“Ta na hora do picado pessoal ou seria picado malhado?”
A alimentação dos “trabalhadores do Mar” em tempos de Paz e Guerra: o caso da Companhia de Aprendizes de Marinheiros (1840) e da guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1864-1870) – primeiras incursões.
RESUMO: O presente ensaio tem como objetivos apresentar e brevemente discutir sobre o tipo de alimentação disponível e oferecida aos “trabalhadores do mar” em dois momentos históricos e políticos da Marinha Imperial do Brasil:
a Criação da Companhia de Aprendizes de Marinheiros (1840) e a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1864-1870). Para sua execução nos valemos de fontes oficiais disponíveis nos relatórios e anotações das autoridades navais constituídas nos períodos correspondentes. Ao final, concluímos que apesar da temporalidade e espaços específicos para onde concentramos nosso olhar e, até onde podemos alcançar inicialmente, muitas foram as dificuldades e total dependência das forças de mar em tempos de Paz e Guerra às estruturas de apoio e logística necessárias ao bom êxito para aquilo que se foram idealizados e desenrolados os respectivos momentos;
oriundas principalmente pelas estruturas hierárquica social e política experimentadas pelos dois eventos presentes na Marinha Imperial.
Primeiras impressões:
A ideia de produzir um estudo amplo, claro e profundo sobre a alimentação disponível e oferecida aos “trabalhadores do mar”, aqui constituídos pelos oficiais e marinheiros não é nova. Acredito, partindo de prévias análises e sérias pesquisas acadêmicas que a bordo dos navios existiria (existe?); assim como, na sociedade imperial uma distinção social imposta ao/pelo hábito alimentar. Ou seja, reproduzia-se a bordo das embarcações costumes e práticas da desigualdade social, cultural e étnica vigentes.
A mudança por opção para o Estado do MS, mais especificamente sua capital e aproximação com outra cultura alimentar regionalizada e até mesmo internacional, dada à proximidade fronteiriça com o Paraguai e a Bolívia, me fez rever os planos iniciais; que pesar de adormecido não está totalmente descartado.
Uma dessas aproximações gastronômicas a título de curiosidade e que me transportou a pensar sobre uma “nova história Social Naval” foi o contato
com a iguaria conhecida na cidade de Campo Grande, e em todo o Estado do Mato Grosso do Sul como “sopa paraguaia”. Qualquer um que não conhece ou pelo menos ao ouvir (ou ler) sobre a sopa imaginaria assim como eu imaginei que se tratava de algum tipo de alimento líquido servida em um prato; fundo de preferência, a fim de caber maior quantidade e, evitar desperdício do “caldo”.1 Contudo, para minha surpresa após esperar algum tempo que a sopa (caldo) fosse servida o que se viu foi um “bolo” cortado em pedaços, ainda quente ou frio (a critério de quem vai se servir/comer), após um bom tempo ao assado no forno a lenha ou a gás.
https://www.tudoreceitas.com/receita-de-sopa-paraguaia-tradicional-1377.html
A sopa paraguaia constitui-se basicamente em sua receita de farinha de milho, assim como outros ingredientes que foram ao longo do tempo incorporados á receita original paraguaia como queijo, ovos e cebola; existindo para tal duas versões sobre a “invenção” da sopa paraguaia; ambas oriundas do século XIX, que se completam e são cheias de histórias.
1 Segundo o dicionário Aurélio da língua portuguesa por sopa entende-se: Caldo com legumes, carne, massas etc., que ordinariamente constitui o primeiro prato do jantar. Em espanhol: Potaje. No guarani:
tYKUE.
Uma, diz respeito à época do Presidente Carlos Antonio Lopez (1790- 1862), pai de Solano Lopez. Segundo relatos orais de Francisco Amarilla o presidente gostava muito de caldos e sopas; e durante um jantar oferecido a muitos convidados a cozinheira com pouca experiência para servir muitos, e incumbida de preparar o prato favorito de Carlos Antonio Lopez se equivoca e adiciona muita farinha de milho ao preparo da sopa. Isso tornou aquilo que deveria ser uma sopa muito grossa (dura). Sem tempo para reparar o erro o prato foi servido da forma que se encontrava. Após o jantar um dos convidados perguntou ao então presidente como se chamava aquele delicioso prato, sendo prontamente respondido por Carlos Antonio – “Sopa Paraguaia”.2
A segunda, também extraída de fonte oral de um residente na cidade de Ponta Porá com comércio em Pedro Juan Caballero (cidade fronteiriça no lado Paraguaio). Contou-nos o Sr. Hector Marreco que durante a Guerra do Paraguai a “sopa paraguaia foi inventada”. Tudo em decorrência da abundância de milho no país e por se constituir na base alimentar do povo paraguaio. Complementou o senhor Hector que para facilitar o transporte logístico de alimentos dos soldados paraguaios de um front a outro, foi necessário engrossar a sopa para evitar derramamento e poder conservá-la por mais tempo; assim evitando a fome durante os combates.
Mas, o que tem a ver essas histórias com a proposta em questão apresentada?
Lembro que no início comentei que algumas ideias estavam adormecidas. Uma delas era fazer uma pesquisa sobre a “sopa paraguaia” e sua possível inserção no habito alimentar de marinheiros brasileiros durante os combates na Guerra da Tríplice Aliança, frente ao inquestionável desafio da fome a que foram submetidos os marinheiros durante anos de combate e enormes desafios logísticos de reabastecimento pelo Comando da Esquadra sediado em Buenos Aires pela pessoa do Almirante Tamandaré.3
2 https://www.youtube.com/watch?v=Xv_2OmTrGAU
3 Arquivo da Marinha. Livros VII, VIII.
Assim como eu, muitos historiadores foram pegos de surpresa e diretamente afetados pela pandemia da Covid-19. Consequentemente, com o fechamento de arquivos e bibliotecas no Brasil e no Paraguai. Nesse sentido, inviabilizando o acesso a documentos relacionados às pesquisas em geral.
Todavia, a historiografia não se limita as epidemias e a perspectiva de poder trabalhar com um tema ainda pouco explorado dentro da “História Social Naval”, me deu um sopro de alento ao proporcionar uma abertura parcial e transversal para algumas temáticas; isso à medida que poderia me valer de algumas fontes catalogadas e submetê-las a novas perguntas, a novos questionamentos relacionados direta ou indiretamente a uma produção histórico-social que incorpora sujeitos ausentes e “rangos” presentes.
E foi pensando sobre essas questões e alinhados aquilo que estava sendo, ainda que incipientemente em minhas “elucubrações” que proponho este ensaio sem medo de críticas como tentativa de organização temática, formulação de hipóteses e uma melhor sedimentação teórico-metodológica.
A COMPANHIA DE APRENDIZ DE MARINHEIRO (1840):4
A Companhia de Aprendiz de Marinheiro foi criada no Brasil nos anos de 1840, após um período de experimentação como Companhias Fixas de Aprendizes Marinheiros datada de 1836. Mas, em um processo mapeado que se inicia em 1833, por intermédio de Salvador Maciel, então ministro da Marinha.
A Companhia de Aprendizes de Marinheiros do Rio de Janeiro passou a desempenhar um papel importante na constituição de um grupo específico de trabalhadores do mar, constituídos aqui pelos marinheiros, cujo objetivo era dar início ao processo de instrução e educação formal das praças de Marinha, em relação ao outro grupo constituído pelos oficiais que já se encontravam imersos
4 Aqui utilizamos partes ou integralmente trechos de um trabalho de maior fôlego. DIAS, Jorge Antonio.
O processo de criação e consolidação da primeira Companhia de Aprendizes Marinheiros (1840). Tese em História apresentada ao PPHPBC da FGV/CPDOC, 2017.
nessa fase, além do enfardamento propriamente dito. Como primeira unidade, a Companhia do Rio de Janeiro serviu como um modelo de utilidade para as futuras, e por seu intermédio as autoridades navais constituídas puderam vislumbrar que ali estaria se constituindo a “esperança da Armada Nacional e Imperial”, nas palavras do ministro da Marinha em 1848, Manoel Vieira Tosta.5 A ideia de criar corpos de marinheiros instruídos e educados não era nova, e o processo se iniciaria anos antes, exatamente a partir de uma conduta política institucional pensada pela e para a Marinha, com base nas diferentes experiências vividas pelos indivíduos que compartilhavam o mesmo espaço de trabalho, mas submetidos a regimes diferenciados de status social, instrução e educação.
A questão que se coloca como ênfase para este ensaio é como uma instituição que foi criada para determinado fim; que em tese seria constituir um corpo de marinhagem equiparada de forma “profissional” aos oficiais oriundos da academia dos guardas-marinhas pudesse ser submetida a um tratamento diferenciado; especialmente relacionado ao tipo de alimentação aos jovens ali engajados.
As fontes para esse tipo de incursão ainda necessitam de maior e melhor trato teórico-metodológico; assim como, uma ampliação e cruzamento de dados relacionados às receitas e despesas da Marinha Imperial. Por ora, aquilo que nos prontificamos a elencar é o tipo de alimentação disponível naquele momento histórico de criação da Companhia; o que poderá me remeter a permanências.
De acordo com levantamentos prévios relacionados aos diferentes trabalhos acadêmicos uma coisa salta aos olhos: as dificuldades em alimentar muitas pessoas e as péssimas condições dessa alimentação, sejam elas ligados a quantidade e sua qualidade. Em quase todos os trabalhos acadêmicos (não são poucos) já estudados e disponíveis, fica evidente e
5 Relatório do Ministro da Marinha , 1848. (RMM).
latente as críticas de seus autores sobre a má qualidade da alimentação servida aos marinheiros; dentre outros aspectos considerados negativos:
[…] as rações pareciam mais uma bagunça preparada para um rebanho de porcos do que para marinheiros; e até o comandante, com seu rosto negro e peludo e um amplo sorriso licencioso, tinha uma semelhança mais próxima com um Orangotango epauletted do que com um oficial da marinha. (HAZEN, 1969 apud FREIRE, 2012, p. 48).
O relato do viajante Hazen aponta para questões importantes sendo necessário um olhar crítico sobre sua percepção. De qualquer forma esses aspectos chamam atenção pelo fato de que podemos associar esse olhar a uma reprodução social direta nas “cobertas abaixo” daquilo que estava sendo socialmente vivido em diferentes espaços da vida cotidiana, sendo aqui destacado o agravante de estarem esses indivíduos submetidos a regimes de disciplinarização e hierarquia baseada em correias de transmissão de ordens de forma compulsória e violenta em espaços de confinamentos – os navios.
O grande repertório de contenção social que representava a Companhia de Aprendizes de Marinheiros (e as outras 17), durante grande parte do período Imperial encontrou repertórios reativos variados aos processos de sua implantação e consolidação. Não a ideia originária, mais naquilo que foi pouco a pouco se metamorfoseando por intermédio da ação governamental a uma ação que se constituía necessariamente institucional. Afinal, a instituição prometia alimentação, cuidados com a saúde e higiene, educação nas primeiras letras e a instrução para a profissão do mar. As fugas e as deserções e até casos de suicídio integravam esse repertório reativo. E os meninos renunciavam a receber toda essa gama de “benesses” e “promessas” ofertadas pela Marinha e preferiam viver no que as autoridades navais chamavam de marginalidade.
Embora a ideia de Salvador Maciel (1833), tenha introduzido um novo pensamento acerca dos praças da Armada Imperial, a Marinha ainda estava distante em oferecer um espaço para formação de praças; mais distante ainda em solucionar o problema do recrutamento. Portanto, as Companhias Fixas e consequentemente as Companhias de Aprendizes Marinheiros foram a
tentativa e, em certo ponto, um acerto em organizar as praças da Marinha de Guerra buscando alcançar a ordem pela disciplina. Oferecer uma formação em termos modernos de profissionalização militar que ainda iria levar algum tempo a se concretizar; ou seja, somente no século XX, sob um novo paradigma de educação militar (foco para outras pesquisas).
E como se alimentavam os aprendizes e os “trabalhadores do mar”
em geral?
Adiante, reproduzo algumas informações referentes aos tipos de alimentação ofertada e horários. Os horários para as refeições variavam entre 30 e 60 min. e sem referências aos locais onde eram servidas. Certamente não havia para os marinheiros e aprendizes um local específico para sua alimentação levando em consideração o número de indivíduos e o espaço dos navios; diferentemente dos oficiais em número menor e com espaços físicos amplos e reservados.
Não encontramos na documentação referências à quantidade e variedade de alimentos a serem ofertados especificamente para a primeira Companhia. Porém, pela tabela das rações destinadas para os navios da Armada de 1847, podemos inferir qual tipo de alimentação era fornecida tanto para marinheiros como para os oficiais da Marinha, sem levar em conta as diferenciações inerentes às condições de status sociais vividas e reproduzidas a bordo.
A tabela encontra-se divida em duas partes sendo destinados os gêneros alimentícios de acordo com o estado da embarcação e dias da semana.
Qualidade/ti po dos gêneros
FUNDEADO A VELA
UC* dom seg ter qua qui sex sab dom seg ter qua qui sex sab
Arroz Onça 4 - - 4 4 4 - 4 4 - 4 4 4 -
Aguardente Medid a
1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 Azeite doce Medid - - - 1/120 - 1/240 1/240 1/240 1/240 1/240 1/240 1/240
a
Açúcar Libra 1/12 1/12 1/12 1/6 1/12 1/6 1/12 1/12 1/6 1/12 1/6 1/12 1/6 1/12 Bolacha Libra - - - 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2
Bacalhau Libra - - - 3/4 - - - 3/4 -
Café ou Cacau
Libra 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24 1/24
Carne fresca Libra 1 1 1 1 1
1/4 1/4 1/4 - 1/4 - 1/4 - - - -
Carne de vaca salgada
Libra - - - 1 - 1 - 1 - 1
1/4 1/4 1/4 1/4
Carne de porco
salgada Libra - - - 3/4 - 3/4 - - -
Carne seca Libra. - - - 3/4 - - - -
Farinha Alq.** 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80 1/80
Legume - 1/20
0
1/200 1/200 - 1/200 1/200 - 1/200 1/200 1/200 - 1/200 1/200 Lenha (por
praça)
Achas +
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
Pão Libras 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 1/2 - - - -
Sal Alq. 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/ 1/
1280 128 0
1280 1280 1280 1280 1280 1600 1600 1600 1600 1600 1600 1600 Toucinho Libra 1/16 1/16 1/16 1/16 1/16 - 1/16 1/32 1/32 1/32 1/32 1/32 - 1/32 Vinagre Medid
a
1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 1/60 Verdura
(por praça)
Réis 5 5 5 5 5 5 5 - - - -
Fonte: AN. Série Marinha, VM -237 AX, Ofícios do Pessoal
*UC – Unidade Comparativa; ** Alq. - Alqueire; +Achas – Pedaços de madeira usada como lenha
Os navios fundeados correspondem aqueles que estão sem atividade no mar, enquanto a vela, em serviço. Observa-se que alguns gêneros alimentícios em função da dificuldade de armazenamento e durabilidade não são ofertados aos integrantes dos navios a vela. As rações eram fracionadas por dias da semana conforme tabela apresentada. Aos domingos as rações eram ainda mais fracionadas, assim como, a oferta de alimentos. Pelas informações contidas na tabela não podemos saber; mas, por se tratar de um dia em que
muitos eram licenciados para ir a terra acredita-se que a quantidade “servida”
(se fosse o caso) deveria realmente ser menor.
Segundo a documentação, nos navios, cujas guarnições fossem menores que 50 praças seriam distribuídas duas achas de lenha por dia a cada um. E, naqueles acima de 50 a 100 praças inclusive, três achas para dois praças, também por dia. As carnes salgadas seriam distribuídas na proporção de uma libra (aproximadamente hoje 453g), para cada praça. A liberação de aguardente estava prevista para os navios onde existisse excesso de trabalho conforme aviso de 30 de agosto de 1834. De acordo com a determinação do Ministro Cândido Batista de Oliveira (1847) às praças menores do Corpo de Imperiais Marinheiros estava proibido à liberação da aguardente.
Os Oficiais eram responsáveis em providenciar a substituição de qualquer um dos gêneros que estivessem em falta, desde que custassem menos. O cálculo realizado para as refeições levava em conta o número de 100 praças para dois meses de atividades a bordo. Excedendo esse período deveriam ser abonadas, além do duplo da quantidade marcada para 30 dias, mais metade dessa quantidade, para cada mês, que excedesse aos dois meses programados.6 Segue a distribuição desses gêneros alimentícios segundo as refeições diárias para navios fundeados:
REFEIÇÃO
ALMOÇO JANTAR CEIA
Dias da Semana
DOM Café, açúcar e pão
Carne fresca, arroz, toucinho, farinha, sal,
vinagre e verdura Carne fresca, toucinho, farinha, sal, vinagre SEG Idem Carne fresca, feijão, toucinho, farinha, sal,
vinagre e verdura Idem
TER Idem Idem Idem
QUA Idem Carne seca, feijão, toucinho, farinha, sal,
vinagre e verdura Arroz com açúcar
QUI Idem Carne fresca, arroz, toucinho, farinha, sal, viangre e verdura
Carne fresca, toucinho, farinha, sal, vinagre SEX Idem Piexe ou bacalhau, feijão, azeite, farinha, sal,
vinagre e verdura
Arroz com açúcar SAB Idem Carne fresca, feijão, toucinho, farinha, sal,
vinagre e verdura
Carne fresca, toucinho, farinha, sal e vinagre
6AN. Série Marinha, VM -237 AX, Ofícios do Pessoal.
Para os navios a vela:
REFEIÇÃO
ALMOÇO JANTAR CEIA
Dias da Semana
DOM Café, açúcar e pão ou bolacha
Carne vaca, arroz, toucinho, farinha, sal,
vinagre Carne salgada, azeite, farinha, sal, vinagre
SEG Idem Porco salgado, feijão, toucinho, farinha,
sal, vinagre Arroz com açúcar
TER Idem Vaca salgada, feijão, toucinho, farinha,
vinagre, sal Vaca salgada, azeite, farinha, vinagre, sal QUA Idem Porco salgado, feijão, toucinho, farinha,
vinagre, sal Arroz com açúcar
QUI Idem Vaca salgada, arroz, toucinho, farinha, vinagre, sal
Vaca salgada, azeite, farinha, vinagre, sal SEX Idem Bacalhau ou peixe, azeite, farinha, vinagre
e sal
Arroz com açúcar SAB Idem Vaca salgada, feijão, toucinho, farinha,
vinagre e sal
Vaca salgada, azeite, farinha, vinagre e sal.
Fonte: AN. Série Marinha, VM -237 AX, Ofícios do Pessoal.
Pode ser observado que alguns itens constantes nas dietas diárias dos
“Trabalhadores do Mar” aparecem com maior ou menor frequência dependo de determinadas variáveis, inclusive climáticas e tempo de duração do período:
fundeadas ou a vela. Isso corrobora com o fato de que a despeito das grandes dificuldades de abastecimento e aprovisionamento de grande parte dos itens da alimentação, ainda assim; poderiam ser oferecidos. Sem, contudo, precisar sua quantidade e condições para o consumo.
A primeira refeição do dia – o almoço – era oferecida por volta das 8h30min, o jantar às 13horas e a ceia no final da tarde. Do horário da última refeição até a primeira do dia seguinte existia um excessivo número de horas sem que os marinheiros pudessem se alimentar. Essa divisão desproporcional de horários, aliada à qualidade e possivelmente as quantidades insuficientes para manter e refazer a constituição física de um jovem aprendiz tornaria ainda mais difícil a rotina pesada de instrução e educação formal em uma Companhia de Aprendiz Marinheiro.
Sobre a alimentação, encontramos no relatório do Oficial Comandante da Marinha Pedro da Cunha, de 1838, um dos responsáveis por relatar o estado geral das Companhias Fixas à Intendência da Marinha, queixas sobre os tipos
de carne que estavam sendo servidas aos marinheiros. Segundo o comandante, a carne de porco e o bacalhau pioravam a infestação de sarna que acometia 84 marinheiros, sendo que, destes, 53 já haviam “baixado hospital” e os demais se encontravam também “contaminados”, prejudicando os serviços de bordo. Em outro ofício, datado de 21 novembro de 1838, o Comandante escrevia sobre a ampliação das instalações do Hospital de Marinha: Absolutamente indispensável pelo bem da humanidade, devendo ser feito com maior brevidade para que não faltem por muito tempo as indispensáveis acomodações para os doentes. 7
Os relatos do comandante são em certos pontos esclarecedores sobre a qualidade da alimentação servida, a despreocupação de alguns elementos responsáveis pelo abastecimento e aprovisionamentos ás condições de salubridade a bordo das embarcações e também nos hospitais da armada, lócus da saúde dos “trabalhadores do mar”.
Todos esses aspectos observáveis de perto por indivíduos que estavam a bordo dos navios da Marinha de Guerra do Brasil imperial e, naquele momento histórico e político imerso em uma relativa cultura de paz entre nações.
A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O PARAGUAI: AS CONDIÇÕES DE ALIMENTAÇÃO NOS NAVIOS DA ARMADA IMPERIAL DURANTE O CONFLITO: IMPRESSÕES “VISTAS DE CIMA”.
A historiografia que têm nos últimos anos de debruçado sobre o conflito busca destacar que na realidade a guerra não trouxe vencedores, mas derrotados em maior ou menor grau para todos os povos envolvidos deixando claros os diferentes locos de interesses históricos autoritários na América Latina. Não me cabe aqui relatar os passos iniciais ou finais do conflito que foge a à proposta de estudo neste instante; mas, apenas sob o ponto de vista de parte do teatro de operações uma fração expressiva da força política audível dentro da Marinha de Guerra em relação às dificuldades da intendência e
7 AN. Série Marinha. Inspeção do Arsenal da Corte, XM 675, Fundo B2.
logística alimentar dos “trabalhadores do mar” envolvidos na “maldita guerra”.
Resumidamente: o que se comia dependia muito do momento da guerra.
Algumas variáveis importantes serão destacadas adiante como os tipos de embarcação e uma mudança tecnológica importante para o desenvolvimento da guerra, ou seja; o uso de navios á vapor em substituição as velas. O que para o acondicionamento e guarda de produtos alimentícios fazia uma enorme diferença – o que diria nesse caso um “fiel da aguada”?
As principais fontes de subsistências dos militares da Esquadra Imperial brasileira nos rios Paraná e Paraguai durante a guerra eram: bolacha, carne seca ou salgada, bacalhau, toucinho, arroz, feijão, café e aguardente. Assim se constituía a ração dos marinheiros: Ao almoço de: Café - Uma libra para 18 praças. Açúcar - Uma libra para 12 praças. Pão, ou bolacha - Meia libra por praça. Jantar: Gêneros variáveis. Ceia: Gêneros variáveis. Estes gêneros eram invariavelmente divididos em quatro espécies, tal como apresentados abaixo:
1ª Espécie: Feijão - Um alqueire para 18 praças. Arroz - Quatro onças por praça. Carne fresca - Libra e quarta por praça. 2ª Espécie: Feijão. Carne salgada. Toucinho. Azeite doce. 3ª Espécie: Feijão, ou arroz. Carne seca.
Toucinho. 4ª Espécie: Feijão. Bacalhau, ou peixe. Azeite.8
Carlos Azevedo, acima referenciado informava que o café e o chá eram muito utilizados e revezavam-se entre si na falta de um ou outro, sendo a aguardente a bebida preferível dos marinheiros e, em alguns casos podendo ser substituída pelo vinho. Ao que nos parece, sem nenhum juízo de valor, o autor talvez estivesse se referindo ao uso do vinho para os oficiais; muito embora, pela aspereza do momento e acontecimentos o álcool da forma como fosse apresentado serviria como uma maneira de beber, que se faz a partir de modelos, geralmente em grupo, associada a uma dinâmica do cotidiano laboral, produzindo um habitus alcoólico, ou seja, um comportamento que é postural, gestual, como linguagem, impregnado de sentido.
8AZEVEDO, Carlos Xavier Frederico dos Santos. História Médico-Cirurgica da Esquadra Brasileira as Campanhas do Uruguay e Paraguay de 1864 a 1869. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1870.
Podemos ainda observar que as carnes (salgadas), a exemplo do que já foi sumariado fazia parte da dieta dos marinheiros. Isso se explica devido à dificuldade de armazenamento e paralelamente a necessidade orgânica de proteína animal para a robustez das fainas marítimas.
A farinha de guerra, ou comumente chamada “farinha de mandioca” era parte integrante e necessária a bordo dos navios da Marinha de Guerra lusitanas e depois incorporada à brasileira; como exemplo do destaque dado pelo professor Jaime Rodrigues em relação às longas viagens dos portugueses.9
As dificuldades de manutenção de um navio nas condições de fundeado ou vela eram enormes e os desafios de alimentar muitas pessoas maiores ainda. Principalmente dada às incertezas que incorriam sobre os acontecimentos políticos e logísticos que acompanharam todos os períodos da guerra; principalmente quando do avanço das esquadras brasileiras em territórios desconhecidos e hostis aos combatentes brasileiros.
O dispêndio de mais tempo que o planejado na subida do rio Paraná levou ao maior consumo de alimentos e, apesar de ter-se levado em consideração tal possibilidade e haver-se aprovisionado os navios com gêneros para três meses de navegação, as condições de armazenamento dos alimentos por vezes contribuíam para sua deterioração.10
O racionamento fazia-se presente e aliando-se a isso as dificuldades de receber mantimentos devido aos bloqueios paraguaios ás embarcações brasileiras constituindo-se motivos para um desabastecimento geral e consequentemente a fome nos conveses e porões dos navios – a oficiais e marinheiros;
(...) em breve escasseará a carne, faltando já bolacha em alguns navios. Como deste gênero ou pão e carne, contávamos obter suprimento em Corrientes, tendo sido ocupada esta cidade pelos
9RODRIGUES, Jaime. “De farinha, bendito seja Deus, estamos por agora muito bem”: uma história da mandioca em perspectiva atlântica. In. Revista Brasileira de História, v. 37, n. 75, p. 69-95, São Paulo, set. 2017.
10 ANTUNES, Euzébio José. Memórias das Campanhas contra o Estado Oriental do Uruguai e a República do Paraguai. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 2007.
Paraguaios, nada recebemos, e temos que recorrer ao pouco que trouxemos.11
Este não foi apenas o primeiro ato de desespero. Em carta remetida no dia 7 de junho, Barroso comunica não ter regressado ainda a Canhoneira Ipiranga, estando às tripulações dos navios da força naval sob seu comando acometido pelas “três pragas: peste, fome e guerra”.12
Com isso, inferimos que o futuro Almirante deixaria claro que as questões de outrora percebidas por alguns comandantes desde a criação das Companhias de Aprendizes ainda estavam para serem resolvidas, ou seja; a insalubridade a bordo, o acondicionamento de alimentos tendo como agravantes a guerra; como se uma Marinha de Guerra não deveria estar preparada para tal.
Essas condições não eram, no entanto exclusividades dos combatentes brasileiros e, porque não dizer dos paraguaios e demais aliados. Mas, também de observadores, correspondentes de guerra e da população do entorno do teatro de operações que em alguns casos encontravam-se alheios a tudo que estava acontecendo; ainda que por alguns instantes beneficiados comercialmente pelas dificuldades alimentares de ambos os lados.
Mas, nenhum outro grupo sofreu mais como os “trabalhadores do Mar”, dadas suas especificidades e dificuldades experimentadas no teatro de operações da guerra. Em 1865, o então comandante e futuro Almirante e Barão de Teffé, a bordo da canhoneira Araguari referia-se que estava comendo mal, bebendo uma água impossível e sendo martirizado pelos mosquitos. Ruim para ele imagina para os integrantes da marinhagem!13
11BARROSO, Francisco Manuel. Extratos do diário particular do Almirante Barroso. In. GAMA, Edina Laura Nogueira da (Orgs). Narrativas, biografias e fontes da Guerra da Tríplice Aliança: Subsídios para a história marítima do Brasil. Volume I. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 2016.
12ARQUIVO DA MARINHA, Livro VII, Doc. 489, 1865.
13 HOONHOLTZ, Antonio Luiz von. Memórias do Almirante Barão de Teffé – A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Livraria Garnier Irmãos, 1912. Disponível no DPHDM.
Há navios que não têm bolacha, outros carne-seca ou salgada, porque fresca nem por sombra (...) De maneira que aqui nos vemos entre a fome e a guerra (...)
Em todos os navios já os oficiais estão, há dias, reduzidos ao rancho paiol. Eu mesmo, que como sabe, sou previdente, já me vou reduzindo aos últimos recursos; verdade é que o anzol me tem valido e a mais alguém. (...) Nossas guarnições (...) privadas de bolachas.
Isto tem produzido moléstias graves.14
Com a rendição paraguaia e a possibilidade do avanço das embarcações e ocupação por terra pelas tropas do Exército, as condições pareceram mais satisfatórias, ainda que não devidamente resolvidas. Afinal, as doenças nutricionais já haviam atacado grande parte da marinhagem, mortes aconteceram em decorrência da inadequação alimentar e doenças daí ocasionadas e ligadas aos ferimentos da guerra. A vulnerabilidade dos soldados às doenças era um fator inevitável nas considerações militares, pois se tratava de um problema que afetava as tropas de forma muito mais crítica do que as ações dos inimigos; reporta-nos o historiador Adler Castro.15
E com essa melhora a documentação consultada nos reporta para algumas regalias alimentares das quais puderam desfrutar a oficialidade. Sem, contudo, mencionar se estas também foram estendidas ao grosso dos trabalhadores do mar.
(...) no Transporte Apa, que deve sair amanhã, (...) te enviam, as tuas irmãs, uma lata com biscoitos de polvilho. Ainda não sei se recebeste a farinha que pediste, e te mandei acondicionada numa barrica.16
Finalizando este item nos reporto-me para algumas questões já levantadas.
Ficou aparentemente evidente que a alimentação dos “trabalhadores do mar” a
14 Relatos dos comandantes Joaquim José Pinto e Segundino Gomensoro. Apud:
JACEGUAY, Arthur Silveira da Motta Barão de. De Aspirante a Almirante. 2ª ed. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1984.
15 CASTRO, Adler Homero Fonseca de. A Guerra nos tempos do Cólera: o efeito do sistema de saúde militar nas operações de combate. In. Memoria del X Encuentro Internacional de Historia sobre la Guerra de la Triple Alianza. Asunción: Asociación Cultural Mandu’arã, 2018.
16 Missiva recebida pelo comandante Silveira da Mota. Apud: JACEGUAY, Arthur Silveira da Motta Barão de. De Aspirante a Almirante. 2 ed. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1984.
despeito de todo o aprovisionamento possuía falhas decorrentes da inexperiência de combates de média e longa duração sem um apoio logístico da intendência da Marinha capaz de prover tais necessidades. As experiências de guerra anteriores não possuíram especificidades como estas. Aliado a isso, o advento tecnológico dos navios a vapor colocou na ordem do dia como acondicionar melhor os alimentos de média duração longe do alcance das altas temperaturas para alimentos e líquidos vulneráveis ao calor das máquinas.
Por fim, o que nos chamou atenção de uma forma geral foi a pouca variedade de alimentos disponíveis em meio a uma abundância de recursos naturais que ainda existiam nos limites fronteiriços daquele momento histórico. Estariam à utilização de tais recursos delimitados também pelas narrativas providencialistas e de pouco ou nenhum apelo sensível às forças políticas ainda inaudíveis? Fica aqui esse questionamento.
Breves considerações finais:
O presente ensaio foi ousado, reconheço. Procurei destacar por intermédio de dois momentos espacialmente diferentes as dificuldades empreendidas por aqueles que provem e aqueles que são providos de uma fonte extremamente necessária à subsistência humana – a alimentação.
Decorre dai nossa aproximação e ousadia em trabalhar sob o mesmo enfoque a criação de uma instituição de guarda e ensino para jovens aprendizes de marinheiros e, a presença desses marinheiros em um evento bélico.
O que procurei apontar em linhas gerais foi à dificuldade de dirigentes da Marinha e dos responsáveis pelo Império a necessidade de alimentar seus corpos de “trabalhadores do Mar”, para o desempenho de suas atribuições.
Para tal, nos valemos de uma ideia que ainda adormecida vai ganhando forma e precisa de mais tempo aprofundamento teórico-metodológico.
A fome, tal como descrito pelos relatos dos oficiais era grande no teatro de operações. Nossa hipótese, que ainda precisa ser lapidada esta relacionada à necessidade de suprir as dificuldades de alimentação com a base alimentar disponível a abundante no território do inimigo que iria sendo paulatinamente sucumbido. Refiro-me à farinha de milho e, por conseguinte a iguaria dela decorrente – a sopa paraguaia – que hoje integra o cardápio de grande parte dos habitantes do Estado do Mato Grosso do Sul e possui em sua origem na mística do equívoco e da necessidade imposta pela guerra.
Teriam os marinheiros brasileiros entrado em contato com tal iguaria nos momentos de agrura e fome? De alguma forma ou intermediada a farinha de milho integrou, a exemplo da farinha de mandioca a dieta nutricional dos marinheiros brasileiros frente algumas dificuldades?
Estou ciente que as dificuldades serão grandes. Os desafios ainda maiores pelo que ainda esta pela frente.
Referências Bibliográficas Regionais:
CAPESTRINI, Hildebrando. História de Mato Grosso do sul. 98 ed. Campo Grande, IHGMS, 2016.
CORREA, Valmir Batista e Lúcia Salsa. Memórias da Grande Guerra. Campo Grande, IHGMS, 2018.
MELO E SILVA, Canaã do Oeste. Campo Grande, Tribunal de justiça de Mato Grosso do Sul, 1989.
RESQUIN, Francisco Isidoro. Datos Históricos de La Guerra Del Paraguay contra La Triple Alianza. Asuncion, Paraguay, 1875.
Referências bibliográficas Complementares:
MAESTRI, Mario. Por uma historiografia dos povos sobre a Guerra da Tríplice Aliança contra a República do Paraguai. Texto apresentado e disponibilizado no Curso sobre a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, 2021.
MAIOR, Roberto de Souza. Rolo de Japona: dicionário, contos e crônicas do linguajar marinheiro (praças). Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional (RJ) sob o número 289.266, livro 523, folha 426.
MENEZES, Ulpiano Bezerra de & CARNEIRO, Henrique. A História da Alimentação:
balizas historiográficas.