• Nenhum resultado encontrado

ENSAIOS DE HISTÓRIA 2

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "ENSAIOS DE HISTÓRIA 2"

Copied!
230
0
0

Texto

(1)

1

(2)

2

ENSAIOS DE HISTÓRIA

(3)

3 ENSAIOS DE HISTÓRIA

®UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA SÃO PAULO STATE UNIVERSITY

REITOR

PROF. DR. SANDRO ROBERTO VALENTINI VICE-REITOR

PROF. DR. SÉRGIO ROBERTO NOBRE

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS DIRETOR

PROF. DR. MURILO GASPARDO VICE-DIRETOR

PROF. DR.ª NANCI SOARES

CURSO DE GRADUAÇÃO COORDENADOR

PROF. ª DR.ª ANA RAQUEL MARQUES DA CUNHA MARTINS PORTUGAL VICE-COORDENADOR

PROF. DR MARCOS ALVES DE SOUZA

(4)

4

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University

ENSAIOS DE HISTÓRIA

Revista do Curso de Graduação em História

ISSN 1414-8854 Ensaios de História Franca v. XX, n. 1/1 p. 230 2019

(5)

5

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University

ENSAIOS DE HISTÓRIA

Revista do Curso de Graduação em História

ENSAIOS DE HISTÓRIA Comissão Editorial

Presidente

Prof. Dr. Marcos Alves de Souza

Prof. Dr. José Adriano Fenerick Profª. Dra Karina Anhezini de Araújo

Profª. Dra. Márcia Pereira da Silva Profª. Draª Vânia de Fátima Martino

Aline do Nascimento AGUIAR Amanda Muro Barretto Carlos Vinícius da Silva César de Paula Vasconcelos

Eleonora Ricci Graneiro

Felipe Augusto Antunes de Mesquita Luna Giovana Castro Leite

Isabela de Lorena Zaniboni Jorge Silva de Andrade

Juliana Oliveira Bispo Marco Antônio Lourenço Maria Isabela da Silva Gomes

Marília Tofanetto Alves Marisa Fernandes Barros Matheus Rodrigues Ramalho Murilo Giannini Nogueira Pires

Publicação Anual / Annual Publication

Solicita-se permuta / Exchanged desired

(6)

6

Endereço / Adress

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Contato: Av. Eufrásia Monteiro Petráglia, 900, Jardim Doutor Antônio Petráglia,

CEP 14409-160, Franca/SP, Brasil [email protected]

Ensaios de História (Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – UNESP) Franca, SP, Brasil, 1996-2019, 1-20

ISSN 1414-8854

Capa: Ilustração de Daniël Stopendaal, cartógrafo holandês. Produziu este quadro, representando o Mapa Mundi, em 1729. Neste período, a

Califórnia ainda era vista como uma ilha.

Disponível em:

https://www.theantiquarium.com/data/uploads/bigimages/The%20World_

Stoopendaal_1729_big.jpg

(7)

7

(8)

8

SUMÁRIO

A ÁRVORE DE JESSÉ, DA BÍBLIA LAMBETH DE CANTERBURY: ANÁLISE ICONOGRÁFICA

Ana Claudia M. RODRIGUES Gabriele dos Santos BATIVA

Natasha Santos MARTINS ... 11 UMA PRAGA SUI GENERIS: NOVOS CAMINHOS PARA O ESTUDO DA MORTALIDADE DA PRAGA DE JUSTINIANO (541-750)

Júlio Matzenbacher ZAMPIETRO ... 25 CORPO, MORAL E SAÚDE: A CONTRIBUIÇÃO DE JOÃO CURVO SEMEDO PARA OS CUIDADOS COM A MULHER

Ana Luiza Mendes VERÍSSIMO ... 45 UMA LEITURA DE RELATOS DE VIAGEM DE SOLDADOS DA COMPANHIA NEERLANDESA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS DURANTE A OCUPAÇÃO NA CAPITANIA DE PERNAMBUCO (1630-1654)

Roberto Junio Martinasso RIBEIRO ... 63

OS DISCURSOS NA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA: CONCEITOS E INFLUÊNCIAS PARA UMA DOUTRINA DE SEGURANÇA NACIONAL

Letícia Maria de Alcântara NOGUEIRA ... 85 A INVENÇÃO DO BRASIL NO PÓS-1808: O CENTRO-SUL BRASILEIRO NA ERA DAS REVOLUÇÕES

Guilherme Gonçalves OLIVEIRA

Larissah dos Santos PAZ ... 101 CIDADE, SKYLINE E DESIGUALDADE URBANA: A CIDADE DO MÉXICO SOB A ÓTICA DE JOHNNY MILLER

Vinícius Rodrigo de Souza Couto FARIA ... 118

(9)

9 A AGITAÇÃO ANARQUISTA E O MOVIMENTO OPERÁRIO: PERMANÊNCIAS LIBERTÁRIAS NO PERÍODO VARGUISTA

Bárbara Carolline Santos CAVALCANTE ... 135

VOTE NO MDB. VOCÊ SABE POR QUÊ: TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO SOB O REGIME MILITAR (1966-1985)

Tiago CALLEGARI ... 147 AS REPRESENTAÇÕES SOBRE OS CASOS DE AIDS E HIV NO PARÁ A PARTIR DO JORNAL DIÁRIO DO PARÁ (1985-1996)

Paulo Henrique Souza dos SANTOS ... 157

A ESCRITA DA HISTÓRIA NO MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL DE GUARULHOS Débora Pinese FRIAS

Júlio Bueno ROSA NETO

Pedro Thiago Alves SILVESTRINI ... 177 A LÓGICA DE GESTÃO AMBIENTAL NO NEOLIBERALISMO: O CASO DE BRUMADINHO

Eleonora Beatriz Ramina APOLINÁRIO Mayume Christine MINATOGAWA

Thaís Cattani PERRONI ... 204

(10)

10

(11)

11

A Árvore de Jessé, da Bíblia Lambeth de Canterbury:

Análise iconográfica

The Tree of Jesse, from Canterbury Lambeth Bible:

Iconographic Analysis

Gabriele dos Santos Bativa1 Natasha Santos Martins2 Ana Claudia M. Rodrigues3

Resumo: O presente artigo é um estudo da produção artística Medieval, nomeada A Árvore de Jessé, da Bíblia Lambeth de Canterbury, uma imagem datada do século XII. Por meio da leitura deste documento iconográfico, objetivamos compreender a finalidade da obra e qual mensagem, possivelmente, a mesma veiculou, por meio de uma descrição da produção artística em geral e uma análise mais aprofundada, apresentando a simbologia e explanando seu conteúdo implícito. Utilizou-se como metodologia a análise documental iconográfica com suporte de pesquisa bibliográfica, dentro das áreas de História da Arte e mentalidade medieval.

Palavras-chave: História Medieval; Estrutura mental; Iconografia; Bíblia Lambeth de Canterbury.

Abstract: This article is a study of Medieval art production, named The Tree of Jesse, from the Lambeth Canterbury Bible, a 12th-century image. By reading this iconographic document we aim to understand the purpose of the work and what message, possibly, it conveyed, through a description of the artistic production in general and a deeper analysis, presenting the symbolism and explaining its implicit content. It was used as methodology the iconographic documentary analysis supported by bibliographic research, within the areas of Art History and medieval mentality.

Keywords: Medieval history; Mental structure; Iconography; Canterbury Lambeth Bible.

1 Graduanda do curso de História na Universidade de Taubaté (UNITAU).

2 Graduanda do curso de História na Universidade de Taubaté (UNITAU).

3 Graduanda do curso de História na Universidade de Taubaté (UNITAU).

(12)

12 Introdução

As fontes históricas são as principais ferramentas do historiador. Sua definição, discutida por séculos, ampliou-se, abrangendo qualquer vestígio produzido e deixado pela humanidade (SILVA e SILVA, 2006), pois, segundo Bloch, “tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica tudo o que toca pode e deve informar sobre ele” (BLOCH, 2001, p.79). Atualmente, o termo mais adequado para conceitua-la é documento. Uma vez que o documento é a base para a escrita da história, a preocupação sobre sua escolha e utilização é posta como tarefa primordial ao historiador. Isso porque cabe a ele não repassar somente aquilo que está disposto, mas analisar e questionar, levando em conta que trata de um material produzido por indivíduos que tinham interesses e visões de mundo.

Nesse sentido, tal proposta analítica, aplicada nesse trabalho, se baseia na ampliação do uso de imagens como documentos históricos e no entendimento de que a imagem visual:

é uma unidade de manifestação auto-suficiente, um todo de significação [...]

suscetível de análise. [...] a imagem é um texto-ocorrência em que a iconicidade tem a natureza de uma conotação veridictória (um juízo) culturalmente determinada: se quiser, uma espécie de faz de conta “realista”

de fundo cultural (CARDOSO e MAUAD, 1997, p.404).

Dessa forma, a imagem aqui estudada reflete as mudanças sociais e expressa em sua composição a mentalidade, a cultura e o imaginário predominante de uma era.

A Arte que se desenvolve durante o século XI4, juntamente com as línguas românicas, para alguns historiadores não passa de um prolongamento das artes pré-românicas com influências de Bizâncio. Para outros, marca a emancipação da influência oriental e a afirmação da originalidade europeia. A Árvore de Jessé, componente da Bíblia Lambeth de Canterbury, datada de meados do séc. XII e de autor desconhecido - atualmente, localizada em Londres, no Lambeth Palace Library - insere-se dentro do movimento artístico Românico, denominação utilizada a partir do século XIX. Considerado como o primeiro padrão estético acolhido pela Europa após a queda do Império Romano do Ocidente, a Arte Românica não possui um desenvolvimento sincrônico, ao mesmo tempo que apresenta características comuns em várias regiões, também se manifesta como manifestações divergentes.

Tendo o espiritual como um dos principais motores, a sociedade feudo-clerical, na qual a Igreja possui papel central em sua composição e controle das suas manifestações, desde as mais íntimas dos indivíduos até o campo artístico, que possuindo uma sociedade majoritariamente analfabeta, a arte/pintura era o veículo mais utilizado para a transmissão dos valores eclesiásticos, seja por meio dos grandes murais nas paredes das Igrejas, nas peças de tapeçaria ou até mesmo nas iluminuras ou ilustrações dentro da própria bíblia.

A sociedade da Idade Média Central perpassa por profundas mudanças sociais, em consequência do movimento das Cruzadas que geraram a decadência aristocrática e a afloração de novos grupos sociais, como o segmento burguês; além dos movimentos contestadores ou chamadas heresias. Tais modificações das estruturas sociais e mentais, segundo Hilário Franco Júnior (1988, p.81), “a grande síntese disso tudo talvez tenha sido o

4 Estabelecida a crise no final da Alta Idade Média, em consequência às contradições do Estado Carolíngio e a nova onda de invasões, inaugura-se o período denominado Idade Média Central (séculos XI-XIII). Durante esse lapso, a sociedade ocidental vivencia a expansão populacional e territorial, em detrimento ao movimento das Cruzadas, que resulta na diversificação da economia e da produção cultural. A Idade Média Central caracteriza-se, pela organização do Feudalismo.

(13)

13 desenvolvimento do individualismo, com a consequente passagem da família agnática para a família conjugal e a correspondente valorização da mulher e da criança”.

No que tange o movimento de valorização da mulher, é possível notar o acentuado progresso do culto à Virgem desde o século XII (FRANCO JÚNIOR, 1988, p.82). A Árvore de Jessé da Bíblia Lambeth de Canterbury, produção artística deste período, inclui-se no processo de exaltação à imagem da Virgem Maria. Ao comparar produções com a mesma temática e de períodos próximos, como a Árvore de Jessé, presente em um dos vitrais da Catedral de Chartres na França, produzida durante o século XII, ou a Árvore de Jessé componente do Saltério de Ingeborg da Dinamarca, datada do século XIII, é possível notar que apesar da figura de Maria estar presente nas três representações, sua imagem aparece de forma secundária na composição das duas últimas. Nelas é apresentada como uma das partes do tronco da árvore, diferentemente do que é retratado na Árvore de Jessé da Bíblia Lambeth de Canterbury, na qual sua figura se confunde com o tronco da árvore, sendo a parte central de toda a composição. É ela a responsável por estruturar e sustentar os ramos. Além disso, na Bíblia de Lambeth, Maria pode ser vista na centralidade da criação e como ponte que conecta esse universo de representações imagéticas.

O Românico, como movimento artístico, não apresenta uma preocupação em retratar a realidade fielmente, mas em representar a essência das coisas, por isso possui um forte simbolismo. Dentro de suas representações, que retratam apenas motivos de natureza religiosa, caracteriza-se pela deformação, que traduz os sentimentos religiosos e a interpretação mística que os artistas faziam da realidade, e pelo colorismo sem preocupação com meios-tons ou jogos de luz ou sombra, visto que não havia a menor intenção de imitar a natureza (PROENÇA, 1994, p. 61).

Por meio da análise da Árvore de Jessé, é possível compreender em sua estrutura todo um significado alegórico e simbólico importante para a sociedade desse período. De acordo com Chartier, as representações são formas ou práticas que dão sentido ao mundo no qual o indivíduo está inserido (ANDRADE apud COSTA, 2011, p. 67). Em suma, o que propomos nesse artigo, é a leitura detalhada da produção artística Árvore de Jessé, perpassando pelas diferentes etapas da análise iconográfica, buscando compreender o que esse documento nos

“fala”, visto que, segundo Bittencourt (2005):

Imagens diversas produzidas pela capacidade artística humana também nos informam sobre o passado das sociedades, sobre suas sensações, seu trabalho, suas paisagens, caminhos, cidades, guerras. [...] Fotografias ou quadros registram as pessoas, seus rostos e vestuários e são marcas de uma história (BITTENCOURT, 2005, p.353).

Reprodução da imagem

A Árvore de Jessé

(14)

14 Fonte: http://www.30giorni.it/articoli_id_78132_l6.htm

Acesso em: 18/08/2019

Um caminho de análise

No exercício proposto para este artigo percorreremos alguns passos. Um ao descrever o documento, destacando informações que se fazem presentes identificando personagens e alegorias; paralelamente disponibilizaremos também conhecimentos acerca do conteúdo;

identificaremos, na medida do possível, a origem da imagem situando-a em um contexto histórico específico da Idade Média. Ao longo desse exercício será possível ler este documento, associando as informações contidas nele com as leituras e referências bibliográficas.

(15)

15 Antes de tudo cabe lembrar que a imagem analisada é iluminura que compõem um livro e que em se tratando de um excerto a análise do documento iconográfico torna-se limitada, posto que retirada de seu contexto de produção e de significação que se conectam de forma maior ou menor com o texto escrito, já que compõe um mesmo conjunto de sentido.

A Árvore de Jessé, presente na Bíblia Lambeth de Canterbury, é uma produção que traz em si um forte poder simbólico e sobrenatural. Dentro de sua composição é possível notar características que preponderam no estilo artístico românico, no qual prevalece o desenho, as personagens representadas possuem uma falta de rigor anatômico, com proporções disformes e deformadas e com o plano de fundo totalmente abstrato.

A pintura é composta por sete círculos maiores, sendo esse número de forte simbologia na crença judaica-cristã, na qual simboliza a união entre o espiritual, a santíssima Trindade e o material, que é representado pelo número quatro referenciando aos pontos cardeais e aos elementos constitutivos da matéria. Esses sete círculos, correspondem ao que pode ser considerado as folhas da árvore.

A “árvore surge de dentro da roupa de Jessé e assume uma forma humana; seus descendentes são retratados dentro de estruturas circulares” (QUEIROZ, 1999, p. 166), ou seja, o tronco da árvore é representado pela figura de Maria, parte da manta de Jessé, que se apresenta repousado, apoiado em seu braço e de olhos fechados ou com seus “olhos voltados para a alma”.

Nesse caso, Jessé simboliza a raiz que origina toda a árvore. Seguindo a imagem em sua parte inferior, temos o que aparenta ser um ramo que parte da manta de Jessé e o liga a figura de Davi, seu filho, e que porventura tem a sua figura ligada a outro personagem do lado oposto da imagem que aparenta ser Salomão, seu filho.

Toda a ilustração é limitada por um retângulo que simbolicamente representa o material, que pode ser uma alusão a Terra. Em cada extremidade do retângulo, é representado dentro de um círculo menor a figura de uma personagem importante para essa suposta árvore genealógica de Jesus Cristo. Sob essa perspectiva é possível identificar que abaixo, como já mencionado, estão as representações de Davi e Salomão e acima o que assemelha a figura de Pedro e a de Abraão. Novamente, ocorre a presença do número quatro podendo referenciar a linhagem carnal e terrena de Jesus Cristo.

Retornando, novamente, aos sete círculos maiores, segundo Fritz Baumgart (1999, p.156- 157), o que temos representados, analisando a imagem de baixo para cima, são nos dois círculos inferiores a representação de quatro profetas que seguram em suas mãos, o que aparenta ser, escritos/pergaminhos. Em relação a isso, pode-se deduzir que seja os chamados quatro grandes profetas da Bíblia: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. São referidos como grandes, pois seus escritos são extensos e, provavelmente, são colocados na Árvore de Jessé, porque escreveram sobre Jesus antes do mesmo nascer, ou seja, previram sua vinda ao mundo. Os círculos ao centro trazem em sua composição a figura de quatro mulheres representando as quatro virtudes: fortaleza, prudência, justiça e temperança; o plano de fundo é preenchido com um tom dourado que, simbolicamente, pode representar a pureza e bondade.

Na parte superior da imagem, são posicionados três círculos, nos quais o mais elevado que coroa a imagem de Maria e traz dentro de si Jesus circundado por sete pombinhas, representando o Espírito Santo e suas sete virtudes: Pietas, Fortitudo, Intellectus, Sapientia, Consilium, Scientia, Timor. Do círculo de Jesus parte o ramo que o liga ao que se assemelha a figura de Pedro, seu primeiro ramo e o continuador de sua obra. Abaixo da imagem de Cristo

(16)

16 são retratados dois círculos que são sustentados pelas mãos de Maria, representando a Eclésia, ou Igreja; e a Sinagoga, referência aos judeus.

A obra é toda decorada com temáticas florais, mais detalhadamente, com flores de três pétalas que simbolizam a Trindade e sua onipresença. No sentido amplo: “a Árvore de Jessé simboliza o crescimento da árvore da vida num tempo histórico, por isso das suas raízes carnais, representada pelos reis; e a sua seiva espiritual, caracterizada pela presença dos profetas” (PONTES,1998, p. 207).

O rebento do tronco de Jessé

As comparações entre homens e árvores são estabelecidas desde a antiguidade, a partir da utilização de comparações com a circulação de fluidos e o crescimento vertical. Na Idade Média, as utilizações de diagramas de árvores foram destinadas para representar os sistemas de pensamentos, estruturas organizacionais e linhagens genealógicas, enfatizando uma ordem hierárquica organizada a partir de um eixo central que dá lugar a ramificações (KOSMINSKY, 2016, p.691). A árvore por sua estrutura, possui a capacidade de representar por meio de seu tronco a unicidade e, ao mesmo tempo, mediante de seus ramos, galhos e folhas a multiplicidade.

A árvore possui uma simbologia profunda em diversas mitologias, tradições e religiões, destacando-se entre elas a Árvore Cósmica, que constitui o pilar central, o eixo em torno do qual o universo se organizava, coexistindo o físico e o metafísico, o natural e o sobrenatural, o humano e o divino (ELIADE, 1991, apud PONTES, 1998, p.85). Dentro da tradição judaico- cristã também ocorre o aparecimento de árvores simbólicas, como a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Na obra analisada ela traz em sua composição, assim como outras representações dessa temática genealógica, a linhagem real e carnal de Jesus Cristo.

Ao analisarmos o livro de Isaías, presente nas escrituras sagradas da cultura cristã, observamos que em seu capítulo 11 encontramos o excerto de profecia da vinda de Cristo:

“Sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes” No qual, é destaque uma personagem importante na árvore genealógica de Jesus: Jessé, o pai de Davi. O trecho destacado demonstra que o “rebento”, que pode significar a criança que nasceria, além de ser da família de Jessé, possui raízes profundas, que remete aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, figuras de grande destaque dentro da tradição judaico-cristã.

O tema da Árvore de Jessé, inicialmente pretendeu expor aos fiéis de forma visual, visto que a população medieval majoritariamente era analfabeta; a genealogia de Cristo. É importante salientar que, o referido tema está ligado a crença judaica da origem davídica do Messias, por isso consta a presença de Davi em sua composição. Produzida durante o século XII, a Árvore de Jessé aqui analisada traz em sua estrutura certas modificações ocorridas, principalmente, pelo avanço ao culto da imagem da Virgem Maria.

Em lugar da forma habitual do tronco que sai de Jessé, no qual os ramos trazem os antepassados de Cristo, apenas Maria é representada, tendo Cristo como coroação e nas mãos os medalhões de folhagens com Eclésia e Sinagoga, respectivamente, enquanto embaixo são representados os profetas, provavelmente os chamados quatro grandes, e no centro as virtudes, também representadas por quatro figuras femininas (BAUMGART, 1999,

(17)

17 p. 156- 157). O arquétipo da árvore é ilustrado dentro de uma estrutura retangular, que representa simbolicamente a Terra e em suas quatro pontas são retratadas figuras, dentro de círculos, que possuem certa relação de ancestralidade e de parentesco com a figura de Jesus Cristo.

Ao analisarmos a parte de baixo da imagem, podemos perceber que Jessé aparece deitado de olhos fechados, barbado e de dentro de seu corpo ou manta parte o tronco da árvore.

Entretanto, se analisarmos a parte inferior esquerda da imagem, percebemos que de dentro desse mesmo manto parte uma espécie de ramo que liga, provavelmente, a figura de Jessé ao que pode ser a imagem de Davi coroado, que é seu filho. E dentro dessa mesma linha de análise, pode-se observar que na parte inferior direita temos a possível representação de Salomão coroado, visto que o mesmo também segura uma espécie de ramo que se direciona a figura de Davi, que é seu pai.

Como já mencionado, de dentro do manto de Jessé parte o tronco da árvore, que aqui nessa ilustração ganha a fisionomia humana de Maria, que é a responsável por sustentar e estruturar todos os ramos. Dentro dessa perspectiva, é possível realizar a análise de que com a popularização da devoção a imagem de Virgem Maria iniciada no século XII, ocorre a alteração da estrutura da árvore, na qual a genealogia de Jesus, transforma-se na genealogia da Virgem Maria. Dado que, dentro das escrituras cristãs quem possui certo grau de parentesco com a imagem de Davi é José, pai putativo de Jesus, e não Maria. Entretanto, é ponderoso ressaltar, assim como foi feito ao início dessa análise, o paralelo entre os seres humanos e a árvore, que possui semelhanças, principalmente, com a figura feminina. A árvore, assim como a mulher, tem o ato sagrado que assegura a vida: ambas trazem dentro de si o fruto que continua a existência. Dentro dessa perspectiva, é possível considerar que a figura de Maria ao centro representa a mulher-símbolo da pureza, da grandeza, da santidade e da redenção, sendo a geradora de Jesus Cristo e digna de sua santidade, por meio dessa imagem é percebível, que talvez, há uma tentativa da representação da ancestralidade sagrada e real, não apenas de Jesus, mas de Maria também; justificando, legitimando e incentivando o culto e devoção à sua imagem.

Os 4 Grandes Profetas

Utilizamos o termo Profeta para referirmos dos livros proféticos do Antigo Testamento.

Os profetas Isaías5, Jeremias6, Ezequiel7 e Daniel8 são os maiores profetas da bíblia. Esses são representados aos pés de Maria e acima de Jessé, em círculos, utilizados como símbolo do Divino ou da Eternidade; de cor azul, representando a cor do Divino, da verdade e da

5 Vivendo em meados de 765 a.C. e 681 a.C, Isaías é um dos maiores profetas da Bíblia, por tratar constantemente da vinda do Messias. No capítulo VI de seu livro, expõe o chamado para se tornar profeta ao ter uma visão de Deus acompanhado de serafins, sentado no trono de um templo. Deus ordena Isaías para entregar ao povo a sua mensagem.

6 Viveu junto com camponeses, entre 650 a.C. e 590 a.C. Essa convivência refletiu em suas profecias bíblicas. Escreveu dois dos livros presentes na Escritura, o Livro de Jeremias e o Livro das Lamentações.

7 “A Força de Deus” é o significado trazido por Ezequiel em seu nome. Viveu em meados do século VI a.C. e redigiu o Livro de Ezequiel, nas Sagradas Escrituras. Em seu livro traz as profecias por meio das visões que teve durante o exílio na Babilônia.

8 Daniel também pode ser conhecido pelo nome de Beltessazar, que significa a “Aquele que é julgado por Deus”. Em seu Livro de Daniel, por meio das suas visões e sonhos, deu indícios de como será o fim dos tempos.

(18)

18 fidelidade. No que diz respeito ao apego à verdade e ao compacto firmamento celeste, suas vestimentas são nas cores azul, branco e aparentemente vermelho.

Os profetas possuem auréola, que simboliza a luz divina e sua santidade. Seguram um pedaço de pergaminho, que pode ser referência à escrita. Isso pois, suas profecias sementes da palavra de Deus – se fazem presentes nos textos de livros do Antigo Testamento. Enquanto conversam apontam para cima com seus olhares e dedos indicadores na direção de Maria e Jesus. Esta indicação pode ser referência a um caminho, tanto da genealogia, quanto do próprio desenrolar da história religiosa que se vai professar.

Mas o que segue, na leitura de baixo para cima da imagem são as virtudes. E é preciso pensar a relação entre os profetas e essas alegorias. Talvez possamos pensar que as figuras das virtudes possam ajudar esses homens de barbas e cabelos grisalhos a andar pelo caminho da justiça, de forma a assegurar a eles características de bons pastores para o cumprimento da vontade divina. Mas, mais acima se apresentam elementos que contrapõe a Igreja Católica da Judaica. Ambos elementos serão analisados em seguida com mais profundidade.

Virtudes

A classificação das virtudes humanas tem base no pensamento de filósofos da antiguidade clássica. Entre eles Aristóteles, que em 300 a.C., em Ética e Nicômaco (2001) estabelece “as constituintes da moral, do bem e da virtude” (Drummond, 2014, p. 43) e também de Sócrates e Cícero (SILVA, 2009).

Com base na leitura de tais pensadores a 'Virtude' pode ser definida por Abelardo como ‘o melhor hábito da alma', sem que se descarte o esforço deliberado no qual se constitui em hábito da alma (ABELARDO apud SILVA, 2009, p.136). Esta concepção de virtude como uma disposição prática que concerne à escolha e segundo a qual essa consiste na boa vontade, insere Abelardo no prolongamento da concepção aristotélica.

A doutrina Católica, no período medieval, sustenta-se em um binarismo maniqueísta da existência do bem e do mal. É nesta oposição que ganha importância a luta de virtudes contra vícios e pecados. A importância da virtude é que pode refrear as inclinações para o mal dos seres humanos. Como exemplo deste binarismo pode-se citar que a “perspectiva cristã considera o impulso do amor no centro de todas as virtudes e vícios, [...] enquanto as virtudes derivam-se de uma disposição apropriada do amor, os vícios se derivam de um amor doentio.”

(Drummond, 2014, p. 55). Esta dualidade reforça o valor de se estimular as virtudes.

Dentro da doutrina da Igreja Católica, elas são a forma estável da inteligência e da vontade humana, que ajustam os nossos atos e condutas, conforme a razão e a fé.

Abelardo [...] atribui a origem da teoria das quatro virtudes a Sócrates, que teria sido o primeiro ou o maior dentre os que enfatizaram o valor do estudo da disciplina moral, e que distinguiu quatro espécies de virtudes: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. (ABELARDO apud SILVA, 2009, p.137)

Nestas quatro as virtudes cardeais se reúnem as demais virtudes humanas – que segundo Delumeau (2003) poderiam ser sete reforçando a importância do significado deste número.

As virtudes cardeais são as virtudes fundamentais em torno das quais gira o ser humano. Toda virtude é uma capacidade ou aptidão para levar avante ações adequadas ao homem. Entre as virtudes adquiridas pelo homem estabelecem-se quatro que são fundamentais ou capitais, às quais estão subordinadas outras que são acessórias. Desde a Antigüidade classificaram-

(19)

19 se como virtudes cardeais: a prudência, a fortaleza, a temperança e a justiça.

(SANTOS, 1964, p.252)

Aubenque, por sua vez, destaca que a teoria das quatro virtudes teria sido sugerida por Platão e só se tornaria clássica com os estoicos. Segundo ele:

É Cícero que, para traduzir a estóica, recorreu à palavra prudentia (contração de providentia, que evoca a idéia de previdência, de saber eficaz) e é, finalmente, do De officiis de Cícero que Santo Ambrósio (De officiis ministrorum, I, 24,115) e, através dele, toda a Idade Média latina, toma a listadas quatro virtudes cardiais (que Santo Ambrósio chama virtutes principales) (AUBENQUE, 2003, p. 63, apud SILVA, 2009, p.138)

Esta discussão toma centralidade no presente trabalho, pois as quatro virtudes cardeais estão representadas na parte central da Árvore de Jessé, na altura dos quadris de Maria, dentro de círculos considerado pelos gregos antigos como uma figura perfeitamente equilibrada, cuja aparência despertava a ideia de eternidade, sem ter um começo ou um fim, em consequência disso, é utilizado como símbolo do Divino ou da Eternidade.

A Prudência, “é uma disposição prática relativa à regra de escolha”, “contração de providentia, que evoca a idéia de previdência, de saber eficaz” (AUBENQUE, 2003, p. 63, apud SILVA, 2009, p.138). Neste sentido, refere-se ao conhecimento ou à sabedoria, se localiza ao lado do quadril direito de Maria e se apresenta de mãos dadas com a Fortaleza, com vestimenta azul, utilizado para simbolizar a fidelidade, no que diz respeito ao apego à verdade.

Abelardo, em seu texto afirma que “para alguns, a sabedoria ou a prudência, que é a ciência dos costumes, por sua capacidade de discernir é, mais do que uma virtude individual, a origem das demais e denominada de ciência dos bens e dos males” (ABELARDO apud SILVA, 2009, p.137).

Segundo Santos a Prudência permite refletir

sobre os meios conducentes a um fim racional, e manifesta-se de vários modos. É uma virtude intelectual. Por si só ela não é realizadora de atos morais, mas por facilitar a escolha, ela pode guiar à vontade, a fim de que esta se dirija, após a seleção feita pelo entendimento, para aqueles fins mais benéficos ao homem. Há uma prudência (sapiência) para conduzir a si mesmo e para conduzir os outros. Ela exige: reflexão, capacidade atencional para examinar os juízos e as idéias, acuidade para descobrir os meios mais hábeis, inteligência, capacidade de resolver com clareza e segurança de modo a alcançar as melhores soluções. (SANTOS, 1964, p.253)

Por ser uma virtude intelectual e capaz de fazer seleções e de identificar o bem, é ela quem conduz a outras virtudes, se apresentando na imagem dando passo à frente e sendo representada, segurando a mão da Fortaleza, de forma a guiá-la.

A Fortaleza, ou Força, ou Valentia “consiste na capacidade de enfrentar os perigos que se oferecem à obtenção dos bens mais elevados, e entre estes perigos os males e a morte” (SANTOS, 1964, p.253). A firmeza e a determinação para enfrentar as adversidades em busca do bem. Por isso se apresenta da imagem ao lado da Prudência, pois a “valentia sem a prudência é a audácia” (SANTOS, 1964, p. 742). Assim, compreende-se que guiada pela Prudência ela caminhará em direção ao bem, se contrapondo ao mal.

A fortaleza é uma vitória sobre o medo. [...] É ela uma virtude, quando refreada. Os meios de fortalecimento da fortaleza são exercício, que consiste em enfrentar os riscos e a perseveração na obtenção dos fins. Como as virtudes cardeais conjugam-se, a fortaleza recebe apoio e equilíbrio da prudência, pois pelo saber pode o homem empregar esta virtude em termos que lhe sejam mais benéficos possíveis. (SANTOS, 1964, p.253)

(20)

20 Na obra, Fortaleza está representada com as vestimentas na cor azul e verde, que são as cores da vida, o que marca seu triunfo sobre a morte. Uma das mãos de Fortaleza está com a Prudência e a outra segura uma espécie de cajado. No Antigo Testamento, o cajado já era usado de diversos modos, principalmente pelo pastor como proteção das ovelhas, a fim de mantê-las unidas.

A Justiça “consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém ou a alguma coisa” (SANTOS, 1964, p.254). É o motor perpétuo de conceder o direito. Segundo Santos:

É uma virtude subjetiva. Em seu sentido primário significa a exatidão, como nas expressões atitude justa, expressão justa, mas em sentido moral significa o respeito que há em cada um de dar a cada um o que é seu. São elementos integrantes da justiça: a capacidade de fazer o bem, o que é devido aos outros, e o hábito de evitar o mal que possa ser feito aos outros. Ela implica como coadjuvantes: respeito à igualdade pela observância das normas morais; veracidade, que implica a conformidade entre o que se diz e o que se crê ou quer; consiste, em suma, em não enganar os outros nem em enganar- se (SANTOS, 1964, p.887-888).

Esta terceira figura feminina aparece do lado esquerdo do quadril de Maria dentro de um círculo, ao lado da Temperança, recebendo um beijo. É trajada na imagem com uma túnica vermelha e um vestido rosa. Na mão direita segura uma balança, símbolo do equilíbrio ponderado, da justiça. Na iconografia cristã, é a representação do Arcanjo Miguel pesando as almas com uma balança.

A Temperança é a quarta virtude representada na imagem. Ela tem relação com o constante aperfeiçoamento da “potência optativa, sensitiva, de modo a conter o prazer sensitivo dentro dos limites estabelecidos pela sã razão. Assim a moderação é a temperança do comer; a sobriedade, no beber; a castidade, no prazer sexual. (SANTOS, 1964, p.254). Ela representa o equilíbrio no uso dos bens. Na imagem ela aparece em roupas rosas e vermelhas dando um beijo na face da Justiça e com o que parece ser um jarro de água acima de sua cabeça.

A água, e seu movimento constante, é também símbolo da temperança que modera seus sentimentos e desejos de maneira a não extrapolar no que diz respeito aos prazeres e “das tendências aos apetites sensíveis, cuja satisfação desregrada põe em risco a saúde do corpo e da alma” (SANTOS, 1964, p.1335). Neste sentido, o jarro que contém a água pode ser metáfora para a contensão dos “desejos dentro dos limites justos” (SANTOS, 1964, p.1335), até porque Justiça e Temperança se apresentam lado a lado.

Outro elemento é o beijo. Originalmente, foi visto como bafejo da alma que vive pelo sopro;

por isso pode ser considerado como transmissor de força e doador de vida. É quase sempre expressão do fervor espiritual e sinal de adoração. Na antiga Igreja cristã, o beijo da paz ou beijo fraternal era símbolo da integração; o beijo fraternal, como símbolo de integração a comunidade. O beijo no altar, na cruz, na Bíblia ou nas relíquias sagradas é visto como união espiritual pode simbolizar também a conciliação.

Importa notar que a interação entre as quatro virtudes cardeais permite:

formar o homem dentro dos mais altos valores. São assim as virtudes cardeais fundamentais, não só para a ordem social como para a pessoal, pois não pode haver homens sãos nem sociedades sãs, onde a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança não estejam presentes. (SANTOS, 1964, p.254)

A representação judaica

Ao atentar-se a parte superior da imagem, na qual a figura da Virgem Maria segura em cada uma de suas mãos os medalhões de folhagens em que, respectivamente, o primeiro representa a Eclésia, a Igreja, e o segundo a Sinagoga, uma clara referência aos judeus

(21)

21 (BAUMGART, 1999, p. 157). A Igreja aqui é representada por três personagens, tendo ao centro uma figura feminina coroada, que traje uma vestimenta azul e carrega junto a si uma cruz; ela é acompanhada por outras duas figuras masculinas. O círculo da Eclésia aproxima- se do círculo menor, que traz em seu interior a provável figura de Pedro, ao qual está ligado através de um “ramo” a imagem de Jesus, representando aqui como o primeiro galho e continuador da obra de Cristo, assim como o fundador da Igreja e seu primeiro padre.

Entretanto, o outro círculo que representa a Sinagoga traz em sua composição uma imagem diferente, com um aspecto mais negativo. É ponderável ressaltar que, ao examinar atentamente a estrutura circular que Maria sustenta em sua mão e que faz referência aos judeus, é possível notar a presença de um ser do mal/demoníaco, caracterizado por chifres, que provavelmente atenta a figura feminina ao centro nessa representação. Entretanto, se explorado mais profundamente os detalhes é constatado a presença da Mamus Dei, ou mão de Deus, protegendo essa personagem que é tentada, essa mão sagrada é a responsável por levar o véu na direção dos olhos, enquanto ao lado oposto da figura satânica, sua mão é segurada por uma figura sagrada, aqui não identificada, que possui sua atenção voltada para a parte superior máxima da árvore, na qual está localizada a imagem de Jesus.

Dessa mesma circunferência, da representação judaica, parte o ramo para a parte superior do lado esquerdo, que sugere ser a figura de Abraão, que possui uma forte ligação ao povo judeu, e que, simbolicamente, representa o homem escolhido por Deus e o protótipo da fé absoluta e da submissão. Além disso, genealogicamente falando a figura de Jesus possui uma ligação com a de Abraão, ao ligar ambas as figuras, de uma forma mais indireta, a intenção sugere tanto demonstrar a origem hebraica de Jesus, como também seu caráter messiânico, ou seja, sua ligação com o Rei Davi.

Por meio das representações artísticas é possível compreender a mentalidade de uma sociedade e com o período Medieval não será diferente, principalmente pelo fato de que, como já abordado anteriormente, com a sua população em grande maioria analfabeta a arte/pintura será o veículo mais utilizado para a transmissão dos valores eclesiásticos. Nesse sentido, a imagem do Judeu, aqui representada na Árvore de Jessé, transmite uma concepção de como esse povo era visto e compreendido dentro da cultura e da mentalidade medieval.

Dentro de uma análise histórica, a separação entre cristãos e judeus ocorre com a queda de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., tornando ambas religiões diferentes e antagônicas (FELDMAN,2012, p. 21), nesse sentido gerava-se a dúvida: qual das duas teria a maior legitimidade como continuadora dos planos do Divino para o povo eleito? No concílio de Nicéia, em 325, a igreja inicia o processo final de definição de suas crenças e dogmas.

Durante seu percurso a Igreja aproxima-se do Império, ganhando força e tornando-se uma grande potência, enquanto os demais grupos eram marginalizados e excluídos do poder e do círculo social: o paganismo perde seu terreno, os hereges são censurados e, posteriormente, reprimidos; e os judeus são considerados infiéis e acusados de “mancharem” os “verdadeiros fiéis” com sua leitura carnal das Escrituras sagradas. O cristianismo medieval tinha um ideal de unidade religiosa, na qual não condizia a existência de hereges o de outras religiões.

Outro ponto essencial a ser ressaltado, é o fato das comunidades judaicas terem um forte vínculo com o comércio e atuavam como emprestadores de dinheiro, coletores de impostos e comerciantes. Entretanto, dentro da sociedade medieval cristã a usura era considerada pecado e o comerciante não era visto com bons olhos, o que acabava por resultar na discriminação social e espacial tanto dessas práticas quanto do povo judeu. Nessa lógica, a população medieval cristã associava os judeus a figura demoníaca, discriminando-os, excluía-

(22)

22 os e marcava-os como perigosamente envolvidos com a magia e o poder maléfico. Como forma de proteção não somente dos seus fiéis, mas também de seus interesses, a Igreja decretou inúmeras leis e regras que isolavam os judeus do mundo cristão.

É significativo evidenciar que a Igreja Católica defendia a tolerância e a proteção da minoria judaica, dentro de certos parâmetros e limites. Porém, a sua visão dos judeus como concorrentes, que mesmo sendo conhecedores da “Verdadeira Revelação” negavam-se a aceitar o caminho real e verídico da fé, acabava por colocar a Igreja em um forte antagonismo e conflito com o povo judeu. No imaginário medieval cristão, a figura judaica era relacionada com o mal, com aquilo que é maligno, como já ressaltado anteriormente. Além de toda essa questão da atividade econômica dos judeus e nessa perspectiva religiosa, dentro desta última citada outro fator é extremamente importante de ser avaliado, para a tentativa de explicação de tamanho antagonismo entre Cristianismo versus Judaísmo, a não concretização do Milênio e dá segundo vinda de Cristo.

Durante o final do século X e todo o século XI ocorre a chamada “expectativa escatológica do Milênio”, que gera toda uma tensão e um período de grandes mudanças. Dentro dessa mentalidade e apreensão para o fim, os judeus são considerados como os responsáveis pela não concretização da segunda vinda de Cristo, devido a relutância em não se converter ao cristianismo, impossibilitando a consumação do Juízo Final e o aguardado Milênio. Nesse sentido, há o reforço da imagem negativa da figura judaica que é expressa de diferentes formas e por diferentes meios, sendo a arte um dos principais veículos para tal propaganda;

o que pode ser exemplificado pelo recorte da imagem aqui analisada, a Sinagoga. Ressalta- se que tanto as Igrejas Românica e, posteriormente, as góticas utilizaram de meios artísticos, como já mencionados, para propagar o ideal antijudaico associando os judeus ao mal e ao Diabo (FELDMAN, 2012, p.25).

Discussões

Por meio da análise da obra A Árvore de Jessé, da Bíblia Lambeth Canterbury, foi possível constatar a dimensão simbólica e a estrutura mental da sociedade medieval. A obra traz em sua composição os reflexos das mudanças mentais e sociais ocorridas durante esse período, como a valorização da mulher e o avanço do culto a imagem da Virgem Maria. Com um forte conteúdo simbólico destinado a população iletrada, a produção analisada, traz em sua estrutura a árvore genealógica de Jesus, ou mais precisamente, o que se torna a árvore genealógica de Maria.

Devemos ressaltar que, pela construção desse artigo foi possível compreender a estrutura social do período medieval, especificamente o período da Idade Média Central, como surge e como ocorre o avanço ao culto a imagem da Virgem Maria. Além de, como já mencionado, compreender não só a mentalidade dessa geração, como também seus anseios, desejos e suas formas de condutas, representadas pelas virtudes ao centro da imagem. Além disso, também é perceptível a relação entre judeus e cristãos durante esse período.

Por meio da análise da pintura, vimos que a realidade é representada sob a perspectiva e percepção do mundo desse período. Assim, como afirma Eliade (1991, p.174): “As imagens constituem ‘aberturas’ para um mundo trans-histórico. Não é, entretanto, seu menor mérito:

graças a elas, as diversas ‘histórias’ podem se comunicar”. Destarte, o exercício de análise de imagens históricas possibilita a compreensão do processo histórico de forma singular. Uma vez que não se trata de uma mera ilustração, mas a expressão das mentalidades de uma sociedade, se faz necessário que o pesquisador não se contente com a superficialidade e

(23)

23 busque cruzar informações e leituras, enriquecendo a produção historiográfica ou a sistematização de conhecimentos. Esperamos com o exercício realizado nesse artigo ter dado passo neste sentido e inspirar novos trabalhos de análise imagética e de produção de conhecimento sobre a Idade Média.

Referências bibliográficas

BAUMGART, Fritz. Breve História da Arte. Tradução de Marcos Holler. 2° ed. São Paulo:

Martins Fontes, 1999.

BAZUCHI, Kathia Regina Vieira. As Virtudes Cardeais em Tomás de Aquino. 129 f.

Dissertação Universidade de Brasília, Brasília, 2011. Disponível em:

<https://philarchive.org/archive/BAZAVC> Acesso em: 10 de maio de 2019.

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: Fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005.

BLOCH, Marc. Apologia da História ou oficio do historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

CARDOSO, Ciro Flamarion e MAUAD, Ana Maria, História e Imagem: os exemplos da fotografia e do cinema. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (orgs). Os domínios da História. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

DELUMEAU, Jean. O pecado e o medo. A culpabilização no Ocidente (séculos XIII a XVIII).

São Paulo, vol. I. EDUSC, 2003.

Drummond, Albert. As constituintes da moral medieval católica: como os vícios humanos se tornaram os sete pecados capitais. Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 05, Julho, 2014.

ECHEGARY, J. González. A Bíblia e seu contexto. 2° ed. São Paulo: Ave Maria, 2000.

ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução de Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

FELDMAN, Sergio Alberto. A atitude papal em relação aos judeus no início do século XIII.

Revista Instituto Judaico Marc Chagall, v.4, n.1, jan-jun, 2012. Disponível em: <

https://www.seer.ufrgs.br/webmosaica/article/viewFile/31907/19939> Acesso em 5 de maio de 2019.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. 2° ed. São Paulo: Editora brasiliense, 1988.

GOMES, Francisco José Silva. A Cristandade medieval entre o mito e a utopia. Topoi, Rio de Janeiro, v. 3, n. 5, p. 221-231, dez. De 2002. Disponível em

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-

101X2002000200221&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 1 de maio de 2019.

GONÇALVES, Flávio. A Árvore de Jessé na Arte Portuguesa. Revista da Faculdade de Letras,

1986. Disponível em: <https://repositorio-

aberto.up.pt/bitstream/10216/13779/2/2047000072006.pdf> Acesso em: 20 de abr. 2019.

HAUTECOEUR, Louis. História geral da arte: da Magia à Religião. Tradução Pérola de Carvalho. Vol. 2, São Paulo: Difusão Europeia do livro, 1962.

(24)

24 KOSMINSKY, Doris. Visualizando genealogia: estudos para uma árvore genealógica radial.

Anais do IV Simpósio Internacional de inovação em Mídias Interativas. Goiânia: Media/Lab,

2016, p.390-400. Disponível em:

<https://siimi.medialab.ufg.br/up/777/o/61_genealogia_radical.pdf> Acesso em: 1 de maio de 2019.

PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia: Livro por livro. 23° ed. São Paulo: Editora Vida, 2006.

PONTES, Maria do Rosário. A Árvore: um arquétipo da verticalidade (contributo para um estudo simbólico da vegetação). Línguas e Literaturas, Porto, v. 15, 1998, p. 197-219.

Disponível em: < https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/8847> Acesso em: 20 de abr.

2019.

QUEIROZ, Tereza Aline Pereira de. Indivíduo e corpo político no sonho medieval. Revista USP, São Paulo, n.41, p. 154-167, março/maio 1999.

SANTOS, Mário Ferreira dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. S/d: Editora Matese, 1964.

SILVA, Kalina Vanderlei e SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006.

(25)

25

Uma praga sui generis: novos caminhos para o estudo da mortalidade da Praga de Justiniano (541-750)

9

A plague like no other: new paths to the study of the mortality of the Plague of Justinian (541-750 CE)

Júlio Matzenbacher Zampietro10

Resumo: A questão da mortalidade da Praga de Justiniano (541-750 EC) tem gerado trabalhos bastante díspares, que em alguns casos se baseiam em poucas evidências para chegar a grandes conclusões. Um estudo mais cuidadoso destas evidências permite chegar a conclusões menos ambiciosas, mas melhor fundamentadas, de modo a melhor compreender um período turbulento da história mediterrânica. O artigo analisa evidências escritas, arqueológicas, e paleopatológicas, de modo a ilustrar potenciais problemas nas evidências disponíveis e apontar para possíveis caminhos futuros. Nosso trabalho mostra que narrativas de uma Praga catastrófica possuem pouca base empírica, e que novas estimativas quanto à mortalidade da doença devem ser feitas com cautela.

Palavras-chave: Antiguidade Tardia; Paleopatologia; Mortalidade; Interdisciplinaridade.

Abstract: The mortality of the Plague of Justinian (541-750 CE) is a topic that has been generating very different analyses, which in some cases rely on scant evidence to reach grandiose conclusions. A more meticulous of the extant evidence leads us to more soundly based conclusions, even if less ambitious ones, which help us better understand a turbulent period in the history of the Mediterranean. The article analyses written, archaeological, and paleopathological pieces of evidence, in order to illustrate potential problems in the extant evidence and point to new possible approaches. Our work shows that the narratives that describe a catastrophic Plague have little empirical base, and that new estimates as to the mortality of the disease must be done with care.

Keywords: Late Antiquity; Paleopathology; Mortality; Interdisciplinarity.

9 Parte deste trabalho foi apresentada no VI Encontro de Pesquisa na Graduação em História (EPEGH- USP), em 2018.

10 Graduando em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação do professor dr. Pedro Paulo Abreu Funari. E-mail: [email protected].

(26)

26 Introdução

Um tema muito mencionado, mas pouco aprofundado pela maioria dos estudiosos da Antiguidade Tardia, é a Praga de Justiniano, que surgiu em 541 e reapareceu de maneira recorrente até 747-750 da Era Comum. Dentro deste tema há três grandes debates: a) qual o patógeno causador da doença, b) qual a origem deste patógeno, e c) qual sua mortalidade, e o que pode ter acarretado desta mortalidade.

A primeira linha de pesquisa encontra-se próxima de um consenso, com grande convergência entre descrições literárias e estudos biológicos, que nos levam a crer que a culpada por esta série de eventos é a bactéria Yersinia pestis, mesmo agente causador da Peste Negra no século XIV.11 Em contrapartida, a origem da Praga se mostrou esquiva por algumas décadas, mas estudos recentes têm demonstrado com cada vez mais clareza que o agente patológico da Praga surgiu no Oriente, chegando ao Império Bizantino através de rotas comerciais que passavam pelo Mar Vermelho.12 Deste modo, resta-nos a terceira linha de pesquisa.

Trabalhos que fazem referência à Praga de Justiniano existem desde o século XIX, mas o debate acerca de sua mortalidade se tornou mais ativo apenas nas últimas décadas, e ainda não produziu um consenso.13 Enquanto alguns historiadores classificam a Praga como um fator catastrófico para a época,14 outros chegam a afirmar que ela teve pouco efeito real sobre a população e economia bizantinas.15

11 SALLARES, Robert. Ecology, Evolution, and Epidemiology of Plague. In: LITTLE, Lester (ed.) Plague and the End of Antiquity. The Pandemic of 541-750. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, pp. 237-238; McCORMICK, Michael. Tracking mass death during the fall of Rome's empire (I). Journal of Roman Archaeology, vol. 28, 2015, pp. 342-343 para um resumo de estudos recentes que utilizam sequenciamento de DNA.

12 WAGNER et al. Yersinia pestis and the Plague of Justinian 541-543 AD: a genomic analysis. Lancet Infectious Diseases, 2014, p. 323; SUSSMAN, George D. Scientists Doing History: Central Africa and the Origins of the First Plague Pandemic. Journal of World History, vol. 26, no. 2. University of Hawaii Press, 2015, pp. 326, 346.

13 Cf. STATHAKOPOULOS, Dionysios. The Justinianic plague revisited. Byzantine and Modern Greek Studies, vol. 24, 2000; HORDEN, Peregrine. Mediterranean Plague in the Age of Justinian. In: MAAS, Michael, The Cambridge Companion to the Age of Justinian. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

14 CAMERON, Averil. The Mediterranean World in Late Antiquity. Second Edition. London and New York: Routledge, 2012 [1993], pp. 113-114; SARRIS, Peter. Empires of Faith. The Fall of Rome to the Rise of Islam, 500-700. Oxford: Oxford University Press, 2011, p. 159; HARPER, Kyle. The Fate of Rome. Princeton: Princeton University Press, 2017, p. 234.

15 WHITTOW, Mark. The Making of Byzantium, 600-1025. Berkeley, CA: University of California Press, 1996, pp. 66-67; WICKHAM, Chris. Framing the Early Middle Ages. Europe and the Mediterranean, 400-800. Oxford: Oxford University Press, 2005, pp. 548-549.

(27)

27 também uma série de trabalhos que retiram o protagonismo da Praga, vendo-a como como um fator secundário para as mudanças econômicas e demográficas observadas no período.16 É notável como em tempos recentes há uma maior propensão a se atribuir protagonismo a questões ambientais em processos históricos, algo que também se observa no caso aqui estudado.17

Uma alegação comum entre aqueles que argumentam por uma Praga catastrófica é que ela teria resultado em uma taxa de mortalidade comparável à da Peste Negra, de algo em torno de 50-60% da população.18 O presente trabalho apresenta razões para crer que a Praga de Justiniano foi de fato mortífera, mas em uma escala menor e mais fragmentada do que este valor sugere, e se baseia tanto em obras historiográficas quanto em trabalhos paleopatológicos,19 além de usar de evidências primárias, principalmente traduções de textos escritos. No entanto, não será fornecido um número alternativo, visto que além da pluralidade de interpretações possíveis para nossas evidências escritas, qualquer estimativa terá de ser atualizada em poucos anos graças ao influxo constante de novos estudos genéticos, com uso de tecnologias pouco exploradas até o momento.

Relatos escritos e retórica

A base escrita principal para o catastrofismo quanto à Praga de Justiniano é composta do relato de quatro autores antigos: Procópio de Cesareia (500-565), João do Éfeso (507-586), Agátias (536-582), e Evágrio (536-590). Enquanto os dois primeiros falam da primeira onda da Praga em Constantinopla, o terceiro fala de uma

16 WARD-PERKINS, Bryan. The Fall of Rome and the End of Civilization. Oxford: Oxford University Press, 2005, pp. 133-134, por exemplo, classifica a Praga de Justiniano apenas como um fator complementar no declínio econômico que observa no Ocidente no período, enquanto STATHAKOPOULOS, Dionysios. Crime and Punishment. The Plague in the Byzantine Empire, 541- 749. In: LITTLE, Lester (ed.) Plague and the End of Antiquity. The Pandemic of 541-750. Cambridge:

Cambridge University Press, 2007, p. 118, vê a Praga como catalisadora de processos que já haviam se iniciado nas décadas anteriores.

17 STATHAKOPOULOS, Dionysios. Famine and Pestilence in the Late Roman and Early Byzantine Empire. A systematic survey of subsistence crises and epidemics. London and New York: Routledge, 2004, pp. 1-2.

18 HARPER, op. cit., p. 234.

19 O estudo das condições patológicas em restos mortais de humanos e animais.

(28)

28 segunda aparição, em 558/562, e o último concentra seu relato na quarta ocorrência da Praga na cidade de Antioquia, na última década do século VI.20

Começaremos por Agátias. O autor aponta que em 557 houve um grande terremoto em Constantinopla, sucedido, alguns anos mais tarde, pela segunda aparição da Praga.21 Apesar de não nos fornecer estimativas quanto à mortalidade da Praga, de seu relato podemos extrair duas informações principais: em primeiro lugar, a doença jamais desapareceu por completo após a primeira onda, e se deslocava de uma cidade a outra;22 em segundo, a cidade de Constantinopla passou por diversos tipos diferentes de desastre natural neste período, e não apenas pela Praga.

Em um relato posterior ao de Agátias, ao referir-se a uma ocorrência da Praga em 592-593 em Antioquia, Evágrio corrobora a ideia de que ela se deslocou de um lugar a outro. Ao mesmo tempo, ele nos informa de que dentro de uma mesma cidade era possível que alguns bairros fossem atingidos de forma severa, enquanto outros passavam praticamente ilesos pela doença, e era comum que em uma cidade que passou praticamente ilesa pela praga ainda assim houvessem casas destruídas. Uma última informação apontada por Evágrio é a de que a Praga não tinha época bem definida para surgir, causando estrago em diversas épocas do ano.23 Apesar desses dados, e de se referir à morte de diversos membros de sua família e de servos por conta da Praga, Evágrio tampouco nos fornece estimativa da mortalidade da doença.

Neste sentido, o relato de Procópio pode ser-nos mais útil. Isto porque além de corroborar as descrições de Agátias e Evágrio, de uma Praga que praticamente ignorava alguns lugares enquanto atingia outros com força,24 um ponto que será aprofundado na próxima seção, Procópio também nos fornece números quanto à mortalidade da doença em Constantinopla. Logo de início o autor afirma, em sua História das guerras, que a doença chegou muito perto de aniquilar toda a

20 É necessário ressaltar, como alerta HARPER, op. cit., p. 236, que a metáfora de onda só se aplica à primeira aparição da Praga, que se desloca de Pelusium, no Egito, como uma onda em torno do Mediterrâneo. Entretanto, depois desta primeira onda a Praga já se encontrava “armazenada” em populações de roedores, tornando o padrão das aparições subsequentes muito mais complexo, e incompatível com esta metáfora.

21 AGÁTIAS, Histories, 5.3.1-3.

22 Ibid., 5.10.1-4.

23 EVÁGRIO, Ecclesiastical History, 4.29.

24 PROCÓPIO, History of the Wars, 2.22.

Referências

Documentos relacionados

ponto de acesso sem fios, você pode se conectar ao projetor sem fios através do ponto de acesso usando o software de rede da Epson.. Instalação do módulo de LAN

1º - Aprovar “ad referendum” o Projeto Pedagógico do Curso de Formação Inicial e Continuada de Língua Brasileira de Sinais Intermediário I e II do

Portanto, mesmo percebendo a presença da música em diferentes situações no ambiente de educação infantil, percebe-se que as atividades relacionadas ao fazer musical ainda são

• A Revolução Industrial corresponde ao processo de industrialização que teve início na segunda metade do.. século XVIII no

a) Aplicação das provas objetivas. b) Divulgação dos gabaritos oficiais do Concurso Público. c) Listas de resultados do Concurso Público. Os recursos interpostos que não se

A partir dos fatores citados como predisponentes e determinantes criam-se perturbações hemodinâmicas locais que podem desencadear os fatores condicionantes,

Clique com o botão direito no ícone da área e selecione a opção Update para atualizar o arquivo de configuração.. Clique com o botão direito no ícone da área e clique

Estudos que analisam a dinâmica dos rendimentos por meio de componentes permanente e transitório permitem a identificação do comportamento da renda como sendo