica sôbre adultos

e menores''·

Ainda no último ano André Brcun-Lo.rrieu apresen-tou e defendeu perante o júri da uEscola dos Altos Es-tudos Sociaisn, de França, a tese Le R6le Social.du

Ci-1t~ma, consagrada em grande parte Us relações entre os menores e o cinema.

Nem ao Legislador e Govêrno português passou des· percebida a acuidade do problema. Desde 1925 têm sido

publicados alguns diplomas com o fim de regular o

in-gresso das crianças nas sessões cinematográficas. Infe-lizmente, as suas disposições não foram regularmente

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observadas. Constitue objecto de estudo no Ministério da Justiça, estudo que certamente será oompletado no Mi-nistério da Educação Nacional, o Projecto do Código da Infância, que à mesma matéria se refere na secção inti

-tulada. Dos Cine-mas, Teatros e outros Divertimentos. E na. Assembléia Nacional, depois do Projecto de lei de 19 de Dezombro de 1985, foi apresentado em sesslio de 15 de Dezembro de 1988, pelos ilustres Deputados srs. Drs. D. Domitila de Carvalho e José Cabral, o Projecto de lei n.0 8, que, entre outros preceitos, proíbe a.

assis-tência de menores de sete anos -o. quaisquer espectáculos de cinema e de menores de dezasseis anos aos que não sejam expressamente organizados paro. crianças.

Sôbre êste Projecto de lei foi ouvida a Cô.mara Cor

-porativa, que em seu pare<:er sugeriu: 1. o que, antes de se modificar o regime vigente sôbre defesa da infilncia e da adolescência dos perigos do cinema, de,·e exe-cutar-se êsse regime para se verificarem C?S resultados e reacções que oferecer 6 sua execução; 2.0 que a maté-ria do Projecto de 1988 deve ser considerada no Código da Infância;

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o que os artigos do Projecto de 1988 de-vem ser substituídos por catorze Bases que serão insertns

no Código da Infância prestes a ser publicado, ou no diploma especial que, independentemente do Código da lnfiincia, fôr promulgado, se, porventura, a Assembléia

~acional assim o decidir; 4.0 que, se a Assembléia 'a· cional reservar para o Código da Infância. a consideração dãs catorze Bases, o Ministro da Educação Kacional deve

expedir instruções que, de harmonia 00111 a doutrina das Bases, regulem as condições em que os menores podem

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Que pensar dêste Projecto de Lei e do Parecer da Câmara Corporativa?

Na verdade representa problema delicado o estddo das relações entre os menores e o cinema.

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certo que infantes e adolescentes, sempre ávidos de saber, constituem o melhor público do cinema, porque o filme corresponde precisamente no mecanismo inte lec-tual dos jovens, que pensam qut\si sempre por associações

de idéias, predominantemente visuais. Mas, por causa

da profunda influâneia. psicológica do cinema na menta-lidade dos infantes e adolescentes, e, principalmente, pela sua extrema sugestionabilidade, excede tôdas as previ· sões e. influência perniciosa que sôbre êles exercem certos filmes. Registam-na homens de ciência, educadores, juí

-zes de menores, o Instituto Internacional do Cinema

Educativo da Sociedade das Nações.

Nüo pode sequer discutir-se a utilidade do cinema pedagógico - o filme de ensino e o filme de educação; o filme de ensino composto de imagens claras e belas que proporcionam ao seu público satisfação simultân ea-mente artística e intelectual; o fiJme de educação que procura elevar as multidões ministrando-lhes nações cla-ras e precisas que pulverizam prejuízos e erros.

O próprio filme recreativo, que po<le ser de ensino e de educação, se fôr realizado por educador eminente e operador que seja também grande artista, exerce influên

-cia. moralizadora se fizer viver, diante dos olhares an-siosos das CI·ian9QS, espectáculos reconfortantes, cenas de dedicação, a nobreza do trabalho, a recompensa das gran-des gran-descobertas, a beleza da vida, os gran-destinos imortois do homem.

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ho-rizontes artificiais, pode destruir os primeiros sentimentos

de moralidade, deforma a consciência e a mentalidade, faz bai.ur o nível espiritual, propaga idéias pagãs e ma-terialistas e constitue por vezes, causa, pelo menos se-cundária, ooesional, de crimes.

Não existirá remédio eficaz para preservar a mocidade da corrosão de semelhante veneno?

Existe, sem dúvida.

Enquant{) a sociedade portuguesa não estiver inte

i-ramente catequizada nos princípios da doutrina e moral cristãs - que infinda messe aberta à diligência da Acçiio

Católica ! - o Estado deve intervir, no exercfcio da sua

função supletiva, para defender os infantes e os e.doles-oentes dos seus próprios pais, tutores ou encarregados

de educação, indignos ou incapazes.

Dentro desta orientação os infantes e os adolescentes serão eficazmente defendidos dos efeitos do mau cinema se apenas tiverem possibilidade de assistir às sessões cine-matográficas em que forem projectados filmes competen-t-emente elaborsdos e judiciosamente seleccionados para os da sua idade. Na selecção dos filmes está a garantia

da defesa.

Observa André Braun-Larrieu: uOs autores dos filmes devem possuir sensibilidade inteligente e conhecimentos minuciosos da alma. infantil)) ... uOs filmes devem ser

meticulosa e judiciosamente escolhidos11 .. uReflectida

-mente parece-nos que o melhor meio de resolver o problema do cinema das crianças seria organizar

espectá-culos especiais para elas. fiscalizados por comissão

com-posta de personalidades pedagógicas, médicas e artís-tioosn.

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que a Comissão especial constituída. pelo delegado do Ministro da. Educação Nacional, médico escolar, peda-gogo, juiz de menores e delegado da Obra das Uãis pela Educação Nacional, deve proceder à. selecção dos filmes que podem ser vistos pelos menores que tiverem mais de

três anos, ou mais de set.e, ou mais de doze anos. Observa a Câmara Corporativa: uA divisão que se pre-coniza tem, como tôdas as dêste género, algo de

artifi-cial, porquanto o desenvolvimento psico-biológico não se

faz igualmente em todos os indivíduos.

((O primeiro grupo, dos três aos sete anos, procura abranger crianças em que domina ainda a sensibilidade

instintiva sôbre as funções superiores da inteligência.

nO segundo grupo, dos sete aos doze anos, pretende

reiinir crianças eventualmente nesse período de latência

instintiva e em que as (unções superiores tendem n tor-nar-se predominantes.

nO terceiro grupo, dos doze aos dezasseis anos,

com-preende nitidamente o período da puberdade, cm que as tendências instintivas se reacendem de novo int

ensa-mente, mas em que, nos casos normais e com educação

apropriada, as (unções superiores, já bem desenvolvidas, mantêm a. sua superioridade hier{nquica.

uNa verdade, todos os indivíduos dêstes tl·ês gmpos devem ser admitidos nos cinemas para assistirem à pro-jecção de filmes seleccionados)),

Kilo pode haver repugnância em admitir os menores de três a. sete anos em sessões cinematográficas para. ve-rem projecções de filmes seleccionados.

As crianças de três a sete onos já. se interessam pelo

cinema. Nenhumas considerações impedem que, durante o dia sOmente, se lhes proporcione alguns momentos da

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sA alegria que para elas representa a assistência à pro-jecção de um filme.

Impõe-se, entretanto, existir extrema delicadeza na

selecção dos filmes que, pelas impressões feitas e sensa

-ções causadas, e por sua. própria. duração, não devem

perturbar o natural equilíbrio das crianças.

Por outro lado, se os filmes forem cuidadosamente

adaptados à. mentalidade infantil, podem mesmo nessa.

idade servir de instrumento de educação, desenvolvendo,

pela variedade e sucessão de côres e movimentos, o

sen-timento artístico das crianças e ministrando-lhes

peque-ninos exemplos de ordem, que bem poderão completar os

objectivos da educação doméstica.

Documento o assêrto com a observação constante dos

efeitos produzidos pelos filmes, cuidadosamente seleccio

-nados, sôbre os meus dez netos - crianças

normais-que, da idade dos três aos sete anos, têm assistido,

sem-pre de dia, a projecções de filmes criteriosamente

esco-lhidos, em regra desenhos animados e de pequena

duração. Ni\o se aborrecem; gosOO.m do divertimento;

pedem-no; e, ministrada em casa a refeição habitual,

dormem tranqüilamente durante a noite, sem quaisquer

sonhos perturbadores.

Nem se argumente contra a admissão dêstes menores

invocando as conseqüência-s físicas da freqüência do

cinema por crianças de tenra idade. Diz no citado

Rela-tório a Comissão Consultiva das Questões Sociais da

Sociedade das Nações: uTem-se estudado atentamente o

risco da fadiga visual e o efeito que certo género de filmes

vistos A noite produz no sono das crianças. Seria, entre·

tanto, pouco prudente fazer uma generalização sôbre esta.

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cinema, do estado de saúde geral da criança, da fr~

qiiência. e hora das representações a que ela assiste.

A ventilação e iluminação modernas reduzem ao mínimo,

se não eliminam por completo, os possíveis risoos dos

efeitos nocivos à saúde11.

Nenhumas outras considerações posso fazer no

aper-tado período de dez minutos. Nem é necessúrio. Sôbre

êste tema-Os Menores e o Cü~ema-t~m a palavra,

em última instância, os chefes de família, ou, melhor,

as mãis que o saibam ser, isto é, as m&is que estejam

em condições de saber e poder educar os filhos nos

prin-cípios da doutrina e moral cristãs tradicionois do nosso

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Referências

temas relacionados :