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– Diamantina 2023

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Academic year: 2023

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Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM  Programa de Pós­Graduação Stricto Sensu Mestrado Profissional em Educação 

 

José Jorge Francisco de Santana   

                   

CONCEPÇÕES QUE ORIENTAM AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS  PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA EJA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA 

PERSPECTIVA TEÓRICA DO PROGRAMA ETNOMATEMÁTICA   

 

   

                   

Diamantina 2023

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José Jorge Francisco de Santana   

               

 

CONCEPÇÕES QUE ORIENTAM AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS  PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA EJA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA 

PERSPECTIVA TEÓRICA DO PROGRAMA ETNOMATEMÁTICA   

             

Dissertação  apresentada  ao  Programa  de  Pós­

graduação  em  Educação  (PPGEd),  da Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha e Mucuri, nível  de  Mestrado,  como  requisito  parcial  para  obtenção  do título de Mestre(a) em Educação. 

Orientadora: Profª Dra. Adriana Assis  Ferreira  Coorientadora:  Profª  Dra.   Roseli  de  Alvarenga  Corrêa

     

   

Diamantina  2023

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Catalogação na fonte ­ Sisbi/UFVJM 

 

Elaborada pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da UFVJM com os dados  fornecidos pelo(a) autor(a). 

Este produto é resultado do trabalho conjunto entre o bibliotecário Rodrigo Martins Cruz/CRB6­ 2886  e a equipe do setor Portal/Diretoria de Comunicação Social da UFVJM 

 

 

S232c Santana, José Jorge Francisco de

2023 CONCEPÇÕES QUE ORIENTAM AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA EJA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA PERSPECTIVA TEÓRICA DO PROGRAMA ETNOMATEMÁTICA [manuscrito] / José Jorge Francisco de Santana. -- Diamantina, 2023.

137 p.

Orientador: Prof. Adriana Assis Ferreira.

Coorientador: Prof. Roseli de Alvarenga Corrêa.

Dissertação (Mestrado Profissional em Educação) -- Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Programa de Pós-Graduação em Educação, Diamantina, 2023.

1. Educação Matemática. 2. EJA. 3. Diversidade Cultural.

4. Saberes Não Escolares. 5. Programa Etnomatemática. I.

Ferreira, Adriana Assis. II. Corrêa, Roseli de Alvarenga.

III. Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. IV. Título.

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MINISTÉRIO  DA EDUCAÇÃO 

UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E MUCURI JOSÉ JORGE FRANCISCO DE SANTANA

CONCEPÇÕES QUE ORIENTAM AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS  PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA EJA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA 

PERSPECTIVA TEÓRICA DO PROGRAMA ETNOMATEMÁTICA   

 

 

Dissertação  apresentada  ao  Programa  de  Pós­

graduação  em  Educação  (PPGEd),  da Universidade  Federal  dos  Vales  do  Jequitinhonha e Mucuri, nível  de  Mestrado,  como  requisito  parcial  para  obtenção  do título de Mestre(a) em Educação. 

Orientadora: Prof.ª Dra. Adriana Assis Ferreira  Coorientadora:  prof.ª  Dra.  Roseli  de  Alvarenga  Corrêa 

Data de aprovação 13/02/2023  _________________________________________________

Dra. Adriana Assis Ferreira – Orientadora

Departamento de Educação a Distância/DEAD – UFVJM __________________________________________________

Dra. Roseli de Alvarenga Corrêa – Coorientadora Departamento de Matemática/DEMAT – ICEB/UFOP __________________________________________________

Dra. Mara Lúcia Ramalho – Membro Interno ao Programa Departamento de Educação a Distância/DEAD – UFVJM __________________________________________________

Dr. Wagner Lannes – Membro Externo ao Programa Faculdade de Ciências Exatas/FACET – UFVJM __________________________________________________

Dra. Regina Helena de O. L. Franchi – Membro Externo à Instituição Centro de Matemática, Computação e Cognição/CMCC – UFABC

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DEDICO  

A todos que de uma ou de outra forma contribuíram para a realização desta pesquisa. 

 

Dedico  de  forma  muito  carinhosa  aos  professores  e  professoras  de  Matemática  da  EJA  das  escolas  públicas  estaduais  da  cidade  de  Montes  Claros,  MG,  que,  ao  responderem  minhas  indagações  tanto  nos  questionários  quanto  nas  entrevistas,  contribuíram  de  forma  imprescindível para a realização desta investigação. 

 

Aos meus familiares, pais (in memoriam), irmãos, tios e à Neucy pelo companheirismo habitual  e incentivo em todos os momentos. 

 

Por  fim,  dedico  este  estudo  a  todos  aqueles  que  honestamente  acreditam  na  possibilidade  transformadora  da  educação  por  meio  de  um  olhar  crítico,  atento,  engajado  e  que,  acima  de  tudo, reconheça que “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode  temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser  uma farsa”. — Paulo Freire, Educação como prática da liberdade, Editora Paz e Terra, 2009. 

                                 

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AGRADECIMENTOS   

Agradeço à Universidade  Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM – por me  propiciar tanto aprendizado, criticidade e reflexão. 

 

Aos  professores  e  às  professoras  do  mestrado  em  Educação  da  UFVJM  que,  com  seu  conhecimento  e  capacidade  pedagógica,  abriram­me  novos  horizontes  de  cognição,  especialmente,  a  prof.ª  Dra.  Adriana  Assis  Ferreira  cujas  orientações  tornaram  possível  construir este texto.  

 

Agradeço de  forma  muito especial e carinhosa  à  minha cooriendadora, prof.ª Dra. Roseli de  Alvarenga  Corrêa  que,  com  sua  sabedoria  e  conhecimentos,  iluminou  meu  caminho  durante  todo o percurso da pesquisa e da produção do texto. 

 

Enfim, agradeço a todos que de alguma maneira contribuíram neste estudo. 

                                     

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RESUMO 

A  pesquisa  analisou  a  prática  docente  dos  professores  de  Matemática  da  EJA  no  sentido  de  identificar uma maior ou menor ação pedagógica  orientada por algumas tendências atuais da  Educação  Matemática,  em  especial  a  Etnomatemática.  Os  sujeitos  da  investigação  foram  os  professores de  Matemática  do ensino fundamental e médio  das escolas públicas estaduais da  cidade  de Montes Claros,  MG, Brasil.  O levantamento de dados ocorreu em duas etapas. A  primeira  consistiu  de  aplicação  de  um  questionário  online  enviado  pela  plataforma  Google  Forms  para  39  professores  que  atendiam  ao  critério  de  inclusão  na  pesquisa,  dos  quais  21  retornaram  respostas.  Na  segunda  etapa  foram  realizadas  entrevistas  com  quatro  dos  21  professores que responderam ao questionário. A análise dos dados foi conduzida por meio da  técnica de Análise de Conteúdo Categorial.  As variáveis textuais dos questionários propiciaram  a  construção  de  três  Categorias  de  Análise  nominadas  como:  1) Saberes  não  escolares  e  diversidade  cultural;  2)  Prática  pedagógica  e  Matemática  na  EJA;  3)  Programa  Etnomatemática  e  ações  curriculares.  As  entrevistas  não  alteraram  a  constituição  das  Categorias  de  Análise,  entretanto,  as  comunicações  dos  docentes  selecionados  nessa  etapa  possibilitaram um refinamento dessas categorias,  revelando ações  vinculadas ao cotidiano  e,  sobretudo,  às  atividades  profissionais  dos  alunos.  A  análise  final  das  categorias  sugeriu  três  dimensões intersecionadas na prática docente do professor de Matemática da EJA, a saber: a)  o professor identifica parcialmente os saberes matemáticos não escolares dos alunos da EJA, b)  esses  saberes  são,  em  parte,  considerados  nas  ações  didáticas  eminentemente  vinculadas  às  atividades profissionais dos alunos, c) o professor na maioria das vezes não se dá conta de que  suas ações curriculares e de ensino de Matemática na EJA guardam alguma conexão com as  tendências em Educação Matemática, notadamente o Programa Etnomatemática. Os resultados  desta pesquisa podem contribuir para maiores reflexões sobre a formação inicial do professor  de Matemática, para ações como capacitação e formação continuada do docente, para produção  de  materiais  didáticos  mais  compatíveis  ao  ensino  de  Matemática  e,  sobretudo,  para  o  desenvolvimento  de  projetos  específicos  para  a  EJA,  localizados  espacialmente  e  de  acordo  com  as  singularidades  de  cada  região  do  Estado  de  Minas  Gerais.  “Minas são muitas”

(Guimarães Rosa). 

   

Palavras  chave:  Educação  Matemática.  EJA.  Diversidade  Cultural.  Saberes  Não  Escolares. 

Programa Etnomatemática. 

                       

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ABSTRACT 

The research analyzed the teaching practice of EJA mathematics teachers to identify a greater  or  lesser  pedagogical  action  guided  by  some  current  trends  in  Mathematics  Education,  especially Ethnomathematics. The subjects of the investigation were mathematics teachers of  primary  and  secondary  education  in  state  public  schools  in  the  city  of  Montes  Claros,  MG,  Brazil.  Data  collection  occurred  in  two  stages.  The  first  comprised  applying  an  online  questionnaire sent through the Google Forms to 39 teachers who met the inclusion criteria in  the research, of which 21 returned responses. In the second stage,  interviews were conducted  with four of the 21 teachers who answered the questionnaire. Data analysis was conducted using  the Categorical Content Analysis technique. The textual variables of the questionnaires led to  the  construction  of  three  Categories  of  Analysis  named  as:  1)  Non­school  knowledge  and  cultural  diversity;  2)  Pedagogical  practice  and  Mathematics  in  EJA;  3)  Ethnomathematics  Program and curricular actions. The interviews did not change the constitution of the Analysis  Categories,  however,  the  communications  of  the  selected  teachers  in  this  stage  allowed  a  refinement of these categories, revealing actions linked to the daily life and, above all, to the  professional  activities  of  the  students.  The  final  analysis  of  the  categories  suggested  three  intersecting dimensions in the teaching practice of the EJA mathematics teacher, namely: a) the  teacher partially identifies the non­school mathematical knowledge of the EJA students, b) this  knowledge is, in part, considered in the actions didactics eminently linked to the professional  activities of the students, c) most of the time, the teacher does not realize that his curricular and  mathematics  teaching  actions  in  EJA  are  connected  with  trends  in  Mathematics  Education,  notably the Ethnomathematics Program. The results can contribute to further reflections on the  initial  formation  of  the  mathematics  teacher,  for  actions  such  as  training  and  continuing  education of the teacher, for the production of teaching materials that are more compatible with  the teaching of mathematics and, above all, for the development of projects specific for EJA,  located spatially and according to the singularities of each region of the State of Minas Gerais. 

“Minas are many” (Guimarães Rosa). 

   

Keywords:  Mathematics  Education.  EJA.  Cultural  Diversity.  Non­School  Knowledge. 

Ethnomathematics Program.  

                         

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES   

FIGURAS   

Figura 1 – Fases da Análise de Conteúdo...  47 

Figura 2 – Etapas da pré­análise...  48 

Figura 3 – Exploração do material...  49 

Figura 4 – Tratamento dos resultados...  54 

    GRÁFICOS    Gráfico 1 – Perfil dos professores respondentes...  60 

Gráfico 2 – Avaliação sobre os próprios conhecimentos para atuar na EJA...  95 

Gráfico 3 –Tendências em Educação Matemática conhecidas pelo professor...  98 

    QUADROS    Quadro 1 – Pesquisas em Educação Matemática na EJA – 2000 a 2010...  31 

Quadro 2 – Pesquisas em Educação Matemática na EJA – 2011 a 2020...  32 

Quadro 3 – Particularidades dos sujeitos da pesquisa...  41 

Quadro 4 – Roteiro de entrevista realizada junto aos docentes...  44 

Quadro 5 – Questões abertas do questionário de pesquisa...  58 

Quadro 6 – Prática diferenciada na EJA...  62 

Quadro 7 – Finalidade de utilização dos recursos disponíveis na internet...  63 

Quadro 8 – Estratégias utilizadas como motivação para a aprendizagem...  64 

Quadro 9 – Ações pedagógicas a partir das vivências sociais dos alunos...  65 

Quadro 10 – Diálogos sobre assuntos gerais não planejados anteriormente...  66 

Quadro 11 – Relevância dos conhecimentos matemáticos anteriores dos alunos....  67 

Quadro 12 – Incorporação das tendências em Educação Matemática...  68 

Quadro 13 – Prática pedagógica em ambientes de pluralidade sociocultural...  70 

Quadro 14 – Finalidade dos recursos da internet utilizados...  71 

Quadro 15 – Outras estratégias de motivação para a aprendizagem...  72 

Quadro 16 – Planejamento pautado nas vivências sociais dos alunos...  74 

Quadro 17 – Diálogos sobre assuntos gerais não planejados...  75 

Quadro 18 – Relevância do conhecimento matemático anterior dos alunos...  76 

Quadro 19 – Tendências da Educação Matemática na prática do professor...  78 

Quadro 20 – Unidades de Registro extraídas das Unidades de Contexto...  80 

Quadro 21 – Primeiro conjunto de Eixos Temáticos...  82 

Quadro 22 – Segundo conjunto de Eixos Temáticos...  83 

Quadro 23 – Eixos Temáticos definidos...  84 

Quadro 24 – Articulação dos Eixos Temáticos em Categorias de Análise...  87 

Quadro 25 – Categorias de Análise extraídas nos movimentos...  87 

Quadro 26 – Dados gerais dos professores entrevistados...  101 

Quadro 27 – Dados sobre data e duração das entrevistas online...  101 

    TABELAS    Tabela 1 – Nº de Unidades de Registro configuradas...  79 

Tabela 2 – Maiores e menores ocorrências das Unidades de Registro...  81   

   

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS   

 

AJUS  Ausência Justificada com Critérios  BNCC  Base Nacional Comum Curricular  CA  Categorias de Análise 

CF  Constituição Federal 

EJA  Educação de Jovens e Adultos  ET  Eixos Temáticos 

LDBEN  Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional  MEC  Ministério da Educação e Cultura 

PCN's  Parâmetros Curriculares Nacionais  PNA  Política Nacional de Alfabetização 

SEE­MG  Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais  SRE  Superintendência Regional de Ensino 

UC  Unidades de Contexto 

UFVJM  Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri  UR  Unidades de Registro 

                             

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Sumário 

INTRODUÇÃO ... 14

1 CAPÍTULO I – ETNOMATEMÁTICA: da gênese ao estado do conhecimento.... 24

1.1 Etnomatemática: a origem ... 24

1.2 Etnomatemática: o conceito (im)possível ... 26

1.3 Etnomatemática e EJA: o estado do conhecimento ... 29

1.3.1 Dissertações e Teses do ano de 2001 a 2010 ... 30

1.3.2 Dissertações e Teses do ano de 2011 a 2020 ... 31

1.4 Etnomatemática: o sujeito docente e sua práxis ... 33

1.5 Etnomatemática e EJA: um relato de experiência ... 35

2 CAPÍTULO II – METODOLOGIA DA PESQUISA ... 39

2.1 Contexto da investigação ... 39

2.1.1 Local ... 39

2.1.2 Sujeitos da investigação ... 40

2.2 Produção de dados ... 41

2.2.1 O questionário ... 42

2.2.2 O roteiro de entrevista ... 43

2.3 Análise e interpretação dos dados ... 44

2.4 Produto educacional e retorno aos pesquisados ... 45

3 CAPÍTULO III – ANÁLISE DE CONTEÚDO CATEGORIAL: breve esboço ... 46

3.1 Fases da Análise de Conteúdo ... 47

3.1.1 Primeira fase: a pré­análise ... 47

3.1.2 Segunda fase: exploração do material ... 49

3.1.3 Terceira fase: tratamento dos resultados, inferência e interpretação ... 53

4 CAPÍTULO IV – CONSTRUÇÃO DAS CATEGORIAS DE ANÁLISE ... 57

4.1 O questionário ... 57

4.2 Movimentos de construção das Categorias de Análise do questionário ... 61

4.2.1 Primeiro Movimento: respostas dos professores ... 61

4.2.2 Segundo Movimento: articulação das Unidades de Registro ... 69

4.2.2.1 Bloco B: o ensino de Matemática ... 69

4.2.2.2 Bloco C: saberes não escolares x postura do professor ... 73

4.2.2.3 Bloco D: prática pedagógica ... 77

4.2.3 Terceiro Movimento: descrição das Unidades de Registro ... 79

4.2.4 Quarto Movimento: alinhamento das Unidades de Registro ... 81

4.2.5 Quinto Movimento: os Eixos Temáticos definidos ... 83

4.2.6 Sexto Movimento: articulação dos Eixos Temáticos em Categorias de Análise ... 86

5 CAPÍTULO V – AS CATEGORIAS DE ANÁLISE: sínteses interpretativas... 88

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5.1 Sínteses interpretativas das Categorias de Análise ... 89

5.1.1 Saberes não escolares e diversidade cultural ... 89

5.1.2 Prática pedagógica e Matemática na EJA... 92

5.1.3 Programa Etnomatemática e ações curriculares ... 95

6 CAPÍTULO VI – AS ENTREVISTAS:  em busca de novos arranjos... 101

6.1 Objetivos específicos da pesquisa e refinamento das Categorias de Análise ... 102

6.1.1 Objetivo 1: visão dos professores e saberes não escolares ... 102

6.1.2 Objetivo 2: incorporação da Matemática dos alunos da EJA ... 103

6.1.3 Objetivo 3: diversidade cultural dos alunos da EJA ... 104

6.1.4 Objetivo 4: professores e tendências em Educação Matemática ... 106

6.1.5 Objetivo 5: prática docente e dimensão pedagógica da Etnomatemática... 107

6.2 Categorias de Análise refinadas: uma síntese e outras palavras ... 109

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 115

REFERÊNCIAS ... 123

APÊNDICE A – TCLE ... 128

APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO ... 131

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INTRODUÇÃO   

A princípio, peço licença para relatar alguns episódios da minha vida relacionados  à formação escolar e profissional, com breve destaque sobre como a Educação de Jovens  e  Adultos  tornou­se  objeto  de  minhas  reflexões  acerca  do  ensino  e  aprendizagem  em  Matemática.  

Nasci  em  uma  família  de  pais  semianalfabetos  cuja  escolarização  lhes  permitia  apenas ler e escrever, mas que, a despeito disso, nunca desistiram de oferecer a seus filhos  o sonho do letramento a fim de “ser alguém na vida” e “diferente de nós”, diziam. No  entanto, aos 10 anos de idade e com o então ciclo primário incompleto, tive que abandonar  a  escola  e  buscar  meios  para  ajudar  no  orçamento  familiar.  Meu  retorno  aos  estudos  ocorreu por volta dos quatorze anos para concluir o ciclo  inicial, então quinta  a oitava  série, no período noturno.  

Concluí o ensino médio, à época segundo grau, quando já tinha 21 anos. Sete anos  depois, ingressei em uma universidade pública para cursar a graduação em Matemática­

Licenciatura. Licenciado nessa área de estudos, iniciei os primeiros passos na docência  de Matemática na educação básica como professor do Estado de Minas Gerais.  Alguns  anos mais tarde tive minha primeira experiência com a Educação de Jovens e Adultos.  

A rigor, àquela época era um projeto da gestão estadual de ensino que instituiu as  diretrizes para acelerar os estudos e diminuir a defasagem escolar de pessoas adultas tanto  para  o  ensino  fundamental  quanto  para  o  ensino  médio.  Tal  projeto  se  denominava 

“Acertando o Passo”1 e consistia em possibilitar o retorno de pessoas  jovens e adultas  para concluírem, em  metade do tempo convencional,  os ensinos  fundamental e  médio. 

Assumi  aulas  de  Matemática  no  ensino  médio  nesse  projeto  em  que  cada  ano  de  escolarização era concluído em seis meses. Um episódio a relembrar, e que pode ilustrar  com mais ênfase um suposto novo posicionamento pedagógico meu, manifestou­se com  o  aporte  das  orientações  dos  Parâmetros  Curriculares  Nacionais  (PCNs)  no  que  dizia  respeito  ao  tema  sobre  tratamento  da  informação “em que é  preciso,  por  exemplo,  quantificar, calcular, localizar um objeto no espaço, ler gráficos e mapas, fazer previsões.”

      

1 O projeto “Acertando o Passo” foi instituído inicialmente pela resolução 8287 de 09 de Janeiro de 1998 para  os alunos  do Ensino  Fundamental.  Posteriormente,  por  meio da resolução  9433  de 17  de  Junho  de  1998, o Ensino Médio também foi contemplado por meio do projeto “A Caminho da Cidadania” que possuía a  mesma  lógica  anterior:  aceleração  de  estudos  com  vistas  a  reduzir  a  distorção  idade/série  no  Ensino  Médio. (SEE­MG, 1998). 

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(PCNs, 1998, p. 59). No anseio de tornar tais conteúdos prescritos em algo mais concreto  para  os  alunos,  propus  para  a  turma  uma  atividade  que,  segundo  minha  crença,  os  motivaria para a realização das tarefas e despertaria seu interesse em conhecer mais sobre  o  conteúdo  em  estudo:  levantamento  de  dados  quantitativos,  cálculos  de  médias  e  porcentagem. O objetivo inicial  foi propiciar a pesquisa,  ensejar  discussões em sala de  aula  e,  em  consequência,  possibilizar  um  aprendizado  satisfatório  que  culminasse  no  entendimento, ainda que parcial, acerca dos fundamentos sobre o cálculo da inflação2.  

 O  que  pude  notar  logo  no  início  da  realização  da  atividade  foi  o  interesse  dos  alunos  pelos  tópicos  propostos,  a  pronta  realização  das  tarefas,  a  interação  natural  e  espontânea  entre  eles,  dialogando  e  trocando  experiências  sobre  o  tema  em  estudo.  A  rigor, naquela ocasião eu não tinha consciência plena de que poderia aprofundar o nível  de criticidade dos alunos para questões sociais e econômicas dessa natureza. Porém, hoje  entendo  que,  mesmo  de  forma  intuitiva  naquele  momento,  as  prescrições  oficiais  (levantamento  de  dados  quantitativos,  cálculos  de  médias  e  porcentagem)  foram  trabalhadas numa perspectiva que talvez  levasse  o aluno  a refletir sobre uma realidade  objetiva capaz de incluí­lo como sujeito crítico e autônomo  em um nível de letramento  mais elevado, porque para esse aluno 

   

O acesso a uma participação cada vez mais autônoma e inclusiva no mundo  letrado é talvez o principal anseio do aluno jovem e  adulto da escola básica,  excluído que foi do processo de escolarização e do acesso aos bens culturais  que  essa  escolarização  poderia  proporcionar­lhe  [...].  (FONSECA,  2002,  p. 

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Após  essa  experiência  na  educação  básica,  e  depois  de  ter  concluído  duas  especializações –  uma  em  Estatística  e  outra  em  Matemática  Superior –,  ambas  na  Universidade Federal de Minas Gerais,  fui aprovado em um concurso público em uma  instituição  de  ensino  superior  estadual,  onde  leciono  em  cursos  como  Licenciatura  em  Matemática,  Engenharia  de  Sistemas,  Sistemas  de  Informação,  Biologia,  Educação  Física, Pedagogia, Economia, Administração e Ciências Sociais.  

Nos  dias  atuais  continuo  o  trabalho  com  jovens  e  adultos  com  perfis,  claro,  bastante diferenciados daqueles aqui relatados, mas que, a meu ver, também trazem para  as situações escolares uma bagagem de vida proveniente de suas relações socioculturais,  impactando no planejamento e na proposição de estratégias de ensino e aprendizagem da        

2 Uma descrição mostrando maiores detalhes dessa atividade está posta no Capítulo I. 

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disciplina  Matemática e outras dela derivadas como a Estatística. Tais experiências em  meu trabalho educacional, complementadas pelos estudos de novos aportes teóricos e em  revisão bibliográfica, abriram­me caminho para a realização da pesquisa em pauta com  foco no ensino e aprendizagem de Matemática na Educação de Jovens e Adultos (EJA). 

A  investigação concentrou­se na pessoa do professor de  Matemática da EJA quanto às  suas  concepções  que  sustentam  e  orientam  a  elaboração  de  seu  planejamento  e  desenvolvimento das ações pedagógicas da disciplina. Em outras palavras, é uma busca  para compreender as atitudes e ações do professor para a Educação Matemática na EJA. 

  

A Educação Matemática na Educação de Jovens e Adultos   

A educação de pessoas adultas no Brasil sempre foi marcada pela exclusão social  e  econômica  daqueles  que  nunca  tiveram  acesso  à  escola  ou  a  abandonaram  para  trabalharem em atividades precárias que lhes permitem tão somente a sobrevivência. A  forma de educação proposta para jovens e adultos é decorrente da miséria social que    

[...] acaba por definir as diversas maneiras de se pensar e realizar a educação  de jovens e adultos. É uma educação para os pobres, para jovens e adultos das  camadas populares, para aqueles que são maioria nas sociedades de Terceiro  Mundo, para os excluídos do desenvolvimento e dos sistemas educacionais de  ensino. (HADDAD, 1992, p. 3) 

   

Nesse  contexto  de  exclusão,  a  proposta  de  Educação  de  Jovens  e  Adultos  é  amparada  pelo  Art.  208  da  Constituição  Federal  (CF) e assegura “educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive  sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria” (BRASIL, 1988, p. 97). Além disso, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº  9.394/96 assevera, em seu Art. 37, que a “educação de jovens e adultos será destinada àqueles  que  não  tiveram  acesso  ou  continuidade  de  estudos  no  ensino  fundamental  e  médio na idade própria” (BRASIL, 1996, p. 13). Em recente documento, a Resolução Nº  1,  DE  28  DE  MAIO  DE  2021  (MEC,  2021),  o  Ministério  da  Educação  instituiu  as  diretrizes operacionais da EJA com vistas ao seu alinhamento à Base Nacional Comum  Curricular  (BNCC)  e  à  Política  Nacional  de  Alfabetização  (PNA).  Conforme  essa  resolução, a oferta da EJA pode ocorrer de quatro formas diferentes: EJA presencial, EJA  à  distância,  EJA  articulada  à  educação  profissional  e  EJA  com  ênfase  na  educação/aprendizagem ao longo da vida. Esse último formato é destinado aos estudantes 

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com deficiência, transtornos funcionais específicos, transtorno do espectro do autismo,  aqueles com dificuldades de locomoção, residentes em locais de difícil acesso, aqueles  em periferia de alto risco social e também os que se encontram em privação de liberdade  nos  estabelecimentos  penais.  Atualmente,  a EJA  prevê  três  segmentos,  que  podem  ser  articulados ou não com uma formação profissional, assim distribuídos e organizados: 1º  segmento,  ofertado  presencialmente,  correspondente  aos  anos  iniciais  do  Ensino  Fundamental;  2º  segmento,  ofertado  tanto  presencialmente  quanto  à  distância,  que  corresponde aos anos finais do Ensino Fundamental e o 3º segmento, presencial e ou à  distância,  que  equivale  ao  Ensino  Médio.  O tempo  desses  segmentos  é organizado  em  etapas de seis meses, sendo quatro para os anos iniciais do Ensino Fundamental, também  quatro  para  os  anos  finais  do  Ensino  Fundamental  e  três  para  o  ensino  médio  (MEC,  2021).  Além  disso,  a  legislação  em  vigor  é  relativamente  flexível  em  relação  a  organização dos tempos e espaços para  a aprendizagem. É o caso da “EJA combinada”

que prevê dois tipos de carga horária: direta e indireta. Na carga horária direta o tempo  de atividades presenciais foi reduzido para 30% das horas aulas totais, enquanto os outros  70% –  carga  horária  indireta  (não  presencial)  –  são  destinados  para  execução  de  atividades pedagógicas complementares elaboradas pelo professor regente. Há também o  que a legislação denomina de “EJA direcionada”, cuja pretensão é atender ao estudante  trabalhador  por  meio  de  atividades  previamente  planejadas  pelos  professores  e  que  cumpram a carga horária prevista para o componente curricular. Aliás, nesse formato, a  resolução dispõe – em seu artigo 20, parágrafo 1º – que “A EJA Direcionada pode ser ofertada em ambientes empresariais, possibilitando melhor aproveitamento do tempo dos  estudantes trabalhadores.” (MEC, 2021, p. 5). As presunçosas flexibilizações não param  por  aí!  Os  sistemas  de  ensino  podem  utilizar  de  um  expediente  denominado  Ausência  Justificada com Critérios (AJUS), destinado a estudantes que ultrapassarem o limite de  25% de faltas em qualquer dos segmentos. A esse respeito, no entanto, o Art. 25 faz uma  ressalva, a de que esse “abono” das faltas deve ser seguido de um “posterior cumprimento de  atividades  compensatórias  domiciliares  para  justificar  as  ausências  de estudantes”

(MEC, 2021, p. 5) e justifica essa assumida compensação defendendo que tal ação é uma  forma de “inclusão social plena do jovem, adulto e idoso, a partir do direito à educação,  de sua dinâmica de vida e da realidade da sociedade moderna.” (MEC, 2021, p. 5). Ao  fim,  uma  vez  cumpridos  todos  esses  rituais,  o  Estado  oferece  uma  certificação  ao  estudante da EJA e assume que “Toda certificação decorrente dessas competências possui validade nacional garantindo padrão de qualidade”. (MEC, 2021, p. 5) 

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Em que pesem discursos contrários, os marcos legais definidores da estruturação  da EJA parece não atenderem plenamente às especificidades dos alunos dessa modalidade  de  ensino.  Por  trás  de  uma  suposta  adequação  das  condições  de  ensino  ao  perfil  dos  estudantes, oculta­se uma realidade diversa daquela prevista em lei. O público da EJA,  em  sua  maioria,  é  constituído  de  pessoas  trabalhadoras  exploradas  física  e  emocionalmente nas suas atividades laborais em prol de ganhos cada vez maiores de uma  elite que não perdeu de todo sua face escravocrata.  

Um tipo de política pública possivelmente eficaz para essa modalidade de ensino  teria que ser pensando conjuntamente com outras do campo das relações de trabalho e de  auxílios  por  parte  tanto  do  setor  público  quanto  do  privado.  Conforme  será  visto  mais  adiante,  e  de  acordo  com  depoimentos  dos  professores  de  Matemática  da  EJA  entrevistados nesta investigação, muitos estudantes se deslocam diretamente do trabalho  para  a  escola,  ainda  vestidos  com  os  próprios  uniformes  das  empresas,  exaustos  e,  portanto, em condições adversas para o aprendizado. Uma política pública educacional  efetivamente séria deve  levar em conta não os modelos  flexíveis para o aluno estar na  escola e sim como o aluno está na sociedade como um todo.  

O aluno da EJA possui uma trajetória de vida repleta de saberes, entre os quais os  matemáticos, vinculados ao meio cultural próprio da sua existência e construídos ao longo  de suas experiências de vida extraescolar. É preciso, pois, reconhecer que, ao chegarem  às  escolas  para  retomarem  seus  estudos,  trazem  uma  bagagem  de  conhecimentos  não  somente  do  tempo  em  que  possivelmente  frequentaram  os  ambientes  escolares  mas  também de suas vivências fora da escola, seja nas suas atividades laborais, seja nos grupos  sociais de que fazem parte. 

Nesse  cenário,  o  ensino  de  Matemática  para  esse  público  pode  tornar­se  um  desafio para a escola e para os professores, principalmente em termos de construção do  conhecimento  matemático.  Assim,  a  prática  docente  nesses  ambientes  deve  levar  em  consideração tanto esses contextos culturais quanto os saberes não escolares vivenciados  e elaborados pelos alunos em sua existência.  

Evidentemente  que  não  se  trata  aqui  de  substituir  o  conhecimento  científico  matemático por outros de cunho meramente empírico vivenciados pelos alunos em suas  relações sociais, mas sim de considerar esses contextos tanto no planejamento quanto na  ação pedagógica em si. Essa prática – conduzida por meio do diálogo – pode contribuir  para uma efetiva aprendizagem de Matemática na EJA. 

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Nesse  sentido,  a  Educação  Matemática3,  na  perspectiva  do  Programa  Etnomatemática  em  sua  dimensão  pedagógica,  pode  se  constituir  numa  alternativa  possível  para  o  ensino  e  a  aprendizagem  de  Matemática  e,  com  isso,  minimizar  a  ocorrência de efeitos didáticos não desejáveis na aprendizagem dessa disciplina. Assim,  a necessidade de contextualização dos conteúdos a serem estudados, a incorporação das  diferentes expressões culturais dos alunos da EJA e a prática pedagógica fundamentada  sobretudo  em  ações  dialógicas  podem  vislumbrar  possibilidades  auspiciosas  de  aprendizagem.  Tais  afirmações  encontram  eco  nas  palavras de Ubiratan D’Ambrosio, quando ele afirma que 

 

A  Etnomatemática  privilegia  o  raciocínio  qualitativo.  Um  enfoque  etnomatemático  sempre  está  ligado  a  uma  questão  maior,  de  natureza  ambiental  ou  de  produção,  e  a  Etnomatemática  raramente  se  apresenta  desvinculada  de  outras  manifestações  culturais,  tais  como  arte  e  religião.  A  Etnomatemática  se  enquadra  perfeitamente  numa  concepção  multicultural  e  holística da educação. (D’AMBROSIO, 2001, p. 44)   

 

Ainda segundo esse autor, “na busca de entender o fazer e o saber matemático de  culturas marginalizadas” (D’AMBROSIO, 2005, p. 44),  origina­se  o  Programa  Etnomatemática  que “não se esgota no entender o conhecimento [saber e fazer]

matemático  das  culturas  periféricas.  Procura  entender  o  ciclo  de  geração,  organização  intelectual, organização social e difusão desse conhecimento.” (D’AMBROSIO, 2005, p. 

45). Tal concepção, em sua dimensão educacional, além de desafiadora, requer esforços  e conhecimentos do docente no sentido de saber ouvir e conduzir a atividade pedagógica  para o público da EJA de forma que o ensino de  Matemática lhe faça sentido. Em face  disso, uma alternativa de sucesso pode ser a prática docente que articule os saberes não  escolares ao conhecimento matemático com vínculos no Programa Etnomatemática. 

O  Programa  Etnomatemática  é  um  campo  fértil  para  a  proposição  de  ações  pedagógicas com as características  acima  expressas, pois  leva em conta perspectivas  e  práticas matemáticas de indivíduos de diferentes grupos sociais e culturais nos quais suas  ideias  são  consideradas  e  manifestadas, descartando “o modelo pedagógico tradicional  transmissivo e favorecendo o modelo pedagógico transformatório” (ROSA; OREY, 2017,  p. 34).  

      

3 “A Educação Matemática é uma grande área de pesquisa educacional, cujo objeto de estudo é a compreensão, interpretação e descrição de fenômenos referentes ao ensino e à aprendizagem da Matemática  [...]” (PAIS, 2001, p. 10).  

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A pesquisa proposta neste estudo pode contribuir para reflexões sobre as possíveis  contribuições do Programa Etnomatemática no ensino de Matemática na EJA, de modo a  desvendar,  compreender  e  analisar  os  planos  de  ação  pedagógica  dos  professores  em  contextos  de  diversidade  e  pluralidade  cultural  dos  sujeitos  participantes  dessa  modalidade  de  ensino.  Assim,  cabe  investigar  que  estratégias  e  movimentos  são  desenvolvidos pelos professores de Matemática na EJA a fim de levar em conta valores,  crenças, saberes, linguagens e história dos alunos, com vistas a sugerir ações pedagógicas  que  alcancem  a  construção  do  conhecimento  matemático  para  esses  jovens  e  adultos. 

Quer dizer, incorporar à sua prática docente as diferentes expressões culturais que esse  público carrega em sua trajetória, em sua existência e em sua práxis social, consciente ou  inconscientemente realizada no seu modo de estar no mundo, viver no mundo e, quiçá,  transformar o mundo.  

Mais duas razões motivam o desenvolvimento deste estudo. A primeira é a de que  a  região  estudada  é  caracterizada  por  diferentes  grupos  culturais  localizados  tanto  na  região urbana quanto na zona rural. É possível que diversificadas representações culturais  estejam evidentes nos espaços escolares em que é desenvolvida a Educação de Jovens e  Adultos.  Assim,  esta  pesquisa  procura  compreender  as  diferentes  formas  de  ensino  de  Matemática nesses lugares, já que a multiplicidade de culturas pode estar presente em um  mesmo ambiente escolar. A segunda razão é a de que – a partir de estudo sobre o estado  do conhecimento das dissertações e teses em Educação Matemática de Jovens e Adultos,  especificamente aquelas que incluem a Etnomatemática, avaliadas no período de 2001 a  2020 –  a  produção  acadêmica  com  enfoque  em  Etnomatemática  na  EJA  é  bastante  reduzida. Ademais, as dissertações e teses nessas duas décadas tiveram como objeto de  estudo  grupos  específicos  tais  como  conhecimento  matemático  de  pedreiros,  saberes  matemáticos  de  produtores  rurais,  práticas  matemáticas  de  trabalhadoras  domésticas,  sem, contudo, abordar a Etnomatemática na perspectiva da prática docente. 

Todas  essas  razões  possibilitaram  formular  e  delinear  o  problema  de  pesquisa,  caracterizado na seção seguinte. 

 

Delineando e formulando o problema de pesquisa   

É assumida aqui a relevância desta pesquisa sobretudo porque, ao tentar entender  os  desafios  que  o  ensino  de  Matemática  representa  para  os  professores  da  EJA –  referenciados  em  minha  experiência  profissional  e  estudos  teóricos  no  âmbito  da 

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Educação Matemática e da Etnomatemática –, abre­se a possibilidade de conhecer o fazer  pedagógico do docente em ambientes em que várias culturas se entrelaçam em um mesmo  espaço escolar.  

Em relação a prática docente de Matemática na EJA, vários questionamentos já se  colocaram para mim nesses últimos anos, dentre os quais:  

– O professor de Matemática da EJA, em seus níveis fundamental e médio, reconhece os  saberes matemáticos não escolares dos alunos da EJA?  

– Os saberes matemáticos não escolares que se apresentam em um mesmo ambiente da  escola são considerados no planejamento das aulas e no desenvolvimento das atividades  didáticas?   

– Os conhecimentos provenientes da pluralidade cultural dos estudantes são considerados  e validados para o ensino e aprendizado da Matemática curricular? 

É precisamente sob esses aspectos que o objetivo geral dessa pesquisa se inscreve,  qual seja: investigar a prática pedagógica dos professores de Matemática da EJA quanto  ao  reconhecimento  dos  saberes  matemáticos  não  formais  que  se  revelam  no  ambiente  escolar e quanto à incorporação desses saberes no planejamento das ações pedagógicas  para  o  ensino  e  a  aprendizagem  da  Matemática  curricular.  Com  efeito,  ao  se  falar  em  incorporação dos saberes não escolares dos alunos da EJA na elaboração do planejamento  de aulas do professor, consideram­se nesse caso, além do tema a ser estudado em aula,  estratégias  diversas  traduzidas  na  forma  de  atividades  e  situações­problema,  debates/discussões  em  sala,  reflexões  sobre  o  conhecimento  matemático  escolar  e  o  conhecimento matemático utilizado no fazer diário dos alunos.  

Por  essa  perspectiva,  e  considerando  a  relevância  dos  saberes  não  escolares  provenientes das diferenciadas expressões culturais dos alunos, a questão de pesquisa foi  formulada da seguinte forma: que ações o professor de Matemática da EJA leva em conta  ao elaborar seu plano de ação pedagógica? Para responder a essa questão norteadora deste  estudo, os objetivos específicos são descritos como:  a)  identificar a visão do professor  quanto aos saberes não escolares de  Matemática manifestados pelos alunos da EJA; b)  compreender as formas pelas quais os professores incorporam em sua prática pedagógica  os diferentes modos de seus alunos da EJA produzirem Matemática; c) entender como a  diversidade cultural dos alunos da EJA é percebida pelos professores de Matemática em  termos dos saberes não escolares expressos por esses alunos; d) analisar a compreensão  dos  professores  quanto  às  suas  concepções  sobre  as  atuais  tendências  presentes  na 

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Educação Matemática; e) verificar se a prática docente na EJA se pauta em alguns dos  princípios da dimensão pedagógica do Programa Etnomatemática. 

Em termos metodológicos a pesquisa aqui proposta é qualitativa. O levantamento  de  dados  junto  aos  professores  de  Matemática  atuantes  ou  que  já  atuaram  na  EJA  no  Ensino  Fundamental  e  ou  Ensino  Médio  das  escolas  públicas  estaduais  da  cidade  de  Montes Claros – MG se deu por duas vias. Inicialmente, ocorreu a aplicação online de  questionário semiestruturado (Apêndice B) para 39 professores das escolas que ofertam  ou já ofertaram a EJA e que possuam professores de  Matemática  que atuam ou que já  atuaram  nessa  modalidade  naquela unidade escolar específica, obtendo­se respostas de  21 dos 39 docentes para os quais  foi enviado  esse  instrumento de  coleta de dados. No  segundo momento, foram selecionados e entrevistados quatro dos 21 professores dentre  os  que  responderam  ao  questionário.  O  critério  de  seleção  desses  quatro  docentes  considerou dois docentes que responderam de forma resumida às questões propostas no  questionário e outros dois que teceram maiores comentários às questões formuladas.  Os  dados foram obtidos a partir das comunicações dos docentes tanto no questionário quanto  nas entrevistas.  

A  estratégia  analítica  proposta  é  a  análise  de  conteúdo  tal  qual  entendida  por  Bardin  (1977)  que  a  sugere  como  uma  técnica  sistematizada  capaz  de  descrever  os  conteúdos das mensagens e que propicia ao analista identificar nas expressões dos sujeitos  as unidades de texto (palavras ou frases) que se repetem, inferindo uma expressão que as  caracterize.  Esse  procedimento  é  conhecido  como  análise  categorial  que  consiste  em  desmembramento do texto em categorias de análise não definidas a priori, de acordo com  um reagrupamento analógico (CAREGNATO; MUTTI, 2006). 

Por esse percurso metodológico é possível que elementos importantes, obtidos a  partir das comunicações dos docentes, contribuam para compreender a prática docente do  professor de Matemática da EJA, em termos de identificar os princípios que orientam essa  prática e se ela é capaz de construir o conhecimento matemático de forma eficaz. 

Esta dissertação está organizada em seis capítulos. O primeiro capítulo discorre  sobre  a  Etnomatemática  desde  suas  primeiras  concepções,  passando  pela  (im)possibilidade  conceitual  restritiva  e  culminando  com  um  estudo  sobre o  estado  do  conhecimento por meio do mapeamento das dissertações e teses sobre Etnomatemática e  EJA nas duas primeira décadas do século XXI (2001 a 2020). Além disso, são traçadas  sucintas  considerações  sobre  a  práxis  docente  e  um  relato  pessoal  sobre  o  ensino  de  Matemática  na  EJA.  No  segundo  capítulo  são  descritos  os  percursos  metodológicos 

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realizados  na  pesquisa  desde  o  contexto  e  local  de  investigação,  concepção  dos  instrumentos  de  coleta  de  dados  (questionário  e  roteiro  de  entrevista)  até  a  forma  de  devolução da pesquisa por meio do produto educacional. O capítulo três propõe um breve  esboço sobre as fases da Análise de Conteúdo Categorial em pesquisas qualitativas com  enfoque  para  a  pré­análise,  exploração  do  material  e  tratamento  dos  resultados.  No  capítulo quatro são minuciosamente explicitados os movimentos que resultaram em três  Categorias de Análise dos dados obtidos nas variáveis abertas do questionário. O quinto  capítulo traz – à luz dos aportes teóricos, objetivos e problema de pesquisa – as sínteses  interpretativas  das  Categorias  de  Análise  definidas  no  capítulo  anterior.  No  último  capítulo os dados das entrevistas possibilitam um refinamento das Categorias de Análise  no sentido de ir além dos movimentos anteriores, em busca de novos arranjos e melhor  compreensão sobre o  que o professor expressou textualmente no questionário;  isto é, a  partir das expressões orais dos docentes nas entrevistas, analisa­se com maior precisão as  ações  que  guiam  sua  prática  para  o  ensino  de  Matemática  na  Educação  de  Jovens  e  Adultos. 

                                 

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1 CAPÍTULO I – ETNOMATEMÁTICA: da gênese ao estado do conhecimento   

1.1 Etnomatemática: a origem   

Desde  a  década  de  60,  século  passado, Ubiratan D’Ambrosio,  a  partir  de  suas  experiências educacionais nos Estados  Unidos e República do Mali, preocupou­se com  questões sobre “por que ciência” e, sobretudo, “que ciência” seriam fundamentais para criar “um ambiente científico e, em especial, matemático, com produção de pesquisa (...) que vá de encontro aos anseios do povo e dos projetos nacionais para o desenvolvimento”

(D’AMBROSIO, 1992, p. 53). Novas ideias e o conhecimento da realidade global do país  levaram­no  a  conceituar  Etnociência  e  Etnomatemática  “como uma alternativa epistemológica mais adequada para as diversas realidades socioculturais do que a Ciência  e a Matemática dominantes, de inspiração europeia.” (D’AMBROSIO, 1992, p. 53).  

O  termo  Etnomatemática foi utilizado por D’Ambrosio pela primeira vez em 1975.  Mas  foi  em  uma  conferência  apresentada  no  3º  Congresso  Internacional  de  Educação Matemática (ICME 3), realizado em Karlsruhe, na Alemanha em 1976, que o  educador expôs as principais ideias do Programa Etnomatemática, com enfoque na crítica  sociocultural  da  Matemática  Ocidental.  No  entanto,  o  (re)conhecimento  da  Etnomatemática  no  cenário  internacional  se  efetivou  mesmo  no  5º  Congresso  Internacional de Educação  Matemática (ICME 5), realizado em Adelaide na Austrália,  em  1984  (KNIJNIK,  1996,  p.  22).  A  partir  de  sua  palestra,  mudanças  radicais  nas  perspectivas  para  a  Educação  Matemática  começaram  a  despontar  no  cenário  educacional. O termo foi considerado por D’Ambrosio como 

 

mais abrangente do que Matemática Antropológica, ou Etnografia Matemática,  ou Matemática Cultural ou outras propostas que desde o início do século (...)  vinham  destacando  aspectos  matemáticos  nas  culturas  dos  povos  então  colonizados (D’AMBROSIO, 1992, p. 53).  

 

O  autor  destaca  o  trabalho  de  sociólogos  e  psicólogos  que  encontraram  nesse  questionamento uma  importante fonte de pesquisa  que, nas décadas de 70 e 80, deram  importantes contribuições “para evidenciar o relativismo cultural na Matemática e alertar  sobre os seus reflexos no ensino”. (D’AMBROSIO, 1992, p. 54). D’Ambrosio também  esclarece a motivação que o levou a designar o programa de pesquisa a que denominou  Etnomatemática, justificando que se trata de uma busca pela compreensão histórica sobre 

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o  saber  e  fazer  matemático  presente  nos  mais  diferentes  povos  de  variadas  culturas  (D’AMBRÓSIO, 2001),  insistindo  na  razão  de  falar  em  Etnomatemática  como  um  programa e não como uma outra epistemologia. Segundo as palavras do autor, 

   

A principal razão resulta de uma preocupação que tenho com as tentativas de  se  propor  uma  epistemologia,  e,  como  tal,  uma  explicação  final  da  Etnomatemática.  Ao  insistir  na  denominação  Programa  Etnomatemática,  procuro evidenciar que não se trata de propor  uma outra epistemologia, mas  sim de entender a aventura da espécie humana na busca de conhecimento e na  adoção de comportamentos. (D’AMBRÓSIO, 2001, p. 17). 

           

Paulus Gerdes, em seu livro texto “Sobre o Conceito de Etnomatemática” (1989),  em sua ótica de educador e pesquisador de culturas africanas – Moçambique – fez uma  análise  da  gênese  do  conceito  de  Etnomatemática  entre  matemáticos,  incluindo  os  professores  de  Matemática,  a  partir  do  reconhecimento  de  que    com  a  transplantação  apressada – durante os anos 60 – de programas escolares dos países capitalistas altamente  industrializados para os países do ‘Terceiro Mundo’ continuou­se,  pelo  menos  implicitamente, a negação da Matemática africana, asiática, indiana. 

A  resistência  contra  tal  negação  fez­se  sentir  entre  professores  e  didáticos  de  Matemática  e  o  movimento  cresceu  a  partir  da  década  de  1970.  Autores  citados  por  Gerdes salientaram que, além da “Matemática escolar importada”, existia e continua a existir uma “Matemática  indígena”. Nesse contexto  de  oposições,  vários  deles  propuseram  seus  conceitos  no  sentido  de  contrastar  esta  Matemática à “Matemática  acadêmica/Matemática escolar”. Assim, Gerdes levanta conceitos de Zaslavsky (1986), D’Ambrosio (1982), Posner (1982), Carraher (1982), Mellin­Olsen (1986) e dele próprio  (1982,  1985).    Salienta  que  são  propostas  de  conceitos  provisórios  que  se  enquadram  numa tendência iniciada no ‘Terceiro Mundo’ e que mais tarde encontrou eco em outros  países (GERDES, 1989). 

Em  suas  considerações  sobre  Etnomatemática  e  Modelagem  Matemática,  D’Ambrosio dizia que “não é possível explicar, conhecer, entender, manejar, lidar com a  realidade fora do contexto histórico. Têm­se não mais que visões parciais e incompletas  da realidade”. (D’AMBROSIO, 1992, p. 59). Essa ideia lhe deu condições de dizer que 

“a modelagem pode ser uma metodologia de ensino muito útil e se enquadra no Programa Etnomatemática, que inclui a crítica, também de natureza histórica, sobre representações, 

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que deve estar sempre subjacente ao processo de modelagem” (D’AMBROSIO,1992, p. 

59). 

Assim, embora as ideias sobre Etnomatemática tivessem germinado em meados  da década de 70, essa abordagem toma corpo no ano de 1985 no congresso de Adelaide,  Austrária. A partir daí esse campo passa ser objeto de pesquisas e questionamentos em  diversas regiões do planeta. Existiria um solo rígido, seguro e invariante sobre o qual a  Etnomatemática instalasse bases epistemológicas validadas academicamente? 

Existiria um conceito unânime para a Etnomatemática? 

Um  dos  desafios  dos  pesquisadores  e  estudiosos    ao  longo  do  tempo  tem  sido  propor  um  conceito  para  a  Etnomatemática  que  não  a  circunscreva  nem  a  limite  a  um  padrão ou a uma singularidade específicos, mas que, ao contrário,  seja capaz de expressar  as  múltiplas  formas com que diferentes ações ensejam a compreensão e construção do  conhecimento matemático pelo prisma etnomatemático. 

 

1.2 Etnomatemática: o conceito (im)possível   

Desde o marco fundante do Programa Etnomatemática, conceitos aparentemente  diversos sobre Etnomatemática são anunciados por vários autores. No entanto, é possível  identificar  em  todas  as  formulações  conceituais  uma  aproximação  com  aquela  de  D’Ambrosio, a de que a  

 

Etnomatemática  é  a  Matemática  praticada  por  grupos  culturais,  tais  como  comunidades urbanas e rurais, grupos de trabalhadores, classes profissionais,  crianças de uma certa faixa etária, sociedades indígenas, e tantos outros grupos  que  se  identificam  por  objetivos  e  tradições  comuns  aos  grupos. 

(D’AMBRÓSIO, 2001, p. 9). 

   

 

Em  síntese,  quando  da  instituição  do  Programa  Etnomatemática, D’Ambrosio sugere algumas dimensões a serem consideradas nessa pesquisa. A dimensão conceitual: 

“Etnomatemática é um programa de pesquisa em história e filosofia da Matemática, com  óbvias implicações pedagógicas”; a dimensão histórica: “[...] leva a reflexões necessariamente  interculturais sobre a história e  filosofia da  Matemática.”; a dimensão  cognitiva: “O conhecimento das tradições é compartilhado pelo grupo”. (D’AMBROSIO, 2001, p. 27­34); a dimensão pedagógica, na qual: “Estamos, efetivamente, reconhecendo na  educação  a  importância  das  várias  culturas  e  tradições  na  formação  de  uma  nova  civilização, transcultural e transdiciplinar” (D’AMBROSIO, 2001, p. 46). 

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A partir dessa compreensão inicial formulada por D’Ambrosio, ao longo do tempo e  da  evolução  das  pesquisas  em  Etnomatemática  os  autores  e  pesquisadores  têm  formulado – ora em contexto mais específico de suas pesquisas ora em termos teóricos  mais gerais – bases para a possível compreensão conceitual de Etnomatemática.  

Monteiro (1998) concebe a Etnomatemática do ponto de vista de seu vínculo com  grupos sociais. Nas palavras da autora,  

 

Associo o termo Etnomatemática ao saber presente nas práticas do grupo. Esse  saber  não  é  isolado  e  sim  integrado  ao  cotidiano  possuindo  um  aspecto  holístico e, na maioria das vezes, seu uso está aliado à solução de problemas,  sem  uma  preocupação  específica  com  a  Matemática  ali  presente. 

(MONTEIRO, 1998, p. 78). 

 

A  pesquisadora  Gelsa  knijnik  (2006a)  aborda  o  papel  de  historicidade  do  conhecimento em termos de passado e presente de grupos culturais. Para essa autora, 

 

A formulação do Programa Etnomatemático implica admitir a importância da  história da ciência para a valorização da historicidade do conhecimento. [...] É  nesse  sentido  que  é  possível  compreender  a  relevância  dada  ao  pensamento  Etnomatemático  no  que  se  refere  à  recuperação  das  histórias  presentes  e  passadas  dos  diferentes  grupos  culturais.  [...].  (KNIJNIK;  WANDERER; 

OLIVEIRA, 2006a, p. 22­23). 

 

Knijnik (2006b) faz ainda uma fundamental síntese sobre a gênese do conceito de  Etnomatemática. Para ela, 

 

Ao  analisar  a  gênese  do  conceito  de  Etnomatemática  e  examinar  historicamente  sua  evolução,  Paulus  Gerdes  (1991)  afirma  que,  em  uma  primeira fase, a expressão foi utilizada no sentido de englobar um movimento  de questionamento da Matemática escolar e sua vinculação com a Matemática  acadêmica. O movimento surgido em países do Sul e, posteriormente, aceito e  difundido  também  em  países  do  Norte,  aponta  para  a  visão  da  Matemática  como um produto cultural, abrangendo ideias tais como as de SocioMatemática  de  Zaslavsky  (1973),  Matemática  não  estandardizada  de  Gerdes  (1985)  e  Harris (1987), Matemática congelada de Gerdes (1985 e 1991) e Matemática  popular do povo de Mellin­Olsen (1987). (KNIJNIK, 2006b, p. 126­127). 

 

Ainda no ano de 2006, em artigo construído por meio de perguntas e respostas,  foi formulada para os pesquisadores Alexandrina Monteiro, Daniel Clark Orey e Maria  do Carmo Santos Domite a seguinte questão: o que é Etnomatemática para você hoje? As  respostas foram as seguintes: 

 

Alexandrina: [...] Etnomatemática é, para mim hoje, uma proposta educacional  e filosófica comprometida com os grupos menos favorecidos que nos desafia  a buscar meios que nos revelem essa trama imposta pelos grupos dominantes  para  que  possamos  denunciá­la  e,  com  isso, transformá­la. O  objetivo  é  que 

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experiências sociais e culturais dos sujeitos advindos de classes desfavorecidas  e oprimidas possam ser valorizadas e fortalecidas contribuindo, assim, para a  construção de uma sociedade mais ética, fraterna e solidária. 

 

Maria do Carmo: Do nosso ponto de vista, a busca de respostas a esse rol de  perguntas  pode  encaminhar  o  que  eu  chamaria  do  meu  entendimento/ideal  pedagógico e investigativo em termos de Etnomatemática. Ou seja, ao tentar  compreender maneiras de um outro grupo, por meio das ferramentas teórico­

práticas que levam­no a compreender e transformar – de modo contextualizado  – as relações quantitativas e espaciais, estaríamos, como educadores, refletindo  dentro desse ideal ou paradigma Etnomatemático. 

   

Daniel: [...] Considerando os aspectos abrangentes da Etnomatemática, torna­

se  impreciso  defini­la  de  uma  forma  abrangente  e  universal.  Assim,  necessitamos ser cautelosos para que não nos tornemos rígidos sobre o que é  ou o que não é  Etnomatemática, pois se uma atividade ou um procedimento  possuem particularidades que as enquadram na descrição que foi elaborada, eu  acredito  que  elas  possuam  características  Etnomatemáticas.  (RIBEIRO; 

DOMITE; FERREIRA, 2006, p. 13­17) 

 

O  pensamento  de  Daniel  Clark  Orey  sobre  essa  imprecisão  na  definição  de  Etnomatemática  é  corroborado  por  Clareto  (2009)  que,  por  acréscimo,  não  considera  auspicioso propor uma fundamentação teórica para a Etnomatemática. A autora é enfática  ao afirmar que 

 

[...] Não se trata de propor uma ‘fundamentação teórica’ para a Etnomatemática que se disponha a constituir uma ‘fundação’ ou um ‘solo teórico’ sobre o qual o edifício da Etnomatemática deva ser construído. [...] A  Etnomatemática não busca ser uma ciência, à moda da ciência moderna. [...] A  Etnomatemática  seria,  pois,  não  edificante.  O  seu  foco  é  a  diversidade,  a  variação,  a  diferença.  Ou  seja,  a  Etnomatemática  como  lugar  da  diferença: 

pluralização  das  noções  de  conhecimento,  Matemática,  racionalidade,  cognição,  aprendizagem,  além  de  colocar  no  plural  também  maneiras  de  conhecer, de viver e de existir. (CLARETO, 2009, p. 125­126) 

   

Também significativas são as afirmações de Fantinato (2009a) sobre as interfaces  da Etnomatemática com a Antropologia, a História e as Ciências da Cognição e, mais que  isso, seu vínculo com uma cultura ou grupo social particular. Para a autora, 

 

A Etnomatemática, área de estudos e pesquisas da Educação Matemática com  interfaces  com  a  Antropologia,  a  História  e  as  Ciências  da  Cognição,  tem  lidado,  desde  suas  origens,  com  as  relações  entre  Matemática  e  cultura.  A  definição de Etnomatemática é culturalmente limitada: é escrita do ponto de  vista de uma cultura ou grupo social, ou seja, uma cultura ou grupo social que  possui uma categoria conceitual chamada ‘Matemática’.  (FANTINATO,  2009a, p. 3). 

 

A  despeito  de  consensos  e  dissensos  sobre  a  conceituação  e ou  fundamentação 

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teórica da Etnomatemática, há uma convergência de concepção no sentido de entender a  importância  da  Etnomatemática  para  o  ensino  de  Matemática.  Paulus  Gerdes  (2007)  assim se expressa: 

 

A Etnomatemática mostra que ideias matemáticas existem em todas as culturas  humanas,  nas  experiências  de  todos  os  povos,  de  todos  os  grupos  sociais  e  culturais, tanto de homens como de mulheres. Mas a Etnomatemática não é só  importante para conhecer a evolução do conhecimento científico dos povos nas  suas  relações  com  a  sociedade  e  a  cultura;  é  também  importante  pela  sua  contribuição para o ensino da Matemática. (GERDES, 2007, p. 11). 

   

É,  portanto,  nesse  cenário  de  convergências  e  divergências  sobre  a  (im)possibilidade  do  conceito  que  a  Etnomatemática  se  move.  Ela  não  é  uma  teoria,  tampouco um método e nem possui uma epistemologia própria. Ao que parece, o mais  apropriado e mais auspicioso seria, no contexto escolar, entender a Etnomatemática como  uma ação pedagógica, pensada,  intencionalizada pelos professores e pesquisadores  por  meio de mecanismos capazes de produzir uma aprendizagem real, concreta, efetiva. Tanto  melhor  se  essa  aprendizagem  não  se  subsumir  aos  ditames  de  uma  regra  geral  matematizável,  mas  que  se  estabeleça  efetivamente  como  conhecimento  matemático  construído, aprendido e apreendido nos processos de ensino e aprendizagem em grupos  socioculturais distintos. 

 

1.3 Etnomatemática e EJA: o estado do conhecimento   

O objetivo aqui é  mapear a produção científica somente de dissertações e teses  desenvolvidas nos anos de 2001 a 2020. 

Alguns autores argumentam sobre a necessidade de diferenciar estado da arte e  estado do conhecimento. De acordo com Almeida (2020),  

 

[...] existe diferença entre essas duas denominações: o Estado da Arte seria um  pouco  mais  amplo  por  abarcar  um  setor  maior  de  fontes  de  análises  (dissertações,  teses,  artigos,  anais  de  eventos  científicos),  enquanto  que  o  Estado do Conhecimento se limitaria a uma quantidade menor de publicações,  limitado à análise de teses e dissertações. (ALMEIDA, 2020, p. 20) 

 

Ao assumir aqui o intervalo de tempo – ano de 2001 a 2020 – como base para a  exploração  da  produção  nesse  período  é  conveniente  ressaltar  que,  em  que  pese  a  diferenciação  entre  estado  da  arte  e  estado  do  conhecimento,  analisar  as  teses  e 

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