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Academic year: 2023

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Neste volume serão encontrados textos sobre obras e autores da literatura francesa que se inserem entre os séculos XVI e XXI.

De início, o artigo de Meriele Miranda de Souza, sobre “Interfaces da intertextualidade na obra de François Rabelais: a Bíblia sob a ótica do riso”, destaca a enorme pluralidade dessa obra que é uma das maiores do Renascimento francês. Nela, François Rabelais (1483 ou 1494- 1553) resgata a tradição livresca e a tradição popular herdada da Idade Média, da prosa e do verso, misturando sátira e romance de cavalaria, a crítica séria com fatos cômicos, contribuindo ainda para a criação da língua literária francesa, ao recorrer a termos técnicos, gíria, falares regionais, ao latim culto e vulgar.

Além disso, lançou mão de intertextos tirados de Aristóteles, Platão, Sócrates, de citações de obras de medicina e de direito, de passagens da mitologia greco-romana e da Bíblia, que enriquecem enormemente seus escritos. Desde o século XVI, Rabelais tem sido olhado de formas diferentes e é sobretudo a partir do século XIX que sua obra se tornou objeto de estudiosos que viram nela toda a seriedade que há por trás de seus aspectos cômicos e aparentemente gratuitos. Bahktin, ao abordá-lo (1970) sob a ótica da cultura popular, trouxe nova luz a seus estudos. Mas, Auerbach, na Mímesis (1981), contribuiu de forma significativa para que se compreendesse que a realidade do século XVI não é reproduzida de forma fiel e objetiva por Rabelais, que apresenta realismo heteróclito, emoldurado por fatos cômicos, absurdos, por imagens grotescas e inconcebíveis. Ele serve-se dos intertextos para dar ênfase a seu discurso e para subvertê-los por meio da paródia, da sátira, da carnavalização. Nesse sentido, utiliza a Bíblia para transmitir sua visão ideal da Igreja, caracterizada pela tolerância e pela liberdade. Neste artigo serão encontradas análises desses recursos intertextuais aos quais o autor submete os textos sagrados, bem como das intenções ideológicas por trás desses recursos.

No artigo seguinte, “Les années 1720 et leur répercussion subjective: la dématérialisation des valeurs et la mimesis du quatidien aggravé”, André Luiz Barros da Silva cita a hipótese colocada por estudiosos de uma relação direta

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entre a crise da Regência e do Sistema de Law e o surgimento de um novo realismo, no qual as obras de Prévost (1697-1763) e de Marivaux (1688-1763) seriam as mais significativas. Para Barros, no entanto, seria necessário analisar o fenômeno da relação entre as obras  – e seu novo ambiente estético  – e as transformações propagadas a partir de uma nova percepção generalizada da precariedade da relação entre vida concreta e a fixação de valores ligados a essa vida. A valorização do cotidiano, como verdadeiro conceito da modernidade parece, ao articulista, ser uma contribuição fundamental de Auerbach, que mostra a valorização do instante presente, e a descrição inédita dos sentimentos imediatamente vividos, em Histoire du chevalier Des Grieux et de Manon Lescaut. No teatro, com La surprise de l’amour, Marivaux mistura a alegorização típica da Commedia dell’arte com elementos do que se pode chamar um

“novo realismo”, segundo Auerbach. Entre 1720 e 1730, Grimm critica a permanência das tragédias em Voltaire, que devem ser substituídas por novas formas, como aquelas que Diderot (1713-1784) teorizou em Entretiens sur le fils naturel e Discours de la poésie dramatique (1757): a comédia séria, que incute a identificação do espectador com a condição social, familial, profissional, etc, dos caracteres e onde é clara a representação das tensões de classe sob a estrutura ideológica do Antigo Regime. Barros é de opinião que o lado cômico e alegorizante é o disfarce perfeito, possível na época, para atacar o que seria a polícia cultural que defendia os gêneros e regras clássicos. E Auerbach vê nesse romance moderno o suporte onde se constrói o destino de uma mimesis realista ocidental.

O século XIX tem neste volume dois textos dedicados à poesia, mais especificamente, à poesia em prosa. No primeiro deles, Matheus Victor Silva aborda a obra de Aloysius Bertrand, Gaspard de la nuit, e intitula-se “Lírica grotesca: tensões na poesia de Aloysius Bertrand”. Essa obra, que teve publicação póstuma em 1842, inaugura a criação de poemas em prosa na literatura francesa. O articulista lembra o trabalho formal desenvolvido por Bertrand em seus poemas, e volta-se particularmente para seu plano temático, inovador, também, pois apresenta, de várias maneiras, a configuração grotesca de suas imagens, criadoras de tensão pelos contrastes que evidenciam estranhamento entre a voz lírica e seu tom realista e a presença do feio e do absurdo na poesia.

É que o Romantismo buscava a comunhão com o uno e o todo por meio da harmonia entre elementos conflitantes. Em Bertrand, portanto, o traço lírico é inovador pelo fato de unir a subjetividade a uma imagética realista e grotesca, da tradição medieval. A análise de alguns poemas em prosa de Bertrand atesta essa

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poesia inovadora por diversas formas que anuncia a poesia mais revolucionária na França da segunda metade do século XIX.

O outro texto poético é abordado em “As Iluminações de Rimbaud: da renúncia do sentido ao silêncio da obra”, de Márcio Scheel e Ana Paula Garcia.

Nesse artigo, os autores lembram que a história da poesia moderna pode ser descrita como a história da tomada de consciência sobre as potencialidades e limites da linguagem e sua problemática insolúvel na relação com a materialidade do mundo. Apoiando-se em Marshall Berman, observam que, contra a poética clássica e o idealismo transcendental romântico, a poesia moderna significa uma espécie de salto sobre o abismo, o reconhecimento de uma profunda derrocada do mundo, do homem e da própria linguagem. E ao fazer da reflexão e da crítica os elementos centrais da criação poética, os grandes poetas modernos conduziram a poesia. Nesse sentido, Charles Baudelaire (1821-1887), além de crítico da modernidade, foi o primeiro poeta a conceber uma poesia marcada pelo trabalho do pensamento, da reflexão, que incorpora alegoricamente as tensões que essa ambiguidade provoca. E a alegoria é o recurso que permite ao poeta articular a natureza de um mundo marcado pela sordidez e fealdade e a beleza fulgurante da imaginação poética, única força capaz de transfigurar a realidade. Em Rimbaud (1854-1891), a poesia constitui-se sobre os fundamentos de uma linguagem quase sempre hermética e fragmentária, feita de imagens que se aproximam do irracional, não comunicativas, e que se contrapõem ao apelo da experiência imediata e superficial da vida. Essa linguagem disjuntiva reivindica o silêncio como retórica mais eloquente, denunciando com isso seus impasses diante da natureza de uma realidade na qual tudo é precário. Assim, se a prosa poética de Iluminações lança mão de uma linguagem mágica, ela prefere a alegoria em nome de uma imagética irracionalista, e converte as imagens alegorizadas de Baudelaire em hieróglifos, sinais, inscrições fantasiosas, uma simbologia fechada que sugere o nonsense, a renúncia imediata ao sentido.

Vivendo, também, na segunda metade do século XIX, (Charles- Marie-Georges) Joris-Karl Huysmans (1848-1907), reconhecido sobretudo pelo romance A rebours (1884), obra do decadentismo francês, apresenta uma trajetória que muito se distingue daquela que percorreu o poeta de As Iluminações. É o que apresentam Glaucia Benedita Vieira e Álvaro Santos Simões Jr, em “Ao gosto do freguês: a imagem de Huysmans no jornal religioso A União”. Tendo trabalhado no serviço público até os 52 anos, Huysmans decidiu-se também pela carreira de escritor. Sua primeira publicação foi uma

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compilação de poemas e seu primeiro romance (Marthe, histoire d’une fille) foi publicado na Bélgica e confiscado depois pela censura francesa. O tom de denúncia desse livro baseado em experiências reais, agradou a Émile Zola, que o convidou para integrar o movimento naturalista, liderado por ele. De 1876 a 1882, Huysmans publicou quatro obras de cunho naturalista, que alcançaram muito sucesso e o tornaram conhecido nos círculos literários. Mas, em 1884, ele lança A rebours que surpreendeu a crítica, pois apresentava características contrárias a toda causa naturalista. Essa obra tornou-se o breviário de um movimento literário emergente, o Decadentismo: o cientificismo naturalista foi substituído por uma literatura que se revestiu de lirismo, arte e beleza. Nessa fase da vida, já havia publicado trabalhos de crítica de arte. E nessa obra já aparece outro aspecto que iria desenvolver nas obras posteriores: a religião. Em Là-bas (1891), o protagonista Durtal, que aparecerá em outros romances, inicia seu caminho de busca por respostas referentes à vida espiritual. Os críticos reagiram diferentemente à nova fase do autor, que foi acolhida pela Igreja católica e foi objeto de interesse da imprensa no Brasil.

Contemporâneo de Rimbaud e de Huysmans, Guy de Maupassant (1850- 1893) é autor cuja obra, constituída de gêneros variados, destaca-se no final do século XIX pela especial originalidade. Em seu artigo sobre “Pontos de vista matizados: a focalização em Bel Ami, de Maupassant”, Brigitte Monique Hervot lembra que, por inspiração de Flaubert, em Maupassant a tessitura narrativa não pode prescindir do olhar arguto de seu criador. Para isso, em Bel Ami, ele cultiva uma pluralidade de focalizadores que permite à história ser contada do ponto de vista do narrador, de algumas personagens e do próprio protagonista. Em relação ao primeiro, que é um narrador-focalizador onisciente, Hervot observa que, no entanto, ele não é “prepotente”, pois não intervém diretamente na história, nem tece reflexões morais ou filosóficas. É partidário da objetividade, mas posiciona-se diante do que conta ao fazer julgamento implícito do personagem e dos acontecimentos ao organizar o discurso. Além disso, como em todos seus romances, aqui também Maupassant delega seus poderes a algumas personagens privilegiadas e a perspectiva narrativa está relacionada à situação desses focalizadores internos. Toda essa multiplicidade de perspectivas em Bel Ami, com a predominância da focalização interna, permite que Maupassant dê ao leitor a ilusão completa do verdadeiro, com uma leitura que ultrapassa a visão maniqueísta do protagonista.

Em “A crônica dos escritores modernistas encontra Proust: Mário de Andrade e Manuel Bandeira”, Alexandre Bebiano de Almeida comenta a

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recepção que a obra de Proust (1871-1922) teve no Brasil, até a década de 60, mais particularmente, por meio de crônicas redigidas pelos dois poetas brasileiros. O articulista põe em discussão a possibilidade de se conciliar uma obra de pretensões filosóficas tão amplas com o horizonte cotidiano e rasteiro do jornal. Embora Proust tenha tido contato constante com a imprensa, divulgando partes de sua obra em jornais, e participando das publicações aí suscitadas por ela, Bebiano quer chamar a atenção para a acolhida que essa obra monumental recebeu no Brasil, em crônicas e artigos redigidos por críticos e escritores. Isso, segundo ele, explica-se pelas funções que Proust desempenhou por aqui, como se pode verificar pela obra de Gilberto Freyre e Álvaro Lins, por exemplo, que mencionaram o autor francês para explicar escolhas que fizeram. É assim que Proust se tornou o ponto de passagem para todos aqueles – cronistas ou críticos – do norte ao sul do Brasil, que escreveram sobre literatura em jornais.A título de exemplo, Bebiano aborda rapidamente dois tipos de leitura que foram propostos: a de Mário de Andrade, que reprova o escritor por seu esteticismo, por razões morais e políticas, e a de Manuel Bandeira, que, mais literária, se interessou particularmente pela força da memória involuntária em Proust, como estímulo para a criação literária e estética.

Em parte contemporâneo de Proust, Antoine de Saint-Exupéry (1900- 1944) é objeto do artigo de Patrícia Munhoz, “Pilote de guerre, de Saint- Exupéry: Escrita em trânsito”. Nele, encontramos a análise dessa obra de 1942, na qual, em plena guerra, ele relata missões aéreas de que participou, recorrendo a gêneros que se misturam para retratar um mundo em desordem, desestruturado, pelo qual transita. Trata-se de uma narrativa que contém a descrição da invasão da França pelos alemães em meio a reflexões sobre temas que lhe são caros: sua tristeza e sua cólera, sua revolta e sua indignação diante da guerra; a fraternidade e o respeito nas relações entre os homens. Mais do que um romance, Pilote de guerre é narrativa de caráter híbrido, marcada por constantes digressões em torno das reflexões filosóficas sobre a condição humana e de suas reminiscências da infância, sempre presentes em suas obras, e que contêm, nos termos de Saint-Exupéry, estilhaços do passado.

Contemporâneo, igualmente, de Saint-Exupéry, o poeta René Char (1907- 1988) também participou diretamente da Segunda Guerra e traz desse período o registro que sua memória conservou em herméticas mensagens poéticas.

André Luiz Alselmi aborda aqui uma obra do período tardio de Char  – Fenêtres dormantes et porte sur le toit, escrita entre 1973 e 1979, focalizando particularmente questões estilísticas e formais, que muito devem a sua herança

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surrealista, movimento de que fez parte em sua juventude. Em sua poesia, observa o articulista, Char busca explorar todas as possibilidades de associações arbitrárias para fazer surgir o insólito que vai desorientar o leitor.

Finalmente, o texto apresentado por Vânia Soares Barbosa e Saulo Cunha Serpa Brandão, “De l’Amour em ruínas”, aborda a poesia digital de Xavier Malbreil (1958), obra cujo reconhecimento literário, utilizando-se palavras de W. Benjamin, possivelmente só acontecerá em próxima geração. O autor, que publica em revistas como Arché, Docks, La Voix du Regard entre outras, já publicou livros como Les Prisonniers de l’Internet (2004), Éloge des virus informatiques dans un processus d’écriture interactive (2004) e Des corps amoureux dans quelques récits (sd). Ele encontrou nas teclas, no mouse e na leitura da tela, interesse na Literatura e Informática, como teórico e escritor de arte multimídia. De l’Amour foi apresentada no E-Poetry: An International Digital Poetry Festival, na University at Buffalo (SUNY) em 2007. Trata-se de obra que surgiu do acaso: em seus antigos papeis, encontrou folhas A4 recebidas de um estudante chinês, de um seminário sobre as traduções que Paul Claudel fez de poemas clássicos chineses, e que Malbreil cobriu de notas, rabiscos, desenhos sem intenção. Com recursos tecnológicos  – scanner, copiadora  – este poeta resolve transformar as folhas que, inicialmente, resgate do patrimônio chinês, teve como última escrita a do poeta francês de arte digital. Ao propor a leitura de De l’Amour, os articulistas viram-se diante de alguns desafios, entre eles o de ler uma poesia tão avant la lettre em uma língua estrangeira.

O volume apresenta, ainda, três resenhas de dissertações de mestrado e de tese de doutorado, respectivamente, sobre Jean-Jacques Rousseau, Tristan Tzara e Antoine de Saint-Exupéry, por Adalberto Luís Vicente, Norma Domingos e Daniela Mantarro Callipo.

Guacira Marcondes Machado l  l  l

Referências

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