Episódio 016 | Permitindo-se Ser Amada
[Liz] Olá, eu sou a Liz Hermann.
[Isabella] E eu sou a Isabella França.
[Liz] E você está ouvindo o episódio 16 do podcast “Entre Nós”: um podcast feito por mulheres e para mulheres, com conversas curtas, honestas e semanais, que vão nos ajudar a desatar com mais clareza alguns nós difíceis que a vida nos dá. Fica com a gente.
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[Liz] O assunto de hoje é um tema que vai na base do que é vulnerabilidade. A gente sempre conversa, né Bella, sobre vulnerabilidade e o título do podcast podia ser alguma coisa relacionada à vulnerabilidade de tanto que a gente fala disso. Mas eu sinto que é porque nós duas estamos trabalhando nessa área na nossa vida. Será que é isso mesmo?
[Isabella] Eu acho que é. Uma coisa que eu percebo às vezes é o efeito rebote: a gente fala aqui sobre isso e aí normalmente, na semana seguinte que a gente gravou, eu faço exatamente ao contrário. Então eu acho que é essa luta de querer se abrir, mas todo mundo tem seus medos e suas inseguranças e a gente acaba fechando a porta de novo pra se proteger. Aí eu penso que eu acabei de falar sobre isso e que eu preciso me abrir de novo.
[Liz] Aliás, o curioso são as coisas que a gente corta do episódio. Às vezes a gente fala uma coisa e depois pensa melhor sobre aquilo, mas é exatamente isso: a luta constante de saber até onde falar, até onde é melhor não falar. E nem sempre isso vem de um lugar de não ser sábio compartilhar alguma coisa, mas vem mais de um lugar de não querer se expor. E é esse medo, essa tensão constante, que é a prática da vulnerabilidade.
Mas eu admito que o tema de hoje é algo que seria o exemplo maior de vulnerabilidade na minha vida porque é uma coisa que é muito forte na forma como eu cresci. É claro que eu pensei que poderia falar sobre isso de um lugar mais distante, sem ter que colocar nada da minha vida mesmo...
[Isabella] “Uma amiga minha uma vez, passou por tal coisa...” (Risos)
[Liz] “É porque eu conheço uma pessoa...” (Risos) Mas a verdade é que a gente continua perdendo em não colocar exemplos mais concretos porque sempre vai parecer uma coisa mais distante da nossa vida quando na verdade não é. E aí quem está ouvindo fica pensando que é a única a passar por isso, como se a gente também não passasse por essas coisas. Então por isso que eu acho que é importante falar, mas com a sabedoria que a Brené Brown fala, tanto no podcast como nos vídeos, de que você vai compartilhar certas coisas com quem conquistou o direito de ouvir e ter acesso àquela informação sobre você. Então é claro que eu não vou falar coisas do íntimo da minha vida, mas eu acho que essa comunidade que a gente tem criado aqui no podcast já é um espaço de confiança que a gente pode se abrir quanto a certas coisas que só vão ajudar outras pessoas a crescerem também. Eu já sinto pelos comentários que a gente recebe que já tem um senso de comunidade muito legal.
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[Isabella] E eu vi até na ação que a gente fez agora, de compartilhar as frases, como até o vocabulário ficou parecido. Parecia que a gente era uma turminha. Quem compartilhou também trouxe questões inovadoras e muito pessoais, mas que ressoavam umas com as outras e que se completavam.
[Liz] Eu também tenho sentido muito isso, parece até que somos uma comunidade de amigas - e amigos também porque tem vários homens - que se encontram toda semana pra conversar. E é por isso que a gente quer fechar essa pequena série de quatro episódios sobre relacionamentos, com uma coisa que é muito importante abordar e que pode ser a luta de muitas pessoas que escutam o podcast.
Eu acho que pra muita gente é tentador pensar que o mais difícil é encontrar alguém pra se relacionar ou, por exemplo, amar a outra pessoa de todo coração e relevar certas questões. Ou seja, aquela coisa toda de pensar que o desafio é amar outra pessoa para o resto da vida quando, na verdade, eu acho que pra muita gente um dos maiores desafios é se permitir ser amado. Eu acredito que muitos dos homens e mulheres que escutam o podcast podem também sentir isso, então por isso eu quero compartilhar um pouquinho porque é algo que eu cresci carregando e que veio muito forte na minha vida.
Hoje em dia, quando eu olho pra trás, eu consigo ver que durante a minha adolescência toda eu jurava que nunca tinha ninguém interessado em mim, que ninguém estava me dando bola, mas isso vinha de um lugar onde eu acha que eu não merecia ser amada, que não teria nenhum doido varrido que estaria afim de mim. E só depois, como adulta, que eu comecei a perceber esses padrões que eu estava carregando.
Há um tempinho, eu ouvi um podcast da Brené onde ela fala exatamente que ela não percebia a dificuldade que ela tinha de se permitir ser amada, e que um dia, quando ela estava reclamando do atual esposo dela, que na época era namorado ou noivo, de que ele não fazia ou fazia alguma coisa, a psicóloga dela falou assim: “Deve ser difícil mesmo, né?” E ela respondeu: “É muito difícil, porque ele é desse e desse jeito...” Mas a psicóloga interrompeu e disse: “Pois é, mas eu estou falando de outra coisa. É realmente muito difícil você lidar com uma pessoa que te ama mais do que você mesma.”
[Isabella] Aaaaiii.... (Risos)
[Liz] E ela respondeu: “Quê? Como assim? Do que você está falando? Você está demitida!” (Risos) E ela brinca como ela ficou ultrajada com aquilo, mas que depois ela parou para perceber que era verdade: “O meu marido me ama mais do que eu e eu não tolero a forma como ele está mostrando carinho e cuidado por mim.” E é muito curioso como muitas pessoas que carregam esse tipo de conflito interno às vezes nem conseguem reconhecer que a atitude do outro é na verdade uma demonstração de amor. Pra ela é algo que sufoca ou uma série de outras coisas, mas não é uma demonstração de amor.
E no meu caso com o Lukas é engraçado porque eu carreguei muito disso a minha vida toda. Eu cresci no que tecnicamente em psicologia é chamado de “Quadro de abandono e negligência” porque meus pais se divorciaram quando eu era muito jovem e eu cresci longe do meu pai. E um quadro de negligência traz uma série de traumas muito parecidos com os traumas de abuso e violência porque na base sentimental ele tem uma série de pontos em comum. Cada criança é afetada de um jeito, então por exemplo, se os
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pais se divorciam e tem vários filhos, muito provavelmente cada um vai ter uma resposta completamente diferente.
A minha resposta nesta questão toda, que hoje em dia eu entendo, é que eu sempre acreditei que eu tinha que conquistar o direito de ser amada, que eu teria que lutar por isso. O problema maior dessa história, quando você cresce com esse tipo de mentalidade, é que você nunca chega lá, porque você sempre vai achar que tem coisa faltando pra você ser merecedora ou merecedor de pertencimento, de amor, de carinho, de cuidado. E até hoje eu fico chocada com o nível de paciência que o Lukas tem comigo nesse processo porque ele não cresceu num quadro assim então ele não tem as mesmas questões que eu. É claro que todas as pessoas têm as suas questões. A gente às vezes exagera como se fosse só filhos de pais divorciados que têm problema, mas não, cada um só tem pacotes de problemas diferentes. Mas, a paciência do Lukas em lidar comigo nesse processo que é algo que eu não consigo entender! O nível de carinho e paciência.
[Isabella] Eu vejo muito esse padrão de comportamento também até no nosso relacionamento com Deus.
Como muitas vezes a gente acha que tem que fazer alguma coisa pra merecer o amor dEle, pra merecer as bençãos que Ele tem pra nos dar... E a gente distorce tanto esse relacionamento que a gente tira Deus da posição de ser Deus, desse lugar soberano e principalmente desse lugar de muito amor. Então quando a gente não se permite ser amada, a gente tira das nossas relações interpessoais o papel do outro na nossa vida. A gente tira o papel do marido, tira o papel do namorado, do pai. Toda vez que a gente recusa isso, a gente cria bloqueios e muros, interpreta de forma errada as ações das pessoas na nossa vida e a gente empobrece os relacionamentos.
[Liz] Eu amei o que você falou sobre como a gente carrega isso na nossa visão de Deus e no nosso relacionamento com Ele. E tem tudo a ver, porque a gente teve um quadro de separação de Deus, por causa do pecado. Então a gente criou os mesmos distúrbios e disfunções no nosso relacionamento com Deus que a gente cria quando cresce separado, por exemplo, dos pais. Todo ser humano luta com isso a vida toda: de tentar ganhar o favor de Deus, porque houve essa separação que criou todas essas disfunções no nosso funcionamento dentro dessa relação com Deus.
Eu acho isso fascinante porque quando a gente começa a ser mais cuidadoso e observador e analisa com mais cuidado essas situações a gente vê quão mais amplas elas são. Como o nosso relacionamento com Deus está afetando os nossos relacionamentos interpessoais e tudo mais. E uma coisa que eu preciso dizer, vindo de uma infância assim, é que não adianta tentar fazer essa pessoa, que passou por isso, entender as coisas na base da repreensão ou perdendo a paciência, como eu vejo muita gente fazendo.
Na verdade, o que qualquer pessoa que tenha essa mentalidade de que tem que ganhar o amor dos outros, de que tem que conquistar o seu valor e essa sensação de pertencimento, precisa é de tempo mesmo. Permitir que essa pessoa tenha tempo para construir essa confiança que é necessária para passar por essa fase. E a mesma coisa vai pra você que tem esse quadro: se você passa por isso, se você tem carregado isso por toda a sua vida, a primeira coisa que é importante trabalhar é justamente entender
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cruz por nós até tudo que Ele faz agora pra te alcançar é justamente para que você saiba o quanto você é amado e isso é algo que é muito restaurador.
É claro que às vezes você vai ter um quadro que é tão sério, com cicatrizes tão profundas, que é muito importante procurar ajuda terapêutica, mas é importante que a pessoa entenda isso, o valor que a gente tem perante Deus, e isso já traz uma ressignificação muito importante. Em segundo lugar, é muito importante também a gente entender que a gente só vai conseguir amar e ter compaixão de verdade do nosso próximo na medida que a gente tem amor e compaixão por nós mesmos. Esse é o grande ponto que demorou muito tempo pra eu entender: eu nunca ia conseguir amar os outros me odiando. E eu não percebia como ódio, mas eu era a minha maior inimiga porque eu estava sempre lutando contra mim mesma e me dizendo que eu não merecia pertencimento, que eu teria que sempre lutar por essas coisas.
[Isabella] E esse é um assunto que vem reverberando no podcast. A gente tem um episódio que eu vejo muitos dos ouvintes falando como se fosse um episódio emblemático, que é o episódio 4 “O limite da empatia”, aonde a gente fala muito sobre isso e eu acho que construiu uma base para os assuntos que a gente tem tratado aqui. Um deles é essa desmistificação do “Ame ao teu próximo como a ti mesmo”; o que é isso de fato? E é isso que você está falando: é uma via de mão dupla. Eu não começo com o outro e depois me amo e eu também não começo comigo para depois amar o outro. Tudo isso acontece ao mesmo tempo.
[Liz] Exatamente. Esse é o ponto desse verso que a gente cita muito no meio cristão, quando Jesus fala que a gente deve amar ao próximo como a nós mesmos. O curioso é que pouca gente sabe que a primeira parte desse mandamento que Jesus está dando está lá no Antigo Testamento. Se você abrir a sua Bíblia em Deuteronômio 6, nos versículos 4 e 5, você vai ver Deus falando o seguinte para o povo de Israel:
“Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.”
Então esse verso é o que Moisés está comunicando a partir do que Deus falou para ele, só que curiosamente nesse verso só está falando sobre amar a Deus, mas quando a gente vai pro verso mais conhecido, que está em Mateus 22:39, a gente vê que Jesus coloca esse outro detalhe que é extremamente importante. Então depois de Jesus dar esse primeiro mandamento que a gente leu, Ele diz o seguinte: “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Eu não vou ficar aqui caindo naquela ladainha de tentar provar qual que é mais importante, se é amar ao teu próximo ou amar a si mesmo. O grande ponto é que quando a gente olha pra nossa vida com tudo que a gente carrega, e na minha vida isso hoje em dia está muito claro, como eu não conseguia amar completamente, não só o próximo mas muito menos a Deus, porque eu não tinha amor e compaixão por mim mesma. E aí você vê como são questões que se retroalimentam, porque sem um não tem o outro. E isso é muito importante para que a gente possa trabalhar essas questões com sabedoria e não simplesmente continuar vivendo dessa forma, mas sabendo que é possível fazer mudança.
E aí eu quero dar uma dica aqui para os homens e mulheres que estão escutando e têm alguém na sua vida que tem essas dificuldades de não se permitir ser amado. A gene já falou aqui sobre você se permitir,
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mas às vezes você está lidando com uma pessoa assim – como o Lukas lida comigo há sete anos. A primeira coisa que eu te digo é não desista dessa pessoa. Mas eu diria também pra você buscar mecanismos para que essa pessoa entenda que você percebe e que você está disposto a caminhar com essa pessoa, porque você agora tem, pouco a pouco, entendido o que ela ou ele tem vivido e carregado todos esses anos. E principalmente, que essa pessoa possa ver o cuidado de Deus através de você e dos outros que estão ao redor dela e se preocupam com ela.
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[Liz] Que nessa semana, você aprenda a se amar e a se permitir ser amada ou amado e que você estenda essa benção às pessoas ao seu redor.
[Isabella] Se você gostou desse episódio compartilhe com uma amiga ou um amigo, e converse com a gente lá no Instagram, pelo perfil @podcastentrenos. Obrigada por desatar esse nó com a gente. Até semana que vem.