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Problema social e problema de investigacao

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PROBLEMA SOCIAL E PROBLEMA DE INVESTIGACAO ORACY NOGUEIRA

Professos do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, Rio de Janeiro, Brasil

1. Conceito de “Problema Social”

Lembra Clarence Marsh que, segundo a etimologia, a palavra problema indica algo “pasto ou lancado à frente” (“thrown for- wurd”), isto é, algo que “se impõe à aten@o”

(“thrust upon the uttention”), e considera esta definipáo aplicável àquilo que usualmente se t,em chamado de problema social:

“0 próprio têrmo 6 urna dessas rxpressões po- pulares muito usadas, mas que se mostram re- fratárias à definicáo exata, quando nos detemos para perguntar a n6s mesmos 0 que realmente es- tamos dizrndo. Há muito que problema social

figura entre essas expressóes vagas, porém úteis. Não obstante tratar-se de urna expressão tão popular, é difícil dizer-se, em têrmos exatos, que vem a ser problema social. Todavia, apesar dessa dificuldade, ante a qual contrasta a exatidáo com que se definem os processos sociais, pode-se dar uma idéia do respectivo conceito, cm têrmos ge- rais.

“Problema social, no sentido em que vamos cmpregar 5 expressáo, 6 qualquer situacáo que atraia a atencáo de um número considerável de observadores competentes, dentro de urna so- ciedadr, como algo a exigir reajustamrnto ou so- lucão através de a@o social, isto 6, coletiva, de urna ou outra sorte. A expressáo “número consi- dcrável” 6, confessamo-lo, vaga, porém a escolhe- mos deliberadamente, para indicar qualquer número-desde a csmagadora maioria até urna minoria pequena, mas capaz e enérgica.” (1)

0 estudo dos problemas socinis deu origem a fecunda literatura em que a preocupa@o dos autores ahrange desde as que&ões de conceituaqáo e classifica@o, de determinacão de fases e de causasá.o-isto 6, a relacão dos problemas com as condicóes gernis e especí- ficas, com os valores sociais e com a mudanca social, e dos problemas entre si-at,é os mé- todos e técnicas próprias à sua investigacáo.

Geralmente, os autores salientam o duplo

caráter objetivo e sócio-cultural do problema social, ficando como um dos pontos mais suscetíveis de discussão a questão de se saber a quem caberá o juízo decisivo ou suficiente para que urna situacão social seja identifi- cada como problema: o papel da opinião pública, dos grupos de pressâ;o, especial- mente do grupo mais diretamente afetado pela situacáo, e dos peritos ou especialistas. 0 autor da presente comunicapáo aceita o ponto de vista de que problema social implica não apenas em situacáo que ameace a sobrevivência, o bem-estar e o desenvolvi- mento de seres humanos, considerados in- dividualmente ou como membros de um grupo com experiências e valores próprios, mas também na tomada de consciência, por parte dos componentes do grupo, tanto das condicóes que assim os afetam quanto da exeqiiibilidade e eficácia de medidas desti- nadas a removê-las ou a atenuar-lhes as conseqüências.

Embora as expressóes bem-estar e desan- volvimento sejam extremamente vulneráveis

à controvérsia, há tendencia para se esta- belecer, $ medida que as diferentes popula- @es humanas se integram na teia universal da civilizacáo, conceito cada vez mais gene- ralizado da necessidade de se assegurarem certas condicões mínimas de vida aos sêres humanos-e isto em muitos setores, tais como, por exemplo, as questões de saúde e higiene, nutrisáo, habitacáo e educapáo-e os peritos podem estabelecer com relativa seguranca quais as medidas sem cuja adocão náo haverá probabilidade de se resolverem os problemas.

Pode-se acrescentrar que urna das evidên-

cias da int’egrayáo de urna popula@o humana

na teia universal da civilizacão consist,e no

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$0 da experiência dos indivíduos que os exercem, pela generalidade de seus contem- porâneos. Assim, a opinião pública tende a reffetir a dos peritos ou especialistas, tanto quanto êstes não sejam estranhos ao grupo e os prestigiem os demais componentes.

Dest’arte, o problema social envolve a consideracao tanto de condiqóes materiais, objetivas ou de fato quanto da dejinicão da situa@o por aquêles a quem a mesma afeta.

Nao obstante a relativa uniformidade dos elementos considerados pelos diferentes autores na conceituacão de problema social, a diversidade de orientapão teórica e de ênfase em determinados fatôres impóe a necessidade de exame mais atento das pers- pectivas que têm sido tentadas no seu estudo. 2. Perspectivas Usuais no Estudo dos Pro-

blemas Sociais

Abbott P. Herman classificou as perspec- tivas (“apprmches”) adotadas pelos diferen- tes autores, no estudo dos problemas sociais, em cinco categorias, às quais acrescentou nova perspectiva: a) A perspectiva atomistica b) a perspectiva da desorganizacão social; c) a perspectiva da defasagem cultural (“cultur- al lag”) ; d) a perspectiva do valor social; e) a perspectiva da comunidade; e f) a perspec- tiva da conjuntura e mudanca social. (2)

a) A perspectiva atomLstica. Quer os autores se dediquem ao estudo simultâneo de urna multiplicidade de problemas, quer se especia- ljzem no estudo de urna só categoria de problemas sociais, essa perspectiva carac- teriza-se pela ênfase que põe na identifica@0 de causas específicas e múltiplas e na pre- conizacão de tratamentos igualmente especí- ficos para cada categoria de problemas, ainda que se reconheca formalmente o entre- lacamento e a interdependencia dêstes.

A principal contribuicão dêsses estudos reside em seu caráter altamente informativo e no seu impacto sobre as explicacões sim- plistas e monocausais que prevalecem entre os leigos.

Sus principal limita@0 está, justamente, em seu caráter atomístico, ou seja na subes- timacão dos fatares ou denominadores

comuns dos diferentes problemas e do condi- cionamento circunstancial ou histórico dês- tes.

b) A perspectiva da desorganizacáo social. Os problemas sociais são vistos como índices de condicão ou processo social mais profundo -o de desorganizacáo-que consistiria no afrouxamento do poder de motivacao ou controle das normas sociais sôbre os mem- bros do grupo.

A principal contribuicáo dessa perspectiva tem sido chamar a atencáo para a relargo entre os problemas sociais e outros elementos da conjuntura social, bem como, especial- mente, para o entrelacamento dos problemas sociais, quando, em geral, as próprias enti- dades que tratam de diferentes problemas sociais o fazem como se êstes fôssem indepen- dentes uns dos outros.

Para o autor da presente comunjcacáo, a principal limita@o dessa perspectiva está em dar a mesma ênfase aos problemas de conduta e aos problemas que resultam do abandono de normas tradicionais, quando muitos problemas das sociedades modernas resultam, antes, da persistência de normas e práticas tradicionais, num mundo ao qual nao mais se aplicam e que está, portanto, a exigir a sua revisao e o desenvolvimento de normas mais adequadas às condicóes vigen- tes.

c) A perspectiva da defasagem cultural (‘*cultural lag”). Devido à inven@io ou à descoberta, certas partes da cultura estáo mudando mais ràpidamente que outras. Dado o entrela$amento entre os diferentes aspetos da cult.ura, essa defasagem, mais cedo ou mais tarde, resulta em desajusta- mentos.

Embora, em outras épocas, fatôres não- mecânicos (por exemplo, nocóes como a da esfericidade da terra) possam ter desempe- nhado importante papel como agentes de mudanca social, a partir do século XIX as inven@es mecânicas passaram a constituir os principais impulsores da mudanca.

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o ajustamento às novas condi@es que daí resultaram.

0 exemplo clássico 6 o da introducáo de máquinas mais complexas, nas fábricas, em fins do século XIX, coincidindo com a ex- pansão das cidades, com o aumento do volume de trabalhadores e com o absenteísmo do capitalista. Urna das conseqüências da introducáo das novas máquinas foi o au- mento da proporcão de acidentes no trabalho; porém a sorte dos acidentados continuou a depender de relacóes diretas e informais com o patrão, que estava ausente ou tinha o caráter impessoal de urna corporacão de sócios ou acionistas. Houve, assim, lapso, defasagem, demora ou hiato no desenvolvi- mento cultural, 0 gua1 sòmente terminou com o advento da legisla@0 relativa aos acidentes no trabalho e com a difusa0 de medidas de seguranca e prevencão.

h principal vantagem dessa perspectiva está em a mesma chamar a aten@0 para a importancia de sit,ua@es novas, ligadas ao desenvolvimento industrial, e para o papel das inven@es em geral e, especialmente, das que afetam a producáo, a locomocão e a comunicacao, no desenvolvimento dos pro- blemas sociais, com a incorporn@o, à Socio- logia, de urna linha de pensamento que até então vinha recebendo contribui@es quase exclusivamente da corrente marxista.

A teoria deixa claro que os problemas nao decorrem das mudancas por si, mas sim das resistênciss ou inadaptacões às novas con- dicóes.

A principal limitacáo da teoria está, porém em ela tratar as invencóes e as mu- dancas conseqüentes como se fôsse m inde- pendentes dos desígnios humanos e subesti- mar o papel das atitudes e valores, enfim, dos elementos da cultura nao-material, na determina@0 da revisão e da reorganizacao das relapóes humanas em funcáo do desen- volvimento de novas condicóes. Em geral, as novas condicães criadas pelas invencóes mecânicas dáo nova atualidade à discussáo sobre a coerência dos mores, como situacóes de fato ou entre si.

d) A perspectiva do valor social. Como a

expressáo indica, essa perspectiva consiste em dar-se ênfase ao papel dos valores sociais, isto é, das normas, ideais e crencas da comu- nidade, tanto na identifica@ como na causacão e persistencia dos problemas sociais (3).

As atitudes ou juízos de valor sáo as mesmas normas, ideais e crencas, em sua expressão individual; sáo, enfim, o aspeto individual ou subjetivo das normas, ideais e crencas.

Segundo Richard C. Fuller, os valores sociais ou os juízos de valor interferem nos problemas sociais de tres modos: 1) deter- minam o que é e o que nao 6 problema; 2) contribuem para a existencia do problema, pela competi@o entre valores ou preteri@ío de uns por outros, na conduta; e 3) o acôrdo ou desacôrdo quanto à solucáo depende da concordânciu ou do conflito entre os valores aceitos pelos componentes da comunidade.

A principal contrihuicáo dessa perspectiva consist,e em ela chamar a nt,en@o para a importancia das opiniões e atitudes dos indivíduos ou grupos envolvidos no pro- blema.

Ao mesmo tempo em que dá ênfase aos aspetos cult,urais e subjetivos do problema, compensando, em certo sentido, o exagero da teoria da defasagem cultural, essa pers- pectiva tende para o exagero oposto, com a subestimayáo dos fatôres externos ou situa- cionais.

e) -4 perspectiva da comunidade. Trata-se mais de um método de estudo do yue prò- priamente de urna posicão teórica. Consiste no exame dos problemas à luz do estudo global da comunidade.

E perspectiva oposta à atomfstica e na qual se tira proveito das hipóteses implícitas nas teorias da dcsorganixacão social, da defa- sagem cultural e do valor social.

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da comunidade com o mundo humano exte- rior.

f) A perspectiva da conjuntura e mudanca social. Abbott P. Herman propóe esta nova perspectiva, partindo dos seguintes pressu- postos:

“1. Se os problemas emergem do meio cultural

mais amplo, segundo insistem os sociólogos, o esame dêsse meio deve ser a primeira tarefa do cientista social. Dêsse esame dever surgir um conhecimento fundamental para a análise dos problemas.

“II. Essa compreensáo, ainda que náo possa ser completa, no atual estágio das ciências so- ciais, deve proporcionar maior penetra@0 na in- terrelacáo dos problemas e tornar patente a necessidade de um tratamento unificado e coor- denado de suas raízes comuns.

“III. Esse conhecimento deve fornecer os da- dos indispensáveis para o planejamento a curto e longo têrmo que, embora com resistência, vai sendo reconhecido como base segura para a polí- tica local e nacional.” (4)

Quanto ao conceito de problema social, assim 0 expóe: “Os problemas sociais surgem

ou se agravam quando urna sociedade cris

ou aceita instrumentos de mudanca e, no entanto, falha na compreensão, antecipacáo

ou trato das conseqüências dêsse ato” (5).

A perspectiva preconizada por Abbott P. Herman caracteriza-se pela ateryão dada

aos fatôres situacionais ou $ conjuntura social. Segundo o ponto de vista dêsse autor, compete aos sociólogos a tarefa de perceber

o problema em sua fase mais incipiente pos-

sível, a fim de concorrer para que se tome consciência da situacáo o mais cedo que se puder.

A principal contribuicão dessa perspectiva está em ela tentar fundamentar urna atitude não apenas post factum, mas também preven- tiva, em relacão aos problemas sociais.

A principal restricão que se pode fazer à aceita@0 da perspectiva de Herman por estudiosos dos chamados países subdesen- volvidos deriva do fato de que êle, perten- cendo a urna sociedade nacional altamente industrializada e desenvolvida, tende a ver, tal como os demais autores na mesma condi-

Cáo, os problemas sociais como situa@es de deterioracão-de fato ou potencial-de con- dicões sociais já alcancadas, enquanto que os problemas dos palses subdesenvolvidos decorrem, antes, de náo terem atingido as mesmas condi@es ou, mesmo, condicóes mais modestas.

3. Urna nova perspectiva no estudo dos Pro- blemas Xociais: a do desenvolvimento sócio-econo”mic0.

Antes de enunciar a nova perspectiva, convém lembrar que cada urna das perspec- tivas apresentadas no tópico anterior integra e supera, ao mesmo tempo, a precedente, sem invalidá-la completamente, visto que cada urna delas é válida em determinado plano. Assim, cada perspectiva implica antes numa complementacáo e enriquecimento das ante- riores, que pròpriamente na sua inteira nega- qáo.

0 mesmo espera o autor da presente comu- nicacño que se dê com a perspectiva a ser formulada, isto é, que ela incorpore e, ao mesmo tempo, em certo sentido, complete as anteriormente expostas.

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cr&nica, se verifica que, objetivamente, ela tem melhorado.

No Brasil, por exemplo, especialmente no Sul, a rêde de unidades tem aumentado num ritmo mais acentuado que o do aumento da populacão; as condicóes sanitárias melhora- ram consideràvelmente, nas últimas décadas; com a urbaniza@0 e a industrializacáo, parte considerável da massa trabalhadora atingiu psdráo de vida mais aceitável ; e náo obstant)e essas e outras conquistas nunca se reclamou tanto como agora a respeito dos problemas educacionais, dos problemas de saúde e higiene e dos problemas relacionados com o padráo de vida.

Prov$velmente, deve-se levar em conta, ao se considerarem os problemas dos países subdesenvolvidos ou, melhor, em desenvol- vimento, o fato de que se, de um lado, êles váo sendo atingidos súbita e macicamente pelos mesmos fatares de mudanca que têm atuado nas sociedades industrializadas, de outro, êles contam, para 0 equacionamento dos próprios problemas, náo apenas com a sua própria experiência, mas também com o conhecimento de como se processaram as mudancas, quais os problemas que surgiram, as medidas adotadas e suas conseqiiências, quando os países mais avancados passaram por situacões análogas.

As condicóes já atingidas pelos países mais avancados sáo gabaritos de comprovada exeqiiibilidade para os povos dos países chamados subdesenvolvidos, o que náo quer dizer que náo devam ser adaptados às pecu- liaridades e à experiência de cada qual.

0 sociólogo Robert E. Park já havia chamado a aten@0 para o fato de que “0 interêsse do público pelos problemas da comunidade surge quando dois movimentos sociais se unem-o movimento pelo bem- estar e o movimento pela eficiência” (6). Em outras palavras, a preocupa@0 com os problemas sociais tende a acompanhar a preocupacáo com a elevncáo do padrão de vida e da produtividade.

Também já se disse que urna das principais preocupacóes da civilizapáo contemporânea é diminuir as duas formas tradicionais de

desigualdade entre os Gres humanos: a de conhecimentos e a de riqueza material (7). Os países subdesenvolvidos ou em desen- volvimento váo-se tornando cada vez mnis sensíveis a essas aspiracóes humanas que, difundidas das sociedades mais industriali- zadas e desenvolvidas, os atingem simul- tâneamente com o próprio processo de industrializa@o e desenvolvimento sócio- econamico.

Repita-se, pois, que problema social implica não apenas numa situa@o que ameace a sobrevivência, o bem-estar e o desenvolvi- mento de seres humanos, considerados in- dividualmente ou como membros de um grupo com experiências e valores prijprios, mas também na tomada de consciência, por parte dos componentes do grupo, da exeqüi- bilidade e eficácia de medidas destinadas a remover as condicóes que os afetam ou a atenuar as conseqüências das mesmas.

Em outras palavras, sob o ponto de vista sociológico, o problema social implica em duas ordens de condicões: 1) condicões materiais, objetivas ou de fato; e 2) condicóes sócio- culturnis.

Assim como há envolvimento do mundo objetivo pela cultura, também há interpene- tracáo ou oaerlapping entre as duas ordens de condicóes.

A primeira ordem de condicóes com- preende todo e qualquer fator que tenda a limitar a duracáo da vida humana ou a fazê- la decorrer em situacáo de frustracáo, seja por insatisfacáo das necessidades funda- mentais de cada indivíduo, seja por inapro- veitamento de suas aptidóes.

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No entanto, apesar da frustra@0 que a mortalidade infantil ocasiona, principal- mente aos pais das criancas, e da angústia e dos temores que tendem a acompanhar a situacáo, urna taxa elevada de óbitos de criancas pode-se repetir indefinidamente, através das geracões, sem que os componen- tes do grupo sequer vislumbre m a possibili- dade de que as coisas se passem de outro modo. As próprias crencas, os folkways e os mores do grupo estaráo de tal modo ajustados às condicões torrentes que ajudaráo seus componentes a aceitar os óbitos infantis como algo natural e inexorável que escapa ao âmbito de poder dos sêres humanos. Assim, a crise produzida pelos óbitos de criancas reduz-se ao mínimo, e mínima será a preocu- pa@ío com 8 situacáo, em relacão à qual as reacões já estaráo padronizadas e incorpora- das à tradicáo.

0 estranho que provém de outro grupo cujas condicóes já permit,iram que se redu- zisse a taxa de mortalidade infantil talvez se angustie mais com a situacáo que os próprios componentes do grupo afetado. Conseqüen- temente, poderá estar êle mais inclinado a adotar medidas imediatas a fim de remo&la ou atenuar seus efeitoa, o que lhe parecerá incompreensível e lhe aumentará a amargura, especialmente se estiver desarmado de con- hecimentos sociológicos e antropológicos.

As condicóes sócio-culturais compreen- dem o nível de desenvolvimento econômico, t,ecnoIógico e científico do grupo, suas cren- cas, valores e atitudes, o ritmo de mudanca a que está sujeito e a freqüência dos contnc- tos e, conseqüentemente, da comunicacáo com outros grupos, especialmente com grupos cujas condicões contrastam com as suas.

Assim, a tomada de consciência de urna situacão-problema por parte do grupo pode resultar quer do agravamento da própria situacáo, no sentido do aumento na propor- cáo dos componentes do grupo diretamente alcancados por suas conseqüências, quer de transformacóes operadas no próprio grupo e que o levem a considerar intolerável urna situacáo à qual até entáo se achava acomo- dado.

Portanto, embora freqüentemente se as- socie a nocáo de problema social à de desor- ganixapZo social, com igual razáo se poded associá-la à de desenvolvimento sócio-econô- mico, de desenvolvimento, progresso ou pros- peridade social.

Nas sociedades em desenvolvimento, os problemas sociais náo raro constituem, ao mesmo tempo, reflexos do desenvolvimento e pontos de estrangulamento dêsse processo, como é, por exemplo, o caso dos graves pro- blemas de educacáo no Brasil atual.

Com efeito, parece ser em sociedades em processo de rápida transformacáo, nas quais a industrializa@o e a urbanizacáo vão-se acentuando cada vez mais como expressóes de mudanca na infraestrutura social, que os problemas sociais se tornam mais agudos. Situacões crônicas, que sempre caracteriza- ram as sociedades subdesenvolvidas, trans- formam-se, pouco a pouco, em focos da consciência e da atencáo coletivas e passam a ser suportadas com crescente impaciência.

IYo desenvolvimento de um problema social, podem-se, pois, discriminar duas fases principais: A primeira é aquela em que o problema já existe como um conjunto de condicões ou fatôres cujas conseqüências sáo frustradoras e, portanto, indesejáveis para os componentes do grupo; mas em que êsses componentes náo têm qualquer cons- ciência da possibilidade de contrôle racional da situacáo, náo vislumbrando plano algum de ayáo sistemática em relacáo à mesma. A tomada de consciência da situacáo-problema constituirá 0 primeiro passo para a sua even- tual solucáo e inaugurará a segunda fase em sua história natural.

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Os sociólogos têm discutido, por exemplo, a importância da opiniáo pública, da opiniáo dos peritos e da posicão dos grupos de pressáo na identifica@0 dos problemas sociais.

Sôbre a opiniáo dos peritos e a opiniáo pública, deve-se considerar que a voz isolada dos peritos e a voz dos peritos com o côro da opiniáo pública representam dois estágios diferentes do problema. Quando a opiniáo pública delega aos peritos a tarefa de resolver o problema, este eleva-se ao nivel de pro- blema técnico-científico.

Quanto à posiCáo dos grupos de pressáo, parece inevitável que em tôrno de qualquer problema social se formem duas torrentes extremas-a dos que têm interêsse investido no status quo e a dos interessados imediatos na reforma social-al6m dos indiferentes e dos elementos de posiqão moderada.

De qualquer modo, o problema social existe (urna vez aceita a conceituacáo ex- posta), na medida em que a situacáo-pro- blema tem, em vista de suas conseqüências, poder de motivacáo para desencadear um movimento social no sentido de removê-la ou de lhe atenuar os efeit,os. Assim, em certo sentido, a proporcáo dos que se preocupam com a situacáo é medida da extensáo do problema; e a capacidade de influência eco- nômica, política e cultural dos que optam por determinada mudanca ou solucáo 6 critério para se prognosticaï 0 êxito ou 0 fracnsso, a imin&ncia ou o provável retarda- mento desta.

Todo reformador social, seja êle perito, moralista ou missionário, percebe que o primeiro passo decisivo em pro1 de sua causa é a conquista de novos adeptos, isto 6, a propagacão a outros indivfduos da consciên- cia que êle já adquiriu em rela@o à situacáo- problema. Enquanto essa propaga@0 ou transferência de consciência náo se der, o problema será individual ou, quando muito, de um grupo de especialistas ou de sectários, e náo, pròpriamente, problema social. 4. Problema Social e Problema de InvestigacEo

Embora problema social e problema de investiga&0 empZrica sejam, em princípio,

dois conceitos distintos, relativos a preocupa- @es que se dirigem a dois planos diferentes de atividades e motivam operacóes cujas objetivos imediatos sáo táo diversos-mu- danca social consciente ou procurada e co- nhecimento da realidade-há entre ambos mais de um ponto de contacto, como produ- tos e ingredientes da mesma conjuntura sócio-cultural.

Todo problema social é problema para investigucáo, ainda que a humanidade dedi- que aos problemas sociais apenas urna parcela de seu esfôrco de pesquisa.

No último século, os conhecimentos cientf- ficos e as invencóes-produtos do espírito de investigaqáo do homem-tanto contribuíram para a solucáo de velhos problemss, armando o homem de novos recursos, como suscitaram novos problemas, seja pela desigualdade de fruicáo dos heneffcios resultantes, seja pelo impacto exercido sôbre a estrutura social, com o aparecimento de novos pontos de atrito e tensáo nas relacões humanas.

illguns soci6logos consideram o estado permanente de crise em que passaram a viver as sociedades européias, com o advento da economia capitalista e, em especial, com a Revolucáo Industrial. o principal fator do desenvolvimento da Sociologia, que seria, assim, como que o instrumento de intros- pecCáo das modernas sociedades em cons- tante mudanca e desequilíbrio (8).

Mesmo deixando-se de lado o período mais remoto-ou menos próximo-do desen- volvimento da Sociologia, já é por si bastante significativa a constatacáo de que o moderno movimento de pesquisas sociais tomou vulto, tanto na Europa como nos Estados Unidos, a partir de fins do século passado, com as tentativas para transferir a atitude científica e o espirito de investigapáo que se vinham mostrando táo fecundos, em relaqão aos fenômenos naturais, para o campo dos pro- blemas sociais.

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mesma ordem de preocupacao conduziu, mais tarde, Charles Booth, Rowntree, Bow- ley e outros a realizar investigacóes, que também se tornaram famosas, sôbre as con- dicóes de vida da camada menos favorecida da populacáo, em Londres e outros pontos da Inglaterra.

Nos Estados Unidos, o movimento dos levantamentos sociais (social szcrveys) tam- bém tomou impulso a partir de fins do século passado, resultando, ràpidamente, num a- cêrvo de milhares de estudos, uns de âmbito mais geral, outros de ambito mais específico. Assim, até 31 de dezembro de 1927, segundo a Bibliography of Social Surveys, de Eaton and Harrison (9), o total dos levantamentos efetuados nos Estados Unidos se elevava a 2.775, dos qwis 154 gerais e 2.621 especiali- zados.

Na América Latina, embora mais recente, o movimento vem-se expandindo rapida- mente nas últimas décadas, sendo já apre- ciável o acêrvo de levantamentos efetuados no México, na Guatemala, no Chile, na -4rgentina e no Brasil.

No Brasil, os levantamentos têm-se multiplicado ràpidamente, nos últimos anos, especialmente a partir de 1936, quando se realizou, em Sáo Paulo, 0 primeiro levanta- mento sistemático do padráo de vida de um grupo de famílias de kabalhadores (10).

A partir dêsse estudo, o fluxo de levanta- mentos tornou-se ininterrupto, mas foi de- pois da última guerra mundial que o movi- memo ganhou ritmo acelerado. Instituicóes universitárias, reparticões públicas, associa- coes de classe, instituicóes de assistência social, escritórios comerciais especializados, comissóes e instituicóes de pesquisa, enfim toda uma multiplicidade de entidades sociais tem contribuido ativamente para o movi- mento.

Problemas relativos ao padráo de vida e à producáo, ao abandono de menores e à de- linqüência juvenil, à educa@o em seus dife- rentes níves e ramos, à saúde e à mortalidade, têm sido objeto de levantamentos sistemáti- cos; e nao poucos dêsses tornaram-se pontos

de partida para a instituicáo de servicos permanentes de coleta e análise de dados.

Assim, por tôda parte, os levantamentos sociais váo-se generalizando como instru- mentos, náo apenas para se retratar objetiva- mente a realidade, mas também para se aferir a mudanca-o agravamento ou a ate- nua@o dos problemas e, conseqüentemente, a inocuidade ou a eficácia das medidas postas em prática.

Segundo o depoimento de Pauline V. Young, “cinqüenta anos de incessantes le- vantamentos de cada aspeto da vida em comunidade, com a participa@0 tanto de investigadores profissionais como do público leigo-deram fundamento à conviccáo de que fatos cientìficamente colhidos a) deli- neiam os problemas sociais; b) constituem o único ponto de partida seguro para o plane- jamento social; c) constituem meio eficiente de munir-se o público das informa$íes e dos conhecimentos necessários ao funcionamento do regime democrático; e d) ajudam a mobilizar as fôrcas da comunidade para a acáo conjugada” (11).

Embora o levantamento social tenha tido e continue a ter importante papel no desen- volvimento da Sociologia, é preciso, de um lado, salientar o caráter inter-disciplinar que o mesmo tende a assumir e, de outro, a distincáo entre levantamento social e investi- gacão social pròpriamente dita.

No levantamento social, dá-se ênfase à coleta e sistematiza@0 de dados para a utilizacao imediat.a num plano de acáo sôbre as condicóes que vigoram numa localidade ou área geográfica bem definida. 0 levanta- memo social tende, pois, a ser um estudo eminent,emente descritivo.

A pesquisa ou investiga@0 social (social research) visa a contribuir para o carpo mais abstrato de conhecimentos que integram o sistema conceitual, teórico e metodológico das ciências sociais.

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que persuasivo, 0 levantamento social con- l3sse levantamento permitirá entrever trasta tanto com a literatura planfletária até que ponto o problema já impregnou as como os estudos de gabinete, em que os pro- consciências, fwa do círculo restrito dos blemas sã;o, freqüentemente, apresentados especialistas; e, ao mesmo tempo, à medida sob forma dogmática ou sob forma sbstrata, em que o relatório fôr sendo divulgado, cons- servindo os dados concretos, quando recebem tituirá contribuicão para um movimento, qualquer atencâo, apenas para ilustrar tanto no sentido de eliminar as resistências prenocões ou generaliza@es apriorísticas. e aumentar a receptividade a um ramo de

No presente Seminário, seráo apresentados ensino profissional de cuja importância os os resultados de um levantamento realizado participantes dêste Seminário estão convic- tos, como também no de elevar o padrão por pessoal especializado, sôbre o ensino da de organizacáo e eficiência das instituicóes enfermagem no Brasil. que ao mesmo se dedicam.

REFERtiNCIAS (1) Case, Clarence Marsh: “A definition of Social

Problems”, em Alfred McClung Lee and Elizabeth Briant Lee, Social Problems in Ameka: A Source Book, Henry Holt & Co., New York, 1949, pág. 10.

(2) Herman, Abbott P.: An Approach to Social Problems, Ginn & Co., Boston, 1949. (3) Guber, John F. y Harper, Robert A.: Prob-

lems of Ameritan Society : Values in Con- flict, Henry Holt & Co., New York, 1949. (4) Herman; Abbott P.: An Approach to Social

Problems, Gin & Co., Boston, 1949, pág. 50-51.

(5) Herman, Abbott P.: An Approach to Social Problems, Gin and Company, Boston, 1949, pág. 51-52.

(6) Young, Pauline V.: Scielzti& Social Surveys ancl Research, 3a. ediqão, Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, N. J., 1956, pág. 21.

(7) Gillin, John Lewis F¿ al: Social Problems, 3a. ediqáo, D. Appleton-Century Com- pany, New York, 1943, pág. 19.

(8) Freyer, Hans: Introducción a la Sociolo- gía, Ediciones Nueva Epoca, S. A., Madrid, 1939.

(9) Young, Pauline V.: Scientifc Social Surveys and Research, 3a. ediqáo, Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, N. J., 1956, pág. 25. (10) Lowrie, Samllel Harman: Pesquisa de Padrüo

de Vida das Familias dos Operários da Limpeza Pzlblica da Municipalidade de São Paulo, Departamento de Cultura, SLo Paulo, 1938.

Referências

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