Sumário. Texto Integral. Tribunal da Relação do Porto Processo nº

Texto

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Tribunal da Relação do Porto Processo nº 0634615

Relator: TELES DE MENEZES Sessão: 28 Setembro 2006 Número: RP200609280634615 Votação: UNANIMIDADE

Meio Processual: AGRAVO.

Decisão: NEGADO PROVIMENTO.

EMBARGOS DE TERCEIRO

EXECUÇÃO PARA PRESTAÇÃO DE FACTO

Sumário

O incidente de embargos de terceiro não cabe na situação de execução para prestação de facto, consistente na demolição de parte de um edifício, cujo título executivo é uma decisão judicial transitada em julgado.

Texto Integral

Acordam no Tribunal da Relação do Porto:

I.

B………., C………., D………. e Condomínio do edifício sito na Rua ………., n.ºs .., .., … e …, Porto, deduziram embargos de terceiro à execução ordinária em que são exequentes Condomínio do prédio sito na mesma rua, n.ºs .., … e E………. e executada F………., pedindo que seja reconhecida a posse do 1.º embargante sobre as fracções autónomas AU, CX e DD, do segundo

embargante sobre as fracções autónomas Q e CP, e dos dois em conjunto com todo o condomínio também embargante, sobre as partes comuns de todo o imóvel, designadamente a empena lateral do prédio que confina com as garagens dos exequentes; e que se determine a suspensão da execução, por não ser exequível em bens que não são ou não o são exclusivamente da executada.

Alegaram, resumidamente, os três primeiros embargantes, que são

administradores do condomínio também embargante, sendo ainda os dois primeiros proprietários de algumas fracções autónomas no mesmo edifício; em

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23.2.2006, mediante carta datada de 22.2.2006, enviada pelo exequente E………., o 1.º embargante tomou conhecimento de que estava eminente a execução por apenso à qual correm estes autos; os actuais condóminos e proprietários do edifício não intervieram na acção que o exequente

mencionou, quer na fase declarativa, quer na executiva; quando os dois

primeiros embargantes adquiriram as fracções mencionadas, não havia registo de acção em vigor nas inscrições prediais relativas às mesmas, nem nas

demais, nem presentemente há registo da acção que onere alguma das

fracções autónomas que constituem o edifício; a execução ofende a posse e a propriedade dos embargantes, designadamente no que respeita às partes comuns do edifício, porquanto os exequentes pretendem levar a cabo uma demolição numa empena lateral do edifício, que é parte comum do mesmo; os embargantes beneficiam de registo predial das respectivas fracções.

II.

Foi proferido despacho de rejeição liminar dos embargos.

III.

Os embargantes agravaram, concluindo como segue a sua alegação:

1. Muito embora o despacho recorrido tenha indeferido liminarmente os embargos, por ter partido do princípio de que se não verifica qualquer

apreensão, não é líquido que se consiga efectuar a demolição de parte de um edifício sem que o exequente apreenda, pelo menos, a parte do mesmo que pretenda demolir.

2. Ainda que assim não fosse, nada no art. 351.º do CPC afasta expressamente a respectiva aplicação às execuções para prestação de facto.

3. Os pressupostos normalmente considerados fundamentais para a

admissibilidade dos embargos de terceiro são apenas: «1. Que o embargante seja terceiro em relação ao processo onde foi ordenado o acto ofensivo da posse; 2. Que esse acto provenha de (ou seja ordenado por) autoridade judicial; 3. Que esse acto ofenda ou ameace de lesão a posse do mesmo embargante sobre coisa móvel ou imóvel» - ac. RP de 7.3.1989, BMJ 385.º-620.

4. Não obstante e sem prescindir, o certo é que o acto ordenado judicialmente (de demolição e tapamento), com ou sem verdadeira “apreensão”, ofende a posse de quem não é parte na causa.

5. Pelo exposto, e porque não parece razoável negar à oposição de terceiros em execuções para prestação de facto, prerrogativas de que os mesmos dispõem noutro tipo de execuções, deverá, ao caso sub judice, ser aplicado o disposto no art. 351.º, quanto mais não seja por analogia, nos termos do art.

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10.º do CC.

Contra-alegaram os exequentes, pedindo a confirmação do despacho impugnado.

Corridos os vistos legais, cumpre decidir.

IV.

Factos com interesse para a decisão:

1. Por sentença de 27.10.95, confirmada por esta Relação e pelo Supremo Tribunal de Justiça, G………., Lda, H………. e mulher F………. foram

condenados a “procederem à demolição da parte do edifício que vêm construindo ou venham a construir sobre o espaço aéreo do prédio do condomínio, no tapamento das janelas que sobre o mesmo prédio

directamente abriram ou venham a abrir e, ainda, a absterem-se a partir da data da sentença de construírem ou abrirem janelas nos mesmos termos” – cfr.

certidão de fls. 103 a 130.

2. No seguimento dessa decisão foi instaurada execução para prestação de facto, tendo a execução passado a seguir seus termos apenas contra a

executada F………., a quem foi fixado o prazo de 135 dias para levar a cabo as obras determinadas na sentença – cfr. certidão de fls. 131.

3. Ante a passividade da executada, o condomínio exequente, em 12.9.2003, declarou optar pela prestação de facto por outrem – cfr. fls. 132 e 133.

4. Por despacho de 14.11.2005 foi deferida a execução da obra por outrem, sob a direcção e vigilância dos exequentes, que ficaram obrigados a prestar contas da execução da dita obra – fls. 136.

V.

A questão suscitada consiste em saber se cabe o incidente de embargos de terceiro na situação descrita de execução para prestação de facto, consistente na demolição de parte de um edifício, cujo título executivo é uma decisão judicial transitada em julgado.

O actual art. 351.º, que define os fundamentos dos embargos de terceiro, teve a sua fonte no antigo art. 1037.º do mesmo diploma, que dispunha:

«1. Quando a penhora, o arresto, o arrolamento, a posse judicial, o despejo ou qualquer outra diligência ordenada judicialmente, que não seja apreensão de bens em processo de falência ou de insolvência, ofenda a posse de terceiro, pode o lesado fazer-se restituir à sua posse por meio de embargos.

2. Considera-se terceiro aquele que não tenha intervindo no processo ou no

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acto jurídico de que emana a diligência judicial, nem represente quem foi condenado no processo ou quem no acto se obrigou.

(…)».

Hoje, dispõe o art. 351.º:

«1. Se a penhora, ou qualquer acto judicialmente ordenado de apreensão ou entrega de bens, ofender a posse ou qualquer direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência, de que seja titular quem não é parte na causa, pode o lesado fazê-lo valer, deduzindo embargos de terceiro.

2. (…)».

Salvador da Costa, Os Incidentes da Instância, Almedina, 1999, pág. 180, afirma que a lei processual actual já não integra as acções possessórias no âmbito dos processos especiais, mas ampliou os fundamentos dos embargos de terceiro, que podem efectivar, para além da posse, qualquer direito que se revele incompatível com alguma diligência de cariz executivo judicialmente ordenada.

E acentua que a sua característica essencial consiste em a pretensão do embargante se inserir num processo pendente entre outras partes e visar a efectivação de um direito incompatível com a subsistência dos efeitos de algum acto judicial de afectação ilegal de um direito patrimonial do embargante – ibid. 180-181.

O embargante pode invocar qualquer direito que seja incompatível com o acto de penhora, arresto, arrolamento, apreensão ou entrega de coisa certa ao exequente, sem necessitar de recorrer à demorada acção de reivindicação e com a possibilidade de evitar, de modo directo, a venda dos bens que decorra directa ou indirectamente daqueles actos – ibid.

Deve entender-se incompatível com o acto judicial de tipo executivo, o direito de terceiro cuja natureza é impeditiva da realização da função daquele acto – penhora, arresto, arrolamento, entrega da coisa certa ao exequente ou

entrega do prédio ao senhorio – ibid.

Por seu turno, Miguel Teixeira de Sousa, A Reforma da Acção Executiva, Lex, 2004, pág. 175, refere ser fundamento dos embargos de terceiro, na nova redacção do art. 351.º, introduzida pelo art. 1.º do DL 38/2003, de 8.3, ao lado do acto judicialmente ordenado de apreensão de bens, a penhora.

Ora, o que está em causa na execução para prestação de facto por apenso à qual correm estes autos, não é, manifestamente, qualquer acto de apreensão ou entrega de bens ou penhora, mas o cumprimento de uma decisão judicial transitada em julgado que determinou a demolição de parte de um edifício.

Consequentemente, a diligência em causa está fora do âmbito dos embargos

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de terceiro.

É que, quer a penhora quer a apreensão de bens se inserem no âmbito da constituição da garantia patrimonial do crédito do exequente, com vista a assegurar o pagamento da dívida exequenda – art.s 601.º e 619.º do CC e 406.º do CPC.

A interrogação formulada por Lebre de Freitas, Estudos Sobre Direito Civil e Processo Civil, Coimbra Editora, 2002, pág. 646, é reveladora de que só podem utilizar-se os embargos de terceiro no processo executivo, quando tenha lugar uma diligência de penhora ou de apreensão da coisa devida, consoante se execute obrigação pecuniária ou obrigação de entrega de coisa certa.

O que se passa nos autos é que, reconhecido o direito de propriedade dos autores exequentes, para assegurar o seu direito, se torna necessário

proceder à demolição ordenada, para o que se lançou mão de execução para prestação de facto. Fora, pois, do âmbito mencionado.

Além disso, os embargantes, na qualidade de adquirentes do direito litigioso, não revestem a natureza de terceiros que lhes permita deduzir estes

embargos – art.s 271.º/1 e 671.º/1 do CPC.

Assim sendo, não há fundamento para a aplicação da analogia, porquanto estamos perante uma situação específica, expressamente excluída do âmbito do art. 351.º do CPC.

Face ao exposto, nega-se provimento ao agravo e confirma-se o despacho recorrido.

Custas pelos agravantes.

Porto, 28 de Setembro de 2006

Trajano A. Seabra Teles de Menezes e Melo Mário Manuel Baptista Fernandes

Fernando Baptista Oliveira

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