+56,67
Pró-Reitoria Acadêmica
Escola de Medicina
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Gerontologia
AS PRÁTICAS RELIGIOSAS, ESPIRITUAIS E A FÉ DO IDOSO
NO AUXÍLIO DA SUPERAÇÃO DOS DESAFIOS ADVINDOS
DAS FERIDAS CRÔNICAS
BRASÍLIA
–
DF
2015
ABDOULAYE COULIBALY
AS PRÁTICAS RELIGIOSAS, ESPIRITUAIS E A FÉ DO IDOSO NO AUXÍLIO DA SUPERAÇÃO DOS DESAFIOS ADVINDOS DAS FERIDAS CRÔNICAS
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação Stricto Sensu em
Gerontologia da Universidade Católica de Brasília como requisito para obtenção do título de mestre em Gerontologia.
Orientador: Prof. Dr. Vicente Paulo Alves
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB
C855p Coulibaly, Abdoulaye.
As práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso no auxílio da superação dos desafios advindos das feridas crônicas. / Abdoulaye Coulibaly – 2015.
57 f.; 30 cm
Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2015. Orientação: Prof. Dr. Vicente Paulo Alves
1. Gerontologia. 2. Idosos. 3. Feridas crônicas. 4. Qualidade de vida. 5. Espiritualidade. 6. Religiosidade. I. Alves, Vicente Paulo, orient. II. Título.
Dissertação de autoria de Abdoulaye Coulibaly, intitulada “As práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso no auxílio dos desafios advindos das feridas crônicas”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:
____________________________________________________________
Prof. Dr. Vicente Paulo Alves Orientador
____________________________________________________________
Profa. Dra. Maria Liz Cunha de Oliveira Avaliadora Interna
____________________________________________________________
Profa. Dra. Alessandra da Rocha Arrais Avaliadora Externa
Agradeço primeiramente a Deus, por sua presença constante na minha vida, o que me possibilitou concluir esta tarefa.
À minha esposa, Rosemeire, que nunca esteve ausente nos meus projetos, um exemplo de humanismo e companheirismo na minha vida. Muitíssimo obrigado por estar no meu cotidiano, por me dar a certeza do seu apoio e amor por nossa família.
Ao meu primogênito filho, Aboubakr Ismael, que tem me dado alegria e força para lutar ainda mais. Sua presença é hoje indispensável para minha sobrevivência e esforços. Meu amor por você é incondicional.
À minha princesa, Awa Nadira, cujo sorriso e calor transmitem paz e me fazem gigante diante dos desafios e a quem eu amo sem medidas. Que Deus a abençoe.
Ao meu orientador, Professor Doutor Vicente Paulo Alves, pela paciência, dedicação, competência e profundo conhecimento. Sou grato por tudo que fez neste processo acadêmico a meu favor.
À Professora Doutora Maria Liz Cunha de Oliveira, pelo tempo e dedicação durante as aulas. Uma figura marcante na minha vida acadêmica. Valeu por tudo.
À Professora Doutora Lucy Gomes, por sua profunda experiência na área e condução de suas aulas que certamente encheram-me de conhecimento. O meu carinho, respeito e admiração pelo empenho, capacidade e dedicação profissional.
À Professora Doutora Altair Macedo Lahud Loureiro, pela ajuda e elucidação de dúvidas nos momentos certos. Muito agradecido.
Aos participantes desta pesquisa, pela acolhida e pela rica experiência de uma vida plena de sentido.
COULIBALY, A. As práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso no auxílio da superação dos desafios advindos das feridas crônicas. 57 f.Dissertação
(Mestrado em Gerontologia) - Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2015.
A velhice é um desafio para todos e graças à evolução da ciência há um crescimento da expectativa de vida em nível mundial. O envelhecimento provoca modificações em vários aspectos, que determinam maior fragilidade frente aos processos patológicos, tornando os indivíduos mais suscetíveis às doenças. Os cuidadores de pessoas idosas, formais ou informais, procuram destinar suas decisões e procedimentos junto ao idoso que, quando portador de feridas crônicas, enfrenta um desafio maior. Os principais fatores que foram identificados nesta pesquisa mostram a influência que há na abordagem das feridas crônicas por cuidadores, e foram agrupadas em cinco áreas (ou ambientes): fisiológico, psicossocial, econômico, político e espiritual. As feridas crônicas provocam mudanças na vida da pessoa, que, a partir da patologia, sofre alterações no seu padrão e estilo de vida e passa a viver em função de seu problema, abrindo mão das coisas que mais gosta e das atividades que desempenhava. Além de envolver questões como a aparência e limitações, a doença também abala a "psique", devido às alterações na autoimagem, vida afetiva e emocional. O presente estudo objetiva investigar como a religiosidade e a espiritualidade podem contribuir no enfrentamento das feridas crônicas. Trata-se de um estudo do tipo descritivo observacional, com delineamento transversal e abordagem qualitativa e quantitativa. Os resultados permitiram identificar que os idosos portadores de feridas crônicas, além de recorrem à ajuda médica, se valem da sua fé em Deus em busca da cura e da melhoria da sua qualidade de vida. Os dados encontrados indicam a relevância do estudo sobre os idosos possuidores de feridas crônicas, o cuidado médico humanizado e a importância dada por este quanto aos aspectos religiosos e de fé no processo de cura.
COULIBALY, A. Religious practices, spiritual and elderly faith in helping to overcome the challenges arising from the chronic wounds. 57 f. Dissertation (Masters in Gerontology) - Catholic University of Brasília, Brasília, 2015.
Old age is a challenge for everyone and for the sciences, which enabled an increase in life expectancy worldwide. Aging causes changes in various aspects that determine greater fragility front of pathological processes, making individuals more susceptible to disease. Caregivers of elderly, formal or informal, looking aside decisions and procedures with the elderly and when they are suffering from chronic wounds, then face a bigger challenge. The main factors that have been identified in this research shows that there is influence in addressing chronic wounds by caregivers, which were grouped into five areas (or environments): physiological, psychosocial, economic, political and spiritual. Chronic wounds cause changes in the life of the person from the disease undergoes changes in its pattern and lifestyle and begins to live according to your problem, giving up the things they like and the activities they performed. Besides involving issues with the appearance and limitations, the disease also undermines the "psyche" due to changes in self-image, affective and emotional life. This study aims to investigate how religion and spirituality can help in coping with chronic wounds. It is a study of observational descriptive, cross-sectional design and qualitative and quantitative approach. The results showed that patients with chronic wounds elderly addition to turn to medical help, make use of their faith in God for healing and improving their quality of life. The data indicate the relevance of the study on the elderly possessors of chronic wounds, the humanized medical care and the importance given by them about the religious aspects and faith in the healing process.
1 INTRODUÇÃO ... 8
2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 12
2.1 O ENVELHECIMENTO ... 12
2.2 IMPACTOS PSICOLÓGICOS NA PESSOA IDOSA COM FERIDAS CRÔNICAS ... 12
2.3 PRÁTICAS RELIGIOSAS E ESPIRITUAIS ... 15
2.4 A RELIGIOSIDADE COMO FATOR DE PROTEÇÃO ... 16
3 OBJETIVOS ... 18
3.1 OBJETIVO GERAL ... 18
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 18
4 ARTIGO ... 19
REFERÊNCIAS ... 19
ANEXO - Parecer Consubstanciado CEP ... 35
APÊNDICE A - Roteiro de entrevista semiestruturada, identificação e perfil social ... 40
APÊNDICE B - Eixo Temático da entrevista semiestruturada ... 41
APÊNDICE C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ... 42
1 INTRODUÇÃO
O processo de envelhecimento e a velhice, embora uma consequência natural da vida, torna-se um desafio para todos e continua sendo uma das preocupações da humanidade desde o início da civilização, ainda que, com a evolução da ciência, a expectativa de vida venha crescendo em nível mundial. Nesse contexto, o Brasil experimenta um crescimento significativo da população idosa em relação a outros grupos etários. Em razão disso, poucos problemas têm merecido tanta preocupação do homem como o envelhecimento e a incapacidade funcional comumente associada ao fator tempo (FREITAS et al., 2011).
Mesmo que envelhecer seja um processo doloroso e contínuo, lento e gradual, em que acontecem diversas modificações no organismo em vários aspectos - determinantes para a diminuição da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior fragilidade diante dos processos patológicos, tornando-o mais suscetível às doenças, que terminam por levá-lo à morte - a maioria dos idosos, sejam eles portadores de doenças ou disfunções orgânicas, não apresentam necessariamente limitação de suas atividades ou restrição da participação social (GUTZ; CAMARGO, 2013).
Ainda assim, com a presença de doenças, o idoso pode continuar exercendo seu papel social e as ações de saúde têm uma estreita relação com a funcionalidade global do indivíduo, sendo esta definida como a capacidade de gerir a própria vida ou cuidar de si mesmo. Um indivíduo pode ser tido como saudável quando ainda seja capaz de realizar suas atividades diárias sozinho, de forma independente e autônoma, mesmo que seja portador de uma patologia (NEGREIROS, 2010).
A prevalência de doenças crônico-degenerativas, entretanto, contribui para o aumento de idosos com limitações funcionais, o que leva à necessidade de cuidados especiais e constantes. O aparecimento de doenças, sobretudo de cunho crônico, prejudica a saúde de muitos indivíduos, principalmente nessa fase mais avançada da vida, conforme referenciam Ferreira et al. (2010), ao descreverem que as doenças crônicas representam a causa mais comum do desenvolvimento de incapacidades associadas ao envelhecimento. Dentre as muitas doenças crônicas que provocam grande impacto psicológico, estão as feridas crônicas, que causam uma longa, dolorosa e progressiva caminhada, dia após dia, na espera da cura.
As úlceras de membros inferiores são lesões que podem surgir espontaneamente ou de forma acidental, relacionadas a processos patológicos sistêmicos ou no membro afetado e que não cicatrizam em determinado intervalo de tempo.Consideradas como um problema de saúde pública, pela alta incidência e importância socioeconômica, as úlceras de perna são prevalentes entre as feridas crônicas na população em geral (0,6 a 3,6/1000 pessoas), causam dor e reduzem a capacidade de deambular, resultando em dependência, perdas econômicas e isolamento social devido a aparência e odor desagradável.
No Brasil, as feridas representam um problema de saúde pública, devido ao elevado número de doentes com alterações (WAIDMAN et al., 2011), e o alto número de indivíduos com feridas contribui para onerar o gasto público, além de interferir na qualidade de vida da população. Para amenizar essa situação, a equipe multiprofissional deve favorecer uma assistência abrangente, atendendo às necessidades biopsicossociais, para melhorar as condições de vida, e com o intuito de favorecer essa assistência, a prática de cuidados de feridas crônicas ao longo dos anos passou por profundas transformações, desafiando o conhecimento técnico-científico dos profissionais de saúde.
Uma assistência de boa qualidade é direito de todo cidadão e o profissional de saúde deve ter uma visão integradora e compreensiva de que o cuidado é mais que um ato, é um momento de atenção, uma atitude de ocupação, preocupação, envolvimento afetivo com o outro. Dessa forma, Waidman et al. (2011, p. 3) concluíram em seus pensamentos:
No cotidiano de pessoas com feridas há presença de sofrimento, e isto acontece devido a dúvidas e angústias em relação ao tratamento e, principalmente, a ansiedade em ver a evolução da ferida para uma melhora. Dentro desta perspectiva, percebe-se que para estas pessoas uma ferida pode não ser apenas uma lesão física, mas algo que dói sem necessariamente precisar de estímulos sensoriais, uma marca, uma perda irreparável, ou seja, algo além de uma doença incurável. Ela fragiliza e muitas vezes incapacita o ser humano para diversas atividades, em especial as laborativas. Frente a observações realizadas e queixas ouvidas das pessoas com esses problemas que chegam ao serviço especializado se faz pensar que esta doença acomete o indivíduo como um todo.
desempenhava um papel ativo na família, trabalhando, prestando apoio emocional e financeiro aos familiares e, de repente, de uma hora para outra, tudo isso pode mudar de forma dramática e impactante (CARVALHO; PAIVA; APARICIO, 2012).
A ferida sempre esteve vinculada a um processo de sofrimento humano. Historicamente, os indivíduos que sofreram com essas feridas foram excluídos da sociedade e maculados pelo resto de suas vidas, pois simbolizavam pecado, dor, angústia, isolamento e morte. O distanciamento dos familiares, a perda dos amigos, o abandono dos parceiros, assim como a perda da autonomia e da atividade profissional são situações enfrentadas por esses indivíduos que experimentam não apenas mudanças no corpo físico, mas também alterações psicológicas e sociais (CARVALHO, 2010).
Para Lucchetti, Almeida e Granero (2010), as práticas religiosas e espirituais proporcionam melhores resultados na saúde, incluindo maior longevidade, habilidades de enfrentamento, qualidade de vida e menos ansiedade.
Segundo Carvalho, Paiva e Aparicio, (2012), as questões da religiosidade e da espiritualidade devem ser tidas como fundamentais, visto a influência das práticas religiosas na interpretação e modo de tratar com os eventos adversos - como a superação da dor emocional e a autoconfiança em lidar com várias outras circunstâncias. Diante do entendimento da doença e do próprio estado de saúde em que se encontra, o paciente se envolve em dimensões subjetivas, emocionais e religiosas em busca de mecanismos que lhe sirvam de estratégias para aumentar o autofortalecimento e como proteção. Neste aspecto, a religião e a espiritualidade podem ser um elemento de apoio no processo de adoecimento.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 O ENVELHECIMENTO
O envelhecimento pode ser uma etapa de vida difícil, pois, além de suas características próprias, encerra ainda muitos preconceitos e desconhecimento de seu processo, tornando difícil a aceitação da sociedade para as mudanças que se apresentam. O resultado disso é que o idoso, muitas vezes, traz consigo a sensação de inadequação ao meio em que vive, o que explica muitas das mudanças no seu comportamento, estado de humor e hábitos (FERREIRA et al., 2010).
Esses efeitos podem ter consequências positivas e/ou negativas, as quais são observadas nas diversas dimensões do indivíduo idoso. No campo orgânico, tem-se o envelhecimento biológico; no setor do psiquismo, o envelhecimento psíquico/mental. Todos esses fatores são de igual importância uma vez que fazem parte da manutenção da autonomia e independência da pessoa (WAIDMAN et al., 2011).
A velhice é o elemento principal para o surgimento da degeneração do organismo humano e de doenças que levam à incapacidade de ordem física e mental. As décadas vividas colocam o indivíduo diante de uma gama de fatores que causam negatividade ao bem-estar, que na sua grande maioria são revelados e percebidos na velhice, após anos de exposição silenciosa (NEGREIROS, 2010).
2.2 IMPACTOS PSICOLÓGICOS NA PESSOA IDOSA COM FERIDAS CRÔNICAS
Nota-se que a qualidade de vida dos portadores de feridas crônicas possui um agravante importante no que se refere aos pacientes idosos, muitos deles convivendo com o mal por períodos prolongados. Não se pode restringir apenas a prestar uma assistência técnica ou à doença especificamente, deve-se ater aos aspectos que envolvem a qualidade de vida destes. As feridas crônicas afetam o estilo de vida e, geralmente, são acompanhadas de sofrimento, elevados custos de tratamentos e baixa qualidade de vida e de autoestima (FERREIRA et al., 2010).
no desenvolvimento das várias modalidades terapêuticas a serem aplicadas nas úlceras venosas crônicas. Porém, neste campo, mantém-se a necessidade de compreender o complexo processo de cicatrização, bem como os aspectos biopsicossociais que envolvem o “universo próximo” dos possuidores destas feridas (FERREIRA et al., 2010).
Deste modo, tal como acontece em muitas outras doenças crônicas, a abordagem terapêutica das feridas crônicas é influenciada por múltiplos fatores. Esses não se reduzem somente aos fatores fisiológicos, como a presença de circulação sanguínea adequada ou de sinais de infecção (WAIDMAN et al., 2011).
De fato, o processo de cicatrização de uma ferida crônica pode ser influenciado por muitos outros fatores, quais sejam:
econômicos, no que concerne ao acesso a produtos adequados e necessários ao tratamento;
sociais, por exemplo, na acessibilidade aos recursos/sistemas de saúde; espirituais, relacionados com as crenças pessoais e com a própria esperança dos doentes;
psicoemocionais, relacionados com a motivação dos indivíduos, a forma como reagem e lidam com o seu tratamento, a forma como outros cuidadores interagem em todo este processo;
políticos, nomeadamente na forma como são equacionadas e postas em prática políticas de saúde que influenciam direta ou indiretamente as pessoas que necessitam de assistência e de cuidados de saúde (WAIDMAN et al., 2011).
Esses são apenas alguns exemplos que nos impelem à reflexão acerca da grande multiplicidade de fatores distintos que, não sendo estáticos e imutáveis, mostram que são dinâmicos, interagem entre si, concorrendo de um modo global para a abordagem necessária que o fenômeno das pessoas com feridas crônicas exige. Neste contexto, torna-se essencial constar que os problemas crônicos de saúde são multidimensionais na sua natureza.
No entanto, além dessas doenças, os idosos podem sofrer com as chamadas doenças psicossomáticas, ou seja, aquelas que têm componente psíquico em sua origem. São manifestações orgânicas provocadas por problemas emocionais, como tensões e depressão. As feridas crônicas provocam mudanças na vida da pessoa que a partir da patologia sofre alterações no seu padrão e estilo de vida e passa a viver em função de seu problema, abrindo mão das coisas que mais gostam e das atividades que desempenhavam. Além de envolver questões com a aparência e limitações, a doença também diminui prazeres do cotidiano da pessoa, devido às alterações na autoimagem, vida afetiva e emocional.
O testemunho dado por Waidman et al. (2011, p. 2) em suas pesquisas demonstram falta de motivação, alegria e prazer pela vida decorrentes dessa situação, acarretando alterações na saúde mental:
Para ser considerado saudável, acredita-se que o indivíduo precisa estar em harmonia com seu eu, e acima de tudo, sentir-se saudável e gozando de bem-estar. Desta forma, a saúde mental faz a diferença para o sentimento de saúde geral do indivíduo, No entanto, a experiência mostra que nos serviços de saúde, os profissionais ainda não conseguem ver o ser humano na sua integralidade, muitas vezes enxergando apenas a ferida, que é "visível" e por esta razão, oferecem cuidados relacionados apenas a ela. Esta provavelmente é a razão de as pessoas em seus depoimentos durante a coleta de dados, terem revelado sofrimento psíquico relacionado à presença da ferida, assim, necessitam ser mais bem explorados por pesquisadores.
Observa-se que as feridas causam transtornos na vida cotidiana do paciente, tanto pelos altos custos com tratamento, pelas repetidas faltas ao trabalho e/ou demissão, além de uma significativa diminuição do prazer pelas atividades do dia a dia. A doença provoca alterações especialmente na vida do indivíduo, aumentando as responsabilidades e exigindo habilidades de natureza médica, de forma particular nos casos de doenças incapacitantes, em que o doente deixa de exercer suas atividades rotineiras (WAIDMAN et al., 2011).
A saúde mental dessas pessoas, como elas vivenciam essa experiência de vida, como lidam com esse problema e como é o convívio familiar frente a essa situação, podendo ou não, levar ao sofrimento físico e psíquico, dependendo do grau de comprometimento da família, é um dos desafios que a enfermagem enfrenta ao cuidar de pacientes com feridas crônicas. Por isso, cuidar do indivíduo significa estar atento a toda a sua dimensão enquanto ser humano, destarte, ao preocupar com a saúde mental estamos nos referindo a uma adaptação eficaz a fatores de estresse do ambiente interno e externo, o que é evidenciada por pensamentos, sentimentos ou comportamentos apropriados para a idade e congruentes com normas locais e culturais. Num modelo de saúde integrado e baseado na evidência, a saúde mental, onde incluem-se as emoções e os padrões de pensamento, emergem como determinante-chave da saúde geral (WAIDMAN et al.,2011, p. 2).
Neste contexto, o convívio com a pessoa doente portadora de uma ferida crônica e a possibilidade de perceber seu sofrimento físico e psíquico levam a refletir que essa condição traz uma série de mudanças na vida, não apenas de quem tem uma ferida, mas também de seus familiares que, muitas vezes, não estão preparados para compreender todos os aspectos que envolvem o problema, necessitando, desta forma, de apoio social e psicológico de forma sistemática (WAIDMAN et al., 2011).
2.3 PRÁTICAS RELIGIOSAS E ESPIRITUAIS
A religião é um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos destinados a facilitar a proximidade do indivíduo com o sagrado ou o transcendente (GUTZ; CAMARGO, 2013). Um dos recursos utilizados pelos idosos diante de problemas, especialmente quando se trata de doença, é a religião. A religião e a espiritualidade podem auxiliar no enfrentamento desses eventos, considerados frequentemente como estressores.
ao indivíduo como a Deus, ambos percebidos como participantes ativos na solução de problemas (GUTZ; CAMARGO, 2013).
A hospitalização também representa um evento estressor. A doença, os sintomas físicos, os procedimentos invasivos, a dependência, a quebra de rotina e de papéis sociais, a distância dos familiares, a gravidade do estado de saúde, o medo do desconhecido e as fantasias sobre a morte são condições frequentemente vivenciadas.
De acordo com Waidman et al. (2011, p. 5) algumas famílias evidenciaram que a esperança está relacionada à fé da existência divina, que dá força e realimenta diariamente o desejo da melhora e da cura, além de diminuir a ansiedade frente à situação de estar doente ou da morte.
A crença religiosa constitui uma parte importante da cultura, dos princípios e dos valores utilizados pelos clientes para dar forma a julgamentos e ao processamento de informações. Muitas pesquisas têm sido desenvolvidas no sentido de provar que a crença, o cultivo de uma fé e a participação em uma comunidade, faz bem e ajuda as pessoas a viverem mais, ressaltando-se a fé como um fator de saúde, como obressaltando-servamos [...].
Neste aspecto, é possível acreditar que a fé e a religiosidade sejam capazes de amenizar a angústia e o sofrimento em relação à doença, em especial daqueles que convivem com algum tipo de agravo crônico. A espiritualidade leva a pessoa à esperança, aumentando as perspectivas de um futuro melhor, de viver com maior qualidade de vida, ou então, alimentando a esperança de uma cura (WAIDMAN et al., 2011).
Deste modo, percebe-se que o cuidar da pessoa idosa engloba fatores de ordem física, psicológica e espiritual, os quais devem ser observados por aqueles que se ocupam no serviço de assistência ao idoso, para que tenham elementos para a autoajuda e superação de suas angústias e desafios.
2.4 A RELIGIOSIDADE COMO FATOR DE PROTEÇÃO
vida e o enfrentamento da doença, devendo sempre ser consideradas pelos profissionais de saúde como fator relevante, desde que não comprometam o tratamento:
A partir da década de 1950, estudos epidemiológicos passaram a mostrar as correlações entre a religiosidade e a espiritualidade para o paciente e desencadearam uma série de linhas de pesquisa nesse assunto. Atualmente são demonstradas associações entre maior religiosidade/espiritualidade e doenças mentais (maior bem-estar geral, menores prevalências de depressão,abuso de drogase suicídio), melhor qualidade de vida, maior "coping" (modo de lidar com a doença), menor mortalidade, menor tempo de internaçãoe até melhor função imunológica.
Assim, pode-se supor que aqueles que estreitam seus laços e possuem uma vivência religiosa e espiritual adquirem maior força para o enfrentamento, muitas vezes crucial, de doenças psicológicas ou físicas. Sobre isso, alguns autores afirmam que:
3 OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL
Investigar como as práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso podem contribuir no auxílio da superação de desafios advindos das feridas crônicas.
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Identificar se os pacientes sofreram impactos psicológicos em decorrência do surgimento das feridas crônicas.
4 ARTIGO
As práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso no auxílio da superação de desafios advindos das feridas crônicas em idosos
Religious practices, spiritual and elderly faith in helping to overcome the challenges arising from the chronic wounds
Abdoulaye Coulibaly Vicente Paulo Alves
RESUMO
Este estudo objetiva investigar como as práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso podem contribuir no auxílio da superação dos desafios advindos das feridas crônicas. Trata-se de um estudo do tipo descritivo observacional, com delineamento transversal e abordagem qualitativa e quantitativa. Os resultados permitiram identificar que os idosos portadores de feridas crônicas, além de recorrem à ajuda médica, valem-se da sua religiosidade e fé em busca da cura e da melhoria da sua qualidade de vida.
Palavras-chave: Idosos. Feridas Crônicas. Religiosidade.
ABSTRACT
Keywords:Elderly. Chronic wounds. Religiosity.
Introdução
processo de envelhecimento é uma consequência natural e a velhice continua sendo uma das preocupações da humanidade desde o início da civilização. Poucos problemas têm merecido tanta preocupação do homem como o envelhecimento e a incapacidade funcional comumente associada ao fator tempo (Freitas et al., 2011).
Envelhecer é um processo doloroso e contínuo, lento e gradual, no qual acontecem diversas modificações no organismo, em vários aspectos, que são determinantes para a diminuição da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior fragilidade diante dos processos patológicos, tornando-o mais suscetível às doenças, que terminam por levá-lo à morte. Mesmo assim, a maioria dos idosos, sejam eles portadores de doenças ou disfunções orgânicas, não apresentam necessariamente limitação de suas atividades ou restrição da participação social (Gutz & Camargo, 2013).
Assim, mesmo com a presença de doenças, o idoso pode continuar exercendo seu papel social. As ações de saúde têm uma estreita relação com a funcionalidade global do indivíduo. É definida como a capacidade de gerir a própria vida ou cuidar de si mesmo. Um indivíduo pode ser tido como saudável quando ainda seja capaz de realizar suas atividades diárias sozinho, de forma independente e autônoma, mesmo que seja portador de uma patologia (Negreiros, 2010).
Porém, a prevalência de doenças crônico-degenerativas contribui para o aumento de idosos com limitações funcionais, implicando necessidade de cuidados especiais e constantes. O aparecimento de doenças, sobretudo de cunho crônico, prejudica a saúde de muitos indivíduos, principalmente quando estão na fase mais avançada da vida que é a velhice, conforme referenciam Ferreira et al. (2010), ao descreverem que as doenças crônicas representam a causa mais comum do desenvolvimento de incapacidades associadas ao envelhecimento. Dentre as doenças crônicas, umas das muitas que provocam grande impacto psicológico, estão as feridas crônicas, que causam uma longa, dolorosa e progressiva caminhada, dia após dia, na espera da cura.
Sobre esta temática, Oliveira et al. (2012:3) dizem em seu trabalho:
Waidman et al. (2011) apresentam que, no Brasil, as feridas representam um problema de saúde pública, devido ao elevado número de doentes com alterações na pele. O alto número de indivíduos com feridas contribui para onerar o gasto público, além de interferir na qualidade de vida da população. Para amenizar essa situação, a equipe multiprofissional deve favorecer uma assistência abrangente, atendendo às necessidades biopsicossociais, para melhorar as condições de vida.
Com o intuito de favorecer essa assistência, a prática de cuidados de feridas crônicas ao longo dos anos passou por profundas transformações, desafiando o conhecimento técnico-científico dos profissionais de saúde.
Todo cidadão tem direito a uma assistência de boa qualidade, sendo que o profissional de saúde deve ter uma visão integradora e compreensiva de que o cuidado é mais que um ato, é um momento de atenção, uma atitude de ocupação, preocupação, envolvimento afetivo com o outro. Dessa forma, Waidman et al. (2011:3) concluíram em seus pensamentos:
No cotidiano de pessoas com feridas há presença de sofrimento, e isto acontece devido a dúvidas e angústias em relação ao tratamento e, principalmente, a ansiedade em ver a evolução da ferida para uma melhora. Dentro desta perspectiva, percebe-se que para estas pessoas uma ferida pode não ser apenas uma lesão física, mas algo que dói sem necessariamente precisar de estímulos sensoriais, uma marca, uma perda irreparável, ou seja, algo além de uma doença incurável. Ela fragiliza e muitas vezes incapacita o ser humano para diversas atividades, em especial as laborativas. Frente a observações realizadas e queixas ouvidas das pessoas com esses problemas que chegam ao serviço especializado se faz pensar que esta doença acomete o indivíduo como um todo.
Deve ser dada devida atenção aos aspectos psicológicos dos idosos na assistência, tanto institucional como domiciliar, quando estes são portadores de doenças cutâneo-crônicas, pois esta atenção é fortemente determinante para a melhoria da qualidade de vida e bem-estar físico, psicológico e espiritual. A situação de adoecimento de um familiar idoso ou pessoa querida pode ser um momento muito delicado para a família, pois, muitas vezes, a pessoa que está doente desempenhava um papel ativo na família, trabalhando, prestando apoio emocional e financeiro aos familiares e, de repente, de uma hora para outra, tudo isso pode mudar de forma dramática e impactante (Carvalho, Paiva, & Aparicio, 2012).
indivíduos que experimentam não apenas mudanças no corpo físico, mas também alterações psicológicas e sociais (Carvalho, 2010).
Para Lucchetti, Almeida e Granero (2010), as práticas religiosas e espirituais proporcionam melhores resultados na saúde, incluindo maior longevidade, habilidades de enfrentamento, qualidade de vida e menos ansiedade.
Segundo Carvalho, Paiva e Aparicio (2012), as questões da religiosidade e da espiritualidade devem ser tidas como fundamentais, visto a influência das práticas religiosas na interpretação e modo de tratar com os eventos adversos - como a superação da dor emocional e a autoconfiança em lidar com várias outras circunstâncias. Diante do entendimento da doença e do próprio estado de saúde em que se encontra, o paciente se envolve em dimensões subjetivas, emocionais e religiosas em busca de mecanismos que lhe sirvam de estratégias para aumentar o autofortalecimento e como proteção. Neste aspecto, a religião e a espiritualidade podem ser um elemento de apoio no processo de adoecimento.
O interesse em estudar feridas crônicas e saber se as práticas religiosas, espirituais e a fé do idoso podem ajudar no auxílio da superação de desafios advindos das feridas crônicas, surgiu da vivência como médico cirurgião plástico, ao observar idosos com lesões cutâneas crônicas e suas percepções e reações. O que levou à reflexão de que as diversas demonstrações de fé que ocorreram durante os procedimentos, como fazer o sinal da cruz, buscar falar com Deus em voz baixa, clamar por Deus, dentre outras devoções religioso-espirituais, pareciam trazer conforto e diminuição da ansiedade no momento dos procedimentos. Foram essas manifestações de espiritualidade, religiosidade, fé e esperança que se tornaram motivo de incentivo para o desenvolvimento desta pesquisa.
Este estudo, portanto, será sobre o cuidar do idoso, os aspectos psicológicos do envelhecimento e seus impactos em pessoas idosas com feridas crônicas, as resiliências como fator de autoajuda e superação de desafios, bem como a religião e a pessoa idosa. Justifica-se em razão das lesões cutâneas crônicas que provocam impactos psicológicos em seus portadores, afetando diretamente o seu estilo de vida, sendo estigmatizados pela sociedade, já que esta doença provoca incapacidades laborais e deformidades físicas. Dentro desse contexto, os profissionais que atuam na área de saúde devem ter um novo olhar para as questões religiosas e espirituais.
Trata-se de uma pesquisa descritiva, com delineamento transversal e abordagem qualitativa, que foi desenvolvida na Fundação Hospitalar Senhora Santana (FHSS) na cidade de Caetité, interior da Bahia, instituição filantrópica construída em 1948 e inaugurada em 1962, que atende pela rede particular e pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Conta com diversos serviços de saúde e profissionais especializados. O atendimento na instituição é de 24 horas, incluindo fins de semana e feriados. Dentre os serviços oferecidos pela FHSS, estão o setor de urgência e emergência, ambulatorial, hospitalar, serviço de apoio, serviço especializado e comissões - Notificações de Doenças Compulsórias e Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH).
A escolha desta instituição foi motivada por ser o espaço de percurso e vivência profissional em que eram atendidas, no momento da coleta de dados, dez pessoas com feridas crônicas. Destas, somente seis atenderam aos critérios de inclusão e foram convidadas a participar da pesquisa. Os critérios definidos para a inclusão no estudo foram: idosos com 60 anos ou mais, de ambos os sexo, portadores de feridas crônicas, que tivessem compreensão cognitiva, auditiva e boas condições de saúde psicológica. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, no período de março a abril de 2014.
A coleta de dados levou em conta a rotina de atendimento dos pacientes portadores de feridas atendidos na instituição a cada quinze dias. Esses pacientes retornam quinzenalmente e, em um primeiro momento, foram contatados para falar sobre o estudo, que se daria no próximo atendimento agendado. Na oportunidade, 15 dias após, realizaram-se as entrevistas com aqueles que aceitaram participar da pesquisa. As entrevistas foram gravadas e digitadas em seguida, preservando-se a linguagem popular expressiva relatada pelos participantes, com base na sua vivência.
A análise dos dados coletados para a pesquisa se deu em três etapas: 1) primeira etapa ou pré-análise: leitura das entrevistas e sistematização dos dados, ressaltando os pontos altos, organizando-se, assim, os objetivos salientados na pesquisa; 2) segunda etapa: também conhecida como exploração de dados, teve como finalidade organizar as ideias em grupos de categorias; 3) terceira e última etapa: análise dos conteúdos, em que foi avaliada a ligação dos achados com a literatura estudada que referenciou o estudo (Severino, 2010). Com base nessas análises, criaram-se os eixos temáticos: o impacto da ferida na vida cotidiana; a fé na cura; o ambiente espiritual; e o apoio biopsicossocial.
Resultados
O Quadro 1 identifica os idosos com relação ao sexo, grau de instrução, estado civil e faixa etária. Detectou-se que 60% dos entrevistados são do gênero masculino e 40%, feminino. Quanto ao grau de instrução, nota-se que 100% dos sujeitos eram analfabetos. Em relação ao estado civil, 80% referiram ser casados e 20%, solteiros. No que tange à faixa etária, verificou-se que o maior número das pessoas entrevistadas (80%) está com 80 anos ou mais, e o menor número (20%), na faixa entre 70 e 75 anos. Entre os participantes, 80% professaram ser católicos e 20%, evangélicos. No quesito renda, 100% dos entrevistados recebem mensalmente 1 salário mínimo.
Quadro 1 - Perfil dos idosos participantes da pesquisa
Sexo
Masculino Feminino
03 02
Variáveis Grau de instrução
Analfabeto 1ª série 2ª série 3ª série 4ª série 5ª série
05 - - - - -
Estado Civil
Casado Solteiro Viúvo Divorciado União Estável
04 01 - - -
Idade
60 – 65 66 – 69 70 – 75 80 +
- - 02 03
Religião
Católicos Evangélicos
04 01
Renda
1 Salário mínimo 2 Salários mínimos 3 Salários mínimos 4 Salários mínimos
05 - - -
Impacto da ferida na vida cotidiana
religião, que é a de dar apoio nesses momentos. Eles não se sentiam preparados para compreender todos os aspectos que envolvem os problemas advindos da doença.
O impacto da ferida reflete-se na redução das atividades dos indivíduos, anteriormente ativos, em relação ao seu trabalho e tarefas cotidianas. Com a ferida eles têm que repousar alguns períodos do dia e, por não estarem habituados, sentem-se incomodados com essa situação, a qual é percebida como limitação e incapacidade, além de prejuízo econômico.
O que há de fazer? É tudo é dado por Deus, a gente tem que se conformar com o que Deus faz, não é? (E3).
Tem dias que eu fico ansiosa assim, mas olho pra Deus (E5).
Já me incomodou bastante, porque me prejudicou muito e foi muito complicado para minha vida, mas, graças a Deus hoje eu já estou muito feliz e agradeço muito a Deus pelas pessoas que me acompanharam e que me ajudaram. Gastei muito e ainda gasto até hoje, mas sempre agradeço as pessoas que me ajudou bastante aqui e as de São Paulo. Agradeço de coração (E1).
A ferida tem me incomodado muito, essa ferida tem me incomodado muito, mas agora estou me sentindo melhor (E2).
A fé na cura
A doença geralmente produz sofrimento, trazendo modificações na vida diária de uma pessoa, e esse sofrimento pode tanto promover a dúvida, como sustentar a confiança de uma pessoa em Deus ou em uma divindade.
Graças a Deus tenho esperança que hoje eu posso dizer que, graças a Deus, eu espero que já estou recebendo a graça de Deus pela cura (E4).
Eu tenho fé em Deus que eu ainda saro a perna (E3).
Tenho, tenho esperança (E5).
Eu tenho fé em Deus que é de sarar isso (...) (E2).
O ambiente espiritual
Este domínio inclui um conjunto de aspectos ligados ao que a pessoa acredita ser seu relacionamento com as forças superiores. Aqui são incluídos os principais fatores capazes de influenciar o tratamento de uma ferida crônica.
Graças a Deus sou da Igreja Católica. Eu agradeço muito a Deus pela minha fé e por ter me acompanhado sempre. Sem a graça de Deus eu hoje não era mais vivo. Então eu agradeço a Deus em primeiro lugar. Sou religioso, vou na igreja, assisto a missa, ajudo rezar, ajudo com meus irmãos com muito prazer, fé, esperança, amor e paz (E3).
Gente, sempre procurei ser religioso, ser católico né, ninguém sabe é, é um católico mas não muito seguidor nem ir direto na igreja, mas eu já segui um pouco (E1).
Sobre as práticas religiosas, espirituais e como poderia curar a partir da fé, fonte de apoio, alguns entrevistados mencionaram:
Graças a Deus. Eu espero em Deus que a prática de Deus é quem cura, que se Deus não me curar ninguém cura, né? (E5)
Sim, considero sim. É Deus ajudando, né? Quem pega com Deus ajuda (E3).
Mais ou menos. Ajuda. Ajuda curar sim (E2).
Eu ... eu vou te falar, eu entendi bem disso ai, mas a religião dar apoio, acho que deve ser apoio espiritual, deve ser de outra religião também, mas eu acho que é apoio também não sei. Acho que sim, né? Talvez, né, eu não sei, só Deus é quem sabe (E3).
O apoio biopsicossocial
Dentro desta questão e perspectiva, procurou-se saber dos entrevistados a importância do apoio de familiares e amigos para obtenção de força para enfrentar seus desafios, temores e incertezas advindos da doença.
Tive apoio de minha família, depois de casado tive apoio da minha esposa, que até hoje graças a Deus me acompanha, meus filhos ... tudo é um coração só comigo. Eles fazem tudo na vida comigo, tudo o que for preciso fazer (E3).
Dos amigos e estranhos (E5).
Tenho muito, graças a Deus, tenho amigos, tenho muito apoio. Eu morava na zona rural, agora depois da ferida eu mudei para o comércio de Ibitira já faz 20 anos que eu mudei para Ibitira (E1).
De amigos demais, principalmente dos filhos (E4).
Hoje eu penso assim: meu Deus, o que será de mim, será que eu estou pagando algum erro que eu fiz, não sei se eu fiz algum erro que. Que a vida leva assim (E2).
Sobre isso, Bedin et al. (2014:63-4) relatam em seu estudo:
A inclusão da família e dos grupos sociais nas ações de cuidado é uma estratégia para promover a autoestima, autonomia e autocuidado. [...] Alguns autores destacam a necessidade do fortalecimento e estabelecimento das redes de apoio, que abarcam os atores sociais que circundam a realidade de vida das pessoas com feridas
comprometimento e da inclusão dos indivíduos no planejamento de seus cuidados, garantindo os subsídios necessários para a autoestima, autonomia e autocuidado.
Sobre a questão do apoio físico e emocional, os entrevistados relataram:
Graças a Deus em primeiro lugar, eu jurei e peço a Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, nossa mãe Maria Santíssima e todos os Santos do céu, que foram quem me socorreram e está me valendo, que é a única coisa na vida que eu enxergo é Deus na minha frente. É meu tratamento, que sem Deus eu não era ninguém hoje (E1).
Com Deus (risos). Supero a dor com a força de Deus, vou à religião, volto e peço a Deus força para me poder ajudar (E4).
Sobre preconceitos sofridos devido à doença, eles relataram:
A isso aí muita gente fala. Falam que isso não tem cura, que não tem jeito. Que eu estava em São Paulo era por que não tinha mais jeito e que eu iria acabar morrendo. Aí enchia de fuxico, e isso o mundo tem de fartura. É conversa perdida, mas graças a Deus, eu sempre estou com Deus, que eu acredito que só iria morrer no dia que Deus marcar. O dia que eu nasci foi ele que marcou o dia de terminar minha vida, também é ele quem sabe do dia, né? Então essa grande fé que eu tenho, que várias pessoas dessas, muitas pessoas dessas que andou falando, já morreu há muitos anos e eu estou vivo, graças a Deus (E3).
Quem é que sabe né? Ninguém sabe não, uma fala uma coisa outro fala outra, eu não sei (E1).
Não que eu saiba, eu nunca soube de alguém que falou nada. A doença é natural, dar em todo mundo não é? (E5).
Discussão
O impacto da ferida na vida cotidiana
Nesse contexto, as alterações provocadas pela ferida podem comprometer a qualidade de vida, além de causar grandes impactos, se não houver apoio e conhecimento adequado quanto ao tratamento ou ao reconhecimento da importância das complicações que decorrem desta patologia, que poderá trazer prejuízos à satisfação na vida familiar, amorosa, social e à própria estética existencial (Pereira Júnior & Henriques, 2010).
Já me incomodou bastante, porque me prejudicou muito e foi muito complicado para minha vida (...) (E3).
A percepção do portador de úlceras crônicas traduz-se em dificuldades decorrentes do agravo pela dor, preconceito, dependência para atividades diárias e consequentes alterações no estado emocional e, por conseguinte, fazendo gerar mudanças no cotidiano desse paciente. Paciente é justamente a denominação que cabe ao portador de uma ferida crônica, já que espera dia após dia pela cura.
Tem dias que eu fico ansiosa assim, mas olho pra Deus (E5).
Para lidar com as questões perturbadoras decorrentes da situação estressora vivenciada por portadores de feridas crônicas, é relevante refletir sobre a percepção da fé na cura neste contexto.
A fé na cura
Neste sentido, é possível inferir que a fé e a religiosidade são capazes de amenizar a angústia e o sofrimento em relação à doença, principalmente, daqueles que convivem com algum tipo de agravo crônico conforme se observa nos discursos dos participantes do estudo.
Eu tenho fé em Deus que eu ainda saro a perna (E1).
As crenças religiosas constituem uma parte integrante e fundamental da cultura, dos princípios e dos valores utilizados pelos indivíduos para dar forma a julgamentos e ao processamento de informações. Muitas pesquisas têm sido realizadas e desenvolvidas no sentido de comprovar que faz bem a crença, o cultivo de uma fé e a participação em uma comunidade, ajudando as pessoas a viverem mais, ressaltando-se a fé como um fator de saúde importante (Gutz & Camargo, 2013).
O ambiente espiritual
Em uma pesquisa realizada com idosos em uso crônico de medicação, Pereira (2011) observou que o idoso busca na religião um sentido, um significado, para enfrentar e superar as condições adversas da doença e que a religiosidade constitui um importante aspecto na vida dos idosos, devendo ser considerada pelos profissionais de saúde.
Em situações de tensão por vários motivos que também inclui a doença, a pessoa se vale da fé como fonte de apoio e orientação. A ideia e personificação da morte leva o indivíduo a procurar apoio nas experiências religiosas. A fé é um elemento que proporciona uma direção, servindo de sustentação das horas de dor e aflição, assim, a crença em um ser supremo e divino, dá sentido à vida, fortalece a fé e, com isso, o poder de superação é aumentado, trazendo refrigério frente aos problemas advindos da doença (Gutz & Camargo, 2013).
O apoio biopsicossocial
Nota-se que, mesmo onde muitos pacientes conseguem por si só realizar seu próprio cuidado, a família atua como apoio no processo do cuidado. Favorecer um espaço de convivência onde ele possa receber este apoio integral para o seu tratamento é de suma importância para sua recuperação. Assim, é preciso identificar, junto com os familiares, formas de ajudar esses indivíduos com feridas crônicas a enfrentar seu sofrimento físico e psíquico (Waidman et al., 2011).
A focalização na família impõe considerá-la como uma esfera na qual estão os sujeitos da atenção. Para tanto, é importante conhecer os problemas de saúde e necessidades em função do contexto físico, econômico e social em que vivem. Em um estudo composto por 32 pacientes portadores de feridas na perna, avaliados pelo instrumento WHOQOL-Bref, o domínio do ambiente foi o que apresentou menor pontuação no que se refere às condições de moradia e apoio que se recebe dos amigos (Savassi, 2010).
Em uma pesquisa desenvolvida pelo Ambulatório de Especialidades do Hospital Universitário Regional de Maringá (HURM), na qual 12 idosos com feridas crônicas foram entrevistados, os resultados demonstram que há perda da autoestima, dor, deficit na qualidade do sono, inaptidão para o trabalho, vergonha e constrangimento para se relacionar socialmente, levando à propensão de problemas de ordem emocional (Waidman et al., 2011).
Os efeitos do preconceito prejudicam o processo saúde-doença e têm sido bastante estudados pela psicologia, quando associados ao processo de enfrentamento diante das situações adversas. Esse enfrentamento, tradução da expressão coping, é conceituado como o conjunto de estratégias utilizadas pelas pessoas para adaptarem-se a circunstâncias adversas. Sua função é a de administração da situação estressora, em vez de controle ou domínio da mesma.
Considerações finais
Diante das observações e reflexões deste estudo, percebe-se que ser acometido por uma ferida causa no indivíduo idoso sentimentos de tristeza e baixa autoestima. No entanto, a pesquisa pretendeu mostrar que, embora as feridas crônicas possam perdurar por vários anos, causando na pessoa profunda tristeza, a prática religiosa, a espiritualidade e a fé podem sustentar e alimentar a esperança de cura nesses indivíduos. Isso leva a inferir que os participantes da pesquisa desenvolveram práticas religiosas e espirituais que fortaleceram sua fé, ajudando-os a superar os desafios advindos do processo de adoecimento.
processo de envelhecimento integrado ao adoecimento. Com isso, é possível estimular na população uma visão positiva do que é o envelhecimento, sem descriminação, principalmente no momento de fragilidade de cunho patológico crônico, conscientes que a religiosidade, a espiritualidade e a fé constituem ferramentas importantes para o enfretamento de doenças.
Neste contexto, ressalta-se a importância fundamental do apoio necessário para as pessoas portadoras de feridas crônicas, para que ocorra o respeito, a colaboração e, principalmente, o cuidado que elas requerem no difícil convívio com a doença. Por esse motivo, pode-se dizer que as crenças religiosas e espirituais cumprem esse papel, uma vez que representam o estímulo e o condicionamento interno indispensável para a superação da exclusão causada pela doença. A autoaceitação da condição de vida é um dos princípios que norteia o estar do homem sobre a terra, portanto, a partir daí, a qualidade de vida passa a ser uma realidade possível.
Referências
Bedin, L.F. et al. (2014). Estratégias de promoção da autoestima, autonomia e autocuidado das pessoas com feridas crônicas. Rev Gaúcha Enferm.; 35(3):61-67.
Carvalho, E.S.S.C. (2010). Viver a sexualidade com o corpo ferido: representações de
mulheres e homens (Tese de Doutorado em Enfermagem). Escola de Enfermagem da UFBA,
Salvador, Bahia.
Carvalho, E.S.S.C., & Paiva, M.S., Aparicio, E.C. (2012). Representações da ferida: entre a
dor, o sofrimento, o heroísmo e o prazer. Salvador: Atualiza Editora.
Ferreira, O.G.L. et al. (2010). Significados atribuídos ao envelhecimento: idoso, velho e idoso ativo. Psico-USF (Impr.), 15(3):357-364. Recuperado em 19 dez. 2014, de: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712010000300009.
Freitas, E.V. et al. (2011). Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Gutz, L., & Camargo, B.V. (2013). Espiritualidade entre idosos mais velhos: um estudo de representações sociais, Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., 16(4):793-804.
Lucchetti, G., Almeida, L.G.C., & Granero, A.L. (2010). Espiritualidade no paciente em diálise: o nefrologista deve abordar? J. Bras. Nefrol.[online], 32(1):128-132. Recuperado em 15 out. 2014, de:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-28002010000100020&script=sci_arttext.
Negreiros, T.C.G.M. (2010). Espiritualidade: desejo de eternidade ou sinal de maturidade?
Rev Mal-Estar Subj, 3(2):275-91. Recuperado em 10 ago. 2014, de:
Oliveira, P.F.T. et al. (2012). Avaliação da dor durante a troca de curativo de úlceras de perna. Texto contexto - enferm. [online]., 21(4):862-869. Recuperado em 19 mar. 2014, de: http://www.scielo.br/pdf/tce/v21n4/17.pdf.
OPAS: Organização Pan-Americana da Saúde; 2012.
Pereira, C.V.C. (2011). A influência da religiosidade na adoção ao uso de medicamentos por
idosos (Dissertação de Mestrado em Gerontologia). Universidade Católica de Brasília,
Brasília, 2011.
Pereira Júnior, A.D.C.,& Henriques, B.D. (2010). The nursing care of the colostomy patient.
Rev enferm UFPE [on line], 4(esp):990-95. Recuperado em 15 mar. 2015, de:
http://www.revista.ufpe.br/revistaenfermagem/index.php/revista/article/viewFile/751/pdf_71
Savassi, L.C.M. (2010). Hanseníase: políticas públicas e qualidade de vida de pacientes e
seus cuidadores (Dissertação de Mestrado em Ciências). Ministério da Saúde Fundação
Oswaldo Cruz, Belo Horizonte, 2010.
Severino, A.J. (2010). Metodologia do trabalho científico (21. ed. revista e ampliada). São Paulo: Cortez.
Waidman, M.A.P. et al. (2011). O cotidiano do indivíduo com ferida crônica e sua saúde mental. Texto contexto - enferm. [online], 20(4):691-699. Recuperado em 19 mar. 2014, de: http://www.scielo.br/pdf/tce/v20n4/07.pdf.
__________________________________________
Abdoulaye Coulibaly - Médico pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Gerontologia da Universidade
Católica de Brasília. [email protected]
Vicente Paulo Alves - Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São
REFERÊNCIAS
CARVALHO, E. S. S. C. Viver a sexualidade com o corpo ferido: representações de mulheres e homens.2010. 255f. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Escola de Enfermagem da UFBA, Salvador, Bahia, 2010.
CARVALHO, E. S. S. C.; PAIVA, M. S.; APARICIO, E. C. Representações da ferida: entre a dor, o sofrimento, o heroísmo e o prazer. Salvador: Atualiza Editora, 2012.
FERREIRA, O. G. L. et al. Significados atribuídos ao envelhecimento: idoso, velho e idoso ativo. Psico-USF (Impr.), Itatiba, v. 15, n. 3, p. 357-364, dez. 2010. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712010000300009>. Acesso em: 19 dez. 2014.
FREITAS, E. V. et al. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.
GUTZ, L.; CAMARGO, B. V. Espiritualidade entre idosos mais velhos: um estudo de representações sociais. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 793-804, 2013.
LUCCHETTI, G.; ALMEIDA, L. G. C.; GRANERO, A. L. Espiritualidade no paciente em diálise: o nefrologista deve abordar?J. Bras. Nefrol. [online], v. 32, n. 1, p. 128-132, 2010. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-28002010000100020&script=sci_arttext>. Acesso em: 15 out. 2014.
NEGREIROS, T. C. G. M. Espiritualidade: desejo de eternidade ou sinal de maturidade? Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza, v. 3, n. 2, p. 275-291, set. 2010. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1518-61482003000200003&script=sci_arttext>. Acesso em: 10 ago. 2014.
OLIVEIRA, P. F. T. et al. Avaliação da dor durante a troca de curativo de úlceras de perna. Texto Contexto Enferm., Florianópolis, v. 21, n. 4, p. 862-869, out.-dez. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/tce/v21n4/17.pdf>. Acesso em: 19 mar. 2014.
APÊNDICE A - Roteiro de entrevista semiestruturada, identificação e perfil social
Data:___/___/___ Horário: início ________ término___________
IDENTIFICAÇÃO:
Nome: _______________________________
Idade: ____________________________sexo: M ( ) F ( )
APÊNDICE B - Eixo Temático da entrevista semiestruturada
Idoso
Experiência religiosa
Enfrentamento social e de fé
Religião e espiritualidade como fonte de apoio
Força para superar a dor física e emocional decorrentes da sua doença Prática religiosa e espiritual importância para superar a sua dor
Cotidiano após o surgimento das feridas
Impactos psicológicos em decorrência das feridas Apoio biopsicossocial por parte da sua família, amigos Preconceito e as lesões cutâneas
Prática religiosa ou espiritual e a cura Fé e o aparecimento da ferida
APÊNDICE C - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
O(A) senhor(a) está sendo convidado(a) a participar da pesquisa intitulada:
AS PRÁTICAS RELIGIOSAS, ESPIRITUAIS E A FÉ DO IDOSO NO AUXÍLIO DA SUPERAÇÃO DOS DESAFIOS ADVINDOS DAS FERIDAS CRÔNICAS.
Conversaremos sobre questões relacionadas a lesões cutâneas crônicas, espiritualidade e religiosidade, por meio de entrevista semiestruturada. É para esses procedimentos que o(a) senhor(a) está sendo convidado(a) a participar, o que muito contribuirá para a avaliação desses temas.
Sua participação nesta pesquisa é voluntária e o sigilo de todas as informações oferecidas é garantido; elas serão utilizadas apenas para fins de pesquisa. Os resultados da pesquisa podem ser apresentados por meio de veículos impressos, em eventos acadêmicos ou outros meios de divulgação científica.
Caso o(a) senhor(a) tenha qualquer dúvida em relação à pesquisa, pode me
procurar por meio do telefone (77) 9999-2726 ou pelo e-mail
Este projeto foi revisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília.
Este documento foi elaborado em duas vias, uma ficará com o pesquisador responsável pela pesquisa e a outra com o(a) senhor(a).
Caso algo não esteja claro, pergunte-me a qualquer momento que explicarei novamente.
_________________________ ____________________________
Assinatura do(a) participante Abdoulaye Coulibaly
APÊNDICE D - Transcrição das entrevistas
IDENTIFICAÇÃO: Nome: Idoso 1
Idade: 72 anos Sexo: Masculino
Estado civil: casado Profissão: Aposentado Escolaridade: Analfabeto
1- Experiência religiosa
Graças a Deus sou da Igreja Católica. Eu agradeço muito a Deus pela minha fé e por ter me acompanhado sempre. Sem a graça de Deus eu hoje não era mais vivo. Então eu agradeço a Deus em primeiro lugar. Sou religioso, vou na igreja, assisto a missa, ajudo rezar, ajudo com meus irmãos com muito prazer, fé, esperança, amor e paz.
2- Religião e espiritualidade como fonte de apoio Graças a Deus acredito que é Deus quem conforta.
3- Ferida crônica, incômodo.
Já me incomodou bastante, porque me prejudicou muito e foi muito complicado para minha vida, mas, graças a Deus hoje eu já estou muito feliz e agradeço muito a Deus pelas pessoas que me acompanharam e que me ajudaram. Gastei muito e ainda gasto até hoje, mas sempre agradeço as pessoas que me ajudou bastante aqui e as de São Paulo. Agradeço de coração.
4- Ferida
queimadura de pólvora. Depois eu fui pra Cachoeira de São Felix, lá eles fizeram um trabalho lá, disseram que foi uma sujeira que fizeram em mim. Eu era saudável, que tão aprovado que nem no meu sangue nunca deu doença, nada, outro problema eu não tenho. Então desse tempo pra cá eu comecei a seguir o médico. Fui pra São Paulo, tenho os documentos dos médicos. Eu tinha 18 anos, eu fiz acompanhamento, primeiro documento que eu fui pra São Paulo na Santa Casa eu tenho guardado em casa. Desse tempo pra cá eu passei como médico fui tratando em São Paulo, eu já fui lá umas quatro vezes, fiz duas cirurgias plásticas, desse tempo pra cá fizeram aquela limpeza que tirou o lugar aí graças a Deus e hoje eu posso dizer que já estou curado. Agradeço muito a Deus.
Uso a que O Dr. Coulibaly passou para mim. E o médico de São Paulo sempre passava, pois eu tenho o meu médico lá e quando eu venho de lá eu vou nele aqui. Hoje eu estou usando a que ele mandou para eu usar, um remédio, estou usando o complexo “B”, AAS esse é para o sangue não engrossar, aí ele mandou eu ficar uns dias parado, agora ele vai ver que remédio vai passar para mim.
Vou sempre. Nunca descuidei. Eu nunca descuidei de mim desde a época de São Paulo pra cá, nunca falhei. Sempre dou assistência, a vida toda.
5- Força para superar a dor física e emocional decorrentes da sua doença.
Graças a Deus, em primeiro lugar, eu jurei e peço a Deus nosso Senhor Jesus Cristo, nossa mãe Maria Santíssima e todos os Santos do céu que foram quem me socorreram e está me valendo, que é a única coisa na vida que eu enxergo é Deus na minha frente. É meu tratamento que sem Deus eu não era ninguém hoje.
6- Prática religiosa e espiritual importância para superar a dor e doença.
Graças a Deus eu espero com muita fé, que se Deus quiser eu vou ficar liberado, em vista do que eu já tive, hoje pode dizer que eu não estou sentindo mais nada. Dor não sinto, graças a Deus. É muito importante ter fé e ir na igreja.
7- Mudanças no cotidiano com surgimento das feridas.
acidente, mas graças a Deus hoje os outros estão vivos e sadios e isso para mim já é uma benção de Deus que agradeço de coração o que Deus me deu. Houve muita mudança.
8- Impactos psicológicos em decorrência das feridas.
Eu pensava muito assim, só que tinha hora que, eu pensava assim até eu falava assim, louvado seja Deus. Uma pessoa assim como eu para cair numa situação dessa, mas só que acima daquela aflição, daquela tristeza eu só ajoelhava e pedia a Deus, Deus é mais do que tudo, Deus é poderoso, eu estando com Deus pra mim não está faltando nada. Graças a Deus estou aqui hoje e não me atingiu.
9- Apoio biopsicossocial por parte da família, amigos.
Tive apoio de minha família, depois de casado tive apoio da minha esposa, que até hoje graças a Deus me acompanha, meus filhos tudo é um coração só comigo. Eles fazem tudo na vida comigo que for preciso fazer. Os amigos do mesmo jeito.
10- Preconceito devido à presença das lesões cutâneas.
Ah, isso aí muita gente fala, muita gente tem. Falam que isso não tem cura, que não tem jeito. Que eu estava em São Paulo era porque não tinha mais jeito e que eu iria acabar morrendo. Aí enchia de fuxico, e isso o mundo tem de fartura. É conversa perdida, mas graças a Deus eu sempre estou com Deus, que eu acredito que só iria morrer no dia que Deus marcar. O dia que eu nasci foi ele que marcou o dia de terminar minha vida, também é ele quem sabe do dia, né? Então essa grande fé que eu tenho, que várias pessoas dessas, muitas pessoas dessas que andou falando, já morreu há muitos anos e eu estou vivo, graças a Deus. E não dou preço pra esses que comentam.
11- Prática religiosa ou espiritual e cura.
Eu espero em Deus que a prática de Deus é quem cura, que se Deus não me curar ninguém cura, né?
12- Fé e o aparecimento da ferida.
minha vida, mas a fé é tão grande em Deus, que graças a Deus eu tenho fé em Deus e eu peço a ele para todos os meus irmãos em cima da terra e todas as crianças do mundo inteiro, eu rezo todo dia por todo mundo, eu entro na igreja, assisto a missa e agradeço a Deus por hoje está vivo e agradeço por todos os meus irmãos do mundo inteiro. Quero amor, saúde e paz para o mundo todo.
13- Feridas e ansiedade.
Já deixou muito ansioso, bastante, graças a Deus já saiu pela fé grande que eu no meu coração já saiu a tristeza, graças a Deus.
14- Fé e cura
Graças a Deus tem esperança que hoje eu posso dizer que graças a Deus eu espero que já estou recebendo a graça de Deus pela cura.
15- Dor física.
Eu sentia dores que dentro de um ano eu não dormia trinta noites, dentro de um ano. Eu sentia tantas dores. Mesmo assim eu ia para a roça trabalhar, tinha dia que eu pegava a ferramenta e eu não aguentava trabalhar. Chagava na roça, colocava a ferramenta lá e deitava, quando era meio dia eu levantava e ia embora de tantas dores e hoje graças a Deus fiz todo o tratamento nesse meio de mundo, e tudo que eu venho passando, graças a Deus sobre a dor da perna e hoje, deito pra mim e parece que nem existe mais a perna.
IDENTIFICAÇÃO: Nome: Idoso 2
Idade: 80 anos Sexo: Feminino
Estado civil: Solteira Profissão: Aposentada Escolaridade: Analfabeta
1- Experiência religiosa. Sou seguidora de Deus.
3- Ferida crônica, incômodo.
A ferida tem me incomodado muito, essa ferida tem me incomodado muito, mas agora estou me sentindo melhor.
4- Ferida
Como que descobriu? Aí agora eu tinha essa ferida, foi de um corte de lenha, quando eu fui cortar a lenha, pelejando com um filho doente em cima da cama, doente, fui apanhar uma lenhazinha à tarde e eu na peleja para apanhar uma água. Pela tarde fui apanhar uma lenha e por derradeiro apanhei a lenha, quando eu peguei a lenha o derradeiro pau que eu cortei tinha uma ponta pequena, que feriu com a pontinha, só senti a furada só que não saiu sangue, aquilo não saiu nada. É isso ai, quando depois Deus ajudou que ficou melhor mais um pouco, aí agora com quinze dias, aí agora esse pé arruinou, ficou inchado, esse pé piorou, piorou, fiquei quase quinze dias sem poder movimentar nada. Deus ajudou que ele já tinha melhorado. Deus ajudou que estava me socorrendo viu, que ele estava me socorrendo, mas, vou dizer uma coisa para você, eu tenho cuidado, eu tenho cuidado mesmo comigo.
Agora que eu estou usando curativo. Eu usava assim direto que eu sempre ia fazer curativo, mas sempre fazendo curativo e sempre que fazia estou quase sentindo melhora, pois agora arruinou. Foi uma filha de Deus que me guiou, foi que eu vim para cá. E agora tem que vejo o médico com frequência há seis meses.
5- Força para superar a dor física e emocional decorrentes da doença. Procuro a Deus e procuro a Deus que tudo pode.
6- Prática religiosa e espiritual para superar a dor. Justamente é isso que me conforta.
7- Mudanças no cotidiano com surgimento das feridas.